Regular
RPA & The United Nations Of Sound
| RPA & The United Nations Of Sound
"Passei uma temporada no inferno/e estou bastante cansado", diz Richard Ashcroft lá pelas tantas, no primeiro single deste RPA & The United Nations Of Sound, Are you ready? Os fãs do Verve, sua ex-banda, e mesmo os admiradores de seus discos solo, podem ter um certo trabalho para entender e acompanhar esta estreia de sua nova banda. Ele até tratou de deixar as coisas mais claras para quem só o conhece do hit Bittersweet symphony, do Verve: tem batidinhas intermitentes e acompanhamentos orquestrais por quase todo o disco. Mas sai o lado escuro e prevalece a faceta ensolarada de sua ex-banda. As músicas, quase todas elas, têm títulos de auto-ajuda, como Born again (essa, um rock em clima quase gospel), This thing called life, Beatitudes (que fala em "palavra de Deus") , Good lovin, Life can be so beautiful. A letra de Are you ready? poderia soar como uma versão ex-junkie de A montanha, aquele hit de Roberto Carlos.
RPA & The United Nations Of Sound mostra um Ashcroft grato e mudado. Após a descida ao inferno das drogas, celebra a vida e perde vínculos com aquele rapaz com cara de psicopata que trocava ombradas com as pessoas pelas ruas no clipe de Bittersweet - numa das cenas, talvez a mais engraçada, encara dois negões que, em superioridade evidente, o deixam passar e até dão risada. O som do disco novo acentua o que já havia de eletrônico e meio hip-hopesco no Verve (o produtor é No ID, chapa de Jay Z e Kanye West). Mistura músicas mais ou menos (a dançante America) com momentos belíssimos (a orquestral e cinenatográfica Let my soul rest, This thing called life) e mandam bala num ponto fora da curva (o blues-rock chupado de John Lee Hooker How deep is your man?). Na bonitinha She brings me the music, soam como uma banda de rock farofa que levou um banho de loja pianístico. No final, um recomeço nota seis - sete às vezes. Mas que mostra amadurecimento e denota mudanças, além de servir como um grande alívio para quem esperava pela sobrevida de Ashcroft.
POR: [Ricardo Schott]
Regular
Teenage dream
| Katy Perry
“Você faz com que eu me sinta como se estivesse perdendo minha virgindade”, dispara Katy Perry aos gemidos em Hummingbird heartbeat. Se o disco trata mesmo de sonhos adolescentes, a cantora acertou o tom e bicou a sutileza para a vala. Ensolarado, com clima de férias de verão, Teenage dream é uma insossa jornada pelos rincões mais desnecessários do pop, mesmo que adornado por alguns - poucos - bons vocais e melodias. Falta hit.
Sutileza, pensando bem, nunca foi o forte de Perry. Após beijar uma garota e gostar, a cantora vem com o brilhantismo de “I wanna see your peacock-cock-cock”, em Peacock, o que provavelmente é a referência sexual mais mal concebida e constrangedora do pop. É o tipo de piada que seria bem ruim na sexta série, e talvez mais inapropriada. Novamente, esses adolescentes e seus sonhos picantes.
Mas ninguém vai para o disco de Katy Perry esperando letras brilhantes. Vai esperando melodias chiclete, batidas criativas, hits. Bem, eles estão ausentes. Não existe aqui um I kissed a girl ou Hot n cold (que, a bem da verdade, se sustenta como uma boa música). Se Peacock é facilmente o ponto mais baixo do disco, é difícil achar um ponto muito alto. E.T. soa como T.a.t.u. e, ao seu redor, o disco desaba. A balada-pancadão pretensamente densa Who am I living for? é uma boa vitrine para o vocal distinto de Perry, mas, no geral, é uma faixa equivocada. Pearl não faz nada de errado, mas nem tenta fazer alguma coisa de certo. Aonde estão os refrãos? Aonde estão os hits?
Até a primeira metade, o disco tem conceito de pop ensolarado, que desmorona depois de Circle the drain, que aspira ser uma faixa pesada, mas soa perdida. É o equivalente musical de um adolescente que se veste de preto, se enche de piercings e se acha um rebelde. Perry até dispara um palavrão e emula uns segundos de grunge na faixa, mas não sai disso: emulação, aparência, faz de conta.
A melhor faixa do disco é Firework, que tem bons vocais, boa melodia vocal e é dançante. Tem cara de single, cara de hit. Não é particularmente chiclete, mas chega perto. California gurls é ensolarada até o fim, música de praia. Não é brilhante nem memorável, mas não tenta ser. É diversão burra e fácil, e não há nada errado com isso.
Teenage dreams é um disco mediano de pop, descartável até a última molécula. Não sabe se quer ser pop ensolarado, se quer ser denso, se quer ser relevante ou descartável, sério ou divertido. Como segundo disco (alguém conta Katy Hudson, de 2001?), não capitaliza nos acertos de seu antecessor e mergulha nos erros. É passável e olhe lá.
POR: [Gerhard Brêda]
Bom
Gilberto Gil
| Retirante
Hoje é até complicado olhar para nomes respeitáveis como Gilberto Gil, Edu Lobo, Caetano Veloso e Chico Buarque e pensar "quem diria, esse pessoal já foi jovem um dia..." (quem viu Uma noite em 67, filme recém-lançado nos cinemas, e que fala do começo de carreira desse povo todo, pode ter passado por essa sensação). Em 1962, Gilberto Gil, aos 20 anos, não era apenas só um jovem com um violão. Era um estudante de Administração, que atendia pelo apelido de Beto e, candidato a músico, fazia jobs acompanhando com seu violão jingles e demais gravações, e começava a tentar emplacar suas primeiras canções em singles e 78 rpms independentes, lançados por um selo baiano chamado JS. Uma parte inicial que está agora reunida nos dois CDs de Retirante, disco que traz como raridade maior uma demo que Gil gravou em 1966 nos estúdios da editora musical Arlequim, em São Paulo, com o repertório que compôs no começo da carreira.
Em versões curtíssimas, muitas vezes nem passando dos dois minutos, Gil gravou músicas que até hoje permaneciam inéditas, como o Ninguém dá o que não tem, o samba Me diga, moço e a bossa A última coisa bonita, além de músicas que depois reapareceriam no debute Louvação (1967), como Rancho da rosa encarnada (parceria com Torquato Neto e o futuro desafeto Geraldo Vandré). O restante do repertório, que povoa o primeiro CD do set, tem pelo menos duas bizarrias. Começa com duas canções de um sujeito chamado Everaldo Guedes, que era funcionário da Petrobras: o samba Povo petroleiro, composto como jingle da empresa, e a marchinha Coça coça Lacerdinha. O repertório extraído dos primeiros singles pelo selo JS, que traziam músicas como Serenata do teleco-teco, Maria Tristeza e Meu luar, minhas canções, por sua vez, mostravam um Gil quase irreconhecível, com entonação de seresteiro em vários momentos.
A lista de canções do primeiro CD ainda chega ao período da Philips, passando pelas únicas gravações de Gil pela RCA (hoje Sony): as primeiras versões de Procissão (lembrando a do LP Louvação) e Roda (em clima indiscutivelmente sambalanço, bem mais a ver com a releitura que Elis Regina faria da canção) e a exclusiva Iemanjá, incluída apenas num LP de festival e presente em algumas compilações do baiano. O primeiro single pela gravadora que o abriu até 1977, Ensaio geral/Minha senhora também aparece no set, assim como o único registro da primeira música que Gil fez na vida, Felicidade vem depois, gravada para um single da revista O Bondinho, em 1972. Retirante traz uma história sobre a qual muita gente se acostumou a ler, mas vai ouvir pela primeira vez.
POR: [Ricardo Schott]
Regular
Close up, vol.1: Love songs
| Suzanne Vega
Não são só os artistas brasileiros que, em alguns momentos, param para regravar suas obras. A grande diferença é que, em vários casos, os gringos, mesmo que estejam sumidos da mídia, fazem isso com um pouco mais de charme e sem aporrinhar os ouvidos dos fãs com autorreleituras de araque. A americana Suzanne Vega decidiu reler sua obra em 4 CDs, cada um enfocando um lado de seu repertório - e ainda deixou de lado seus dois grandes hits, Luka e Tom s dinner, pelo fato de eles não se encaixarem no esquema de "love songs" do primeiro disco da série. No Brasil, que só a reconhece por Luka, periga muita gente deparar com o CD por aí (Close-up saiu aqui pelo pequeno selo Lab 344) e nem saber que ela tem uma obra tão consistente e numerosa assim.
Não é só por esses dois hits que Suzanne é conhecida no Brasil, a bem da verdade - Caramel e Marlenne on the wall, que estão no disco em boas versões, tocaram em FMs de perfil adulto quando de seu lançamento original. O volume 1 da série serve mais como uma boa redescoberta do que como um álbum que vá varrer o mercado. Traz as canções no esqueleto, com voz, violão, poucos acompanhantes e pouquíssimas guitarras. If you were in my movie, para os padrões do disco, conseguiu ficar soturna e suja, com vocais falados lembrando Lou Reed. Gypsy tem estrutura de canção de ninar. Small blue thing, com um pouco mais de mídia, conseguiria conquistar tantos corações quanto os maiores hits da cantora, assim como I ll never be (Your Maggie May), com levada roubada de I got a feeling, dos Beatles. Quem não gosta de sonoridades certinhas e inofensivas, deve fugir - o que o som de Suzanne tem de agridoce, tem de asséptico demais à primeira vista, pronto para adonar comerciais de empresas telefônicas e até reclames de margarina. Se não for esse o problema, vale ouvir.
POR: [Ricardo Schott]
Excelente
Vocabularies
| Bobby McFerrin
Vencedor de 10 prêmios Grammy, o virtuoso vocalista norte americano Bobby McFerrin, ficou mundialmente conhecido nos anos 80 pelo hit Don’t worry, be happy, um delicioso pop reggae, de melodia mais do que pegajosa. Entre discos feitos a capella, com apenas ele cantando todas as partes vocais e parcerias com nomes como Chick Corea e Yo Yo Mah, McFerrin sempre foi além no quesito experimentação vocal. Suas apresentações ao vivo, munido apenas de um microfone, sempre foram uma experiência mágica. Qualquer pessoas que estivesse na plateia se perguntava quantos, na verdade, estariam cantando. Contudo, as composições, em si, sempre ficaram em segundo plano, em detrimento da pirotecnia do canto. Apesar de interessantes, seus discos eram melodicamente simples, infantis (no melhor sentido do termo) e recheados de improvisos.
Vocabularies veio para mudar completamente essa história. Sem a menor sombra de dúvidas, seu trabalho mais poderoso em diversos sentidos. Um tratado sobre o poder da voz humana e talvez a melhor definição de globalização musical até hoje. O opus de Mcferrin traduz fielmente sua inquietação musical, que passeia pelo R&B, reggae, tribal, asiático, erudito e vários outros estilos musicais, com fascinante democracia.
Preso no estúdio durante mais de uma ano e meio, McFerrin, ao lado do compositor/arranjador e produtor Roger Treece, produziu sua obra prima convidando 50 dos maiores cantores do mundo para fazer o impressionante mosaico vocal que é Vocabularies. Usando mais 1.400 canais de voz, ele organizou tudo em grupos de quatro ou cinco cantores em um insano exercício de edição. O termo fusion nunca foi tão bem utilizado para classificar este projeto. Vozes do Oriente Médio casam-se com timbres da América, Europa e outros cantos do planeta e evocam o que há de melhor na música moderna e nas raízes contemporâneas. A complexidade dos ritmos e das harmonias serve de pano de fundo para as melodias sempre cativantes de Bobby. A percussão, brilhantemente executada, é dos poucos sons no disco que não saem da garganta.
Um disco que tira o fôlego da mesma forma que intriga e eleva. A música vocal tem um novo capítulo.
POR: [Paulo Loureiro]
Bom
Memphis blues
| Cyndi Lauper
Até no pop mais explícito dá pra notar a diferença dada pelos cantores dos anos 80 – década que, na verdade, não apresentou mais do que meia dúzia de boas coisas. Cyndi Lauper representou fielmente o que a foi a era de Michael Jackson e da new wave. Cores, penteados, roupas estranhas e música, bem, pop.... Era raso mas era divertido. Quem não riu com seus clipes? Girls just wanna have fun e o hino gay True colors, além é claro da ótima balada Time after time. O que pouca gente conhece é o lado blues da loura (?).
Aos 57 anos, ela acaba de lançar Memphis blues. Um disco que é a cara do nome. Blues rasgado. Sincero mesmo. Repleto de participações consagradas. Nomes como BB King, Jonnhy Lang, o gaitista Charles Musselwhite e o pianista de Nova Orleans Alain Toussaint são apenas alguns deles. O som é tosco, assim como toda a produção. Mas é aquela coisa relaxada na rédea. Mesmo assim é ótimo. A banda tocando junta no estúdio lembrando bem uma atmosfera de décadas atrás.
Até aí, nada de muito novo, muito pelo contrário. Tem-se a sensação de que o disco foi gravado em meados dos anos 50. A grande surpresa é a própria Cyndi. Absolutamente à vontade, ela comanda o show como se representasse o estilo há muito tempo. Seu timbre esganiçado, agulhativo até, junto à experiência resultaram em uma combinação bastante interessante.
Passeando por um repertório basicamente antigo (Robert Johnson, Muddy Waters), Cyndi respeita os compositores e enverniza os arranjos adicionando metais. Apesar de ser um disco de blues não padece do mal de ser repetitivo ou triste em demasia. É bastante festivo, na verdade. Assim como ela. Os temas do estilo estão lá, mas a forma como são abordados deixa o resultado mais leve. Para o fã de Cyndi, hoje no mínimo em seus quarenta, é uma boa surpresa; para o fã de blues, ótima.
POR: [Paulo Loureiro]
Bom
Trans-Continental Hustle
| Gogol Bordello
Os shows incendiários do Gogol Bordello foram, indiscutivelmente, um passaporte para o sucesso da banda mundo afora, mas sempre deixaram muita gente com um pé atrás. A acusação é de que esse “gypsy punk” ligado na tomada desvia a atenção do que realmente importa: as canções.
A questão é que Eugene Hutz e seu frondoso bigode jamais se propuseram a compor canções. O Gogol Bordello é uma banda catártica, voltada para a apresentação ao vivo, para o espetáculo no palco e nunca desmentiu ou se envergonhou disso, o que torna a tarefa de quem vos escreve um tanto difícil.
Cabe a uma banda sem canções criar uma sonoridade própria, timbres marcantes e, sobretudo, um conceito inesquecível. E nesse sentido, pode-se dizer que Trans-Continental Hustle, o terceiro disco de estúdio da banda, é um bom disco. Todos esses elementos estão aqui, com a ajuda de Rick Rubin, que mais uma vez prova seu talento.
O produtor faz com o Gogol Borddello o que já fizera antes com muitas outras bandas, como Weezer, Red Hot Chili Peppers, Beastie Boys, Slipknot, System of a Down e The Mars Volta. Ele ajuda a consolidar a sonoridade alternativa construída desde seu debute, Voi-La Intruder, de 1999, com um disco sólido e com rigor extra em transferir essa personalidade para os timbres.
Cada faixa de Trans-Continental Hustle (que, numa tradução livre significa “encontro de continentes”) transborda as referências à música folclórica do leste europeu e de diversos outros cantos do mundo. O nome sugestivo não poderia ser melhor: vemos finalmente em prática o conceito de “worldcore” com que a banda flertava nos discos anteriores, acrescentando alguns novos (e saborosos) ingredientes à mesa.
Uma menina, com trechos em português, talvez seja a faixa que melhor representa essa aposta, com uma salada interminável de influências. Dançante, ela tem cheiro do samba, forró e música de roda brasileiros nos versos; do tango argentino no interlúdio; e das danças espanholas e gregas no ritmo que embala essa mistura toda.
