Tanto faz a arte marcial | LABORATÓRIO POP


CINEMA

25.08.2010 | 12:28

TANTO FAZ A ARTE MARCIAL

Gerhard Brêda



Um garoto fracote oprimido por valentões e sem uma figura paterna encontra um mestre em artes marciais disposto a passar lições, geralmente de uma forma pouco convencional. Em 1984, essa fórmula gerou Karate kid, um dos maiores clássicos de Sessão da Tarde. Em 2010, a fórmula foi reutilizada, com o reboot da franquia. E ainda funciona. Karate kid é um filme leve e divertido que acerta as mesmas notas do original, mesmo trocando o caratê pelo kung-fu.



No reboot, Dre Parker (Jaden Smith) sai dos Estados Unidos diretamente para a China por causa do trabalho da mãe. Lá, imediatamente se interessa por uma garota, Mei Ying, e se indispõe com os valentões de plantão. Ao tentar defender a menina, Dre leva uma surra, pois os garotos são praticantes de kung-fu. Após uma mal pensada tentativa de vingança, Dre é encurralado e, quando se prepara para ser massacrado, é salvo pelo zelador de seu prédio, Sr. Han (Jackie Chan), que decide treinar o garoto no verdadeiro kung-fu. É possível ver as semelhanças com o original, trocando apenas a arte marcial e os nomes. Os personagens, em geral, são bem similares.



Smith segura bem as coreografias – o garoto é até assustadoramente musculoso para 12 anos – e consegue convencer nas cenas dramáticas. O mais fascinante é que seu timing cômico, especialmente quando está constrangido, é muito similar ao que seu pai, Will Smith, usa. Chan é a melhor escolha possível para substituir o lendário Pat Morita como o mestre. Mesmo sendo mais trágico e amargo que o mestre Myagi, o Sr. Han de Chan consegue passar docilidade e uma sincera afeição pelo garoto. Chan é, sem dúvidas, o artista marcial mais relevante de sua geração.



O kung-fu acaba sendo uma boa troca. Ao contrário do caratê, estilo japonês muito mais contido, essa arte chinesa abusa de cambalhotas, golpes estranhos, voadoras e rasteiras. Na tela, o resultado é, por vezes, assustador: é estranho e inquietante ver uma criança de 12 anos levando uma voadora na cara.



Falta em Karate kid um vilão como foi John Kreese no original. Ele, com sua atitude arrogante e cartunesca, era um rosto odiável, que encaixava perfeitamente com seu dojo de pequenos psicopatas, o Cobra Kai. No reboot, há o insosso Li, que não é realista, nem exagerado, e fica no limbo. Talvez a arte dos bons vilões ridículos tenha morrido nos anos 80. Alguns momentos da trama também são meio deslocados, como a viagem de Han e Dre para um mosteiro de kung fu em uma montanha. Parece até um outro filme dentro do filme, de tão descartável a cena, que coloca Dre e Han em meio ao elenco de O tigre e o dragão.



Com o tom certo de referências ao original, mas mudando o que ficou datado, Karate kid apresenta a fórmula a uma nova geração e diverte, ainda que tenha lá suas falhas. O formato do azarão que, com alguma dedicação e o mentor adequado, consegue superar seus adversários é imortal. Lá pelas tantas, a mãe de Dre dispara: “Caratê, kung-fu, tanto faz”. Realmente. Pode ser um carateca ítalo-americano lutando contra valentões, um negro lutando kung-fu na China ou um nórdico aprendendo capoeira no Pelourinho, tanto faz.

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