"NãO QUERIA FAZER UM FILME MACHISTA" | LABORATÓRIO POP


CINEMA

21.07.2010 | 17:18

"NãO QUERIA FAZER UM FILME MACHISTA"

Marcella Huche, de Paulínia *



Um filme de baixo orçamento, rodado em quatro semanas, na ponte aérea entre Rio e São Paulo. Para dar certo, como atestou a plateia que festejou a exibição na noite desta terça (20), Malu de bicicleta teve um roteiro exaustivamente trabalhado e um trunfo — na direção, um veterano da produção, Flávio R. Tambellini, em seu terceiro longa de ficção. Em conversa com o LABORATÓRIO POP depois da sessão no festival, Tambellini explica a parceria de sucesso com Marcelo Rubens Paiva, escritor do livro homônimo que inspirou o filme, e conta como sua experiência na produção — inclusos aqui sucessos como Carandiru, Cazuza e Eu, tu, eles — o ajudou a fazer com que o R$ 1,3 milhão captado aparecesse na tela. "Queria um filme atual, urbano e com ótimo humor. As situações são cômicas e risíveis, mas é um filme sobre aceitar o fato de gostar de alguém", define um calmo Tambellini, olhos pesados atrás da armação preta dos óculos quadrados.

 

A ideia da adaptação partiu de Marcelo Serrado, que logo ganhou o papel do protagonista mulherengo. O planejamento rígido imposto por Tambellini, que queria fazer um filme rápido, permitia a inclusão de improvisações no texto, mudado até no set a partir de ideias dos atores e do próprio Rubens Paiva, e participações de última hora, como o convite a Eriberto Leão, amigo de Serrado, para interpretar um garçom na semana em que a cena seria rodada. Na trama, Luiz Mario (Marcelo Serrado) é um empresário, solteirão convicto, que se apaixona por uma menina carioca que o atropelou, Malu (Fernanda de Freitas). Depois de encontrar uma carta de amor indecifrável, um ciúme obsessivo atormenta Luiz, que já não tem mais o mesmo jogo com as mulheres.  "Tive muita preocupação para não fazer um filme machista, grosso. Queria elegância. Vemos o personagem definhar, se tornar cada vez mais frágil, e as mulheres é que são fortes", ressalta o diretor, aproveitando para a agradecer a toda equipe, na arte que ele delibera como coletiva. Para frente, Tambellini mira na direção de um longa sobre roubos de obras de arte, dessa vez com roteiro original, O roubo da Chácara do Céu, e na produção do filme Agamenon, com o Casseta & planeta, sobre o personagem cômico do jornal O Globo. 

 

LABORATÓRIO POP: Malu de bicicleta é seu terceiro longa, sua terceira adaptação literária. É uma preferência ou uma coincidência?

Flávio R. Tambellini: É uma coincidência, mas na verdade eu gosto de trabalhar com o livro. Dá uma boa estrutura de gramática, de desenho dos personagens. Gosto de trabalhar, mas mexer no livro. Quero usar o que o livro tem, mas o cinema é totalmente diferente do livro. É outra linguagem.

 

Trabalhando ao lado do Marcelo Rubens Paiva, autor do livro e roteirista, você teve bastante liberdade para isso?

Antes de o Marcelo entrar, a gente fez outras adaptações. Quando ele entrou já havia uma estrutura um pouco diferente do livro. É impossível trabalhar com o autor do livro de cara porque ele é muito apegado, vai querer defender o livro e são duas unidades diferentes. Eu trabalhei muito e depois chamei o Marcelo. E ele trouxe coisas boas de volta. Queria um filme atual, urbano e com ótimo humor. As situações são cômicas e risíveis, mas é um filme sobre aceitar o fato de gostar de alguém. Tive muita preocupação para não fazer um filme machista, grosso. Queria elegância. Vemos o personagem definhar, se tornar cada vez mais frágil, e as mulheres é que são fortes.

 

 

A escrita do Marcelo Rubens Paiva e do Rubem Fonseca é muito cinematográfica. Isso influencia na escolha, facilita a adaptação?

Com certeza. Os diálogos ajudam muito porque são diálogos de gente que gosta de cinema. Foi ótimo trabalhar com o Marcelo, ele embarcou mesmo na história, assistia às filmagens. Estou pensando até em fazer outras coisas com ele.