Já as frenéticas Pala tute, In the meantime in Pernambuco e My Companjera são prenúncios de uma interpretação caótica e tresloucada, mantendo as referências à sonoridade cigana do leste europeu e os arranjos elétricos de violino de Sergey Ryabtzev (o coroa barbudão metade caçador, metade pirata). Enquanto isso, a acelerada Immigraniada, combina letras políticas (mas leves) com levadas punk mais cruas e guitarras distorcidas.
Elas contrastam com as (relativamente) gentis When universes collide e Sun is on my side, canções (sim, canções) com melhor tratamento melódico, bons timbres e vocais que brilham na tentativa de soar suaves e que, no final das contas, soam tão rasgados, engasgados (e um tanto bêbados) quanto qualquer outra faixa mais acelerada da banda.
POR: [Philippe Noguchi]
Regular
Strict joy
| The Swell Season
O violonista irlandês Glen Hansard e a pianista checa Markéta Irglová são mais conhecidos no Brasil pela breve incursão no cinema em Apenas uma vez – musical irlandês dirigido por John Carney e estrelado pelo próprio casal – do que pela banda que tocam juntos desde então. Vencedores do Oscar de Melhor Canção Original em 2008 com Falling slowly, da trilha do filme, estão lançando no Brasil em agosto o seu segundo álbum, Strict joy, que saiu lá fora em 2009.
O disco é marcado pelo término do namoro do casal e até flerta com a melancolia inevitável, mas também traz canções otimistas. Low rising, a música de trabalho, abre o disco e é uma delas. A faixa traz arranjos suaves que realçam a voz emocional de Hansard, bom gosto nos timbres e o refrão grudento que toda boa canção romântica pop merece.
Embora a boa impressão se mantenha com Feeling the pull e The rain, outras duas canções folk honestas, a esperança por um disco brilhante vai se perdendo aos poucos conforme passam as faixas. O álbum ousa pouco melodicamente e não faz apostas nem mesmo nas faixas mais aceleradas (para não dizer “menos chatas”).
Strict joy se mantém até o fim tão monótono quanto o tom de Hansard, que raramente solta a voz. Com bons arranjos, mas sem canções boas o suficiente, é como se todo o álbum fosse composto das famosas “album fillers”, coadjuvantes que amaciam os ouvidos para os singles. High horses até ensaia uma empolgação, mas fica no quase.
POR: [Philippe Noguchi]
Bom
Música de brinquedo
| Pato Fu
Bonitinho, agradável e, o mais importante, fez meu filho de 2 anos ficar quieto por mais de meia hora e prestar atenção nas músicas enquanto andávamos de carro à noite. Acalmar as crianças será, com certeza, o principal motivo pelo qual muitos pais vão comprar Música de Brinquedo, o novo álbum do Pato Fu - e o primeiro feito pela banda mineira buscando também, por que não?, o público infantil.
Gravado quase inteiramente com instrumentos de brinquedo (muitos deles do Backyardigans - febre do momento do mercado infantil) ou miniaturas, o álbum traz diversas covers e consegue o que muitos artistas tentam e não conseguem: versões com a assinatura registrada da banda mineira. Tudo bem que ajuda muito ter um estúdio em casa, como John e Fernanda, o casal Fu, que tiveram todo o tempo do mundo para experimentar as sonoridades que pontuam Música de Brinquedo.
Com quase 20 anos de carreira e muitas experimentações no caminho, o Pato Fu dá um passo ousado em direção a outro público. Ousado porque pode perder seus fãs antigos por acharem o disco infantil demais - e não ganhar as crianças por elas acharem os arranjos do álbum muito complexos.
Entenda-se bem, Música de Brinquedo não é um disco infantil. É um disco de covers "adultas", mas gravado procurando atingir uma sonoridade descompromissada com a estética clean dos mega-lançamentos. Nas doze faixas do disco, o grupo teve a preocupação de transferir acorde por acorde, riff de guitarra por riff de guitarra, todas as notas para os intrumentos de brinquedo, dando um sopro de vitalidade em músicas já batidas no imaginário popular.
O repertório é um primor de hits radiofônicos da época de infância de John e Fernanda. Da abertura com uma linda versão de Primavera, do mestre Cassiano, ao encerramento com Love me tender, do repertório de Elvis Presley (que vrou quase uma canção de ninar), passando por Ska (Paralamas do Sucesso), Todos estão surdos (Roberto e Erasmo), Frevo mulher (Zé Ramalho), Ovelha negra (Rita Lee), Música de brinquedo tem participação de crianças em diversos momentos, o que dá uma leveza ao disco característico dos bons álbuns dedicados ao público infantil. Afinal de contas, é sempre melhor escutar Fernanda Takai e os amigos da filha do que aguentar Xuxa e Sasha, não é?
POR: [Luciano Vianna]
Muito Ruim
Euphoria
| Enrique Iglesias
Enrique Iglesias é uma espécie de Fiuk latino dos anos 90. Filho de um medalhão da música, mas já considerado meio brega, o rapaz lançou uma carreira musical de sucesso, ainda que insossa. Enquanto isso, tentava emplacar uma carreira de ator, chegando a aparecer em alguns filmes como Era uma vez no México. Não era particularmente talentoso em nenhuma das áreas, mas sempre esteve lá, disparando músicas razoáveis, como a baladinha inofensiva Hero, de 2001. Euphoria, o novo trabalho de estúdio de Iglesias, é claramente uma tentativa do cantor de voltar aos holofotes aos quais teve direito há alguns anos. E é uma obra desnecessária, patética e forçada.
Em um mundo no qual uma diva loira maluca é o parâmetro principal do pop e o maior astro masculino do gênero tem 16 anos e é canadense, o estilo "amante latino" de Iglesias já saiu de moda faz tempo. Ele parece saber disso, ao investir em parcerias equivocadas com nomões do hip-hop e r&b farofados, como Akon (One day at a time) e Usher (Dirty dancer). Até mesmo na ala em espanhol de Euphoria, Iglesias abandona suas guitarras pseudo-espanholas e mantém as mesmas bases fuleiras que usa no disco todo. O idioma muda, mas parece tudo a mesma coisa.
O primeiro single do disco, I like it é um bom estandarte de tudo o que está errado no resto. A batida é a mais pasteurizada possível e a voz única, ainda que incrivelmente irritante, de Iglesias passa por um paredão de autotune. Se fosse uma paródia do pop atual seria até engraçadinho, mas infelizmente parece sério. Quando Pitbull, o parceiro do single, surge com um rap em inglês cucaracho, a vontade de apertar o botão stop é maior que a força para continuar. E é a música que abre o disco. Quem se aventurar no resto, vai encontrar algumas baladinhas medíocres, como Heartbeat e Heartbreaker e, de resto, músicas de pista com batidas cansativas, que encontram seu ponto mais baixo em Everything is gonna be alright.
Nas temáticas, ou romances genéricos ou baladas intensas, com mulheres baratas. Nas letras, pelo visto, Iglesias ainda vive a ilusão do amante latino, o sonho das mulheres em relacionamentos apáticos de primeiro mundo, que aparece com um carro conversível, algumas centenas de dólares e a promessa de aventuras.
Euphoria é um disco alienígena dentro do pop. Parece alguém observando, de fora, o que faz sucesso - e tentando imitar. Ao mesmo tempo, tem um ranço forte de algumas modas que morreram nos anos 90 e jamais foram exumadas. O disco traz, além de músicas medíocres, a figura trágica do amante latino castrado pelo autotune. Algumas coisas são piores do que a morte.
POR: [Gerhard Brêda]
Bom
Time flies - 1994-2009
| Oasis
Que o Oasis deixa saudades, poucos duvidam - e muitos, muitos mesmo, têm certeza. Misturando Beatles, Rolling Stones, Smiths e o lado bêbado e porradeiro do glam rock (Moot The Hoople, Slade) em doses desiguais, os irmãos Gallagher foram roqueiros britânicos dos anos 90 que não se prenderam às amarras conceituais do termo brit pop. Em 15 anos de carreira discográfica, conseguiram mais do que fãs. Conseguiram torcedores - chegando a se tornar clichê falar do "apelo de futebol" que envolvia os shows e todo o marketing do grupo.
Na coletânea Time flies, além dos hits, dão aos admiradores a chance de se enxergarem na história do grupo, como um espelho - em termos de interatividade, é algo que nenhuma grande banda de década nenhuma da história do rock mundial já fez. Cada canção é acompanhada de depoimentos dos fãs, incluindo alguns brasileiros. O próprio disco ganha frases escritas pelos seguidores da banda, na apresentação. Em vez de fotos dos irmãos Gallagher e de seus acompanhantes, clicadíssimos durante todos os anos de carreira da banda, aparecem imagens deles mesmos, os fãs, em delírio durante a execução de muitas canções do CD duplo: Supersonic, Roll with it, Live forever, Wonderwall, o decalque total de Beatles All around the world, Lyla e hinos politicamente incorretos como Cigarettes & alcohol. Um disco para ouvir e guardar, mesmo diante dos momentos em que o Oasis não foi tão grande - Falling down, Go let it out e algumas poucas outras.
POR: [Ricardo Schott]
Bom
The place we ran from
| Tired Pony
Quando Gary Lightbody, vocalista da banda Snow Patrol, disse que o Tired Pony, seu projeto voltado para a música country e para o folk (que divide com músicos como Peter Buck, guitarrista do R.E.M.), tinha lançado um disco do qual "pingava sangue", não estava brincando. The place we ran from não é das experiências mais alegres - e pode se tornar repetitivo aos ouvidos de muita gente, graças a canções melancólicas e circulares como Northwestern skies, ou a quase mântrica Get on the road, com Zooey Deschanel nos vocais. Boa parte do álbum não é formada por canções formais de amor ou desamor e soa como se coletasse vários sentimentos em poucas estrofes - em Get... versos que soariam românticos postam-se ao lado de outros como "a verdade é como um soco, ou dois".
Country ou folk não são definições tranquilas para o disco - embora possam caber em canções tranquilas e radiofônicas como Dead american writers, ou em faixas tristes como That silver necklace. Alguns momentos de The place... resolvem-se não na placidez, mas na combinação de sons acústicos, bandolins, algumas guitarras e uma discreta parede de ruídos e efeitos. Como em The deepest ocean there is, cinco minutos de violões, slide guitars e piano encerrados com segundos de barulho.
Em boa parte do disco, os violões são esfregados na cara do ouvinte e ganham peso. Held in the arms of your words soa como os momentos mais calmos do rock oitentista - uma linhagem que inclui Smiths e até Echo & the Bunnymen, banda cujo Ocean rain (1984) parece ter ensinado muito ao estilo caixa-de-surpresas do Tired Pony. I am a landslide tem estrutura roqueira, mas soa confortável apenas com violões, acordeão, percussão e uma discreta guitarra. The place we ran from é uma boa estreia e vai fazer muita gente passar a prestar atenção até no Snow Patrol.
POR: [Ricardo Schott]
Bom
Symphonicities
| Sting
Uma trajetória, no mínimo, brilhante. Autor de 99% das músicas de uma das mais influentes bandas pop de todos os tempos e dono de uma carreira repleta de grandes discos (não todos, claro), Sting se rendeu ao formato orquestra, que vários de seus contemporâneos também abraçaram na última década. Com exceção de Joni Mitchell e seu divino Both sides now e Peter Gabriel em Scratch my back, a grande maioria pecou pela obviedade. E por rever, pela enésima vez, os hits de carreira, sem acrescentar novidades. Em Symphonicities, Sting desaponta com algumas escolhas do naipe de Roxanne ou Every little thing she does is magic - músicas que já foram revisitadas dezenas de vezes, por ele mesmo e por vários outros artistas. Em compensação, nos brinda com boas versões de We work the black seam e a linda I burn for you. Destaque também para When we dance, com sensível arranjo de cordas.
Acompanhado pela Royal Philarmonic Orchestra, Sting não precisa mais provar que é um ótimo cantor e intérprete, mesmo revendo seus velhos sucessos em roupagens eruditas. Trabalhando em região mais grave, mas sem perder a intensidade, deixou que vários elementos de seus arranjos originais permanecessem intactos através de sons de clarinetes, violinos, flautas e oboés. Nada, porém é de extrema genialidade. Grandiosos, mas não ao ponto de serem incensados. O poder de suas melodias é o que conta.
Sting não é do time de artistas pop super bem sucedidos, que precisaria fazer um disco orquestral de suas próprias canções para provar algo de mais “artístico” em sua trajetória. Ele já fez discos cantarolando poemas medievais com alaúdes ao fundo (o chatíssimo Songs from the labirynth) e, logo em seguida atacou com um álbum natalino (If on a winter’s night...) que, apesar de melhor, não pedia uma segunda ou terceira audição.
Symphonicities está longe de ser um trabalho comparável ao que ele fez com o The Police ou até mesmo no início de sua carreira solo mas, não é fake. Ele se encaixa bem em muitos formatos: trio, quarteto, big band e orquestra. Esperemos pois, um disco de inéditas para que tudo volte a normalidade e possamos, quem sabe, ter alguma nova King of pain no futuro.
POR: [Paulo Loureiro]
Bom
Recovery
| Eminem
Depois de escorregar com o mediano Relapse em 2009 e seu relançamento Relapse: Refil em 2010, Eminem parece ter guardado o seu melhor para Recovery, que chega poucos meses depois. Criativo, o rapper volta à velha forma, embora flerte menos com outros gêneros. O disco é mais urbano e cru, traz menos samplers e instrumentos diferencidos. Os arranjos, mais simples, estão melhores, trabalhando com o feijão com arroz: guitarras, baixo e teclado.
As faixas temáticas, que tanto incomodavam em Relapse, aparecem menos em Recovery, o que não diminui o apelo pop. Correndo na direção oposta, há uma melhora visível no delivery do rapper, que andava meio mal das pernas. Eminem volta mais vigoroso e incisivo, principalmente nas faixas com refrão cantado, onde costuma deslizar. Provas disso são a melancólica Going through changes (com samples do jovem Ozzy Osbourne) e a excelente Won’t back down (com refrões cantados por Pink), embalada por uma cozinha roqueira.
Seguindo o padrão não declarado mas recorrente do rap, o principal single do disco, Not afraid, é uma das faixas mais fracas, com um refrão grudento terrível e musicalidade zero. O que falta na faixa, sobra em Untitled (Here we go), com uma batida pop irresistível, letras ácidas e um delivery rápido do rapper, que lembra seus primeiros hits.
Untitled:
POR: [Philippe Noguchi]
Regular
To be loved: The best of Papa Roach
| Papa Roach
Quem vê movimentos como o tal do happy rock deve morrer de saudades da época (criticadíssima, afirme-se em letras garrafais) em que a bola da vez era um tal de "nu metal", tão soberbo em relação às suas grandes influências que mal queria ser confundido com os metaleiros de verdade - mas bem mais descerebrado, adolescente e misógino. O Papa Roach, cruzando rap, sons pesados e farofices, é o representante mediano da facção, que ainda inclui dois bons nomes (Linkin Park e Incubus) e uma das bandas mais repetitivas e pentelhas da história do rock (o Limp Bizkit).
A coletânea To be loved reúne sucessos do Papa Roach, misturados a versões acústicas e uma inédita, Just go (Never look back). O disco foi lançado à revelia do grupo, que prepara um álbum de inéditas, Time for annihilation, a sair em agosto. Os músicos chegaram a recomendar aos fãs que esperassem pelo disco novo e não comprassem a compilação, editada por sua antiga gravadora, a Interscope, da qual nem podem ouvir falar. Quem levar o disco para casa, vai descobrir - ou redescobrir - ótimos momentos na trajetória da banda, como os singles Last resort, She loves me not, Time & time again e a recente Hollywood whore, sempre naquela linha de macheza & choradeira que abriu a porta para uma dezena de bandas emo. São tão boas que não havia necessidade de emporcalhar o disco com as versões desplugadas dos hits Had enough, Forever e Scars. Mas a verdade mesmo é que, afora os grandes hits, a discografia do Papa Roach nunca passou do regular.
