26.07.2010 | 14:42
Só A BAILARINA QUE NãO TEM
Marcella Huche
Fernanda de Freitas calçou cedo as sapatilhas. Aos 5 anos começou a criar calos de bailarina, por gosto da mãe. Quase 15 anos depois, a fã de Xuxa percebeu que já tinha passado da idade de ser paquita — e encasquetou que seria atriz. Para desgosto do pai, foi para o Rio, meio sem rumo e bastante sem grana, para voltar duas semanas depois a São José do Rio Preto. Aprovada num teste para Garotas do Zodíaco, justamente para o Planeta Xuxa, em 2000, largou a faculdade de psicologia no segundo ano e as aulas de balé que dava para crianças e voltou de vez à cidade praiana. Foi só quando começou a ter aulas de teatro que percebeu a intensidade do que desejara. Aos 30 anos, com bom currículo na TV e elogios recolhidos no teatro, vive sua primeira protagonista no cinema, em Malu de bicicleta, de Flávio R. Tambellini. A moça encantou Paulínia com sua atuação segura, premiada ao fim do festival.
"Quando vim para o Rio, disse para o meu pai que ia estudar teatro", lembra Fernanda, sublinhando que ser atriz nunca foi um norte em sua vida. "Queria sair do interior... Fiquei duas semanas e voltei, sem dinheiro. O choque de culturas foi muito grande, o jeito de se vestir, as gírias... E ainda tinha a falta da família". Dois anos e muitas cartas depois, foi chamada para um teste. Com Marlene Matos, teve seu primeiro contato com o teatro. "Não tinha ideia que fosse me apaixonar tanto. Logo depois vieram várias inseguranças, até porque entrei de supetão nesse mundo, mas as coisas começaram a acontecer", conta Fernanda, que ligou para o pai no primeiro dia de aula para reiterar sua vocação.
Por começaram a acontecer, Fernanda se refere aos vários convites consecutivos para novelas da Rede Globo, como Coração de estudante (2002), Kubanacan (2003), Como uma onda (2004), Bang bang (2005), Pé na Jaca (2006), Casos e acasos (2008) e Negócio da China (2009). Desde Planeta Xuxa, a moça não para, fazendo ao menos um trabalho na TV por ano, de Malhação à TV Globinho. A movimentação abriu portas para Fernanda no cinema — onde fez Zuzu Angel (2006) e Tropa de elite (2007) — e, finalmente, no teatro. "Fiz um caminho contrário, fui para a TV, para fazer cinema e depois, teatro. Adoro os três", ressalta, mas admite que, para o ator, o teatro é mais importante. "É vivo, quando o ator sobre no palco não tem diretor que fale "corta". É onde dá mais frio na barriga". A peça Ensina-me a viver, de João Falcão, é para Fernanda um divisor. "Dentro da nossa classe, o teatro também é mais respeitado. Consegui começar a enxergar o trabalho de uma forma universal e prazerosa. A partir desse trabalho, onde recebi boas críticas, fui chamada para fazer coisas muito bacanas".
Um desses convites bacanas partiu de Mauro Mendonça Filho, diretor-geral da série S.O.S. Emergência, conta Fernanda. "Ele me disse: Garota, não vou mais te chamar para fazer a mocinha bobinha. Vamos fazer comédia? Vamos desconstruir isso aí?". Outro convite bacana veio de Flávio R. Tambellini, produtor veterano que arquitetava seu terceiro longa de ficção, a adaptação de Malu de bicicleta, romance de Marcelo Rubens Paiva. "Já tinha ouvido falar muito bem dela, na peça Ensina-me a viver. Uma produtora de elenco também a elogiou muito. Juntei referências e resolvi chamar para um teste", lembra Tambellini em conversa com o LABORATÓRIO POP durante o III Festival Paulínia de Cinema, onde Malu de bicicleta fez sua estreia — e Fernanda ganhou a Menina de Ouro de Melhor Atriz. "Ela foi a primeira a ser testada e fiz vários testes. Eu já queria fechar com a Fernanda de cara, mas fiquei querendo ver outras pessoas. No final, voltei para ela, na verdade já sabia que tinha quer ser ela o tempo todo", conta Tambellini, ressaltando as qualidades da moça de cabelos castanhos claros. "A Fernanda é ótima, tem um bom astral, é boa praça, divertida, companheira".
Em 2004, Fernanda de Freitas fez todos os testes para viver Karinna em Cidade Baixa, uma stripper à cata de um gringo no carnaval baiano, no filme de Sérgio Machado. Depois de acertado, ela e o diretor recuaram e o papel principal caiu para Alice Braga. "De lá para cá, amadureci muito profissionalmente, mas também pessoalmente. Era o meu terceiro trabalho na vida como atriz e o primeiro com uma grande personagem", justifica a atriz, ressaltando também a pressão de atuar ao lado de Wagner Moura e Lázaro Ramos, que despontavam justamente naquela época. "Hoje em dia ainda tem a pressão, mas com certeza sei lidar melhor", frisa, alguns momentos depois de apresentar Malu de bicicleta em Paulínia, ainda emocionada com a reação do público e os cumprimentos dos amigos e fãs.
A moça que, invariavelmente, é comparada fisicamente com Deborah Secco, mantém o discurso de maturidade nesse assunto delicado. "É igual apelido. Antes eu ficava tentando mudar a conversa quando as pessoas falavam sobre isso porque mexia com a minha segurança", admite Fernanda. "Eu estava no início de carreira, queria construir algo sólido com o meu esforço e não ser parecida com a Deborah Secco. Na verdade eu tinha medo, era insegurança mesmo. Mas, inevitavelmente, existe uma semelhança, senão não seria tão falado, né?". Mas quem é quente no momento é mesmo Fernanda, que já começa a se preparar para filmar outro longa, A corda bamba, de Eduardo Goldstein. Fernanda é uma equilibrista, mãe da protagonista, uma criança, baseada no livro infantil de Lygia Bojunga. A peça Ensina-me a viver, dirigido por João Falcão, reestreia em São Paulo depois de três anos.
Foto: Leandro Moraes / Divulgação
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