 

Você decidiu misturar atores de teatro com atores de cinema. Por que isso é importante para você?

Eu adoro essa mistura. Eu acredito que os grandes atores vêm do teatro, da experiência teatral. Então sempre busco atores de teatro. Mas não atores teatrais. Esse filme é muito em cima do elenco, da interpretação. Primeiro, queria atores que não estivessem preocupados em gravar novela e pudessem estar mesmo dentro do filme.

 

Há também uma opção pelo humor, que não tem tanto no livro do Marcelo Rubens Paiva... Como surgiu a participação do Bruno Mazzeo no roteiro?

O filme tem humor, mas trata de coisas sérias, com uma visão bem-humorada. Porque às vezes a pessoa está numa situação tão louca que quem vê de fora acha até engraçado, mas a pessoa está sofrendo. Tem isso no filme. Eu recebi o primeiro tratamento de roteiro quando o Marcelo Serrado me chamou para fazer o filme, e o Mazzeo já tinha contribuído. Mas depois eu retrabalhei. O humor é muito do Marcelo Rubens Paiva e meu. Há, claro, muitas coisas do Mazzeo, mas eu queria um humor mais sarcástico, de situações, não queria aquele humor de piadinha. Eu digo que o Marcelo Serrado é um ótimo ator de comédia porque ele trabalha com os olhos, com aquele olhar parado, de observar a situação absurda.

 

Pode-se falar que o Malu de bicicleta é uma versão moderna de Dom Casmurro, mesmo que no livro de Machado de Assis haja uma melancolia marcante?

O Marcelo se inspirou na Capitu, naquele mistério. No set com a Fernanda eu enfatizava que deveríamos trazer uma ambiguidade para o olhar da Malu. As pessoas tinham que ver a mesma dúvida do Luiz Mário no olhar dela. Mas para mim ela nunca fez nada. Aquilo é tudo coisa da cabeça dele, viagem dele.

 

Você mora no Rio, nasceu em São Paulo. Seus outros filmes também são bastante cariocas. O filme tem essa dualidade, mas as filmagens foram concentradas no Rio. Como você equilibrou isso?

Eu acho até que o Malu tem uma coisa forte de São Paulo, uma presença forte da cidade. Eu gosto muito de trabalhar com a cidade. O passageiro tinha muito o Rio de Janeiro, o Bufo também. Mas era um outro Rio, não gosto muito do Rio turístico. Se bem que no Malu o Rio era mais solar, tinha que mostrar essa diferença, de um lado prédios, uma vida mais urbana, de outro lado a natureza. Tem mais cenas no Rio porque o apartamento dele, que no filme seria em São Paulo, eu fiz no Rio. É o único apartamento feito pelo Paulo Mendes da Rocha no Rio, enorme, lindo, com aquelas colunas. Em termos de tempo de filme, ele se passa muito mais em São Paulo.

 

Com quanto foi rodado o filme, que é considerado de baixo orçamento? Houve dificuldade de captação?

Colocamos o filme num edital de baixo orçamento do Ministério da Cultura e ele ganhou R$ 1 milhão. Depois consegui captar mais R$ 300 mil. Mas achei ótimo, porque o fato de ter menos dinheiro me deu até mais liberdade, de ir direto ao que precisava, fazer um filme rápido.

 

O que você trouxe da sua experiência com o produtor para esse filme, que você assina a direção?

Saber filmar o que é essencial. Saber que cenas precisam de mais produção. Escolher onde eu precisava investir mais e saber onde são cenas mais simples, de direção de arte, figuração. Eu sabia que para o filme ficar com uma cara bacana eu tinha que investir na boate e no apartamento. Me ajudou a saber para onde vai o dinheiro. Eu queria que o dinheiro aparecesse na tela.

 

Quais são seus próximos projetos, para a direção e a produção?

Para a direção eu estou com um projeto que se chama O roubo da Chácara do Céu, que é uma história maluca sobre esses roubos de obra de arte que têm acontecido. É sobre um roubo que aconteceu no museu Chácara do Céu, em Santa Teresa, no Rio, e criamos uma ficção louca em cima disso. Essa é uma história original, não é baseada em nenhum livro. Para produção, estou com o filme Agamenon, que é baseado no personagem do jornal O Globo, junto com o pessoal do Casseta & planeta.

 

Foto: Leandro Moraes / Divulgação

 

* Marcella Huche viajou a convite da organização do evento

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