Poesia pura | LABORATÓRIO POP


CINEMA

21.09.2010 | 04:55

POESIA PURA

Carlos Augusto Brandão, de Nova York



Dois diretores de nacionalidades bem diferentes, um da Coreia do Sul e outro da Itália. Dois filmes com abordagens diversas. E ambos com um ponto em comum: a poesia. Assim pôde ser resumida a programação da segunda-feira (20) nas sessões de imprensa do Festival de Nova York, com apresentação dos novos trabalhos de Lee Chang-dong (Poesia) e Michelangelo Frammartino (Le quattro volte). O primeiro, mesclando poemas com tragédias e o italiano trazendo uma visão poética para falar dos ciclos da vida. O filme de Chang-dong marca sua volta ao NYFF, onde em 2007 fez muito sucesso com Secret sunshine.  

     O novo do diretor sul-coreano – também uma das atrações do Festival do Rio – conta a história de Mija (interpretada pela grande dama do cinema coreano, Yun Jung-Hee), uma avó solitária de 65 anos, que cuida do neto e divide o tempo entre as tarefas domésticas e o trabalho de enfermeira, que faz para complementar a pequena renda de que dispõe. Otimista e vaidosa, Mija se inscreve em um curso de poesia para ampliar seus horizontes, mas a maldade humana chega para desestabilizar aquele mundo sonhado pela protagonista. Já na abertura, o filme mostra o que espera a personagem: o corpo de uma adolescente boia num rio, enquanto crianças brincam na margem. A trama prossegue até o momento em que Mija se depara com a mãe desesperada diante do corpo da filha que havia se suicidado pulando de uma ponte.  Aturdida, a velha senhora fica sabendo que a menina foi vítima de estupro de um grupo de colegas da escola, entre os quais estava o seu neto. Para evitar o escândalo, os pais dos rapazes querem fazer um acordo financeiro com a mãe da garota morta, mas Mija não tem dinheiro. E, para piorar tudo, a protagonista é diagnosticada com Mal de Alzheimer.

Na coletiva após a projeção, o diretor, que foi também Ministro da Cultura em seu país, falou sobre a motivação para o filme, a abrangência da história e a característica dos personagens.

     “Meu principal interesse era o conflito da personagem central. Por um lado, Mija sofre com o que seu neto fez. Por outro, ela tenta escrever poesia e continua buscando a beleza do mundo em volta”, diz Chang-dong, que tem uma explicação para o final aberto do filme. “É deixado em branco para que a audiência o preencha; eu não quis mostrar nada diretamente, mas apenas sugerir. Essa é a parte destinada aos espectadores.  Mais do que qualquer outra coisa, Poetry é um filme sobre o ser humano”, ressalta.

     Para o diretor, não foi difícil misturar atos criminosos com algo tão humanístico e tocante como são os poemas.

     “Eu queria mostrar a poesia em um filme. De alguma forma, pensava em transformar uma história terrível em beleza de imagens e um canto poético. Mas tenho convicção de que isso só foi possível com a emocionante interpretação de Yun”, elogia.  

     Embora Poesia seja relativamente longo – 140 minutos –  o filme é um retrato intenso e emocionado de esperança e a possibilidade de um outro olhar diante das agruras da vida. Como afirmou o diretor,  o viés ficcional  de Poesia pode acontecer na vida real.

    “Apesar dos problemas e da maldade do mundo, sempre há algo maravilhoso para viver. O filme busca esse lado positivo e que é expresso através do desejo da protagonista de escrever um poema”, explicou o diretor de Peppermint candy, realizado por ele em 2000 e,  até o momento,  seu melhor trabalho. 

 

Os quatro ciclos da vida

 Le quattro volte, que deu continuidade à programação, é ambientado num pequeno povoado da Calábria, no alto das colinas das quais se divisa ao longe o mar Jônico, um lugar onde o tempo parece ter parado.

     Nessa região, de onde a maior parte dos habitantes já emigrou, um velho pastor passa seus últimos dias. Está enfermo e acredita que encontrou o remédio adequado para seus males no pó do pavimento da igreja que, todas as noites, ele bebe dissolvido em água.

     Le quattro volte é uma visão poética dos ciclos da vida e da natureza, das tradições esquecidas num lugar fora do tempo.  O roteiro traça  um grande ciclo da vida através dos humildes rituais diários das pessoas do campo, numa fantástica meditação em quatro partes sobre o homem e a natureza, que inclui  o pastor idoso que trata sua tosse bebendo a porção com o pó eclesial; as tentativas de um cabrito para encontrar o seu grupo do qual havia se perdido; uma árvore majestosa, que é derrubada e recolocada como peça principal da celebração de uma aldeia; e a transformação de seu tronco e  galhos em carvão pelos métodos antigos dos carvoeiros locais.

     Frammartino diz  que natureza não é apenas um dado de contemplação, mas um elemento fundamental  para a articulação da vida.

     “Nós podemos  vê-la nos olhos de um animal, ouvi-la no som do carvão, que crepita no fogo, vê-la no pinheiro que balança com o vento”, afirma o diretor que, com seu filme, resgata as crenças dos calabreses, passadas de geração para geração.

     O elenco tem Giuseppe Fuda, Bruno Tímpano e Nazareno Tímpano, todos em seu primeiro trabalho.

     Le quattro volte cabe em vários gêneros, tornando difícil classificá-lo: se é uma ficção, um documentário, um exercício experimental ou, se considerarmos a abordagem antropológica de algumas cenas, um trabalho etnográfico. Mas isso realmente não é o mais importante, e sim sua ligação com a parte espiritual da vida e a tentativa de explicá-la de uma forma que seja mais simples possível.  

      “O filme é uma viagem sensorial pelo sul da Itália. Na Calábria a natureza não é hierárquica e lá todos os seres têm alma, sejam humanos, animais, vegetais ou minerais, como o carvão”, assegura o diretor de 42 anos nascido em Milão, que  já em The gift, seu primeiro filme, mostrava a opção por cinematografias diferentes, longe das bilheterias e mais perto do cinema de autor.

 

 

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