26.08.2010 | 14:27
O LADO DE DENTRO
Marcella Huche
Filmes em episódios carregam a sina de estarem eternamente em desnível. Pendendo para um lado ou para outro, é fácil - e infeliz - apontar dedos, defeitos e delícias, super-expostos pela comparação imediata da sequência de exibição. 5x favela, agora por nós mesmos, filme montado a sete cabeças e cinco episódios, absolutamente não leva esse peso. Com alegria notável, os cinco filmetos passeiam pelas vielas cariocas com tal delicadeza que só poderia mesmo provir de um olhar interior.
A década que abriu com Cidade de Deus - o bisbilhote de Fernando Meirelles sobre uma das principais favelas do Rio - é arrematada agora por 5x favela, agora por nós mesmos, dirigido por jovens crias das tais comunidades. O funk, o tráfico, as pipas, a impunidade, o arroz com feijão - tudo está lá em seu devido lugar, entre becos, barracos e moleques de pé no chão, mas sem os clichês negativos que costumeiramente os acompanham. Esses aqui sabem, realmente, sobre o que estão falando, quem estão representando - eles mesmos. Onde pesa essa responsabilidade, sobra a leveza de culpas e precauções a menos, sobra o bom humor que marca a pobreza brasileira.
O humor, marcante em quatro dos cinco episódios, é uma opção consciente. Não é o esteriótipo do pobre feliz que rege as tramas, mas a certeza de que, como disse o ator Gregório Duvivier, "a pobreza brasileira é trágica ou cômica, nunca melancólica". O roteiro, criado a partir de oficinas audiovisuais nas favelas, já nasceu com o tom cômico, nunca escrachado, assinalado visualmente - está nos olhares, nos planos, nas incongruências, na desconstrução.
Cabem aqui algumas linhas sobre cada episódio, embora 5x favela se sustente muito bem como uma unidade (as histórias não se repetem, são complementares), universal (questões como amizade, solidariedade, superação, ambientadas na favela).
Em Fonte de renda, de Manaíra Carneiro e Wagner Novais, Maicon (Silvio Guindane) se vira como pode para se formar em Direito numa universidade pública - inclusos aí alguns meios pouco legais. O fim é feliz, os diretores o apresentam logo no início. A história é comum, e sobretudo as questões sobre diferenças sociais fluem com naturalidade, sustentadas na ótima atuação de Gregório Duvivier e Guindane. A força de Fonte de renda recai sobre os ombros de Hugo Carvana, no papel de padrinho e referência - embora já gasta - do rapaz.
Arroz com feijão, de Rodrigo Felha e Cacau Amaral, é o mais bem humorado dos episódios. O humor é fruto de um roteiro firme, desenvolvido na Cufa, que passeia por gêneros e traz um arremate surpreendente. Ancorado no drama de sua família pobre, o pequeno Wesley (Juan Paiva), com a ajuda de seu melhor amigo, Orelha (Pablo Vinicius) , tenta descolar uma carne para o cotidiano feijão com arroz da sua casa, em ocasião do aniversário do pai (Flávio Bauraqui).
Um respiro mais dramático e sombrio permeia Concerto para violino, de Luciano Vidigal. Único com desfecho implacavelmente trágico, traz a história de três amigos de infância cujas vidas tomaram rumos opostos. O tráfico é encarado de frente, encarnado na truncada e impressionante figura de Feijão, ex-chefe do tráfico de Acari, hoje líder do AfroReggae.
Em Deixa voar, de Cadu Barcelos, a violência também aparece, mas fica na espreita, sem nunca invadir a ação. A pipa de um amigo cai numa área da favela dominada por uma facção rival e Flávio (Vitor Carvalho) é o único que se atreve a ir buscá-la. Aqui, o tempo cinematográfico é muito bem explorado, levantando a tensão pelas suspensões reflexivas do protagonista. A cada passo leve do garoto, o coração palpita, a tragédia parece iminente.
O último episódio de 5x favela, agora por nós mesmos é Acende a luz, de Luciana Bezerra, uma das mais experientes do grupo. O humor é mais escrachado, remete às comédias italianas e joga com esteriótipos debochados, que beiram o incômodo. É Natal, e parte do morro, justo lá em cima, está sem luz. Um técnico deixa os problemas pessoais no asfalto e se dispõe a subir para resolver o problema que parece insolúvel. A revolta atrapalhada dos moradores opera num crescente, intercalada por momentos de solidariedade luminosa, para voltar a descender numa desorganização felliniana.
5x favela, agora por nós mesmos passou fora de competição em Cannes e levou sete prêmios no Festival de Paulínia, onde foi exibido pela primeira vez no país. A conexão com o público é imediata. Sobretudo para o carioca, que se vê na tela em vários momentos, de um lado ou de outro dessa "cidade partida", aqui colada aos pedaços mais uma vez.
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