23.07.2010 | 00:49
7X PERIFERIA
Marcella Huche, de Paulínia *
"Agora é irreversível", definiu Jeferson De, diretor de Bróder, comentando mais cedo nesta quinta (22) o movimento de diretores provenientes de favela trás das câmeras. E é o que coroa o III Festival Paulínia de Cinema, que entregou nesta noite sete Meninas de Ouro a 5x favela, agora por nós mesmos e outros quatro para Bróder, ambos dirigidos por diretores provenientes de favelas e periferias do país. Malu de bicicleta chega em terceiro, com três prêmios. Entre os documentários, Lixo extraordinário e Leite e ferro levaram dois prêmios cada, decepcionando quem esperava festa para Uma noite em 67. O curta-metragem Eu não quero voltar sozinho, de Daniel Ribeiro, brilhou quatro vezes no palco do Theatro Municipal de Paulínia. "É irônico... Um filme gay e eu levo tantas Meninas para casa", brincou o diretor. Antes da premiação foi exibido, em pré-estreia, 400contra1, de Caco Souza, que conta a história de William da Silva Lima, precursor do Comando Vemelho, aqui interpretado por Daniel de Oliveira, presente no encerramento.
5x favela, agora por nós mesmos, filme de cinco segmentos, dirigidos por Manaira Carneiro, Wagner Novais, Rodrigo Felha, Cacau Amaral, Luciano Vidigal, Cadu Barcellos e Luciana Bezerra, arrematou os prêmios de Melhor Longa de Ficção na opinião do Júri Popular e Oficial, além de Melhor Trilha Sonora, Montagem, Roteiro e Ator e Atriz Coadjuvante. "Depois de tantos prêmios, é hora de quem gostou do filme falar para os amigos, parentes, para conseguirmos público porque é aí que o cinema se completa", convoca Renata de Almeida Magalhães, uma das idealizadoras e produtoras do projeto, ao lado de Cacá Diegues.
Bróder ficou com o prêmio da crítica e ainda Melhor Direção de Arte, Som e Fotografia. "Aprendi a respeitar a crítica com Paulo Emílio Salles Gomes, meu professor na USP. É com muita honra que recebo esse prêmio e queria dedicar à minha mãe, que colocou um marcapasso há pouco tempo e não está aqui porque eu não queria testá-lo", brincou De na primeira vez que subiu ao palco, para receber o prêmio da crítica.
Leite e ferro, primeiro longa de Cláudia Priscila, levou Melhor Direção e Melhor Documentário pelo Júri Oficial, e a diretora, que tinha deixado a sala do teatro depois do primeiro prêmio, subiu desbocada de alegria ao palco, parecendo, ela mesma, descrer de sua festa. A emoção da exibição continuou na premiação de Lixo extraordinário, de João Jardim, Lucy Walker e Karen Harley (Melhor Documentário pelo Júri Popular e Prêmio Especial). O protagonista Tião Santos rolou lágrimas ao sublinhar que é a primeira exibição e premiação nacionais. "Esse prêmio vale mais do que os internacionais porque aqui é o nosso país e não tem lugar melhor".
O interruptor do festival foi ligado com a exibição da cópia restaurada de O beijo da mulher aranha, de Hector Babenco, homenageado nesta terceira edição. Do diretor, foi projetado ainda Coração iluminado e Pixote in memmorian, de Felipe Briso e Gilberto Topczewski, que revisita a história do garoto de periferia retratado por Babenco em 1981 em Pixote, a lei do mais fraco.
A heterogeneidade marcou esta terceira edição do Festival Paulínia de Cinema, que exibiu comédias românticas e dramas sociais, além de documentários de alto nível. Outro acerto foi a mostra infantil, com destaque para a aventura Eu e meu guarda-chuva, de Toni Vanzolini. Houve, contudo, algumas decepções, como o equivocado As doze estrelas, de Luiz Alberto Pereira, e a comédia romântica Dores & amores, de Ricardo Pinto e Silva, totalmente deslocados do restante da seleção — e amputados da premiação. Vinte e duas mil pessoas estiveram nas sessões competitivas do evento, entre sexta (16) e quarta (21), um número expressivo para a terceira edição de um festival no interior de São Paulo, cuja curadoria parece ter conseguido sua meta — equilibrar público e qualidade autoral.
Confira a lista de todos os premiados:
Júri Popular
Melhor Curta-Metragem Regional: Meu avô e eu
Melhor Curta-Metragem Nacional: Eu não quero voltar sozinho
Melhor Longa-Metragem Documentário: Lixo extraordinário
Melhor Longa-Metragem Ficção: 5x favela, agora por nós mesmos
Júri Oficial de Curtas-Metragens
Melhor Roteiro de Curta Regional: Depois do almoço
Melhor Roteiro de Curta Nacional: Daniel Ribeiro, por Eu não quero voltar sozinho
Melhor Direção de Curta Regional: Jonas Brandão, por Depois do almoço
Melhor Direção de Curta Nacional: César Cabral, por Tempestade
Melhor Curta Regional: Depois do almoço
Melhor Curta Nacional: Eu não quero voltar sozinho
Júri da Crítica
Melhor Longa: Bróder
Melhor Curta: Eu não quero voltar sozinho
Júri Oficial
Melhor Figurino: Marcia Tacsir, por Densenrola
Melhor Direção de Arte: Alessandra Maestro, por Bróder
Melhor Som: Ricardo Reis e Miriam Biderman, por Bróder
Melhor Trilha Sonora: Guto Graça Melo, por 5x favela, agora por nós mesmos
Melhor Montagem: Quito Ribeiro, por 5x favela, agora por nós mesmos,
Melhor Fotografia: Gustavo Hadba, por Bróder
Melhor Roteiro: Rafael Dragaud, por 5x favela, agora por nós mesmos
Melhor Ator Coadjuvante: Marcio Vitor, por 5x favela, agora por nós mesmos
Melhor Atriz Coadjuvante: Dila Guerra, por 5x favela, agora por nós mesmos
Melhor Ator: Marcelo Serrado, por Malu de bicicleta
Melhor Atriz: Fernanda de Freitas, por Malu de bicicleta
Prêmio Especial: Lixo extraordinário
Melhor Direção de Documentário: Cláudia Priscila, por Leite e ferro
Melhor Direção de Ficção: Flávio Tambellini, por Malu de bicileta
Melhor Documentário: Leite e ferro
Melhor Ficção: 5x favela, agora por nós mesmos
Foto: Aline Arruda / Divulgação
* Marcella Huche viajou a convite da organização do festival
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