Blockbuster dos sonhos | LABORATÓRIO POP


CINEMA

05.08.2010 | 12:12

BLOCKBUSTER DOS SONHOS

Gerhard Brêda e Marcella Huche



Se na trama de A origem Christopher Nolan faz Leonardo DiCaprio perambular pela realidade e vários inconscientes oníricos, aqui no LABORATÓRIO POP o diretor é unanimidade. Gerhard Brêda e Marcella Huche tascam a etiqueta de excelência em A origem, thriller que segue uma trupe de especialistas em penetrar nos sonhos das pessoas. Dessa vez, numa última missão, o grupo deve implantar uma ideia, em vez de roubá-la, como geralmente fazem a mando de empresários poderosos. Leia, assista e confirme: A origem é o blockbuster dos seus sonhos.

 

 

* CRÍTICA DE GERHARD BRÊDA

 

Christopher Nolan entende o espírito desta época. Depois de reerguer o cavaleiro das trevas do ridículo com Batman begins (a memória do horrendo Batman & Robin, de Joel Schumacher, já está esfumaçada em um canto da mente) e trazer ao mundo um dos melhores filmes de super-herói com O cavaleiro das trevas, Nolan, de uma forma ou de outra, lança um sucessor espiritual de Matrix, mas sem a ciber-cultura ameaçadora da virada do milênio e a filosofia pretensiosa. Nolan conversa com a geração que domina a informática e o ciber-espaço, mas que ainda não consegue entender a própria cabeça. O diretor invade os sonhos e tira de lá todas as fantasias da geração videogame, tudo embalado numa narrativa coesa e brilhantemente amarrada.

 

Na trama, Leonardo DiCaprio vive Dom Cobb, um ladrão especializado em roubar segredos das mentes das pessoas quando elas estão sonhando e as defesas do subconsciente estão mais baixas. DiCaprio traz um Cobb atormentado para a tela, mas seu personagem se faz na sutileza. É uma rocha rachando internamente, um homem que mantém uma fachada comum, escondendo uma mente devastada. O ator definitivamente deixou para trás o passado de galãzinho juvenil.

 

Cobb atua ao lado de Arthur (Joseph Gordon-Levitt, carismático como sempre) nas extrações de segredos, mas seu desejo mesmo é retornar para sua casa, nos EUA, e rever seus filhos. Saito (Ken Watanabe, em uma interpretação sólida) é um poderoso empresário que oferece a Cobb a chance de voltar para casa como pagamento por uma missão considerada quase impossível: em vez de extrair uma ideia, plantar uma. O alvo, o herdeiro de uma corporação rival de Saito, Robert Fisher (Cillian Murphy, em boa performance).

 

Para cumprir a missão, Cobb reúne uma equipe com o vigarista Eames (Tom Hardy, em interpretação excepcional, charmosa e divertida), que consegue criar documentos e mudar sua aparência nos sonhos, o químico Yusuf (Dileep Rao), que cria os sedativos e Ariadne (Ellen Page, simpática, nada mais), uma estudante de arquitetura que é encarregada em criar o design do mundo dos sonhos.

 

Nessa dinâmica de Onze homens e um segredo ao inverso, Nolan ataca diversos gêneros, sempre com resultados positivos. Há elementos de James Bond, filmes catástrofe, ficção científica, romance, suspense, drama e até comédia. Para a geração com o dedo no gatilho virtual, cenas que parecem tirados de games como Call of duty. Toda essa diversidade poderia ser uma colcha de retalhos se não existisse, no centro, como uma coluna vertebral, o drama denso e interessante de Cobb, que compartilha espaço com a missão sem nunca se tornar mais ou menos interessante. Nolan soube coordenar os diversos filmes que tinha na mão em um só de forma magistral.

