O AMOR SECRETO DE MUSSOLINI | LABORATÓRIO POP


CINEMA

13.08.2010 | 14:37

O AMOR SECRETO DE MUSSOLINI

Carlos Augusto Brandão



Vincere, novo filme de Marco Bellocchio, narra de forma testemunhal e num tom operístico todo o horror, a crueldade e a violência do fascismo na Itália de Benito Mussolini. O filme, que estreia nesta sexta (13), trata a trágica história de Ida Dalser (Vittoria Mezzoggiorno), grande amor do início da carreira política de Mussolini, com quem teve um filho, Benito Albino Mussolini, nunca reconhecido. 

 

Quando os dois se conhecem em Milão, às vésperas da Primeira Guerra Mundial, o Duce militava no Partido Socialista com apoio de Ida, inclusive financeiro, como foi o caso da edição do periódico Il Popolo d’Italia. Mas, na medida em que se afasta das ideias progressistas, se projeta como líder fascista e assume outros romances, a relação dos dois entra em crise.

 

O filme é contado sob a perspectiva de Ida e sua obsessão por Mussolini. Como insiste em ser reconhecida como mãe do seu filho — proclamando esse fato até para o Papa —é internada à força num hospício, onde permaneceu por mais de 11 anos, enquanto seu filho foi enviado a um instituto de doentes mentais.

 

Filippo Timi interpreta o jovem Mussolini e, num segundo momento, vive o filho de Ida com o Duce. Numa entrevista especial durante o último Festival de Nova York, Bellocchio disse que tomou conhecimento da história quando assistiu, há alguns anos atrás, ao documentário Il segreto di Mussolini, de Fabrizio Laurenti. “De imediato fiquei admirado com essa mulher extraordinária. Na história do anti-fascismo italiano, os personagens de caráter sempre pertencem ao partido de oposição. Ida, ao contrário, é uma mulher forte que apoiou Mussolini desde o início, e isso me pareceu uma boa razão para fazer o filme”, afirma Bellocchio, complementando que, por circunstâncias políticas, adiou o projeto, embora já em 1980 tivesse elementos e bastante acesso ao material da vida de Ida. 

 

“Em Trentino, onde ela viveu, as pessoas lembram com detalhes a tragédia, que foi deixada de lado na versão oficial. Além disso, há dois livros com muitos documentos e depoimentos de testemunhas: Mussolini’s wife, de Marco Zeni, e The Duce’s secret son, de Alfredo Pieroni. Esse material inclui também várias cartas que Ida escreveu para altas autoridades, para o Papa e para o próprio Mussolini”, destaca.

 

A utilização do material de arquivo, por sinal, é um dos pontos altos do filme, numa mescla em perfeita unidade narrativa para a trama. “Procuramos utilizar as imagens de arquivo de tal maneira que elas formassem um corpo homogêneo com o filme e não fossem inseridas como num documentário com caráter apenas informativo”, explica o diretor, que consegue transmitir, em forma testemunhal, toda a crueldade e a violência do fascismo.

 

Bellocchio acredita que o comportamento e a coragem de Ida foram fundamentais para que a chama de sua história se mantivesse acesa.  “Ida foi uma mulher que não se conformou com a rejeição de Mussolini e jamais aceitou um acordo. Certamente, se tivesse aceitado, poderia ser generosamente recompensada, como aconteceu com outras amantes dele. Mas se negou até o fim a calar com relação à verdade. Sua atitude inabalável e a farta documentação sobre o fato contribuíram para que essa página da história não tenha se perdido, embora o regime fascista tenha feito todas as tentativas para destruir os traços do caso”, acusa o consagrado diretor de 71 anos, que com Vincere chega ao seu 33º longa.

 


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