Regular
Tough love
| Aerosmith
Tough love está longe de ser uma dessas compilações brasileiras descuidadas - até por ter sido feita pela Geffen americana, com alguns fonogramas emprestados do período em que o Aerosmith gravava pela Sony. Mas o subtítulo The best of the ballads não lhe cabe nem com muita boa vontade - afinal, desde quando Sweet emotion é uma balada? E Love in an elevator? Com boas canções como Amazing, I don´t wanna miss a thing e Angel servindo de batedor, o que surge na cara do ouvinte é mais uma coletânea do Aero, com 16 de seus maiores hits.
A coletânea, vai entender, desperdiça uma das maiores baladas lamentosas lançadas pela banda nos últimos tempos, Hole in my soul. E deixa de incluir uma canção que caberia no rol melhor do que Livin´on the edge, Full circle. No mais, trata-se de uma maneira razoável de aproveitar a onda de um grupo cujos fãs não parecem cansar de comprar revistas com eles na capa e de aguardar novos lançamentos.
POR: [Ricardo Schott]
Bom
Ao Vivo- Rock In Rio
| Ira! e Ultraje A Rigor
Uma era que não volta mais - é a sensação que dá, hoje, ao escutar os discos clássicos de bandas como Ira! e Ultraje A Rigor. Juntas num mesmo show (o do Rock In Rio de 2001) e, agora, num CD/DVD, chamam a atenção para o déficit pelo qual vem passando o rock nacional nos últimos anos, em termos de letra, música, arranjos e, em especial, boas ideias. Isso, ainda que a formação do Ultraje não seja das melhores deles (é a que gravou o disco ao vivo 20 anos sem tirar, de 2000, marcada por um virtuosismo excessivo) e que o hoje finado Ira! pareça perdido, anunciando até mesmo Should I stay or should I go, do Clash, dividida por eles e pelo Ultraje, como "uma banda que deve muito à nossa existência" (sic).
O repertório vai de clássicos das duas bandas a canções então novas. Do Ira!, Dias de luta e Envelheço na cidade dividem espaço com a bacana Vida passageira e com a bisonha cover de Teorema da Legião Urbana (do irregular Isso é amor, de 1999), balizando entre antigas e então recentes. O Ultraje manda bala em Ciúme, O chiclete, Sexo e rebate com a boa nova Nada a declarar, fazendo a multidão berrar "cu" com gosto no refrão. Lançado num pacote que inclui também os já manjados DVDs de Paralamas do Sucesso e Cássia Eller no mesmo festival, traz material obrigatório, mesmo não suprindo a ausência do Ira! no mercado - e de mais um disco de inéditas do Ultraje.
POR: [Ricardo Schott]
Bom
The taking
| Duff Mc Kagan s Loaded
O passado punk do ex-baixista do Guns N Roses sempre foi o assunto principal de qualquer entrevista com o músico. E sempre fez com que muita gente enxergasse com mais nitidez outros ares no som do clássico Appetite for destruction (1987), estreia da banda hoje restrita, no que diz respeito à sua formação clássica, ao vocalista Axl Rose. Em The taking, ele embarca numa sonoridade que, se chegasse às lojas nos anos 90, seria complicada de se colocar em caixinhas: grunge, metal, hard rock, punk, etc.
Com a ajuda do violento Terry Date (responsável pelos brutais álbuns Vulgar display of power e The great southern trendkill, do Pantera) traz sons mais cáusticos e deprês do que o que se pode associar ao seu trabalho. Ouve-se isso em músicas como Lords of Abbadon, Executioner's song e Easier lying. McKagan também acena para as poucas rádios-rock que restam no mundo com canções chicletudas como Dead skin e Indian summer.
A julgar pelo conteúdo de algumas letras, o astral do disco diz bem menos ao lado bacana e glorioso de ser um rockstar e mais às consequências dos excessos - e o que dizer de um grupo que se batiza como "drogado" ou "carregado"? Follow me to hell, por exemplo, é quase auto-explicativa, e une climas e melodias pesadosao extremo. Quer mais? Cocaine carrega nas tintas de um dos mais autrodestrutivos vícios ligados ao louco starsystem dos anos 70 e 80 ("alguém vai pagar por isso/eu odeio o mundo hoje" são dois dos versos menos rancorosos). Esqueça o binômio deprè-excitação do Guns - a coisa aqui é mais complicada.
POR: [Ricardo Schott]
Bom
Hard knocks
| Joe Cocker
Sumido do mercado desde Hymn for my soul (2007), o veterano cantor, no Brasil, é mais conhecido por duas gravações que fez de músicas já conhecidas - With a little help from my friends, de John Lennon e Paul McCartney, e Unchain my heart, clássico do repertório de Ray Charles. E as duas músicas, gravadas em épocas diferentes de sua carreira (uma nos anos 60, outra lá pelos 80), solidificaram a imagem pública de sua música ao redor do mundo. Isso apesar de Cocker acumular uma discografia enorme e ainda ter muitos outros hits e álbuns como Mad dogs and enslighmen (1970).
O próprio Cocker andou dizendo em entrevistas que acha natural que os fãs esperem que, a cada disco, venha uma torrente de covers e canções conhecidas retrabalhadas. Hard knocks, lançado no ano passado e agora editado no Brasil, é a contramão: regrava apenas uma impensável música das countrywomen Dixie Chicks, I hope. Entre gospels, souls e rhythm n blues (alguns prontos para tocar em rádios de perfil nada adulto), as outras nove músicas passaram pelas mãos do produtor Matt Serletic - responsável por Supernatural, redentor disco do guitarrista Santana, de 1999 - e de seus parceiros. No acompanhamento, o próprio Serletic se encarrega das programações e divide tarefas com músicos de aluguel como Josh Freese (bateria) e o célebre Ray Parker Jr (guitarra). A renovação sonora de Cocker traz para dentro de seu universo sons como os que ele gravava nos anos 80 (Runaway train), blues setentistas com nova roupagem (Hard knocks), canções desesperadoras (Unforgiven) e pelo menos um hino de emocionar (Thankful).
POR: [Ricardo Schott]
Excelente
The ghost who walks
| Karen Elson
"A verdade está na caspa e não no shampoo", diziam os irmãos Marcos e Paulo Sérgio Valle num curioso verso da canção Pigmalião 70 - feita como tema de abertura para uma novela global de 1970 cujo personagem principal, veja só, era um suburbano chucro e fora de moda que era apresentado às belas modelos e às festas da alta sociedade. Modelo transformada em cantora, compositora e instrumentista - e mulher de roqueiro, Jack White - Karen Elson pode até não ter escutado a canção. Mas faz do verso uma espécie de epígrafe não-assumida de seu primeiro disco, The ghost who walks.
Como na tal música dos brothers bossanovistas, Karen prega que "a verdade está na sujeira/e não em sua gaiola dourada, com sua colher enferrujada" (The truth is in the dirt). Fala sobre como é ter seu amado roubado por uma mulher "cujos truques de magia negra enfeitiçaram seu coração" (Cruel summer). Versa solene a respeito de segredos que vai levar para o túmulo (The birds they circle). Põe clima mortal numa canção country de ninar (The last laugh). O clima une blues, country, soul e toques lisérgicos. E lembra o das investidas cantantes de Marianne Faithful, modelo desposada por Mick Jagger nos anos 60 e que se tornou cantora. Não por acaso, a (agora sim de verdade!) epígrafe do disco é uma frase da escritora francesa Anaïs Nin, que afirma que "o amor nunca morre de causas naturais". Detalhe (entenda como quiser): Anaïs, em qualquer biografia respeitável, tem vida própria mas não escapa do epíteto "mulher de Henry Miller". E o mesmo já rola com Karen Elson e seu consorte Jack White.
Não importa que Karen esteja casada com um roqueiro que trabalha feito um jumento e não tem a mesma fama de "limpa-trilhos" que Jagger tinha (e tem). A temática do disco traz estranhamento, inadequação, magicismo e tristeza, mas sem lambeção de chão. E isso em excelentes canções, como as já citadas, o bolerinho Pretty babies, o country docinho e espacial Lunasa e a etérea 100 years from now - esta, com quase um minuto só de voz-e-piano, clima de valsinha lisérgica e qualidade de gravação de single de 78 rotações velho. Inesperadamente, um candidato a disco do ano.
POR: [Ricardo Schott]
Regular
Quinze
| Jota Quest
POR: [Ricardo Schott]
Excelente
Queens of the stone age
| Queens Of The Stone Age
POR: [Ricardo Schott]
Bom
All you need is now
| Duran Duran
Abençoados pelo (talvez) desejo de retornar ao passado e ajudados pelo produtor Mark Ronson, grande fã da banda, Simon Le Bon, Nick Rhodes, John Rhodes e Roger Taylor voltam a dizer a que vieram em All you need is now, disco que, inicialmente, traria influências da cena atual de música eletrônica e dance music. Acabou saindo um bom disco de rock dançante. Há toques eletrônicos em canções como a faixa-título, Blame the machines, Safe (In the heat of moments) - esta, com vocais de Ana Matronic, do Scissor Sisters - e The man who stole a leopard. A marcação cerrada de guitarra-baixo-bateria que marcou canções como Hungry like a wolf volta em boa forma e os refrões lembram, por diferentes caminhos, o passado irretocável do grupo. Dá até para enganar que se trata de alguma banda nova, mas é apenas um grande retorno de uma banda que já foi gigante. E ameaça voltar a ser.
POR: [Ricardo Schott]
Bom
Crunching/Quiet on the set
| Bruno Lara
Guitarrista carioca escolado no jazz, no blues e no rock, Bruno Lara traz duas faces diferentes de seu trabalho, em dois CDs. Em Crunching, oferece um lado mais rock n roll e pesado, em músicas como a faixa-título, Hey Jeff, Searching for love e Funk Lara. Já em Quiet on the set, parte para uma faceta mais experimental, jazzy e quase progressiva, cabendo músicas autorais como a faixa-título e Mary dance, acenos aos sons nordestinos em A guitarra de Ogum e releituras sui generis como Nessun dorma, trecho da ópera Turandot, de Puccini.
Aliás, Jeff Beck já não havia relido a mesma música em seu mais recente disco, Emotion and commotion, lançado no ano passado? Pois é, e ainda por cima Lara traz uma música chamada Hey Jeff, que não tem como não ser vista como um tchauzinho ao chamado guitarrista dos guitarristas, cujos álbuns mais experimentais e ricos em referências (como o clássico Blow by blow, de 1975) dão pinta em boa parte das músicas dos dois discos. No geral, duas boas surpresas.
POR: [Ricardo Schott]
Regular
Hot sauce committee pt. 2
| Beastie Boys
Nem mesmo uma trajetória ilibada de boa convivência com outras etnias pode remover totalmente o racismo das próximas palavras: rap não é coisa de branco. Claro, Eminem é um cara talentoso (é cria, afinal, do motherf***n’ doctor, Dr. Dre) e todos demos saudáveis risadas de Vanilla Ice nos anos 90, mas, no geral, parece que os caucasianos não conseguem pegar o jeito das rimas rápidas, das batidas pulsantes e da atitude. Outra exceção à regra foram os branquelos Michael “Mike D” Diamond, Adam “MCA” Yauch e Adam “Ad-Rock” Horovitz”, que formaram o Beastie Boys e fundiram rap ao heavy metal nos anos 80, scratches e guitarras, beats e baterias. Em 2011, os moleques já são homens feitos, quarentões, e embora mantenham fragmentos do delivery, perderam o punch. Hot sauce committee pt. 2 é, por vezes, preguiçosamente eletrônico e sem vigor, como um disco dos Beastie Boys não deveria ser.
As primeiras faixas enganam. Make some noise (que tem um clipe sensacional forrado com celebridades e protagonizado por Danny McBride, Seth Rogen e Elijah Wood) e Nonstop disco powerpack, com baterias reais, scratches criativos e linhas de baixo pulsantes, parecem preparar terreno para faixas pesadas, como Sabotage ou No sleep till Brooklyn, ou algo que estreite os limites entre rock e rap. Quase nada disso por aqui. OK e Too many rappers(com participação de NAS) não são tão diferentes de qualquer faixa de hip hop decentemente produzida atualmente.
As guitarras eventualmente dão as caras, pesadíssimas, em Say it, que parece samplear, distorcendo, puxando e retorcendo, Myxomatosis, do Radiohead. Microfonias, scratches e algum semblante dos vocais divertidos dos anos 80 aparecem, mas não espere um Fight for your right (To party). São senhores, não moleques, no microfone, y’all.
Quando o rock volta, em Lee Majors come again, o rap parece sair para ir ao banheiro, com uma cadência de rimas que pouco lembra o estilo icônico de Ad-Rock, Mike D e MCA nos bons tempos. A faixa soa como um punk rock esquisito, com uma letra levemente acelerada. Em Here’s a little something for ya, o trio parece mais disposto a metralhar as rimas, mesmo que a música não seja nada de mais.
Hot sauce committee pt.2 é a sequência de um disco que nunca saiu, pelo menos por enquanto. Planejado para ser lançado em 2009, o disco foi adiado quando Yauch descobriu ter câncer linfático. Em um golpe embasbacante na lógica, os Beastie Boys decidiram manter a data da parte 2, mesmo adiando indefinidamente a parte 1. Vá entender. O fato é que o álbum é bastante diferente do que se espera dos Beastie Boys. Muito mais eletrônico, o disco se aproveita mais das ideias gerais do rock e do heavy metal do que de seus riffs e instrumentos. O trio está cansado, apenas ocasionalmente lembrando os excelentes rappers que eram nos anos 80. Não dá para dizer que é ruim – é um disco de hip hop que consegue soar único em um mar de mesmice – mas também é difícil recomendar. Resta esperar para ver se a parte 1 de Hot sauce committee consegue trazer a nitroglicerina sônica do trio para os anos 2010
POR: [Gerhard Brêda]
Fraco
The definitive Spitfire collection
| Uriah Heep
Há muitas bandas dos anos 60 e 70 que ainda estão na ativa e muita gente sequer desconfia. O Uriah Heep, formação de hard rock do fim dos 60, é uma delas - lançou inclusive seu último disco, Into the wild, agora mesmo, em abril de 2011. De formação mutante, passou por mudanças também em seu som, que de um heavy-prog bacanudo, poeirento, viajante e místico, foi baixando a guarda até se tornar um hardzinho qualquer nota lá pelos anos 80/90. A demonstração disso está aqui. Com uma capa que causa risos se comparada às de clássicos como Salisbury (1970) e Demons and wizards (1972), a coletânea The definitive Spitfire collection traz as canções dos três discos lançados pelo grupo por intermédio do selo independente Spitfire, em uma fase mais obscura.
A fase mais fraca da banda rendeu algumas músicas interessantes (Dream on, Between the voices) e uma grande maioria de canções que serviam para, no máximo, mostrar que, com Bernie Shaw (vocais), Mick Box (guitarra), Phil Lanzon (teclados), Trevor Bolder (baixo) e Lee Kerslake (bateria), o grupo estava ao menos vivo. Em termos comparativos, negócio ruim para o grupo - mas excelente para os fãs - é a inclusão de músicas antigas regravadas para o disco ao vivo Spellbinder (1998), como Stealin, Easy livin, Wizard e Devil s daughter. Aí, dá tudo certo.
POR: [Ricardo Schott]
Bom
Wasting light
| Foo Fighters
Wasting light quer conquistar o ouvinte com um soco na cara. Bridge burning, a faixa que abre o novo disco do Foo Fighters, é pesada, distocida, berrada, cheia de riffs. Nesse batuque de tough love, Dave Grohl e sua trupe conduzem o resto do álbum. Em tempos de que o rock é feito por moleques magrelos e andróginos brincando com sintetizadores, é bom ver um cara como Dave Grohl – barbudo, carregando nas distorções, ocasionalmente pançudinho – tomando as rédeas do negócio. “É assim que se faz, moleque”, parece dizer Grohl a essa geração.
Não que o som de Wasting light seja original. É, na verdade, uma fusão a ferro e fogo do Them Crooked Vultures – projeto de Grohl com Josh Homme e John Paul Jones – com o som que o Foo Fighters vinha arrastando pela carreira, um pós-grunge meio pop. Músicas como Rope, inclusive, mesclam as duas vertentes: versos pesados, abusando de riffs e refrões chiclete. E a mistura cai muito bem. O problema é quando algum lado pesa demais, como em White limo, que mergulha em um peso que soa alienígena no contexto do disco.
Arlandria é um experimento de sucesso na fusão de um rock mais clássico como o do Them Crooked Vultures com o formato do Foo Fighters. Soa como um possível hit, se virar single. Não está predestinado a ser um Learn to fly ou Everlong, mas nenhuma música do disco parece trilhar esse caminho. These days segue com um rock quase caipirão, mezzo Alabama, mezzo domesticado e globalizado, com um refrão a la Foo, um pop distorcido embalado pelos berros de Grohl
Dave Grohl soa afiado tanto nos vocais mais tranquilo quanto nos habituais berros. As linhas de guitarras seguem tanto a escola clássica do rock anos 90/00 do Foo Fighters quanto assumem uma postura mais anos 60 e 70 em alguns riffs – como o que abre Back and forth – e algumas distorções pesadas.
O fim do disco reserva espaço para a boa baladinha vintage I should have known e a inspiracional Walk, que funciona como uma versão malvada de Times like these. No geral, a obra é coerente, sem ser monótona. Não reinventa a roda, mas mostra que ainda há espaço para cojones no rock, mesmo em uma era de calças skinny compressoras, cabelos estrategicamente bagunçados, sexualidade ambígua e auto-tune acima do recomendado pela OMS. Dave Grohl, obrigado por sua existência.
POR: [Gerhard Brêda]
Excelente
Perfil
| Legião Urbana
A coletânea Mais do mesmo, lançada pouco depois da morte de Renato Russo, em 1996, permanecia sendo a única compilação da Legião Urbana - e chegou a ser anunciado que ela ficaria apenas um ano em catálogo, o que não aconteceu. O volume dedicado à banda da série Perfil, no entanto, traz um atrativo para os fãs, por ter sido organizado a partir das escolhas de milhares de seguidores do grupo, através do site oficial da Legião.
Levando em conta o número de hits da banda brasiliense, seria mais fácil a Som Livre fazer como fez com os Paralamas do Sucesso e investir numa coletânea em dois volumes, misturando hits e canções menos famosas. Não foi o que aconteceu e Perfil - lançado numa época em que, além dos 15 anos de morte do vocalista, Que país é este aparece todos as noites no intervalo da novela das 21h Insensato coração - limita o universo do grupo a 14 canções, cabendo retratos de época como Será, Faroeste caboclo e Tempo perdido, a introspecção de temas como Vento no litoral e Quase sem querer, a barra pesada de Metal contra as nuvens e o romantismo de Eduardo e Mônica. Curioso notar que, como amostra do gosto médio dos fãs, o lado punk e sujo de canções como Metrópole e Baader-Meinhof blues nem passou perto da escolha final.
POR: [Ricardo Schott]
Excelente
Live forever
| Bob Marley and The Wailers
Os avisos de que "esta gravação não foi feita para ser lançada em disco" e que "problemas na fita original podem atrapalhar a audição" parecem até brincadeira. Live forever, gravação do último show do bardo do reggae Bob Marley, realizado em 23 de setembro de 1980, soa como se Bob estivesse cantando e tocando na sala da sua casa. E sem que haja uma nesga sequer de sombra dos problemas que já o aproximavam da morte. Na época, ele já estava em estágio avançado do câncer e, poucos meses depois, em maio de 1981, morreria. O que se ouve nas 20 canções do CD duplo é um verdadeiro tratado de música espiritual, feita com poucos acordes, doses de guitarras, teclados e percussões e belos corais. Músicas que já eram grandes standards de seu repertório, como Get up stand up e Could you be loved, aparecem estendidas e quase hipnotizantes.
Não há crises audíveis no CD, mas a verdade é que o show de Pittsburgh (EUA) que gerou o disco quase não saiu, por causa do estado crítico de saúde de Bob - que, procurado para agendar uma segunda data, negou, alegando não estar se sentindo bem. Tudo desaparece assim que o primeiro disco sai da capa. Abrindo o show com uma saudação ao imperador etíope Haile Selassie e a Jah Rastafari, inseriu na apresentação praticamente todos os grandes hits que lhe colocaram na sensível posição de primeiro popstar do terceiro mundo, na interseção total entre ritmos jamaicanos e o próprio soul americano. De Natural mystic e Positive vibration a Is this love e Crazy baldhead, está tudo lá, passando pela descoberta, para muitos, de que No woman no cry, ao contrário da releitura em português de Gilberto Gil, não era uma canção deprê, e sim um hino alegre. E chegando ao lado acústico, quase gêmeo de Bob Dylan, no canto do cisne Redemption song - talvez o mais comovente momento de sua obra.
POR: [Ricardo Schott]
Regular
Who you are
| Jessie J
Garota com traços faciais não necessariamente perfeitos que se esconde em quilos de maquiagem, roupas extravagantes e um neo-feminismo libertário esquisito. Não é Lady Gaga, mas é seu equivalente britânico, Jessica Cornish, que, assim como Stefani Germanotta, se esconde atrás de uma alcunha, no caso Jessie J. O que sai do debute da cantora, hypada como a grande sensação para 2011, é uma das coisas menos inovadoras já criadas. Se espremer tudo o que é produzido no pop atual, você encontra Who you are.
Mas se o disco não apresenta nada de novo, pelo menos não é um deslize constrangedor como o mais recente disco de Britney. As bases de Jessie J são melhores e há algum esforço de composição. A faixa que abre o disco, com participação de B.o.B., o rapper que se mete em mais parcerias do que é possível acompanhar, é um bom cartão de visitas. Price tag é uma música relaxada, não apela para sintetizadores baratos ou batidas eletrônicas cansadas. Uma pena que o que segue desliza mais do que brilha.
O grande problema de Jessie é que a cantora sabe de suas habilidades e, por isso, ocasionalmente desaba em exageros típicos de programas de calouros. A balada – obrigatória em um disco de pop – Big white room traz uma linha vocal que parece uma edição de American idol durante um terremoto, com berros agudos empacotados em vibratos. Acompanhando essa demonstração de fôlego, um violãozinho de aço safado, estourando seus agudos, para dar uma ideia de “pegada”. Truque velho, faixa fraca.
O resto do disco segue sem muitas surpresas. Casualty of love soa exatamente como uma música feita em meados dos anos 90, tanto nos arranjos quanto na batida e no timbre de Jessie. A música é uma viagem para uma era comandada por R. Kellys da vida, cometendo I believe I can fly e outras pepitas sobre ouvintes incautos. Não é ruim, mas será que esse pop já é digno de ser revisitado? Já virou vintage? Provavelmente não.
Do it like a dude é uma música de pista com uma mensagem pró-mulheres, uma temática que fica mais original a cada dia no pop. Só que ao contrário. Depois de Katy Perry beijar uma garota e curtir, Beyoncé esculachar os “hustlas” e qualquer diva metida a besta se vangloriar de um estilo de vida feminino, divertido e livre, tudo o que o mundo não precisa é ouvir pela milésima vez uma mensagem enviesada sobre a igualdade.
Mamma knows best soa como Christina Aguilera, Who’s laughing now flerta em soar como Lady Gaga e o resto do disco é tão derivativo quanto. Who you are é dolorosamente regular. É um banquete de fast food meio requentado, que vai te deixar com fome em pouco tempo. Não vai te fazer mal agora, mas é bem capaz de entupir suas artérias no futuro.
POR: [Gerhard Brêda]
Bom
Live on I-5
| Soundgarden
Conheci Soundgarden no lançamento do grammyado Superunknown. Bastou ouvir as cinco primeiras canções para ter a certeza de que se tratava de uma das maiores bandas de rock dos anos 90. Um vocalista que reunia as melhores influências das grandes vozes dos 70 e 80 (Ian Gillan, David Coverdale, Ronnie James Dio), uma banda completa e audaz, composições ótimas que juntavam sonoridade crua mas moderna. A carreira durou quatro discos ótimos e acabou em 1997. Live on I-5 retrata sua última turnê. Não foi a melhor fase da banda, mas apresenta um show bastante fiel e amarrado. Chris Cornell, a voz e guitarra, ainda vai lá em cima mas muda algumas das melodias. Um detalhe apenas. Nada fica tão distorcido do original.
Ao longo de 15 músicas, o Soundgarden reforça seu status de melhor banda de Seattle de sua época. Não teve o reconhecimento que Nirvana ou Pearl Jam conseguiram mas fizeram rock atual, ousado e, principalmente, primaram por uma identidade que absorveu o que de melhor foi feito antes e durante sua existência.
Abrindo com Spoonman, um tema de tempo ímpar e fechando com um sucesso do segundo e aclamado álbum Bad motor finger, o petardo Jesus Christ Pose, Live on I-5 passeia por vários palcos do roteiro que a Interstate 5 margeou.
A variedade de cidades registradas no disco poderia ser capciosa mas só amplifica o poder da banda ao vivo. Por estarem vivendo um hiato criativo, o grupo não demonstra a mesma força dos anos áureos. O repertório aborda coisas dos quatro discos lançados e é nas músicas mais antigas que se vê que o tempo passou para Chris, eleito pela Rolling Stone uma das mais influentes vozes da história.
Live on I-5 é um baita disco de rock. Representa bem o que foi o Soundgarden e encerra, tardiamente, um ciclo. A boa notícia é que a banda está de volta e promete.
POR: [Paulo Loureiro]
Fraco
Never say never - The remixes
| Justin Bieber
Justin Bieber lançou um documentário em 3D sobre sua ascensão para a fama. A premissa é estranha e parece que geraria um filme de apenas 15 minutos, dedicados aos 16 anos do mini-astro. Não chegou a tanto, mas o documentário gerou um enxuto disco com os remixes que compõem a trilha sonora. Pelo lado ruim, são apenas sete faixas. Pelo lado bom... bem, são apenas sete faixas.
Alguém espera alguma coisa diferente de Justin Bieber? Depois de lançar seus discos My world e My world 2.0 em um espaço minúsculo de tempo, já está bem clara a proposta do pequeno canadense: vocais pré-pubescentes se enroscando em batidas voltadas para o R’n’B, quando possível com parcerias com nomões do hip hop. Em Never say never não é diferente, com Usher e Chris Brown emprestando algumas rimas.
A ausência de hits como Baby e U smile é notável, mas o disco segue sem surpresas, com Bieber disputando qual vocal soa mais feminino com Miley Cyrus na chatice musical Overboard e se lamuriando superficialmente em Born to be somebody. Os destaques são Runaway love, com Kanye West, em uma versão que tem a cara do rapper, com batidas sintetizadas que chegam a lembrar uma versão PG 13 do excelente disco My dark and twisted fantasy. Outra faixa que surpreende é Somebody to love, ao lado de Usher, que é, descontando a voz enjoadinha de Bieber, um hit pop redondíssimo.
Never say never – The remixes é a trilha sonora de um documentário feito sobre uma estrela do pop de apenas 16 anos. Não dá para esperar algo muito elaborado, interessante ou genial do caldo mais pasteurizado da indústria fonográfica, apenas os gemidos adolescentes de Bieber e um bando de marmanjos lucrando cifras nababescas em cima disso.
POR: [Gerhard Brêda]
Excelente
Chamber music society
| Esperanza Spalding
Ela está in love com a crítica. Com o Grammy, principalmente, depois de ter abocanhado a estatueta de revelação do ano. Prêmio tardio, pois a menina acabou de lançar seu terceiro disco. Esperanza Spalding é um talento inegável. Baixista excepcional (foi a mais jovem professora da história da renomada Berklee School of Music), cantora excelente (seu timbre passeia pela praia das divas sem excessos), compositora e arranjadora. Seus dois primeiros discos refletem uma enorme inquietude melódica, junto com uma enorme paixão pela música brasileira.
Em Chamber music society, ela abre ainda mais o leque. Arranjos orquestrais permeiam melodias complexas, ritmos espalhados e muita dinâmica. A voz suave de Esperanza mescla linda e misteriosamente com o intrincado tapete de arranjos, produzidos e co-arranjados pelo mestre Gil Goldstein.
Sempre desafiadora, a música de Esperanza Spalding prima por um requinte poucas vezes visto em artistas tão jovens. O fato de ser contrabaixista já vai de encontro a muito preconceito vigente por aí e ela vai mais longe do que a grande maioria dos talentos atuais no jazz. Embalada por uma expressiva manta de quarteto de cordas, o disco tende ao hermético em vários momentos. Um disco que merece algumas audições mesmo para os mais iniciados e cada uma delas revelando mais ângulos desse enorme talento.
POR: [Paulo Loureiro]
Fraco
Femme fatale
| Britney Spears
O Papa não é muito pop, mas, sem dúvida, o pop não poupa ninguém. Depois de mastigar, descolorir, cuspir e eliminar Michael Jackson, a incessante indústria dos hits devorou pouco a pouco a sanidade da princesa mezzo saidinha Britney Spears. Depois de ficar careca e ressurgir das cinzas com a aberração sintetizada Blackout, em 2007, Britney se aventurou por um caminho sem volta no pop mais baixo e autotunado em Circus, de 2008. Em 2011, vem Femme fatale com a mesmíssima estratégia e a pergunta que flutua ostensiva, com letras de neon, é: “Por que?”. Difícil deixar Britney em paz depois dessas 12 faixas.
O disco parece desprovido de hits ou recheado de hits completamente efêmeros. É difícil saber. Metade do repertório deve colar em alguma pista de dança regada a uísque e Red Bull (e, talvez, na tradição de Mister Catra, muita “mulher boa”), como Till the world ends, feita em parceria oculta com Ke$ha e a ofensivamente insossa I wanna go. A batida, por todo o disco, soa igual, é um bumbo eletrônico vagabundo acompanhado de um irritante sintetizador de ondas quadradas, amparando parcamente com alguma melodia o vocal modulado para além da sanidade de Spears. O disco é torturante e desconjuntado, a única coisa que segura as músicas com algum semblante de coesão é o fato de todas soarem dolorosamente similares. É uma coletânea de singles, mas nenhum com punch. Não cola.
Aliás, cabe perguntar: o que leva Spears a ainda lançar discos? Se a loira fizesse uns cinco clipes com cinco singles e vendesse no iTunes, a humanidade sairia vencendo. Se a nata de Femme fatale é azeda, imagine as faixas enchendo linguiça.
As faixas que escapam da mesmice têm resultados estranhos. A dolorosamente repetitiva Big fat bass, com participação de Will.I.Am, do Black Eyed Peas, quebra o formato do disco e é uma das faixas melhor produzidas, mas ouvir o cantor disparar “Big fat bass / The big fat bass” 14 vezes antes de Britney começar uma nova onda de repetições é torturante. Nenhuma das músicas emFemme fatale foi feita para se ouvir em casa. Ou sóbrio. Ok, talvez a baladinha Criminal, com um tema medieval, a la Green sleaves, que desce indigesto, mas, bem ou mal, é uma canção.
O pop que Britney faz é pouco refinado e tem muita gente fazendo melhor. Até mesmo Lady Gaga em seus momentos mais auto-indulgentes e ridículos consegue produzir canções melhores. A produção da eterna bitch é pausterizada, engessada, lugar-comum. O que ela faz, a purpurinada Ke$ha faz muito melhor. Britney faz 30 anos em dezembro e está brigando com uma garota de 24 anos por um canto dos holofotes, por um pop vagabundo e raso, pelo mínimo denominador comum da música contemporânea. Não dá. Pede pra sair.
POR: [Gerhard Brêda]
Bom
Angles
| The Strokes
Na aurora dos anos 2000, já distante do assustador espectro do bug do milênio, o mundo se debatia ao som de Limp Bizkit, Korn e outras bandas de nu metal. Subitamente, quatro moleques deliberadamente bagunçados, magrelos e ouvindo doses cavalares de rock dos anos 70 surgiram em 2001 com uma tal de Last nite e chacoalharam o mundo com o disco Is this it. Estes “salvadores do rock” da vez lançaram dois discos (Room on fire, de 2003, e First impressions of Earth, de 2006) até entrarem em um hiato que acabou em 2011, com Angles. Pouca gente esperava que o Strokes fizesse o mesmo impacto que fez há 10 anos. Não fez, o rock provavelmente está sendo salvo por uma banda britânica que ninguém conhece. Menos gente ainda, no entanto, esperava um disco de synth-rock com os dois pés, polainas, mullets e ombreiras fincados nos anos 80.
Angles é um experimento esquisito do Strokes que consegue ter uma unidade palpável, mas ainda assim, soa como uma obra de uma banda quebrada. Pela primeira vez o vocalista Julian Casablancas se afastou das composições e o resto da banda fez suas contribuições, em canções colaborativas. O resultado mascara as habituais guitarrinhas espertas dos Strokes em camadas de sintetizadores, algumas batidas eletrônicas aqui e ali e uma ou outra semi virtuose que Nick Valensi contraiu em First impressions of Earth. A banda soa coesa, as composições fazem sentido entre si, mas Casablancas acaba entrando esquisito em alguns momentos. Por um lado, é interessante ver o cantor saindo um pouco de sua zona de conforto, por outro, suas linhas vocais acabam soando, por vezes, desinteressadas e deslocadas. O cantor gravou suas linhas de voz separado da banda e isso acaba ficando evidente aqui e ali.
O que importa são as composições e o Strokes conseguiu criar algo totalmente diferente do que fazia, mas ainda com elementos familiares. Machu Picchu abre de forma brilhante o disco, com guitarras ardidas e afiadíssimas e Casablancas em grande forma. Under cover of darkness, o primeiro single do disco, entra depois e segura o nível no alto, com o estilo mais próximo do que seria esperado de um disco da banda, ainda que com uns riffs esquisitos e tempos peculiares.
Two kinds of happiness é gloriosamente esquisita, com direito a beats reverberados e um solo que é uma lambada plugada no pedal de distorção. You’re so right é mecânica e estranha, diferente de absolutamente tudo o que o Strokes fez na carreira. Na faixa há um quê de The Vines, há música eletrônica e uma das linhas vocais mais estranhas de Casablancas, que desde a distorção lo-fi usada em Is this it, segurava um pouco nas modulações vocais.
Taken for a fool e Games formam uma dobradinha insossa, com algumas boas linhas de baixo aqui, guitarras bacanas acolá, mas nada de mais, provavelmente as faixas mais fracas da história da banda. Call me back, com sua levada “bossa nova de lounge gringo” é muito mais interessante e funciona como uma Ask me anything do disco. Gratisfaction é um rock adolescente e descompromissado, com alguns bons riffs e um refrão dançante, um contraste com Metabolism, uma faixa mais sombria, arrastada e com um solo cortante. O disco fecha com a incrível baladinha Life is simple under the moonlight, uma das melhores da carreira do Strokes e um dos refrões mais explosivos do disco.
Faixa a faixa, quando comparado aos discos anteriores, Angles é o pior da carreira do Strokes, mas conceitualmente é um disco muito mais interessante que First impressions of Earth, um disco com músicas excepcionais, mas o foco de uma criança de 7 anos com TDAH. Dez anos depois de destrincharem os anos 70 com Is this it, os Strokes, trintões, casados, com filhos – embora ainda deliberadamente bagunçados e magrelos – filtram os anos 80 em seus pedais de distorção. Nem sempre funciona, mas é raro ver uma banda expressar tão claramente uma evolução e uma vontade de mudar, sem abandonar tudo o que fez. Se você acha que isso não é Strokes o bastante, se Casablancas devia voltar ao comando, se você acha que os anos 80 são ridículos, são apenas pontos de vista. Ângulos, portanto.
Foto: Divulgação
POR: [Gerhard Brêda]
Bom
Lobão 81-91
| Lobão
Houvesse Lobão continuado na BMG (hoje Sony) após 1991, quando saiu o último disco da fase coberta pela caixa-coletânea Lobão 81-91 e seu destino provavelmente teria sido o de recordação despropositada dos anos 80 - algo como um fantasma nada camarada, coisa que de certa forma ele já é, só que sob outro contexto, mais generoso. Ouvida sob o fio condutor da biografia 50 anos a mil, a música feita por ele nesse período soa como um grande procedimento de fuga - dos plágios de Herbert Vianna (que ele jura terem acontecido), da cooptação pelos nomes grandes da MPB, das amarras do mercado, do sucesso sem sentido e do fracasso sem voltas por cima. Não admira que a parcela pós-Nostalgia da modernidade (1995, fora da caixa) pareça mais focada e mais madura do que seu trabalho inicial.