POR: [Ricardo Schott]
Regular
Aphrodite
| Kylie Minogue
Kylie Minogue explodiu com o mega hit Can’t get you out of my head, mas isso já faz alguns verões. A moça, desde então, não emplaca mais nada nesse nível e Aphrodite, por mais que seja um disco de pop de festa, divertido, não vai mudar isso.
Aphrodite é um disco esquisito. Em uma pista de dança, ele seria um sucesso, suas batidas são feitas para chacoalhar o esqueleto. Mas em casa, numa primeira audição, soa repetitivo demais, chato. Os tecladinhos se misturam e formam uma grande massa sonora, um disco de uma música só. Falta refrão.
Bem, não é bem assim. O problema é que Aphrodite é um pop sofisticado demais para grudar de primeira, mas sofisticado de menos para ser relevante. Enquanto Lady Gaga te bota cantando Telephone por três dias e marca Poker face na sua vida para sempre – mesmo a contragosto – Kylie não consegue fazer o mesmo. Suas músicas não têm potência o bastante embaixo do motor para se tornarem relevantes. Ainda mais se considerar as faixas encheção de linguiça, como a dobradinha Too much e a chata Cupid love.
Isso não quer dizer que o disco não tenha hits. All the lovers abre muito bem o disco, mesmo que acabe dando o tom da repetição que vem a seguir. Os riffs seguem divertidos, simpáticos, mas nunca relevantes, tropeçando até Aphrodite, a faixa título, cujo refrão é um dos melhores do disco. As pretensões orquestradas de Illusion soam bizarras ao lado do tecladinho à la Love generation, do Bob Sinclar.
Kylie Minogue entrega um pop bom, ainda que repetitivo, em um mundo desejoso de divas R’n’B ou loiras platinadas e fashionistas com hits fáceis de se absorver. Fora das pistas de dança, não existe muito espaço para Aphrodite.
POR: [Gerhard Brêda]
Bom
Night work
| Scissor Sisters
Antes, uma decepção, e só essa: o primeiro single do terceiro álbum dos SS, Fire with fire, não é um cartão de visitas dos melhores. É uma baladinha dançante, ok, mas bem mais triste, para baixo, do que os exocets disparados pela banda em discos anteriores. E ainda mais se comparada a I don t feel like dancing, de Ta-dah (2006), segundo álbum. A canção esconde que Night work é, e fato, uma obra noturna dos Scissor Sisters, o álbum em que o mix de glam rock, electro, brilho e decadência do grupo aparece melhor resolvido. Jake Shears (piano, guitarra, vocais), Babydaddy (baixo), Ana Matronic (vocais, teclados), Del Marquis (baixo, guitarra) e Randy Real (bateria) acharam um caminho próprio em meio às picadas abertas nos dois lançamentos anteriores, que apontavam para flertes estranhos entre rock e sons eletrônicos (como a cover de Comfortably numb, do Pink Floyd) e tons disco-rock herdados dos Bee Gees. Tudo isso continua lá - Any which way poderia estar na trilha de Os embalos de sábado à noite, por exemplo - mas com a cara do grupo.
Trazendo colaborações do DJ Stuart Price - acostumado a trabalhos com Madonna e Kylie Minogue - Night work tem lá suas quedas para a marginalidade. Há sexo, referenciado por gírias e detalhes sacanas, em boa parte das canções, como Skin this cat e A whole new way - ou, em especial, Sex and violence. Referências a drogas pipocam aqui e lá. A divina decadência associada ao glam rock bate ponto em Running out e no estilo de vida fora-da-lei da faixa-título. Eletronices herdadas do tecnopop oitentista surgem em canções como Skin this cat e Skin tight, que nada devem a alguns dos melhores hits da época. O que poderia ter sido um registro conturbado, marcado pelas hesitações da banda - que chegou a descartar um disco quase inteiro, já gravado - virou um bom CD de festa.
POR: [Ricardo Schott]
Bom
Hellbilly de luxe 2
| Rob Zombie
Com apenas quatro discos solo lançados em mais de dez anos (o primeiro Hellbilly deluxe, seu debute após deixar a banda White Zombie, chegou às lojas em 1998), o americano Rob Zombie estava, nos últimos tempos, sendo mais citado em sites de cinema do que em veículos de música. Sua produção como diretor de filmes de horror vem angariando fãs. E também vem assustando críticos - mas não da forma que, provavelmente, Zombie gostaria de fazer. Em Hellbilly..., volta ao que sabe fazer de melhor e, à sua maneira, promove espetáculos de horror em disco, com direito a trechos de clássicos da podridão cinematográfica entre as faixas.
O som, na medida para agradar os fãs do cara, volta a ser uma maçaroca de hard rock, pré-punk e metal industrial. Tem riffs e refrões decoráveis e cantaroláveis à moda do AC/DC, em faixas como Mars needs women, Jesus Frankenstein e Dream to exist. Chega perto do nu-metal em canções gélidas como Burn. E instaura clima punk na gozadora Werewolf women of the SS - referência a um trailer dirigido pelo próprio Zombie, que aparece no filme Grindhouse (2007), de Quentin Tarantino e Robert Rodriguez. O lado mais aterrador (mas sempre de brincadeira) fica por conta de faixas como Virgin witch e o épico de nove minutos The man who laughs, que encerra o disco.
POR: [Ricardo Schott]
Bom
Minha história
| Amado Batista
Não confunda Amado Batista com Reginaldo Rossi: se você chegar para o cantor nascido na cidade goiana de Catalão e chamá-lo de "rei do brega", ele vai ficar puto. Acha o termo desrespeitoso para com seu público. Responsável por alguns dos bons momentos da legítima música pop do brasil, ele tem sua carreira dissecada agora nesta caixa de 4 CDs lançada pela Som Livre, que coleta músicas lançadas originalmente pela Continental (hoje Warner) e Sony Music.
O mundo de Amado Batista é o da música popularzona sem filtro. Intérprete do dramalhão boca-do-lixo Filho proibido e da machista ao extremo O julgamento (na qual um caso de amor e traição é resolvido à bala), torna difícil imaginar um Caetano Veloso, uma Marisa Monte ou mesmo um Moska a alçá-lo ao status de MPB - como já aconteceu com Peninha e Odair José, que gravavam pela Philips nos anos 70 e tiveram a sorte de contar com nomões dos estúdios nacionais nos bastidores de seus discos.
Em boa parte de sua carreira, Amado não teve gravadoras grandes a apoiá-lo, e nem mesmo a contratação pela BMG (hoje Sony) nos anos 90 fez com que ele fosse beneficiado pelo reposicionamento da música sertaneja nos corações e nas mentes do público classe A. Acontece que, presente ou não nos grandes esquemas, trata-se de um cara que já conquistou discos de ouro, platina e diamante com fonogramas como Vem, morena, Casamento forçado (triste canção falando de um parto e da consequente morte da mãe), Vitamina e cura, Desisto, O pobretão e outras do mesmo naipe. Quem foi adolescente nos anos 80 consegue perfeitamente imaginar as dançarinas do Bolinha ou do Programa Barros de Alencar fazendo dancinhas em torno dessas e de outras músicas, o que já diz tudo. Mas, definitivamente, não é som para festa brega. Aqui, o buraco é um pouco mais embaixo.
POR: [Ricardo Schott]
Excelente
The imagine project
| Herbie Hancock e convidados
O mundo do jazz ficou pequeno para o pianista, compositor, arranjador e produtor americano Herbie Hancock há muito tempo. Após ingressar na banda de Miles Davis aos 22 anos, não parou mais de experimentar e abrir os caminhos da música contemporânea. A cada lançamento, uma surpresa, seja no repertório, seja nas diretrizes que sua sempre criativa mente musical gosta de nos levar. Ele começou esta nova fase com Possibilities, um apanhado de canções pop/rock e que contava com participações que foram de John Mayer a Annie Lennox. Neste The imagine project, Herbie dá a volta ao mundo em um dos projetos mais globalizados dos últimos tempos.
A viagem começa com Seal, Pink (a própria), Jeff Beck, India Aire, Konomo n.1 e Oumou Sangare entoando o hino Imagine. Assim como várias outras faixas do disco, Herbie promove uma festa étnica no arranjos. Uma bela introdução de piano e voz, dá lugar a um vigoroso batuque africano, sob a força de percussões e vocais tribais. A festa segue com Don t give up, a linda balada de Peter Gabriel que aqui teve Pink para substituir Kate Bush e John Legend no lugar de Gabriel. Apesar da discrepância tímbrica, o resultado é bastante interessante e mostra um outro lado da cantora norte americana.
A grande surpresa do disco é a participação da cantora brasileira Céu, que participa da faixa Tempo de amor, conseguindo com isso um enorme destaque na sua já bem sucedida carreira internacional. Apesar das camas de teclados e da produção detalhada, a execução é clara, vívida. Herbie é um dos maiores pianistas vivos de jazz e não economiza seu talento nesta área. Além, é claro de demonstrar toda sua generosidade para com seus convidados instrumentistas.
O que mais chama a atenção em The imagine..., é a capacidade de Herbie em organizar estilos aparentemente opostos em um colorido mosaico de dinâmicas e improvisação. Coisa que só alguém prestes a completar 70 anos de vida e que já possui mais de 50 de carreira seria capaz de conseguir. Entre os outros convidados estão Dave Mathews, Anoushka Shankar, The Chieftains, Juanes, Derek Trucks, Susan Tedeschi, Chaka Khan, K Naan, Wayne Shorter, James Morrison e Lisa Hannigan. Um disco de descobertas e conscientizações musicais e humanas. E é claro que também é uma boa porta de entrada para o vastíssimo universo musical de Herbie Hancock.
POR: [Paulo Loureiro]
Excelente
Pra gente fazer mais um samba
| Wilson das Neves
Até a Teresa Cristina, a Roberta Sá, o Diogo Nogueira, o Pedro Miranda, o Marcos Sacramento, o Moyseis Marques, o Casuarina, hão de concordar que o samba do "professor" Wilson das Neves é outro nível. A nova geração do gênero no Rio, apontada principalmente como cria recente da Lapa, tem lá sucessos particulares em seus CDs. Mas, na hora de segurar seus shows, o que se vê muito comumente nos set lists - no boêmio bairro carioca ou além - é a busca ao repertório de canções já alçadas ao status de clássicas. É difícil, de uns tempos para cá, um nome do samba cometer um disco bom, interessante e relevante do início ao fim. Há tempos não era lançado um desses, mas Wilson das Neves fez, em Pra gente fazer mais um samba.
Do novo público jovem atraído pelo samba, tanto lapeiro quanto da Zona Sul, principalmente, Das Neves vinha se aproximando através da Orquestra Imperial, da qual é integrante. No show da moçada capitaneada por Kassin e Berna Ceppas, o veterano promove alguns dos momentos altos com seu repertório. No único CD da big band, é dele a coautoria (com o hoje ex-integrante Max Sette) da ótima Era bom (“Era bom pintar aquele sexo / consumir nossa energia / viajando pelos 7 cantos / descobrindo a filosofia”). Este novo lançamento solo é atemporal, para apreciadores de todas as idades, da abertura com a música homônima à faixa 13, Velha Guarda do Império.
O mestre, carteirinha 001 da banda de Chico Buarque (que costuma dizer que não é Wilson quem toca para ele - ele, Chico, é quem canta para o baterista), um dos grandes nomes da bateria no Brasil, se dá ao luxo de passar as baquetas para outro fera, André Tandeta. Tira onda de cantor e compositor. João Carlos Rebouças (piano), Vitor Santos (trombone), Don Chacal (percussão), Zé carlos "Bigorna" (saxofone), Zé Luiz Maia (baixo), Jorge Helder (violão) e Claudio Jorge (violão) completam o time de feras que gravaram no disco. E nas palavras musicadas e cantadas por Wilson das Neves não tem blá-blá-blá. Dez coassinadas com Paulo César Pinheiro e, como se não bastasse, outras parcerias com ninguém menos que Arlindo Cruz, Nei Lopes. Luxo. “Ô sorte!’. É outro nível.
POR: [Leandro Souto Maior]
Bom
The Drums
| The Drums
Bandas como Smiths e Joy Divison são citadas como influências do grupo novaiorquino The Drums, grande destaque da edição 2010 de Glastonbury - mas, vale avisar, o som do quarteto de Jonathan Pierce (vocais), Jacob Graham (guitarra), Adam Kessler (guitarra) e Connor Hanwick (bateria), é bem mais alegre do que esses dois nomes podem fazer supor. É quase surf music, mas para surfistas que encaram as ondas em dias nublados. Nas 12 faixas da estreia da banda, lançada em junho, tem de tudo: referências a Beach Boys (coraizinhos desafinados que lembram o grupo despontam no CD), Cure (confira a bela Book of stories), coisas recentes como Franz Ferdinand e Strokes e até a pancaria punk do Agent Orange. Completando o clima, a qualidade de gravação é a mais retrô possível, como se tivesse sido feita em algum selo independente do começo dos anos 80. Soa esparsa, cheia de reverbs nos vocais e com aquele barulho de "caixa de fósforos" na bateria, típico dos álbuns registrados em 1980 ou 1981. E complementa-se com um detalhe: não há baixo. Os riffs mais graves são feitos por outra guitarra.
Uma escutada com mais atenção nas letras revela que a ideia do grupo é misturar climas ensolarados nas melodias - no melhor estilo "som para acordar" - com letras agridoces, ou tristes mesmo. Que podem falar da morte de um amigo (Best friend), de amores mal resolvidos (Me on the moon) ou caírem no romantismo exagerado (em Down by the water, com sua melodia meio anos 50). It will all end in tears, cujo nome já diz tudo, é surfística na medida que o Jesus & Mary Chain, em meio a névoas, também tinha lá seus ataques de banda de surf music. We tried, com sua bela melodia, mantém o lado punk no riff intermitente, meio desafinado, que corta boa parte da canção. Enfim, ouça feliz.
POR: [Ricardo Schott]
Excelente
Easy Star Lonely Hearts Dub Band
| Easy Star All Stars
Lançado já há algum tempo (saiu em abril de 2009 e agora chega às lojas brasileiras), o terceiro disco do coletivo Easy Star All Stars, que reúne artistas do selo novaiorquino de reggae Easy Star, é o álbum mais bem resolvido dos já lançados pela gravadora. Antes, os reggaeiros do selo - que se juntaram em 1997 para serem a banda de estúdio do Easy Star - já haviam lançado o Dub side of the moon (2003), brincadeira dub-reggae com o clássico The dark side of the moon, do Pink Floyd, e, depois, Radiodread (2006), tributo a OK Computer, do Radiohead. Em todos os tributos, a ideia é cavar o lado reggae, colorido e inusitado dos homenageados. Assim, Time, do PF, virou um reggae-raggamuffin, enquanto No surprises, do Radiohead, virou um hino homeless. Dessa vez, não deu outra: a festa original dos Beatles - banda que, só para ilustrar, era idolatrada por Bob Marley, fanático pelo álbum Revolver (1966) - virou quase brinquedo nas mãos dos comandantes Michael Goldwasser, Eric Smith e Lem Oppenheimer, donos da gravadora. E dos músicos que participaram.
