Abrafin no foco | LABORATÓRIO POP


COMBUSTÃO

13.03.2010 | 16:16

ABRAFIN NO FOCO

Gerhard Brêda e Philippe Noguchi

Os microfones estão abertos. Ouvimos quatro bandas sobre o que pensam da curadoria de bandas da Abrafin. Durante a semana, o LABORATÓRIO POP recebeu algumas dezenas de e-mails sobre a panela que virou a Associação Brasileira de Festivais Independentes. “A gente é obrigada a tocar em Cuiabá ou Goiânia quando eles convocam. Se não topamos entramos numa lista negra. Esses caras são patéticos”, diz um integrante de um grupo do São Paulo que não quer se identificar. Mas há muitas vozes dissonantes. Para os que já passaram por lá, panela é só para quem nunca esteve. Estabelecida no Recife, a  Rockstar verbalizou em música, gravando A Abrafin não liga pra mim. Para Capitão Rockstar (alter-ego do líder e vocalista da banda, que, tal qual um super-herói, mantém sua identidade secreta), tudo se resume a muita política e pouca música.

“A rede de relações da Abrafin ficou bastante restrita, excluindo potenciais parceiros de trabalho em detrimento de relações pessoais”, afirma o cantor. “Na maioria, são artistas e bandas sem qualquer apelo popular , em festivais que se fazem por meio de subsídios públicos ou privados. Nada contra o incentivo, mas sou do tempo em que artistas e produtores sobreviviam de bilheteria. Roqueiro transformado em funcionário público é coisa pra fazer o pobre do Raul Seixas se remexer no túmulo”.

O vocalista continua ferino:

“Não tem quem me faça engolir o Black Drawing Chalks. São bons instrumentistas, mas o conjunto da obra deles consegue ser quase tão tosco quanto o meu. Não tem como a gente não tirar sarro de uma associação que eleva essa banda à categoria de ‘sensação do rock nacional’. Na estrada aprendemos a não esperar muito de ninguém, mas a falta de suporte da Abrafin não é prejuízo só para a minha banda, mas para muitas outras que produzem com qualidade e permanecem às margens dos projetos desenvolvidos por ela”.

A banda pernambucana não é a única que taca pedra. Os curitibanos da Terminal Guadalupe dizem que a Abrafin é um clube fechado e que não aceita críticas. O vocalista, Dary Jr., conta que em uma conversa informal com Pablo Capilé, o vice-presidente da Abrafin, comentou que as bandas eram sempre as mesmas nos festivais e que não concordava com a postura de não ajudar as bandas com o custo das passagens para festivais distantes. Ele diz que Capilé não teria aceitado bem as críticas. “O tom da conversa ficou hostil e, nas entrelinhas, ele deu a entender que nossa banda era preguiçosa”, disse Dary Jr. “Desde então, nós fomos, de certa forma, banidos dos eventos filiados à Abrafin”. 

Gabriel Thomaz, líder do Autoramas,  banda onipresente no circuito Abrafin, é dissonante. Ele revela nunca ter deixado de receber ajuda de custo: sempre teria sido bem pago pelos festivais dos quais participou. “Se existe alguma máfia que coloca as mesmas bandas nos festivais ela está na curadoria”, ele garante. “Cada festival é um festival. A Abrafin tem festivais de música clássica e música regional. Sei que nunca vou tocar nestes. Cada festival tem suas bandas favoritas, assim como eu tenho e todos têm. Se os festivais colocam as mesmas bandas, talvez seja porque estas são bandas com público cativo”, diz.

O Black Drawing Chalks é outro eleito. Já tocou em boa parte dos 42 festivais da Abrafin, entre eles Porão do Rock (Brasília/DF), Vaca Amarela (Goiânia/GO), Goiânia Noise , Calango (Cuiabá/MT), PMW (Palmas/TO), Macondo Circus (Santa Maria/RS),  Grito Rock (Cuiabá/MT), Eletronika (Belo Horizonte/MG), Aumenta que é Rock (João Pessoa/PA) e Jambolada (Uberlândia/SP).  Os irmãos Denis e Douglas de Castro, baixista e baterista da banda, garantem que não existem privilégios, mas dizem que a Abrafin participa diretamente da seleção dos candidatos.   