Lobão 81-91 flagra o cantor sustentando uma carreira marcada pelas altas expectativas com relação a seu trabalho e ao rock nacional - uma época em que até mesmos discos fracos ou ruins tinham valor de mercado e não eram solenemente ignorados, como hoje acontece. Dessa época, vêm pontos altos (Cena de cinema, gravado em 1981 e editado em 1982 e Ronaldo foi pra guerra, de 1984), chutes na trave (O rock errou, de 1985, cheio de balas atiradas com pouca mira - e a essencial Canos silenciosos nem foi resgatada para o box) e um best seller (Vida bandida, de 1987, composto e cantado por Lobão mas concebido sob a batuta - e à imagem e semelhança - do produtor Marcelo Sussekind).
Daí para a frente foram três tentativas - no razoável Cuidado (1988), no legalzinho Sob o sol de parador (1989) e no constangedor O inferno é fogo (1991) - de dizer algo que o próprio Lobão talvez só tenha se dado conta ao escrever sua autobiografia. Boa parte do melhor desses discos aparece condensado nos três CDs da caixa. Ao escolher as músicas, sabiamente Lobão deixou de lado a ordem cronológica, esqueceu o maior mico de sua carreira (Jesus não tem drogas no país dos caretas, single horroroso de O inferno...) e trouxe de volta grandes canções como Azul e amarelo, Vida louca vida, Tudo veludo, Bambina, Baby lonest e muitas outras. O link passado-presente é dado pelo DVD Acústico MTV (2007), incluído no box.
Fora isso, nem mesmo a letra hoje incompreensível da panfletária O eleito (cujo alvo, adivinhe só, é o então presidente não-eleito José Sarney) estraga a boa música, quase um pré-The Hives. Essa noite, não, hit novelesco de 1989, anos antes de Chico Science e Nação Zumbi, levou a mescla de pop e maracatu para as rádios. E músicas como Cuidado, samba-rock mangueirense lançado em 1988, deveriam fazer a galera do Monobloco e da Parede considerar mais um padrinho.
POR: [Ricardo Schott]
Bom
Metallic spheres
| The Orb/David Gilmour
O duo de ambient house britânico The Orb, lança seu décimo disco em 23 anos de estrada com a fórmula espacial que sempre permeou seus trabalhos. Desta vez , no entanto, contam com a presença ilustre de uma de suas maiores influências: o guitarrista David Gilmour, ex-membro do Pink Floyd. Dividido em duas partes, Metallic spheres passeia livre por dubsteps, música eletrônica, loops hipnóticos e centenas de timbres e zumbidos. Cada um dos tracks é subdividido em cinco partes.
Ao longo dos cinqüenta e poucos minutos de viagem sônica, a guitarra emblemática de Gilmour traz organicidade ao som horas leve mas pálido, horas denso mas comportado. A união de gerações resultou num disco bastante interessante. Um opus eletrônico com muitas influências do rock progressivo de Tangerine Dream e do próprio Floyd, além é claro das sempre generosas pitadas de Kraftwerk, Devo e Eno.
Metallic spheres gira em torno de composições originais do duo (Alex Paterson e Youth) e algum material feito por David Gilmour. Toda a obra é envolta em ambiências naturais (vento, árvores, pássaros, etc) e o contraste soa procedente.
Um disco mais profundo do que seus irmãos do tecno, mas que poderia se aplicar a algumas pistas mais ecléticas (alguns momentos, vale frisar). O lado progressivo é mais tímido mas apenas a presença do timbre e das frases da Fender Stratocaster de Gilmour já garantem a experiência.
POR: [Paulo Loureiro]
Regular
The king of limbs
| Radiohead
Um piano distante e etéreo martela uma melodia de gelar a espinha e, em poucos segundos, se embaralha em uma cacofonia de loops e retroalimentação, costeado por uma linha de bateria esquizofrênica, que tira som de jazz de linhas techno. Nem precisa de Thom Yorke se lamentando, é fácil perceber logo na desoladora primeira faixa, Bloom, que o Radiohead faz um som único hoje em dia. Rejeitando hits, ganchos fáceis e canções imortais, o oitavo disco de estúdio da banda, King of limbs, funciona mais como manifesto artístico do que como álbum, mas isso não quer dizer que Yorke, Ed O’Brien, Johnny e Colin Greenwood e Phil Selway tenham perdido completamente a forma.
Dando uma guinada violenta, no estilo OK computer – Kid A, a banda se reinventa após o hypado In rainbows e mergulha fundo em ritmos cacofônicos, sons erráticos, acordes incompletos, bends esquisitos, pianos inquietantes, baterias abrasivas. O Radiohead ataca com a acidez de banda iniciante, mas a experiência de veteranos. Exemplo disso é a filha bastarda do Kid A, Morning Mr. Magpie, seguida por Little by little, que carrega uma aura mais similar aoAmnesiac.
King of limbs é o disco mais atmosférico da banda, com verdadeiras texturas sônicas preenchendo tempos, contratempos, frequências altas e baixas. É uma densidade claustrofóbica similar ao que o Joy Division fazia, especialmente em faixas como Candidate e Atmosphere, mas enquanto Curtis ajudava a aprisionar o ouvinte com sua voz de barítono e a dupla Peter Hook/Stephen Morris libertava com riffs e beats mecânicos, aqui, a melancolia falsetada de Yorke é a única válvula de escape diante da avalanche sônica dos outros instrumentos, especialmente os beats incessantes conjurados por Selway e as linhas de baixo perturbadoras de Colin Greenwood.
Isso não quer dizer que King of limbs seja perfeito. Longe disso. Mesmo com toda a densidade e atmosfera rica, o disco não tem canções fortes. Nenhum hit improvável, nenhuma faixa com algum apelo pop, nenhum indício de longevidade.Kid A tinha lá suas maluquices, mas era fácil se agarrar ao baixo repetitivo e distorcido de Greenwood em National anthem ou às pirações eletrônicas deIdioteque. Aqui tudo soa tão destrutivo e áspero, que o produto final soa indivisível. Ainda assim, mesmo com oito faixas, ainda há espaço para enrolações, como Feral, que é um clichê do Radiohead apresentado pelo próprio. É como se a banda tivesse lido a fórmula para soar como o Radiohead e decidiu testar, em estúdio. Lotus flower, apesar de ter virado fenômeno pela carismática dancinha de Yorke no clipe, não é essa maravilha toda também. É uma baladinha esquisita, como tantas outras que o Radiohead fez. Não decepciona, mas não vai mudar seu mundo. O disco inteiro, provavelmente não vai, e ele corre sério risco de resvalar para a ala mais irrelevante da carreira da banda, acompanhando os excelentes Amnesiac e Hail to the thief.
Codex e Give up the ghost quase soam deslocadas no disco, com um direcionamento muito mais melódico e orgânico, mas são faixas competentes. A segunda é uma bela balada no violão, orquestrada com backing vocals precisos de Yorke e a primeira ameaça contornos de Pyramid song, mas mais simples e direta.
Com oito discos na mala e uma legião de fãs espalhada pelos quatro cantos do mundo, além do mérito de ter lançado um dos discos mais universalmente venerados da história (OK computer), o Radiohead está em uma fase meio Weezer, ou seja, não precisa mais provar nada para ninguém. Mas enquanto a trupe de Rivers Cuomo aproveita a oportunidade para se divertir lançando abobrinhas divertidas como Hurley e Raditude, Yorke e sua legião de geeks musicais continuam tentando mudar o mundo. E isso é algo a ser admirado, mesmo quando eles invariavelmente falham.
Certa vez, classificaram o Kid A como testemunhar um incêndio em uma floresta distante. O Amnesiac, seu primo próximo, seria acompanhar o mesmo cataclisma, de dentro da selva, cercado pelas chamas. King of limbs embarca nessa família e soa como estar presente na queimada, mas preso em um sótão escuro e pequeno no meio de uma clareira, certo de que, cedo ou tarde, as chamas vão te alcançar. É inquietante, estranho e desolador, mas limitado.
POR: [Gerhard Brêda]
Bom
Majesty shredding
| Superchunk
O Superchunk é uma banda cujo som tem menos caráter outsider do que sua história pode fazer supor. Ícones do rock independente americano dos anos 90, eles têm lá seus pés até na música brasileira - o líder Mac McCaughan chegou a exaltar Joyce em seu projeto solo Portastatic, que tem uma versão do hit hippie Clareana, da cantora-compositora. Lá fora, por falta de uma definição melhor que pusesse as coisas em seus lugares durante a era grunge, eles são e sempre serão "rock alternativo". Ouvindo, o buraco é bem menos embaixo: o grupo de McCaughan, John Wurster, James Wilbur e Laura Ballance soa até mais pop e menos fora do esquemão do que seus "colegas" brasileiros, ligados em melodias fofas, timbres bizarros de teclados, guitarras pesadas e vocais berrados.
Majesty shredding, que marca a volta do Superchunk aod estúdios após nove anos, tem a função óbvia de reapresentar o grupo, que funciona como um bom representante do rock feito há 20 anos nos EUA. Primos pobres e indies, de certa forma, do Weezer, lembram as guitarradas melódicas do grupo de Rivers Cuomo em canções como Hot tubes e se aproximam do surf rock oitentista em Everything at once - e ainda tem Learning to surf, punk rock pouca coisa mais virtuoso que as canções dos Ramones. Digging for something, que abre o disco, traz o som cantarolável que marcou o grupo em seus primeiros discos. Boa volta.
POR: [Ricardo Schott]
Bom
Content
| Gang Of Four
Financiado com a ajuda dos fãs, Content, novo disco de inéditas da Gang of Four, mostra uma banda que não está disposta a viver só de passado. Ou melhor, até está - desde que não fique cega por isso. O som de músicas comoShe said you made a thing of me, com sua batida entre o punk e o reggae, lembra o das bandas de surf-skate-punk dos anos 80 - daria até para virar fundo musical de uma daquelas reportagens à beira da praia do Esporte espetacular. O lado punk-funk, que faz a alegria de bandas recentes como Franz Ferdinand e inluenciou, por debaixo dos panos, boa parte do rock brasileiro dos anos 80 - de Camisa de Vênus a Finis Africae e Plebe Rude - está em forma em canções estilingadas como Who am I? Sons eletrônicos dão as caras em It was never gonna turn out too good, marcada por vocoders.
Content lembra menos a fase inicial da banda, no fim dos anos 70, e um pouco mais o período mais radiofônico da Gang - de discos como Songs of the free, de 1983. A formação tem só dois integrantes do line-up clássico, Jon King (vocais) e Andy Gill (guitarra), mas o disco soa atualizado, com as letras anti-consumistas e anarquistas da banda à toda. Em Who am I?, angústias existenciais e diatribes do mundo livre unem-se em versos como "você não poderá roubar nada se tudo for grátis/quem sou eu a partir do momento em sou tudo?/quem poderá mentir se tudo for verdade?". A gozação já começa no fato de o grupo ter lançado o disco a partir de uma série de "conteúdos" vendidos para os fãs - como camisetas autografadas, vidrinhos de sangue e até visitas ao estúdio. Mas Content se sustenta além disso.
POR: [Ricardo Schott]
Bom
Battle studies
| John Mayer
Após dois anos de seu lançamento no hemisfério norte, finalmente chega até nós Battle studies, o mais novo trabalho do guitarrista, cantor e compositor americano John Mayer. Desde seu debut no começo da década com o ótimo Room for squares, John sempre apresentou um trabalho consistente que, ao longo do tempo foi ganhando cada vez mais influência do blues e do rock tradicional. Enquanto que seus primeiros discos flertavam fortemente com a fórmula do bom pop oitentista, a partir de Try!, seu disco ao vivo de 2005, John conseguiu um casamento mais harmônico do seu já consagrado e ótimo pop com sua veia blues.
O disco abre com a climática Heartbreak warfare e segue com a excelente balada All we ever do is say goodbye, com cara de clássico instantâneo. Entre alguns simpáticos folks como Who says onde ele pergunta quem o impedirá de ficar doidão, John conta com a participação da também queridinha e vencedora do Grammy de 2010 Taylor Swift em Half of my heart.
A produção é assinada por ele e pelo baterista Steve Jordan, que também produziu Continuum, o disco anterior, de 2006. Arranjos simples mas de muito bom gosto, sonoridade natural e uma gravação bastante orgânica só ajudam a valorizar o alto nível das composições, todas assinadas por John. Além da boa caneta, John Mayer é excelente guitarrista e dono de um ótimo timbre vocal.
O disco segue com Assassin, feita após o término de sua relação com a atriz Jennifer Aniston, onde expõe os percalços da fama e o excesso da exposição pública. O avô do blues Robert Johnson ganha homenagem na releitura suingada do hinoCrossroads. Usando várias dobras vocais durante toda a faixa, John criou uma atmosfera moderna usando um timbre bastante específico de guitarra mas respeitando o lado blues da canção. War of my life lembra de relance Fleetwood Mac: leve, sem ser doce demais.
Battle studies confirma a evolução de um dos maiores nomes atuais do (bom) pop americano, carregando com mérito a tradição da boa canção. E, novidade, a versão brasileira vem com um DVD trazendo a participação de Mayer no programa Storytellers.
POR: [Paulo Loureiro]
Bom
Live in America
| Roxy Music
A fase mais-ou-menos de certas bandas daria para transformar os períodos áureos de certos grupos em seus melhores momentos. Foi o que aconteceu com os britânicos do Roxy Music em seu "disco de volta", Manifesto (1979), vindo após um hiato de cinco anos, tão descaracterizado que não respeitou nem mesmo o conceito de trazer sempre belas modelos na capa. Era o produto que o grupo divulgava na época deste Live in America, gravado no Rainbow Music Hall, em Colorado. E já garante momentos fantásticos para os antigos fãs do grupo.
Canções como Manifesto, Angel eyes, Still falls the rain, Stronger through the years e outras de Manifesto descem bem, mas só preparam o ouvinte para o desfile de clássicos que vem depois da música 9. A fase clássica do RM, que há quem considere como "progressiva", aparece em músicas como Ladytron, In every dream home a heartache, Re-make/re-model (com citações de Day tripper, dos Beatles, e de Satisfaction, dos Stones, à guitarra), Love is the drug (primeiro verdadeiro hit do grupo nos EUA). Tidos como um dos primeitos ícones fashionistas do rock, fazem um som tão sujo quanto conseguem ser no palco - com Bryan Ferry se esforçando para alcançar as notas mais graves de algumas músicas, como A song for Europe e Do the strand. Um bom lançamento, prejudicado só pela falta de fotos e textos informativos, e pela capa brega.
POR: [Ricardo Schott]
Bom
Ritual
| White Lies
O debute do White Lies foi muito bom. To lose my life..., de 2009, foi uma pequena pérola embalada em pós-punk, encabeçada por três hits: Death, Fairwell to the fairgrounds e a música que nomeia o disco, To lose my life. Originalidade não era o forte da banda, mas as canções eram sólidas. Agora a banda retorna em Ritual, mais madura, mais elaborada, mais intrincada, mas com menos hits. E ainda agrada.
O vocal de Harry McVeigh ainda carrega no tom barítono, algo como um Ian Curtis mais animado, ou um Tom Smith mais sombrio. O baixo e a bateria continuam com suas rotinas sugadas do pós-punk, geralmente guiando o ritmo de forma reta e quase robótica. As guitarras ocasionalmente marcam sua presença com alguns acordes martelados, mas quem rouba a cena são os sintetizadores. Em Ritual, os teclados assumiram a liderança, o que adicionou uma camada ao som da banda. O disco é mais uma evolução do que uma revolução, na mesma medida que o Antics, do Interpol, expandiu o Turn on the bright lights, ainda que sem superá-lo. E Ritual segue o mesmo caminho: não supera To lose my life..., mas é uma expansão de suas propostas sonoras.
O disco é um pouco repetitivo e as batidas passam a soar meio parecidas em mais de uma ocasião. Faixas como Holy ghost e Turn the bells também pisam no freio e acabam manchando o ritmo do disco, mas Bigger than us tem qualidade pop para ficar ao lado dos hits da banda. Pode ser um dos melhores refrões já criados pelo White Lies.
O resto do disco é preenchido de boas canções, como Peace & quiet, que até experimenta um pouco no timbre dos teclados. Bad love é outra boa música, escondida perto do fim do disco. É uma sequência de boas músicas, sem uma grande faixa ou algum pequeno clássico.
Ritual é uma sofisticação do debute da banda, mas que acabou perdendo um pouco a pegada pop no meio do caminho. Para quem gosta de reviver o pós-punk, revival esse que já está bem batido, Ritual é um dos melhores discos do gênero, especialmente após o decepcionante disco homônimo do Interpol e o bizarro In this light and on this evening, do Editors. Não vai revolucionar o rock, mas nunca tentou fazer isso.
POR: [Gerhard Brêda]
Bom
The world is yours
| Motörhead
Sugerimos uma boa leitura para acompanhar a audição de The world is yours, novo disco do Motörhead: Hells Angels, livro-reportagem de Hunter S. Thompson, no qual fala sem meias-palavras de sua convivência com a gangue de motoqueiros nos anos 60. Ideal de liberdade para alguns, os integrantes da troupe de motociclistas mais temida do mundo eram foras-da-lei, hedonistas e beberrões de uma estirpe estranha - frutos da cultura pop, nascidos para perder, mas - como o próprio Thompson escreve no livro - dispostos a arrumar uma bela arruaça antes da exclusão final. Nada muito diferente do espírito do grupo liderado por Lemmy Kilmister, que em seu 21º disco de estúdio, honra, sob a famosa massa de guitarras, baixo, bateria e vocais que marcou toda a discografia da banda, o estilo de vida exposto em canções como Outlaw, Born to lose (repare os títulos), Bye bye bitch bye bye, Devil in my head e outras.
Primeiro disco da banda lançado em casa própria (o selo Motörhead music, distribuído pela EMI), The world is yours não foge da fórmula que o Motörhead criou para si mesmo há 35 anos. Tem peso, gritaria e uma sonoridade entre o punk e o heavy metal, mas com variações leves entre um álbum e outro, cabendo batidas mais dançantes e retornos à sonoridade quase anos 60 (no sentido pré-punk da década) da estreia On parole, de 1975. O mais pop que o trio se permite ser é no som quase anos 90 de Born to lose, que abre o CD, ou no hard rock básico de Get back in line. A voz de Lemmy aparece mais podre do que nunca na narração da letra de Brotherhood of man. E o trio retorna num bom caminho que já vêm trilhando desde alguns CDs anteriores, como Motorizer (2008).
POR: [Ricardo Schott]
Regular
The King is Dead
| The Decemberists
The king is dead é um disco de rock caipira. As gaitas pipocam aqui e ali, os violões e guitarras brincam em solos que fariam Garth Brooks empinar seu cavalo e o vocalista até tenta zoar como um crooner sulista, cantando suas agrúrias. Mas por baixo dessa aura rural, há mais coisas. Algumas funcionam, outras não.
É inegável que o The Decemberists tem uma veia pop desenvolvida. A banda faz refrões redondos, que por vezes se chocam violentamente com as caipirices dos versos, como em Calamity song. Rise to me é outra que se afunda na mistura. O instrumental bambeia para o lado de uma baladinha country padrão, e a guitarra abusando de twangs, aquele efeito deslizante – e irritante – que qualquer fulano com chapéu e esporas coloca em suas músicas, mas o vocal não abraça o jeca interior e soa como banda de rock alternativo perdida nos anos 90.
A música de quadrilha segue por Rox in the box. Tem até a progressão de violino mais clichê da história da humanidade, completando o ar “feira de cidadezinha no interior dos EUA” que o The Decemberists aparentemente quis criar aqui.
Mesmo assim, não dá pra dizer que é um disco ruim. January hymn é uma baladinha honesta e Dear avery é uma música bonita. Em uma salada que por alguma razão caiu bem, Down by the water até puxa uns elementos do REM, dando uma necessária diversidade ao disco. No geral, as faixas são bem produzidas, mas não são marcantes ou interessantes. É um rock caipira sem muitas novidades, sem gancho. Vale pra matar a saudade de quando o Kings of Leon era banda de rodeio.
POR: [Gerhard Brêda]
Regular
I feel like playing
| Ron Wood
Andando para lá e para cá com Amy Winehouse no Rio, o guitarrista dos Rolling Stones Ron Wood, ex-drogadaço e bêbado a ponto de já ter levado uns tapas do doidão Keith Richards por dormir em pleno palco num show da banda, pode até preocupar os fãs com seu estilo de vida sem parâmetros. I feel like playing vale como uma boa distração para o músico não recair nas drogas, e para os fãs poderem ouvir algo de um stone. O resultado soa mais ou menos como vem soando a produção da banda desde os anos 90 - oscilando entre o vigor e a música certinha, quase como um fã de rock que trabalha no mercado financeiro e, para ver os Stones no Maracanã, tira o casaco de couro do armário. Não há mal nenhum nisso. Mas é só um saudável momento em que Wood convoca uma série de camaradas famosos (Slash, o líder do ZZ Top Billy Gibbons, o produtor Bob Rock e o baixista dos Red Hot Chili Peppers Flea) para brincar de "stone por um dia".
A brincadeira de Wood com os amigos rende momentos interessantes para deixar rodar no MP3 player. Ganha uma cara meio anos 90, meio hino a la U2 na venturosa Lucky man e soa como os lados Bs dos Stones no reggae Sweetness my weakness e nos blues I gotta see e Fancy pants, mas soa meio repetitiva em canções como Forever (outro blues) e 100%. No mais, solo, Wood já fez coisa muito melhor na estreia Ive got my own album to do (1974), quando sequer era um stone.
POR: [Ricardo Schott]
Bom
Born free
| Kid Rock
Kid Rock é um roqueiro com cara de gangsta. Nada tão longe assim de Axl Rose, muito menos da galera do rap, com seus cordões de ouro ardendo no pescoço e amor por armas, carros grandes, bitches e símbolos de riqueza - não necessariamente nessa ordem. Fazendo um som essencialmente californiano, com guitarras e violões ensolarados e melodias entre o country e o soft rock meloso (com investidas hiphopescas aqui e ali), lembra que o rock da época não era só paz e amor - era repleto de motocicletas roncando, groupies limpa-trilhos, porradas entre gangues estradeiras, etc.
Em tempos confusos, Born free, seu oitavo disco, soa até como uma boa redescoberta de uma carreira que já teve maus momentos, discos interessantes e que sempre contou mais com os narizes torcidos do que com as boas-vindas da crítica. Sem inovar em nada, mas investindo em boas canções, KR manda bala em canções assobiáveis como Born free, Purple sky, Slow my roll e God bless saturday, além de contar com participações de Mary J. Blidge, Sheryl Crow, T.I. e até do veterano Bob Seger, no piano de Collide. Só não convence de jeito nenhum adotando tom otimista-springsteeniano na tolinha Times like these.
POR: [Ricardo Schott]
Excelente
The union
| Elton John/Leon Russell
Não adianta chegar nem para certos roqueiros com idade entre 40 e 60 e perguntar quem é Leon Russell. Muitos ignoram que a carreira do cantor e compositor americano de 68 anos, que inclui álbuns primorosos como Carney (de 1972) e canções gravadas por nomes como Carpenters. Como naquele velho conto do artilheiro da música que acaba gerando muita coisa pop que veio depois dele, Russell inspirou o trabalho pop e pianístico de John e teve, ele próprio suas vitórias. Mas passou bom tempo eclipsado, a ponto de The union ganhar, nas tintas de muitos críticos (e nas do próprio Elton) cara de reabilitação mercadológica. O mesmo, aliás, pode ser dito de Elton, que, com raras exceções, não soava tão afiado fazia um bom tempo. Nem tão ligado ao cruzamento entre soul, gospel e country que marca seu próprio gosto musical.
Entre canções soul-pop de primeira linha (Hey ahab) e sons tristonhos que poderiam ter sido gravados por Elvis Presley ou Johnny Cash (Eight hundred dollar shoes), pulam na cara do ouvinte o balanço e a beleza impressionante de If it wasnt for bad (de Russell) e animação do boogie Monkey suit. Russell, que vinha tocando por clubes pequenos e gravando discos que não aconteciam, insere originais seus em meio a parcerias com Bernard Taupin, o próprio Elton John e o produtor T-Bone Burnett - e faz The union soar como o fim de um lost weekend em seu trabalho, durante o qual até mesmo grandes fãs desconheciam seu paradeiro. Ao lado de Elton, inseve pílulas de esperança no futuro em beleza como Never too old (to hold somebody) e na agradecida In the hands of angels. Para fechar a tampa de 2010 com categoria.
POR: [Ricardo Schott]
Bom
Death to false metal
| Weezer
Rivers Cuomo resolveu arregaçar as mangas em 2010. Além de lançar o divertidoHurley, o vocalista mais nerd do rock também decidiu relançar o discoPinkerton, de 1996, odiado na época de seu lançamento e atual fenômeno cult, em formato de luxo. Se infiltrando na literatura, Cuomo também planeja lançar oPinkerton diaries, uma coletânea de textos produzidos por ele à época do lançamento do disco. No bolo de lançamentos, chega a coletânea de raridadesDeath to false metal. E é muito boa.
O disco junta composições não lançadas pela banda, coisas que não entraram para os discos, e o caráter multi-cronológico do disco é visível. Algumas faixas são a cara do Blue album, enquanto outras flertam com a sonoridade do Green album ou Maladroit. O mais impressionante é que o Weezer espremeu nas parcas 10 faixas do disco composições, no geral, melhores que qualquer disco recente da banda. Turning up the radio abre o disco com o tradicional pop embebido de distorções da banda, enquanto I don’t want your loving parece ter escorregado para trás da mesa de mixagem na época do Blue album. Melodias pop, com atitude de rockstar, distorções com pé no punk e umas dissonâncias malucas (alguém aí se lembra do caos vocal que era o fim de Undone?).
Losing my mind é a baladinha obrigatória, que sempre aparece nos discos do Weezer. Não compromete, mas não é um exemplo do que torna a banda especial. Everyone é um soco nos tímpanos, com uma guitarra distorcida até o inferno, em uma ponte que não ficaria deslocada em um disco do Korn ou do Deftones.
O destaque do disco, no entanto, não está na sólida escalação de canções obscuras próprias. A melhor parte é, sem dúvida, um impagável cover deUnbreak my heart, de Toni Braxton, que coloca Cuomo falsetando como um louco nos minutos finais uma das músicas mais bregas dos anos 90. Brilhante. Esse é o tipo de senso de humor que distancia o Weezer de outras bandas.
Geralmente, coletâneas de b-sides são músicas inferiores socadas em um pacote apenas para fãs. Death to false metal apela até para o mais casual fã de Weezer, com uma seleção de faixas de qualidade que, por alguma razão ou outra, não entraram nos outros discos. É dar o play e se divertir com Cuomo e seus comparsas.
POR: [Gerhard Brêda]
Bom
Just like beautiful
| Zach Ashton
O americano Zach Ashton viajou pelo mundo e, dentre os países pelos quais passou, esteve o Brasil - onde absorveu toques de bossa nova e chegou a gravar um disco inteiro, Mellow dia (2004). De volta ao país, registrou o novo álbum Just like beautiful no estúdio do músico curitibano, radicado em São Paulo, Sérgio Soffiati. Soffiati, que também é arranjador do álbum, recrutou alguns de seus colegas da Orquestra Brasileira de Música Jamaicana, como o trumpetista Pipetta, para o acompanhamento de Ashton em seu novo CD.
Tido por alguns críticos como não mais que um Jack Johnson genérico, Ashton pode surprender até alguns fãs do havaiano por apresentar um receituário musical bem mais variado e mais próximo do que era o surf-rock californiano dos anos 80 - canções como Losing, Day away, Say e The last song, por exemplo, devem a grupos como Hoodoo Gurus e Australian Crawl, pela beleza da melodia e pelo cruzamento de guitarras, violões e Hammonds. O Brasil bate ponto na faixa-título, com batidinhas proto-bossa nova, tecladinhos e ambientação meio jazz. Mesmo sem sair do muito básico, oferece boas canções e passa do regular.
POR: [Ricardo Schott]
Excelente
O Terço/Tributo ao sorriso
| O Terço
Pela primeira vez em CD (pelo selo Discobertas, do produtor Marcelo Froes), o primeiro álbum da banda carioca O Terço (1970) e a produção do grupo lançada em compactos na mesma época mostram a pouco popularizada transição entre o som de Beatles e Byrds e o rock progressivo, feita no Brasil. O som do trio formado por Sergio Hinds (voz, baixo), Jorge Amiden (guitarra) e Vinicius Cantuária (bateria) acabou eclipsado pela imagem que se formou em seguida do mesmo grupo. Que, com Cezar de Mercês na guitarra, tentou radicalizar no disco homônimo subsequente (1972, com o hard rock Deus e o tema Amanhecer total, que ocupava todo o lado B do vinil original) e, com a chegada de Flávio Venturini (teclados), acabou tornando-se um embrião do 14 Bis em Criaturas da noite (1974) e Casa encantada (1975), os mais populares discos do grupo, localizados entre o pop mineiro, o rock pesado e as viagens musicais.
No primeiro O Terço, o grupo parecia orientado por uma mescla de música clássica e pop barroco à moda dos Byrds, dos Beatles e dos Rolling Stones - com muitos arranjos de cordas e metais e uma abordagem sonora à esquerda da MPB comum, resvalando no que, na época, se chamava de "toada moderna". Não por acaso, nomes ligados a esse tipo de som, como Danilo Caymmi, Paulinho Tapajós e Gutemberg Guarabyra surgem aqui e ali no disco, seja produzindo, seja compondo músicas como o quase samba-rock Meia-noite e o belo hit Velhas histórias. Pouca coisa no disco pode ser chamada, prototipicamente falando, de "progressiva". Embora haja os vocais trabalhados e as partes diversas de Flauta, o esoterismo de Plaxe voador e o som quase erudito de Saturday dream, o resultado é simples e mais acessível do que se esperaria. Cabe até blues (Yes, I do), balada byrdiana (Imagem), dixieland (Antes de você... eu) e soul pesado, repleto de arranjos de metais (I need you).
A coletânea Tributo ao sorriso só peca por deixar o ouvinte na curiosidade e não recuperar o último lançamento do grupo para a Philips - um compacto mergulhado em tons hard, com as músicas Ilusão de ótica e Tempo é vento. Traz de volta um EP que soa como um bônus do álbum de estreia, com O visitante, o soul-rock Vou trabalhar, Doze avisos (presenteado por Ivan Lins e Ronaldo Monteiro de Souza) e até um Trecho da ária extraída da suíte em ré maior (Bach). Relembra o hit Tributo ao sorriso, que levou a banda aos festivais (e seria, anos depois, regravado em versão ultrapop pelo Roupa Nova) e o tom funkeado de Edifício da Avenida Central. Presentaço de Natal para caçadores de raridades e saudosos de uma época bacana do rock brasileiro.
POR: [Ricardo Schott]
Bom
My beautiful dark twisted fantasy
| Kanye West
Noel Gallagher certa vez declarou, no ápice do sucesso do disco (What’s the story) Morning glory, que não sabia para onde alguém iria, tendo alcançado o estrelato no nível que o Oasis alcançou. Shows lotados, drogas, festas, atenção da imprensa, mulheres. É o topo do topo. Kanye West chegou à mesma encruzilhada. Mas, ao contrário dos britânicos, que enlataram baladas e mais baladas, West resolveu arriscar tudo em uma radiografia confusa, gaguejante, assustadoramente sincera e por vezes insana de sua mente.
Não dá para ouvir My beautiful dark twisted fantasy e dizer que West não está tentando se superar a cada faixa. O disco é diferente de quase tudo feito no hip hop pasteurizado de hoje, com riffs criativos, ideias que cruzam gêneros, produção redonda e rimas ágeis. Se o delivery de Kanye não te agradou no passado, provavelmente não vai agradar agora: ainda tem o jeito meio moleque arrogante, mas aqui a fachada de West apresenta rachaduras. Nunca antes o rapper pareceu tão vulnerável clamando ser o bonzão, mandando o mundo às favas. De um lado, diz que é um gênio, de outro, lamenta os porres e ressacas.
Musicalmente, é um disco ambicioso. Até demais. Quase todas as músicas têm cerca de cinco minutos, com Runaway chegando a embasbacantes nove minutos de enrolação sintetizada. Se West condensasse, teria alguns dos melhores hits de rap dos últimos anos, ainda mais com belas participações de Jay-Z, Kid Cudi e Beyoncé. Até Elton John dá um pulinho com uma frase. Nas bases do disco, riffs de baixo, piano, sintetizadores e até mesmo guitarras. West atira para todo o lado e atua como um Gorillaz do hip hop, mesclando estilos sem pudor. Dark fantasy nasceu para ser hino e, embora fracas em comparação, All of the lights e Lost in the world têm cara de singles de sucesso.
As letras são um retrato brilhante do que é West quando colocado diante de sua polêmica imagem e de toda a bravata típica do hip hop. É um retrato fragmentado de um ídolo multifacetado, talentoso, mas debilitado por sua arrogância. Quando West se mete a falar de sexo, soa como um lunático; quando abre sua metralhadora de crítica contra seus detratores, soa desesperado; quando descreve suas batalhas pessoais e a pressão de se estar no topo, soa sincero. Tem seus deslizes, mas tudo soa coerente na persona de ícone atormentado.
My beautiful dark twisted fantasy é um retrato por vezes assustador do preço do sucesso numa mente tão criativa e desequilibrada como é a de Kanye West. O disco de hip hop de 2010.
POR: [Gerhard Brêda]
Regular
A thousand suns
| Linkin Park
O Linkin Park, quando surgiu em 2000, virou o queridinho do new metal, da cena mainstream e dos adolescentes revoltados na praça de alimentação dos shoppings centers. A mistura de rap e rock berrado de Mike Shinoda e Chester Benington em Hybrid theory catapultou a banda ao estrelato, surfando em hits como In the end e Crawling.
Desde então, 10 anos se passaram e a banda se consolidou como uma das grandes no cenário musical. O disco seguinte, Meteora, trilhava os mesmos caminhos do debute, emplacou hits e até gerou uma peculiar parceria com Jay-Z num especial ao vivo. No disco seguinte, a banda deu uma guinada radical, com um álbum mais orgânico, com menos programações e pirações. Minutes to midnight não teve o mesmo sucesso dos dois anteriores e a banda estava ficando cansada. E decidiram chutar o balde novamente com o ambicioso A thousand suns.
Se a banda deu uma afastada do hip hop em Minutes, aqui é fácil encontrar Shinoda disparando rimas acossado por percussões africanas em When they come for me. Algumas faixas depois, em Blackout, Chester berra como se não houvesse amanhã, numa música meio fraquinha, mas com peso. No meio do caminho, experimentos com synths e um piano marcando presença em baladinhas como Iridescent e Fallout.
A thousand suns é um disco complicado, intrincado, esquisito. É um sabor peculiar, que não necessariamente vai agradar de primeira os fãs casuais de Linkin Park, que esperam pular com alguma Breaking the habit da vida ou disparar algumas rimas com o Hova em Izzo/In the end. Não deve agradar quem odeia Linkin Park também. É o disco bizarro de uma banda que quer se libertar de si mesma. É o manifesto de uma banda que se recusa a parar de criar, que se recusa a cair na mesmice. É meio arrogante, meio pretensioso, meio sacal, mas ao menos não é acomodado.
POR: [Gerhard Brêda]
Regular
Rock dust light star
| Jamiroquai
A banda inglesa Jamiroquai estreou com um disco irrepreensível em 1993 (Emergency on planet Earth). Nele, apresentou ao mundo a mistura disco/groove/setenta/Greenpeace do inquieto líder e principal compositor Jay Kay. Na época, a onda acid jazz enchia as pistas com cantoras cool, solos de trompete cool e levadas igualmente... sim, cool. Que o Jamiroquai merece tal adjetivo, isso é fato. Mas o grupo nunca foi parte definitiva da moda - e, ao mesmo tempo, nunca saiu dela. Cinco anos depois do lançamento do mediano Dynamite, Jay Kay e trupe lançam Rock dust light star. Bem mais orgânico, o disco foi todo concebido democraticamente pela banda - que participa mais ativamente de todo o processo de gravação. Este, por sinal, merece atenção. A qualidade das músicas varia bastante, mas o mote continua o mesmo. Letras óbvias, mas não constrangedoras, as melhores referências do funk e da disco music. E Jay Kay cantando mais relaxado do que de costume.
