03.09.2010 | 12:59
SOBRENATURAL
Marcella Huche
Além da temática, Nosso lar é sobrenatural desde os números que o embalam como “superprodução”. Trata-se da adaptação do best-seller psicografado por Chico Xavier em 1944, com mais de 1,5 milhões de exemplares vendidos. O filme é o mais caro registrado no Brasil — são R$ 20 milhões que pagam a produtora canadense Intelligent Creatures, o consagrado diretor de fotografia Ueli Steiger (Godzilla, O dia depois de amanhã) e a trilha de Philip Glass. Fechando o ano de centenário de Chico Xavier, Nosso lar estreia nesta sexta (3), em mais de 430 salas em todo o país, esforçando-se para se desvencilhar das armadilhas que o gênero propõe.
Wagner de Assis, que comanda seu primeiro longa desde A cartomante (2004), leu o livro, pilar do espiritismo, nos anos 80, e encantou-se com o novo paradigma ali proposto. “É uma nova condição humana, de que existe vida após a morte. A mensagem me tocou muito, principalmente por ter sido psicografada por Chico Xavier”, explica o diretor ao LABORATÓRIO POP. Depois desse primeiro contato, Assis foi amadurecendo carreira e tema para, em 2005, propor a adaptação à Federação Espírita Brasileira (FED).
“A FED foi muito solícita. Aceitou a proposta de fazermos um filme à altura daquela obra, com o maior investimento possível”, aponta Assis, que não é espírita, mas admite que frequentava centros em dias de ações sociais, porque “gostava de olhar aquela movimentação”. Assim começou a história do mais caro filme nacional, bancado somente por empresas privadas. Assis honrou sua palavra com a FED e Nosso lar viajou ao Canadá para vestir túnicas brancas de superprodução.
A mesma empresa que cuidou dos efeitos de Watchmen, olha aqui pela trajetória do médico André Luiz, o espírito que assina o livro, na colônia Nosso lar, que paira sobre os céus do Rio, depois da morte. Monta-se uma muralha de 70 metros em Guaratiba, usa-se uma pedreira de 10 mil metros de Jacarepaguá, mais de mil metros de chroma-key. Espalha-se meia tonelada de gelo seco e fumaça no ar e está (quase) pronto o blockbuster brasileiro.
“Antes de fazer o roteiro, conversei com mais de 100 leitores do livro. Assim comecei a entender as imagens e esse universo, o que a história representava para essas pessoas”, sublinha Assis, que também assina o roteiro, acrescentando que, contudo, não foram essas entrevistas que guiaram feitura da trama. “Nos ativemos à história, que é o princípio do cinema. Contamos uma ficção, tomando cuidado para não cair no maniqueísmo, nem na pieguice emocional”.
Os primeiros quinze minutos de Nosso lar, assim como os finais, são silenciosos, deixando que o espectador se perca em cena, descobrindo tal novo mundo com André Luiz. Mas há também personagens didáticos, que explicam termos da doutrina. “É uma crítica que alguns fazem, mas certa dose de didatismo é perfeitamente normal. Precisamos explicar as leis dessa cidade, isso faz parte da dramaturgia. Em Avatar tinha cenas iguais, e ninguém falou nada”, defende Assis, lembrando ainda se tratar de um filme de época, passado na década de 30. “Os diálogos são diferentes, não se fala mais desse jeito, e isso causa um estranhamento”.
Neste ano do centenário de Chico Xavier, além da biografia do médium, dirigida por Daniel Filho, o filme mais visto do ano, passou por festivais o doc As cartas psicografadas por Chico Xavier. Se por um lado o burburinho beneficia Nosso lar, por outro pode causar desinteresse, pelo repeteco temático. “O tema não se esgota. Esse é o tipo de história que existe desde o início do cinema, só que sempre foi tachado como sobrenatural, de terror. Mas a história de André Luiz é emocionante, e esse é o nosso diferencial”, defende Assis.
O lançamento em 2010, contudo, não foi um evento planejado pelo marketing. “Há pessoas que dizem que coincidências não existem. Não planejamos nada, e o que fica disso é uma grande homenagem ao legado de Chico Xavier”, comemora Assis. Turbinada pelo feriadão de 7 de setembro, a estreia promete ser uma das maiores do ano. Mesmo otimista, Assis prefere esperar antes de planejar os próximo projetos. Mas já no horizonte do diretor se delineia a adaptação de Os mensageiros, segunda parte da série A vida no mundo espiritual, toda psicografada por Chico Xavier. “Essa possibilidade é real. Mas vamos ver como as coisas evoluem...”.
Foto: Divulgação
FORMULE
Postado Por BETO
03.09.2010 | 15:22
Não acredito que o tema se esgote, porque todos os filmes são sobre assuntos diferentes. Embora todos tivessem algo em comum, um foi sobre a vida do Chico Xavier, outro sobre a vida do Bezerra de Menezes, assim como outro filme foi sobre a vida do Cazuza, outro sobre a vida do Herbert Viana. Agora, fazer 15 filmes sobre a vida do Chico Xavier, ou de qualquer outro, pode realmente esgotar o tema.

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