 

Os efeitos especiais são impressionantes, alguns desafiam até a compreensão, outros impressionam pela inventividade, mas, ao contrário de Avatar, não roubam a cena. O destaque é a incrivelmente bem resolvida mitologia de Nolan, todas as regras do sonho são bem explicadas e fundamentadas. E, mesmo tendo que apresentar o espectador a mundos estranhos – ainda que bastante familiares – o roteiro nunca soa didático e as regras, nunca mal explicadas. Se perder em detalhes poderia estragar a diversão de entrar nessa dimensão.

 

A trilha sonora é brilhante. Hans Zimmer ataca o espectador com graves espetaculares, que criam uma gigantesca tensão quando os personagens se aventuram em sonhos dentro de sonhos, cada vez mergulhando mais fundo no inconsciente. A música Non, je ne regrette rien, de Édith Piaf, também aparece em diversas ocasiões no filme e até tem elementos integrados na trilha de Zimmer. Curiosamente, Marion Cotillard, que interpreta Mal, a esposa de Cobb, já interpretou a cantora francesa no cinema.

 

A origem é o melhor filme de Christopher Nolan. O diretor compreendeu o espírito da época e mergulhou fundo no subconsciente, explorando, no caminho, os filmes de ação, de espionagem, os dramas mais densos e as ficções científicas mais viajantes. A inteligência de A origem não está em meia dúzia de frases pretensiosas vomitadas no espectador, mas na relação sutil entre a realidade do mundo de mentira e a falsidade do mundo de verdade.

 

 

* CRÍTICA DE MARCELLA HUCHE

 

Bem perto de um espasmo cerebral, A origem é dos filmes de ação mais inteligentes que você há de assistir. Daqueles que finalmente dão fim original a um orçamento milionário (US$ 160 milhões). Consagrado por outros arrasa-quateirões de qualidades inegáveis, Christopher Nolan agora invade a aventura solitária mais maravilhosa que desde sempre existiu — o sonho. Cria e manipula a vida onírica, fazendo dos inevitáveis momentos de solidão dos sonhos uma experiência compartilhada. É um blockbuster, entretenimento puro. Mas apresenta uma pegada tão intensa e nervosa que, depois de A origem, a trivialidade de encostar a cabeça no travesseiro e dormir já instala o crivo da dúvida. Trata-se do expoente do filme para se ver no cinema, que abusa do seu próprio dispositivo e da experiência compartilhada numa grande ode à sua própria arte.

 

O hype que cerca A origem desde seu anúncio, com pouquíssimas informações vazadas desde então, é simples e se resume a duas palavras — Christopher Nolan. O homem pensou no magnífico roteiro de A origem ainda bem novo e há oito anos o pôs no papel. Nesse meio tempo, conquistou o coração dos nerds ao fazer de Batman um herói novamente rico e respeitado, primeiro em Batman begins, depois, e ainda melhor, em O cavaleiro das trevas.

 

Antes disso, arrebatou a crítica com Amnésia (2000) e Insônia (2002), ensaios, já em múltiplas camadas, sobre amor, sono, sonho e subconsciente. Era o que precisava para recolher a confiança suficiente para violar derradeiramente tais temas em A origem.

 

Não satisfeito com o ambicioso roteiro intrincado que criou, o estado de sonho se reproduz também na estética do filme. As imagens, captadas em seis países, não são esfumaçadas ou os sons distorcidos, como os sonhos geral e pobremente são reproduzidos no cinema. A origem aproxima dois universos que desde sempre caminharam juntos — a experiência cinematográfica e a onírica.

 

No escuro, visualizamos imagens cuja completa apreensão perpassa uma montagem em boa parte também inconsciente; o tempo respeita códigos muito específicos da filmografia; enquanto também equilibramos o ver e o não-ver, assistindo projetada na tela a uma história que não sabemos exatamente como controlar, embora passemos boa parte tentando.

 

Em A origem, o rumo é bastante esse — caímos no meio de uma trama louca. Explicá-la formalmente é muito mais complexo do que entendê-la, senti-la durante as quase três horas de filme. Os diálogos são rápidos, as cenas ainda mais, a tensão é crescente, mas intuitivamente entende-se o que se passa ali, embora nunca se consiga desvendar a próxima cena.

