PARQUE DOS DINOSSAUROS | LABORATÓRIO POP


CINEMA

05.08.2010 | 19:57

PARQUE DOS DINOSSAUROS

Gerhard Brêda



Não existe nada como Os mercenários em cartaz agora. Um filme como esses só poderia ser concebido, escrito e dirigido por um homem que viveu, nos anos 80 e 90, a crista da onda do cinema de ação. Sylvester Stallone entrega, em 2010, um dinossauro estranhamente familiar, um filme que junta a brutalidade que explorou em Rambo IV com diversos excessos típicos de filmes como Cobra e Comando para matar. Se você acha o herói moderno – o sujeito mirrado e cheio de problemas existenciais – uma doença, Os mercenários é a cura.

Na trama, Stallone é Barney Ross, líder de um grupo de mercenários que conta com Lee Christmas (Jason Statham, principal coadjuvante do filme e divertido como sempre), Ying Yang (Jet Li), Hale Caesar (Terry Crews), Toll Road (Randy Couture) e Gunnar Jensen (Dolph Lundgren). A base do grupo é na oficina de Tool (Mickey Rourke), um mercenário que se aposentou e agora arranja emprego para a equipe. A missão da vez é invadir a ilha de Vilena, na América do Sul, e eliminar o sanguinário General Garza (David Zayas).

Quando vão explorar a ilha, Ross e Christmas encontram Sandra (Giselle Itié), que acaba sendo detida pelo governo. Também descobrem que quem dá as cartas é James Monroe (Eric Roberts), um engravatado americano que comanda o gorila anabolizado Paine (Steve Austin) e o fluxo de dólares que alimenta a ditadura.

O mais incrível é como Stallone seguiu de perto os filmes de ação dos anos 80 na criação de Os mercenários. O emblema máximo é Monroe, um vilão caricato que parece que viajou no tempo. Se até James Bond abandonou os grandes inimigos exagerados em prol de terroristas burocratas e baseados na realidade, cabe a Stallone trazer uma relíquia de volta. Roberts se diverte no papel, cospe todas as falas sem nenhuma sutileza e usa o crachá de malvadão com orgulho.

Uma das metas de Stallone parece ter sido desvincular os atores de seus lendários personagens. O Christmas de Statham é muito diferente de Chev Chelios (de Adrenalina), o Gunnar de Lundgren em nada lembra o sisudo Ivan Drago (de Rocky IV) e o Sr. Church de Bruce Willis é o mais longe que se pode chegar de John McLane (de Duro de matar). Evidentemente, os personagens criados por Stallone não superam estes icônicos heróis, mas isso não se torna um problema pelo status já quase lendário de grande parte dos atores. 

A trama pode ser risível e, em alguns momentos, até um pouco equivocada (todo o arco romântico de Christmas é um mergulho esquisito no drama, mas que acaba valendo por uma boa sequência de luta), mas a ação compensa. Ninguém em Hollywood faz ação como Sylvester Stallone. Em Rambo IV, o ator/diretor mostrou ao mundo os tiros mais brutais da história do cinema e em Os mercenários ele leva a técnica adiante. As balas parecem ter impacto, rasgando, furando e até dilacerando de forma cartunesca os capangas inimigos. Como o elenco varia entre lutadores de vale tudo, luta livre, kung fu e todo o resto, as cenas de luta são bastante diversificadas. Há o estilo de luta cheio de firulas e levezas de Li, contrastando com a agilidade eficiente de Statham. De um lado os agarrões e arremessos de Steve Austin, de outro, os golpes de MMA de Couture.

Mesmo assim, o filme tem uma falha grave: pouca ação. Ou melhor, menos ação do que se esperava. Com o elenco que tinha, Stallone podia ter elaborado mais embates memoráveis, mais tiroteios absurdos, mais coisas impressionantes. Falta em Os mercenários uma cena memorável, lendária. Falta um tiro de arco e flecha explosivo contra um helicóptero (Rambo 3), falta um carro sendo arremessado em um helicóptero (Duro de matar IV). A sequência final é excepcional e é uma das melhores do ano, mas faltou algo lendário. A edição, por vezes, também é um pouco frenética demais, obscurecendo a pancadaria com cortes alucinados.

Se não existe uma cena de ação digna de nota, a já famosa cena da igreja eleva Os mercenários ao status de lenda. Willis media o encontro entre Stallone e Schwarzenegger, que interpreta Trench, um mercenário rival. Os diálogos estão entre os mais brilhantes da carreira de Sylvester Stallone e conseguem unir a realidade com o universo do filme de uma forma hilariante. É uma pena que o encontro destes gigantes não tenha acontecido quando estavam no auge, mas é bom ver o Governator sair da geladeira e disparar seu inconfundível sotaque austríaco mais uma vez. É o sonho de uma geração, que cresceu vendo a Sessão da Tarde, se concretizando, ainda que de uma forma muito mais plácida do que se esperava.

Os mercenários não está no mesmo nível que filmes como Rocky – Um lutador e Rambo: Programado para matar, mas está bem longe de ser um fracasso como Alta velocidade ou Tango e Cash. Stallone faz uma homenagem aos anos 80, com um filme de ação inflado, insano e divertido, que acerta quando não se leva muito a sério. Ao mesmo tempo, ao colocar Jason Statham como seu principal parceiro, Sly parece ter escolhido alguém para passar o bastão e faz a ponte entre o ontem e o hoje, mas sem se esquecer de chutar uns traseiros no caminho. 





*Foto: Divulgação

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