Apesar de melhor que seu antecessor, Rock dust light star não representa uma volta à boa e velha forma da banda em seus primeiro trabalhos. A fórmula já apresenta sinais de cansaço e às vezes soa datada. Para parte dos fãs, a não-mudança pode significar uma estagnação. Mas apenas se, para tanto, o nível artístico se mantivesse alto como nos melhores dias. Não é bem o caso aqui. A celebração de uma obra implica em criatividade contínua.
Se você quiser funks honestos, algum reggae, um cantor acima da média e não estiver muito preocupado com o quanto o Jamiroquai poderia ter feito diferente, Rock dust light star pode te agradar. É fato que, perto das super-processadas produções da era Black Eyed Peas, o Jamiroquai acabou se tornando o retrô do retrô, cheio de influências explícitas do anos 60 e 70. Mas que atravessou os 90 com bastante saúde e que, se não se reinventar, fará do seu ótimo óbvio algo no mínimo redundante.
POR: [Paulo Loureiro]
Regular
Extraordinary alien
| Boy George
Envolvido em um monte de problemas pessoais (saiu da cadeia há pouco e nunca deixou de sofrer as consequências do vício em drogas) e mais conhecido pela militância GLBT do que por sua música, Boy George largou a boa mão pop que deu frutos mais do que conhecidos no Culture Club – e gerou canções como War song e Karma chameleon – e vem dando vazão a seu lado de produtor e DJ há anos. Trata-se de um recurso interessante para um artista que nunca vai conseguir desvincular sua obra dos cavalos-de-pau que a vida lhe proporciona, venham eles de sua visão cínica do show business (a estreia Sold, de 1987) ou de suas próprias escolhas (o religioso The Martyr mantras, de 1991). O mundo da música eletrônica, sabe-se, permite uma espécie de existência musical “sem rosto”, em que as batidas é que comandam.
Extraordinary alien, seu nono solo, traz músicas feitas entre 2000 e 2009 com colaboração do produtor e parceiro Kinky Roland e segue essa linha. Em meio a batidões e tecladeiras que têm mais a ver com as pistas europeias do que com as paradas pop, deixa pouco transparecer o Boy George que foi sucesso nos anos 80. Adequado aos padrões da dance music atual, George investe mais em batidões do que em ganchos pop – mas ainda assim traz canções interessantes, como Yes we can e Amazing grace (com versos em português da cantora lusa Ana Lains). Fãs de rock clássico vão ter acessos de raiva ao ouvir o que o garotão fez com Go your own way, canção de desamor do Fleetwood Mac (do best seller Rumours, de 1977). Que dancem à vontade ao som de George e que o cantor tome jeito, mas até ele sabe que já foi melhor que isso.
POR: [Ricardo Schott]
Excelente
Olympia
| Bryan Ferry
Não dá para não começar essa resenha da maneira mais lugar-comum possível. Ainda mais porque, só neste parágrafo, vão dois. Primeiro: em Olympia, Bryan Ferry, com seu vocal que eternamente lembra um Roy Orbison moderno, conecta-se novamente à sua ex-banda, Roxy Music. O cantor volta aos bons tempos de RM colocando uma musa na capa (a bela Kate Moss), reúne-se a ex-colegas de banda (Brian Eno, Phil Manzanera e Andy MacKay, com quem não trabalhava desde 1973, estão no álbum) e ainda grava Song to the siren, de Jeff Buckley. Esta, até o texto do encarte já liga a Siren, quinto disco do Roxy Music, cuja capa trazia a musa que mais deu dor de cabeça à Ferry, a então modelo Jerry Hall – com quem namorava e que lhe daria de presente um belo par de chifres, trocando-o por Mick Jagger. O outro lugar-comum da história é: Bryan Ferry, um artista em cujos discos solo é quase impossível achar uma música menos que boa, acertou mais uma vez.
Ligado à fase final do Roxy Music e a alguns detalhes do começo da banda - e aos próprios discos mais clássicos da carreira solo de Ferry - Olympia é um disco pop corretíssimo, do tipo que seria considerado “radiofônico” se os tempos fossem outros. O cantor britânico bem que se esforça, convidando uma galera nova para trabalhar. Os Scissor Sisters ajudam na oitentista Heartache by numbers, uma das mais belas canções do álbum, e o Groove Armada põe blips em Shameless – e frequentam a lista de convidados ao lado de nomes como David Gilmour, do Pink Floyd (guitarra) e Flea, dos Red Hot Chili Peppers (baixo). Os fãs de discos como Bête noire (1988) vão gostar bastante de canções como You can dance e Alphaville, que abrem Olympia trabalhando na antiga união de soul, jazz e rock comum ao RM de álbuns como o zoado Manifesto (1979) e a boa parte do trabalho de Ferry. No face, no name, no number traz de volta um dos grandes nomes do rock dos anos 60, o Traffic, num sentido cover. E Song to the siren recorda, sob ambiência quase new romantic, a tristeza das composições do morto precoce Tim Buckley. E aí va outro clichê: ouça no volume máximo.
POR: [Ricardo Schott]
Regular
Os 24 maiores sucessos da era do rock
| Raul Seixas
Um dos primeiros jobs de Raul Seixas na Philips foi gravar e produzir, ao lado de Nelson Motta, um disco genérico chamado Os 24 maiores sucessos da era do rock, em 1973. Dividido em jurássicos pot-pourris, era uma salada de canções dos anos 50 e 60, incluindo vários números da jovem guarda, com arranjos meio hard e intromissões do sintetizador de Luiz Paulo Simas (Vímana) e da guitarra de seu amigo Gay Vaquer. Creditado a uma banda inexistente chamada Rock Generation, o disco seria mais uma bobagem fonográfica a passar despercebida . Não fosse o fato de o iniciante Raul ter tomado cuidado com os arranjos, impresso sua marca vocal em todas as faixas e, anos depois, quando já era um cantor de sucesso, ter visto o mesmo álbum ser relançado com seu nome na capa e o título 20 anos de rock – e curiosos aplausos entre as faixas, para dar impressão de “ao vivo”.
Relançado, mais uma vez, em CD pelo selo MZA, Os 24 maiores... não passa do regular, mas tem mais atrativos para os fãs de Raul do que pode parecer. Os arranjos de metais, feitos por Chiquinho de Morais, então maestro de Roberto Carlos, trazem o padrão que Raul seguiria em momentos mais pesados de sua discografia, como Novo aeon (1975). Canções ingênuas como Marcianita (do repertório de Sérgio Murilo) e Pega ladrão (Getúlio Cortes) vêm relidas em versões que partem do rock ao soul. É proibido fumar, de Roberto e Erasmo, ganha uma introdução chupada de Proud Mary, do Creedence Clearwater Revival. Vem quente que eu estou fervendo (Carlos Imperial e Eduardo Araújo), com guitarra wah wah e percussão, quase lembra a regravação que o Barão Vermelho faria dessa música, em 1995. E uma das áreas preferidas de Raul, a do pop-rock pré-1959, ganha versões interessantes e quase blueseiras de músicas como Jambalaya (do repertório de Jerry Lee Lewis), Rock around the clock (Bill Haley) e outras. Com voz atrevida e nem sombra do vocal limpo que se esperaria num projeto de gravadora como esse (“Raul não tinha uma voz de cantor de estúdio”, como lembraria anos depois Nelson Motta), restava a ele esperar fazer sucesso. E foi o que foi.
POR: [Ricardo Schott]
Regular
Come around sundown
| Kings of Leon
O Kings of Leon é um exemplo fascinante de uma banda crescendo diante de seus fãs, abandonando o som de seu debute progressivamente, sem choques, um acorde de cada vez. Os rapazes que pareciam perdidos na saída de um rodeio que tocaram suas guitarras com sotaque caipira no hit Molly’s chambers, do disco Youth and young manhood, já desapareceram há tempos do Kings of Leon. Mas a pergunta é: o que sobrou? O que está condensado nas 13 faixas de Come around sundown?
Não muito, infelizmente. O Kings of Leon de 2010 faz um som que tem lá suas caipirices (como na faixa Mary, que arrasta algumas progressões de acordes com sabor do Tennessee e tem um solo feito para rodeios), já assépticas diante do som urbano e atormentado que explode da voz do vocalista, Caleb Followill, mas luta para ser alguma coisa. Não é um rock de arena, que engata ganchos pop para animar as multidões (embora a banda seja capaz disso, como provou com o hit Use somebody, de Only by the night, lançado em 2009), mas não é também um som intimista, denso e implosivo. Come around sundown se arrasta nas treze faixas, sentindo falta de canções chiclete. Isso não é dizer que as canções são ruins – não são. Mas falta, em alguns momentos, uma verve pop, algo atraente. As batidas são arrastadas.
Se não são atraentes, as músicas são pelo menos interessantes. O vocal sempre urgente e com um timbre único de Caleb sustenta o disco com maestria. O vocalista sabe desafinar e falhar a voz quando necessário, dando um ar honesto a sua performance até mesmo no estúdio. Sem dúvida, um dos melhores vocalistas de rock em atividade.
Os arranjos do Kings of Leon são deliberados, sem excessos de notas, feitos em camadas. Nos momentos mais agitados, como na faixa No money – uma das melhores do disco, aliás – o baixo e a bateria seguram o ritmo acelerado enquanto harmonias vocais nos backing vocals e a guitarra base de Caleb fornecem suporte melódico, deixando terreno livre para o guitarrista Matthew Followill disparar alguns bons riffs.
Come around sundown é um disco de timbres. Os músicos tiram sons interessantes de seus instrumentos, ainda que sem fugir muito das distorções e reverbs. O baixo rasga violento, contornando com perfeição as frequências graves e com um timbre áspero e abrasivo. Não é um som psicodélico e cheio de intervenções moduladoras como um Radiohead da vida, mas é um rock harmonicamente bem pensado.
Quando o formato do Kings of Leon funciona, a banda mostra sua força de composição e o crescimento desde o debute com fivelas de rodeio e bigodes em 2003. O exemplo cristalizado disso é a faixa The immortals, facilmente o ponto alto do disco, com um refrão melodicamente perfeito, encapsulado por uma bateria intensa e um som preenchido, sem parecer cacófono. A banda também brilha em The end, a faixa de abertura. No resto do disco – incluindo no primeiro single, a mediana Radioactive – o rock fica meio maçante, com suas firulas instrumentais aqui, bons arranjos ali e timbres interessantes acolá, mas parece tudo pensado demais, deliberado demais e lento demais. Onde estão os rapazes caipiras e ingênuos com guitarras na mão e pistolas no coldre nessas horas?
POR: [Gerhard Brêda]
Bom
Band of joy
| Robert Plant
Uma das carreiras mais estáveis de ex-membros de bandas dos anos 70, Robert Plant parece trabalhar em ciclos. Desde seu ápice - como cantor e como rockstar - no Led Zeppelin, ele vem passeando solto por uma linguagem que sempre envolveu o rock básico com elementos da world music e do misticismo. E passou por uma modernidade que quase o afundou no fim dos anos 80.
Depois do maravilhoso Raising sands, ao lado de Alison Krauss e que lhe rendeu os cinco Grammys aos quais concorreu (incluindo disco do ano), ele resolveu continuar roots. Revolve suas raízes de antes mesmo do Zeppelin. Sua primeira banda, Band of Joy, que não chegou a gravar discos, empresta o nome para seu mais novo lançamento. Aqui ele visita sem maquiagem os anos 60 e muito do que de melhor foi produzido na época. Ao lado do veterano ícone country/rock Buddy Miller, Plant se trancou em Nashville e foi atrás do elemento emotivo forte que caracteriza sua obra, seja nas letras, seja nos arranjos, seja nas melodias.
Em Band of joy, ele mergulha fundo na sonoridade country/folk antiga, onde corações nunca cicatrizam. A sonoridade velada da gravação combina bem com seu atual timbre de voz. Contido mas extremamente vivo. Agora, ao invés dos berros dos tempos de Kashmir, ele sussurra, igualmente convincente. Sua musicalidade não perdeu em nada com o tempo, muito pelo contrário; a experiência de trabalhar com músicos fora do eixo rock só o engrandeceu artisticamente.
No vai e vem entre o rock e o folk, nada se perde na estética de Plant. Seus temas poderiam ser atribuídos a dinossauros de décadas atrás mas sua caneta continua bastante ocupada e ele não mostra intimidação por linguagens que antes pareciam longínquas de sua essência. E que não se confunda a trajetória de um vencedor de tantos anos de estrada com perda de fôlego.
Robert Plant está confortavelmente no topo e continua a fazer boa música. Band of joy é, claramente uma continuação solo de Raising sands. Não é genial como este. Mas sem sombra de dúvida é uma porta enorme para Plant entrar e explorar sem medo. A atmosfera sombria que permeia a audição se encaixa perfeitamente com a intensidade do cantor britânico, hoje, cada vez mais enveredado na cultura (boa) norte americana.
POR: [Paulo Loureiro]
Fraco
Tropa de Elite 2
| Vários
O filme pode ser até o lançamento do ano – e reúne condições para bater à porta do Oscar, bem mais do que qualquer outro. Mas o que tem na trlha sonora de Tropa de Elite 2, você encontra até empoeirado em sua própria coleção de CDs. Ou simplesmente aguarda pelo lançamento em DVD, que deve fazer mais barulho que o disco, e é o único lugar onde uma música sem pé nem cabeça como Tropa de elite, do Tihuana, parece fazer sentido. Aliás, só esta e O calibre, grande música dos Paralamas do Sucesso – e que está em Longo caminho, disco de 2002 que volta e meia você encontra em lojas virtuais por R$ 9,90 – figuram no longa. O resto está no disco por que... por que... por que sim.
Há músicas no disco que não se prestam a uma pura e simples malhação. Zé do Caroço, de Leci Brandão, é boa de qualquer jeito. Que país é este, da Legião Urbana, e Brasil, de Cazuza, são clássicos do rock nacional. Tá tudo errado é uma bela redescoberta do funk esclarecido de Junior e Leonardo. Quem é ela, de Zeca Pagodinho, tem em qualquer coletânea dele e é sempre música de festa. Mas não há conceito algum para se trabalhar ou se entender aqui. Nem nada que fuja do esquema “veja o filme, ouça o disco”, obrigatório para qualquer lançamento. Faça o seguinte: veja o filme e compre o DVD (e na loja).
POR: [Ricardo Schott]
Bom
Tiger suit
| KT Tunstall
Enquanto todo mundo (ainda) busca descobrir qual é a surpresa do rock, ela pode aparecer na figura de uma cantora que já se apresentou no Brasil e, mesmo assim, muita gente conhece apenas por uma musiquinha pop inserida em trilha de novela – a pop e animadinha Suddenly I see, que mostrava o lado mais roqueiro de KT Tunstall, cantora e compositora. Em seu terceiro disco, Tiger suit, as coisas pesam um pouco. A veia de Suddenly dá em faixas bacanas como (Still a) Weirdo, cançoneta marcada por uma espécie de beat box soluçado, e que poderia servir de fundo musical em comercial de banco.
No álbum, há barulhinhos domados na pop e glacial Difficulty, eletronices folk em Lost, cinismo pesado em Glamour puss e sons que grudam no ouvido em Uummannaq song. O lado mais roqueiro de seu trabalho dá as caras em Madame Trudeaux e na dance-roqueira-indie Push that knot away. No geral, Tiger suit abre novos horizontes para KT e mostra que, em meio a tanta coisa despejada pelas gravadoras, ela se sustenta como cantora e compositora. Indo nessa linha – que, é bom dizer, ganhou quilogramas de novidades mais graças à produção esperta de um sujeito chamado Jim Abiss do que à própria KT – dá vontade de esperar pelo próximo.
POR: [Ricardo Schott]
Bom
Hurley
| Weezer
O Weezer não precisa provar mais nada para ninguém. Essa é a impressão que se tem quando se dá o play em Hurley: um disco descompromissado, divertido, despido de pretensões. É pop rock movido a powerchords, palm mutes e bons refrões. O Weezer sabe que não vai mudar o mundo e tira sarro de quem pensa que ele vai.
Hurley é o segundo disco da banda que é cercado por polêmicas externas ao lançamento. O disco anterior, Raditude, tinha na capa um cachorro capturado no meio de um pulo, uma foto comum que poderia estar no arquivo pessoal de Rivers Cuomo – vocalista e guitarrista da banda – ou qualquer um dos integrantes. O disco foi massacrado pelos fãs, que diziam que a capa era um absurdo, e pela crítica, que não engoliu bem as investidas confusas de Cuomo no hip hop. Para quem sacou a ideia, em Raditude o Weezer parou completamente de se levar a sério.
Hurley segue a mesma linha. A capa do disco é um corte em extremo close-up do bonachão Jorge Garcia, que viveu o personagem Hurley em Lost. Designers choraram pela simplicidade da capa, fãs da banda em seus tempos de Pinkerton entraram em desespero e fãs de Lost comemoraram – até Cuomo e os outros integrantes declararem que nunca viram a série na vida. Tudo se complicou ainda mais quando Brian Bell, guitarrista, declarou que o disco se chamava Hurley porque foi bancado pela marca de roupas de surge homônima – e depois desmentiu. O Weezer cavou todo o circo da imprensa musical, tirou sarro até dos fãs e, no meio do caminho, soube rir de si mesmo.
Bancado pelo Weezer ou não, Hurley foi lançado pela Epitaph, uma gravadora punk, e a banda abraçou o espírito. Os experimentos com o hip hop se foram e, no lugar, está um disco de pop redondo, estilhaçado por distorções abrasivas e refrões chiclete. Memories, o primeiro single, está no nível das grandes faixas do Weezer nos últimos discos. Ruling me e Trainwrecks completam uma trinca de abertura que há algum tempo não se via na discografia da banda. É pop rock carregado por powerchords abafados, temperado com boas melodias de backing vocal.
O eterno loser do rock, Cuomo, lamenta o azar com as mulheres de forma cômica em Where’s my sex? – não era que ele estava cansado do rala-e-rola já em 1996 com Tired of sex?- e busca mulheres com conteúdo em Smart girls. De uma forma simultaneamente hilária e deprimente, faz a crônica de um solitário geek em All my friends are insects.
O disco perde fôlego no miolo, mas nunca vai ao solo completamente. Por mais previsíveis que fiquem as pontes e refrões, é possível quase ouvir Cuomo sorrindo no estúdio. É tudo meio piada, meio farsesco, mas não a ponto de ser a sátira pela sátira.
O Weezer não é mais a banda que lançou o Blue album ou o Pinkerton. Eles sabem disso há alguns anos. Os fãs, por outro lado, estão em uma espera eterna para serem salvos da mesmice do rock alternativo. Hurley não é isso. É um disco brincalhão, engraçado, divertido, despretensioso e punk. Sim, punk: divertido, anárquico, simples e cheio de pose.
POR: [Gerhard Brêda]
Fraco
Nêga
| Luciana Mello
A geração lançada pela gravadora Trama entre 1998 e 2000 gravou discos muito bons - como a conceitual discografia de Max de Castro e as estreias de Wilson Simoninha e Jair Oliveira -, criou novo interesse por toda uma história da MPB que andava desaparecida dos verbetes e dos relançamentos, lançou alguns bacanas hits-ou-quase. Só não contava com os problemas do mercado fonográfico e, em especial, com o pouco reconhecimento fora do "porte médio" da MPB - tá aí a prova de que, ao contrário do que acreditava o chefe da Trama, João Marcelo Bôscoli, no Brasil artista ou estoura ou pula do nada para lugar nenhum. Do mesmo jeito, pouca gente fora do fâ-clube deve lembrar que Luciana Mello teve um começo promissor (com boas músicas como Assim que se faz e Simples desejo) , chegou a ser contratada pela Universal, mas acabou não acontecendo de verdade.
Independente da culpa que mercado e gravadora tenham tido, faltaram hits em profusão aos filhos de Jair Rodrigues, Wilson Simonal e cia. Nêga, de Luciana Mello (lançado em 2007 e agora relançado pela Som Livre), vem na rabeira disso. Não basta ter uma boa voz, boa aparência, gravar uma ou outra canção interessante (Lágrimas de diamantes, de Moska e Rosas e mel, de Jair Oliveira), e relembrar sucessos bacanas da MPB como Na galha do cajueiro, de Wilson Simonal. Tem que ser muito, muito bom, e ainda investir numa produção que diferencie realmente uma música da outra. Discos de razoáveis para baixo só funcionam depois de vários hits acumulados, para lembrar os fãs que os artistas estão vivos. Só que, à Luciana, faltou a mesma disposição que faltou a Pedro Mariano, filho de Elis, autor de um bom CD (Voz no ouvido, de 1999) e incapaz de manter o nível em álbuns posteriores.
POR: [Ricardo Schott]
Bom
Eliza Doolittle
| Eliza Doolittle
A gatinha inglesa Eliza Doolittle, que estreia com seu primeiro disco - e chupa descaradamente seu nome artístico da personagem principal do musical My fair lady - diz em entrevistas que não sabe o motivo de ser comparada insistentemente com Lily Allen. Moneybox, faixa de abertura, já começa no mesmo estilo reggae-country-sapequinha de Lily, e com linhas vocais que poderiam perfeitamente adornar as músicas do primeiro álbum da moça (Alright, still) Músicas como Skinny genes têm o mesmo clima irônico de canções como Smile - mas com um tom gracioso que reproduz gravações dos anos 50 e 60 e acrescenta assovios ao refrão.
A vontade de misturar designs musicais pop atuais com tons retrô também bate ponto nos dois trabalhos. A diferenciar as duas, está o fato de que Eliza vem com um som que já, de cara, lembra canções feitas para antigos musicais ou desenhos animados, e até esbanja mais cuidados com os vocais. Beira o jazz rouco em músicas como A smokey room e o folk-pop de rádio em Mr. Medicine, canção tão ensolarada que poderia servir de trilha sonora em reclame de absorvente - além de embevecer com a infantil Empty hand, só com voz e pianinho elétrico. Um lado soul surge em músicas como Back to front, enquanto ecos de Burt Bacharach podem ser ouvidos aqui e ali, em músicas como Pack up e Police car. No final, uma boa série de tiros dados para todos os lados - e que geralmente acerta nos alvos.
POR: [Ricardo Schott]
Bom
Up from the skies
| SambuluS
A homenagem a Jimi Hendrix da dupla brasileira SambuluS foi permitida pela Experience Hendrix. empresa da família do guitarrista - o que, dependendo do lado pelo qual a questão pode ser enxergada, pode ser um grande desastre (a biografia Jimi Hendrix, feita pela jornalista Sharon Lawrence, defende que irmã e pai do músico embarcaram em montes de canoas furadas nos últimos anos, e algumas delas são perceptíveis). Mas o guitarrista Caesar Barbosa e a cantora e pianista Luana Mariano alcançam resultados interessantes em Up from the skies.
Relendo canções como Here he comes (Lover man), Angel, The wind cries Mary e outras, conseguem dar um aspecto meio jazz, meio clássico, com direito a vocais com acento blues, ao repertório do músico. E fazem as homenagens geralmente feitas a Hendrix, ainda mais aqui no Brasil, escaparem de clichês.
POR: [Ricardo Schott]
Regular
Arquivo 3
| Paralamas do Sucesso
Paralamas do Sucesso, uma das raras bandas brasileiras de nível internacional - e a única dos anos 80 (Capital Inicial, mesmo na ponta dos cascos, não conta) a manter o mesmo clima inovador de 20 anos atrás. Em fase mediana, o trio de Herbert Vianna, Bi Ribeiro e João Barone consegue soar bem mais azeitado do que quase 100% do rock nacional de hoje em dia, incluídos aí indies e bandas idolatradas pela crítica.
Arquivo 3, terceiro volume da série de coletâneas editadas pela banda, não traz as músicas da fase mais memorável do grupo - foca no primeiro disco pós-acidente do vocalista Herbert, o pesado Longo caminho (2003), passa pelo fraco Hoje (2006), pelo bacaninha Brasil afora (2009) e pelos ao vivo Uns dias (2005) e Paralamas e Titãs juntos e ao vivo (2009). Nenhuma inédita, ao contrário dos primeiros volumes, que traziam gemas como Caleidoscópio e Aonde quer que eu vá. Entre porradas como O calibre, canções pop perfeitas como Cuide bem do seu amor, A lhe esperar e Seguindo estrelas e uma pérola de brasilidade como Mormaço (com Zé Ramalho), dá até para resignificar faixas fracas da banda, como 2A, Na pista e Quanto ao tempo.
POR: [Ricardo Schott]
Bom
Brian Wilson reimagines Gershwin
| Brian Wilson
O maestro dos verões ensolarados da Califórnia de quase meio século atrás está realmente de volta, após um longo hiato que se encerrou com o belo Smile (2005). Ele vê-se agora diante do desafio de tornar um pouco seu, o importantíssimo e igualmente excelente repertório de George e Ira Gershwin. Passando pelos clássicos Summertime, Someone to watch over me e I loves you Porgy, ele ouviu outras 100 canções da dupla e inclusive obteve o aval para finalizar duas de suas composições: The like in I love you e Nothing but love. A primeira inclusive ficou natural a ponto de passar a sensação de que ambos estavam na mesma sala em frente ao piano.
Obviamente a qualidade das composições é acima de qualquer suspeita e a forma como Brian traz para a modernidade (em termos) é intrigante. Certas versões como They can’t take that away from me poderiam muito bem estar em qualquer disco dos Beach Boys. Divertidos mas nunca inocentes, os arranjos de Wilson vão da balada romântica à surf music sessentista, passando pela bossa e pelo soft jazz.
A voz de Wilson há muito não tem a expressividade dos áureos tempos de banda, nem tão pouco carrega a ironia suficiente para encarar certas canções do repertório de Gershwin. Mas, apoiado em elaborados arranjos vocais, sua marca registrada, não compromete. O resultado é um disco lúdico e duplamente nostálgico. Sempre um prazer ouvir as melodias de dois dos maiores compositores da música moderna americana na voz de outro ícone, com sua particularíssima assinatura.
Brian Wilson reimagines Gershwin é, acima de tudo, um resgate musical familiar. Um disco alegre e bastante sensível, que lida com joias bastante raras na música atual.
POR: [Paulo Loureiro]
Regular
Ti ti ti - volumes 1 e 2
| Vários
Lançada em dois volumes, a trilha do remake da 19h Ti ti ti chama a atenção mesmo é pelas músicas antigas. Ou mesmo pelas canções recicladas. Para cada bola fora como Tânia Mara (Como eu vou viver), Izi (Primeiro beijo) e Sandy (com o pop de plástico de Quem eu sou) surgem surpresas como a versão samba de Alcione para Overjoyed, de Stevie Wonder, a boa regravação de Milton Guedes para Você vai lembrar de mim (da banda gaúcha Nenhum de Nós) e as lembranças de Go back (regravada pelos Titãs) e A linha e o linho (de Gilberto Gil, resgatada de um CD antigo gravado pelo músico Marcus Nabuco e pela cantora Andrea Dutra, do grupo Arranco de Varsóvia). Já outras músicas, como Seu tipo (Ney Matogrosso), Nature boy (do repertório de Nat King Cole, regravada por Caetano Veloso) e Aventura (brega-chique incomparável de Eduardo Dusek) aparecem em suas versões originais. Da trilha original de 1985, tem a divertida A vida é dura, dividida entre Demônios da Garoa e Benito di Paula, e surpreendentemente composta pela dupla pop oitentista Michael Sullivan e Paulo Massadas.
O problema é que, se trilhas de novelas já são irregulares por natureza (e o mesmo vem acontecendo às de filmes, há um bom tempo), imagina no caso de dois CDs que poderiam ser reduzidos a um, ou um e meio, numa boa. Da falta de expressividade, nem mesmo a música-tema da novela (uma das piores já feitas por Rita Lee em toda sua carreira), escapou, comparecendo numa releitura sem o menor brilho. Entre inéditas interessantes como Crença (de Dudu Falcão) e O que eu não conheço (Maria Bethânia) misturam-se mais tiros n água, como a sem-graça Cala a boca e me beija (Karla Sabah). Nota cinco.
POR: [Ricardo Schott]
Bom
Azul/Vermelho
| Nina Becker
Primeiro veio Gal, fase Fa-Tal, anos 70. Depois veio Marisa Monte, que, para os leigos em música chegou cheia de novidades, mas nada mais fez do que recriar tudo o que Gal já fizera, trocando as guitarras e a tentativa de psicodelia da baiana por elementos percussivos de música brasileira com uma pitada de modernidade eletrônica. Agora chega Nina Becker, a mais perfeita síntese (ou cópia, como você preferir) das duas cantoras acima.
Nina, porém, chega em grande estilo. Primeiro pela boa cobertura da imprensa, que, ajudada pela turminha do chinelinho Lapa/Santa Teresa carioca adoradora da Orquestra Imperial (que a tem como uma das crooners), a transformou rapidamente na nova queridinha da música no Rio, mesmo sem ter uma canção sequer nas rádios e/ou ser completamente desconhecida do grande público consumidor de música no país, as classes C e D. Segundo por lançar dois discos de uma só vez, escolhendo, em vez de um álbum só, dividir a obra em dois CDs, batizados singelamente de Azul e Vermelho, ambos produzidos pela própria cantora, pelo eterno diretor de clima Carlos Eduardo Miranda e por Mauricio Tagliari.
A opção pela divisão da obra, além de certamente criar confusão no já minúsculo público consumidor de artistas novos do país, ainda corre o risco de o comprador sair com a sensação de ter sido enganado, pois os dois discos são bem diferentes entre si. Não que isso seja algo ruim, pelo contrário, parece os dois lados de uma mesma obra, mostrando diferentes nuances de uma compositora que se mostra um talento de mão cheia.
Vermelho foi gravado naquele esquema ao vivo de estúdio, com os músicos tocando juntos e procurando desesperadamente emular a sensação de um show para depois acertar no computador os eventuais erros. Acompanhada dos músicos da banda Do Amor, que se mostraram excelentes instrumentistas e uma usina de boas ideias musicais (pena que parecem ter tido um apagão de talento e não terem usando nenhuma delas no péssimo disco de estreia do grupo), Nina Becker conseguiu algumas boas canções e pelo menos um grande hit, a canção Toc Toc, com uma levada deliciosa e que vai deixar muita cantora medalhão da MPB com vontade de ter escrito a canção.
Azul já se mostra mais introspectivo. Sem a ajuda da Do Amor, Nina Becker aproveitou para colocar sua voz em primeiro plano, com um disco que soa mais limpo do que Vermelho, com faixas de instrumentos quase minimalistas, mas também recheado de boas canções, nas quais contou com a ajuda de nomes da tchurminha hype de talentos (?) cariocas como Moreno Veloso, Domenico Lancelotti e Rubinho Jacobina.
Resumindo tudo, se Nina Becker tivesse sido um pouquinho apenas menos egocêntrica e tivesse limpado Vermelho e Azul de seus excessos e lançado um disco só com 12 a 15 músicas, com certeza seria o grande lançamento de MPB do ano.
Do jeito que ficou, infelizmente são apenas dois bons discos e nada mais.
POR: [Luciano Vianna]
Excelente
Praise & blame
| Tom Jones
Se o ex-drogadaço Richard Ashcroft pode louvar violentamente a Deus no debute de sua banda United Nations Of Sound, Tom Jones também, vá lá, pode. Pré-roqueiro setentão, cria dos cassinos de Las Vegas, cantor de pérolas do hedonismo como Sex bomb, ele tinha tudo para, em 2010, ter tanta relevância musical quanto Wanderley Cardoso – que, por sinal, nos anos 70, copiava Jones em tudo, desde a dança lasciva até os cabelos encaracolados. Mas tem feito alguns lançamentos bem interessantes desde sua redescoberta pelo mercado, lá pelos anos 90 e, mesmo tendo provocado reações extremadas com esse seu disco gospel Praise & blame (o vice-presidente da Island, gravadora do velhote, chegou a reclamar veementemente do álbum num e-mail que vazou para a imprensa), ainda impressiona.
Praise & blame é um disco de soul demolidor travestido de gospel (na soturna e bela What good am I?, de Bob Dylan), country (Did trouble me), hard rock das antigas (Lord help, na qual a voz de Jones insiste em soar como um misto de P. J. Proby – aquele crooner que gravou um disco com os progressivos holandeses do Focus, certa vez - e Jimi Hendrix) e até rockabilly (Strange things). A releitura de Burning hell, blues de John Lee Hooker, foi comparada pelo The Guardian a White Stripes e não é para menos – basta escutar.
Da própria pena, entre outras igualmente boas, Jones manda ver num Nobody s fault but mine que não tem nada a ver com o Led Zeppelin – autor de uma canção com o mesmo nome. Praise & blame é um grande disco de rock e soul. E curiosamente soa até como um espelho do já citado WC – hoje evangélico, só que preso à imgem de “bom rapaz” construída há décadas.
POR: [Ricardo Schott]
Bom
Bang the drum
| Mango Groove
Nem mesmo o fato de Ivete Sangalo cantar na versão brasileira de Hey! (intitulada Cada coração), e que foi feita visando a copa do mundo 2010, fez com que o público verde-e-amarelo prestasse mais atenção nessa banda sul-africana. O Mango Groove já existe há bastante tempo, participou daquele famoso show de tributo a Freddie Mercury (que já foi exibido um sem-número de vezes no Brasil, num leque de canais que vai da MTV à Band) e une rock e ska cimentados por algo da new wave e do rock oitentista – herdado diretamente de grupo como Blondie e Pretenders, a cujas vocalistas a louraça vocalista Claire Johnston deve muito.
Primeiro disco de inéditas do grupo-multidão (são onze integrantes) em 14 anos, Bang the drum soa baladeiro em canções como Lay down your heart e My blue ocean, convida à festa em músicas como This is not a party (dá para imaginar pessoas fazendo coreografias na hora do “to the left!/to the right!”), Everyone s dancing e a faixa-título. E tem lá seus lados étnicos em músicas como a própria Hey! e All about love, com suas flautinhas. E ganha um aspecto meio The Jam anos 80 no balanço de Utolika. Com bastante sucesso em seu país de origem e encarando algumas turnês pela Europa e EUA, o grupo permanece sendo a grande surpresa pop de um país do qual, mesmo com os holofotes recentes, se conhece ainda muito pouco.
POR: [Ricardo Schott]
Bom
Sempre
| Wilson Simonal
Ué. Há um ano a EMI lançou uma coletânea de Simonal, Ninguém sabe o duro que dei, que tem até mais valor histórico por ser a trilha sonora do filme dirigido por Claudio Manoel, Micael Langer e Calvito Leal – e ainda recuperava hits pouco óbvios do cantor, como Roda (de Gilberto Gil), Samba do Mug e a adesista Brasil eu fico. Se Simonal era sinônimo de dor de cabeça e péssima companhia há poucas décadas, hoje ele dá grana, é cult, e é legal ter seu nome associado ao dele. E a Som Livre resolveu levar seu quinhão, se associando à própria EMI para lançar mais um volume da série Sempre, com o cantor.
Wilson Simonal Sempre sai da obviedade em algumas faixas selecioandas também. Lembra que o cantor foi o primeiro a gravar Tonga da mironga do kabuletê (de Toquinho e Vinicius de Moraes). Recorda o último grande sucesso da sua primeira fase, Na galha do cajueiro (1971), lançado em meio às encrencas em que se meteu. Também mostra que ele e o revolucionário Geraldo Vandré têm mais a ver um com o outro do que se pode imaginar – afinal Simonal lançou várias canções suas e gravou Fica mal com Deus, que está neste álbum. Vale como (re)apresentação à obra do cantor, mas ainda faz falta uma coletânea realmente completa, que una as diferentes fases de Simonal e sua passagem por três multinacionais. E nada desculpa a costumeira pobreza de informações da Som Livre, que quase nunca põe textos nos CDs, nem informa de que discos saíram as músicas.