"Convivemos diariamente com o Fabricio Nobre, que está por trás da maioria desses festivais. O Fabricio está sempre viajando e conhecendo bandas, para então convidar para os festivais”, diz Douglas. “É preciso ser uma boa banda, ter um bom show. É isso: tem que trabalhar para poder tocar. Quando começamos éramos ruins e nunca nos chamaram, fomos melhorando e as oportunidades vieram”.

“É claro que essa é uma discussão válida, mas as críticas que são feitas à Abrafin são muito primárias”, rebate Denis, admitindo que a banda já recebe ajuda de custo para se deslocar. “Essa coisa de privilegiar não existe. No fundo eles selecionam as bandas que gostam, as bandas que chegam aos ouvidos deles e isso nem sempre é fácil. Pra tocar no Goiânia Noise ficamos um ano e meio tocando e mostrando material para eles. Foi pedreira chegar lá. Demoramos muito”.

Para Gabriel Thomaz, do Autoramas, as pessoas que falam mal da Abrafin muitas vezes não entendem absolutamente nada de música. Sou a favor da música e sempre que me encontro com o Fabrício (Nobre) conversamos sobre música, não sobre política”, ele diz.

O baixista Denis, em resposta às críticas das bandas à Abrafin, acaba revelando a frágil situação dos festivais: “Tem a questão do público. O Goiânia Noise quase levou um prejuízo gigante no ano passado, porque não levou gente. E a preocupação da Abrafin que as bandas levem público”.
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FORMULE

Postado Por MARCELO DOMINGUES

16.03.2010 | 13:43

Como membro da associação posso dizer uma coisa, poucas foram as bandas que tocaram no Demo Sul sem ajuda de custo, então generalizar esse tópico é coisa de pessoas desinformadas. Outra, cada festival tem autonomia de escolha das bandas e não a curadoria da ABRAFIN, pois essa não existe.... existem sim, vários motivos para uma banda não tocar em festival e o maior deles na minha opinião é a falta de qualidade dessas bandas, as mesmas que sempre reclamam...as bandas RUINS !!!

Postado Por L2K

16.03.2010 | 14:05

errata do leitor: Aumenta que é Rock (João Pessoa/PB) e Jambolada (Uberlândia/MG)

Postado Por L2K

16.03.2010 | 14:06

Panela sempre existiu e sempre vai existir, isso é inevitável. Outra, vocês acham que o Fabrício Nobre, um dos sócios da Monstro, não vai beneficiar as bandas do cast dele? Agora, realmente o que é chato é essa subvenção estatal, ou seja, roqueiro agora é barnabé.

Postado Por RAFAEL ROLIM

17.03.2010 | 02:31

Ando lendo várias críticas de músicos sobre a Abrafin na mídia, normalmente de músicos que não são chamados para os festivais. Meu setor de produção cultural é o audiovisual. Já passei mais de um filme no mesmo festival enquanto outros nos quais sempre quis exibir meus vídeos nunca me chamaram. Olho nos catálogos e vejo que os mesmos diretores estão exibindo filmes ano após ano. Isso é problemático? Não. Opções estéticas fazem parte das curadorias e eu vou continuar desenvolvendo meu trabalho sem agredir ninguém, abrindo meu espaço nestes meios de exibição.\r\nCriticas construtivas são sempre bem vindas, mas o que ando lendo por aí são rancores de músicos que se acreditam gênios enquanto não passam de mais um no gigantesco universo da música independente nacional. Fora que estes caras falam mal na mídia e em seus blogs, sites e afins e depois querem ser selecionados, ganhar cachê, transporte, alimentação, hotel... só falta pedir tietes. Parece que não sabem que existe pessoas por trás das curadorias, e niguém gosta de ser ofendido. Pra mim parece óbvio, e não precisa ser gênio pra peceber isso... no máximo espertinho, mas me parece que estes \"críticos\" não o são.\r\n\"A Abrafin não liga pra mim\". Risivel. Qual será a próxima? \"O Faustão não me chamou\"? Eu também já sonhei com isso. Aos meus 10 anos, quando desisti de ser bombeiro.\r\n

Postado Por ...

