Sensação no lugar da explicação | LABORATÓRIO POP


CINEMA

27.07.2010 | 14:10

SENSAçãO NO LUGAR DA EXPLICAçãO

Breno Barreto



"É mais difícil fazer as pessoas sentirem alguma coisa do que simplesmente explicá-la": é assim que Ricardo Calil define o desafio que ele e Renato Terra encontraram na realização de Uma noite em 67, que entra em cartaz nesta sexta (30). Eles queriam que o público se sentisse nas cadeiras do Teatro Paramount, naquela noite mítica da história da música brasileira em que subiram ao palco nomes como Caetano Veloso, Chico Buarque, Edu Lobo e Gilberto Gil.

 

As plateias que já viram o documentário - dos festivais É Tudo Verdade, CineOP e Paulínia - parecem comprovar que o desejo dos diretores foi atendido, ao menos em parte - parte do público canta as músicas baixinho e ri com gosto das imagens de arquivo e depoimentos de artistas que participaram na seleção final. Quando exibiram o filme no CineOP, Ricardo Calil e Renato Terra conversaram com o LABORATÓRIO POP sobre a realização do documentário e expectativas para o futuro do filme e de suas carreiras no cinema.



LABORATÓRIO POP: A afinidade de vocês surgiu a partir da música ou do cinema?


Renato Terra: A gente se aproximou quando o Ricardo era meu chefe. Ele já era crítico de cinema e nós falávamos bastante sobre isso, mas eu ainda não tinha muita ligação com o cinema. Eu já tinha tido a ideia do filme na monografia da faculdade, mas aí resolvi chamá-lo pra fazer o filme por causa da relação dele com o cinema.

Ricardo Calil: Foi uma junção de alguém que estava mais mergulhado na música como tema com alguém que estava inserido no universo do cinema como crítico.



Ricardo, você terminou seus estudos em cinema em 2001, em Nova York, e no entanto esse é seu primeiro filme como diretor. O que te fez levar tanto tempo para passar pra trás da câmera?


RC: Eu já havia tido algumas experiências acidentadas como assistente de direção, mas muito menos marcantes do que essa. Acabei me envolvendo com a crítica depois da universidade, de forma natural, e só agora cheguei com intensidade à realização. Essa sim foi - e está sendo - uma experiência forte.



E quando começou de fato esse projeto?


RC: Depende do que você chama de começo. A ideia nasceu em 2003, mas o filme começou a nascer de verdade quando, em 2005, nós conversamos com o João Moreira Salles, que foi quem abriu as portas pra gente. Aquele foi o papo fundamental pra realização do filme. Mas desde esse momento até a gente começar a filmar passaram-se três anos, o que - no Brasil - não foge à regra.

RT: O fato é que a gente deu muita sorte de receber o "sim" do João e poder usar a estrutura da VideoFilmes.

RC: Mesmo porque nós somos estreantes. São poucos os que conseguem de cara uma estrutura tão boa por trás. Apesar de termos levado sete anos da ideia ao lançamento, dá pra dizer que somos privilegiados. Foi demorado mas deu tudo certo.


Como foi para vocês, que nasceram depois de 67, resgatar esse fenômeno de público e colocar nas telas? É uma realidade distante?

RT: Música brasileira sempre fez uma parte muito importante na minha vida. Eu me casei ao som de música brasileira, tenho uma ligação muito forte com ela. Com os festivais, especificamente, eu comecei a ter contato na faculdade. Uma professora minha falava deles tão apaixonadamente que aquilo deu um estalo em mim. Mas eu só fui ter uma real dimensão do que aquilo significou para as pessoas na época depois das primeiras exibições do filme. Pessoas emocionadas, chorando - foi aí que eu entendi melhor o sentimento com o qual a gente estava lidando. Toda vez que a gente fraquejava durante a montagem, a gente olhava as imagens do festival e aquilo dava forças novamente.