Há muito soul, de modo geral, nas canções dos Beatles - e não deve ter sido tarefa complicada extrair isso de músicas como a faixa-título (na voz de Junior Jazz), With a little help from my friends (com Luciano) e até de músicas cujos originais não eram exatamente um primor de alegria, como She s leaving home (que virou um skazinho na bela voz de Kirsty Rock). Como dub e psicodelia são irmãos, a faceta vertiginosa do disco fica por conta da relaxada versão roots de Being for the benefit of Mr. kite! (com Ranking Roger, que ainda inseriu um ragga no novo arranjo), do amálgama Bob Marley-Paul McCartney de When I m sixty four (com Sugar Minnott) e no sinuoso toasting em cima de Lovely Rita (com a dupla de veteranos Bunny Rugs, do Third World, e U-Roy). E vale citar que Within you without you virou um reggae lisérgico e meditativo nas mãos de Matisyahu, rapper-reggaeman judeu que esteve no Brasil recentemente. Tudo isso, como a capa informa, sem nenhum sample do original dos Beatles. Pode dar de presente para qualquer beatlemaníaco.
POR: [Ricardo Schott]
Regular
Impressions
| Claudio Roditi
Radicado nos EUA há muito, mas muito tempo, o trompetista carioca Claudio Roditi teve lá suas (poucas) relações com o pop nacional antes de se mandar de vez para uma terra em que seu jazz-samba, repleto de toques latinos, seria mais ouvido. A canção pop Teletema, feita pela dupla Antonio Adolfo e Tibério Gaspar, encerrou a trilha da antiga novela global Véu de noiva (1970) numa releitura instrumental feita por ele. Seu tema Tributo a Booker Pitman encerrou o álbum de estreia de Tim Maia, do mesmo ano. Dez anos antes, trabalhou com o músico cujo som criou os pilares do que depois se conheceu como samba-rock, ou soul brasileiro, Ed Lincoln. Já fora do Brasil, tocou com nomes como Dizzy Gillespie e Paquito D Rivera, e gravou álbuns próprios.
Impressions, gravado no Rio com músicos cariocas, lançado nos EUA pelo selo Sunnyside em 2006 e só agora descoberto aqui pelo selo Biscoito Fino, pode ser ouvido de duas formas. A primeira e mais óbvia é a redescoberta do som de Roditi, que com nomes como Sergio Barroso (baixo) e Pascoal Meireles (bateria), transforma em samba temas de John Coltrane (Moment s notice, Giant steps), Johny Mercer (Come rain or come shine), Kurt Weil (Speak low) e os mistura a composições próprias (Bossa do Brooklyn e The monster and the flower, parceria com o guitarrista Ricardo Silveira) e até a um clássico de João Donato, A rã. A segunda é a de que mesmo um som excepcional como o de Roditi, hoje, é mais comum do que o eram as notas de R$ 1 há poucos anos. Uma voltinha pelo Rio já faz qualquer espectador dar de cara com propostas sonoras parecidas em montes de bares - e, não por acaso, o encarte ilustra isso com um agradecimento em letras garrafais à loja-palco Modern Sound, casa pela qual passam quase todos os músicos de jazz cariocas. Um investimento maior em composições próprias e menor numa faceta "o jazz encontra o Rio" poderia dar cabo disso.
POR: [Ricardo Schott]
Regular
To the sea
| Jack Johnson
Jack Johnson não vende música. Vende estilo. Um cantor havaiano, surfista, boa-pinta, consciente ecologicamente (seu disco tem a capa, em digipack, toda feita em papel reciclado, e até a gravação, em seu próprio estúdio, foi feita de acordo com preceitos ambientais), que faz músicas prontas para serem tocadas em luaus à beira da praia... Enfim, em tempos de vagas discográficas magérrimas, melhor oferecer alguma coisa a mais. Só que, para quem ouve, em casa, sem se preocupar com quantas árvores foram derrubadas para se fazer um encarte de CD, a coisa não funciona desse jeito. To the sea, quinto disco de Johnson, sofre do mesmo pecado dos anteriores: excesso de regularidade, pouca ousadia. Falta de maldade, diria alguém mais exaltado.
O novo lançamento do bardo violeiro é o típico disco que "funciona". Funciona como trilha sonora nas mais diversas ocasiões: em churrasco de família, em reunião de ex-colegas de faculdade, numa festinha descolada para poucas pessoas, para levar uma menina para conhecer "a coleção de discos" no apartamento. Dá certo até como fundo musical para outras situações menos gloriosas do dia-a-dia, como fazer faxina ou lavar cuecas. Para ouvir na quietude do lar, é outra história. Boas canções como o hit You and your heart, o rock nostálgico At ot with me (cuja letra, com refrões como "nunca sei se estão rindo comigo ou de mim", é uma comédia romântica pronta para ser filmada) e o reggae acústico Turn your love são atropeladas pela placidez algo excessiva do disco. O bom soft rock My little girl lembra que boa parte das músicas no mesmo estilo que eram feitas nos anos 70 (por James Taylor, Carly Simon, etc) eram boas porque , mesmo sendo acústicas, fugiam da bundamolice acrescentando influências diversas e uma pitada da tal vá lá, maldade - enfim, mesmo sendo legal, falta algo. E o mesmo se estende a todo o CD.
POR: [Ricardo Schott]
Regular
Diamond eyes
| Deftones
Em seu nono álbum de estúdio, o Deftones faz jus a sua fama de uma das bandas menos limitadas do heavy metal e levantam a bandeira de um metal alternativo. Diamond eyes é um disco de riffs pesados e algumas levadas criativas que ameaça cair nos clichês do gênero, mas eventualmente consegue escapar das ciladas com injeções de pop.
No geral, o som do Deftones é pesado, com distorções no talo e a bateria esmurrada, mas a banda sabe viajar entre outros estilos. Em Beauty school, Chino Moreno e sua trupe (sem o baixista Chi Cheng, ainda em recuperação após um grave acidente automobilístico em 2008) emulam uma espécie de 30 Seconds to Mars com infusões de testosterona, afastando as peripécias teatrais e emo da banda de Jared Leto.
O disco carrega uma similaridade com o Smashing Pumpkins de Mellon Collie & infinite sadness. Em Mellon Collie, Billy Corgan alternava músicas leves como To forgive com faixas cruas e pesadas como Zero. Em Diamond eyes, o Deftones alterna a surpreendente balada Sextape com uma faixa que parece extraída de um disco do Korn, CMND/CTRL. E por vezes, a alternância de peso com sensibilidade acontece dentro da própria música, mostrando que o Deftones sabe as ciladas do metal e, mais importante, sabe evitá-las. Um exemplo disso é Rocket skates, com vocais berrados, praticamente guinchados, mas com um refrão menos pesado.
O maior mérito do disco é a faixa título, Diamond eyes, cujo refrão tem uma das levadas de bateria mais interessantes, especialmente quando combinadas com a métrica adotada por Moreno. É uma música que não tem ranço de heavy metal enlatado. É pesado, mas sem deixar o peso absorver qualquer criatividade.
No geral, Diamond eyes é um disco meio repetitivo. As músicas acabam se misturando, muitos riffs parecem reciclados, mesmo com o esforço homérico de Moreno em diversificar seus vocais. O disco é feito para os headbangers que tem cabeça aberta o bastante para abraçar alguma experimentação em outros campos do rock, mas quem não curte guitarras pesadas deve passar longe.
POR: [Gerhard Brêda]
Fraco
Tear the world down
| We Are The Fallen
Tear the world down é o debute desta banda americana de heavy metal formada por ex-integrantes do Evanescence (os guitarristas Ben Moody e John LeCompt e o baterista Rocky Gray), Marty O’Brien (ex-Disturbed e Static-X), e pela finalista do American Idol 7, Carly Smithson, uma irlandesa de voz poderosa que a cada edição do reality deixava os jurados pasmos com seu alcance vocal.
A primeira coisa que chama a atenção na primeira faixa lançada pela banda – além do nome mega soturno, Bury me alive – é a semelhança dos vocais de Carly com sua "antecessora", Amy. Isso aparece nos timbres e, sobretudo, nos arranjos, que já denunciam falta de intenção da banda em ousar com a nova vocalista. Como single, Bury me alive deixa claro que não estamos diante de uma nova personalidade. E sim de uma reprodução, de algo já disseminado.
Carly dá uma aula de técnica vocal na faixa, com uma interpretação perfeita para o estilo introduzido no mainstream por Amy - a quem foi muito comparada no American Idol. Mas, no instrumental, a banda abusa excessivamente das fórmulas que tornaram o Evanescence um sucesso para esse nicho de fãs de metal. Tem, por exemplo, os manjados versos em arpejos suaves e refrãos explodindo em distorções de guitarra.
O disco segue com mais do mesmo: não traz novidade alguma nos arranjos de teclado e nos sintetizadores, instrumentos geralmente mal explorados pelas bandas de metal, que exageram na tentativa de conferir o famoso "ar épico" às canções. Brega, a banda erra ainda nas letras: genéricas, com os dilemas existencias sombrios que já conhecemos. Em síntese, um disco que, carente de bons refrões e personalidade, não empolga.
POR: [Philippe Noguchi]
Fraco
Das Kapital
| Capital Inicial
Façamos justiça: o Capital Inicial é, entre seus contemporâneos, "o" grupo que conseguiu cruzar os anos ainda sendo relevante às novas gerações. O rosto do vocalista Dinho Ouro Preto, nas fotos da capa e encarte, impressiona - não é clichê afirmar que, para ele, o tempo parece não ter passado. E, de fato, ele nasceu de novo, depois do tombo violento que levou num palco e, pior, das complicações no hospital. Não à toa, a faixa de abertura do disco da retomada das atividades depois da fatalidade, Das Kapital, chama-se Ressurreição.
Tinha tudo para dar errado, e meio que deu mesmo. Tirando o louvável fato da sobrevida da banda, não há ali entre as faixas de Das Kapital (que título é esse?) algo relevante, como a leva de canções que os ressuscitou (opa) na década de 90. E, muito menos, algo perto do brilhante debute homônimo de 1986. Os versos atuais causam vergonha alheia - e as letras, na verdade, salvo as contribuições herdadas de Renato Russo (Fátima, Música urbana), nunca foram o ponto forte do grupo.
Como que querendo ainda manter-se sob o efeito da fonte da juventude – os irmãos Lemos, que não tiveram a sorte genética de ter as rugas naturalmente dichavadas como Dinho, estão sempre de chapéu ou meio escondidos - o grupo opta por uma estética no estilo "moderninha" ou "computadorizada" na apresentação gráfica do lançamento, e anuncia no encarte que podem ser encontrados no mundo virtual em site, Twitter, Facebook, Flickr, YouTube, Orkut e MySpace. Para quem não alcança relevância nas canções, o caminho é tentar ficar onipresente de outras formas. Das Kapital é um disco para ser esquecido.
POR: [Leandro Souto Maior]
Fraco
Bionic
| Christina Aguilera
Talvez já bastasse uma Lady Gaga para falar sobre sexo, na linguagem pop futurista. Christina Aguilera já havia versado sobre muitas saliências em Dirrty, single que marcou sua transformação de ídolo teen em femme fatale - no álbum Stripped, de 2002. Apesar de bastante apimentado, tinha conteúdo musical. Disse ao mundo que Christina era a melhor cantora pop de sua geração. E abriu os olhos de produtores e músicos de renome (vide Herbie Hancock) para o seu talento.
Em Bionic, ela exagera em vários aspectos, menos na qualidade. Amontoa melodias lineares e robóticas, mascaradas com arranjos frios e desinteressantes. Toda a primeira parte do disco é assim: um apanhado de experimentações inócuas calcadas em programações e vocais adulterados. E nem seria preciso, pois a menina sabe cantar. A coisa melhora lá pelo meio, no charm Sex for breakfast, que continua insinuante, mas mata um pouco a saudade da voz da loura.
Não há dúvidas que alguns dos bate estacas de Bionic podem ser hits de pistas pelo mundo. E que, pelo clip do primeiro single, Not myself tonight, ainda vem muita polêmica por aí. O fato é que Christina ainda está adolescente, mesmo que somente na cabeça. Suas habilidades vocais, pelo menos em 80% do disco, foram desperdiçadas em prol de músicas chatas.
E as letras? Rimas de yuhuuus com yuppis, bananas com bananas e outras riquezas. E, quando não abordam sexo, noitadas com amigas e bebedeiras, o assunto é a própria Christina e seu espelho, como em Vanity (“It’s me I adore”).
O lado camaleônico de Christina sempre foi uma característica positiva em sua carreira. Para um quarto álbum, até que ela foi bem longe, estilisticamente. Mas a ex-modelinho teen - que já colocou calça de couro e chicote, deu um pulo nos anos 40 para se inspirar e voltou para a cama - não pode se esquecer de que envelhece. E que seu público também o faz.
POR: [Paulo Loureiro]
Bom
Sea of cowards
| The Dead Weather
Menos de um ano depois de Horehound, Jack White e seus comparsas do The Dead Weather lançam Sea of cowards. Mais um baita disco da nova fase pós-White Stripes de White, que solidifica ainda mais sua reputação como um dos mais prolíficos e criativos compositores e produtores americanos. Mantendo a fórmula crua e áspera, Sea... não se apóia mais tanto na fórmula blues do primeiro disco da banda. Teclados tradicionais e sintetizadores são o pano de fundo para as letras depressivas e melodias soturnas de White. Além, claro, do preciso trabalho de guitarras. Como o primeiro, o disco é cheio de influências de bandas como Led Zeppelin, Slayer, Ten Years After e afins. Riffs grudentos, bateria cadenciada e sem firulas. É rock and roll básico, cheio de idéias novas e boas lembranças. A começar pela mixagem completamente diferenciada. Vozes com distorções, dentro de uma ambientação espacial e densa, com o contrabaixo de linhas bastante criativas. O timbre agudo e mais esganiçado da voz de Jack casa como uma luva com a rouquidão de Alison Mosshart. Jack também pilota a bateria, sem grandes méritos, mas corretamente apostando igualmente em levadas retro além de enveredar pelo hard funk e pelo reggae.
Na sua preocupação estética, Jack White explora um mundo dark - e definitivamente carrega a tocha do blues pesado, agora bem mais viajante e lisérgico. Em versos como “I love you so much I don’t need to exist” da faixa Blue blood blues ou no refrão do primeiro single do disco, Die by the drop (“Some people die just a little/Sometimes you die by the drop/Some people die in the middle/I live just fine on the top”) a banda carrega categoria também nos versos, quase sempre inquietantes.
Soando bem mais como banda do que um bando de roqueiros que se juntou no estúdio (ou seja: bem diferentes de sua estreia), o The Dead Weather se estabelece como um grande grupo, que prova ser musicalmente tão ou mais interessante do que as bandas-matrizes de seus integrantes (Queens of the Stone Age, Kills, White Stripes e outros). Dentro desse universo sombrio, Jack White nunca soou tão democrático e divide as atenções com os outros três músicos, com grande destaque para Mosshart; sexy, carismática e incrivelmente interpretativa.
POR: [Paulo Loureiro]
Bom
Innerspeaker
| Tame Impala
O Tame Impala é uma novidade bacana, vinda da Austrália, que sequer teve tempo de ser incensada pela crítica - resenhas favoráveis apareceram em sites como o Pitchfork. Em todo lugar no qual o nome da banda apareceu, foram comparados com os Flaming Lips, banda com a qual guardam semelhanças, graças à sonoridade que lembra algo de anos 60, mas também soa como algo moderno, pop. Lançado em maio, o CD Innerspeaker é psicodélico e nostálgico, mas não a perder de vista. Abre com uma canção, It is not meant to be, que poderia ser remixada e funcionar em pistas de dança - ou até sem precisar disso. Nas canções, criam uma atmosfera de sonho, por intermédio de sons esparsos, ecos e melodias quase circulares. O mesmo clima aparece em outras faixas, como a quase progressiva Alter ego.
