Periferia S/A | LABORATÓRIO POP


CINEMA

22.07.2010 | 13:04

PERIFERIA S/A

Marcella Huche, de Paulínia *



Se a favela do Rio ganhou representação equilibrada em 5x favela, agora por nós mesmos, na noite desta quarta (21) foi a vez de Bróder retratar a periferia paulista, a partir de outro olhar interno — o do diretor Jeferson De, nascido em Taubaté há 33 anos, filho de costureira e metalúrgico. Aplaudido pelo público que lotou o Theatro Municipal no último dia da competição do III Festival Paulínia de Cinema, cujo encerramento acontece nesta quinta (22), Bróder foi precedido pelo doc Lixo extraordinário, de Lucy Walker, João Jardim e Karen Harley. Apesar da linguagem rasa e de um formato padrão questionável, o documentário foi o filme mais festejado do festival — a sala lotada se virou para os catadores Tião e Zumbi, protagonistas do filme, e os aplaudiu, de pé, por alguns minutos. Os dois filmes já tinham sido reverenciados no Festival de Berlim.

 

"Achei que fosse encontrar tudo de pior na lixeira", revela o diretor João Jardim, usando o termo popular para se referir ao Aterro Sanitário de Jardim Gramacho, em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense (RJ), onde o filme foi rodado. "Me surpreendi muito. Voltava para casa com muita raiva desse país, que deixa pessoas tão maravilhosas ficarem na lixeira". O doc, que retrata o trabalho do artista plástico Vik Muniz com sete catadores para montar seus retratos a partir de materiais recicláveis, recolheu prêmios por onde passou e, aqui em Paulínia, emocionou. Os retratos de Muniz foram leiloados em Londres e a verba, revertida aos catadores.

 

"Este é um filme sobre reciclagem", define Vik Muniz, acrescentando que esse termo é evitado por evocar uma questão ambientalista. "É sobre reciclagem humana. Estava num período da minha vida, depois de mais de 20 anos de carreira, em que precisava ver a arte como processo de transformação. Foi assim que esse filme surgiu". Muniz inicialmente relutou a participar do documentário, iniciativa de uma produtora inglesa, alegando ser do campo das artes plástica e detestar as "cabeças falantes".

 

Mesmo com Muniz, a figura mais ilustre no palco, que no filme ensaia papel de herói redentor desses catadores, Tião brilhou mais na noite desta exibição. Presidente da Acamjg (Associação de Catadores de Gramacho) e protagonista de Lixo extraordinário, o rapaz muito bem articulado aproveita o microfone para pedir uma política pública mais eficiente para a classe de catadores de todo o Brasil. "Estou vivendo um sonho há mais de três anos. Às vezes fico pensando quando que isso vai acabar e a carruagem vai virar abóbora de novo", teme Tião, agradecendo Muniz, a quem rotula como "fada madrinha". "Hoje me apresento como catador de material reciclável porque as pessoas confundem muito quem você é com o que você faz. Eu não sou catador de lixo porque lixo é uma coisa que não presta, que é rejeitada, descartada".

 

De qualidade cinematográfica notavelmente superior, Bróder traz a história de três amigos criados juntos em Capão Redondo, São Paulo, que se reencontram para o aniversário de um deles. Macu, o protagonista branco, único envolvido com o crime, é vivido por Caio Blat, numa transformação incrível. A escolha é polêmica, já que desencontra com o que pregou o diretor no Dogma Feijoada, movimento que liderou para mudar a forma como o negro é retratado na cinematografia brasileira. Ausente da primeira exibição de Bróder no Brasil, depois de já ter passado por Berlim, Blat deixou um bilhete para ser lido por De no palco: "Bróder é o trabalho mais importante da minha vida. Espero que as pessoas olhem mais para o Capão Redondo e mais umas para as outras".

 

Formado em cinema pela USP, De estreia no longa-metragem com essa história, já aplaudida em Berlim. "Bróder é um sonho que virou realidade. E, quando as luzes se apagarem nesta sala, volta a ser sonho novamente. Isso é o cinema". Jonathan Haagensen, Silvio Guindane, Cássia Kiss, Cintia Rosa e Ailton Graça completam o elenco, que, ao lado da fotografia de Gustavo Hadba, são os destaques de Bróder.

 

Os curtas Dona Tota e o Menino Mágico, de Adriana Meirelles, Ensolarado, de Ricardo Targino, e Retrovisor, de Eliane Coster, completaram a programação da noite, unidos pela curadoria. Cabeça a prêmio, de Marco Ricca, foi exibido fora de competição. Nesta quinta acontece a festa de encerramento do festival, com a apresentação de 400contra1, de Caco Souza, e a entrega dos prêmios Menina de Ouro.

 

Foto: Columbia Pictures / Divulgação

 

* Marcella Huche viajou a convite da organização do evento

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