 

Para além da ficção científica, de um homem que adentra e manipula sonhos de outras pessoas, outras linhas fortes enlaçam a trama de A origem. O romance, a paranoia e até uma ou duas linhas de comédia são honestamente entregues, embebidas em gêneros consagrados e muito bem realizados. O protagonista é Dom Cobb, um magnificamente atormentado Leonardo DiCaprio, que encara seu destino fatal sem tanto desespero ao rumar numa última missão. O extrator, especialista em roubar segredos ao penetrar em sonhos, trabalha a mando de grandes industriais, mas é um homem comum: rendido às tentações de escape de sua realidade (que nada tem de tão afugentadora assim), nosso herói desaprendeu a sonhar. Precisa se reconectar com o mundo real, suas falhas e perdas reais; precisa voltar a seu lar. Sem sentido figurativo aqui: o que Cobb mais quer é retornar aos EUA.

 

É exatamente o que lhe oferece o poderoso japonês Saito (Ken Watanabe). A derradeira tarefa de Cobb é, em vez de extrair, implantar uma ideia, sua semente, sua forma mais simplória, para que cresça naturalmente no subconsciente de sua vítima. No caso, do concorrente de Saito, Richard Fischer, vivido por Cillian Murphy.

 

Nessa última missão, uma manobra arriscada, e considerada por muitos até impossível, Cobb percorre o mundo (e que locações!) atrás da equipe perfeita (como bem fez Nolan ao montar este elenco impecável). Arthur (Joseph Gordon-Levitt) é seu comparsa de confiança, que aqui faz um tipo bobinho ao cuidar da proteção da equipe. Ariadne (Ellen Page) é a arquiteta, que constrói os labirintos surreais dos sonhos a serem percorridos e serve também como alicerce contra os devaneios da mente arruinada de Cobb.  O inglês Eames é o falsificador (Tom Hardy), simplesmente genial ao incorporar pessoas no ambiente dos sonhos, de carisma e deboche encantadores.  Yusuf (Dileep Rao) é o químico, responsável pela dopagem da gangue, que tem de ficar sonhando por horas a fio, sonho coletivo dentro de sonho coletivo. No elenco há ainda Marion Cotillard, que interpreta Mal, a ambígua mulher de Cobb e Michael Caine, a figura patriarcal Miles — e isso é só o que se pode dizer sem estragar esta experiência surreal.

 

Nolan manda nesses personagens. Mapeia e prevê cada movimento, gesto e defeito, governa seus subconscientes. Um dos motivos para o sucesso absoluto de A origem é justamente a atenção aos detalhes, que faz com que toda a extravagância surrealista pareça simplesmente... real. Nolan coloca frente a frente o melhor da cinematografia clássica e moderna. Os movimentos de câmera são precisos, e muitas vezes são eles que originam as loucuras a que assistimos. Os efeitos espetaculares ajudam — e, de fato, transbordam os olhos.

 

Pequeno exemplo desse encontro, além das reverências a gêneros consagrados, como a própria ficção científica e o thriller noir, é a trilha de Hans Zimmer, parceiro de outros filmes de Nolan (Batman begins e O cavaleiro das trevas) — outros colaboradores frequentes participam, como o diretor de fotografia Wally Pfister e o editor Lee Smith. A trilha original foi toda composta em cima do clássico Non, je ne regrette de rien, de Édith Piaf, inclusos aí graves ensurdecedores e outros ruídos um tanto excessivamente perturbadores. O coração desse labirinto é uma história amarga de amor, arrependimento e culpa. Outras repressões psicológicas perambulam a trama e sempre foram questões centrais na cinematografia do diretor. Nolan plantou a ideia, metafísica, brilhante. Mergulhe. Enlouqueça. Sonhe.

 

Foto: Divulgação

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