O som é adornado por guitarras em wah-wah e vocais que soam como a cópia exata dos de John Lennon nos anos 60 - em especial na 100% beatle Desire be desire go e em Lucidity, delicadeza sonora adicionada a um riff que parece inspirado no de Born to be wild, do Steppenwolf. Ou no clima montanhês de Island walking, uma das melhores do álbum, ligada às viagens interestelares do Pink Floyd e do Grateful Dead. E a fórmula parece dar especialmente certo no single Solitude is bliss, não-hit viajante e belo, que ganhou um dos clipes mais desconcertantes dos últimos tempos (confira abaixo). Em lance raro no rock atual, Kevin Parker (vocal, guitarra, teclados), Jay Watson (bateria, teclados) e Dominic Simper (percussão, baixo) fizeram uma estreia sem pontos baixos, que valoriza tanto riffs quanto melodias.
POR: [Ricardo Schott]
Excelente
Exile on Main Street - remastered
| Rolling Stones
Exile on Main Street demora para pegar. Soa como uma bela obra que está sendo construída às vistas do público, mas que, na pressa diária, poucos sortudos reparam. Ouvido 38 anos após seu lançamento original, na edição remasterizada e turbinada, soa enigmático: como é que um disco que consegue demorar para crescer no ouvido mais até do que álbuns bem mais fracos dos Rolling Stones, como Goats head soup (1973) e It s only rock n roll (1974), pode ganhar status de clássico? O motivo talvez seja esse mesmo: não entrega nada de cara, apresenta um produto que o tempo só ajuda a melhorar.
Não são apenas as histórias em torno de sua atribulada gravação que o tornaram algo sui generis na história da banda. E que o fazem prescindir de hits como os que adornam os dois citados álbuns, como Time waits for no one e Angie. Aqui, há Mick Jagger (vocais), Keith Richards (guitarra e, pela primeira vez, liderança quase completa da banda, cabendo até vocais em Happy), Mick Taylor (guitarra e, fato raro na história dos Stones, co-autoria, ao lado de Jagger e Richards, em Ventilator blues), Bill Wyman (baixo, diz a lenda) e Charlie Watts (bateria, idem) em clima de rendição de homenagens. Ao clima sacana do rock original, em canções próprias como o semi-hit Rocks off, Casino boogie, Turn on the run, o country Sweet Virginia e no retorno ao skiffle – estilo rueiro em que a percussão era feita numa tábua de esfregar roupas – em Shake your hips, de Slim Harpo. Ao blues, na releitura de Stop breaking down, de Robert Johnson.
O estilo hoje conhecido da banda, misturando rock, soul, blues e gospel, já estava definitivamente formatado em canções como Tumbling dice - acompanhada por corais femininos que, anos depois, virariam verdadeiras pragas em shows de rock, mas que aqui ganham ares roots. Cutucadas no sistema davam o tom de Sweet black angel, homenagem à ativista política Angela Davis. Refugiados na França, despidos do glamour que até hoje marca o nome da banda, só restava aos compositores Jagger e Richards encarar eles mesmos – e os egos fraturados davam o tom de letras como Happy, I just want to see his face e o hino Shine a light. Um conjunto que torna até inútil o tal CD com músicas extras, encontradas no baú de Mick Jagger e turbinadas com novos vocais – em Plundered my soul e Pass the wine, duas razoáveis novas, há créditos até para gente que sequer tinha idade para participar das sessões originais do disco, como a vocalista Lisa Fischer. Malandragem demais, especialmente na vinheta instrumental Title 5, com Jagger recebendo um levado por uma sessão de gravação (ignóbil) da qual sequer participou. O tesouro está mesmo é no disco de 1972.
POR: [Ricardo Schott]
Excelente
Iron Man 2 - Trilha sonora
| AC/DC
O AC/DC é uma banda de tantos clássicos eternizados na história. E tantas outras músicas sensacionais realizadas. Logo, reunir apenas 15 em uma coletânea é tarefa ingrata. A trilha de Homem de Ferro 2, lançada em parceria com a Marvel Studios e a Columbia Records, ousou tal empreitada. E o resultado, que na verdade correria poucos riscos de fracassar tal a qualidade do legado do grupo, surpreende. Ausências serão sentidas, claro, por qualquer um que conheça de cabo a rabo a discografia da banda australiana de 1976 a 2008 – período coberto pelo lançamento. Estão lá óbvias e indispensáveis como Back in black, Highway to hell e Thunderstruck - e outras capazes de surpreender até mesmo os fãs mais exigentes, caso de Rock n’ roll damnation e Shoot to thrill.
O rock básico e sem afetações do AC/DC embala, portanto, o novo filme sobre o herói de ferro, dirigido por Jon Favreau. Porém, quem demonstra possuir superpoderes mesmo são os veteranos capitaneados por Angus Young. Já são cerca de 35 anos de (bons) serviços prestados ao rock and roll, sempre de forma relevante, e até hoje estão entre as bandas que mais merecidamente faturam com seus shows e discos. Como acertadamente classifica o texto do encarte da luxuosa edição do CD – um libreto repleto de fotos da banda e umas poucas do filme -, “essas 15 músicas foram criadas e executadas pelos reais homens de ferro (...) com infinita atitude rock and roll”. O lançamento é indispensável para os não iniciados na discografia do grupo, que depois das primeiras audições devem juntar suas economias e adquirir os álbuns originais, na íntegra, porque trata-se de uma obra não possível de resumo em apenas 15 músicas.
POR: [Leandro Souto Maior]
Excelente
Fé na festa
| Gilberto Gil
Só um compositor magistral para lançar um disco de forró em pleno período junino e não despertar ceticismos alheios - já que poderia ser visto como opostunista. Pior: soa tão autêntico e natural como se fosse um disco de carreira como outro qualquer, sem um fio condutor. Gilberto Gil continua um artista interessante neste Fé na festa. A expectativa por desvendar suas inspiradas melodias é, no fundo, o que desperta mais interesse por esse cara. Registre-se também, sempre, a incrível performance de mestres de seus instrumentos, como são os fiéis escudeiros Sergio Chiavazzoli (guitarra), Arthur Maia (baixo), Toninho Ferragutti (acordeão), Nikolas Krassic (violino) ou Jorginho Gomes (percussão), afiadíssimos. Os diálogos e duelos que a sanfona promove, ora com o violino, ora com a guitarra, respondem pelos mais altos momentos instrumentais.
Se há algo crítico no disco forrozeiro de Gil é aquela sonoridade padrãozona, tudo perfeito até demais, que marca certos lançamentos de MPB. Sente-se falta de um quê orgânico, sujo mesmo, com a "marca da caveira" de outrora, quando Gil fazia canções ainda mais inspiradas. Mas tal observação seria muito particular e nem de longe ofusca as boas novas 13 canções. São sete só de Gil, três parcerias, uma de Luiz Gonzaga, uma de João Silva e uma de Targino Gondim, do hit Esperando na janela. E da mesma forma desta, foi com ritmos nordestinos que Gil escolheu adornar esta nova safra. Baiões, xotes e xaxados comem solto, mas sobressai o talento do autor.
A opção monotemática pelo sabor nordestino pode cansar a audição - principalmente pelo abusado uso dos coros femininos com os quais pretende-se incrementar os refrãos. Mas independentemente de qualquer moldura que escolhesse, as músicas seriam igualmente interessantes, com a personalidade de um compositor magistral.
POR: [Leandro Souto Maior]
Regular
The remix
| Lady Gaga
Será que a nova diva do pop está completamente sem criatividade? Após relançar The fame com a edição The fame monster (que, vá lá, tinha um disco com algumas inéditas, incluindo o megahit de pistas Telephone), a loira volta agora com The remix, que traz algumas das principais músicas da cantora com arranjos diferentes. São 15 faixas, algumas músicas com dois remixes.
A maior decepção do disco é, de cara, Eh eh, na versão do Pet Shop Boys. Os velhotes da música eletrônica apenas mergulharam a música, um bom synthpop, em efeitos reciclados de seu catálogo. Ficou cara de It’s a sin farofada, parece que foi feito às pressas. Lovegame com Marilyn Manson é uma das mais peculiares misturas de todos os tempos. E é indigesta. A voz sombria e grave do cantor, arremessando os versos de Gaga no refrão, é um dos encontros mais esquizofrênicos do pop. Marilyn Manson devia voltar a cantar sobre “beautiful people” - e não se meter nas músicas das tais “pessoas bonitas”.
O remix de Telephone do Passion Pit, seguindo a linha “péssimas ideias”, tem a coragem de jogar vocal chipmunk (muito acelerado e agudo) na música. A faixa, aliás, tem o mérito de se desviar da melodia da original e ousar no arranjo. Infelizmente, as mudanças pioraram o hit de Gaga com Beyoncé.
O resto dos remixes, no entanto, não contribui em nada. Estão ali, transformando o catálogo da loira em algo ainda mais amigo das pistas de dança. Alguns até impressionam, como o controle da melodia vocal que Stuart Price fez em Paparazzi. A versão acústica de Poker face mostra os dotes de Gaga ao piano, mas a música não funciona tão bem nesse formato quanto Paparazzi, por exemplo. Além disso, o que uma versão voz e piano faz no meio da salada eletrônica que é The remix?
No fim das contas, The remix não adiciona nada de novo ou interessante ao catálogo limitado de Lady Gaga. São apenas versões, geralmente pioradas, de alguns hits do debut da loira. E, ainda assim, ficou faltando Summerboy, hit perdido do The fame.
POR: [Gerhard Brêda]
Regular
It's teen
| Disney
Gastar meia hora do seu final de tarde de domingo ouvindo qualquer coletânea americana de música pop adolescente não é um programa dos mais convidativos. Verdade absoluta. Mas é também verdade que It’s teen, coletânea da Disney que reúne as “suas maiores estrelas mirins em 14 faixas” (como Miley Cyrus, Jonas Brothers e Selena Gomez), não dói tanto assim aos ouvidos. Podia ser pior.
Não há dúvidas de que a nova música pop americana corre hoje bem à frente rock. Enquanto Lady Gaga cria alguns dos melhores refrões já feitos, centenas de bandas indies cheias de pretensão se vangloriam de canções meia-bocas em armaduras de vanguardismo indie, mas estagnadas em fórmulas antigas. Transporte essa lógica para o universo juvenil e perceberá que, enquanto as tradicionais bandinhas de hardcore (gênero onipresente entre a garotada) continuam disparando seus refrões esgoelados na progressão dó-sol-lá-fá, a ala pop esbanja talento.
A coletênea reúne faixas mais do que honestas para uma seleção adolescente. Os carros-chefes são Demi Lovato é Miley Cyrus, as mais grudentas da trupe, com refrões chatinhos, mas que colam. É de Miley a pegajosa Party in the USA e He could be the one, e de Lovato Here we go again: todas bem genéricas. Selena Gomez dá uma lição às meninas com sua banda (Selena Gomez and The Scene) e a agitada Falling down, com levada cheia de personalidade ao estilo No Doubt.
A faixa mais interessante do disco é da Capra, banda da Disney pouco conhecida no Brasil comparada aos Jonas Brothers. Low day tem letras adolescentes, mas inteligente, e timbres retrôs ensolarados, como numa versão mirim de Little Joy. Nick Jonas (sozinho ou com os Jonas Brothers) e Michel Musso irritam com os vocais afetados, mas contam certamente com bons músicos na retaguarda, impedindo que destruam também os arranjos, bons no fim das contas.
Entre todas as 14 faixas, talvez só Low day mereça um espacinho num iPod adulto, mas não hesite em deixar o disco nas mãos do seu filho. Podia ser pior: podia ser um álbum da Britney.
POR: [Philippe Noguchi]
Regular
Mr. Lennon/Mrs. Lennon
| Vários
Fã dos Beatles que se preze ignora qualquer coisa legal que Yoko Ono (viúva de Lennon e eterno pivô do fim do grupo - precisava explicar?) tenha feito, desdenha de seus vagidos agudos e tem ataques de risos ao observar a capa bizarra de Two virgins (1968), em que ela e John Lennon aparecem como vieram ao mundo. Uma exceção: o pesquisador e produtor Marcelo Fróes, que vem relendo o repertório final dos Beatles em lançamentos de seu selo Discobertas. Ele agora traz 16 releituras, todas com vozes femininas, de canções de Yoko no CD Mrs. Lennon. E reempacota como Mr. Lennon o disco Dê uma chance à paz: John Lennon, uma homenagem, que lançou em 2001 com releituras do ex-beatle feitas por nomes como Nando Reis (Mind games), Arnaldo Baptista (em duas versões de Give peace a chance, uma acompanhado por Andreas Kisser e Charles Gavin, outra ao lado do grupo japonês Cibo Matto), Moska (How do you sleep?), Herbert Vianna (I know) e Lobão (a melhor releitura, com Instant karma).
Se Mr.Lennon trafega por repertório e convidados infalíveis (afinal, era um projeto grande, feito pelo selo Geléia Geral, de Gilberto Gil, que ainda divide Imagine com Milton Nascimento, em versão razoável), sua contrapartida feminina vai por caminhos inseguros, dando voz a um repertório que não está entre os dez mais queridos do pop. Nem sempre acerta, mas prima por privilegiar as canções, dando à dupla paulistana Tetine e à carioca Leandra Lambert (frontwoman do grupo eletrônico Voz Del Fuego) as chances de protagonizar os momentos mais experimentais do disco – com, respectivamente, Why?, gritalhona faixa de abertura de Yoko Ono/Plastic Ono Band, estreia da japonesa, em 1970, e Kiss kiss kiss.
Mas os destaques vão para Isabella Taviani no reggaezinho Don’t be scared, a teatral Mathilda Kovak em Yes, I’m your angel, a novata Helevyn Costa em Who has seen the wind? E, acredite, para Marília Barbosa. Sim, aquela mesma cantora-atriz que aparecia nas antigas trilhas de novelas da Globo e que, acompanhada pelos cariocas do Pelv’s, berra como uma riot grrl dos anos 90 na distorcida Move on fast.
POR: [Ricardo Schott]
Regular
Nobody s daughter
| Hole
O Hole está de volta. A banda da Yoko Ono do grunge, Courtney Love, ressurge das cinzas em Nobody s daughter, um álbum datado, derivativo e que fede com um ranço de anos 90. Ainda assim, as canções, ainda que trepidantes, estão mais para o lado medíocre do espectro.
O disco anterior do Hole foi Celebrity skin, de 1998. A banda, aparentemente, foi mantida em um tonel de formol desde então. A viúva grunge ainda canta sobre estripulias que estão no limiar entre o espírito livre feminista e o cotidiano de uma biscate, mesmo tendo respeitáveis (e mal cuidados) 45 anos. Os rasgados no vocal da mãe de Frances Bean Cobain, no entanto, ainda têm potência e vigor. As composições, que alternam grunge empoeirado e power ballads mofadas, não têm tanta vitalidade, mas o resultado acaba tendo algum carisma dentro da onda eletro-rock que assola as cenas mundiais.
Courtney parece, talvez inconscientemente, talvez abraçando a má fé que lhe é atribuída, roubar um pouco de seus ex-casos. Aqui e ali, é possível notar algumas estripulias que poderiam sair de um dopado e pouco criativo Kurt Cobain (de quem é viúva – er, precisava lembrar?) ou distorções que refletem a careca de Billy Corgan, do Smashing Pumpkins, com quem andou de mãos dadas em duas ocasiões (nos anos 90 e há pouco). Mesmo sugando grandes nomes, Courtney não consegue devolver na mesma medida - e vale citar que Corgan é, de fato, co-autor de quatro canções deste Nobody s daughter, mas ainda diz, em entrevistas, ter feito todas sozinho.
Nobody s daughter não é bom em nenhuma escala. As composições são velhas, cansadas, cansativas e desnecessárias. Algumas são até longas demais. O Hole parou no tempo por 12 anos e parece não notar. Ainda assim, é um sopro de ar fresco quando comparado às batidas eletrônicas que infiltram o rock em todas as direções. Ainda que seja um ar viciado, guardado em um porão da década passada.