17.03.2010 | 14:37

Qual é o apelo popular da banda ROCKSTAR? hahahahaha\r\nNão toca nem tem público em Recife, quanto mais fora. E ainda acha que merece receber cachê e passagens pra tocar em festival. Peloamordedeus. \r\n\r\nNinguém vai obrigar o capitão Rockstar a tocar em Goiânia ou Cuiabá por convocatória, não mesmo. Mas, a partir do momento que a banda confirma sua inscrição pro festival (que tanto fala mal, mas na hora que ninguém tá vendo vai lá e manda a inscrição) e entende os termos dessa inscrição, deixar de ir é no mínimo uma falta de profissionalismo abismal. Mas, na boa, se o Capitão Rockstar não quiser tocar, falta não vai fazer. \r\n\r\n\r\n

Postado Por CAP. ROCKSTAR

17.03.2010 | 15:23

Porque será que todo mundo que faz críticas a essa associação passa a ser sumariamente desqualificado, hein? Será que TODOS os artistas não vinculados a festivais da Abrafin não passam de idiotas à frente de bandas ruins? Isso sim é GENERALIZAÇÃO... Rafael, não me acho sinceramente um gênio, e muito menos dono da verdade... Jamais teceria comentários sobre algo que não conheço, como por exemplo o mercado audiovisual brasileiro.\r\n\r\nAdmiro o trabalho do Autoramas, banda que considero uma das melhores do cenário nacional na atualidade. Chegaram (merecidamente) a um patamar onde não se permite mais que a própria banda custeie despesas de produção - ou faça apresentações sem qualquer tipo de remuneração. \r\nO caso é que NÓS (público) ajudamos a fazer do Autoramas o que ele se tornou após tantos anos de trabalho duro. Eu já curtia o som da banda bem antes dessa conversa mole de “cadeia produtiva” e “novos modelos de produção”.\r\n\r\nO PÚBLICO elegeu o Autoramas, o que infelizmente não ocorre com o Black Drawing Chalks. Peço aqui desculpas aos colegas da BDC pelas críticas - mas nem todo mundo é obrigado a partilhar do mesmo ponto de vista, correto?\r\n\r\nNem sempre, as críticas feitas à associação partem de “pessoas que não entendem absolutamente nada de música”, como afirma o Gabriel - O que a maioria realmente não compreende, é a política de relacionamentos construída pela associação. \r\n\r\nA propósito, já entreguei pessoalmente o disco da ROCKSTAR ao Fabrício Nobre (simpático e atencioso) por no mínimo 03 (três) vezes. Distribuí inúmeras cópias em stands da Abrafin na Feira de Música, reuniões e palestras ministradas por representantes da entidade ao longo de 03 (três) anos. Vai ver minha música é ruim mesmo...\r\n\r\nA-ha e Megadeth devem passar pela minha cidade em breve, e tenho certeza de que o PÚBLICO das duas bandas custeará todas as despesas de produção. Eu fico me perguntando se (reservadas as devidas proporções) - o BDC, a melhor banda do Brasil segundo a Abrafin - teria condições de fazer o mesmo.\r\n

Postado Por JACQUE BITTENCOURT

17.03.2010 | 19:45

Assino embaixo do comentário do Rafael. As críticas são extremamente levianas, de quem não sabe o que diz mesmo.\r\n\r\nE as curadorias são locais, cada festival tem a sua, cada cidade tem seu perfil.

Postado Por CAP. ROCKSTAR

17.03.2010 | 23:51

Em tempo;\r\n\r\nNão construí minha opinião sobre o “modus operandi” das curadorias e festivais de uma hora para outra... Acreditando na boa vontade e nas propostas de colaboração defendidas pela associação e pelos coletivos de um modo geral, inscrevi a ROCKSTAR num ÚNICO festival, o Grito Rock PE. A minha banda NÃO foi selecionada ou convidada para apresentar-se neste, ou em qualquer outro festival vinculado à Abrafin – como quis dar a entender o nosso caro amigo anônimo... Deveríamos comparecer a um evento para o qual NÃO fomos selecionados? Quem quiser pode verificar nossa situação junto ao coletivo responsável pelo evento (Lumo). O que espanta, é essa tentativa absolutamente boba de desqualificação - e depois somos nós (os idiotas com bandas ruins) que carecemos de argumentos... \r\n