23.07.2010 | 19:28
ENTRE PúBLICO E CRíTICA
Marcella Huche, de Paulínia *
Incrustado entre três rodovias, o bloco de concreto cinzento e tijolos aparentes pode ser confundido com uma fábrica. E não deixa de ser — uma fábrica de cinema. O Polo Cinematográfico de Paulínia, onde é filmado cerca de um terço da produção nacional, fica na entrada da cidade, dividindo terreno com um shopping, a rodoviária e o prédio da prefeitura, responsável por injetar, por meio de editais, quase R$ 20 milhões por ano na indústria do cinema nacional. Ali, as árvores são baixas, tudo é novíssimo e colorido — os estúdios são divididos por cor, amarelo, azul, verde e vermelho — e o vento é constante, como em toda a cidade, pronto para violar as saias das celebridades que bateram pernas pela terceira edição do Festival Paulínia de Cinema, de 15 a 22 de julho, como Fernanda de Freitas, Leona Cavali, Daniela Escobar, Marina Person e Roberta Rodrigues.
Mas nem só de celebridades é povoado o festival — 22 mil pessoas passaram pelo evento neste ano, em números absolutos, um terço da cidade de Paulínia. Entre público e qualidade autoral, curtas e longas, foram 35 filmes exibidos, inclusos aí O beijo da mulher aranha, de Hector Babenco, que abriu a maratona, e 400contra1, de Caco Souza, que apagou a luz do evento. Foram 14 oficinas gratuitas e mais 27 mesas de debates para os filmes da seleção oficial. Em prêmios, foram distribuídos R$ 650 mil. A maior parte do montante ficou para 5x favela, agora por nós mesmos, assinado a 14 mãos, que arrematou sete Meninas de Ouro na noite desta quinta (22).
A alguns metros do polo, ergue-se o imponente Theatro Municipal de Paulínia, todo em madeira e vidro, de arquitetura moderna (mas nem tão modernosa, há pilastras gregas questionáveis) com quatro andares e capacidade para 1.350 lugares, que abriga todas as sessões do festival — cuja média, aliás, foi de mil pessoas por sessão. É ali que se arma o tapete vermelho para as tantas pré-estreias que acontecem em Paulínia, sobretudo durante os dias de festival. Nesta terceira edição, dos 12 docs e longas em competição, somente cinco já tinha sido vistos em outros festivais, inclusive em Cannes e Berlim.
"Acho excepcional termos um público de 30 mil pessoas, entre sessões e debates, na terceira edição deste festival", avalia Ivan Melo, diretor do evento, em conversa ao LABORATÓRIO POP. Paulínia, como lembrou Jeferson De, diretor de Bróder, marca um momento histórico — exibe (e premia) filmes realizados por diretores oriundos de favelas e periferias cariocas e paulistas. "Esse movimento é irreversível. Depois que mostramos nossa qualidade, vamos ter que entrar em circuito e em editais porque todo mundo já sabe que somos muito bons", analisa De, lembrando que a década abriu com Cidade de Deus, de Fernando Meirelles, o olhar de um "publicitário branquinho" sobre a favela, e fecha com 5x favela, agora por nós mesmos e Bróder.
"Para um festival ser legal, ele tem que quebrar preconceitos, paradigmas", opina Melo. "Por exemplo, tivemos aqui um curta gay (Eu não quero voltar sozinho, de Daniel Ribeiro) que foi o mais aplaudido. 5x favela e Bróder foram muito festejados, independentemente da origem social. Isso é bacana", diz, sublinhando que o público do festival não é cinéfilo e a seleção leva isso em consideração, equilibrando público e qualidade. Em alguns momentos, porém, os jornalistas chegaram a questionar a curadoria, quando foram exibidos filmes como Dores & amores, de Ricardo Pinto e Silva, e As doze estrelas, de Luiz Alberto Pereira, muito abaixo do nível dos outros 10 em competição.
"A curadoria deu certo, por mais que se fale o contrário", defende-se Melo, ainda chateado por uma matéria que saiu nesta quinta (22) no jornal Folha de S. Paulo, que mencionava "falta de opção" e "crise criativa brasileira" ao comentar a curadoria do festival. "Se a seleção estivesse sido completamente equivocada, teria afastado meu público. O que aconteceu foi justamente o contrário, tivemos uma curva crescente", conta, apontando a falta de salas interessadas em exibir cinema brasileiro como o principal problema da indústria cinematográfica nacional.
"Estruturalmente achamos nossa forma, um modelo a seguir, não vejo muitas mudanças para 2011. Vamos manter as sessões infantis, que foi bem legal, e se tivermos mais filmes, ampliá-la", projeta Melo, referindo-se à mostra que exibiu Gui, estopa e a natureza, de Mariana Caltabiano, e Eu e meu guarda-chuva, de Toni Vanzolini. "Fizemos aqui um exercício de comunicação com o público. Mesmo os filmes criticados, ainda não sabemos como vão atuar no mercado", ressalta.
Durante o festival, o Secretário de Cultura Emerson Alves anunciou o primeiro edital do ano da Prefeitura de Paulínia. São contemplados 10 longas, com até R$ 1,4 milhão, e 10 curtas, com R$ 50 mil. É a primeira vez qu curtas ganham edital na cidade, que planeja no próximo semestre abrir espaço também para as animações. O edital começa a receber projetos, pelo site, em 16 de agosto e fecha em 30 de outubro.
Foto: Divulgação
* Marcella Huche viajou a convite da organização do festival
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