POR: [Gerhard Brêda]
Regular
Need you now
| Lady Antebellum
Este é o segundo disco da banda country americana cujo núcleo é formado por Charles Kelley (vocal), Dave Haywood (vocal, guitarra, piano e bandolim) e Hillary Scott (vocal). Need you now confirma o apelo pop do trio, que logo colocou o disco no primeiro lugar das paradas americanas, pouco tempo após o lançamento nos EUA.
Lady Antebellum apresenta-nos uma música country ambígua: tem frescor instrumentalmente em boa parte das faixas, com arranjos interessantes que flertam com outros gêneros. Mas que conta com melodias vocais que são sucessões de clichês. A faixa de abertura, Need you now, por exemplo, tem uma introdução climatizante, mas desemboca em versos melosos, sempre acompanhados de uma segunda voz em contralto - sem sombra de dúvidas a maior praga da música country americana.
As letras, genéricas e ultra pops, discorrem sobre mais do mesmo: amores correspondidos (ou não) ou dilemas existenciais rasos, contribuindo negativamente para a credibilidade das músicas. Lady Antebellum apresenta ideias inteligentes (em potencial), alguns riffs marcantes e bons timbres, que desembocam em baladas de apelo pop exagerado e, sobretudo, genérico. Não dói aos ouvidos, mas também não lhes faz qualquer afago.
POR: [Philippe Noguchi]
Regular
Manuscrito
| Sandy
Sandy está de volta. Enquanto o irmão se aventura nas baquetas em diversos projetos, a cantora permaneceu mais reclusa, preparando material para sua carreira solo. O produto dessa reclusão é Manuscrito, uma inconstante incursão pelo pop, com alguns momentos de brilhantismo, obscurecidos pela mediocridade.
Pés cansados é a primeira faixa e o primeiro single do disco. E também é a pior. Um pop violeiro de churrascaria, que não se segura em nenhum elemento para emergir do mar de mediocridade. Fraca, fraca.
A base de Manuscrito está nos pianos e violões, que, por vezes, são acompanhados por orquestrações. Nesse playground, que é acompanhado por uma bateria contida, Sandy demonstra seu alcance vocal e timbre único. Os fãs vão apreciar, há uma evolução e a voz amadureceu, assim como as linhas melódicas. Os detratores, vão continuar caindo do pau, pois nada mudou.
Tempo é uma boa faixa. Aqui, Sandy ousa no vocal e, perto do fim da música, o arranjo cresce e dá à balada um ar épico. A faixa é seguida pela também boa Ele/ela, que transita por uma boa letra e um belo arranjo orquestrado. A bateria, suave, jazzeia o ritmo para violinos, um baixo discreto e o onipresente piano.
Sem jeito entra meio pesada, com batida marcante e até mesmo guitarras. É agitada e uma boa mudança de ritmo, mesmo que esteja deslocada no resto do disco, basicamente uma coleção de baladas acústicas e orquestradas.
O maior problema de Manuscrito é a quantidade de faixas peso morto. Quem sou eu, Duras pedras, O que faltou ser e Perdida e salva são músicas que não tem nada de errado, mas não fazem nada certo. Os arranjos não são bonitos, cativantes, chiclete. As músicas apenas estão lá.
Dias iguais, com participação de Nerina Pallot é uma balada forte, com um minuto final arrebatador, que cresce de forma épica e se acalma em notas de piano e a voz de Sandy. Uma bela faixa. Tão comum também é criativa. Um riff blueseiro no violão acompanha uma batida quebrada nos versos e um refrão redondo.
Manuscrito ficou alguns anos sendo composto, gravado e produzido, mas o resultado não é muito diferente do que se esperaria de Sandy. O disco é formado por uma teia de músicas medianas, com momentos verdadeiramente inspiradores salpicados com avareza. O disco, assim como a virginal cantora, é meio sem sal.
POR: [Gerhard Brêda]
Bom
Sgt. Peppers Brazuca Club Band vols 1 e 2/Beatles '70 vols.1 e 2
| Vários
Dá um certo medo quando o feixe de laser cai em cima da primeira faixa de Sgt. Pepper’s Brazuca Club Band, compilação de bandas nacionais relendo o disco clássico dos Beatles – lançada apenas na internet em 2007 e reeditada agora fazendo parte de uma série do selo Discobertas, do pesquisador Marcelo Fróes. A faixa-título do disco é transformada numa peça eletrônica de gosto duvidoso pelo Mim, projeto da carioca (hoje radicada em SP) Mariana Eva. Depois, no disco, o clima melhora. Por ser um disco antigo que agora sai do meio virtual e ressurge no suporte CD, o volume de bandas hoje extintas é considerável – tem o Monotube dando uma acalmada na reprise da faixa-título, os brasilienses lisérgicos do Prot(o) jogando mais ácido ainda em Within’ you, without you, o Leela e o Lasciva Lula em versões corretas de Being for the benefit of mr. Kite e Good morning, good morning. E boas versões de A day in the life, Lovely Rita e Strawberry fields forever, a cargo, respectivamente, do Reverse, dos Fuzzcas e do Tom Bloch.
A coleção se completa com mais três volumes, lançados ao mesmo tempo, com o resto das canções gravadas pelos Beatles em 1967 e o repertório de 1970 feito pelo quarteto, e por John Lennon, Paul McCarney e George Harrison pós-separação. Boa parte das canções teria que ser relida por um pessoal muito ruim para serem estragadas, mas as versões colaboram – tem desde o eletrônico Johann Heyss relendo Only a northern song a Paulinho Moska numa versão irrepreensível de The fool on the hill, além das novatas Doidivinas dando um toque feminino na infantil All together now. A day in the life reaparece com Zé Ramalho. Algumas canções do projeto foram reaproveitadas do disco-show O submarino verde e amarelo, feito por Marcelo Fróes na década passada, com vários artistas cantando Beatles.
Já as gravações do repertório final dos Beatles impressionam pela quantidade de ótimas versões. Beatles 70 Volume 1 impressiona na abertura com Os Britos (banda formada para escarafunchar o repertório beatle) e Zélia Duncan em Two of us, prossegue com Jane Duboc relembrando Across the universe, Sá & Guarabyra emocionando com Let it be em sua primeira gravação pós-morte de Zé Rodrix e Get back nas vozes de Cássia Eller e Zélia Duncan. O segundo volume, com as músicas imediatamente pós-separação, é, sintomaticamente, povoado por números solo, incluindo Lobão com Instant karma, de John Lennon, Taryn com Maybe I’m amazed, de Paul McCartney, Zeca Baleiro com Mother, de Lennon, e Lia Sabugosa e Marcio Biaso encarando What is life, de George Harrison. Em grupo, mas solitariamente, o Roupa Nova comparece com o hino My sweet Lord, de Harrison.
POR: [Ricardo Schott]
Excelente
The weirding
| Astra
Rodando na MTV, inclusive na filial brasileira, é possível dizer que o jovem conjunto Astra já posa como, er, astro. Sem brincadeira. A banda, que surgiu em 2001, descolada na área para lá de descolada de San Diego (uma agradável cidade americana no ensolarado estado da Califórnia), registra no seu caderninho, desde o final de 2009, uma agenda de compromissos lotada de shows e entrevistas. O catalisador é o estonteante álbum de estreia.
O disco saiu, curiosamente, primeiro na Inglaterra e foi desovado, ansiosamente, em julho nas boas prateleiras das lojas de discos dos Estados Unidos. O sucesso do álbum e os vários concertos pela Europa e no país nativo não vieram de graça. São frutos de anos na estrada, acompanhando gente da primeira linha do novo rock yankee Um rock montado por uma galera pós qualquer coisa; uma horda que vem infestando os festivais “rodantes” da América – gente que desponta quase como um movimento, como os “manos” do Orange Goblin, Winter Flowers, Witchcraft, Pentagram, Bigelf, Saint Etienne, The Entrance Band, Titan, RTX, The Black Keys, The Sunshine Fix, Green Milk From the Planet Orange, etc etc etc.
Formado por Richard Vaughan na guitarra, vocais e nos teclados análogos (aqueles dinossauros que atendem pelo nome de mellotron e moog), Conor Riley também na guitarra, vocais, órgão e teclados análogos (o gótico Arp Odyssey), Stuart Sclater no baixo, David Hurley na bateria, flauta e efeitos sonoros e Brian Ellis na guitarra e Moog, o auto intitulado disco revela a música do Astra como uma mistura ungida pela sonoridade de bandas progressivas como o King Crimson, Pink Floyd, Nektar, batizada pelo peso do Black Sabbath e a psicodelia do Moby Grape, além daquele monte de bandas surfistas californianas que povoaram os anos 60. É um clima soturno, claustrofóbico, tristonho e suspirante, que assola todo o álbum, com camadas de guitarras uivantes, naquela onda saudosa da eletricidade “viajandona” do Floyd. O molho vem de uma percussão lenta e detalhista, linhas de baixo sóbrias, tudo regido pelo lamento sonoro do monstruoso Mellotron, a marca registrada do Astra (e das antigas bandas progressivas mais legais). O grupo cuidadosamente procura resgatar a sonoridade clássica dos medalhões do progressivo na sua fase mais séria, aquela do comecinho dos anos de 1970, profundamente embebida da psicodelia made in London e naquela sensação de fim de era, mal do século.
As músicas, quase todas bem longas, exigem do ouvinte alguma tolerância. A primeira música é reveladora: The rising of the black sun é quase uma música cinematográfica. E assim seguem as demais. Os mais de 15 minutos da faixa título e os outros 17 de Ouroboros se desenvolvem com lentidão e peculiaridades sônicas de causar verdadeira experiência pessoal aos menos avisados. Destacam-se ainda a beleza exotica de The river under, The dawning of Ophiuchus e a épica Beyond to slight the maze.
Ao todo são oito faixas, que parecem à primeira vista fora de propósito em uma era dominada pela rapidez, prazer imediato, do descartável. Não são. São sob medida para uma geração que alcança um mercado fonográfico exigindo diversidade, opção, revisionismo, decifrando um passado que hoje parece ainda mais atraente, sincero e perene. O Astra se encaixa que é uma beleza nisso tudo. Por falar em beleza, a capa do CD se curtida no LP duplo é tudo de bom e uma viagem em sí. Talvez ensaiando uma nova geração que promete ser muito mais interessante nos próximos anos.
POR: [Jorge Albuquerque]
Fraco
Almost alice
| Vários
Tim Burton, no cinema, trabalhou de forma vacilante com a Alice de Lewis Carroll. Embora no filme soem apenas os acordes triunfantes e com um pé no gótico de Danny Elfman (ex-cabeça do grupo pop Oingo Boingo e parceiro habitual do cineasta, tal qual Helena Bonham-Carter e Johnny Depp), um CD com vários artistas pop gravando músicas inspiradas nas histórias de Carroll chega às lojas. E não é nenhuma maravilha, embora a escolha de faixas seja louca como um chapeleiro.
O disco abre com a terrível Alice, da sumida Avril Lavigne. A garota, aos 30 segundos de música, passa a berrar em tons agudos e irritantes - e só para em um breve interlúdio. Esta faixa é a única que deu as caras no longa de Burton, conduzindo os créditos finais. The poison, do All American Rejects, é surpreendentemente boa, uma balada que até ganha fôlego nos instantes finais e é um bom jeito de se recuperar após a odisseia de gritos de Lavigne. O disco descamba para um lado mais eletrônico, entre LCD Soundsystem e Pet Shop Boys malfeito com The technicolor phase, do Owl City.
O verdadeiro abismo que é Almost alice vem nas faixas Painting flowers (All Time Low), Where’s my angel (Metro Station), Strange (Tokyo Hotel, com Kerli) e Follow me down (3OH!3, com Neon Hitch). Uma massa sonora de emo rock revestida de pretensão e seguida por um péssimo pop reciclado das piores boy bands da aurora dos anos 2000 forma um miolo incompetente e desinteressante de disco. Nem Robert Smith, do The Cure, consegue segurar a onda com a morosa Very good advice.
Welcome to mistery é uma balada bem acabada e arranjada, conduzida com maestria pelo Plain White T’s. Não e memorável, mas está acima da média. Tea party, de Kerli, é um pop vagabundo mas misteriosamente cativante. Lobster quadrille, do Franz Ferdinand, é disparada a melhor faixa. O vocal grave de Kapranos aliado a duas notas deliciosamente dissonantes no fim do cativante refrão (que segue à risca a Quadrilha da lagosta, da obra original) gera uma música surpreendente sombria e excepcional.
O disco fecha com Fell down a hole, do Wolfmother, que é sólida e tem um bom riff de guitarra. E White rabbit, de Grace Potter & The Nocturnals. Esta faixa, aliás, poderia muito bem abrir o disco. Ela carrega toda a atmosfera de insanidade e doçura tão valorizados na obra de Carroll.
No fim das contas, Almost alice não está nem perto de ser uma coletânea quase boa. Lobster quadrille tem qualidade para dar e vender, mas o entorno é esquizofrênico e decepcionante.
POR: [Gerhard Brêda]
Regular
Rise up
| Cypress Hill
O Cypress Hill, como afirmam em algumas resenhas lá fora, soa, em Rise up , bem mais focado do que em discos anteriores – pelo menos em se tratando dos últimos, como Till death do us part (2003). Com uma cara até um tanto mais gangsta do que em alguns álbuns passados, retornam pelo selo do rapper Snoopy Dogg, o Priority (distribuído pela EMI) e lançam um disco que pode até impressionar na primeira orelhada. Mas que também não se compara aos primeiros lançamentos. Para quem nunca ouviu ou quer matar a saudade de uma época em que o rap ainda representava algo “alternativo”, que até o estilo malvadeza-durão do gangsta tinha algum sentido de “atitude” e que as uniões entre guitarras e rimas provocavam hecatombes e choradeiras, vale a audição – desde que seja complementada com o que realmente interessa da carreira do grupo, que são discos como Cypress Hill (1991) e Black Sunday (1993).
A maior surpresa do disco é deixada para o final: a bela Armada latina, construída sobre riffs e trechos da letra de Suite: Judy blue eyes, de Crosby , Stills & Nash, transformando a longa canção acústica entoada pelo trio no Festival de Woodstock num sinuoso rap latino. E que, vá lá, pode ser considerada pop demais para os padrões do mesmo grupo que, anos antes, lançou hits da fumaça como I wanna get high e Insane in the brain. As coisas começam a ficar um tanto estranhas quando, quem escuta, começa a pensar que se divertiu bem mais ouvindo pela primeira vez o A arte do barulho, do fã do Cypress Hill Marcelo D2, do que o novo do grupo californiano. E falando no carioca herbífumo, o CH gravou uma canção homônima de outra de seu mais recente disco, K.U.S.H., que não chega a decolar e vai para a mesma vala onde descansam canções dançantes de pouco calibre como It ain’t nothing e I unlimited.
De bom, no disco, tem a psicodelia soul de Armed & dangerous (com samples do grupo soul The Miracles, da Motown, e um aceno ao passado criativo do CH), a pressão intermitente do metal-rap policial Trouble seeker e a igualmente lisérgica Take my pain, com trechos de Break on through, dos Doors, inseridos na letra – e participação de Everlast, ex-vocalista do House of Pain, grupo de rap que, se bobear, vai chegar ao nongentésimo aniversário de seu maior hit (o bate-cabeça Jump around) sendo confundido com o Cypress. Tom Morello, guitarrista do Rage Against The Machine, confere peso e pressão à faixa-título e a Shut’ em down, mas no mesmo nível de porrada & convencionalismo do maior sucesso de sua banda, Killing in the name. Enfim, para quem está com sede, Rise up traz água – mas num copo meio vazio. Ou meio cheio, se você for muito fã. Escolha sua.
