Mães no cárcere | LABORATÓRIO POP


CINEMA

17.07.2010 | 02:51

MãES NO CáRCERE

Marcella Huche, de Paulínia *



Berços, fraldas, chupetas e sapatinhos de bebê... entre grades. Inspirada pelo nascimento de seu primeiro filho, Pedro, Cláudia Priscilla decidiu filmar a maternidade no cárcere, em Leite e ferro. A tese inicial, de que o sentimento de ser mãe poderia ser sempre comparável, logo derreteu. "A prisão coloca tudo numa outra perspectiva. Eu nem posso medir", admite Cláudia ao LABORATÓRIO POP, logo depois da exibição de seu documentário, na terceira edição do Festival Paulínia de Cinema. O doc abriu a mostra do gênero no festival, que começou nesta quinta (15) e se estende até 22 de julho, exibindo ainda outros cinco filmes. Foi uma Cláudia nervosa e de voz vacilante que subiu ao palco para apresentar o doc, o mais aplaudido da noite em mais uma sessão lotada no Theatro Municipal de Paulínia.

 

No retrato sensível de Cláudia, não há intervenção por parte da diretora, que quis ser o menos incisiva possível no cotidiano de suas personagens, presas alocadas numa prisão especial para amamentar os filhos por quatro meses. Embora as histórias que se lembram ali são trágicas — overdose, violência policial, abandono, tráfico — a plateia riu em vários momentos do doc. "Existe uma densidade, mas o filme tem esse caráter bem-humorado, porque as próprias personagens têm humor, mesmo estando presas. Por outro lado, não achava que os toques engraçados causariam tanto riso", admira-se a diretora, que exibiu pela primeira vez o filme para o público e saiu satisfeita com os elogios.

 

Por opção, Cláudia não retrata os momentos de separação das mães e de seus filhos, sombra que, contudo, ronda todo o filme. "Presenciei um momento desse, sem filmar nem nada. Acho que, primeiramente, não seria nem capaz de fazer, pela carga emocional. Depois, acho que daria um outro filme. Nesse, quis me aprisionar um pouco com elas", explica Cláudia, que também não revela detalhes sobre a prisão das personagens e deixa para apresentar o nome das crianças nas últimas cenas — já o nome das mães, alguns permanecem mistério. Quem leva a história nos ombros une aquelas mulheres e orquestra, até conscientemente, os conflitos de Leite e ferro é Luana, uma carismática prisioneira, hoje evangélica, que fez carreira no crime. "A Luana foi uma escolha natural. Sentei com ela para fazer duas perguntas e ela falou por duas horas. Eloquente, já tinha estado lá outra vez também", conta Cláudia, que escreveu o projeto em 2007, conseguiu um edital, e fez dois meses de pesquisa antes de partir para as filmagens. "Não tive muito tempo para pensar, porque minhas personagens só tinham quatro meses lá", sublinha a diretora, com três curtas no currículo, sempre em parceria com Kiko Goiffman, com quem é casada. Goiffman assina aqui a produção e teve alguma dificuldade para filmar, com liberdade, na prisão. "O problema maior foi com o juiz. Tive muita ajuda do pessoal de direitos humanos também. Mas, depois que entramos, elas foram muito receptivas. Era alguém de fora disposto a ouvir suas histórias e ajudar a passar o tempo", conta Cláudia, enquanto Goiffman fumava um cigarro na ventania que, constantemente, assola Paulínia.

 

A outra separação em questão é a da própria Cláudia, finados os quatro meses de convívio intenso com as presas, entre pesquisa e filmagens. "Foi um misto de sentimentos. Era muito desgastante porque, quando saía de lá, às vezes já de madrugada, me sentia muito culpada de estar livre. Houve também muito apego, por causa da intimidade, e, claro, dos bebês com que convivi".

 

As exibições desta sexta (16) em Paulínia começaram com a apresentação especial de Pixote in memmorian, de Felipe Briso e Gilberto Topczewski, que esmiuçam a trágica vida do garoto da periferia do clássico de Hector Babenco, Pixote, a lei do mais fraco (1981).  A maratona noturna começou com o curta regional Só não tem quem não quer, de Hidalgo Romero; seguiu com Leite e ferro, depois uma curta apresentação do Cel.U.Cine, programa de curtas feitos no celular. Tempestade, curta em stop-motion dirigido por César Cabral, foi bem recebido pelo público, fazendo em massinha uma adaptação livre da música Eleanor Rigby, dos Beatles, e do conto de J. M. William Turner, com trilha cedida por Phillip Glass. O primeiro longa de ficção da seleção também foi exibido nesta sexta. As doze estrelas, de Luiz Alberto Pereira, foi rodado na cidade de Paulínia, com atores como Paulo Betti, Leonardo Brício e Leona Cavalli, último a entrar na lista de selecionados. O próprio diretor ainda não tinha assistido ao filme finalizado, admitiu ao subir ao palco para apresentar o longa e os 31 membros da equipe que prestigiaram a estreia no festival. Na trama, um astrólogo é contratado para ajudar na sorte de uma novela, em que cada atriz é de um signo. Embora tecnicamente bem feito, As doze estrelas não empolgou e, ao fim da exibição, o público até hesitou em aplaudir.

 

 

Neste sábado, destaque para o infantil Eu e meu guarda-chuva, de Toni Vanzolini; o doc São Paulo companhia de dança, de Evaldo Mocarzel, e 5x favela, agora por nós mesmos, realizado por jovens moradores de favelas cariocas, organizados por Carlos Diegues. O festival segue até 22 de julho, quando 400contra1, de Caco Souza, fecha a programação.

 

* Marcella Huche viajou a convite da organização do evento

 

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