O último suspiro | LABORATÓRIO POP


CINEMA

20.08.2010 | 13:12

O úLTIMO SUSPIRO

Juliana d’Arêde



M. Night Shyamalan teve a chance de conferir novo fôlego à carreira surrada de fórmulas repetidas (O sexto sentido, A vila, Sinais), mas errou mais uma vez em O último mestre do ar. E errou feio. Errou muito. O resultado é perda de tempo e dinheiro, a incomodar até os mais otimistas e pacientes cinéfilos. Se gostou do trailer, que à primeira vista é até promissor, melhor ficar com esses dois minutos e meio bem editados de O último mestre do ar. O roteiro é disfuncional, com atores que travam uma disputa acirrada para ver quem passa a maior parte do tempo sem emitir qualquer expressão e/ou emoção. Os efeitos 3D são praticamente inexistentes. Na verdade até estão ali, só para atrapalhar a leitura das legendas.

 

Adaptado do desenho animado, o filme começou perdendo uma batalha em Hollywood: não pôde utilizar seu nome original, Avatar: the last airbender, pois James Cameron e a Fox chegaram primeiro e registraram o título para o blockbuster de Pandora. Não que faça muita diferença, mas só para exemplificar que as coisas definitivamente não começaram bem — e ficariam ainda piores.

 

Há 100 anos, as nações Ar, Água, Terra e Fogo conviviam em harmonia, num mundo tomado pela plenitude resultante da paz e do equilíbrio, gerados pela presença do Avatar, o indivíduo que dominava os quatro elementos e se comunicava com o mundo espiritual. Quando o Avatar desaparece, o mundo entra num período decadente, marcado por conflitos territoriais e gananciosos, liderados pela nação do Fogo. Até o momento em que Katara e seu irmão, Sokka, encontram Aang, a nova reencarnação do Avatar. Juntos, iniciam uma jornada para deter o mal e restaurar a ordem do planeta.

 

De longe, a premissa até desperta algum interesse, principalmente nos saudosos do desenho — esse sim de alguma qualidade. De perto, não há traço dos truques do cineasta indiano, que normalmente espalha pela trama armadilhas a serem desmentidas no final. Pelo contrário. Primeiro, o roteiro passa longe da ideia original concebida para a animação, mas, para maquiar a fuga do contexto, Shyamalan utiliza a arte e as locações da série original. Segundo, a trama que segue é uma combinação desastrosa de elementos desnecessários, diálogos obtusos e direção incompreensível devido a um roteiro superficial. E terceiro, porque o filme se resume a algumas cenas de lutas bem coreografadas — nem todas, já que em alguns momentos mais parecem oompa loompas evoluídos —, aos efeitos visuais e à trilha sonora.

 

O último mestre do ar faz uso também de um péssimo e azucrinante artifício, que, verdade seja dita, não é exclusivo de M. Night Shyamalan: a narração explicativa. Desde o início da trama, os personagens direcionam linearmente o espectador numa irritante tentativa de fixar mentalmente o que já é transmitido em cena. Subestimar o público é um erro, além de refletir insegurança na capacidade de comunicação do próprio roteiro.

 

Quanto ao elenco, falta carisma dos próprios personagens, e as atuações beiram o pastelão — se bem que até mesmo um bom pastelão consegue cativar a audiência. Talvez, a única exceção (ainda assim não chega perto de uma boa atuação) seja a jovem Nicola Peltz, intérprete de Katara. Percebe-se que houve um esforço por parte da atriz para passar a integridade e humanidade da única dominadora de um elemento da nação da Água.  Já Noah Ringer, o Avatar, por ser um ator estreante, não chega a prejudicar o andamento da produção, até porque se destaca no que sabe fazer melhor — que, por sinal, é a principal característica do personagem: lutar. O jovem, campeão de taekwondo, realmente impressiona com suas habilidades marciais. O mesmo não se pode dizer Jackson Rathbone, o Sokka. “O Jasper de Crepúsculo” — como faz questão de anunciar o cartaz do filme —finalmente tirou uma dúvida que assolava os seguidores do vampiro. Sim, aquela cara de quem viu a luz do sol, ou um crucifixo, ou um lobisomem, não é exclusiva de seu personagem morto-vivo. As expressões faciais do ator resumem-se àqueles olhos esbugalhados.

 

Como já dito anteriormente, não gaste dinheiro pelo 3D. Alguém da equipe de pós-produção deixou passar batido — num estilo meio Fúria de titãs — e, ops, o 3D não está lá. Para as crianças, talvez, os efeitos visuais e as características físicas singulares de alguns personagens possam ser um atrativo. Mas, no geral, O último mestre do ar destoa — negativamente, para deixar claro —, de outros épicos. E M. Night Shyamalan já garantiu as outras duas continuações.  Respire fundo.

 


Leia outras notícias sobre cinema

FORMULE