RC: Eu acho que, grosso modo, são dois os públicos desse filme: o das pessoas que viram aquilo na época e o das que se interessam por essa história mas, como a gente, não estavam lá. A reação de quem viu foi muito emocional e intensa, mas a das pessoas jovens também nos surpreendeu. Elas diziam que era como se elas estivessem lá. E foi muito interessante ouvir isso porque, ao longo do processo de fazer o filme, nossa intenção foi justamente privilegiar essa experiência do festival, muito mais do que informações. A gente não se preocupou em ser didáticos - nosso desejo era fazer com que as pessoas se sentissem como o público da época. É um filme mais ligado aos sentidos do espectador do que a uma necessidade de explicações. Esse recorte que foi sendo feito é, com certeza, um dos trunfos do filme.
 


Os festivais ficaram marcados por algumas cenas isoladas, como a do Sérgio Ricardo quebrando o violão. Ir além do simbolismo dessas imagens também foi um desejo de vocês?


RC: Sem dúvida. É uma cultura do YouTube - é provável que muita gente tenha visto os dez segundos em que o Sérgio Ricardo quebra o violão e o atira na plateia. O que nós fizemos foi colocar sete minutos de vaia a ele, sem cortes. O que a gente queria era, em vez de explicar a cena, que as pessoas sentissem a angústia que ele estava sentindo naquele momento. Não é preciso recorrer a um especialista pra explicar aquilo, como muitas vezes o documentário faz. Foram opções que nós fizemos quando, durante a montagem, descobrimos qual era a embocadura do filme.

Ricardo, a sua formação como crítico influenciou de alguma maneira na direção do filme?

RC: Eu sinto que a gente fez uma primeira montagem que eu como crítico não necessariamente aprovaria. Justamente porque ela era mais didática. Mas na época eu achava que era aquilo mesmo que o filme pedia. Depois, muito por conta da conversa com o João Moreira Salles, a gente chegou a um filme que me agrada muito como crítico. É difícil saber o que eu trouxe de uma experiência pra outra, mas acho que eu tentei evitar certas facilidades que eu condenaria como crítico. Tentamos não optar pela solução mais fácil. Mas não sei até que ponto isso tem a ver com o fato de eu ser crítico - acho que tem mais a ver com um processo de conversas e trabalho coletivo, principalmente com o Renato e a Jordana, nossa montadora.

RT: E também com o João e o Eduardo Coutinho, que teve a genorosidade de ver o filme algumas vezes.

RC: Eu agora estou pensando em como vai ser o sentido inverso, em como essa experiência vai influenciar meu trabalho como crítico, fora o fato de eu não poder mais falar mal de documentário brasileiro. Acho que o que ficou mais claro pra mim foi como o processo de fazer um filme exige que cada detalhe seja extremamente discutido. Não é como jornalismo, em que você senta e escreve. Tudo tem que ser muito pensado, o que me traz um respeito maior pela direção e talvez mais generosidade com os diretores. Uma coisa é o filme com que você sonha e outra é o que você faz.

RT: Pra mim, o filme ficou muito melhor do que previa minha expectativa inicial.

RC: É, acho que ficou um filme mais simples do que a gente tinha fantasiado, mas ficou mais essencial. Na verdade, é só depoimento e arquivo, mas acho que a gente chegou a algo essencial.



Vocês já têm algum projeto para o futuro?

RC: A gente precisa seriamente conversar sobre isso. Dizem que, se não engatar um filme no outro, a coisa desanda. Nós temos vontade sim de fazer outros filmes, mas temos conversado muito por alto.

RT: Eu quero continuar fazendo documentários, provavelmente sobre música brasileira. É um assunto muito amplo. Dá pra fazer muita coisa legal. E não tenho interesse em fazer ficção, pelo menos por enquanto.

RC: Eu gostaria de fazer ficção. Mas acho que antes seria bom a gente fazer mais uns dois ou três documentários para apanhar mais um pouco. Tem que apanhar mesmo.

 

 

Foto: Wilson Santos/CPDoc – JB/Divulgação 

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