POR: [Ricardo Schott]
Regular
RPA & The United Nations Of Sound
| RPA & The United Nations Of Sound
"Passei uma temporada no inferno/e estou bastante cansado", diz Richard Ashcroft lá pelas tantas, no primeiro single deste RPA & The United Nations Of Sound, Are you ready? Os fãs do Verve, sua ex-banda, e mesmo os admiradores de seus discos solo, podem ter um certo trabalho para entender e acompanhar esta estreia de sua nova banda. Ele até tratou de deixar as coisas mais claras para quem só o conhece do hit Bittersweet symphony, do Verve: tem batidinhas intermitentes e acompanhamentos orquestrais por quase todo o disco. Mas sai o lado escuro e prevalece a faceta ensolarada de sua ex-banda. As músicas, quase todas elas, têm títulos de auto-ajuda, como Born again (essa, um rock em clima quase gospel), This thing called life, Beatitudes (que fala em "palavra de Deus") , Good lovin, Life can be so beautiful. A letra de Are you ready? poderia soar como uma versão ex-junkie de A montanha, aquele hit de Roberto Carlos.
RPA & The United Nations Of Sound mostra um Ashcroft grato e mudado. Após a descida ao inferno das drogas, celebra a vida e perde vínculos com aquele rapaz com cara de psicopata que trocava ombradas com as pessoas pelas ruas no clipe de Bittersweet - numa das cenas, talvez a mais engraçada, encara dois negões que, em superioridade evidente, o deixam passar e até dão risada. O som do disco novo acentua o que já havia de eletrônico e meio hip-hopesco no Verve (o produtor é No ID, chapa de Jay Z e Kanye West). Mistura músicas mais ou menos (a dançante America) com momentos belíssimos (a orquestral e cinenatográfica Let my soul rest, This thing called life) e mandam bala num ponto fora da curva (o blues-rock chupado de John Lee Hooker How deep is your man?). Na bonitinha She brings me the music, soam como uma banda de rock farofa que levou um banho de loja pianístico. No final, um recomeço nota seis - sete às vezes. Mas que mostra amadurecimento e denota mudanças, além de servir como um grande alívio para quem esperava pela sobrevida de Ashcroft.
POR: [Ricardo Schott]
Regular
Teenage dream
| Katy Perry
“Você faz com que eu me sinta como se estivesse perdendo minha virgindade”, dispara Katy Perry aos gemidos em Hummingbird heartbeat. Se o disco trata mesmo de sonhos adolescentes, a cantora acertou o tom e bicou a sutileza para a vala. Ensolarado, com clima de férias de verão, Teenage dream é uma insossa jornada pelos rincões mais desnecessários do pop, mesmo que adornado por alguns - poucos - bons vocais e melodias. Falta hit.
Sutileza, pensando bem, nunca foi o forte de Perry. Após beijar uma garota e gostar, a cantora vem com o brilhantismo de “I wanna see your peacock-cock-cock”, em Peacock, o que provavelmente é a referência sexual mais mal concebida e constrangedora do pop. É o tipo de piada que seria bem ruim na sexta série, e talvez mais inapropriada. Novamente, esses adolescentes e seus sonhos picantes.
Mas ninguém vai para o disco de Katy Perry esperando letras brilhantes. Vai esperando melodias chiclete, batidas criativas, hits. Bem, eles estão ausentes. Não existe aqui um I kissed a girl ou Hot n cold (que, a bem da verdade, se sustenta como uma boa música). Se Peacock é facilmente o ponto mais baixo do disco, é difícil achar um ponto muito alto. E.T. soa como T.a.t.u. e, ao seu redor, o disco desaba. A balada-pancadão pretensamente densa Who am I living for? é uma boa vitrine para o vocal distinto de Perry, mas, no geral, é uma faixa equivocada. Pearl não faz nada de errado, mas nem tenta fazer alguma coisa de certo. Aonde estão os refrãos? Aonde estão os hits?
Até a primeira metade, o disco tem conceito de pop ensolarado, que desmorona depois de Circle the drain, que aspira ser uma faixa pesada, mas soa perdida. É o equivalente musical de um adolescente que se veste de preto, se enche de piercings e se acha um rebelde. Perry até dispara um palavrão e emula uns segundos de grunge na faixa, mas não sai disso: emulação, aparência, faz de conta.
A melhor faixa do disco é Firework, que tem bons vocais, boa melodia vocal e é dançante. Tem cara de single, cara de hit. Não é particularmente chiclete, mas chega perto. California gurls é ensolarada até o fim, música de praia. Não é brilhante nem memorável, mas não tenta ser. É diversão burra e fácil, e não há nada errado com isso.
Teenage dreams é um disco mediano de pop, descartável até a última molécula. Não sabe se quer ser pop ensolarado, se quer ser denso, se quer ser relevante ou descartável, sério ou divertido. Como segundo disco (alguém conta Katy Hudson, de 2001?), não capitaliza nos acertos de seu antecessor e mergulha nos erros. É passável e olhe lá.
POR: [Gerhard Brêda]
Bom
Gilberto Gil
| Retirante
Hoje é até complicado olhar para nomes respeitáveis como Gilberto Gil, Edu Lobo, Caetano Veloso e Chico Buarque e pensar "quem diria, esse pessoal já foi jovem um dia..." (quem viu Uma noite em 67, filme recém-lançado nos cinemas, e que fala do começo de carreira desse povo todo, pode ter passado por essa sensação). Em 1962, Gilberto Gil, aos 20 anos, não era apenas só um jovem com um violão. Era um estudante de Administração, que atendia pelo apelido de Beto e, candidato a músico, fazia jobs acompanhando com seu violão jingles e demais gravações, e começava a tentar emplacar suas primeiras canções em singles e 78 rpms independentes, lançados por um selo baiano chamado JS. Uma parte inicial que está agora reunida nos dois CDs de Retirante, disco que traz como raridade maior uma demo que Gil gravou em 1966 nos estúdios da editora musical Arlequim, em São Paulo, com o repertório que compôs no começo da carreira.
Em versões curtíssimas, muitas vezes nem passando dos dois minutos, Gil gravou músicas que até hoje permaneciam inéditas, como o Ninguém dá o que não tem, o samba Me diga, moço e a bossa A última coisa bonita, além de músicas que depois reapareceriam no debute Louvação (1967), como Rancho da rosa encarnada (parceria com Torquato Neto e o futuro desafeto Geraldo Vandré). O restante do repertório, que povoa o primeiro CD do set, tem pelo menos duas bizarrias. Começa com duas canções de um sujeito chamado Everaldo Guedes, que era funcionário da Petrobras: o samba Povo petroleiro, composto como jingle da empresa, e a marchinha Coça coça Lacerdinha. O repertório extraído dos primeiros singles pelo selo JS, que traziam músicas como Serenata do teleco-teco, Maria Tristeza e Meu luar, minhas canções, por sua vez, mostravam um Gil quase irreconhecível, com entonação de seresteiro em vários momentos.
A lista de canções do primeiro CD ainda chega ao período da Philips, passando pelas únicas gravações de Gil pela RCA (hoje Sony): as primeiras versões de Procissão (lembrando a do LP Louvação) e Roda (em clima indiscutivelmente sambalanço, bem mais a ver com a releitura que Elis Regina faria da canção) e a exclusiva Iemanjá, incluída apenas num LP de festival e presente em algumas compilações do baiano. O primeiro single pela gravadora que o abriu até 1977, Ensaio geral/Minha senhora também aparece no set, assim como o único registro da primeira música que Gil fez na vida, Felicidade vem depois, gravada para um single da revista O Bondinho, em 1972. Retirante traz uma história sobre a qual muita gente se acostumou a ler, mas vai ouvir pela primeira vez.
POR: [Ricardo Schott]
Regular
Close up, vol.1: Love songs
| Suzanne Vega
Não são só os artistas brasileiros que, em alguns momentos, param para regravar suas obras. A grande diferença é que, em vários casos, os gringos, mesmo que estejam sumidos da mídia, fazem isso com um pouco mais de charme e sem aporrinhar os ouvidos dos fãs com autorreleituras de araque. A americana Suzanne Vega decidiu reler sua obra em 4 CDs, cada um enfocando um lado de seu repertório - e ainda deixou de lado seus dois grandes hits, Luka e Tom s dinner, pelo fato de eles não se encaixarem no esquema de "love songs" do primeiro disco da série. No Brasil, que só a reconhece por Luka, periga muita gente deparar com o CD por aí (Close-up saiu aqui pelo pequeno selo Lab 344) e nem saber que ela tem uma obra tão consistente e numerosa assim.
Não é só por esses dois hits que Suzanne é conhecida no Brasil, a bem da verdade - Caramel e Marlenne on the wall, que estão no disco em boas versões, tocaram em FMs de perfil adulto quando de seu lançamento original. O volume 1 da série serve mais como uma boa redescoberta do que como um álbum que vá varrer o mercado. Traz as canções no esqueleto, com voz, violão, poucos acompanhantes e pouquíssimas guitarras. If you were in my movie, para os padrões do disco, conseguiu ficar soturna e suja, com vocais falados lembrando Lou Reed. Gypsy tem estrutura de canção de ninar. Small blue thing, com um pouco mais de mídia, conseguiria conquistar tantos corações quanto os maiores hits da cantora, assim como I ll never be (Your Maggie May), com levada roubada de I got a feeling, dos Beatles. Quem não gosta de sonoridades certinhas e inofensivas, deve fugir - o que o som de Suzanne tem de agridoce, tem de asséptico demais à primeira vista, pronto para adonar comerciais de empresas telefônicas e até reclames de margarina. Se não for esse o problema, vale ouvir.
POR: [Ricardo Schott]
Excelente
Vocabularies
| Bobby McFerrin
Vencedor de 10 prêmios Grammy, o virtuoso vocalista norte americano Bobby McFerrin, ficou mundialmente conhecido nos anos 80 pelo hit Don’t worry, be happy, um delicioso pop reggae, de melodia mais do que pegajosa. Entre discos feitos a capella, com apenas ele cantando todas as partes vocais e parcerias com nomes como Chick Corea e Yo Yo Mah, McFerrin sempre foi além no quesito experimentação vocal. Suas apresentações ao vivo, munido apenas de um microfone, sempre foram uma experiência mágica. Qualquer pessoas que estivesse na plateia se perguntava quantos, na verdade, estariam cantando. Contudo, as composições, em si, sempre ficaram em segundo plano, em detrimento da pirotecnia do canto. Apesar de interessantes, seus discos eram melodicamente simples, infantis (no melhor sentido do termo) e recheados de improvisos.
Vocabularies veio para mudar completamente essa história. Sem a menor sombra de dúvidas, seu trabalho mais poderoso em diversos sentidos. Um tratado sobre o poder da voz humana e talvez a melhor definição de globalização musical até hoje. O opus de Mcferrin traduz fielmente sua inquietação musical, que passeia pelo R&B, reggae, tribal, asiático, erudito e vários outros estilos musicais, com fascinante democracia.
Preso no estúdio durante mais de uma ano e meio, McFerrin, ao lado do compositor/arranjador e produtor Roger Treece, produziu sua obra prima convidando 50 dos maiores cantores do mundo para fazer o impressionante mosaico vocal que é Vocabularies. Usando mais 1.400 canais de voz, ele organizou tudo em grupos de quatro ou cinco cantores em um insano exercício de edição. O termo fusion nunca foi tão bem utilizado para classificar este projeto. Vozes do Oriente Médio casam-se com timbres da América, Europa e outros cantos do planeta e evocam o que há de melhor na música moderna e nas raízes contemporâneas. A complexidade dos ritmos e das harmonias serve de pano de fundo para as melodias sempre cativantes de Bobby. A percussão, brilhantemente executada, é dos poucos sons no disco que não saem da garganta.
Um disco que tira o fôlego da mesma forma que intriga e eleva. A música vocal tem um novo capítulo.
POR: [Paulo Loureiro]
Bom
Memphis blues
| Cyndi Lauper
Até no pop mais explícito dá pra notar a diferença dada pelos cantores dos anos 80 – década que, na verdade, não apresentou mais do que meia dúzia de boas coisas. Cyndi Lauper representou fielmente o que a foi a era de Michael Jackson e da new wave. Cores, penteados, roupas estranhas e música, bem, pop.... Era raso mas era divertido. Quem não riu com seus clipes? Girls just wanna have fun e o hino gay True colors, além é claro da ótima balada Time after time. O que pouca gente conhece é o lado blues da loura (?).
Aos 57 anos, ela acaba de lançar Memphis blues. Um disco que é a cara do nome. Blues rasgado. Sincero mesmo. Repleto de participações consagradas. Nomes como BB King, Jonnhy Lang, o gaitista Charles Musselwhite e o pianista de Nova Orleans Alain Toussaint são apenas alguns deles. O som é tosco, assim como toda a produção. Mas é aquela coisa relaxada na rédea. Mesmo assim é ótimo. A banda tocando junta no estúdio lembrando bem uma atmosfera de décadas atrás.
Até aí, nada de muito novo, muito pelo contrário. Tem-se a sensação de que o disco foi gravado em meados dos anos 50. A grande surpresa é a própria Cyndi. Absolutamente à vontade, ela comanda o show como se representasse o estilo há muito tempo. Seu timbre esganiçado, agulhativo até, junto à experiência resultaram em uma combinação bastante interessante.
Passeando por um repertório basicamente antigo (Robert Johnson, Muddy Waters), Cyndi respeita os compositores e enverniza os arranjos adicionando metais. Apesar de ser um disco de blues não padece do mal de ser repetitivo ou triste em demasia. É bastante festivo, na verdade. Assim como ela. Os temas do estilo estão lá, mas a forma como são abordados deixa o resultado mais leve. Para o fã de Cyndi, hoje no mínimo em seus quarenta, é uma boa surpresa; para o fã de blues, ótima.
POR: [Paulo Loureiro]
Bom
Trans-Continental Hustle
| Gogol Bordello
Os shows incendiários do Gogol Bordello foram, indiscutivelmente, um passaporte para o sucesso da banda mundo afora, mas sempre deixaram muita gente com um pé atrás. A acusação é de que esse “gypsy punk” ligado na tomada desvia a atenção do que realmente importa: as canções.
A questão é que Eugene Hutz e seu frondoso bigode jamais se propuseram a compor canções. O Gogol Bordello é uma banda catártica, voltada para a apresentação ao vivo, para o espetáculo no palco e nunca desmentiu ou se envergonhou disso, o que torna a tarefa de quem vos escreve um tanto difícil.
Cabe a uma banda sem canções criar uma sonoridade própria, timbres marcantes e, sobretudo, um conceito inesquecível. E nesse sentido, pode-se dizer que Trans-Continental Hustle, o terceiro disco de estúdio da banda, é um bom disco. Todos esses elementos estão aqui, com a ajuda de Rick Rubin, que mais uma vez prova seu talento.
O produtor faz com o Gogol Borddello o que já fizera antes com muitas outras bandas, como Weezer, Red Hot Chili Peppers, Beastie Boys, Slipknot, System of a Down e The Mars Volta. Ele ajuda a consolidar a sonoridade alternativa construída desde seu debute, Voi-La Intruder, de 1999, com um disco sólido e com rigor extra em transferir essa personalidade para os timbres.
Cada faixa de Trans-Continental Hustle (que, numa tradução livre significa “encontro de continentes”) transborda as referências à música folclórica do leste europeu e de diversos outros cantos do mundo. O nome sugestivo não poderia ser melhor: vemos finalmente em prática o conceito de “worldcore” com que a banda flertava nos discos anteriores, acrescentando alguns novos (e saborosos) ingredientes à mesa.
Uma menina, com trechos em português, talvez seja a faixa que melhor representa essa aposta, com uma salada interminável de influências. Dançante, ela tem cheiro do samba, forró e música de roda brasileiros nos versos; do tango argentino no interlúdio; e das danças espanholas e gregas no ritmo que embala essa mistura toda.
Já as frenéticas Pala tute, In the meantime in Pernambuco e My Companjera são prenúncios de uma interpretação caótica e tresloucada, mantendo as referências à sonoridade cigana do leste europeu e os arranjos elétricos de violino de Sergey Ryabtzev (o coroa barbudão metade caçador, metade pirata). Enquanto isso, a acelerada Immigraniada, combina letras políticas (mas leves) com levadas punk mais cruas e guitarras distorcidas.
Elas contrastam com as (relativamente) gentis When universes collide e Sun is on my side, canções (sim, canções) com melhor tratamento melódico, bons timbres e vocais que brilham na tentativa de soar suaves e que, no final das contas, soam tão rasgados, engasgados (e um tanto bêbados) quanto qualquer outra faixa mais acelerada da banda.
POR: [Philippe Noguchi]
Regular
Strict joy
| The Swell Season
O violonista irlandês Glen Hansard e a pianista checa Markéta Irglová são mais conhecidos no Brasil pela breve incursão no cinema em Apenas uma vez – musical irlandês dirigido por John Carney e estrelado pelo próprio casal – do que pela banda que tocam juntos desde então. Vencedores do Oscar de Melhor Canção Original em 2008 com Falling slowly, da trilha do filme, estão lançando no Brasil em agosto o seu segundo álbum, Strict joy, que saiu lá fora em 2009.
O disco é marcado pelo término do namoro do casal e até flerta com a melancolia inevitável, mas também traz canções otimistas. Low rising, a música de trabalho, abre o disco e é uma delas. A faixa traz arranjos suaves que realçam a voz emocional de Hansard, bom gosto nos timbres e o refrão grudento que toda boa canção romântica pop merece.
Embora a boa impressão se mantenha com Feeling the pull e The rain, outras duas canções folk honestas, a esperança por um disco brilhante vai se perdendo aos poucos conforme passam as faixas. O álbum ousa pouco melodicamente e não faz apostas nem mesmo nas faixas mais aceleradas (para não dizer “menos chatas”).
Strict joy se mantém até o fim tão monótono quanto o tom de Hansard, que raramente solta a voz. Com bons arranjos, mas sem canções boas o suficiente, é como se todo o álbum fosse composto das famosas “album fillers”, coadjuvantes que amaciam os ouvidos para os singles. High horses até ensaia uma empolgação, mas fica no quase.
POR: [Philippe Noguchi]
Bom
Música de brinquedo
| Pato Fu
Bonitinho, agradável e, o mais importante, fez meu filho de 2 anos ficar quieto por mais de meia hora e prestar atenção nas músicas enquanto andávamos de carro à noite. Acalmar as crianças será, com certeza, o principal motivo pelo qual muitos pais vão comprar Música de Brinquedo, o novo álbum do Pato Fu - e o primeiro feito pela banda mineira buscando também, por que não?, o público infantil.
Gravado quase inteiramente com instrumentos de brinquedo (muitos deles do Backyardigans - febre do momento do mercado infantil) ou miniaturas, o álbum traz diversas covers e consegue o que muitos artistas tentam e não conseguem: versões com a assinatura registrada da banda mineira. Tudo bem que ajuda muito ter um estúdio em casa, como John e Fernanda, o casal Fu, que tiveram todo o tempo do mundo para experimentar as sonoridades que pontuam Música de Brinquedo.
Com quase 20 anos de carreira e muitas experimentações no caminho, o Pato Fu dá um passo ousado em direção a outro público. Ousado porque pode perder seus fãs antigos por acharem o disco infantil demais - e não ganhar as crianças por elas acharem os arranjos do álbum muito complexos.
Entenda-se bem, Música de Brinquedo não é um disco infantil. É um disco de covers "adultas", mas gravado procurando atingir uma sonoridade descompromissada com a estética clean dos mega-lançamentos. Nas doze faixas do disco, o grupo teve a preocupação de transferir acorde por acorde, riff de guitarra por riff de guitarra, todas as notas para os intrumentos de brinquedo, dando um sopro de vitalidade em músicas já batidas no imaginário popular.
O repertório é um primor de hits radiofônicos da época de infância de John e Fernanda. Da abertura com uma linda versão de Primavera, do mestre Cassiano, ao encerramento com Love me tender, do repertório de Elvis Presley (que vrou quase uma canção de ninar), passando por Ska (Paralamas do Sucesso), Todos estão surdos (Roberto e Erasmo), Frevo mulher (Zé Ramalho), Ovelha negra (Rita Lee), Música de brinquedo tem participação de crianças em diversos momentos, o que dá uma leveza ao disco característico dos bons álbuns dedicados ao público infantil. Afinal de contas, é sempre melhor escutar Fernanda Takai e os amigos da filha do que aguentar Xuxa e Sasha, não é?
POR: [Luciano Vianna]
Muito Ruim
Euphoria
| Enrique Iglesias
Enrique Iglesias é uma espécie de Fiuk latino dos anos 90. Filho de um medalhão da música, mas já considerado meio brega, o rapaz lançou uma carreira musical de sucesso, ainda que insossa. Enquanto isso, tentava emplacar uma carreira de ator, chegando a aparecer em alguns filmes como Era uma vez no México. Não era particularmente talentoso em nenhuma das áreas, mas sempre esteve lá, disparando músicas razoáveis, como a baladinha inofensiva Hero, de 2001. Euphoria, o novo trabalho de estúdio de Iglesias, é claramente uma tentativa do cantor de voltar aos holofotes aos quais teve direito há alguns anos. E é uma obra desnecessária, patética e forçada.
Em um mundo no qual uma diva loira maluca é o parâmetro principal do pop e o maior astro masculino do gênero tem 16 anos e é canadense, o estilo "amante latino" de Iglesias já saiu de moda faz tempo. Ele parece saber disso, ao investir em parcerias equivocadas com nomões do hip-hop e r&b farofados, como Akon (One day at a time) e Usher (Dirty dancer). Até mesmo na ala em espanhol de Euphoria, Iglesias abandona suas guitarras pseudo-espanholas e mantém as mesmas bases fuleiras que usa no disco todo. O idioma muda, mas parece tudo a mesma coisa.
O primeiro single do disco, I like it é um bom estandarte de tudo o que está errado no resto. A batida é a mais pasteurizada possível e a voz única, ainda que incrivelmente irritante, de Iglesias passa por um paredão de autotune. Se fosse uma paródia do pop atual seria até engraçadinho, mas infelizmente parece sério. Quando Pitbull, o parceiro do single, surge com um rap em inglês cucaracho, a vontade de apertar o botão stop é maior que a força para continuar. E é a música que abre o disco. Quem se aventurar no resto, vai encontrar algumas baladinhas medíocres, como Heartbeat e Heartbreaker e, de resto, músicas de pista com batidas cansativas, que encontram seu ponto mais baixo em Everything is gonna be alright.
Nas temáticas, ou romances genéricos ou baladas intensas, com mulheres baratas. Nas letras, pelo visto, Iglesias ainda vive a ilusão do amante latino, o sonho das mulheres em relacionamentos apáticos de primeiro mundo, que aparece com um carro conversível, algumas centenas de dólares e a promessa de aventuras.
Euphoria é um disco alienígena dentro do pop. Parece alguém observando, de fora, o que faz sucesso - e tentando imitar. Ao mesmo tempo, tem um ranço forte de algumas modas que morreram nos anos 90 e jamais foram exumadas. O disco traz, além de músicas medíocres, a figura trágica do amante latino castrado pelo autotune. Algumas coisas são piores do que a morte.
POR: [Gerhard Brêda]
Bom
Time flies - 1994-2009
| Oasis
Que o Oasis deixa saudades, poucos duvidam - e muitos, muitos mesmo, têm certeza. Misturando Beatles, Rolling Stones, Smiths e o lado bêbado e porradeiro do glam rock (Moot The Hoople, Slade) em doses desiguais, os irmãos Gallagher foram roqueiros britânicos dos anos 90 que não se prenderam às amarras conceituais do termo brit pop. Em 15 anos de carreira discográfica, conseguiram mais do que fãs. Conseguiram torcedores - chegando a se tornar clichê falar do "apelo de futebol" que envolvia os shows e todo o marketing do grupo.
Na coletânea Time flies, além dos hits, dão aos admiradores a chance de se enxergarem na história do grupo, como um espelho - em termos de interatividade, é algo que nenhuma grande banda de década nenhuma da história do rock mundial já fez. Cada canção é acompanhada de depoimentos dos fãs, incluindo alguns brasileiros. O próprio disco ganha frases escritas pelos seguidores da banda, na apresentação. Em vez de fotos dos irmãos Gallagher e de seus acompanhantes, clicadíssimos durante todos os anos de carreira da banda, aparecem imagens deles mesmos, os fãs, em delírio durante a execução de muitas canções do CD duplo: Supersonic, Roll with it, Live forever, Wonderwall, o decalque total de Beatles All around the world, Lyla e hinos politicamente incorretos como Cigarettes & alcohol. Um disco para ouvir e guardar, mesmo diante dos momentos em que o Oasis não foi tão grande - Falling down, Go let it out e algumas poucas outras.
POR: [Ricardo Schott]
Bom
The place we ran from
| Tired Pony
Quando Gary Lightbody, vocalista da banda Snow Patrol, disse que o Tired Pony, seu projeto voltado para a música country e para o folk (que divide com músicos como Peter Buck, guitarrista do R.E.M.), tinha lançado um disco do qual "pingava sangue", não estava brincando. The place we ran from não é das experiências mais alegres - e pode se tornar repetitivo aos ouvidos de muita gente, graças a canções melancólicas e circulares como Northwestern skies, ou a quase mântrica Get on the road, com Zooey Deschanel nos vocais. Boa parte do álbum não é formada por canções formais de amor ou desamor e soa como se coletasse vários sentimentos em poucas estrofes - em Get... versos que soariam românticos postam-se ao lado de outros como "a verdade é como um soco, ou dois".
Country ou folk não são definições tranquilas para o disco - embora possam caber em canções tranquilas e radiofônicas como Dead american writers, ou em faixas tristes como That silver necklace. Alguns momentos de The place... resolvem-se não na placidez, mas na combinação de sons acústicos, bandolins, algumas guitarras e uma discreta parede de ruídos e efeitos. Como em The deepest ocean there is, cinco minutos de violões, slide guitars e piano encerrados com segundos de barulho.
Em boa parte do disco, os violões são esfregados na cara do ouvinte e ganham peso. Held in the arms of your words soa como os momentos mais calmos do rock oitentista - uma linhagem que inclui Smiths e até Echo & the Bunnymen, banda cujo Ocean rain (1984) parece ter ensinado muito ao estilo caixa-de-surpresas do Tired Pony. I am a landslide tem estrutura roqueira, mas soa confortável apenas com violões, acordeão, percussão e uma discreta guitarra. The place we ran from é uma boa estreia e vai fazer muita gente passar a prestar atenção até no Snow Patrol.
POR: [Ricardo Schott]
Bom
Symphonicities
| Sting
Uma trajetória, no mínimo, brilhante. Autor de 99% das músicas de uma das mais influentes bandas pop de todos os tempos e dono de uma carreira repleta de grandes discos (não todos, claro), Sting se rendeu ao formato orquestra, que vários de seus contemporâneos também abraçaram na última década. Com exceção de Joni Mitchell e seu divino Both sides now e Peter Gabriel em Scratch my back, a grande maioria pecou pela obviedade. E por rever, pela enésima vez, os hits de carreira, sem acrescentar novidades. Em Symphonicities, Sting desaponta com algumas escolhas do naipe de Roxanne ou Every little thing she does is magic - músicas que já foram revisitadas dezenas de vezes, por ele mesmo e por vários outros artistas. Em compensação, nos brinda com boas versões de We work the black seam e a linda I burn for you. Destaque também para When we dance, com sensível arranjo de cordas.
Acompanhado pela Royal Philarmonic Orchestra, Sting não precisa mais provar que é um ótimo cantor e intérprete, mesmo revendo seus velhos sucessos em roupagens eruditas. Trabalhando em região mais grave, mas sem perder a intensidade, deixou que vários elementos de seus arranjos originais permanecessem intactos através de sons de clarinetes, violinos, flautas e oboés. Nada, porém é de extrema genialidade. Grandiosos, mas não ao ponto de serem incensados. O poder de suas melodias é o que conta.
Sting não é do time de artistas pop super bem sucedidos, que precisaria fazer um disco orquestral de suas próprias canções para provar algo de mais “artístico” em sua trajetória. Ele já fez discos cantarolando poemas medievais com alaúdes ao fundo (o chatíssimo Songs from the labirynth) e, logo em seguida atacou com um álbum natalino (If on a winter’s night...) que, apesar de melhor, não pedia uma segunda ou terceira audição.
Symphonicities está longe de ser um trabalho comparável ao que ele fez com o The Police ou até mesmo no início de sua carreira solo mas, não é fake. Ele se encaixa bem em muitos formatos: trio, quarteto, big band e orquestra. Esperemos pois, um disco de inéditas para que tudo volte a normalidade e possamos, quem sabe, ter alguma nova King of pain no futuro.
POR: [Paulo Loureiro]
Bom
Recovery
| Eminem
Depois de escorregar com o mediano Relapse em 2009 e seu relançamento Relapse: Refil em 2010, Eminem parece ter guardado o seu melhor para Recovery, que chega poucos meses depois. Criativo, o rapper volta à velha forma, embora flerte menos com outros gêneros. O disco é mais urbano e cru, traz menos samplers e instrumentos diferencidos. Os arranjos, mais simples, estão melhores, trabalhando com o feijão com arroz: guitarras, baixo e teclado.
As faixas temáticas, que tanto incomodavam em Relapse, aparecem menos em Recovery, o que não diminui o apelo pop. Correndo na direção oposta, há uma melhora visível no delivery do rapper, que andava meio mal das pernas. Eminem volta mais vigoroso e incisivo, principalmente nas faixas com refrão cantado, onde costuma deslizar. Provas disso são a melancólica Going through changes (com samples do jovem Ozzy Osbourne) e a excelente Won’t back down (com refrões cantados por Pink), embalada por uma cozinha roqueira.
Seguindo o padrão não declarado mas recorrente do rap, o principal single do disco, Not afraid, é uma das faixas mais fracas, com um refrão grudento terrível e musicalidade zero. O que falta na faixa, sobra em Untitled (Here we go), com uma batida pop irresistível, letras ácidas e um delivery rápido do rapper, que lembra seus primeiros hits.
Untitled:
POR: [Philippe Noguchi]
Regular
To be loved: The best of Papa Roach
| Papa Roach
Quem vê movimentos como o tal do happy rock deve morrer de saudades da época (criticadíssima, afirme-se em letras garrafais) em que a bola da vez era um tal de "nu metal", tão soberbo em relação às suas grandes influências que mal queria ser confundido com os metaleiros de verdade - mas bem mais descerebrado, adolescente e misógino. O Papa Roach, cruzando rap, sons pesados e farofices, é o representante mediano da facção, que ainda inclui dois bons nomes (Linkin Park e Incubus) e uma das bandas mais repetitivas e pentelhas da história do rock (o Limp Bizkit).
A coletânea To be loved reúne sucessos do Papa Roach, misturados a versões acústicas e uma inédita, Just go (Never look back). O disco foi lançado à revelia do grupo, que prepara um álbum de inéditas, Time for annihilation, a sair em agosto. Os músicos chegaram a recomendar aos fãs que esperassem pelo disco novo e não comprassem a compilação, editada por sua antiga gravadora, a Interscope, da qual nem podem ouvir falar. Quem levar o disco para casa, vai descobrir - ou redescobrir - ótimos momentos na trajetória da banda, como os singles Last resort, She loves me not, Time & time again e a recente Hollywood whore, sempre naquela linha de macheza & choradeira que abriu a porta para uma dezena de bandas emo. São tão boas que não havia necessidade de emporcalhar o disco com as versões desplugadas dos hits Had enough, Forever e Scars. Mas a verdade mesmo é que, afora os grandes hits, a discografia do Papa Roach nunca passou do regular.
POR: [Ricardo Schott]
Regular
Aphrodite
| Kylie Minogue
Kylie Minogue explodiu com o mega hit Can’t get you out of my head, mas isso já faz alguns verões. A moça, desde então, não emplaca mais nada nesse nível e Aphrodite, por mais que seja um disco de pop de festa, divertido, não vai mudar isso.
Aphrodite é um disco esquisito. Em uma pista de dança, ele seria um sucesso, suas batidas são feitas para chacoalhar o esqueleto. Mas em casa, numa primeira audição, soa repetitivo demais, chato. Os tecladinhos se misturam e formam uma grande massa sonora, um disco de uma música só. Falta refrão.
Bem, não é bem assim. O problema é que Aphrodite é um pop sofisticado demais para grudar de primeira, mas sofisticado de menos para ser relevante. Enquanto Lady Gaga te bota cantando Telephone por três dias e marca Poker face na sua vida para sempre – mesmo a contragosto – Kylie não consegue fazer o mesmo. Suas músicas não têm potência o bastante embaixo do motor para se tornarem relevantes. Ainda mais se considerar as faixas encheção de linguiça, como a dobradinha Too much e a chata Cupid love.
Isso não quer dizer que o disco não tenha hits. All the lovers abre muito bem o disco, mesmo que acabe dando o tom da repetição que vem a seguir. Os riffs seguem divertidos, simpáticos, mas nunca relevantes, tropeçando até Aphrodite, a faixa título, cujo refrão é um dos melhores do disco. As pretensões orquestradas de Illusion soam bizarras ao lado do tecladinho à la Love generation, do Bob Sinclar.
Kylie Minogue entrega um pop bom, ainda que repetitivo, em um mundo desejoso de divas R’n’B ou loiras platinadas e fashionistas com hits fáceis de se absorver. Fora das pistas de dança, não existe muito espaço para Aphrodite.
POR: [Gerhard Brêda]
Bom
Night work
| Scissor Sisters
Antes, uma decepção, e só essa: o primeiro single do terceiro álbum dos SS, Fire with fire, não é um cartão de visitas dos melhores. É uma baladinha dançante, ok, mas bem mais triste, para baixo, do que os exocets disparados pela banda em discos anteriores. E ainda mais se comparada a I don t feel like dancing, de Ta-dah (2006), segundo álbum. A canção esconde que Night work é, e fato, uma obra noturna dos Scissor Sisters, o álbum em que o mix de glam rock, electro, brilho e decadência do grupo aparece melhor resolvido. Jake Shears (piano, guitarra, vocais), Babydaddy (baixo), Ana Matronic (vocais, teclados), Del Marquis (baixo, guitarra) e Randy Real (bateria) acharam um caminho próprio em meio às picadas abertas nos dois lançamentos anteriores, que apontavam para flertes estranhos entre rock e sons eletrônicos (como a cover de Comfortably numb, do Pink Floyd) e tons disco-rock herdados dos Bee Gees. Tudo isso continua lá - Any which way poderia estar na trilha de Os embalos de sábado à noite, por exemplo - mas com a cara do grupo.
Trazendo colaborações do DJ Stuart Price - acostumado a trabalhos com Madonna e Kylie Minogue - Night work tem lá suas quedas para a marginalidade. Há sexo, referenciado por gírias e detalhes sacanas, em boa parte das canções, como Skin this cat e A whole new way - ou, em especial, Sex and violence. Referências a drogas pipocam aqui e lá. A divina decadência associada ao glam rock bate ponto em Running out e no estilo de vida fora-da-lei da faixa-título. Eletronices herdadas do tecnopop oitentista surgem em canções como Skin this cat e Skin tight, que nada devem a alguns dos melhores hits da época. O que poderia ter sido um registro conturbado, marcado pelas hesitações da banda - que chegou a descartar um disco quase inteiro, já gravado - virou um bom CD de festa.
POR: [Ricardo Schott]
Bom
Hellbilly de luxe 2
| Rob Zombie
Com apenas quatro discos solo lançados em mais de dez anos (o primeiro Hellbilly deluxe, seu debute após deixar a banda White Zombie, chegou às lojas em 1998), o americano Rob Zombie estava, nos últimos tempos, sendo mais citado em sites de cinema do que em veículos de música. Sua produção como diretor de filmes de horror vem angariando fãs. E também vem assustando críticos - mas não da forma que, provavelmente, Zombie gostaria de fazer. Em Hellbilly..., volta ao que sabe fazer de melhor e, à sua maneira, promove espetáculos de horror em disco, com direito a trechos de clássicos da podridão cinematográfica entre as faixas.