POR: [Ricardo Schott]
Bom
All days are nights - Songs for Lulu
| Rufus Wainwright
Nenhum disco do pianista e cantor americano Rufus Wainwright jamais deixou de ser uma surpresa, levando em conta que se trata de um artista cujo trabalho envolve canções orquestrais, letras confessionais (tristes e muitas vezes femininas) e uma beleza estranha, difícil de ser associada ao pop e ao rock – ao qual ele até se associa por sua devoção a Elton John e aos Beatles. All days are nights – Songs for Lulu, seu novo álbum, já tem o estranhamento garantido pelo fato de, em sua nova tour, Wainwright preferir o silêncio da plateia aos aplausos, que ele pede ao público que evite na primeira parte dos shows.
Com letras inspiradas pela doença - um tipo raro de câncer - e pela conseqüente morte de sua mãe, a musicista Kate McGarrigle (que o acompanhou em shows pelo Brasil em 2008 e tocou com ele em álbuns como Want e Want 2), o novo álbum referencia-se também no trabalho da atriz Louise Brooks (daí o nome do disco) no filme A caixa de Pandora, de 1929. Aparecem também trechos de Shakespeare musicados – o título do disco, por exemplo, foi tirado de um dos sonetos do escritor britânico. Num esquema que parece a perversão de Scratch my back, recente lançamento de Peter Gabriel, Rufus deixa seu lado orquestral de lado e oferece um recital, acompanhando-se apenas ao piano. O que intensifica a solidão das músicas.
Mesmo em canções que não parecem se referir diretamente ao assunto, a dor da perda aparece, como na quase gregoriana Who are you New York?. Já em faixas como Sad with what I have e em Martha, questões familiares, ligadas ou não à perda, surgem mais textualmente. A primeira como uma triste lembrança da mãe, a segunda como um chamado ao telefone feito à irmã, a instrumentista Martha Wainwright, para que ambos visitem a mãe – e uma lembrança do pai, o também instrumentista e compositor Loudon Wainwright III, com quem Rufus sempre manteve relação conturbada, mas que ainda está em tempo de resgate (“não há mais muito tempo para que nós sejamos tão raivosos um com o outro”, afirma na letra).
O som vai do mergulho rítmico intrincado ao piano (Give me what I want and give it to me now) a tons operísticos (When most I wink), variando para canções que, formatadas para rádio, poderiam tornar-se baladas sessentistas e tristonhas (A woman’s face e The dream). Um formato diferente para se conhecer o som de Rufus. E qual talvez não seja um dos mais tranquilos para se indicar a futuros fãs.
POR: [Ricardo Schott]
Bom
Lu Alone
| Lu Alone
Se a mineira Lu Alone fosse uma cantora americana, provavelmente seria uma Miley Cirus malvadinha. E provavelmente algum figurão do rock gravaria as linhas de guitarra, algumas até boas, em seu disco. Similar a Van Halen gravando Beat it com Michael Jackson e, transportando para outra esfera, Ludacris jogando suas rimas em Justin Bieber (ou Bustin Jieber, se a moda pegar). Como a garota mora no Brasil, o que sobra é um disco de pop rock com bons riffs e alguns solos com ranço de hard rock que é, apesar de alguma instabilidade, melhor do que quase tudo produzido aqui, no estilo.
Lu Alone se esgoela em 13 músicas, que vão da boa Girls can rock, com cara de manifesto feminista adolescente, à chatinha By my side, que fecha o disco sem fanfarra. No meio, uma versão simpática de Sugar sugar, da banda falsa dos anos 60, The Archies. Lu canta em inglês, provavelmente reconhecendo que seu público alvo ouve mais música estrangeira do que nacional, o que, no fim das contas, parece uma aposta razoável.
A produção do disco é notável. As melodias são tratadas com maestria e um time de batedores de cabeça incluiu solos surpreendentemente elaborados e com timbres interessantes nas músicas. Nas baladas, os violões, backing vocals e arranjos de cordas dão o ar grandioso que se espera. Em I’m not a little girl, explodem guitarras que poderiam estar em uma banda de metal de garagem (se gravada por Rick Bonadio), sintetizadores chiclete e até mesmo violinos. Lu abraça a grandiloquência do rock na melhor canção do disco.
Lu Alone transita meio esquizofrenicamente entre o pop com sintetizadores e um rock até honesto, mas o que amarra todas as empreitadas da garota é uma produção fantástica. Arranjos bem bolados, timbres inteligentes e sensibilidade pop elevam Lu Alone (o disco) a um patamar não muito explorado no cenário brasileiro. Mesmo que essa exploração venha em inglês.
POR: [Gerhard Brêda]
Bom
Raconte-moi
| Stacey Kent
Raconte-moi é o novo trabalho da excelente intérprete americana Stacey Kent ao lado do saxofonista, arranjador, compositor e produtor Jim Tomlinson (seu marido). A dupla divide não somente o mesmo teto, mas a obsessão pela música - sobretudo o jazz e a música brasileira, paixões latentes em qualquer álbum da cantora. O disco, cantado todo em francês, é uma síntese entre elegância, bom gosto e suavidade, mas peca em originalidade.
Acostumada a reconstruir clássicos do jazz americano e da bossa nova brasileira, Stacey entrega na primeira faixa uma versão de Águas de março (Les eaux mars) que é impecavelmente executada em sua voz. Mas que nada acrescenta à obra do mestre Tom Jobim. O disco segue como uma sucessão de releituras de compositores renomados (Keren Ann, Paul Misraki, Henri Salvador, Georges Moustaki, Michel Jonasz e Benjamin Biolay são alguns deles). A crítica à faixa de abertura permanece nas demais: magistralmente interpretadas, mas com arranjos genéricos do universo jazzístico.
O disco ganha vigor nas faixas inéditas preparadas para Stacey por compositores como Bearnie Beaupére, Jean Karl-Lucas e Emilie Satt, que a presenteiam com a excelente La Vénus du mélo. O single do disco não poderia ter sido melhor escolhido: é, sem sombra de dúvida, a melhor faixa, com arranjo elegante, mas despojado e dançante. As letras, inteligentes, flutuam da ironia fina ao sentimentalismo, amarradas por uma métrica perfeita e rimas saborosas.
POR: [Philippe Noguchi]
Excelente
New Amerykah part two – Return of the ankh
| Erykah Badu
A continuação de New Amerykah part one – The 4th World War consegue, impressionantemente, ser melhor ainda. Mas há diferenças. O primeiro CD encarou o mundo por uma perspectiva mais social e politicamente engajada. New Amerykah part two – Return of the ankh versa sobre as relações afetivas. Sobre apaixonar-se. Um apanhado conciso, inteligente e retro-futurista da “analog girl”, como a própria Erykah Badu se descreve.
A forma como ela coloca, em seus trabalhos, tudo o que de melhor foi feito na música negra americana dos anos 60 pra cá, a coloca no topo da soul music atual. E isso por diversos ângulos: músicas, arranjos, letras e interpretação, esta sempre muito particular e intensa, o que já lhe rendeu comparações com Billie Holiday. O projeto New Amerykah nasceu para carregar a tocha da justiça social e da redenção. Como ocorre também nessa continuação. A diferença está na classe com que Erykah apresenta suas armas e argumentos, utilizando-se de instrumentação ousada, arranjos que passeiam pelo psicodélico, pelo blues e pelo mais estiloso soul Motown. A cantora é carregada de influências, indo de Aretha Franklin ao ressurgido Gil- Scott Heron, de Etta James a James Brown. Um apanhado bastante inspirado de canções feitas sem qualquer tipo de restrição comercial ou filtros de marketing. Coisa rara hoje em dia na cena atual r&b americana.
Erykah Badu lançou seu primeiro disco em 1997 - e logo na estréia foi alçada ao posto de diva soul. Esteve no Brasil em um dos Free Jazz Festival do fim da década passada, com um show inesquecível. E desde então evoluiu constantemente em seu processo artístico. New Amerikah – part two é provavelmente seu melhor momento. Sonhador, sensível, intenso e muito honesto. Aos 39 anos, Erykah carrega a tocha não somente de causas sociais, mas também a da excelência musical.
POR: [Paulo Loureiro]
Regular
Ao vivo
| Cássia Eller
Reeditado agora, Violões, lançado em 1996 (com registros no Canecão, RJ, e Tom Brasi, SP), foi a primeira tentativa de Cássia Eller de se desnudar do rock-blues rascante de guitarras que a arrastava timidamente Brasil afora. Concentrada na leitura de faixas de seu então último disco solo (1994), a cantora começara a degustar a estética flamenca de Camarón de La Isla, mas não sabia como a injetar em sua obra. O projeto de violões foi uma boa desculpa, embora ainda perdido na levada bluesy. A bordo da reposição do disco sai um DVD com áudio e vídeo extraídos de programas na TV Cultura, assim como os registros no Teatro Franco Zampari, em São Paulo.
Irregular, de sonoridade esquizofrênica, Violões é um disco oba-oba. Qualquer coisa que Cássia fizesse dali para a frente não passaria por nenhum crivo crítico diante da hipnose coletiva - o Brasil pedia uma outsider. Estava sendo abraçada pelos cânones da MPB, tacava no lixo guitarras e pegadas mais pesadas e pedia licença aos fãs antigos para deixar a indústria fonográfica tomar conta de sua carreira. A parti dali sairiam Mario Manga, Arrigo Barnabé, Itamar Assumpção de seus quadros; e estaria prontinha para a entrada de Nando Reis na condução de seu repertório.
Os violões aqui são burocráticos, assim como foram em toda sua carreira. Acompanhada de Walter Villaça e Luce, exibe em 14 músicas uma sonoridade datada e cujos arranjos não são favoráveis à sua interpretação. Tudo está meio embolado, meio no improviso, às vezes desnecessariamente dobrado, às vezes desnecessariamente solado, torto.
É aí que entra o samba na carreira de Cássia, ao trazer para o palco Na cadência do samba (Ataulfo Alves e Paulo Gesta), é quando consolida sua ligação com a obra de Cazuza e Renato Russo, é quando inicia sua reverência explícita a Caetano e Marisa Monte. Tudo certinho demais. O problema é que se existem essas mudanças teóricas e de comportamento de Cássia, pode-se dizer que por outro lado a parte prática fica a dever. Há um estranhamento entre duas pegadas tão distintas quanto as de Luce e Villaça. Na maioria das vezes eles se desafiam e se atropelam. E incomodam.
O resultado é um disco cansativo, realçado em interpretações desencontradas de Eu sou neguinha (Caetano), Música urbana II (Renato Russo) e Metrô Linha 743 (Raul Seixas).
POR: [Mario Marques]
Excelente
Leave your sleep
| Natalie Merchant
Uma das vozes mais distintas do pop está de volta, com seu trabalho mais audacioso. Um projeto que levou seis anos para ficar pronto e que conta com a participação de mais de 100 músicos, Leave your sleep passeia por dezenas de estilos tradicionais inspirado em poemas, rimas e citações da era medieval até os dias de hoje, musicados também tradicionalmente e interpretados ao vivo dentro do estúdio. Se ela já havia flertado com o lado roots da música em seu último trabalho, The house carpenter’s daughter, lançado em 2004, em Leave your sleep a coisa fica quase educativa, pois além do tema recorrente ser a infância em diversas culturas, todos os arranjos são elaborados com instrumentos de época, sem efeitos ou maquiagens computadorizadas.
Apesar do afastamento da modernidade e do som envelhecido, o disco soma inúmeras qualidades que o fazem interessante, apesar da extensão: são 105 minutos de música. As melodias, sempre lembrando o ouvinte onde Natalie foi para compô-las, tem sempre a característica pop que marcou sua obra ao longo dos anos. Ela vai da Escócia à China sem problemas. Além de reggae, ragtime, scat jazz, blues, música celta e vários outros estilos misturados com impressionante coesão. A grande variedade de estilos reforça a incrível versatilidade da voz de Natalie que, com o tempo só melhorou.
Leave your sleep é uma viagem a vários mundos, mas sempre sob o signo do mesmo tema. Não apenas pelo ecletismo musical, mas pela forma como aborda a infância: universalmente. Os cenários propostos levam o ouvinte a uma sensível volta ao mundo. Um disco tão longo que mais parece um filme. Épico seria uma boa definição. E que os ansiosos não torçam seus narizes: a viagem pode ser global, mas nunca entediante.
Nesse mar de cantoras parecidas, com discos parecidos e músicas e arranjos e capas e quase todo o resto bastante parecido, Natalie Merchant levanta a bandeira do realmente belo, e o faz com reverência e estilo. Vários estilos, aliás
POR: [Paulo Loureiro]
Regular
3 words
| Cheryl Cole
Cheryl Cole é um pouco mais milionária, dizem várias fontes, do que suas colegas do grupo vocal feminino Girls Aloud. No Brasil, seu casamento fracassado com o futebolista inglês Ashley Cole, que lhe deu o sobrenome artístico, ainda não teve tempo de pegar como matéria de revista de fofoca, embora detalhes rocambolescos não faltem à história (que inclui desde traição – da parte dele – à ausência dela em sessões com os advogados para tratar da separação). Fruto, musicalmente falando, de um reality show (o Popstars britânico, que gerou as Girls Aloud), estreia solo mirando mais as pistas de dança do que os aparelhos de som, mas sem radicalismos eletrônicos . O disco, em vários momentos, atira para um lado meio electro anos 80, até saudosista (embora de olho nas paradas), em canções sintetizadas como Fight for this love. É algo que já aparecia nas GA, que requisitaram os serviços até dos Pet Shop Bpys em seus últimos discos.
Queridinha de Will.I.Am, dos Black Eyed Peas, que dá uma força no single 3 words e em Heaven e Boy like you, procura seguir a linha do padrinho na hora de escolher canções com bons refrãos. São os casos da pérola dance Stand up, da própria Heaven e da grudenta Parachute, primeiras canções de 3 words que saltam aos ouvidos. Todavia, não ouça esperando nada musicalmente abençoado, na linha de I gotta feeling, dos Black Eyed Peas, só para ficar no “fado madrinho” da moça. O que funciona na estreia de Cheryl, aparece sob melhor forma nos álbuns mais recentes de Madonna, por piores que eles pareçam em relação às fases mais antigas da cantora.
POR: [Ricardo Schott]
Excelente
Lembra o amanhã
| Eletro
Custa R$ 5. Com esse trocado você compra parte da história do rock carioca desta década e leva de barbada 13 canções belíssimas, da mais pura (e boa) safra. Lembra o amanhã, esperadíssimo disco de estreia do Eletro, confirma em estúdio o que se sabe há anos: o grupo de Arthur Nabeth (voz) e Manfredo Jr (guitarra), os autores das belezuras, é para jamais cair no esquecimento, ainda que dele se esqueça, por uma razão ou outra que nunca saberemos exatamente. É o nosso Protest songs (Prefab Sprout, 1989). Pouca gente sabe que existe. Mas quem conhece carrega na memória e, vez ou outra, no quarto e no carro, só para prestar a devida homenagem. O SMD do Eletro representa não só a fabricação oficial de um extraordinário manancial de músicas românticas, poéticas, melodiosas, pródigas, leves. Eterniza o cume de uma cena que deu aos cariocas heróis de sua geração com nomes como Moptop, Filhos da Judith, Reverse, Som da Rua, Columbia, Ramirez, entre outros. Uma cena local que reinventou a arquitetura musical da cidade e mobilizou o pop além das mesas das já declinantes gravadoras.
Há no Eletro uma delicadeza plena na estrutura das canções, em sua feitura, em sua forma tão honesta de entregá-las às pessoas. Por isso, sempre num núcleo perdido entre o Los Hermanos e o Reverse (outra banda que se perdeu num corredor de gravadora), muito mais preocupado com a execução do que com a atitude, acabou marginalizado pela limitada turma do punk. Seguiu sem mudar uma só nota, um riff, um arranjo, ainda que datado. Tudo no Eletro é perene. E está aí, nessa conjunção de Beatles, rock 80, Clube da Esquina, rock progressivo, voando por vezes em monumentos perdidos de erudição, a força quase sobrenatural que o mantém vivo – e que, pelas beiradas da Lapa, de Botafogo, de Copacabana, de qualquer lugar que lhes ofereça um palco, corre viva esta criativa usina de ideias harmônicas.
