04.08.2010 | 21:45
NADA MAL
Marcella Huche
Gru passeia por uma praça e subitamente repara num garoto. Lágrimas escorrem pelo rosto do menino, que segura uma casquinha de sorvete vazia e olha desolado para o sabor vermelho derretendo no chão. Gru pede que espere, sopra um balão, o contorce algumas vezes e entrega um poodle radiante para o moleque, ainda mais radiante. Gru fecha a cara, cata um alfinete e estoura a felicidade do garoto, que deixa para trás com passos firmes. Aí está o protótipo de Meu malvado favorito, o tal vilão anunciado, Gru.
A primeira cena do filme é o resumo dramático que permeia a animação de Pierre Coffin e Chris Renaud. Está ali condensado o conflito do protagonista, a visão doce e infantil de um vilão de alma boa, estragado por uma mãe rabugenta. No clímax final e sacarinado do filme, ainda surge a dúvida, será, mas será? Não é. Meu malvado favorito é pueril, previsível, com parcas tintas irônicas. Mas isso não o faz menos divertido, em especial para as crianças.
Voltado para a família, o filme pega emprestado o visual da Pixar e as piadas dos cartoons infantis. O resultado é um razoável filme de estreia do departamento de animação da Universal, o Illumination Entertainment. Comandado por Chris Meledandri, antigo colaborador da Fox (Era do gelo, Horton e o mundo dos quem), não deixa a perder para os gigantes consolidados da Pixar e da Dreamworks, tendo efeitos tridimensionais muito bem trabalhados.
No Brasil, o filme chega apenas em cópias dubladas, tanto em 2D como em 3D. Nos papéis principais, a dupla cômica Leandro Hassum e Marcius Melhem seguram as piadas com um ótimo trabalho autoral. Gru leva um sotaque portenho (um vilão argentino?) divertidíssimo criado por Hassum, enquando o chato Vetor, o verdadeiro vilão aqui, tem seus momentos divertidos com os tiques de Melhem.
Gru é o tipo rabugento trapalhão, que concretiza nossos pequenos momentos utópicos vis, como amassar sem piedade os carros vizinhos em vagas apertadas ou furar uma fila inteira só disparando um raio congelante nas pessoas à sua frente. A apresentação do protagonista é genial, ao som do ótimo rap de tons graves Despicable me, título original do filme. A trilha é assinada por Pharrell Williams e Hector Pereira, produzidos por Hans Zimmer, e pontua muito bem a animação.
A vida de um supervilão, mesmo equipado de geringonças de todos os tipos e mantendo a pose de mau, não é tão fácil assim. A concorrência pesa nos ombros caídos de Gru e ela atende pelo nome de Vetor, um jovem herói nerd, pleno de disposição e novas rebibocas futurísticas. Se Gru rouba o telão da Times Square e a Torre Eiffel e a Estátua da Liberdade de Los Angeles, Vetor ousa afanar uma pirâmide do Egito! Para manter seu posto, nosso vilão concatena então um plano mirabolante - roubar a lua!
Para isso, precisa de um super-raio-encolhedor e de um empréstimo no banco... dos vilões. Gru rouba a parafuseta encolhedora de uma base secreta na Ásia, mas Vetor a toma para si e a tranca em seu covil tecnológico. Obstinado, Gru adota três órfãs, Margo, Edith e Agnes, as únicas criaturas capazes de penetrar no recôndito de Vetor. O problema é que as três veem em Gru um pai em potencial e fazem despertar no malévolo um lado desconcertante para o vilão que clama ser.
Com o coração no lugar certo e referências à animação europeia, Meu malvado favorito conquista por seus personagens excêntricos. O roteiro é de Cinco Paul e Ken Daurio, adaptado da história de Sergio Pablos. As três garotas são tão estranhamente cativantes quanto o vilão que tomaram para pai.
Vale sublinhar a participação dos minions, pequenos seres amorfos e amarelos que adoram e ajudam Gru em suas façanhas diabólicas. Estão ali somente para divertir, atrapalhados, falando uma língua ininteligível, e desempenham honestamente seu papel. Entre ingenuidade emocional açucarada e raras pitadas de humor negro, Meu malvado favorito não é de todo mal, e bem diverte.
Foto: Divulgação
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