O som, na medida para agradar os fãs do cara, volta a ser uma maçaroca de hard rock, pré-punk e metal industrial. Tem riffs e refrões decoráveis e cantaroláveis à moda do AC/DC, em faixas como Mars needs women, Jesus Frankenstein e Dream to exist. Chega perto do nu-metal em canções gélidas como Burn. E instaura clima punk na gozadora Werewolf women of the SS - referência a um trailer dirigido pelo próprio Zombie, que aparece no filme Grindhouse (2007), de Quentin Tarantino e Robert Rodriguez. O lado mais aterrador (mas sempre de brincadeira) fica por conta de faixas como Virgin witch e o épico de nove minutos The man who laughs, que encerra o disco.
POR: [Ricardo Schott]
Bom
Minha história
| Amado Batista
Não confunda Amado Batista com Reginaldo Rossi: se você chegar para o cantor nascido na cidade goiana de Catalão e chamá-lo de "rei do brega", ele vai ficar puto. Acha o termo desrespeitoso para com seu público. Responsável por alguns dos bons momentos da legítima música pop do brasil, ele tem sua carreira dissecada agora nesta caixa de 4 CDs lançada pela Som Livre, que coleta músicas lançadas originalmente pela Continental (hoje Warner) e Sony Music.
O mundo de Amado Batista é o da música popularzona sem filtro. Intérprete do dramalhão boca-do-lixo Filho proibido e da machista ao extremo O julgamento (na qual um caso de amor e traição é resolvido à bala), torna difícil imaginar um Caetano Veloso, uma Marisa Monte ou mesmo um Moska a alçá-lo ao status de MPB - como já aconteceu com Peninha e Odair José, que gravavam pela Philips nos anos 70 e tiveram a sorte de contar com nomões dos estúdios nacionais nos bastidores de seus discos.
Em boa parte de sua carreira, Amado não teve gravadoras grandes a apoiá-lo, e nem mesmo a contratação pela BMG (hoje Sony) nos anos 90 fez com que ele fosse beneficiado pelo reposicionamento da música sertaneja nos corações e nas mentes do público classe A. Acontece que, presente ou não nos grandes esquemas, trata-se de um cara que já conquistou discos de ouro, platina e diamante com fonogramas como Vem, morena, Casamento forçado (triste canção falando de um parto e da consequente morte da mãe), Vitamina e cura, Desisto, O pobretão e outras do mesmo naipe. Quem foi adolescente nos anos 80 consegue perfeitamente imaginar as dançarinas do Bolinha ou do Programa Barros de Alencar fazendo dancinhas em torno dessas e de outras músicas, o que já diz tudo. Mas, definitivamente, não é som para festa brega. Aqui, o buraco é um pouco mais embaixo.
POR: [Ricardo Schott]
Excelente
The imagine project
| Herbie Hancock e convidados
O mundo do jazz ficou pequeno para o pianista, compositor, arranjador e produtor americano Herbie Hancock há muito tempo. Após ingressar na banda de Miles Davis aos 22 anos, não parou mais de experimentar e abrir os caminhos da música contemporânea. A cada lançamento, uma surpresa, seja no repertório, seja nas diretrizes que sua sempre criativa mente musical gosta de nos levar. Ele começou esta nova fase com Possibilities, um apanhado de canções pop/rock e que contava com participações que foram de John Mayer a Annie Lennox. Neste The imagine project, Herbie dá a volta ao mundo em um dos projetos mais globalizados dos últimos tempos.
A viagem começa com Seal, Pink (a própria), Jeff Beck, India Aire, Konomo n.1 e Oumou Sangare entoando o hino Imagine. Assim como várias outras faixas do disco, Herbie promove uma festa étnica no arranjos. Uma bela introdução de piano e voz, dá lugar a um vigoroso batuque africano, sob a força de percussões e vocais tribais. A festa segue com Don t give up, a linda balada de Peter Gabriel que aqui teve Pink para substituir Kate Bush e John Legend no lugar de Gabriel. Apesar da discrepância tímbrica, o resultado é bastante interessante e mostra um outro lado da cantora norte americana.
A grande surpresa do disco é a participação da cantora brasileira Céu, que participa da faixa Tempo de amor, conseguindo com isso um enorme destaque na sua já bem sucedida carreira internacional. Apesar das camas de teclados e da produção detalhada, a execução é clara, vívida. Herbie é um dos maiores pianistas vivos de jazz e não economiza seu talento nesta área. Além, é claro de demonstrar toda sua generosidade para com seus convidados instrumentistas.
O que mais chama a atenção em The imagine..., é a capacidade de Herbie em organizar estilos aparentemente opostos em um colorido mosaico de dinâmicas e improvisação. Coisa que só alguém prestes a completar 70 anos de vida e que já possui mais de 50 de carreira seria capaz de conseguir. Entre os outros convidados estão Dave Mathews, Anoushka Shankar, The Chieftains, Juanes, Derek Trucks, Susan Tedeschi, Chaka Khan, K Naan, Wayne Shorter, James Morrison e Lisa Hannigan. Um disco de descobertas e conscientizações musicais e humanas. E é claro que também é uma boa porta de entrada para o vastíssimo universo musical de Herbie Hancock.
POR: [Paulo Loureiro]
Excelente
Pra gente fazer mais um samba
| Wilson das Neves
Até a Teresa Cristina, a Roberta Sá, o Diogo Nogueira, o Pedro Miranda, o Marcos Sacramento, o Moyseis Marques, o Casuarina, hão de concordar que o samba do "professor" Wilson das Neves é outro nível. A nova geração do gênero no Rio, apontada principalmente como cria recente da Lapa, tem lá sucessos particulares em seus CDs. Mas, na hora de segurar seus shows, o que se vê muito comumente nos set lists - no boêmio bairro carioca ou além - é a busca ao repertório de canções já alçadas ao status de clássicas. É difícil, de uns tempos para cá, um nome do samba cometer um disco bom, interessante e relevante do início ao fim. Há tempos não era lançado um desses, mas Wilson das Neves fez, em Pra gente fazer mais um samba.
Do novo público jovem atraído pelo samba, tanto lapeiro quanto da Zona Sul, principalmente, Das Neves vinha se aproximando através da Orquestra Imperial, da qual é integrante. No show da moçada capitaneada por Kassin e Berna Ceppas, o veterano promove alguns dos momentos altos com seu repertório. No único CD da big band, é dele a coautoria (com o hoje ex-integrante Max Sette) da ótima Era bom (“Era bom pintar aquele sexo / consumir nossa energia / viajando pelos 7 cantos / descobrindo a filosofia”). Este novo lançamento solo é atemporal, para apreciadores de todas as idades, da abertura com a música homônima à faixa 13, Velha Guarda do Império.
O mestre, carteirinha 001 da banda de Chico Buarque (que costuma dizer que não é Wilson quem toca para ele - ele, Chico, é quem canta para o baterista), um dos grandes nomes da bateria no Brasil, se dá ao luxo de passar as baquetas para outro fera, André Tandeta. Tira onda de cantor e compositor. João Carlos Rebouças (piano), Vitor Santos (trombone), Don Chacal (percussão), Zé carlos "Bigorna" (saxofone), Zé Luiz Maia (baixo), Jorge Helder (violão) e Claudio Jorge (violão) completam o time de feras que gravaram no disco. E nas palavras musicadas e cantadas por Wilson das Neves não tem blá-blá-blá. Dez coassinadas com Paulo César Pinheiro e, como se não bastasse, outras parcerias com ninguém menos que Arlindo Cruz, Nei Lopes. Luxo. “Ô sorte!’. É outro nível.
POR: [Leandro Souto Maior]
Bom
The Drums
| The Drums
Bandas como Smiths e Joy Divison são citadas como influências do grupo novaiorquino The Drums, grande destaque da edição 2010 de Glastonbury - mas, vale avisar, o som do quarteto de Jonathan Pierce (vocais), Jacob Graham (guitarra), Adam Kessler (guitarra) e Connor Hanwick (bateria), é bem mais alegre do que esses dois nomes podem fazer supor. É quase surf music, mas para surfistas que encaram as ondas em dias nublados. Nas 12 faixas da estreia da banda, lançada em junho, tem de tudo: referências a Beach Boys (coraizinhos desafinados que lembram o grupo despontam no CD), Cure (confira a bela Book of stories), coisas recentes como Franz Ferdinand e Strokes e até a pancaria punk do Agent Orange. Completando o clima, a qualidade de gravação é a mais retrô possível, como se tivesse sido feita em algum selo independente do começo dos anos 80. Soa esparsa, cheia de reverbs nos vocais e com aquele barulho de "caixa de fósforos" na bateria, típico dos álbuns registrados em 1980 ou 1981. E complementa-se com um detalhe: não há baixo. Os riffs mais graves são feitos por outra guitarra.
Uma escutada com mais atenção nas letras revela que a ideia do grupo é misturar climas ensolarados nas melodias - no melhor estilo "som para acordar" - com letras agridoces, ou tristes mesmo. Que podem falar da morte de um amigo (Best friend), de amores mal resolvidos (Me on the moon) ou caírem no romantismo exagerado (em Down by the water, com sua melodia meio anos 50). It will all end in tears, cujo nome já diz tudo, é surfística na medida que o Jesus & Mary Chain, em meio a névoas, também tinha lá seus ataques de banda de surf music. We tried, com sua bela melodia, mantém o lado punk no riff intermitente, meio desafinado, que corta boa parte da canção. Enfim, ouça feliz.
POR: [Ricardo Schott]
Excelente
Easy Star Lonely Hearts Dub Band
| Easy Star All Stars
Lançado já há algum tempo (saiu em abril de 2009 e agora chega às lojas brasileiras), o terceiro disco do coletivo Easy Star All Stars, que reúne artistas do selo novaiorquino de reggae Easy Star, é o álbum mais bem resolvido dos já lançados pela gravadora. Antes, os reggaeiros do selo - que se juntaram em 1997 para serem a banda de estúdio do Easy Star - já haviam lançado o Dub side of the moon (2003), brincadeira dub-reggae com o clássico The dark side of the moon, do Pink Floyd, e, depois, Radiodread (2006), tributo a OK Computer, do Radiohead. Em todos os tributos, a ideia é cavar o lado reggae, colorido e inusitado dos homenageados. Assim, Time, do PF, virou um reggae-raggamuffin, enquanto No surprises, do Radiohead, virou um hino homeless. Dessa vez, não deu outra: a festa original dos Beatles - banda que, só para ilustrar, era idolatrada por Bob Marley, fanático pelo álbum Revolver (1966) - virou quase brinquedo nas mãos dos comandantes Michael Goldwasser, Eric Smith e Lem Oppenheimer, donos da gravadora. E dos músicos que participaram.
Há muito soul, de modo geral, nas canções dos Beatles - e não deve ter sido tarefa complicada extrair isso de músicas como a faixa-título (na voz de Junior Jazz), With a little help from my friends (com Luciano) e até de músicas cujos originais não eram exatamente um primor de alegria, como She s leaving home (que virou um skazinho na bela voz de Kirsty Rock). Como dub e psicodelia são irmãos, a faceta vertiginosa do disco fica por conta da relaxada versão roots de Being for the benefit of Mr. kite! (com Ranking Roger, que ainda inseriu um ragga no novo arranjo), do amálgama Bob Marley-Paul McCartney de When I m sixty four (com Sugar Minnott) e no sinuoso toasting em cima de Lovely Rita (com a dupla de veteranos Bunny Rugs, do Third World, e U-Roy). E vale citar que Within you without you virou um reggae lisérgico e meditativo nas mãos de Matisyahu, rapper-reggaeman judeu que esteve no Brasil recentemente. Tudo isso, como a capa informa, sem nenhum sample do original dos Beatles. Pode dar de presente para qualquer beatlemaníaco.
POR: [Ricardo Schott]
Regular
Impressions
| Claudio Roditi
Radicado nos EUA há muito, mas muito tempo, o trompetista carioca Claudio Roditi teve lá suas (poucas) relações com o pop nacional antes de se mandar de vez para uma terra em que seu jazz-samba, repleto de toques latinos, seria mais ouvido. A canção pop Teletema, feita pela dupla Antonio Adolfo e Tibério Gaspar, encerrou a trilha da antiga novela global Véu de noiva (1970) numa releitura instrumental feita por ele. Seu tema Tributo a Booker Pitman encerrou o álbum de estreia de Tim Maia, do mesmo ano. Dez anos antes, trabalhou com o músico cujo som criou os pilares do que depois se conheceu como samba-rock, ou soul brasileiro, Ed Lincoln. Já fora do Brasil, tocou com nomes como Dizzy Gillespie e Paquito D Rivera, e gravou álbuns próprios.
Impressions, gravado no Rio com músicos cariocas, lançado nos EUA pelo selo Sunnyside em 2006 e só agora descoberto aqui pelo selo Biscoito Fino, pode ser ouvido de duas formas. A primeira e mais óbvia é a redescoberta do som de Roditi, que com nomes como Sergio Barroso (baixo) e Pascoal Meireles (bateria), transforma em samba temas de John Coltrane (Moment s notice, Giant steps), Johny Mercer (Come rain or come shine), Kurt Weil (Speak low) e os mistura a composições próprias (Bossa do Brooklyn e The monster and the flower, parceria com o guitarrista Ricardo Silveira) e até a um clássico de João Donato, A rã. A segunda é a de que mesmo um som excepcional como o de Roditi, hoje, é mais comum do que o eram as notas de R$ 1 há poucos anos. Uma voltinha pelo Rio já faz qualquer espectador dar de cara com propostas sonoras parecidas em montes de bares - e, não por acaso, o encarte ilustra isso com um agradecimento em letras garrafais à loja-palco Modern Sound, casa pela qual passam quase todos os músicos de jazz cariocas. Um investimento maior em composições próprias e menor numa faceta "o jazz encontra o Rio" poderia dar cabo disso.
POR: [Ricardo Schott]
Regular
To the sea
| Jack Johnson
Jack Johnson não vende música. Vende estilo. Um cantor havaiano, surfista, boa-pinta, consciente ecologicamente (seu disco tem a capa, em digipack, toda feita em papel reciclado, e até a gravação, em seu próprio estúdio, foi feita de acordo com preceitos ambientais), que faz músicas prontas para serem tocadas em luaus à beira da praia... Enfim, em tempos de vagas discográficas magérrimas, melhor oferecer alguma coisa a mais. Só que, para quem ouve, em casa, sem se preocupar com quantas árvores foram derrubadas para se fazer um encarte de CD, a coisa não funciona desse jeito. To the sea, quinto disco de Johnson, sofre do mesmo pecado dos anteriores: excesso de regularidade, pouca ousadia. Falta de maldade, diria alguém mais exaltado.
O novo lançamento do bardo violeiro é o típico disco que "funciona". Funciona como trilha sonora nas mais diversas ocasiões: em churrasco de família, em reunião de ex-colegas de faculdade, numa festinha descolada para poucas pessoas, para levar uma menina para conhecer "a coleção de discos" no apartamento. Dá certo até como fundo musical para outras situações menos gloriosas do dia-a-dia, como fazer faxina ou lavar cuecas. Para ouvir na quietude do lar, é outra história. Boas canções como o hit You and your heart, o rock nostálgico At ot with me (cuja letra, com refrões como "nunca sei se estão rindo comigo ou de mim", é uma comédia romântica pronta para ser filmada) e o reggae acústico Turn your love são atropeladas pela placidez algo excessiva do disco. O bom soft rock My little girl lembra que boa parte das músicas no mesmo estilo que eram feitas nos anos 70 (por James Taylor, Carly Simon, etc) eram boas porque , mesmo sendo acústicas, fugiam da bundamolice acrescentando influências diversas e uma pitada da tal vá lá, maldade - enfim, mesmo sendo legal, falta algo. E o mesmo se estende a todo o CD.
POR: [Ricardo Schott]
Regular
Diamond eyes
| Deftones
Em seu nono álbum de estúdio, o Deftones faz jus a sua fama de uma das bandas menos limitadas do heavy metal e levantam a bandeira de um metal alternativo. Diamond eyes é um disco de riffs pesados e algumas levadas criativas que ameaça cair nos clichês do gênero, mas eventualmente consegue escapar das ciladas com injeções de pop.
No geral, o som do Deftones é pesado, com distorções no talo e a bateria esmurrada, mas a banda sabe viajar entre outros estilos. Em Beauty school, Chino Moreno e sua trupe (sem o baixista Chi Cheng, ainda em recuperação após um grave acidente automobilístico em 2008) emulam uma espécie de 30 Seconds to Mars com infusões de testosterona, afastando as peripécias teatrais e emo da banda de Jared Leto.
O disco carrega uma similaridade com o Smashing Pumpkins de Mellon Collie & infinite sadness. Em Mellon Collie, Billy Corgan alternava músicas leves como To forgive com faixas cruas e pesadas como Zero. Em Diamond eyes, o Deftones alterna a surpreendente balada Sextape com uma faixa que parece extraída de um disco do Korn, CMND/CTRL. E por vezes, a alternância de peso com sensibilidade acontece dentro da própria música, mostrando que o Deftones sabe as ciladas do metal e, mais importante, sabe evitá-las. Um exemplo disso é Rocket skates, com vocais berrados, praticamente guinchados, mas com um refrão menos pesado.
O maior mérito do disco é a faixa título, Diamond eyes, cujo refrão tem uma das levadas de bateria mais interessantes, especialmente quando combinadas com a métrica adotada por Moreno. É uma música que não tem ranço de heavy metal enlatado. É pesado, mas sem deixar o peso absorver qualquer criatividade.
No geral, Diamond eyes é um disco meio repetitivo. As músicas acabam se misturando, muitos riffs parecem reciclados, mesmo com o esforço homérico de Moreno em diversificar seus vocais. O disco é feito para os headbangers que tem cabeça aberta o bastante para abraçar alguma experimentação em outros campos do rock, mas quem não curte guitarras pesadas deve passar longe.
POR: [Gerhard Brêda]
Fraco
Tear the world down
| We Are The Fallen
Tear the world down é o debute desta banda americana de heavy metal formada por ex-integrantes do Evanescence (os guitarristas Ben Moody e John LeCompt e o baterista Rocky Gray), Marty O’Brien (ex-Disturbed e Static-X), e pela finalista do American Idol 7, Carly Smithson, uma irlandesa de voz poderosa que a cada edição do reality deixava os jurados pasmos com seu alcance vocal.
A primeira coisa que chama a atenção na primeira faixa lançada pela banda – além do nome mega soturno, Bury me alive – é a semelhança dos vocais de Carly com sua "antecessora", Amy. Isso aparece nos timbres e, sobretudo, nos arranjos, que já denunciam falta de intenção da banda em ousar com a nova vocalista. Como single, Bury me alive deixa claro que não estamos diante de uma nova personalidade. E sim de uma reprodução, de algo já disseminado.
Carly dá uma aula de técnica vocal na faixa, com uma interpretação perfeita para o estilo introduzido no mainstream por Amy - a quem foi muito comparada no American Idol. Mas, no instrumental, a banda abusa excessivamente das fórmulas que tornaram o Evanescence um sucesso para esse nicho de fãs de metal. Tem, por exemplo, os manjados versos em arpejos suaves e refrãos explodindo em distorções de guitarra.
O disco segue com mais do mesmo: não traz novidade alguma nos arranjos de teclado e nos sintetizadores, instrumentos geralmente mal explorados pelas bandas de metal, que exageram na tentativa de conferir o famoso "ar épico" às canções. Brega, a banda erra ainda nas letras: genéricas, com os dilemas existencias sombrios que já conhecemos. Em síntese, um disco que, carente de bons refrões e personalidade, não empolga.
POR: [Philippe Noguchi]
Fraco
Das Kapital
| Capital Inicial
Façamos justiça: o Capital Inicial é, entre seus contemporâneos, "o" grupo que conseguiu cruzar os anos ainda sendo relevante às novas gerações. O rosto do vocalista Dinho Ouro Preto, nas fotos da capa e encarte, impressiona - não é clichê afirmar que, para ele, o tempo parece não ter passado. E, de fato, ele nasceu de novo, depois do tombo violento que levou num palco e, pior, das complicações no hospital. Não à toa, a faixa de abertura do disco da retomada das atividades depois da fatalidade, Das Kapital, chama-se Ressurreição.
Tinha tudo para dar errado, e meio que deu mesmo. Tirando o louvável fato da sobrevida da banda, não há ali entre as faixas de Das Kapital (que título é esse?) algo relevante, como a leva de canções que os ressuscitou (opa) na década de 90. E, muito menos, algo perto do brilhante debute homônimo de 1986. Os versos atuais causam vergonha alheia - e as letras, na verdade, salvo as contribuições herdadas de Renato Russo (Fátima, Música urbana), nunca foram o ponto forte do grupo.
Como que querendo ainda manter-se sob o efeito da fonte da juventude – os irmãos Lemos, que não tiveram a sorte genética de ter as rugas naturalmente dichavadas como Dinho, estão sempre de chapéu ou meio escondidos - o grupo opta por uma estética no estilo "moderninha" ou "computadorizada" na apresentação gráfica do lançamento, e anuncia no encarte que podem ser encontrados no mundo virtual em site, Twitter, Facebook, Flickr, YouTube, Orkut e MySpace. Para quem não alcança relevância nas canções, o caminho é tentar ficar onipresente de outras formas. Das Kapital é um disco para ser esquecido.
POR: [Leandro Souto Maior]
Fraco
Bionic
| Christina Aguilera
Talvez já bastasse uma Lady Gaga para falar sobre sexo, na linguagem pop futurista. Christina Aguilera já havia versado sobre muitas saliências em Dirrty, single que marcou sua transformação de ídolo teen em femme fatale - no álbum Stripped, de 2002. Apesar de bastante apimentado, tinha conteúdo musical. Disse ao mundo que Christina era a melhor cantora pop de sua geração. E abriu os olhos de produtores e músicos de renome (vide Herbie Hancock) para o seu talento.
Em Bionic, ela exagera em vários aspectos, menos na qualidade. Amontoa melodias lineares e robóticas, mascaradas com arranjos frios e desinteressantes. Toda a primeira parte do disco é assim: um apanhado de experimentações inócuas calcadas em programações e vocais adulterados. E nem seria preciso, pois a menina sabe cantar. A coisa melhora lá pelo meio, no charm Sex for breakfast, que continua insinuante, mas mata um pouco a saudade da voz da loura.
Não há dúvidas que alguns dos bate estacas de Bionic podem ser hits de pistas pelo mundo. E que, pelo clip do primeiro single, Not myself tonight, ainda vem muita polêmica por aí. O fato é que Christina ainda está adolescente, mesmo que somente na cabeça. Suas habilidades vocais, pelo menos em 80% do disco, foram desperdiçadas em prol de músicas chatas.
E as letras? Rimas de yuhuuus com yuppis, bananas com bananas e outras riquezas. E, quando não abordam sexo, noitadas com amigas e bebedeiras, o assunto é a própria Christina e seu espelho, como em Vanity (“It’s me I adore”).
O lado camaleônico de Christina sempre foi uma característica positiva em sua carreira. Para um quarto álbum, até que ela foi bem longe, estilisticamente. Mas a ex-modelinho teen - que já colocou calça de couro e chicote, deu um pulo nos anos 40 para se inspirar e voltou para a cama - não pode se esquecer de que envelhece. E que seu público também o faz.
POR: [Paulo Loureiro]
Bom
Sea of cowards
| The Dead Weather
Menos de um ano depois de Horehound, Jack White e seus comparsas do The Dead Weather lançam Sea of cowards. Mais um baita disco da nova fase pós-White Stripes de White, que solidifica ainda mais sua reputação como um dos mais prolíficos e criativos compositores e produtores americanos. Mantendo a fórmula crua e áspera, Sea... não se apóia mais tanto na fórmula blues do primeiro disco da banda. Teclados tradicionais e sintetizadores são o pano de fundo para as letras depressivas e melodias soturnas de White. Além, claro, do preciso trabalho de guitarras. Como o primeiro, o disco é cheio de influências de bandas como Led Zeppelin, Slayer, Ten Years After e afins. Riffs grudentos, bateria cadenciada e sem firulas. É rock and roll básico, cheio de idéias novas e boas lembranças. A começar pela mixagem completamente diferenciada. Vozes com distorções, dentro de uma ambientação espacial e densa, com o contrabaixo de linhas bastante criativas. O timbre agudo e mais esganiçado da voz de Jack casa como uma luva com a rouquidão de Alison Mosshart. Jack também pilota a bateria, sem grandes méritos, mas corretamente apostando igualmente em levadas retro além de enveredar pelo hard funk e pelo reggae.
Na sua preocupação estética, Jack White explora um mundo dark - e definitivamente carrega a tocha do blues pesado, agora bem mais viajante e lisérgico. Em versos como “I love you so much I don’t need to exist” da faixa Blue blood blues ou no refrão do primeiro single do disco, Die by the drop (“Some people die just a little/Sometimes you die by the drop/Some people die in the middle/I live just fine on the top”) a banda carrega categoria também nos versos, quase sempre inquietantes.
Soando bem mais como banda do que um bando de roqueiros que se juntou no estúdio (ou seja: bem diferentes de sua estreia), o The Dead Weather se estabelece como um grande grupo, que prova ser musicalmente tão ou mais interessante do que as bandas-matrizes de seus integrantes (Queens of the Stone Age, Kills, White Stripes e outros). Dentro desse universo sombrio, Jack White nunca soou tão democrático e divide as atenções com os outros três músicos, com grande destaque para Mosshart; sexy, carismática e incrivelmente interpretativa.
POR: [Paulo Loureiro]
Bom
Innerspeaker
| Tame Impala
O Tame Impala é uma novidade bacana, vinda da Austrália, que sequer teve tempo de ser incensada pela crítica - resenhas favoráveis apareceram em sites como o Pitchfork. Em todo lugar no qual o nome da banda apareceu, foram comparados com os Flaming Lips, banda com a qual guardam semelhanças, graças à sonoridade que lembra algo de anos 60, mas também soa como algo moderno, pop. Lançado em maio, o CD Innerspeaker é psicodélico e nostálgico, mas não a perder de vista. Abre com uma canção, It is not meant to be, que poderia ser remixada e funcionar em pistas de dança - ou até sem precisar disso. Nas canções, criam uma atmosfera de sonho, por intermédio de sons esparsos, ecos e melodias quase circulares. O mesmo clima aparece em outras faixas, como a quase progressiva Alter ego.
O som é adornado por guitarras em wah-wah e vocais que soam como a cópia exata dos de John Lennon nos anos 60 - em especial na 100% beatle Desire be desire go e em Lucidity, delicadeza sonora adicionada a um riff que parece inspirado no de Born to be wild, do Steppenwolf. Ou no clima montanhês de Island walking, uma das melhores do álbum, ligada às viagens interestelares do Pink Floyd e do Grateful Dead. E a fórmula parece dar especialmente certo no single Solitude is bliss, não-hit viajante e belo, que ganhou um dos clipes mais desconcertantes dos últimos tempos (confira abaixo). Em lance raro no rock atual, Kevin Parker (vocal, guitarra, teclados), Jay Watson (bateria, teclados) e Dominic Simper (percussão, baixo) fizeram uma estreia sem pontos baixos, que valoriza tanto riffs quanto melodias.
POR: [Ricardo Schott]
Excelente
Exile on Main Street - remastered
| Rolling Stones
Exile on Main Street demora para pegar. Soa como uma bela obra que está sendo construída às vistas do público, mas que, na pressa diária, poucos sortudos reparam. Ouvido 38 anos após seu lançamento original, na edição remasterizada e turbinada, soa enigmático: como é que um disco que consegue demorar para crescer no ouvido mais até do que álbuns bem mais fracos dos Rolling Stones, como Goats head soup (1973) e It s only rock n roll (1974), pode ganhar status de clássico? O motivo talvez seja esse mesmo: não entrega nada de cara, apresenta um produto que o tempo só ajuda a melhorar.
Não são apenas as histórias em torno de sua atribulada gravação que o tornaram algo sui generis na história da banda. E que o fazem prescindir de hits como os que adornam os dois citados álbuns, como Time waits for no one e Angie. Aqui, há Mick Jagger (vocais), Keith Richards (guitarra e, pela primeira vez, liderança quase completa da banda, cabendo até vocais em Happy), Mick Taylor (guitarra e, fato raro na história dos Stones, co-autoria, ao lado de Jagger e Richards, em Ventilator blues), Bill Wyman (baixo, diz a lenda) e Charlie Watts (bateria, idem) em clima de rendição de homenagens. Ao clima sacana do rock original, em canções próprias como o semi-hit Rocks off, Casino boogie, Turn on the run, o country Sweet Virginia e no retorno ao skiffle – estilo rueiro em que a percussão era feita numa tábua de esfregar roupas – em Shake your hips, de Slim Harpo. Ao blues, na releitura de Stop breaking down, de Robert Johnson.
O estilo hoje conhecido da banda, misturando rock, soul, blues e gospel, já estava definitivamente formatado em canções como Tumbling dice - acompanhada por corais femininos que, anos depois, virariam verdadeiras pragas em shows de rock, mas que aqui ganham ares roots. Cutucadas no sistema davam o tom de Sweet black angel, homenagem à ativista política Angela Davis. Refugiados na França, despidos do glamour que até hoje marca o nome da banda, só restava aos compositores Jagger e Richards encarar eles mesmos – e os egos fraturados davam o tom de letras como Happy, I just want to see his face e o hino Shine a light. Um conjunto que torna até inútil o tal CD com músicas extras, encontradas no baú de Mick Jagger e turbinadas com novos vocais – em Plundered my soul e Pass the wine, duas razoáveis novas, há créditos até para gente que sequer tinha idade para participar das sessões originais do disco, como a vocalista Lisa Fischer. Malandragem demais, especialmente na vinheta instrumental Title 5, com Jagger recebendo um levado por uma sessão de gravação (ignóbil) da qual sequer participou. O tesouro está mesmo é no disco de 1972.
POR: [Ricardo Schott]
Excelente
Iron Man 2 - Trilha sonora
| AC/DC
O AC/DC é uma banda de tantos clássicos eternizados na história. E tantas outras músicas sensacionais realizadas. Logo, reunir apenas 15 em uma coletânea é tarefa ingrata. A trilha de Homem de Ferro 2, lançada em parceria com a Marvel Studios e a Columbia Records, ousou tal empreitada. E o resultado, que na verdade correria poucos riscos de fracassar tal a qualidade do legado do grupo, surpreende. Ausências serão sentidas, claro, por qualquer um que conheça de cabo a rabo a discografia da banda australiana de 1976 a 2008 – período coberto pelo lançamento. Estão lá óbvias e indispensáveis como Back in black, Highway to hell e Thunderstruck - e outras capazes de surpreender até mesmo os fãs mais exigentes, caso de Rock n’ roll damnation e Shoot to thrill.
O rock básico e sem afetações do AC/DC embala, portanto, o novo filme sobre o herói de ferro, dirigido por Jon Favreau. Porém, quem demonstra possuir superpoderes mesmo são os veteranos capitaneados por Angus Young. Já são cerca de 35 anos de (bons) serviços prestados ao rock and roll, sempre de forma relevante, e até hoje estão entre as bandas que mais merecidamente faturam com seus shows e discos. Como acertadamente classifica o texto do encarte da luxuosa edição do CD – um libreto repleto de fotos da banda e umas poucas do filme -, “essas 15 músicas foram criadas e executadas pelos reais homens de ferro (...) com infinita atitude rock and roll”. O lançamento é indispensável para os não iniciados na discografia do grupo, que depois das primeiras audições devem juntar suas economias e adquirir os álbuns originais, na íntegra, porque trata-se de uma obra não possível de resumo em apenas 15 músicas.
POR: [Leandro Souto Maior]
Excelente
Fé na festa
| Gilberto Gil
Só um compositor magistral para lançar um disco de forró em pleno período junino e não despertar ceticismos alheios - já que poderia ser visto como opostunista. Pior: soa tão autêntico e natural como se fosse um disco de carreira como outro qualquer, sem um fio condutor. Gilberto Gil continua um artista interessante neste Fé na festa. A expectativa por desvendar suas inspiradas melodias é, no fundo, o que desperta mais interesse por esse cara. Registre-se também, sempre, a incrível performance de mestres de seus instrumentos, como são os fiéis escudeiros Sergio Chiavazzoli (guitarra), Arthur Maia (baixo), Toninho Ferragutti (acordeão), Nikolas Krassic (violino) ou Jorginho Gomes (percussão), afiadíssimos. Os diálogos e duelos que a sanfona promove, ora com o violino, ora com a guitarra, respondem pelos mais altos momentos instrumentais.
Se há algo crítico no disco forrozeiro de Gil é aquela sonoridade padrãozona, tudo perfeito até demais, que marca certos lançamentos de MPB. Sente-se falta de um quê orgânico, sujo mesmo, com a "marca da caveira" de outrora, quando Gil fazia canções ainda mais inspiradas. Mas tal observação seria muito particular e nem de longe ofusca as boas novas 13 canções. São sete só de Gil, três parcerias, uma de Luiz Gonzaga, uma de João Silva e uma de Targino Gondim, do hit Esperando na janela. E da mesma forma desta, foi com ritmos nordestinos que Gil escolheu adornar esta nova safra. Baiões, xotes e xaxados comem solto, mas sobressai o talento do autor.
A opção monotemática pelo sabor nordestino pode cansar a audição - principalmente pelo abusado uso dos coros femininos com os quais pretende-se incrementar os refrãos. Mas independentemente de qualquer moldura que escolhesse, as músicas seriam igualmente interessantes, com a personalidade de um compositor magistral.
POR: [Leandro Souto Maior]
Regular
The remix
| Lady Gaga
Será que a nova diva do pop está completamente sem criatividade? Após relançar The fame com a edição The fame monster (que, vá lá, tinha um disco com algumas inéditas, incluindo o megahit de pistas Telephone), a loira volta agora com The remix, que traz algumas das principais músicas da cantora com arranjos diferentes. São 15 faixas, algumas músicas com dois remixes.
A maior decepção do disco é, de cara, Eh eh, na versão do Pet Shop Boys. Os velhotes da música eletrônica apenas mergulharam a música, um bom synthpop, em efeitos reciclados de seu catálogo. Ficou cara de It’s a sin farofada, parece que foi feito às pressas. Lovegame com Marilyn Manson é uma das mais peculiares misturas de todos os tempos. E é indigesta. A voz sombria e grave do cantor, arremessando os versos de Gaga no refrão, é um dos encontros mais esquizofrênicos do pop. Marilyn Manson devia voltar a cantar sobre “beautiful people” - e não se meter nas músicas das tais “pessoas bonitas”.
O remix de Telephone do Passion Pit, seguindo a linha “péssimas ideias”, tem a coragem de jogar vocal chipmunk (muito acelerado e agudo) na música. A faixa, aliás, tem o mérito de se desviar da melodia da original e ousar no arranjo. Infelizmente, as mudanças pioraram o hit de Gaga com Beyoncé.
O resto dos remixes, no entanto, não contribui em nada. Estão ali, transformando o catálogo da loira em algo ainda mais amigo das pistas de dança. Alguns até impressionam, como o controle da melodia vocal que Stuart Price fez em Paparazzi. A versão acústica de Poker face mostra os dotes de Gaga ao piano, mas a música não funciona tão bem nesse formato quanto Paparazzi, por exemplo. Além disso, o que uma versão voz e piano faz no meio da salada eletrônica que é The remix?
No fim das contas, The remix não adiciona nada de novo ou interessante ao catálogo limitado de Lady Gaga. São apenas versões, geralmente pioradas, de alguns hits do debut da loira. E, ainda assim, ficou faltando Summerboy, hit perdido do The fame.
POR: [Gerhard Brêda]
Regular
It's teen
| Disney
Gastar meia hora do seu final de tarde de domingo ouvindo qualquer coletânea americana de música pop adolescente não é um programa dos mais convidativos. Verdade absoluta. Mas é também verdade que It’s teen, coletânea da Disney que reúne as “suas maiores estrelas mirins em 14 faixas” (como Miley Cyrus, Jonas Brothers e Selena Gomez), não dói tanto assim aos ouvidos. Podia ser pior.
