Cinema feito para a televisão | LABORATÓRIO POP


CINEMA

22.07.2010 | 14:30

CINEMA FEITO PARA A TELEVISãO

Samuel Lobo



Em ano de eleições, o reaquecimento de O bem amado, texto escrito pelo dramaturgo Dias Gomes em 1962, soa como um lembrete necessário e oportuno. Levada às telas da Rede Globo no início dos anos 70, por meio de uma novela homônima de sucesso - e reprocessada como minissérie uma década depois, já no ocaso da ditadura militar -a sátira política que eternizou o personagem Odorico Paraguaçu chega aos cinemas pela primeira vez em uma adaptação dirigida por Guel Arraes, responsável por transposições de sucesso como O auto da compadecida e Caramuru – a invenção do Brasil.

O sucesso comercial, porém, atesta a influência que a propagação de uma linguagem própria da televisão exerce sobre o público brasileiro. A qualidade dos seriados comandados por Guel, como os supracitados e também TV Pirata e Armação ilimitada, são suficientes para que as versões cinematográficas do mesmo alcancem uma expressiva bilheteria e lhe garantam carta branca dentro do núcleo de projetos da emissora. Desta vez, O bem amado, que ganha ares de franquia, sofre da mesma debilidade que marca os outros filmes do diretor: é cinema feito para a televisão.

Os cortes rápidos, o ritmo acelerado, os planos fechados realçando o rosto de atores conhecidos do público - e símbolos da Rede Globo - corroboram a sensação de que estamos diante de uma minissérie dilatada. E feita para o público que assiste filmes buscando o comodismo e a facilidade que só uma narrativa domesticada é capaz de oferecer. Não há espaço para invenção, a imaginação fica presa por uma fórmula que cerceia as possibilidades de abordagem. Em função disso, a paródia política acaba sufocada por tiques de estilo cuja salvação imediata seria o controle remoto, caso estivéssemos no aconchego de nossas poltronas. Mas não. E o desconforto diante de tal situação vem da dissonância entre um discurso cinicamente burlesco limitado por uma forma careta, quadrada, oposta à acidez do texto. Como diria o grande Rogério Sganzerla, “o cinema brasileiro precisa sair do quarto de brinquedos”. É mais ou menos por aí. 

A trama gira em torno das condições sedutoras proporcionadas pela sugestão do poder. Em uma cidade fictícia chamada Sucupira, o farsante político Odorico Paraguaçu elege-se prefeito, ancorado em uma promessa de campanha de finalmente construir o primeiro cemitério da cidade. Entre notas sujas e volumosos desvios de verba, a obra sai do papel e fica dependente de um elemento essencial para ser inaugurada: um defunto que se preste a fazer as honras da casa. De uma hora para outra, as mortes deixam de acontecer em Sucupira. E a promessa de campanha vira um enorme elefante branco no centro da cidade, enquanto a população se revolta contra seu principal regente. O engenhoso texto de Dias Gomes cria sub-tramas onde delineia diversos tipos (como as irmãs Cajazeiras e o matador Zeca Diabo) e a influência que o dinheiro e o poder exercem sobre eles, realçando a complexidade das relações e das personalidades em jogo. A excelência da peça original e seu trato com a ironia e a metáfora estão a anos-luz das intenções do filme.

Nem mesmo o elenco, formado por atores de calibre, consegue dar um sopro de vida à direção apática e televisiva de Guel. Marco Nanini sobrecarrega seu ótimo timing cômico e beira a caricatura em várias cenas, assim como José Wilker, que já foi o homem da capa preta, mas hoje não assusta mais ninguém. Até Andréa Beltrão, a melhor atriz brasileira da atualidade, tateia mas não acerta o tom de sua personagem. Uma pena. É o preço que pagamos por acreditar em um diretor que insiste em fazer cinema utilizando técnicas da televisão, sem demonstrar conhecimento que o tempo, o ritmo, a preparação e até mesmo a recepção do público exigem tratamentos distintos.

Esquemático e equivocado, O bem amado só acerta num único ponto: sua data de lançamento. Ao encerrar-se com uma provocativa questão sobre a escolha de nossos futuros políticos, a metáfora de uma Sucupira que na verdade é o Brasil mostra-se pontual e oportuna ao alertar os brasileiros quanto à responsabilidade que o voto possui na pavimentação de caminhos dignos para nosso país. É preciso estar atento e forte para saber identificar os Odoricos falsários que se escondem sob peles de inocentes cordeiros. Mas isso já é sociologia, e não cinema.

 


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