22.09.2010 | 13:09
SURREAL E PERTURBADOR
Carlos Augusto Brandão, de NY
Já era esperado que Tio Boonmee que pode recordar suas vidas passadas, de Apichatpong Weerasethakul, Palma de Ouro no último Cannes, seria incluído na programação do Festival de Nova York, um evento que prima por mostrar o que há de melhor em cinematografias inovadoras e diferentes. Esse é o mínimo que pode ser dito da obra desse diretor tailandês, que retorna ao festival onde esteve em 2004 com Mal dos trópicos, premiado pelo júri também em Cannes, e em 2006 com Síndromes e um século.
O filme foi exibido nesta terça (21) numa sessão prévia para a imprensa e recebido com muitos aplausos ao seu final. A inusitada e surreal história segue Tio Boonmee, o personagem título, um velho senhor que está morrendo e conta seus últimos dias de vida. Ele tem insuficiência renal aguda e, prevendo a proximidade da morte, se retira para a floresta onde relembra suas vidas passadas e recebe a visita da mulher morta e do filho desaparecido, este transformado em animal.
Mal dos trópicos, por sinal, também foi feito num clima fantasmagórico e com cenas onde há um animal, no caso, um tigre, que toma a aparência física de uma pessoa e a história estabelece um diálogo íntimo com o sobrenatural, o lendário e o cinema fantástico. Em ambos os filmes, as cenas remetem a uma lenda na Tailândia, onde se diz que um homem pode se transformar em um animal, selvagem ou não.
Além do cinema estranho e inovador que pratica, o diretor também tem feito incursões nas artes plásticas com vídeo instalações como Phantoms of Nabua (2008) e Primitive (2009). Por sinal, é um dos artistas convidados para a 29ª Bienal de São Paulo, que acontece de 25 de setembro a 12 de dezembro.
Após a projeção, um tranquilo e sorridente Apichatpong conversou com a imprensa sobre as origens do filme, a receptividade que espera e sobre a originalidade do seu cinema. Uncle Boonmee... faz parte também da seleção do Festival do Rio, que começa nesta quinta (23) e segue até 7 de outubro.
“A idéia de fazer Uncle Boonmee... surgiu quando ganhei um pequeno livro de um monge budista. Embora seja pouco volumoso, descreve com detalhes e de forma fascinante as vidas passadas do autor. A inspiração também veio da minha região natal, com sua vegetação, montanhas e crenças animistas, e ainda das paisagens do México para onde já viajei duas vezes”, contou Weerasethakul, que admite um viés biográfico na história.
“Claro que todo trabalho é um pouco biográfico. De fato o filme fala de uma coisa meio surreal que faz parte das minhas memórias, pois passei parte da minha vida naquela região. Mas descreve também uma trajetória espiritual que, ao mesmo tempo, inclui uma decadência física. O tempo dele se esgotou e suas várias encarnações atravessam a floresta em busca de uma verdade interior”, filosofou o diretor se referindo ao misticismo surreal de seu filme.
Weerasethakul reconhece que, mesmo considerando a especificidade da cultura tailandesa, seu cinema é diferente, mas encontra outras explicações para o fato. “Primeiramente, eu desenvolvo meu trabalho à margem dos estúdios e pertenço a outro mundo, a outra cultura. Mas talvez haja também uma expectativa de que os filmes da Tailândia tenham que ser sempre filmes de ação ou de imagens exóticas. A própria mídia tem divulgado o cinema do meu país dessa forma”, explica Weerasethakul, admitindo que Tio Boonmee... talvez seja um pouco mais impenetrável que os anteriores.
“Acho importante incentivar a diversidade, embora reconheça que Uncle Boonmee... é mais abstrato do que eu inicialmente pretendia fazer. Apesar disso, acredito que vai encontrar o seu público, mas cada filme que faço desperta uma recepção diferente. Alguns espectadores se fecham no que crio, outras assistem e compartilham - as coisas devem seguir assim. Não devo forçá-los a entender ou buscar interpretações para o meu trabalho”, afirma o diretor, que é filho de um casal de médicos e se formou em arquitetura na Tailândia.
“Venho de uma família sem tradição cinematográfica e de um país distante. Mas, embora enraizado na minha cultura, acho que o filme é universal na sua proposta de mostrar um ciclo de existência e amadurecimento interior”, afirma.
Arte e sentimentos
O cineasta iraniano Abbas Kiarostami foi a outra atração desta terça (21) com seu novo trabalho, Copie conforme, um ensaio sobre a reprodutibilidade das obras de arte. Ambientado na Itália – e falado em inglês, francês e italiano – o filme parte de um encontro entre Elle, uma francesa e dona de um antiquário (Juliette Binoche, melhor atriz em Cannes) e James, um escritor britânico (interpretado pelo barítono William Shimell).
Ele chega a uma cidade da Toscana para uma palestra sobre o impacto do olhar na avaliação da autenticidade de uma obra de arte e ela o convida para um passeio na região. Durante a parada em um café, a proprietária da casa os confunde com um casal de cônjuges, o que não é corrigido por Elle, que passa a brincar com o fato.
James entra no jogo, o filme toma o rumo de uma história de amor e enseja um debate sobre arte e como o homem e a mulher se vêm um ao outro, enfim, o que é falso e o que é verdadeiro, tanto na vida como na arte.
Para Kiarostami, o valor de uma obra de arte e de um ser humano depende do olhar de cada pessoa. “Dependendo da forma como cada um o vê, um objeto comum pode ser muito mais original do que parece. Mas o relacionamento humano é o único campo em que a experiência passada não conta, não se aprende nada com o passar do tempo”, opina o diretor, que está de volta ao NYFF, onde em 2002 apresentou Dez - que segue uma mulher no seu carro em 10 sequências, cada uma mostrando momentos que evidenciam a situação feminina no Irã.
O diretor, que tem enfatizado em entrevistas que a situação no Irã e a censura contribuíram para que Copie conforme seja praticamente um filme estrangeiro – no elenco, locações e no dinheiro da produção –, ressalta que falar de arte é melhor do que falar de política.
“É mais emocionante, mas não se pode negar que toda arte é política”, ressalva lamentando que talvez seja difícil mostrar seu filme no Irã. “Mas o poder político passa; a arte, ao contrário, é permanente. Apesar das dificuldades, da censura e da insegurança, pretendo rodar meu próximo filme lá”, antecipa o diretor nascido em Teerã.
Foto: Divulgação
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