Não há dúvidas de que a nova música pop americana corre hoje bem à frente rock. Enquanto Lady Gaga cria alguns dos melhores refrões já feitos, centenas de bandas indies cheias de pretensão se vangloriam de canções meia-bocas em armaduras de vanguardismo indie, mas estagnadas em fórmulas antigas. Transporte essa lógica para o universo juvenil e perceberá que, enquanto as tradicionais bandinhas de hardcore (gênero onipresente entre a garotada) continuam disparando seus refrões esgoelados na progressão dó-sol-lá-fá, a ala pop esbanja talento.
A coletênea reúne faixas mais do que honestas para uma seleção adolescente. Os carros-chefes são Demi Lovato é Miley Cyrus, as mais grudentas da trupe, com refrões chatinhos, mas que colam. É de Miley a pegajosa Party in the USA e He could be the one, e de Lovato Here we go again: todas bem genéricas. Selena Gomez dá uma lição às meninas com sua banda (Selena Gomez and The Scene) e a agitada Falling down, com levada cheia de personalidade ao estilo No Doubt.
A faixa mais interessante do disco é da Capra, banda da Disney pouco conhecida no Brasil comparada aos Jonas Brothers. Low day tem letras adolescentes, mas inteligente, e timbres retrôs ensolarados, como numa versão mirim de Little Joy. Nick Jonas (sozinho ou com os Jonas Brothers) e Michel Musso irritam com os vocais afetados, mas contam certamente com bons músicos na retaguarda, impedindo que destruam também os arranjos, bons no fim das contas.
Entre todas as 14 faixas, talvez só Low day mereça um espacinho num iPod adulto, mas não hesite em deixar o disco nas mãos do seu filho. Podia ser pior: podia ser um álbum da Britney.
POR: [Philippe Noguchi]
Regular
Mr. Lennon/Mrs. Lennon
| Vários
Fã dos Beatles que se preze ignora qualquer coisa legal que Yoko Ono (viúva de Lennon e eterno pivô do fim do grupo - precisava explicar?) tenha feito, desdenha de seus vagidos agudos e tem ataques de risos ao observar a capa bizarra de Two virgins (1968), em que ela e John Lennon aparecem como vieram ao mundo. Uma exceção: o pesquisador e produtor Marcelo Fróes, que vem relendo o repertório final dos Beatles em lançamentos de seu selo Discobertas. Ele agora traz 16 releituras, todas com vozes femininas, de canções de Yoko no CD Mrs. Lennon. E reempacota como Mr. Lennon o disco Dê uma chance à paz: John Lennon, uma homenagem, que lançou em 2001 com releituras do ex-beatle feitas por nomes como Nando Reis (Mind games), Arnaldo Baptista (em duas versões de Give peace a chance, uma acompanhado por Andreas Kisser e Charles Gavin, outra ao lado do grupo japonês Cibo Matto), Moska (How do you sleep?), Herbert Vianna (I know) e Lobão (a melhor releitura, com Instant karma).
Se Mr.Lennon trafega por repertório e convidados infalíveis (afinal, era um projeto grande, feito pelo selo Geléia Geral, de Gilberto Gil, que ainda divide Imagine com Milton Nascimento, em versão razoável), sua contrapartida feminina vai por caminhos inseguros, dando voz a um repertório que não está entre os dez mais queridos do pop. Nem sempre acerta, mas prima por privilegiar as canções, dando à dupla paulistana Tetine e à carioca Leandra Lambert (frontwoman do grupo eletrônico Voz Del Fuego) as chances de protagonizar os momentos mais experimentais do disco – com, respectivamente, Why?, gritalhona faixa de abertura de Yoko Ono/Plastic Ono Band, estreia da japonesa, em 1970, e Kiss kiss kiss.
Mas os destaques vão para Isabella Taviani no reggaezinho Don’t be scared, a teatral Mathilda Kovak em Yes, I’m your angel, a novata Helevyn Costa em Who has seen the wind? E, acredite, para Marília Barbosa. Sim, aquela mesma cantora-atriz que aparecia nas antigas trilhas de novelas da Globo e que, acompanhada pelos cariocas do Pelv’s, berra como uma riot grrl dos anos 90 na distorcida Move on fast.
POR: [Ricardo Schott]
Regular
Nobody s daughter
| Hole
O Hole está de volta. A banda da Yoko Ono do grunge, Courtney Love, ressurge das cinzas em Nobody s daughter, um álbum datado, derivativo e que fede com um ranço de anos 90. Ainda assim, as canções, ainda que trepidantes, estão mais para o lado medíocre do espectro.
O disco anterior do Hole foi Celebrity skin, de 1998. A banda, aparentemente, foi mantida em um tonel de formol desde então. A viúva grunge ainda canta sobre estripulias que estão no limiar entre o espírito livre feminista e o cotidiano de uma biscate, mesmo tendo respeitáveis (e mal cuidados) 45 anos. Os rasgados no vocal da mãe de Frances Bean Cobain, no entanto, ainda têm potência e vigor. As composições, que alternam grunge empoeirado e power ballads mofadas, não têm tanta vitalidade, mas o resultado acaba tendo algum carisma dentro da onda eletro-rock que assola as cenas mundiais.
Courtney parece, talvez inconscientemente, talvez abraçando a má fé que lhe é atribuída, roubar um pouco de seus ex-casos. Aqui e ali, é possível notar algumas estripulias que poderiam sair de um dopado e pouco criativo Kurt Cobain (de quem é viúva – er, precisava lembrar?) ou distorções que refletem a careca de Billy Corgan, do Smashing Pumpkins, com quem andou de mãos dadas em duas ocasiões (nos anos 90 e há pouco). Mesmo sugando grandes nomes, Courtney não consegue devolver na mesma medida - e vale citar que Corgan é, de fato, co-autor de quatro canções deste Nobody s daughter, mas ainda diz, em entrevistas, ter feito todas sozinho.
Nobody s daughter não é bom em nenhuma escala. As composições são velhas, cansadas, cansativas e desnecessárias. Algumas são até longas demais. O Hole parou no tempo por 12 anos e parece não notar. Ainda assim, é um sopro de ar fresco quando comparado às batidas eletrônicas que infiltram o rock em todas as direções. Ainda que seja um ar viciado, guardado em um porão da década passada.
POR: [Gerhard Brêda]
Regular
Need you now
| Lady Antebellum
Este é o segundo disco da banda country americana cujo núcleo é formado por Charles Kelley (vocal), Dave Haywood (vocal, guitarra, piano e bandolim) e Hillary Scott (vocal). Need you now confirma o apelo pop do trio, que logo colocou o disco no primeiro lugar das paradas americanas, pouco tempo após o lançamento nos EUA.
Lady Antebellum apresenta-nos uma música country ambígua: tem frescor instrumentalmente em boa parte das faixas, com arranjos interessantes que flertam com outros gêneros. Mas que conta com melodias vocais que são sucessões de clichês. A faixa de abertura, Need you now, por exemplo, tem uma introdução climatizante, mas desemboca em versos melosos, sempre acompanhados de uma segunda voz em contralto - sem sombra de dúvidas a maior praga da música country americana.
As letras, genéricas e ultra pops, discorrem sobre mais do mesmo: amores correspondidos (ou não) ou dilemas existenciais rasos, contribuindo negativamente para a credibilidade das músicas. Lady Antebellum apresenta ideias inteligentes (em potencial), alguns riffs marcantes e bons timbres, que desembocam em baladas de apelo pop exagerado e, sobretudo, genérico. Não dói aos ouvidos, mas também não lhes faz qualquer afago.
POR: [Philippe Noguchi]
Regular
Manuscrito
| Sandy
Sandy está de volta. Enquanto o irmão se aventura nas baquetas em diversos projetos, a cantora permaneceu mais reclusa, preparando material para sua carreira solo. O produto dessa reclusão é Manuscrito, uma inconstante incursão pelo pop, com alguns momentos de brilhantismo, obscurecidos pela mediocridade.
Pés cansados é a primeira faixa e o primeiro single do disco. E também é a pior. Um pop violeiro de churrascaria, que não se segura em nenhum elemento para emergir do mar de mediocridade. Fraca, fraca.
A base de Manuscrito está nos pianos e violões, que, por vezes, são acompanhados por orquestrações. Nesse playground, que é acompanhado por uma bateria contida, Sandy demonstra seu alcance vocal e timbre único. Os fãs vão apreciar, há uma evolução e a voz amadureceu, assim como as linhas melódicas. Os detratores, vão continuar caindo do pau, pois nada mudou.
Tempo é uma boa faixa. Aqui, Sandy ousa no vocal e, perto do fim da música, o arranjo cresce e dá à balada um ar épico. A faixa é seguida pela também boa Ele/ela, que transita por uma boa letra e um belo arranjo orquestrado. A bateria, suave, jazzeia o ritmo para violinos, um baixo discreto e o onipresente piano.
Sem jeito entra meio pesada, com batida marcante e até mesmo guitarras. É agitada e uma boa mudança de ritmo, mesmo que esteja deslocada no resto do disco, basicamente uma coleção de baladas acústicas e orquestradas.
O maior problema de Manuscrito é a quantidade de faixas peso morto. Quem sou eu, Duras pedras, O que faltou ser e Perdida e salva são músicas que não tem nada de errado, mas não fazem nada certo. Os arranjos não são bonitos, cativantes, chiclete. As músicas apenas estão lá.
Dias iguais, com participação de Nerina Pallot é uma balada forte, com um minuto final arrebatador, que cresce de forma épica e se acalma em notas de piano e a voz de Sandy. Uma bela faixa. Tão comum também é criativa. Um riff blueseiro no violão acompanha uma batida quebrada nos versos e um refrão redondo.
Manuscrito ficou alguns anos sendo composto, gravado e produzido, mas o resultado não é muito diferente do que se esperaria de Sandy. O disco é formado por uma teia de músicas medianas, com momentos verdadeiramente inspiradores salpicados com avareza. O disco, assim como a virginal cantora, é meio sem sal.
POR: [Gerhard Brêda]
Bom
Sgt. Peppers Brazuca Club Band vols 1 e 2/Beatles '70 vols.1 e 2
| Vários
Dá um certo medo quando o feixe de laser cai em cima da primeira faixa de Sgt. Pepper’s Brazuca Club Band, compilação de bandas nacionais relendo o disco clássico dos Beatles – lançada apenas na internet em 2007 e reeditada agora fazendo parte de uma série do selo Discobertas, do pesquisador Marcelo Fróes. A faixa-título do disco é transformada numa peça eletrônica de gosto duvidoso pelo Mim, projeto da carioca (hoje radicada em SP) Mariana Eva. Depois, no disco, o clima melhora. Por ser um disco antigo que agora sai do meio virtual e ressurge no suporte CD, o volume de bandas hoje extintas é considerável – tem o Monotube dando uma acalmada na reprise da faixa-título, os brasilienses lisérgicos do Prot(o) jogando mais ácido ainda em Within’ you, without you, o Leela e o Lasciva Lula em versões corretas de Being for the benefit of mr. Kite e Good morning, good morning. E boas versões de A day in the life, Lovely Rita e Strawberry fields forever, a cargo, respectivamente, do Reverse, dos Fuzzcas e do Tom Bloch.
A coleção se completa com mais três volumes, lançados ao mesmo tempo, com o resto das canções gravadas pelos Beatles em 1967 e o repertório de 1970 feito pelo quarteto, e por John Lennon, Paul McCarney e George Harrison pós-separação. Boa parte das canções teria que ser relida por um pessoal muito ruim para serem estragadas, mas as versões colaboram – tem desde o eletrônico Johann Heyss relendo Only a northern song a Paulinho Moska numa versão irrepreensível de The fool on the hill, além das novatas Doidivinas dando um toque feminino na infantil All together now. A day in the life reaparece com Zé Ramalho. Algumas canções do projeto foram reaproveitadas do disco-show O submarino verde e amarelo, feito por Marcelo Fróes na década passada, com vários artistas cantando Beatles.
Já as gravações do repertório final dos Beatles impressionam pela quantidade de ótimas versões. Beatles 70 Volume 1 impressiona na abertura com Os Britos (banda formada para escarafunchar o repertório beatle) e Zélia Duncan em Two of us, prossegue com Jane Duboc relembrando Across the universe, Sá & Guarabyra emocionando com Let it be em sua primeira gravação pós-morte de Zé Rodrix e Get back nas vozes de Cássia Eller e Zélia Duncan. O segundo volume, com as músicas imediatamente pós-separação, é, sintomaticamente, povoado por números solo, incluindo Lobão com Instant karma, de John Lennon, Taryn com Maybe I’m amazed, de Paul McCartney, Zeca Baleiro com Mother, de Lennon, e Lia Sabugosa e Marcio Biaso encarando What is life, de George Harrison. Em grupo, mas solitariamente, o Roupa Nova comparece com o hino My sweet Lord, de Harrison.
POR: [Ricardo Schott]
Excelente
The weirding
| Astra
Rodando na MTV, inclusive na filial brasileira, é possível dizer que o jovem conjunto Astra já posa como, er, astro. Sem brincadeira. A banda, que surgiu em 2001, descolada na área para lá de descolada de San Diego (uma agradável cidade americana no ensolarado estado da Califórnia), registra no seu caderninho, desde o final de 2009, uma agenda de compromissos lotada de shows e entrevistas. O catalisador é o estonteante álbum de estreia.
O disco saiu, curiosamente, primeiro na Inglaterra e foi desovado, ansiosamente, em julho nas boas prateleiras das lojas de discos dos Estados Unidos. O sucesso do álbum e os vários concertos pela Europa e no país nativo não vieram de graça. São frutos de anos na estrada, acompanhando gente da primeira linha do novo rock yankee Um rock montado por uma galera pós qualquer coisa; uma horda que vem infestando os festivais “rodantes” da América – gente que desponta quase como um movimento, como os “manos” do Orange Goblin, Winter Flowers, Witchcraft, Pentagram, Bigelf, Saint Etienne, The Entrance Band, Titan, RTX, The Black Keys, The Sunshine Fix, Green Milk From the Planet Orange, etc etc etc.
Formado por Richard Vaughan na guitarra, vocais e nos teclados análogos (aqueles dinossauros que atendem pelo nome de mellotron e moog), Conor Riley também na guitarra, vocais, órgão e teclados análogos (o gótico Arp Odyssey), Stuart Sclater no baixo, David Hurley na bateria, flauta e efeitos sonoros e Brian Ellis na guitarra e Moog, o auto intitulado disco revela a música do Astra como uma mistura ungida pela sonoridade de bandas progressivas como o King Crimson, Pink Floyd, Nektar, batizada pelo peso do Black Sabbath e a psicodelia do Moby Grape, além daquele monte de bandas surfistas californianas que povoaram os anos 60. É um clima soturno, claustrofóbico, tristonho e suspirante, que assola todo o álbum, com camadas de guitarras uivantes, naquela onda saudosa da eletricidade “viajandona” do Floyd. O molho vem de uma percussão lenta e detalhista, linhas de baixo sóbrias, tudo regido pelo lamento sonoro do monstruoso Mellotron, a marca registrada do Astra (e das antigas bandas progressivas mais legais). O grupo cuidadosamente procura resgatar a sonoridade clássica dos medalhões do progressivo na sua fase mais séria, aquela do comecinho dos anos de 1970, profundamente embebida da psicodelia made in London e naquela sensação de fim de era, mal do século.
As músicas, quase todas bem longas, exigem do ouvinte alguma tolerância. A primeira música é reveladora: The rising of the black sun é quase uma música cinematográfica. E assim seguem as demais. Os mais de 15 minutos da faixa título e os outros 17 de Ouroboros se desenvolvem com lentidão e peculiaridades sônicas de causar verdadeira experiência pessoal aos menos avisados. Destacam-se ainda a beleza exotica de The river under, The dawning of Ophiuchus e a épica Beyond to slight the maze.
Ao todo são oito faixas, que parecem à primeira vista fora de propósito em uma era dominada pela rapidez, prazer imediato, do descartável. Não são. São sob medida para uma geração que alcança um mercado fonográfico exigindo diversidade, opção, revisionismo, decifrando um passado que hoje parece ainda mais atraente, sincero e perene. O Astra se encaixa que é uma beleza nisso tudo. Por falar em beleza, a capa do CD se curtida no LP duplo é tudo de bom e uma viagem em sí. Talvez ensaiando uma nova geração que promete ser muito mais interessante nos próximos anos.
POR: [Jorge Albuquerque]
Fraco
Almost alice
| Vários
Tim Burton, no cinema, trabalhou de forma vacilante com a Alice de Lewis Carroll. Embora no filme soem apenas os acordes triunfantes e com um pé no gótico de Danny Elfman (ex-cabeça do grupo pop Oingo Boingo e parceiro habitual do cineasta, tal qual Helena Bonham-Carter e Johnny Depp), um CD com vários artistas pop gravando músicas inspiradas nas histórias de Carroll chega às lojas. E não é nenhuma maravilha, embora a escolha de faixas seja louca como um chapeleiro.
O disco abre com a terrível Alice, da sumida Avril Lavigne. A garota, aos 30 segundos de música, passa a berrar em tons agudos e irritantes - e só para em um breve interlúdio. Esta faixa é a única que deu as caras no longa de Burton, conduzindo os créditos finais. The poison, do All American Rejects, é surpreendentemente boa, uma balada que até ganha fôlego nos instantes finais e é um bom jeito de se recuperar após a odisseia de gritos de Lavigne. O disco descamba para um lado mais eletrônico, entre LCD Soundsystem e Pet Shop Boys malfeito com The technicolor phase, do Owl City.
O verdadeiro abismo que é Almost alice vem nas faixas Painting flowers (All Time Low), Where’s my angel (Metro Station), Strange (Tokyo Hotel, com Kerli) e Follow me down (3OH!3, com Neon Hitch). Uma massa sonora de emo rock revestida de pretensão e seguida por um péssimo pop reciclado das piores boy bands da aurora dos anos 2000 forma um miolo incompetente e desinteressante de disco. Nem Robert Smith, do The Cure, consegue segurar a onda com a morosa Very good advice.
Welcome to mistery é uma balada bem acabada e arranjada, conduzida com maestria pelo Plain White T’s. Não e memorável, mas está acima da média. Tea party, de Kerli, é um pop vagabundo mas misteriosamente cativante. Lobster quadrille, do Franz Ferdinand, é disparada a melhor faixa. O vocal grave de Kapranos aliado a duas notas deliciosamente dissonantes no fim do cativante refrão (que segue à risca a Quadrilha da lagosta, da obra original) gera uma música surpreendente sombria e excepcional.
O disco fecha com Fell down a hole, do Wolfmother, que é sólida e tem um bom riff de guitarra. E White rabbit, de Grace Potter & The Nocturnals. Esta faixa, aliás, poderia muito bem abrir o disco. Ela carrega toda a atmosfera de insanidade e doçura tão valorizados na obra de Carroll.
No fim das contas, Almost alice não está nem perto de ser uma coletânea quase boa. Lobster quadrille tem qualidade para dar e vender, mas o entorno é esquizofrênico e decepcionante.
POR: [Gerhard Brêda]
Regular
Rise up
| Cypress Hill
O Cypress Hill, como afirmam em algumas resenhas lá fora, soa, em Rise up , bem mais focado do que em discos anteriores – pelo menos em se tratando dos últimos, como Till death do us part (2003). Com uma cara até um tanto mais gangsta do que em alguns álbuns passados, retornam pelo selo do rapper Snoopy Dogg, o Priority (distribuído pela EMI) e lançam um disco que pode até impressionar na primeira orelhada. Mas que também não se compara aos primeiros lançamentos. Para quem nunca ouviu ou quer matar a saudade de uma época em que o rap ainda representava algo “alternativo”, que até o estilo malvadeza-durão do gangsta tinha algum sentido de “atitude” e que as uniões entre guitarras e rimas provocavam hecatombes e choradeiras, vale a audição – desde que seja complementada com o que realmente interessa da carreira do grupo, que são discos como Cypress Hill (1991) e Black Sunday (1993).
A maior surpresa do disco é deixada para o final: a bela Armada latina, construída sobre riffs e trechos da letra de Suite: Judy blue eyes, de Crosby , Stills & Nash, transformando a longa canção acústica entoada pelo trio no Festival de Woodstock num sinuoso rap latino. E que, vá lá, pode ser considerada pop demais para os padrões do mesmo grupo que, anos antes, lançou hits da fumaça como I wanna get high e Insane in the brain. As coisas começam a ficar um tanto estranhas quando, quem escuta, começa a pensar que se divertiu bem mais ouvindo pela primeira vez o A arte do barulho, do fã do Cypress Hill Marcelo D2, do que o novo do grupo californiano. E falando no carioca herbífumo, o CH gravou uma canção homônima de outra de seu mais recente disco, K.U.S.H., que não chega a decolar e vai para a mesma vala onde descansam canções dançantes de pouco calibre como It ain’t nothing e I unlimited.
De bom, no disco, tem a psicodelia soul de Armed & dangerous (com samples do grupo soul The Miracles, da Motown, e um aceno ao passado criativo do CH), a pressão intermitente do metal-rap policial Trouble seeker e a igualmente lisérgica Take my pain, com trechos de Break on through, dos Doors, inseridos na letra – e participação de Everlast, ex-vocalista do House of Pain, grupo de rap que, se bobear, vai chegar ao nongentésimo aniversário de seu maior hit (o bate-cabeça Jump around) sendo confundido com o Cypress. Tom Morello, guitarrista do Rage Against The Machine, confere peso e pressão à faixa-título e a Shut’ em down, mas no mesmo nível de porrada & convencionalismo do maior sucesso de sua banda, Killing in the name. Enfim, para quem está com sede, Rise up traz água – mas num copo meio vazio. Ou meio cheio, se você for muito fã. Escolha sua.
POR: [Ricardo Schott]
Bom
All days are nights - Songs for Lulu
| Rufus Wainwright
Nenhum disco do pianista e cantor americano Rufus Wainwright jamais deixou de ser uma surpresa, levando em conta que se trata de um artista cujo trabalho envolve canções orquestrais, letras confessionais (tristes e muitas vezes femininas) e uma beleza estranha, difícil de ser associada ao pop e ao rock – ao qual ele até se associa por sua devoção a Elton John e aos Beatles. All days are nights – Songs for Lulu, seu novo álbum, já tem o estranhamento garantido pelo fato de, em sua nova tour, Wainwright preferir o silêncio da plateia aos aplausos, que ele pede ao público que evite na primeira parte dos shows.
Com letras inspiradas pela doença - um tipo raro de câncer - e pela conseqüente morte de sua mãe, a musicista Kate McGarrigle (que o acompanhou em shows pelo Brasil em 2008 e tocou com ele em álbuns como Want e Want 2), o novo álbum referencia-se também no trabalho da atriz Louise Brooks (daí o nome do disco) no filme A caixa de Pandora, de 1929. Aparecem também trechos de Shakespeare musicados – o título do disco, por exemplo, foi tirado de um dos sonetos do escritor britânico. Num esquema que parece a perversão de Scratch my back, recente lançamento de Peter Gabriel, Rufus deixa seu lado orquestral de lado e oferece um recital, acompanhando-se apenas ao piano. O que intensifica a solidão das músicas.
Mesmo em canções que não parecem se referir diretamente ao assunto, a dor da perda aparece, como na quase gregoriana Who are you New York?. Já em faixas como Sad with what I have e em Martha, questões familiares, ligadas ou não à perda, surgem mais textualmente. A primeira como uma triste lembrança da mãe, a segunda como um chamado ao telefone feito à irmã, a instrumentista Martha Wainwright, para que ambos visitem a mãe – e uma lembrança do pai, o também instrumentista e compositor Loudon Wainwright III, com quem Rufus sempre manteve relação conturbada, mas que ainda está em tempo de resgate (“não há mais muito tempo para que nós sejamos tão raivosos um com o outro”, afirma na letra).
O som vai do mergulho rítmico intrincado ao piano (Give me what I want and give it to me now) a tons operísticos (When most I wink), variando para canções que, formatadas para rádio, poderiam tornar-se baladas sessentistas e tristonhas (A woman’s face e The dream). Um formato diferente para se conhecer o som de Rufus. E qual talvez não seja um dos mais tranquilos para se indicar a futuros fãs.
POR: [Ricardo Schott]
Bom
Lu Alone
| Lu Alone
Se a mineira Lu Alone fosse uma cantora americana, provavelmente seria uma Miley Cirus malvadinha. E provavelmente algum figurão do rock gravaria as linhas de guitarra, algumas até boas, em seu disco. Similar a Van Halen gravando Beat it com Michael Jackson e, transportando para outra esfera, Ludacris jogando suas rimas em Justin Bieber (ou Bustin Jieber, se a moda pegar). Como a garota mora no Brasil, o que sobra é um disco de pop rock com bons riffs e alguns solos com ranço de hard rock que é, apesar de alguma instabilidade, melhor do que quase tudo produzido aqui, no estilo.
Lu Alone se esgoela em 13 músicas, que vão da boa Girls can rock, com cara de manifesto feminista adolescente, à chatinha By my side, que fecha o disco sem fanfarra. No meio, uma versão simpática de Sugar sugar, da banda falsa dos anos 60, The Archies. Lu canta em inglês, provavelmente reconhecendo que seu público alvo ouve mais música estrangeira do que nacional, o que, no fim das contas, parece uma aposta razoável.
A produção do disco é notável. As melodias são tratadas com maestria e um time de batedores de cabeça incluiu solos surpreendentemente elaborados e com timbres interessantes nas músicas. Nas baladas, os violões, backing vocals e arranjos de cordas dão o ar grandioso que se espera. Em I’m not a little girl, explodem guitarras que poderiam estar em uma banda de metal de garagem (se gravada por Rick Bonadio), sintetizadores chiclete e até mesmo violinos. Lu abraça a grandiloquência do rock na melhor canção do disco.
Lu Alone transita meio esquizofrenicamente entre o pop com sintetizadores e um rock até honesto, mas o que amarra todas as empreitadas da garota é uma produção fantástica. Arranjos bem bolados, timbres inteligentes e sensibilidade pop elevam Lu Alone (o disco) a um patamar não muito explorado no cenário brasileiro. Mesmo que essa exploração venha em inglês.
POR: [Gerhard Brêda]
Bom
Raconte-moi
| Stacey Kent
Raconte-moi é o novo trabalho da excelente intérprete americana Stacey Kent ao lado do saxofonista, arranjador, compositor e produtor Jim Tomlinson (seu marido). A dupla divide não somente o mesmo teto, mas a obsessão pela música - sobretudo o jazz e a música brasileira, paixões latentes em qualquer álbum da cantora. O disco, cantado todo em francês, é uma síntese entre elegância, bom gosto e suavidade, mas peca em originalidade.
Acostumada a reconstruir clássicos do jazz americano e da bossa nova brasileira, Stacey entrega na primeira faixa uma versão de Águas de março (Les eaux mars) que é impecavelmente executada em sua voz. Mas que nada acrescenta à obra do mestre Tom Jobim. O disco segue como uma sucessão de releituras de compositores renomados (Keren Ann, Paul Misraki, Henri Salvador, Georges Moustaki, Michel Jonasz e Benjamin Biolay são alguns deles). A crítica à faixa de abertura permanece nas demais: magistralmente interpretadas, mas com arranjos genéricos do universo jazzístico.
O disco ganha vigor nas faixas inéditas preparadas para Stacey por compositores como Bearnie Beaupére, Jean Karl-Lucas e Emilie Satt, que a presenteiam com a excelente La Vénus du mélo. O single do disco não poderia ter sido melhor escolhido: é, sem sombra de dúvida, a melhor faixa, com arranjo elegante, mas despojado e dançante. As letras, inteligentes, flutuam da ironia fina ao sentimentalismo, amarradas por uma métrica perfeita e rimas saborosas.
POR: [Philippe Noguchi]
Excelente
New Amerykah part two – Return of the ankh
| Erykah Badu
A continuação de New Amerykah part one – The 4th World War consegue, impressionantemente, ser melhor ainda. Mas há diferenças. O primeiro CD encarou o mundo por uma perspectiva mais social e politicamente engajada. New Amerykah part two – Return of the ankh versa sobre as relações afetivas. Sobre apaixonar-se. Um apanhado conciso, inteligente e retro-futurista da “analog girl”, como a própria Erykah Badu se descreve.
A forma como ela coloca, em seus trabalhos, tudo o que de melhor foi feito na música negra americana dos anos 60 pra cá, a coloca no topo da soul music atual. E isso por diversos ângulos: músicas, arranjos, letras e interpretação, esta sempre muito particular e intensa, o que já lhe rendeu comparações com Billie Holiday. O projeto New Amerykah nasceu para carregar a tocha da justiça social e da redenção. Como ocorre também nessa continuação. A diferença está na classe com que Erykah apresenta suas armas e argumentos, utilizando-se de instrumentação ousada, arranjos que passeiam pelo psicodélico, pelo blues e pelo mais estiloso soul Motown. A cantora é carregada de influências, indo de Aretha Franklin ao ressurgido Gil- Scott Heron, de Etta James a James Brown. Um apanhado bastante inspirado de canções feitas sem qualquer tipo de restrição comercial ou filtros de marketing. Coisa rara hoje em dia na cena atual r&b americana.
Erykah Badu lançou seu primeiro disco em 1997 - e logo na estréia foi alçada ao posto de diva soul. Esteve no Brasil em um dos Free Jazz Festival do fim da década passada, com um show inesquecível. E desde então evoluiu constantemente em seu processo artístico. New Amerikah – part two é provavelmente seu melhor momento. Sonhador, sensível, intenso e muito honesto. Aos 39 anos, Erykah carrega a tocha não somente de causas sociais, mas também a da excelência musical.
POR: [Paulo Loureiro]
Regular
Ao vivo
| Cássia Eller
Reeditado agora, Violões, lançado em 1996 (com registros no Canecão, RJ, e Tom Brasi, SP), foi a primeira tentativa de Cássia Eller de se desnudar do rock-blues rascante de guitarras que a arrastava timidamente Brasil afora. Concentrada na leitura de faixas de seu então último disco solo (1994), a cantora começara a degustar a estética flamenca de Camarón de La Isla, mas não sabia como a injetar em sua obra. O projeto de violões foi uma boa desculpa, embora ainda perdido na levada bluesy. A bordo da reposição do disco sai um DVD com áudio e vídeo extraídos de programas na TV Cultura, assim como os registros no Teatro Franco Zampari, em São Paulo.
Irregular, de sonoridade esquizofrênica, Violões é um disco oba-oba. Qualquer coisa que Cássia fizesse dali para a frente não passaria por nenhum crivo crítico diante da hipnose coletiva - o Brasil pedia uma outsider. Estava sendo abraçada pelos cânones da MPB, tacava no lixo guitarras e pegadas mais pesadas e pedia licença aos fãs antigos para deixar a indústria fonográfica tomar conta de sua carreira. A parti dali sairiam Mario Manga, Arrigo Barnabé, Itamar Assumpção de seus quadros; e estaria prontinha para a entrada de Nando Reis na condução de seu repertório.
Os violões aqui são burocráticos, assim como foram em toda sua carreira. Acompanhada de Walter Villaça e Luce, exibe em 14 músicas uma sonoridade datada e cujos arranjos não são favoráveis à sua interpretação. Tudo está meio embolado, meio no improviso, às vezes desnecessariamente dobrado, às vezes desnecessariamente solado, torto.
É aí que entra o samba na carreira de Cássia, ao trazer para o palco Na cadência do samba (Ataulfo Alves e Paulo Gesta), é quando consolida sua ligação com a obra de Cazuza e Renato Russo, é quando inicia sua reverência explícita a Caetano e Marisa Monte. Tudo certinho demais. O problema é que se existem essas mudanças teóricas e de comportamento de Cássia, pode-se dizer que por outro lado a parte prática fica a dever. Há um estranhamento entre duas pegadas tão distintas quanto as de Luce e Villaça. Na maioria das vezes eles se desafiam e se atropelam. E incomodam.
O resultado é um disco cansativo, realçado em interpretações desencontradas de Eu sou neguinha (Caetano), Música urbana II (Renato Russo) e Metrô Linha 743 (Raul Seixas).
POR: [Mario Marques]
Excelente
Leave your sleep
| Natalie Merchant
Uma das vozes mais distintas do pop está de volta, com seu trabalho mais audacioso. Um projeto que levou seis anos para ficar pronto e que conta com a participação de mais de 100 músicos, Leave your sleep passeia por dezenas de estilos tradicionais inspirado em poemas, rimas e citações da era medieval até os dias de hoje, musicados também tradicionalmente e interpretados ao vivo dentro do estúdio. Se ela já havia flertado com o lado roots da música em seu último trabalho, The house carpenter’s daughter, lançado em 2004, em Leave your sleep a coisa fica quase educativa, pois além do tema recorrente ser a infância em diversas culturas, todos os arranjos são elaborados com instrumentos de época, sem efeitos ou maquiagens computadorizadas.
Apesar do afastamento da modernidade e do som envelhecido, o disco soma inúmeras qualidades que o fazem interessante, apesar da extensão: são 105 minutos de música. As melodias, sempre lembrando o ouvinte onde Natalie foi para compô-las, tem sempre a característica pop que marcou sua obra ao longo dos anos. Ela vai da Escócia à China sem problemas. Além de reggae, ragtime, scat jazz, blues, música celta e vários outros estilos misturados com impressionante coesão. A grande variedade de estilos reforça a incrível versatilidade da voz de Natalie que, com o tempo só melhorou.
Leave your sleep é uma viagem a vários mundos, mas sempre sob o signo do mesmo tema. Não apenas pelo ecletismo musical, mas pela forma como aborda a infância: universalmente. Os cenários propostos levam o ouvinte a uma sensível volta ao mundo. Um disco tão longo que mais parece um filme. Épico seria uma boa definição. E que os ansiosos não torçam seus narizes: a viagem pode ser global, mas nunca entediante.
Nesse mar de cantoras parecidas, com discos parecidos e músicas e arranjos e capas e quase todo o resto bastante parecido, Natalie Merchant levanta a bandeira do realmente belo, e o faz com reverência e estilo. Vários estilos, aliás
POR: [Paulo Loureiro]
Regular
3 words
| Cheryl Cole
Cheryl Cole é um pouco mais milionária, dizem várias fontes, do que suas colegas do grupo vocal feminino Girls Aloud. No Brasil, seu casamento fracassado com o futebolista inglês Ashley Cole, que lhe deu o sobrenome artístico, ainda não teve tempo de pegar como matéria de revista de fofoca, embora detalhes rocambolescos não faltem à história (que inclui desde traição – da parte dele – à ausência dela em sessões com os advogados para tratar da separação). Fruto, musicalmente falando, de um reality show (o Popstars britânico, que gerou as Girls Aloud), estreia solo mirando mais as pistas de dança do que os aparelhos de som, mas sem radicalismos eletrônicos . O disco, em vários momentos, atira para um lado meio electro anos 80, até saudosista (embora de olho nas paradas), em canções sintetizadas como Fight for this love. É algo que já aparecia nas GA, que requisitaram os serviços até dos Pet Shop Bpys em seus últimos discos.
Queridinha de Will.I.Am, dos Black Eyed Peas, que dá uma força no single 3 words e em Heaven e Boy like you, procura seguir a linha do padrinho na hora de escolher canções com bons refrãos. São os casos da pérola dance Stand up, da própria Heaven e da grudenta Parachute, primeiras canções de 3 words que saltam aos ouvidos. Todavia, não ouça esperando nada musicalmente abençoado, na linha de I gotta feeling, dos Black Eyed Peas, só para ficar no “fado madrinho” da moça. O que funciona na estreia de Cheryl, aparece sob melhor forma nos álbuns mais recentes de Madonna, por piores que eles pareçam em relação às fases mais antigas da cantora.
