29.07.2010 | 16:10
OS SONHOS DE CHRISTOPHER NOLAN
Marcella Huche
Bem perto de um espasmo cerebral, A origem é dos filmes de ação mais inteligentes que você há de assistir. Daqueles que finalmente dão fim original a um orçamento milionário (US$ 160 milhões). Consagrado por outros arrasa-quateirões de qualidades inegáveis, Christopher Nolan agora invade a aventura solitária mais maravilhosa que desde sempre existiu — o sonho. Cria e manipula a vida onírica, fazendo dos sonhos inevitáveis momentos de solidão, uma experiência compartilhada. É um blockbuster, entretenimento puro. Mas apresenta uma pegada tão intensa e nervosa que, depois de A origem, a trivialidade de encostar a cabeça no travesseiro e dormir já instala o crivo da dúvida. Trata-se do expoente do filme para se ver no cinema, que abusa do seu próprio diapositivo e da experiência compartilhada numa grande ode à sua própria arte.
O hype que cerca A origem desde seu anúncio, com pouquíssimas informações vazadas desde então, é simples e se resume a duas palavras — Christopher Nolan. O homem pensou no magnífico roteiro de A origem ainda bem novo e há oito anos o pôs no papel. Nesse meio tempo, conquistou o coração dos nerds ao fazer de Batman um herói novamente rico e respeitado, primeiro em Batman begins, depois, e ainda melhor, em O cavaleiro das trevas. Antes disso, arrebatou a crítica com Amnésia (2000) e Insônia (2002), ensaios, já em múltiplas camadas, sobre amor, sono, sonho e subconsciente. Era o que precisava para recolher a confiança suficiente para violar derradeiramente tais temas em A origem.
Não satisfeito com o ambicioso roteiro intrincado que criou, o estado de sonho se reproduz também na estética do filme. As imagens, captadas em seis países, não são esfumaçadas ou os sons distorcidos, como os sonhos geral e pobremente são reproduzidos no cinema. A origem aproxima dois universos que desde sempre caminharam juntos — a experiência cinematográfica e a onírica. No escuro, visualizamos imagens cuja completa apreensão perpassa uma montagem em boa parte também inconsciente; o tempo respeita códigos muito específicos da filmografia; enquanto também equilibramos o ver e o não-ver, assistindo projetada na tela a uma história que não sabemos exatamente como controlar, embora passemos boa parte tentando.
Em A origem, o rumo é bastante esse — caímos no meio de uma trama louca. Explicá-la formalmente é muito mais complexo do que entendê-la, senti-la durante as mais de duas horas do filme. O entendimento às vezes está realmente fora do nosso alcance. Os diálogos são rápidos, as cenas ainda mais, a tensão é crescente, mas intuitivamente entende-se o que se passa ali, embora nunca se consiga desvendar a próxima cena.
Para além da ficção científica, de um homem que adentra e manipula sonhos de outras pessoas, outras linhas fortes enlaçam a trama de A origem. O romance, a paranoia e até uma ou duas linhas de comédia são honestamente entregues, embebidas em gêneros consagrados e muito bem realizados. O protagonista é Dom Cobb, um magnificamente atormentado Leonardo DiCaprio, que encara seu destino fatal sem tanto desespero ao rumar numa última missão. O especialista em roubar segredos a mando de grandes industriais é um homem comum: rendido às tentações de escape de sua realidade (que nada tem de tão afugentadora assim), nosso herói desaprendeu a sonhar. Precisa se reconectar com o mundo real, suas falhas e perdas reais; precisa voltar a seu lar.
É exatamente o que lhe oferece o poderoso japonês Saito (Ken Watanabe). A derradeira tarefa de Cobb é, em vez de extrair, plantar uma ideia, sua semente, sua forma mais simplória, para que cresça naturalmente no subconsciente de sua vítima. Nessa última missão, uma manobra arriscada, e considerada por muitos até impossível, Cobb percorre o mundo (e que locações!) atrás da equipe perfeita (como bem fez Nolan ao montar este elenco impecável). Arthur (Joseph Gordon-Levitt) é seu comparsa de confiança, que aqui faz um tipo bobinho ao cuidar da proteção da equipe. Ariadne (Ellen Page) é a arquiteta, que constrói os labirintos surreais dos sonhos e serve também como alicerce contra os devaneios de Cobb. O inglês Eames é o falsificador (Tom Hardy), simplesmente genial ao incorporar pessoas no ambiente dos sonhos, de carisma e deboche encantadores. Yusuf (Dileep Rao) é o químico, responsável pela dopagem da gangue. No elenco há ainda Marion Cotillard, que interpreta Mal, a ambígua mulher de Cobb; Michael Caine, a figura patriarcal Miles; e Cillian Murphy, o herdeiro Richard Fischer — e isso é só o que se pode dizer sem estragar esta experiência surreal.
Nolan manda nesses personagens. Mapeia e prevê cada movimento, gesto e defeito, governa seus subconscientes. Um dos motivos para o sucesso absoluto de A origem é justamente a atenção aos detalhes, que faz com que toda a extravagância surrealista pareça simplesmente... real. Nolan coloca frente a frente o melhor da cinematografia clássica e moderna. Os movimentos de câmera são precisos, e muitas vezes são eles que originam as loucuras a que assistimos. Os efeitos espetaculares ajudam — e, de fato, transbordam os olhos.
Pequeno exemplo desse encontro, além das reverências a gêneros consagrados, como a própria ficção científica e o thriller noir, é a trilha de Hans Zimmer, parceiro de outros filmes de Nolan (Batman begins e O cavaleiro das trevas) — outros colaboradores frequentes participam, como o diretor de fotografia Wally Pfister e o editor Lee Smith. A trilha original foi toda composta em cima do clássico Non, je ne regrette de rien, de Edith Piaf, inclusos aí graves ensurdecedores e outros ruídos um tanto excessivamente perturbadores. O coração desse labirinto é uma história amarga de amor, arrependimento e culpa. Outras repressões psicológicas perambulam a trama e sempre foram questões centrais na cinematografia do diretor. Nolan plantou a ideia, metafísica, brilhante. Mergulhe. Enlouqueça. Sonhe.
Foto: Warner Bros./Divulgação
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