09.03.2010 | 17:10
FOCO NOS INDEPENDENTES
Leonardo Rivera
Sou jornalista, mas me tornei produtor em 1996, impulsionado por um convite para ocupar o cargo de “olheiro” na extinta PolyGram, hoje Universal Music. Naquela época ainda existia esse tipo de profissional que, até onde sei, nunca mais existiu na Universal após a minha saída. Assistentes acumularam funções, gerentes e diretores passaram a trabalhar mais e as multinacionais encolhiam – como encolhem até hoje! – a olhos vistos. Como funcionário, lá fiquei até 1998, trabalhando com diversos artistas estabelecidos e ajudando a companhia a enxergar talentos como os de Seu Jorge e Gabriel Moura, os cabeças da então recém-surgida banda Farofa Carioca. Mas, na contramão do que pensava anteriormente, resolvi criar um selo independente, o Astronauta Discos, que ano passado completou 10 anos e este ano apresenta uma série de festas comemorativas ao público, com novos artistas, no palco do Cinematéque, no Rio.
Os selos não estão nadando em dinheiro, pagam seus compromissos com muita dificuldade – contador, advogado, impostos do governo federal - e, uma vez, conversando com o produtor Arto Lindsay, em Nova York, ele me dizia que não achava justo o artista não ser dono de sua própria master, ou seja, sua gravação original, antigamente “bancada” pelas majors. Digo “bancada” porque, na verdade, o dinheiro investido era um adiantamento do próprio artista. A renúncia fiscal das majors era muito grande (hoje não existe mais) e os produtos ficavam caros, havia rios de dinheiro para se gastar com promessas e apostas. Lembro que a banda Squaws, que lancei em 1997, como funcionário da PolyGram ainda, levou para casa R$ 60 mil de adiantamento. Quando isso seria possível nos dias atuais.
Mas não reclamo da mudança de rumos, tanto das majors quanto dos selos. Eu mesmo quando comecei a Astronauta Discos fui apadrinhado pela própria Universal, que emprestava o dinheiro para investir nos produtos. Assim foi por dois anos, quando lancei os dois primeiros CDs dos Autoramas e o segundo da banda Mr Sombra, com participação ilustre de Cássia Eller. Ou seja: ainda havia a política interna das majors de investir em selos, que lançavam tendências, enquanto eles apostavam em padres, sertanejos e produtos de marketing em geral. Hoje, além de essa política interna não existir mais, os selos também não precisam mais se associar à multinacionais. A maior distribuidora independente do Brasil, a Tratore, distribui física e digitalmente, para o Brasil e o exterior, cerca de 120 selos que acumulam muito mais artistas de verdade do que produtos caça-níqueis. Além disso, hoje a Microservice (que era apenas uma fábrica) já distribui produtos e alguns selos maiores (como a Deckdisc e a Biscoito Fino) fazem sua própria distribuição.
Com a pirataria e toda essa dança das cadeiras, executivos e artistas diminuíram de tamanho, mas os selos ficaram com a grata função de lançar artistas de verdade, tendências, e não prender mais as masters de ninguém. Pelo menos esse é o modelo que uso desde 2004, quando o artista passa a ser dono de sua própria carreira e nós, com a força do trabalho, prestamos consultoria e ajudamos os caras a não gastarem seu dinheiro de maneira errada, agregando o valor de ter uma distribuição bacana e uma marca, uma direção artística. Sendo assim, trabalhamos com licenciamento da obra por tempo determinado, o que, na verdade, todos os selos deveriam fazer. Porém, alguns insistem em ficar com a obra do artista. O fato é: se o selo investir dinheiro, ele tem direito a ser sócio do tape-master. Mas, caso o selo faça consultoria e lançamento, a conta vai para o bolso do artista – e a master, também. É mais justo para todos os envolvidos.
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