POR: [Ricardo Schott]
Excelente
Lembra o amanhã
| Eletro
Custa R$ 5. Com esse trocado você compra parte da história do rock carioca desta década e leva de barbada 13 canções belíssimas, da mais pura (e boa) safra. Lembra o amanhã, esperadíssimo disco de estreia do Eletro, confirma em estúdio o que se sabe há anos: o grupo de Arthur Nabeth (voz) e Manfredo Jr (guitarra), os autores das belezuras, é para jamais cair no esquecimento, ainda que dele se esqueça, por uma razão ou outra que nunca saberemos exatamente. É o nosso Protest songs (Prefab Sprout, 1989). Pouca gente sabe que existe. Mas quem conhece carrega na memória e, vez ou outra, no quarto e no carro, só para prestar a devida homenagem. O SMD do Eletro representa não só a fabricação oficial de um extraordinário manancial de músicas românticas, poéticas, melodiosas, pródigas, leves. Eterniza o cume de uma cena que deu aos cariocas heróis de sua geração com nomes como Moptop, Filhos da Judith, Reverse, Som da Rua, Columbia, Ramirez, entre outros. Uma cena local que reinventou a arquitetura musical da cidade e mobilizou o pop além das mesas das já declinantes gravadoras.
Há no Eletro uma delicadeza plena na estrutura das canções, em sua feitura, em sua forma tão honesta de entregá-las às pessoas. Por isso, sempre num núcleo perdido entre o Los Hermanos e o Reverse (outra banda que se perdeu num corredor de gravadora), muito mais preocupado com a execução do que com a atitude, acabou marginalizado pela limitada turma do punk. Seguiu sem mudar uma só nota, um riff, um arranjo, ainda que datado. Tudo no Eletro é perene. E está aí, nessa conjunção de Beatles, rock 80, Clube da Esquina, rock progressivo, voando por vezes em monumentos perdidos de erudição, a força quase sobrenatural que o mantém vivo – e que, pelas beiradas da Lapa, de Botafogo, de Copacabana, de qualquer lugar que lhes ofereça um palco, corre viva esta criativa usina de ideias harmônicas.
As canções talhadas pelo Eletro têm contradições fechadas, são traidoras entre si. Emulam tristeza profunda como na oitentista A noite e a luz e na balada matadora Prisioneiro; encasquetam na suprema felicidade ainda inédita de Jabor em Pra continuar e Deixa viver; transitam, esperançosas, pelo chão molhado por mangueiras dos bares do Centro em Lembra o amanhã e Não precisa explicar; transportam poesia de um lado a outro da rua em Não precisa explicar e Dois fantasmas; e pedem, pelo amor de Deus, a passagem de misturas tão exatas e inexatas quanto Legião Urbana, Lobão e Blur (em Teatro das Seis).
Produzido por Daniel Lopes (Reverse, Leoni, Les Pops) e Lucas Duque (produtor de estúdio) e mixado por Clower Curtis no Estúdio Sonido (de Lopes), fez-se com o Eletro o que se espera de quem mexe na mesa. Manter o frescor, a pegada, o clima do palco, sem soar tosco ou sujo. Está tudo lá: a combinação baixo-bateria que por vezes cozinha em fogo de disco music, as duas guitarras que duelam elegantemente como numa exibição de polca, dobrando, complementando-se, e a voz de Nabeth, que emite cada palavra como se fosse a última coisa a dizer na vida. Canta com o coração, o fígado e o suor.
Nos versos que flutuam entre sons que prometem e cumprem pop rock de primeira, há trechos a destacar, como este de Não precisa explicar: “Era o destino/e se o acaso apenas lhe presenteasse/com um último cigarro/e a força do meu vento não o deixasse/dar um só trago/eu provaria pra nós, é tarde pra desistir/qual era mesmo o motivo?”. Tudo no meio do pau comendo solto, guitarras de rock de verdade, bases e dedilhados, entrecortadas, tudo soando no lugarzinho certo. Ou o desespero smithniano de Prisioneiro: “Não vá dizer que não sabe/não vá chorar por tão pouco/não vá dizer ‘vá embora’/eu perdi/aceito que perdi/sem mais o que perder/não quis te ouvir/a alma é o precipício do olhar/não vá dizer que não sabe/não vá chorar por tão pouco/não vá dizer...vá embora”!.
Há em Lembra o amanhã violão de 12 cordas, programações, teclados, guitarras dos mais variados timbres, conexões, referências pontuais. Mas o que há mesmo é uma intenção clara, uma linha, uma formulação prática, uma coerência sonora da primeira à última faixa. Não fosse isso, o Eletro cairia na pior armadilha do novo rock: a de sempre querer entrar numa turma. O Eletro paga esse preço de andar distante de panelas, a maior parte delas abrigando os sem-talento. Portanto, é obrigação dos desabrigados de boa música deixar de gastar a primeira rodada de chope e levar dentro do carro essa compilação da verdade do pop. Levar para dentro de si uma emoção que o pop varre a cada beat para baixo dos monitores de Pro-Tools.
POR: [Mario Marques]
Regular
Duetos
| Renato Russo
Separemos as coisas. Sim, é catolicamente condenável decalcar vozes de um morto para um disco de duetos. Ainda por cima no caso de Renato Russo – e sua Legião Urbana. O menestrel e sua banda têm seus resquícios autorais sucessivamente explorados pela EMI desde que o cantor das multidões nos deixou, em 11 de outubro de 1996. Neste ponto essa brincadeira já encheu. Mesmo. Mas, deixando de lado o tapume do descrédito, Duetos, idealizado pelo produtor Marcelo Fróes, não é de se carbonizar a ponto de assassinato recorrente. Mau gosto, mau gosto mesmo, é a união de Russo e Cássia Eller em Vento no litoral. Esta, sim, é uma atitude incômoda para quem ouve. Deveria ser para quem teve a ideia.
O disco reúne 15 faixas em duetos, algumas vozes recuperadas, em péssimo estado ou em límpido. Daí encontramos Russo e Marisa Monte, parceiros na esquecida Celeste; Mais uma vez,ai ai, de novo ela, com o 14 Bis; A carta, com arranjo sertanejo-country-Nashville, ao lado de Erasmo Carlos; Só louco e Esquadros, com Dorival Caymmi e Adriana Calcanhotto, respectivamente em 1994, registradas na casa do produtor José Maurício Machline, estas de qualidade abaixo da média; Catedral, dueto revivida aqui para a trágica versão para Cathedral song, é o ponto baixo de mais uma coletânea turbinada, com Zélia Duncan.
Entre as sessões de gravação de The Stonewall celebration concert (1994), Equilíbrio distante (1995) e O último solo (1997), lançado nem bem as cinzas de Russo se esvaírem, há as estranhezas da carreira do cantor, as coisas italianas. Ainda mais esquisitas revistas hoje sob outras perspectivas.
Sob base de músicos arregimentados pelo produtor Clemente Magalhães, ao se analisar o disco de uma forma global, com distanciamento estético, acaba se materializando uma colcha de retalhos da qual Russo não se orgulharia. Nem o formato, nem os arranjos, nem a qualidade, nem mesmo o tratamento dado à sua voz. Nada. Mas ruim não é.
POR: [Mario Marques]
Bom
El turista
| Josh Rouse
De Nebraska para Nashville para a Espanha. Este o percurso feito por Josh Rouse através de 37 anos de vida. Após sete discos, ele incorporou finalmente a mentalidade de cidadão do mundo. Vivendo como espanhol há cinco anos, achou na bossa nova e no samba muito do tempero de El turista seu novo disco. Além disso, a íntima proximidade com a cultura espanhola obviamente contribuiu para que a salada ficasse ainda mais rica. Também presentes, ritmos cubanos e africanos.
Recheado de arranjos orquestrais e percussões, El turista flerta com a música mundial assim como fez Paul Simon em seu Rhythm of the saints, mas sem a pompa deste, o que torna o trabalho bem mais intimista. Basicamente acompanhado de instrumentos acústicos, Josh se mostra bastante confortável ao cantar em espanhol em metade das canções do disco, muitas vezes inspirado nas paisagens de Valencia, onde mora com sua mulher, a também cantora Paz Suey.
Um disco pleno em sua forma e bastante emocional, apesar do lado pop bem forte, sempre tendendo para uma suavidade quase lounge. Seria um exagero injusto classificar El Turista, como um disco de world music, assim como é injusto classificar qualquer outro disco dentro dessa categoria, que engloba tudo que simplesmente não foi feito nos Estados Unidos ou Inglaterra. O que Josh tentou e conseguiu foi ser fiel e pessoal com sua obra, através da vida que se descortinou pra ele, em outra cultura, em outro continente. Cultura esta que ele fez questão de valorizar mesclando a um lado folk/country do interior norte-americano que ele trouxe na bagagem.
POR: [Paulo Loureiro]
Excelente
Congratulations
| MGMT
O objetivo era que o segundo disco de Andrew VanWyngarden e Ben Goldwasser, dupla americana que forma o MGMT, não tivesse singles. No meio do caminho, resolveram pelo menos oferecer um docinho para os fãs (a boa Flash delirium, lançada no site dos dois para download no mês passado) e... acabaram tendo a surpresa desagradável de ver todo o seu disco vazar na internet. O conteúdo de Congratulations, dependendo da disposição de quem o ouve, pode soar igualmente como uma surpresa das mais estranhas. Flash... o tal primeiro single, ainda se assemelha um pouco à faceta synth pop que se esperaria do MGMT, mas a banda ousou ao ficar bem mais offline do que no primeiro álbum. E mais ligada à psicodelia e à fritação de cérebros sessentista do que ao ambiente pop e decadente, embora visto com doses de ironia, do hit Time to pretend, da estreia Oracular spetacular (2008).
Van Wyngarden não mentiu quando afirmou, num questions & answers na Spin, que o disco “seria como um álbum de soul”. Pode até ter exagerado, mas sobra alma no disco. E experimentalismo também. O primeiro single, doidão na medida incerta, destrincha uma fileira de não-refrões, colados um no outro. Se a capa relata uma espécie de surf do LSD, a primeira faixa, a surfística e doiralhaça It’s working, põe o ouvinte no clima, com uma letra que fala em ruídos e luzes piscando – e que o cabeça da dupla confessa ter sido inspirada por (experiências boas e ruins com) ecstasy. Tais rajadas de luz e de som podem ser melhor apreciadas em Someone’s missing, totalmente anti-pop – uma melodia sessentista e quase beatle, cujo arranjo ganha progressões até o fim da música. E mais ainda nos doze minutos de Siberian breaks, canção que, de uma simples melodia folk, parte para um arranjo cheio de surpresas.
Já Brian Eno segue o mesmo esquema de homenagem-zoação que David Bowie, há quase quatro décadas, iniciou ao compor uma canção chamada Andy Warhol, louvando e pegando no pé do artista plástico. O fundador do grupo glam Roxy Music (cujos trabalhos, de todo jeito, ecoam no MGMT), ganha uma música com seu nome, que traz versos como: “estava seguindo os sons de uma catedral/imagine minha surpresa quando descobri que eram produzidos por Brian Eno (...)/se o céu fosse sintetizado, talvez você entendesse”. E talvez dê para botar na mesma conta o instrumental Lady Dada’s nightmare, uma das melhores composições de Congratulations.
POR: [Ricardo Schott]
Bom
The rise and fall of Beeshop
| Beeshop
“O Fresno é uma banda que a minha sobrinha ouve, mas eu ouvi falar que o vocalista tem um trabalho bem melhor, as músicas são melhores, são assim, assado, etc”. Quem freqüenta comunidades de discussão sobre rock, é amigo de jornalistas musicais, é jornalista musical ou se relaciona com gente minimamente interessada em música, já andou escutando essa frase. Primeiro: nada contra o som que as sobrinhas de 13, 14 anos ouvem, até porque nos últimos discos, o Fresno andou dando mostras de que está saindo fora do pé-no-brega de discos como Ciano e de músicas medonhas como Cada poça dessa rua tem um pouco de minhas lágrimas. E The rise and fall of Beeshop, estreia do tal projeto “adulto” de Lucas Silveira, vocal do Fresno, pode soar mais palatável até mesmo aos ouvidos de quem despreza a banda.
Com canções exclusivamente em inglês e quase todos os instrumentos tocados pelo músico – responsável também pela produção – o som pode até se roçar, por vezes, num som pouca coisa mais cru que o pop das boy bands ou do que o valha (Come and go, por exemplo, lembra o – aliás, lembra deles? – Savage Garden). Mas se referencia no Queen em Cookies, em Elton John na ótima All I need. E cai para cima de Paul McCartney em Driving all night long e na teatral Lovers are in trouble, de uma forma que talvez nem os maiores fãs do Fresno poderiam imaginar. Ainda tem bons rocks que soam como coisa de banda gringa, como a folk Rockstars and cigarettes e Victoria Indie Queen (vale citar que a letra desta última, irônica ou não, é um primor de bom-mocismo, narrando a paixão por uma menina emo que passou a andar com um bando de doidões – “você nunca havia se dado conta do quão perfeita você era ouvindo Fresno/e agora eu vejo você bêbada e perdida/com Ritalin numa das mãos”, diz a letra). A área do cara, já conhecida por sua banda-matriz, é devidamente explorada em canções como Mr. Confusion.
Não fosse Lucas vocalista de uma banda conhecida, seria o tipo de som que estaria sendo repassado de Myspace em Myspace e despertando curiosidades. Só não dá, ainda, para causar a mesma recepção redentora que Scott Weiland, dos Stone Temple Pilots, causou em boa parte da crítica quando lançou o solo pop e jazzy 12 bar blues, em 1997 (quem odiava a banda passou a respeitar o cara e a soltar venturosos “eu até que gosto dos STP” em festinhas). Mas nada impede.
POR: [Ricardo Schott]
Bom
Quando o tesão bater
| Sapatos bicolores
Dá até medo abrir o CD Quando o tesão bater, da banda gaúcha-brasiliense Sapatos Bicolores. Nenhuma repulsa: além da bela capa em digipack, ainda há uns dois encartes e duas folhas soltas (tudo em papel reciclado) com a ficha técnica, atraentes a ponto de nem dar vontade de mexer muito, para não estragar. Em meio à papelada, ouve-se o som de uma banda ligada ao rock dos anos 50 e 60, mas sem precisar de rótulos-gueto como “rockabilly”, como se percebe dando uma checada nas excelentes melodias e nas gravações cheias de peso e de efeitos do disco. É o caso da escancaradamente beatle Aeromoça, de Passagem pro inferno e de Febre alta, além da quase country-punk Sadie, além da nostálgica Vem viver. Já Analógico, uma das melhores, une metais de dixieland a um violão quase presleyano. E a faixa-título afasta a nostalgia e põe o punk, com baixo distorcido, na roda.
A produção, feita por Gustavo Dreher, não permite indigências – nada é rascunhado, tudo ganha bastante peso e um capricho que, em outros tempos, seria associado aos lançamentos feitos por grande gravadoras (e vale citar que o disco ainda ganhou tratos no West West Side Music, em Nova Jersey, EUA, onde foi masterizado). As técnicas de gravação dos anos 50, com eco nos vocais e nas guitarras, à moda dos álbuns de Gene Vincent, tornam especiais músicas como Ela é bicolor. Nas letras, ao contrário do que é costumeiramente associado a bandas que escolhem o tesão como razão de viver, há bem pouco machismo.Quase tudo é romantismo, mas por um viés safado, como na sacanice de Sadie (que, em bom gauchês, pede: “tu esqueceu um par de meias que eu usei pra te amarrar/Sadie, essa vergonha não combina com você”). E não fosse a qualidade dos músicos, canções boas como Você não vale nada sequer sairiam do lugar, com ou sem boa produção. Muito recomendável.
POR: [Ricardo Schott]
Bom
A curious thing
| Amy MacDonald
Ainda bastante desconhecida fora de sua Escócia, Amy MacDonald acaba de lançar seu segundo disco A curious thing, após um relativo sucesso nas paradas daquele país e de outros quatro pela Europa com This is the life. Autodidata mas filha de músico, Amy aprendeu a tocar através da internet, no violão que vivia no chão da casa. Aos 12 anos já fazia suas primeiras melodias e não levou tempo para que enveredasse em uma carreira solo pelo circuito de bares e pubs de Glasgow. A partir daí, foi um passo para o resto da Escócia e a gravação do primeiro álbum.
A curious thing é o teste mais difícil da carreira; a síndrome do segundo disco. Amy, no entanto não se deixou abalar e fez um disco notavelmente mais maduro do que seu antecessor. Sua voz está mais segura e não tem aquele exagero de maneirismos que algumas de suas conterrâneas tem, como Dolores O’Riordan, dos Cranberries. O sucesso de seu primeiro trabalho parece ter feito somente bem a ela. As letras, mesmo que não tendo profundidade suficiente para diferi-la do atual contexto pop europeu, também não fazem feio. Um dos temas mais comuns é exatamente a relação com a questão do sucesso ou de como as pessoas lidam com ele; de um lado ou de outro.
Musicalmente, A curious thing é divertidamente eclético, mostrando o lado country de Amy (This pretty face), a parte folk mais adocicada (My only one), a inevitável pitada U2 (Give it all up) e outras influências bemvindas, do naipe de R.E.M., The Corrs ou até The Smiths. Amy inclusive faz uma versão bastante simpática somente ao violão, do hit de Bruce Springsteen, Dancing in the dark. A curious thing não é um petardo, mas o produto de uma jovem artista em evolução com personalidade nas composições e na voz.
POR: [Paulo Loureiro]
Regular
É pop!
| Vários
Nem tudo no pop de hoje, coletado neste CD da Som Livre, reluz como ouro. Tem o pop meio vazio, mas competente, de Katy Perry, que corre por fora sem pretensões ao posto de nova Madonna – mas joga areia na alegria de I kissed a girl com a mela-cueca Thinking of you. Tem a ótima Sunday morning, do Maroon 5, que deve muito de sua energia quase glam a muita coisa do pop oitentista, mas cruza guitarras em seu som de fácil digestão.
Tem o som meloso de James Blunt, com duas (!) músicas, Carry you home e o sucesso Same mistake, que só tendo paciência de santo para aturar – reconheça-se pelo menos que o moço tem muitos admiradores. Tem Lily Allen indo além na boa e triste The fear, que em nada lembra o sonzinho frouxo de seu primeiro disco e pode conquistar novos fãs. E o pop-rock quase perfeito, de belas e trabalhadas canções, do The Fray em Over my head, além do som cabisbaixo, e apenas razoável, dos ingleses do Ben ‘s Brother em Let me out.
Para quem não conhece, a surpresa é o som pianístico de Sara Bareilles, belo em seus poucos acordes e lembrando algo perdido em meio a Abba e Elton John, com Love song. O lado mais bobinho do CD (além do onipresente Blunt) é representado pela batidinha caidaça de Jordin Sparks com Tattoo, pelo som sem graça de Timbaland (com o One Republic em Apologize) e por Chris Brown, que com With you dá a impressão de ter copiado montes de boys bands dos anos 90.
POR: [Ricardo Schott]
Bom
BK3
| Bruce Kullick
O guitarrista Kullick hoje se divide entre inúmeros projetos, como sua própria carreira solo e a enésima formação (bastante desfigurada) do Grand Funk Railroad, monolito hard rock dos anos 70. Mas sempre será lembrado por ter sido o bom músico que segurou as seis cordas durante o período mais controverso da história do Kiss – a época sem máscara, na qual a potência hard-pop dos primeiros álbuns do quarteto alcançou níveis de choramingação e baba inimagináveis (até em trilha de novela o grupo esteve durante essa época).
Chegar a um consenso sobre discos horríveis – mas que muitos kissmaníacos cultuam - como Hot in the shade (1989) e Carnival of souls (1997) é quase impossível, claro. No entanto, em seu terceiro solo, BK3, Kullick mostra superioridade em relação à época 446 (como diria Tim Maia, falando sobre coisas que são tão ruins que não merecem nem nota 5) que passou no Kiss.
É claro que as coisas não são tão simples assim: o álbum soa menos como um trabalho individual e mais como um projetão bem armado, coalhado de convidados. Mas também cheio de canções que engrenam. Entre presenças marcantes como as do ex-patrão Gene Simmons, no hino Ain’t gonna die, e de Tobias Sammet (Edguy e Avantasia) na platinada I’m the animal, acha-se sons oscilando entre o hard rock e o punk (a abertura, com Fate,com vocais lembrando os de Scott Weiland, dos Stone Temple Pilots), uma chance para o filho do ex-chefinho (Nick Simmons, herdeiro do linguarudo do Kiss, na legalzinha Hand of the king), algumas canções belas e pesadas (como And I know e as baladas I’ll survive e Life) e um tema instrumental de boa qualidade (Between the lines).
POR: [Ricardo Schott]
Bom
Superguidis
| Superguidis
No Brasil, vai entender o motivo, poucas bandas procuraram entender o rock pós-grunge. Ou mesmo reproduzi-lo, ou usá-lo como base. Ou qualquer coisa. Com raras exceções (e praticamente nenhuma delas dizendo “presente!” no mainstream), depois da morte de Kurt Cobain, o som de três-quatro acordes feito no Brasil, engatou a quarta marcha e seguiu na direção do skate-rock, passando direto pela estética e pelo estilo Charlie Brown Jr de ser e de viver . E seguindo, com poucas escalas, até o som de Los Hermanos. Aparentemente, só Pitty chega perto de ser a versão brasileira de um guitar rock nada indie, nada afetado e com uma atitude mais próxima dos anos 70 e 90.
Louvável que uma banda como os Superguidis, com repertório cheio de canções emocionantes e guitarras pesadas – um estilo que foi seqüestrado pelos moleques do emo e recusa-se a se renovar no Brasil – exista e chegue ao terceiro disco. Tem muito de Foo Fighters, Smashing Pumpkins e Sonic Youth (além do próprio Nirvana) ali sim. Mas tem muito da cara própria deles, da felicidade em fazer refrões e melodias bacanas como as de Não fosse o bom humor, Fã clube adolescente, Quando se é vidraça e Visão além do alcance. E de usar uma referência que, para ouvidos atuais pode até soar alienígena (a abertura do álbum é com uma balada acústica, lindíssima, chamada Roger Waters). Os gaúchos continuam numa linha que agradaria bem mais se saísse dos circuitos independentes e chegasse às rádios. O som tem lá seus lados românticos, mas sem apelar (em De mudança), embora o grupo prefira mesmo é botar na frente sua faceta mais crua, que não precisa de muitas frases bem sacadas nas letras para soar bem no ouvido. Grande disco.
POR: [Ricardo Schott]
Bom
Mosaico
| Beatrice Mason
Criada no som clássico e dona de uma bela voz, a carioca Beatrice Mason deixou seu lado erudito de fora de sua estréia, Mosaico, lançada no ano passado de forma independente e agora relançada pela Universal. O disco, diferentemente do que seu nome possa deixa transparecer, tem unidade e traz MPB filtrada pelo pop. É o que se ouve a partir da primeira faixa, um curioso Samba mínimo (Delia Fischer), sem a menor aparência de samba, traçado por discretas programações e por riffs orientais e meditativos, além da harpa de Cristina Braga. Em seguida, vem a latinidade da bela Foi no mês que vem, de Vitor Ramil, e da releitura de Caramel, do repertório da folksinger Suzanne Vega, marcado pela percussão de Marcos Suzano.
A preocupação de entregar no CD um pop repleto de detalhes de gravação continua numa das melhores músicas,, Algum mistério – composta por Marcelo Caldi, Mauro Aguiar e pelo produtor do disco, Rodrigo Campello, presentes em praticamente todo o CD. E que, ao lado de nomes como Suzano (percussão) e Junior Tostoi (guitarra), conferem grande personalidade às músicas. Em Oração blues, de Rodrigo Maranhão e Pedro Luís, Tostoi assina até a pré-produção de uma gaita tocada por Gabriel Grossi, que surge nas caixas acústicas coberta de efeitos.
A aclimatação jazz-MPB que aparece em algumas interpretrações de Beatrice e da banda (destaque para o sensível baixo acústico de Jorge Helder) ganha mais força em canções como Lily Blonde (de Edu Krieger), referência à História de Lily Braun, de Chico Buarque. Ou na tranqüila Na beira do rio, de Chico Pinheiro e Paulo Neves, com sopros destacando as flautas em sol de Andrea Ernst Dias. Ao final, um lado mais bossanovista em O tempo do querer (Marcelo Caldi e Edu Krieger) e a terceira releitura do disco, Madre Tierra, pop-folk com a assinatura de Jorge Drexler, em bela versão.
POR: [Ricardo Schott]
Excelente
The Pursuit
| Jamie Cullum
O jazzman britânico volta em forma ao piano e com um álbum bem mais comercial em The Pursuit, se comparado aos discos anteriores. Enveredando claramente para vertentes mais pop, Cullum dá a sua cara às fórmulas mais conhecidas dos gêneros e apresenta um disco maduro, ainda com maior cruzamento de estilos, certamente sua maior virtude.
One of those things, um cover da balada jazz de Cole Porter arranjado por Frank Foster, abre o disco ao melhor estilo de Cullum e não indica muito bem o caminho que veremos nas músicas seguintes. A versão, apesar de convenientemente amparada por uma big band, não é de suas mais inventivas, lembra as suas principais faixas dos primeiros discos, um tanto jazz genérico dos anos 60. Vemos, claro, pequenos traços de releitura, mas em essência é apenas jazz (o suficiente para muitos).
O single I’m all over it vem em seguida e escancara as aspirações do jazzman com o álbum. Cullum, do alto de seu brilhantismo jazzístico, desce de seu pedestal de prodígio do gênero para produzir uma canção comercial até a alma. O resultado? A melhor música do disco e, possivelmente da sua carreira. Absolutamente grudenta e com uma linha melódica viciante, a música pode até remeter a muito do que vemos no indie rock por aí, mas tem a assinatura de Jamie Cullum nos arranjos.
O single apresenta Cullum mergulhando no indie rock. Vemos o mesmo na suave Wheels, que vem vem em seguida. A música lembra o piano rock do Keane e um tanto The Killers nos refrões. Também comercial, ouvimos uma batida pop guiar toda a melodia, embora mascarada nas escovinhas do jazz. A dobradinha de I’m all over it e Wheels representa o ponto alto do disco, que a partir daí apresenta alguns baixos, mas outras excelentes canções.
Love aint gonna let you down é uma belíssima balada soul ao piano com bons versos e refrão emocional, que constrasta diretamente com a levada rock de Mixtape, que vem em sua cola. Na lenta If I ruled the word, vemos Cullum se perder um pouco na melodia arrastada, mas You and me are gone trata logo em seguida de correr na contramão: embalada por percussões latinas aceleradas e piano cabaré com traços incidentais de jazz, representa bem o brilhantismo de Cullum no cruzamento de gêneros que admiramos.
Seguida à lenta I think I love, nos deparamos com a excelente We run things. A música cativa com versos grooviados e com refrões soul modernosos na medida certa, que lembram muito a linha de Amy Winehouse. Supreendendo no fim, Cullum apresenta a quase eletrônica Music is through, que transporta o pianista aos teclados. A música, embalada por sintetizadores nos versos (uma verdadeira novidade para Cullum), encerra bem o disco desse jazzman que ama o pop e que, por isso, soa sincero ao fazê-lo.
POR: [Philippe Noguchi]
Fraco
My world 2.0
| Justin Bieber
Depois do industrializado e desalmado My world, o astro mirim canadense Justin Bieber segue com sua incursão pela vertente mais pop possível do hip hop em My world 2.0. O título engana: 2.0 não é uma evolução, mas sim um trabalho igualmente sem graça, mas com muito mais foco. Melhor? Não. Mas mais promissor.
O primeiro disco claramente chamou a atenção de alguns grandes nomes do hip hop e R&B. Enquanto My world tinha apenas a bênção de Usher, a versão 2.0 conta com Ludacris, Sean Kingston e Jessica Jarmell em parcerias com Bieber. Desta vez, o garoto tem uma voz menos afeminada, embora não menos afetada. Os auto-tunes, batidas farofeiras (e prontas para o sucesso nas pistas), overdubs e modulações de voz ainda transbordam, mas o disco abandona um pouco o ar Backstreet Boys em início de carreira de seu antecessor. É uma aproximação clara com o R&B e o hip hop. Ainda é açucarado, mas o garoto dispara, ocasionalmente, alguns versos acelerados. Esse rapazinho canadense ainda precisa comer feijão com arroz para alcançar Ludacris, como fica claro na primeira faixa, Baby, mas quem sabe um dia ele chega lá.
Runaway love tem uma boa base de verso. Sintetizadores carregam uma melodia interessante, grave e densa. O outro até mesmo arranca boas melodias da voz esganiçada de Bieber. Uma faixa interessante que, se pautar os trabalhos futuros do canadense, pode assinalar bons discos no futuro. Com That should be me, novamente, Bieber fecha um disco com uma balada. E essa não é das piores. O garoto se esgoela em uma faixa redondíssima, feita para o rádio.
Não é bom, mas, assim como My world, não é ruim. My world 2.0 não é exatamente um avanço em seu antecessor, mas sim uma visão mais focada e melhor executada. É pop R&B, é diluído, é o Vanilla Ice mirim. Mas é hit. Se Bieber continuar chamando atenção, pode chegar ao My world 5.0 sem um disco bom, mas vai ter como parceiros Jay Z, Kanye West e outros gigantes do mundo hip hop. E com padrinhos desse porte, ele está feito.
POR: [Gerhard Brêda]
Bom
Teen dream
| Beach House
Ainda sem muito nome por aqui, o duo de Baltimore, Beach House lança seu terceiro disco. E aposta na fórmula que o fez evoluir desde seu debut homônimo, através de Devotion, culminando com o que está sendo considerado seu melhor momento, Teen dream.
Não se deixe levar por nenhum dos dois nomes: o da banda e o do disco. Não há nada praiano nem teen no som deles. Há sim angústia, lirismo, romantismo, reflexos de psicodelia saudável e melodia. Alex Scully e Victoria Legrand (sobrinha do compositor Michel Legrand) se isolaram em uma igreja adaptada para gravações no norte de Nova Iorque ao lado do produtor Chris Coady. O afastamento parece ter sido vital para a atmosfera do disco, que combina bem órgãos sessentistas e batidas minimalistas, melodias otimistas e harmonias que remetem desde a The Cure (Lover of mine) como a R.E.M. (Used to be).
O timbre grave e espacial de Victoria Legrand se encaixa com perfeição nas canções do duo, apesar de não ser uma exímia cantora. Talvez pela genética que herdou, seu grande trunfo está nas melodias, sempre intrigantes. Na parte instrumental, tudo muito simples, básico e bom. Instrumentos fazendo o necessário e as apostas todas no fundamento que é a boa canção. Arpegios recorrentes colorem o som opaco/climático da gravação em geral resultando em uma assinatura bastante convincente de Chris Coady.
A parte rítmica talvez seja o ponto mais baixo da produção. As programações parecem ter sido feitas às pressas e sem muita atenção, e as idéias são fracas e repetitivas. Onde o simples vira quase infantil.
Traçando um paralelo com o que está acontecendo hoje no cenário, Beach House é diferenciado pelas boas referências, pela experiência e comprometimento com a evolução e a certeza de que esta vai continuar.
POR: [Paulo Loureiro]
Regular
Believers never die - Greatest hits
| Fall Out Boy
Esta é uma compilação de singles da banda emo americana, que traz apenas quatro músicas inéditas. As músicas dispostas em ordem cronológica permitem uma conclusão simples: o Fall Out Boy é uma banda que evoluiu uma barbaridade, mas não o suficiente.
O começo do disco beira o irrelevante: faixas completamente genéricas, adolescentes e cheias de fórmulas que marcaram o início carreira da banda. Saturday é uma delas e exemplifica bem como a banda parecia perdida nesse primeiro momento. No meio do refrão ouvimos gritos rasgados e graves em backing vocals quase guturais (?!).
Aos poucos chegam canções com mais personalidade. A partir de This ain’t a scene, it’s an arms race, o Fall Out Boy parece assumir o pop-punk-dançante-despretencioso do primeiro hit que emplacaram, Dance, dance, e convivem muito bem com isso, obrigado. Outras como I m Like a Lawyer… e The take over, the break s over são pegajosas e tem bons versos, melodicamente ricos, que enfraquecem com refrões genéricos (uma insistência da banda).
Impossível também não reparar a evolução das letras. De conflitos adolescentes estampados nas terríveis Dead on arrival e Where is your boy, ouvimos ainda despretenciosos, mas marcantes versos em I don t care. A banda não deveria fugir disso, pois falham quando procuram construir algo mais poético como em What a catch, Donnie, que é um pouco piegas e constrange um pouco.
Embora reconheça as limitações do Fall Out Boy, alimento desde que o grupo surgiu no mainstream uma simpatia grande por este quinteto. Estamos diante de uma banda positiva, despretenciosa e, sobretudo, sincera. O Fall Out Boy nunca se propôs a fazer nada mais que um pop rock otimista.
Certamente construir uma personalidade não foi o suficiente para a banda de Chicago. Mas, gostemos ou não do estilo criado pelos caras, admitamos: ela está ali. Ponto. E isso já é o bastante para não atirarmos o Fall Out Boy no mesmo limbo onde agonizam uma infinidade de bandas de hardcore emo.
POR: [Philippe Noguchi]
Regular
Relapse: Refill
| Eminem
Este é o aguardado relançamento de Relapse, disco lançado por Eminem em 2009. Com apenas sete faixas, o disco é o que seu nome sugere: um refil de músicas que acabaram não entrando no álbum original. E, como o próprio Eminem já disse, é também um presente para os fãs na expectativa por Relapse 2, que será lançado ainda em 2010.
Em Relapse: Refill, Eminem cai numa armadilha conhecida do rap/hip hop: é temático em boa parte das faixas. O rapper recorre a clichês, ornamentando faixas como Music box com melodias de caixinhas de música, ou Drop the bomb on ‘em com, adivinhem, sons de bombas explodindo. É quase como se pudéssemos esperar o que estar por vir somente pelo nome da música.
O disco acerta, entretanto, em dois momentos: quando faz algum tipo de croosover com outros gêneros, como em Buffalo Bill, que brinca com sonoridade latina; ou quando explora Eminem naquilo que faz melhor: humor. Há um resgate desse lado em Elevator, uma boa faixa que lembra o debute do rapper em 1999, The Slim Shady, com trombones e fagotes embalando os versos rápidos.
A grande maioria das músicas tem personalidade (esse, definitivamente, não é o problema do disco), mas não tem um grande delivery do rapper. É o caso Hell breaks loose, embalada por violinos agudos criando uma atmosfera de urgência, com versos que deixam a desejar. E de Taking my ball, com um background árabe nos versos, mas com um refrão cantado por Eminem (quase sempre um erro).
Seguindo a tendência irremediável e generalizada do gênero, o grande single do disco (e sensação das noitadas), Forever, está entre as piores faixas: é realmente interminável. A música é uma parceria com Drake, que canta o refrão, intercalado com versos de Kanye West, Lil Wayne e Eminem, que com erros e acertos, não cria um grande álbum, mas faz o suficiente para se manter entre os melhores e mais criativos do rap, talvez um feito não tão grande assim.
POR: [Philippe Noguchi]
Bom
We are here
| Apparatjik
Formado originalmente para a gravação da música Ferreting, que faz parte da coletânea beneficente Songs For survival, da BBC, o supergrupo Apparatjik parece ter chegado para ficar. Formado por Magne Furuholmen (vocalista da banda dinamarquesa Mew), Magne Furuholmen (tecladista/guitarrista do A-Ha) e Guy Berryman (baixista do Coldplay) e o produtor Martin Terefe, a banda lançou há pouco menos de um mês seu primeiro álbum oficial, We are here.
Por suas 11 faixas passeiam canções que lembram as melodias etéreas do Mew, com pitadas do synthpop do A-Ha e um pouco do rock apoteótico do Coldplay, tudo num mix recheado de instrumentos eletrônicos usados para tornar o som mais experimental, mas sem deixar de lado a melodia.
Gravado inteiramente no estúdio de Magne Furuholmen, na Noruega, We are here mostra que o Apparatjik não é apenas um projeto de diversão dos músicos de férias de suas bandas principais, mas sim algo que possa abrir uma nova perspectiva para todos os envolvidos nesse projeto.
POR: [Luciano Vianna]
Bom
Quarantine the past
| Pavement
Disco do ano. E ponto final. Mais do que uma espécie de greatest hits de uma banda que nunca teve um hit de verdade, Quarantine the past traz 23 músicas que não envelheceram um segundo, apesar de terem sido lançadas entre 1989 a 1999.
