A chacrete, de frente | LABORATÓRIO POP


CINEMA

14.04.2010 | 22:44

A CHACRETE, DE FRENTE

Marcella Huche



Não se fazem mais bundas como antigamente. Pelo menos não como o derrière voluptuoso de Rita Cadillac, a mais famosa das chacretes, retratada no documentário de Toni Venturi, Rita Cadillac — A lady do povo, estreia desta sexta (16). Em tempos fartos de Mulheres Melancias, Venturi desnuda Rita — com todo o respeito — hoje uma avó consciente das portas que seu corpo despudoradamente lhe abriu, de senso crítico empinado e franqueza tonificada. “É o retrato do crepúsculo de uma celebridade”, sintetiza Venturi, que ganhou a confiança plena da loira para tocar em assuntos delicados.

 

 

A musa e seu mito, contudo, não povoaram os sonhos de Venturi, que não estava no Brasil no auge da forma de Rita, no programa do Chacrinha. “Morei no Canadá justamente entre 1975 e 1984. Definitivamente, as minhas fantasias foram outras”, conta o diretor, que se interessou pela personagem a partir do filme Carandiru, de Hector Babenco, em que a ex-chacrete faz um show no presídio, engajada numa campanha pró-camisinha. “Marquei um encontro com ela e o que vi foi uma mulher sem máscaras, madura”, lembra. “Se tivesse me deparado com uma figura montada, teria desistido do filme na hora. Mas estava ali a Rita de Cássia, estupefata pelo convite, ligeiramente desconfiada”.

 

 

O diretor de Cabra-cega, Latitude zero e O velho apostou na cumplicidade para minar o bumbum de mármore lapidado por Rita nesses 30 anos de carreira. “Não gosto de cultivar o mito”, explica Venturi. “É algo que perpassa minha cinematografia. Quero mostrar mulheres batalhadoras, de personalidades fortes”. A sintonia de Rita e Venturi foi das melhores. “Quando terminei de editar o filme, liguei para a Rita, para que ela visse o filme e desse o aval final”, conta, lembrando fascinado da resposta da dançarina. “Ela me disse que queria vê-lo comigo e o público, que o que tivesse feito ela comprava. Sério, quantas pessoas têm essa coragem?”.

 

 

A Rita sobra esse tipo de desenvoltura. “Exatamente por essa consciência de si, ela volta no tempo sem amarguras, sem ressentimentos”, analisa Venturi. No documentário, a dançarina cozinha feijoada para a neta, ajoelha-se perante o talento de Chacrinha, lembra dos tempos enfurnada num colégio de freiras, monta a Cadillac em frente das câmeras, chora ao lembrar do primeiro filme pornô e contém as lágrimas quando assume pela primeira vez o tempo de prostituição.

 

 

A chacrete mais bem-sucedida, julgada pela frente e pelas costas, para além do derrière aprumado, carrega a alcunha de Lady do povo. “Isso é incrível”, admira Venturi. “Num país de pseudo-pornô embaixo de lençóis, como o BBB, de bundas penduradas nas bancas de toda esquina, nessa sociedade conservadora, moralista, católica, é preciso mostrar essas contradições”. Mas Rita faz favor empinar a ambiguidade — e outras coisas mais. “Quando morrer, quero que me enterrem de bruços para que o povo me reconheça”.

 

 

Outras mulheres esperam Venturi em seu caminho. O próximo filme do diretor já foi rodado e está em pós-produção. Estamos juntos, com Leandra Leal, conta a história de uma médica que trabalha num hospital público de São Paulo e faz trabalho voluntário com o MTST, quase por obrigação. Quando descobre uma doença, contudo, a jovem se envolve com aquela população de uma forma que nunca imaginou. "É um filme de amadurecimento, de passagem", explica Venturi. "É uma ficção muito sensível, antipreconceito".

 


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