Maior das bandas menos conhecidas dos anos 90, o Pavement se não criou, pelo menos foi o principal responsável pela "popularização" da estética lo-fi. Eles não sabem tocar direito, cantam desafinado, mas mesmo assim criaram pérolas pop como Stereo, Cut your hair, Here, Shady lane, Summer baby e a sublime In a mouth a desert, só para citar algumas.
Stephen Malkmus e companhia escolheram a dedo as 23 faixas do álbum, que traz desde lado B, faixa de coletânea, músicas da fase mais experimental até músicas pop perfeitas, todas remasterizadas digitalmente, o que deixa o som do disco com uma coesão impressionante em comparação com as músicas originais.
Quarantine the past foi criado para que seu lançamento coincida com a turnê de volta do grupo que durante oito meses (pelo menos por enquanto) vai se apresentar por todo o mundo para plateias muito maiores do que tinham antes da separação.
Com sua volta e o lançamento de Quarantine the past, o Pavement vem mostrar ao grande púbilco por que, ao lado do Pixies e Nirvana, é uma das três maiores bandas de rock surgidas nos Estados Unidos nos últimos 20 anos. Nota 10. Com louvor.
POR: [Luciano Vianna]
Regular
Rebirth
| Lil Wayne
Podia ser pior... O sétimo álbum de estúdio do rapper americano Lil Wayne chegou às lojas recheado de expectativas, afinal, foram meses e meses de sucessivos adiamentos desde que o rapper anunciou no twitter que havia encerrado as gravações até o lançamento oficial de Rebirth. Com essa demora toda logo começaram a aparecer boatos de que o disco teria sido rejeitado pela gravadora e que outros produtores estariam colocando sua mãozinha para tornar o álbum mais comercialmente viável.
A curiosidade é que, no final do ano passado, por um erro da loja Amazon, centenas de fãs que haviam feito a pré-reserva do disco em mp3 receberam o álbum por e-mail acidentalmente, o que possibilitou que Rebirth fosse rapidamente para os sites de download grátis quase dois meses antes do seu lançamento oficial.
Mas o que importa para a gente é que Rebirth finalmente viu a luz do sol oficialmente e, apesar das críticas negativas da grande maioria das publicações americanas, estreou como número 2 na parada da Billboard, vendendo quase 180 mil cópias na primeira semana.
Nas gravações, Lil Wayne comentava sobre o álbum como se ele fosse o seu “rock álbum”. E o disco mostra ser um bom crossover de hip hop e rock, com participações dos garotos do Fall Out Boy, de Eminem, Lenny Kravitz e do baterista Travis Barker, do Blink-182, além de músicas produzidas por medalhões como DJ Infamous, Cool & Dre e DJ Nasty.
O que estraga um pouco o clima mais pesado de Rebirth são as baladinhas, mal necessário em todos os álbuns de hip hop hoje em dia. Outro ponto negativo é o fato de Wayne cantar em quase todas as músicas usando o recurso do Autotune, que transforma artificialmente a sua voz pouco potente.
Ponto para Wayne por ter tido a coragem de tentar se transformar como artista num ponto de sua carreira em que ele não precisaria mais disso para aparecer. Mas, até mesmo como uma prova do seu talento como rapper, o melhor de Rebirth são as faixas “tradicionais” de hip hop, nas quais ele versa muitas vezes sobre o cotidiano de New Orleans, sua cidade natal.
POR: [Luciano Vianna]
Excelente
Family Jewels
| Marina and the Diamonds
Marina Lambrini Diamandis. Com um nome desses, uma mistura de italiano com grego e de origem galesa, já poderiam prever um grande futuro para essa britânica de apenas 25 anos. Aproveitando o sobrenome para se batizar artisticamente, Marina deu o que falar ano passado, fazendo shows sempre lotados mesmo antes do lançamento do seu primeiro single, o que deu a ela a oportunidade de se apresentar em festivais como o Glastonbury e Reading, na Inglaterra.
Eleita em segundo lugar na lista da BBC de nomes para se prestar atenção em 2010, Marina and the Diamonds mostra agora, com seu álbum de estréia, se todo o hype em cima do seu nome é justificado. E para esse crítico que vos escreve é justificadíssimo... Family Jewels é um dos melhores discos pop inteligentes lançados nos últimos anos. Na verdade Marina and the Diamonds é tudo o que o Ting Tings prometeu ano passado mas não conseguiu cumprir em seu álbum de estréia. Mostrando músicas que vão agradar desde os adolescentes catadores de MP3s em blogs moderninhos até coroas antenados que ainda insistem em comprar CDs.
“Hollywood” foi o primeiro single. Escolha estranha, visto que tem músicas muito mais representativas do álbum, mas, mesmo assim, o single entrou nas primeiras posições da parada de sucesso inglesa. O engraçado é que, ao fazer 20 anos e depois de incontáveis bandas sem sucesso na adolescência, Marina resolveu aprender a tocar piano e criar ela mesma, sozinha em casa, as músicas que se tornariam o álbum Family Jewels.
Ecos de techno-pop dos anos 80 permeiam todo o disco, principalmente por influência de bandas como Sparks e Eurythmics, mas sem o ranço excessivamente saudosista de tantos grupos por aí e com uma vocalista de personalidade que parece rumar a passos largos para o estrelato. Em resumo, Marina Diamandis fez em Family Jewels um álbum que, desde já, posso afirmar que vai estar em todas as listas de melhores do ano de poprock.
POR: [Luciano Vianna]
Bom
Troubador
| K´Naan
Misturar música Africana com hip hop pode dar um bom samba. Em Troubador, o rapper somaliano K´Naan mostra que usar e abusar das raízes da cultura negra num mix de modernidade pode soar muito bem. Gravado na Jamaica, no mesmo estúdio caseiro onde Bob Marley gravou as demos de muitos dos seus clássicos, Troubador se mostra internacional ao misturar reggae, dancehall, hip hop, música tradicional africana e até rock´n´roll.
A história de vida de K´Naan é simbólica. Fugitivo com a família da guerra civil no Somali, eles se refugiaram na América do Norte, onde K´Naan aprendeu inglês ouvindo discos de rap e em centros culturais voltados para os refugiados africanos. Logo começou a fazer seus próprios versos, misturando impressões sobre a sua nova vida com lembranças de sua infância na Somália. Todo esse caldeirão de influências explica um pouco essa diversidade de ritmos em Troubador. Apesar de o hip hop ser a linha mestra do disco, traz colaborações com nomes como Damian Marley, Adam Levine (Maroon 5), Kirk Hammett (Metallica), Mos Def e outros que acrescentam suas influências à música de protesto de K´Naan.
Algumas publicações europeias chamaram o disco de pretensioso, enquanto outras louvaram a capacidade de K´Naan de circular bem por todo o espectro da nossa música pop sem diluir suas letras ácidas e de protesto. O curioso é que, mesmo de temática difícil, K´Naan parece ser queridinho da empresa de games EA Sports. Músicas de Troubador figuram como trilha sonora de jogos de vídeo-games como Madden 09, Fight night round 4 e NBA 2K10. Além disso já foi anunciado que Wavin flag, canção do álbum que conta com a colaboração do cantor espanhol David Bisbal, será tema do jogo 2010 Fifa World Cup. É a globalização da música de protesto.
POR: [Luciano Vianna]
Fraco
The Soft Pack
| The Soft Pack
O Soft Pack é um grupo malandro, que pode bem enganar quem tem pouco tempo de estrada. Porque o som do disco de estreia da banda, de saída, soa interessante e enche de esperança o ouvido. O beat direto e reto da bateria, a guitarra barulhenta e o vocal firme do quarteto californiano parecem coisa de quem cultiva o rock na veia, com mais energia do que firulas, que faz a alegria de quem ama Chuck Berry, Ramones e Arctic Monkeys.
Ao fim da audição das 11 faixas do disco de estreia do quarteto, a soma dos detalhes espertos revela a ausência de criatividade e o aproveitamento murídeo da herança dos grandes heróis do rock n roll. Não se trata de somar referências, mesmo que ao excesso para formatar um som próprio, como já fez o Oasis em outros tempos, porque não há nada de marcante ou peculiar no som dessa banda.
O que sobra é um desfile de faixas repetitivas, com uma guitarra chupada dos Ramones em Pull out, uma melodia com fraseado dylaniano em C mon, uns vocais do earlier The Who em Down on loving, uma levada sub-Cake em Mexico e por aí vai. É tudo bem embaladinho, mas o conteúdo é quase nada. Detalhe desimportante: a banda já se chamou The Muslims. Ô nome bom para um grupo californiano.
POR: [Dirley Fernandes]
Bom
Astro Coast
| Surfer Blood
Este é o ensolarado debut do Surfer Blood, quinteto da Flórida e um dos grupos nerds da nova leva de bandas indies. Por baixo de uma máscara de surf music ingênua e tímida, Astro coast esconde músicas com personalidade e boas melodias. O rock fácil da banda lembra aquele produzido pelo Weezer ou Pavement nos anos 90, ou o do Kaiser Chiefs atualmente. É cru e simples, mas não simplório.
A banda traz bons refrões, que, apesar de soarem um pouco imaturos, são grudentos e amigáveis. O single Swin tem com certeza o melhor deles. A música vai de uma levada quase punk rock a um curioso interlúdio que lembra muito música latina - algo que o Weezer, por exemplo, sempre gostou de fazer.
Outras faixas também se destacam, como a inteligente Harmonix, que tem os versos tocados sugestivamente em harmônicos de guitarra (um fenômeno físico que ocorre nas cordas e que geram um efeito sonoro agudo característico). A música mais uma vez remete aos anos 90, com versos à la R.E.M. e refrões que são Oasis até a alma.
A intensa (e longa) Slow jabroni é outra boa faixa. Sai de versos graves e densos para um refrão leve e brilhante. Floating vibes abre o disco dando ótimas expectativas e é, talvez, a melhor faixa, com bons riffs, melodia praiana totalmente irresistível.
De forma inusitada, a banda acabou rejeitando os estúdios e resolveu gravar e mixar o álbum quase totalmente dentro do apartamento do guitarrista. Resultado: o debut ganha ainda mais identidade e consegue fugir do genérico com uma preocupação extra de timbragem dos instrumentos.
Por outro lado, os reverbs exagerados nas vozes e instrumentos também contribuem negativamente para o resultado: acabam embaçando as boas melodias e transformando uma parte das faixas numa grande massa sonora.
POR: [Philippe Noguchi]
Regular
Plano de fuga pra cima dos outros...
| Letuce
O Letuce, projeto da cantora Leticia Novaes (que participava dos shows de João Brasil, aquele do Pau molão) e do músico Lucas Vasconcelos, do grupo Binário, é uma excelente ideia. Pelo menos no papel: um músico de boa procedência; uma bela vocalista; letras e referências safadas (Caso sério, de Rita Lee e Roberto de Carvalho, foi regravada em francês, com vocais herdados de Edith Piaf, e virou Sérieuse affaire); um pop que, diz o release, teve como inspiração o show de Patti Smith no Tim Festival, no qual a diva punk declarou, no palco, que a guitarra é a única maneira de se fazer uma revolução.
No geral, o que dá para dizer é que Plano de fuga..., disco que, afirma o encarte, “foi feito com calma”, pode ter sido fiel a seu conceito. E o conceito, ouvido daqui, soa como uma música mais rascunhada do que artefinalizada, tendendo a uma cabecice estranha – algo que soaria como um mérito em outros trabalhos, mas que, no caso da dupla, deixa lacunas, como acontecia nos momentos em que o Kid Abelha queria tirar onda de sério, gravando um disco chamado Tomate (1987) e musicando letras do arroz-de-festa Jorge Mautner.
Isso acontece nos vocais incertos de Leticia e em algumas melodias e letras que parecem inacabadas – exceção feita a Darwin s fairy tale, Binóculos, Horizontalizar, Seresta quentinha. O engraçado é que parece tudo bem menos animado do que nos shows da dupla. Que, no disco, relê Rita Lee, Roberto de Carvalho e Marina Lima (tem uma versão de Acontecimentos) e dá a entender que o ideal pop do Letuce ainda pode ser outro, tão sofisticado quanto acessível. Vá ao show e espere o próximo disco.
POR: [Ricardo Schott]
Regular
Odd blood
| Yeasayer
Querido leitor, desconfie do hype. O Yeasayer é um quarteto nova-iorquino de música pop experimental ao qual a crítica é só elogios desde que lançou o álbum All hour cymbals, em 2008. Misturando elementos do pop, música indiana e do leste europeu, foi rapidamente considerado a salvação.
Odd blood não é um disco ruim, mas está muito longe de ser tudo isso que anunciam por aí. Não é um disco fácil, contudo. Só depois de duas ou três audições começa a cativar em algumas músicas. Causa imediatamente um grande estanhamento com a faixa de abertura, The children, profundamente desinteressante e monótona, dois crimes capitais para quem produz um álbum pop.
O single do disco, Ambling alp, chega com muitos sintetizadores e samplers e, não por acaso, é a melhor faixa do disco. E uma das poucas músicas que reúne as referências da banda de forma minimamente interessante, com personalidade e, principalmente, algumas sonoridades inovadoras.
As músicas, essencialmente, são uma salada de tudo que você já conhece, com uma pegada anos 80, o que por alguma razão incomoda. A referência à década é deliberada e faz questão de se mostrar faixa por faixa - às vezes pelos maus elementos que a marcaram, como a horrível batida sintetizada presente na maioria das canções.
Pouca novidade é colocada na mesa nesse disco, embora o Yeasayer venha sendo vendido como uma banda inovadora. Verdade seja dita: grande maioria desse disco poderia tocar em qualquer rádio 30 anos atrás sem causar qualquer tipo de estranhamento.
Algumas faixas como a dançante Mondegreen e a emocional Madder red se destacam com linhas melódicas bonitas e vocais bem trabalhados. Não conseguem, entretanto, salvar o Yeasayer. Odd blood é um disco pop que não gruda na cabeça, de uma banda com valor, mas superestimada.
POR: [Philippe Noguchi]
Regular
Transference
| Spoon
Em Transference, o Spoon embarca em duas missões distintas, o que acaba praticamente rachando este álbum em dois. A primeira parte, uma tentativa experimental que funde eletrônica com math rock, é uma boa aposta no papel, mas soa realmente lamentável na prática. O segundo deles, mais rock e simples, valoriza os vocais e letras de Britt Daniel e beira o brilhantismo, resultando num álbum verdadeiramente mediano por definição.
A banda apresenta um começo de disco completamente mecânico e confuso. Com um trio fraquíssimo de músicas na abertura, começa-se a temer pelo pior. Os arranjos, rasos, não sustentam as harmonias experimentais, apesar do esforço grande em se extrair bons timbres e texturas das cordas e sintetizadores (algumas músicas trazem camadas mais bem exploradas, como Before destruction).
Alguns sinais de melhora chegam com The mystery zone, que é uma boa canção, mas não impressiona. Apesar de longa demais, é pegajosa e simpática. Mas, se cria algum otimismo, Who makes your money, a faixa seguinte, trata de destruí-lo. Arrastada, esta poderia ser perfeitamente uma faixa do Gorillaz que não deu nada certo.
É quando chega aos seus ouvidos Written in reverse e você pensa: "Ok, essa música é sensacional". Então você escuta novamente e constata: "Não, não é brilhante, é somente uma faixa realmente boa depois de de um monte de canções muito ruins". É a faixa mais rock do disco e também a melhor - se não é o single, deveria ser. O groove com um quê de blues encaixa como uma luva na voz emocional de Britt Daniel. Entre uma leva de músicas esquecíveis, talvez seja uma que permaneça na memória.
A música abre os ouvidos para faixas melhores, que vêm em seguida. A descontraída Trouble comes running, e as melancólicas I saw the light e Out go the lights trazem um som cru, com identidade e refrões pegajosos. Got nuffin encerra bem o disco, mas não consegue anular o fracasso das faixas experimentais.
POR: [Philippe Noguchi]
Excelente
Broken Bells
| Broken Bells
Broken Bells é o nome do projeto paralelo do produtor e multiinstrumentista Danger Mouse (creditado no disco com o nome real, Brian Burton) e o vocalista da banda The shins, James Mercer. Broken bells, o disco, soa como um filho bastardo (e menos deprimido) do Amnesiac, do Radiohead, com o Demon days, do Gorillaz (este produzido por Danger Mouse). Burton mostra todo o seu talento ao arranjar belíssimas orquestrações com o vocal versátil de Mercer, além de tracks experimentais, com batidas eletrônicas. No disco, pianos aparecem sem prestar serviço ao ridículo, violões pintam sem soarem vazios e até um empoeirado rock organ sai da gaveta pra brindar os ouvintes em Sailing to nowhere, que também tem excelentes arranjos de piano, violino e voz. Mercer, aqui, soa como Fyfe Dangerfield, do Guillemots.
Diferentemente de muitos produtores atuais, que acham que sabem manipular o recurso das orquestrações, Burton sabe. Os arranjos não são baratos, não tentam tornar as músicas épicas. São arranjos naturais, não intrusivo, complementares e belíssimos. Se o disco tem um ponto baixo é na dupla Trap doors e Citizen. As duas canções não apresentam nada de muito impressionante, ainda que não deixem a peteca do disco cair. Mesmo em seus momentos menos brilhantes, o Broken Bells faz música bem composta, com bom uso de instrumentos acústicos e batidas eletrônicas. É bom, mas é desnecessário.
October abre com belos violinos e uma guitarra deslizante. Subitamente, a melodia se dispersa e Burton e Mercer trazem a faixa mais rock do disco, com ocasionais acordes (levemente) distorcidos. O segredo aqui é a harmonia de fundo, que guia a música mais do que a guitarra dedilhada, a batida tradicional 4/4, os acordes e a voz de Mercer. Escondida, nas sombras, ela leva a faixa nas costas.
Mongrel heart é uma faixa carregada pela bateria, que mira no pós punk dos anos 80, e pelo baixo. A cozinha leva a música, temperada com sintetizadores, até um dos mais interessantes interlúdios da década. Subitamente, Burton apresenta sua orquestra pessoal com ruídos, pianos, metais e guitarras. Pictórico, o interlúdio soa como uma cena de faroeste. É desolador, imprevisível e belíssimo. O ponto alto do disco, sem dúvida.
Broken bells é um sopro de ar fresco no pop eletrônico sem graça e no rock metido à orquestra. Burton mostra seu valor como produtor, arranjando belas faixas melódicas e, ao mesmo tempo, viajando em experimentações. Candidato a melhor do ano.
POR: [Gerhard Brêda]
Regular
Contra
| Vampire Weekend
O Vampire Weekend é uma banda estranha. Quatro rapazes brancos do Brooklyn se juntaram para fazer rock misturado com música clássica e batidas africanas. A banda estourou com o hit A-punk, do disco de estreia (Vampire Weekend). Contra, o segundo disco da banda, arremessa os rapazes no Caribe, mantém a mama África e remove as guitarras. Não espere um A-punk aqui.
Não é que as guitarras não apareçam, mas elas são colocadas em terceiro plano, atrás de batuques diversos e criativas linhas de baixo, como em Holiday. Sintetizadores, modulações na voz, pianos e violinos também dão as caras na salada mundial do Vampire Weekend. É o mundo todo esmagado, filtrado, diluído e reconstituído pelos quatro rapazes brancos do Brooklyn.
Horchata abre o disco como um manifesto. Estão ali todas as premissas que definem o som do Vampire Weekend, abundam as batidas africanas. O disco segue saudável por White sky e Holiday, mas começa a perder fôlego na excessiva modulação realizada na track de voz em California english. Taxi cab, apesar de arrastada, tem uma bela melodia com pianos e violinos. Run tem um bom riff orquestrado, mas, no geral, é fraca.
O deslocado rockzinho upbeat Cousins é uma tentativa malsucedida de recriar A-punk. Giving up the gun e Diplomat’s son enterram o disco com batidas repetitivas, especialmente a segunda, uma música de boate com seis minutos de duração e extremamente arrastada. É Britney Spears em baixa rotação. No fim da faixa, violinos faceiros tentam mascarar a falta de criatividade e punch da música com orquestrações.
Se Diplomat’s son é o enterro de Contra, I think ur a contra é a missa de sétimo dia. A galera do Vampire Weekend sabe das coisas. Sabe juntar beats afro com arpeggios de violino. Mas não sabe que música lenta não é garantia de música bonita. I think ur a contra, se arrasta por mais de quatro minutos e deixa um gosto amargo na boca do ouvinte, que corre para ouvir Horchata novamente.
Contra é uma obra difícil de categorizar. Por um lado, é diferente de qualquer coisa que o rock ocidental esteja fazendo; por outro lado, tem cara de protótipo. Quem sabe no terceiro disco, os caras não afinam a proposta e entregam um rock misturado com world music, mas menos diluído e mais criativo.
POR: [Gerhard Brêda]
Regular
Raymond vs Raymond
| Usher
A sensação teen dos meados dos anos 90 cresceu e, desde os 20, virou uma estrela internacional. Após seis discos, Usher ataca com mais uma superprodução, dessa vez inspirada em sua separação. Raymond vs Raymond, produzido pelo parceiro Brian Cox, é mais pessoal do que seus trabalhos anteriores. Ainda assim, martela o tema da menina no clube, das “pegações” na pista de dança, e solta (algumas vezes) boas baladas.
A mania de fazer discos enormes - este tem 20 faixas - continua a prejudicar a turma do r&b e até de outros segmentos. Em Raymond vs Raymond não é diferente. Pelo menos seis ou sete canções do disco poderiam continuar na gaveta ou mesmo propositalmente esquecidas. Duas ou três delas poderiam nem mesmo existir. Alguns bons hits para as pistas, como More, explicitamente dance; Cut her of, um charm de “boa” letra e arranjo esperto; a bela Be (que é, talvez, a melhor coisa do disco) e a clubber In my bag, resolvem. O resto passeia pelo óbvio ou pelo chato com ênfase nessa moda de cantar/falar rapidamente sobre uma batida mais lenta. Usher faz isso bem, mas, como tudo o que acontece em demasia, perde a graça.
Na tentativa de regravar um dos hinos do charm moderno, a ótima Secret garden, de Quincy Jones, Usher acelera um pouco o andamento e não desaponta, apesar de não chegar perto do arranjo original. Mais uma vez as salvações estão em seu belo timbre e em sua colocação vocal. Já o primeiro single do disco, Papers, não traz nada de inovador além das mesmas sequências harmônicas de tantos outros hits atuais.
Indubitavelmente, Usher é um bom cantor. Tem forte influência de Michael Jackson, assim como 95% dos artistas de r&b da atualidade, é excelente dançarino e, à exceção dos relacionamentos conturbados que invariavelmente são tema de suas canções, é avesso a maiores confusões. Para substituir o ídolo Michael falta muito, mas Usher é um dos mais talentosos representantes da música negra pop americana.
POR: [Paulo Loureiro]
MuitoRuim
The element of freedom
| Alicia Keys
Não se trata de saudosismo puro e simples. Mas bate uma nostalgia ao conferir The element of freedom, novo CD da cantora, compositora, multiinstrumentista, produtora e atriz, entre outras atribuições, Alicia Keys. Continua cantando muita coisa. A produção, super. Entre muitos delays e texturas sonoras, está tudo perfeitamente no seu lugar. Perfeito até demais, carecendo daquele elemento gostoso que é a sensação humana na gravação. O diamante bruto, as canções em si, trazem linhas melódicas e harmonias previsíveis. E, portanto, não se sustentam sem todo o aparato tecnológico, sem a maquiagem. É um punhado de músicas (14 no total) que se revelam longe das tramas sublimes entre notas e acordes, daquelas à la Stevie Wonder ou outros nomes em cujos trabalhos tais combinações são abundantes.
O disco não acontece. Em um ou outro momento, com boa vontade, até se crê que o negócio vá decolar, mas o chorus seguinte já chega para frustrar tal expectativa. Nem a participação de Beyoncé em Put it in a love song - com cenas para o clipe filmadas aqui no Rio em fevereiro – é suficiente para levantar o lançamento. Arrastado, o CD assustou nos Estados Unidos ao entrar na segunda posição das paradas, feito incomum para Alicia, acostumada a só debutar em primeiro (okay, por outro lado, é seu primeiro álbum a alcançar tal êxito na Inglaterra).
Fala mesmo alta a saudade da Alicia Keys antes de redefinir sua nova assinatura sonora. É mais do mesmo desta multifacetada artista. Dessas facetas é melhor ao natural, como na releitura de Wild horses (Rolling Stones), de seu Unplugged, mas nisso já se vão cinco anos. É possível identificar a Alicia de ontem e a de hoje. O que mudou de lá
para cá foi, principalmente, o repertório, seu jeito de fazer musica, distando cada vez mais de um soul moderno, repleto de boas referências, para se enamorar da música pop descartável. The element of freedom já vendeu muito, portanto, como diziam de Elvis, sei lá quantos milhões de fãs não podem estar errados. Morram de saudades os que discordarem.
POR: [Leandro Souto Maior]
Bom
Heligoland
| Massive Attack
O mundo anda às voltas, nas últimas décadas, com artistas ou bandas que lançam discos tão espaçados quanto febres musicais. Apesar de que as últimas estão cada vez mais efêmeras. É o caso de Seal, Peter Gabriel, Tears for fears e alguns outros. Na esteira desse fenômeno também se encontra o, agora duo, inglês Massive Attack, um dos mais criativos e originais representantes da cena trip hop mundial. Desde seu primeiro trabalho Blue lines, de 1991, seguido do espetacular Protection, primaram por texturas sombrias e hipnóticas, camas de sintetizadores e batidas tão etéreas quanto pesadas. Além, é claro, da variedade de vozes que passaram por lá, incluindo Tricky e Sinead O’Connor.
A demora já estava grande, já que o último disco, o polêmico e obscuro 100th window, saiu há sete anos. Foi quando o ex-membro Grant "Daddy G" Marshall juntou-se ao único remanescente Robert "3D" del Naja para preparar Heligoland. Longe de perder a identidade e a eterna inquietude, o Massive Attack mudou o foco de suas composições para algo mais simplório. Melodicamente, não tem o poder de Protection. Mas nem por isso deixa de intrigar.
O pessimismo, a ironia e a aura escura ainda estão lá, mas carregam uma preocupação formal um pouco maior. Sua audição é, em grande parte, bem mais leve do que seu predecessor, o que não o torna um disco melhor; é apenas a primeira impressão. E, como tudo o que eles já fizeram, tem enorme cuidado sônico na excelente gravação das vozes, no cuidado com os detalhes, na escolha das músicas. As participações são de Guy Garvey (Elbow), Martina Topley-Bird, Grant Marshall, Horace Andy e Tunde Adebimpe (TV on the radio). A paleta de vozes e timbres guarda muito do diferencial desse grupo que tanto influenciou por quase 20 anos.
O duo de Bristol sempre foi mais ligado à questão experimental do que à emoção em si, apesar dos timbres viajantes e da dinâmica quase apoteótica de algumas composições. Heligoland mantém a tradição, mas foca em algo mais orgânico e sutil.
POR: [Paulo Loureiro]
Bom
The courage of others
| Midlake
O quinteto barbudo do Texas retorna em seu terceiro álbum com menos teclados e mais cordas, mantendo a atmosfera bucólica dos seus trabalhos anteriores. A sonoridade inspirada no folk, conferida em Bamnan and Slivercork (2004) e no excelente The trials of Van Occupanther (2006), chega maximizada em The courage of others com fortes traços de medievalismo.
Lançando mão de instrumentos alternativos, como a alaúde e flauta, Tim Smith e sua voz hipnótica nos transportam imediatamente a lugares que não conhecemos, talvez uma aldeia do século 14 cravada no meio de alguma floresta europeia.
“Great are the sounds of all that live”, brada suavemente o vocalista no refrão de Acts of man, a sugestiva faixa de abertura do disco. A música já indica o que está por vir: uma ode à natureza. Contemplativa, a banda leva a tarefa a sério: simplesmente nenhuma das 11 faixas do disco foge a essa temática, que é instigante num primeiro momento, mas torna-se um tanto chato a cada faixa.
As letras, deslumbrantes e cheias de significado, no decorrer do disco, inexplicavelmente, passam a lembrar uma terrível trilha sonora de um filme da Disney, Pocahontas ou Tarzan, talvez. E a sensação apenas aumenta com duas faixas ornamentadas por ocarinas, que trazem um poucoda música indígena, dos Andes.
Sim, essa temática soa pouco honesta. Convenhamos, estamos diante de uma banda de Austin, Texas, de onde a imagem mais próxima de uma floresta que nós, brasileiros, temos é a de um cactus no meio do deserto. É preciso, entretanto, admitir que essa é uma visão limitada. É quase estranhar uma banda argentina que faça algo que não remeta ao tango.
Sem contar que Texas é um estado enorme e Austin, além de ser “a cidade mais verde dos EUA”, é cercada de florestas. Justifica? Não. Mas ameniza o abismo, que separa a origem da banda da sua proposta.
É impossível questionar a qualidade musical do quinteto, que conseguiu de fato traduzir nos arranjos a exuberância que sugerem nas letras. The courage of others pode representar uma queda se comparada à inventividade do seu antecessor de 2006, que trazia faixas geniais como Young bride e Head home, mas o Midlake continua misturando bem diferentes sonoridades e construindo esse folk-de-lugar-nenhum que lhes deu a simpatia da crítica.
POR: [Philippe Noguchi]
Excelente
Corinne Bailey Rae
| The sea
De vez em vez uma cantora - ou a tendência seguida por ela - dita um padrão e logo uma geração de semelhantes, eventualmente até com certa originalidade, começa a pipocar. Que nem aqui no Brasil o efeito Marisa Monte e Fernanda Abreu. Lá fora - de onde até hoje ainda surgem crias da "geração Madonna" (vide as tantas Britney Spears) - ainda têm vez as Winehouses. Porém, se não se dissipar no oceano de cantoras com "pegada" semelhante, os holofotes vão revelar uma artista mais interessante até que badaladas como Joss Stone. Corinne Bailey Rae chega mais soul, funk (o americano, não o carioca), blues e um bocado "o mais puro rock and roll stoniano" em The sea, quatro anos depois de emplacar, ainda que discretamente aqui no Brasil, a pop corretinha Put your records on.
Maturidade? Corinne chega aos 30 anos, mas a morte prematura do marido - o saxofonista Jason Rae - pode ser o determinante. Pilotando voz, guitarra e composições, a inglesa soma à base das 11 faixas do novo lançamento, segundo da carreira, pouco mais que bateria (mixada na cara, com o bumbo acima dos outros instrumentos) e baixo, além de um discreto hammond aqui e ali. O quase minimalismo instrumental, no entanto, não a limita para tirar um belo punhado de cartas da manga.
Redundante, a esta altura do texto, repetir que Corinne Bailey Rae cresceu artisticamente, mas vale imprimir que o que era meio "música de mulherzinha", apesar de legal e desde antes ter um pé no blues e no rock, agora pisa firme com os dois pés nestes gêneros. Entre o primeiro e o segundo álbum, como que anunciando a guitarrada que viria, ela até Led Zeppelin cantou. Bom... o Babado Novo também gravou Led Zeppelin, mas, seguindo a boa tradição roqueira dos ingleses, sempre craques em reciclar o melhor da música americana, as pauleiras e baladas (sim, há umas três delas no disco) de The sea o torna um belo lançamento.
Os que curtiram esta canção docinha e de bem com a vida, entre o soft rock e o soul, não estranhem a comparação com Amy. Rehab não tem muito a ver com Corinne, mas a moça já dista daquela imagem inicial. No visual também. A voz continua a mesma, mas os cabelos... assim como o som estão mais black power.
POR: [Leandro Souto Maior]
Bom
Scratch my back
| Peter Gabriel
Exposto com metade do rosto nas sombras no encarte do disco, Peter Gabriel explicita no papel o que é Scratch my back. Étnico, sempre interessado em percussões africanas, estilista, adepto religioso de texturas mistas de teclados desde os tempos do Genesis, depois amalgamado com Larry Fast (Sinergy), Gabriel agora põe tambores, pratos ou quaisquer baticuns e barulhinhos para fora de seu Real World Studio. Aqui o que vale são orquestrações catatônicas, minimalismos incômodos, instantes dramáticos, cinematográficos. Aqui vende-se mistério. Ao longo das últimas quatro décadas, Peter Gabriel parece cansado de pular e botar para pular sua banda. É hora de descansar. Scratch my back é um belo de um repouso mental e físico.
Lendo o primeiro parágrafo poderia se supor que Peter Gabriel partiu, como sempre, da gênese de sua criação ao arranjo. Não: como já se sabe largamente, é um disco de releituras, muitas delas aleatórias, não necessariamente as favoritas do ex de Sinéad O Connor. O próprio Gabriel diz que sugestões vieram de várias fontes, de suas filhas, Anna e Melanie, e de Bob Ezrin (discreto produtor canadense que já dividiu pizzas em sessões de estúdio com gente como Lou Reed, Jane’s Addiction e próprio Gabriel). Mas foi John Metcalfe, que partilhou com Vinny Reilly os delírios obscuros do Durutti Column e dá batente no Real World Studio, quem distribuiu as camisas ao time. Foi ele quem chegou com os pacotes de arranjos embrulhados para presente.
O disco é, claramente, uma obra dividida em duas: a primeira, as músicas e os arranjos; a segunda, a mixagem. É um CD que, pelo resultado, deixa claro virar outro na mesa de estúdio. Cheio de silêncios, voz na cara, suprema, ordenhada, lapidada, customizada para a grandiloqüência. Peter Gabriel está nu, costurado por vestimentas eruditas. Guardando-se as distâncias estéticas e as propostas, Scratch my back tem fortíssima ligação cossanguínea com o último de k. d. Lang (Watershed). Ambos são apegados a rasas brisas, a parcas poluições sonoras, são gotas de torneira no meio da chuva.
Não se poderia supor, na medida de suas fontes originais, que The boy in the bubble (Paul Simon) e Listening wind (Talking Heads) pudessem virar o que viraram. Mas o resto, mesmo, é relido de forma mui respeitosa, incorporada ao disco justamente por suas sutilezas, aqui realçadas por violas, violinos, flautas, trombones e trompetes de sua London Scratch Orquestra. Ou, no caso de The book of Love (Magnetic Fields), pela Hungarian Orchestra.
Gabriel, portanto, não está subvertendo nada. Apenas potencializa os suspiros de canções suficientemente tristes para estarem aqui. Da Philadelphia (do filme dramático de Jonathan Demme, de 1993) de Neil Young, carregada na matriz de desesperança e aqui instada a soluços mais claudicantes, passando pela quase muda Mirrorball (Elbow), na qual violinos tracejam a letra, há uma busca de unidade já no repertório. Gabriel não reinventa. Limita-se a aplaudir as canções, como se assinasse embaixo não só harmonias, melodias e ritmos, mas também no que se transformaram nas mãos de seus arranjadores.
É impressionante a forma como reverencia, com dignidade, bandas relativamente novas como o Arcade Fire (My body is a cage), pontuando a rigorosa virulência do refrão. Assim como passeia sorrateiramente pelas hostes academicistas ao abrir os porões a violinos brutais em I think It’s going to rain today (Randy Newman). E, sim, também tem Radiohead, claro. A banda que mais mandou sinais ao pop de que há mais coisas a apreciar na fonte do rock progressivo do que os punk-descerebrados possam imaginar é revista em Street spirit, moída por uma carga emocional tão portentosa que até Thom Yorke se chocaria.
As 12 faixas de Scratch my back poderiam estar tanto em So (1986) como em Us (1992), mas como complementos. Ícone pop, de origem progressiva nos anos 60, teatral, ligado em música, mas também em interpretação, Peter Gabriel tornou as exceções, regras.
Há muito ele usa sua carreira musical como um toldo de suas várias facetas empresariais. Desde Up (2002), que tinha muitos equívocos, tal qual sua seminal admiração pela eterna promessa Daúde, Peter Gabriel pintava no campo dos negócios (tem posto na Reebok), mas se distanciava do show business. Aos 60 anos, completados em 13 de fevereiro, seu novo disco tende a ser transportado a pequenos palcos, a virar motivo para recitais. Uma volta – em termos.
POR: [Mario Marques]