As canções talhadas pelo Eletro têm contradições fechadas, são traidoras entre si. Emulam tristeza profunda como na oitentista A noite e a luz e na balada matadora Prisioneiro; encasquetam na suprema felicidade ainda inédita de Jabor em Pra continuar e Deixa viver; transitam, esperançosas, pelo chão molhado por mangueiras dos bares do Centro em Lembra o amanhã e Não precisa explicar; transportam poesia de um lado a outro da rua em Não precisa explicar e Dois fantasmas; e pedem, pelo amor de Deus, a passagem de misturas tão exatas e inexatas quanto Legião Urbana, Lobão e Blur (em Teatro das Seis).
Produzido por Daniel Lopes (Reverse, Leoni, Les Pops) e Lucas Duque (produtor de estúdio) e mixado por Clower Curtis no Estúdio Sonido (de Lopes), fez-se com o Eletro o que se espera de quem mexe na mesa. Manter o frescor, a pegada, o clima do palco, sem soar tosco ou sujo. Está tudo lá: a combinação baixo-bateria que por vezes cozinha em fogo de disco music, as duas guitarras que duelam elegantemente como numa exibição de polca, dobrando, complementando-se, e a voz de Nabeth, que emite cada palavra como se fosse a última coisa a dizer na vida. Canta com o coração, o fígado e o suor.
Nos versos que flutuam entre sons que prometem e cumprem pop rock de primeira, há trechos a destacar, como este de Não precisa explicar: “Era o destino/e se o acaso apenas lhe presenteasse/com um último cigarro/e a força do meu vento não o deixasse/dar um só trago/eu provaria pra nós, é tarde pra desistir/qual era mesmo o motivo?”. Tudo no meio do pau comendo solto, guitarras de rock de verdade, bases e dedilhados, entrecortadas, tudo soando no lugarzinho certo. Ou o desespero smithniano de Prisioneiro: “Não vá dizer que não sabe/não vá chorar por tão pouco/não vá dizer ‘vá embora’/eu perdi/aceito que perdi/sem mais o que perder/não quis te ouvir/a alma é o precipício do olhar/não vá dizer que não sabe/não vá chorar por tão pouco/não vá dizer...vá embora”!.
Há em Lembra o amanhã violão de 12 cordas, programações, teclados, guitarras dos mais variados timbres, conexões, referências pontuais. Mas o que há mesmo é uma intenção clara, uma linha, uma formulação prática, uma coerência sonora da primeira à última faixa. Não fosse isso, o Eletro cairia na pior armadilha do novo rock: a de sempre querer entrar numa turma. O Eletro paga esse preço de andar distante de panelas, a maior parte delas abrigando os sem-talento. Portanto, é obrigação dos desabrigados de boa música deixar de gastar a primeira rodada de chope e levar dentro do carro essa compilação da verdade do pop. Levar para dentro de si uma emoção que o pop varre a cada beat para baixo dos monitores de Pro-Tools.
POR: [Mario Marques]
Regular
Duetos
| Renato Russo
Separemos as coisas. Sim, é catolicamente condenável decalcar vozes de um morto para um disco de duetos. Ainda por cima no caso de Renato Russo – e sua Legião Urbana. O menestrel e sua banda têm seus resquícios autorais sucessivamente explorados pela EMI desde que o cantor das multidões nos deixou, em 11 de outubro de 1996. Neste ponto essa brincadeira já encheu. Mesmo. Mas, deixando de lado o tapume do descrédito, Duetos, idealizado pelo produtor Marcelo Fróes, não é de se carbonizar a ponto de assassinato recorrente. Mau gosto, mau gosto mesmo, é a união de Russo e Cássia Eller em Vento no litoral. Esta, sim, é uma atitude incômoda para quem ouve. Deveria ser para quem teve a ideia.
O disco reúne 15 faixas em duetos, algumas vozes recuperadas, em péssimo estado ou em límpido. Daí encontramos Russo e Marisa Monte, parceiros na esquecida Celeste; Mais uma vez,ai ai, de novo ela, com o 14 Bis; A carta, com arranjo sertanejo-country-Nashville, ao lado de Erasmo Carlos; Só louco e Esquadros, com Dorival Caymmi e Adriana Calcanhotto, respectivamente em 1994, registradas na casa do produtor José Maurício Machline, estas de qualidade abaixo da média; Catedral, dueto revivida aqui para a trágica versão para Cathedral song, é o ponto baixo de mais uma coletânea turbinada, com Zélia Duncan.
Entre as sessões de gravação de The Stonewall celebration concert (1994), Equilíbrio distante (1995) e O último solo (1997), lançado nem bem as cinzas de Russo se esvaírem, há as estranhezas da carreira do cantor, as coisas italianas. Ainda mais esquisitas revistas hoje sob outras perspectivas.
Sob base de músicos arregimentados pelo produtor Clemente Magalhães, ao se analisar o disco de uma forma global, com distanciamento estético, acaba se materializando uma colcha de retalhos da qual Russo não se orgulharia. Nem o formato, nem os arranjos, nem a qualidade, nem mesmo o tratamento dado à sua voz. Nada. Mas ruim não é.
POR: [Mario Marques]
Bom
El turista
| Josh Rouse
De Nebraska para Nashville para a Espanha. Este o percurso feito por Josh Rouse através de 37 anos de vida. Após sete discos, ele incorporou finalmente a mentalidade de cidadão do mundo. Vivendo como espanhol há cinco anos, achou na bossa nova e no samba muito do tempero de El turista seu novo disco. Além disso, a íntima proximidade com a cultura espanhola obviamente contribuiu para que a salada ficasse ainda mais rica. Também presentes, ritmos cubanos e africanos.
Recheado de arranjos orquestrais e percussões, El turista flerta com a música mundial assim como fez Paul Simon em seu Rhythm of the saints, mas sem a pompa deste, o que torna o trabalho bem mais intimista. Basicamente acompanhado de instrumentos acústicos, Josh se mostra bastante confortável ao cantar em espanhol em metade das canções do disco, muitas vezes inspirado nas paisagens de Valencia, onde mora com sua mulher, a também cantora Paz Suey.
Um disco pleno em sua forma e bastante emocional, apesar do lado pop bem forte, sempre tendendo para uma suavidade quase lounge. Seria um exagero injusto classificar El Turista, como um disco de world music, assim como é injusto classificar qualquer outro disco dentro dessa categoria, que engloba tudo que simplesmente não foi feito nos Estados Unidos ou Inglaterra. O que Josh tentou e conseguiu foi ser fiel e pessoal com sua obra, através da vida que se descortinou pra ele, em outra cultura, em outro continente. Cultura esta que ele fez questão de valorizar mesclando a um lado folk/country do interior norte-americano que ele trouxe na bagagem.
POR: [Paulo Loureiro]
Excelente
Congratulations
| MGMT
O objetivo era que o segundo disco de Andrew VanWyngarden e Ben Goldwasser, dupla americana que forma o MGMT, não tivesse singles. No meio do caminho, resolveram pelo menos oferecer um docinho para os fãs (a boa Flash delirium, lançada no site dos dois para download no mês passado) e... acabaram tendo a surpresa desagradável de ver todo o seu disco vazar na internet. O conteúdo de Congratulations, dependendo da disposição de quem o ouve, pode soar igualmente como uma surpresa das mais estranhas. Flash... o tal primeiro single, ainda se assemelha um pouco à faceta synth pop que se esperaria do MGMT, mas a banda ousou ao ficar bem mais offline do que no primeiro álbum. E mais ligada à psicodelia e à fritação de cérebros sessentista do que ao ambiente pop e decadente, embora visto com doses de ironia, do hit Time to pretend, da estreia Oracular spetacular (2008).
Van Wyngarden não mentiu quando afirmou, num questions & answers na Spin, que o disco “seria como um álbum de soul”. Pode até ter exagerado, mas sobra alma no disco. E experimentalismo também. O primeiro single, doidão na medida incerta, destrincha uma fileira de não-refrões, colados um no outro. Se a capa relata uma espécie de surf do LSD, a primeira faixa, a surfística e doiralhaça It’s working, põe o ouvinte no clima, com uma letra que fala em ruídos e luzes piscando – e que o cabeça da dupla confessa ter sido inspirada por (experiências boas e ruins com) ecstasy. Tais rajadas de luz e de som podem ser melhor apreciadas em Someone’s missing, totalmente anti-pop – uma melodia sessentista e quase beatle, cujo arranjo ganha progressões até o fim da música. E mais ainda nos doze minutos de Siberian breaks, canção que, de uma simples melodia folk, parte para um arranjo cheio de surpresas.
Já Brian Eno segue o mesmo esquema de homenagem-zoação que David Bowie, há quase quatro décadas, iniciou ao compor uma canção chamada Andy Warhol, louvando e pegando no pé do artista plástico. O fundador do grupo glam Roxy Music (cujos trabalhos, de todo jeito, ecoam no MGMT), ganha uma música com seu nome, que traz versos como: “estava seguindo os sons de uma catedral/imagine minha surpresa quando descobri que eram produzidos por Brian Eno (...)/se o céu fosse sintetizado, talvez você entendesse”. E talvez dê para botar na mesma conta o instrumental Lady Dada’s nightmare, uma das melhores composições de Congratulations.
POR: [Ricardo Schott]
Bom
The rise and fall of Beeshop
| Beeshop
“O Fresno é uma banda que a minha sobrinha ouve, mas eu ouvi falar que o vocalista tem um trabalho bem melhor, as músicas são melhores, são assim, assado, etc”. Quem freqüenta comunidades de discussão sobre rock, é amigo de jornalistas musicais, é jornalista musical ou se relaciona com gente minimamente interessada em música, já andou escutando essa frase. Primeiro: nada contra o som que as sobrinhas de 13, 14 anos ouvem, até porque nos últimos discos, o Fresno andou dando mostras de que está saindo fora do pé-no-brega de discos como Ciano e de músicas medonhas como Cada poça dessa rua tem um pouco de minhas lágrimas. E The rise and fall of Beeshop, estreia do tal projeto “adulto” de Lucas Silveira, vocal do Fresno, pode soar mais palatável até mesmo aos ouvidos de quem despreza a banda.
Com canções exclusivamente em inglês e quase todos os instrumentos tocados pelo músico – responsável também pela produção – o som pode até se roçar, por vezes, num som pouca coisa mais cru que o pop das boy bands ou do que o valha (Come and go, por exemplo, lembra o – aliás, lembra deles? – Savage Garden). Mas se referencia no Queen em Cookies, em Elton John na ótima All I need. E cai para cima de Paul McCartney em Driving all night long e na teatral Lovers are in trouble, de uma forma que talvez nem os maiores fãs do Fresno poderiam imaginar. Ainda tem bons rocks que soam como coisa de banda gringa, como a folk Rockstars and cigarettes e Victoria Indie Queen (vale citar que a letra desta última, irônica ou não, é um primor de bom-mocismo, narrando a paixão por uma menina emo que passou a andar com um bando de doidões – “você nunca havia se dado conta do quão perfeita você era ouvindo Fresno/e agora eu vejo você bêbada e perdida/com Ritalin numa das mãos”, diz a letra). A área do cara, já conhecida por sua banda-matriz, é devidamente explorada em canções como Mr. Confusion.
Não fosse Lucas vocalista de uma banda conhecida, seria o tipo de som que estaria sendo repassado de Myspace em Myspace e despertando curiosidades. Só não dá, ainda, para causar a mesma recepção redentora que Scott Weiland, dos Stone Temple Pilots, causou em boa parte da crítica quando lançou o solo pop e jazzy 12 bar blues, em 1997 (quem odiava a banda passou a respeitar o cara e a soltar venturosos “eu até que gosto dos STP” em festinhas). Mas nada impede.
POR: [Ricardo Schott]
Bom
Quando o tesão bater
| Sapatos bicolores
Dá até medo abrir o CD Quando o tesão bater, da banda gaúcha-brasiliense Sapatos Bicolores. Nenhuma repulsa: além da bela capa em digipack, ainda há uns dois encartes e duas folhas soltas (tudo em papel reciclado) com a ficha técnica, atraentes a ponto de nem dar vontade de mexer muito, para não estragar. Em meio à papelada, ouve-se o som de uma banda ligada ao rock dos anos 50 e 60, mas sem precisar de rótulos-gueto como “rockabilly”, como se percebe dando uma checada nas excelentes melodias e nas gravações cheias de peso e de efeitos do disco. É o caso da escancaradamente beatle Aeromoça, de Passagem pro inferno e de Febre alta, além da quase country-punk Sadie, além da nostálgica Vem viver. Já Analógico, uma das melhores, une metais de dixieland a um violão quase presleyano. E a faixa-título afasta a nostalgia e põe o punk, com baixo distorcido, na roda.
A produção, feita por Gustavo Dreher, não permite indigências – nada é rascunhado, tudo ganha bastante peso e um capricho que, em outros tempos, seria associado aos lançamentos feitos por grande gravadoras (e vale citar que o disco ainda ganhou tratos no West West Side Music, em Nova Jersey, EUA, onde foi masterizado). As técnicas de gravação dos anos 50, com eco nos vocais e nas guitarras, à moda dos álbuns de Gene Vincent, tornam especiais músicas como Ela é bicolor. Nas letras, ao contrário do que é costumeiramente associado a bandas que escolhem o tesão como razão de viver, há bem pouco machismo.Quase tudo é romantismo, mas por um viés safado, como na sacanice de Sadie (que, em bom gauchês, pede: “tu esqueceu um par de meias que eu usei pra te amarrar/Sadie, essa vergonha não combina com você”). E não fosse a qualidade dos músicos, canções boas como Você não vale nada sequer sairiam do lugar, com ou sem boa produção. Muito recomendável.
POR: [Ricardo Schott]
Bom
A curious thing
| Amy MacDonald
Ainda bastante desconhecida fora de sua Escócia, Amy MacDonald acaba de lançar seu segundo disco A curious thing, após um relativo sucesso nas paradas daquele país e de outros quatro pela Europa com This is the life. Autodidata mas filha de músico, Amy aprendeu a tocar através da internet, no violão que vivia no chão da casa. Aos 12 anos já fazia suas primeiras melodias e não levou tempo para que enveredasse em uma carreira solo pelo circuito de bares e pubs de Glasgow. A partir daí, foi um passo para o resto da Escócia e a gravação do primeiro álbum.
A curious thing é o teste mais difícil da carreira; a síndrome do segundo disco. Amy, no entanto não se deixou abalar e fez um disco notavelmente mais maduro do que seu antecessor. Sua voz está mais segura e não tem aquele exagero de maneirismos que algumas de suas conterrâneas tem, como Dolores O’Riordan, dos Cranberries. O sucesso de seu primeiro trabalho parece ter feito somente bem a ela. As letras, mesmo que não tendo profundidade suficiente para diferi-la do atual contexto pop europeu, também não fazem feio. Um dos temas mais comuns é exatamente a relação com a questão do sucesso ou de como as pessoas lidam com ele; de um lado ou de outro.
Musicalmente, A curious thing é divertidamente eclético, mostrando o lado country de Amy (This pretty face), a parte folk mais adocicada (My only one), a inevitável pitada U2 (Give it all up) e outras influências bemvindas, do naipe de R.E.M., The Corrs ou até The Smiths. Amy inclusive faz uma versão bastante simpática somente ao violão, do hit de Bruce Springsteen, Dancing in the dark. A curious thing não é um petardo, mas o produto de uma jovem artista em evolução com personalidade nas composições e na voz.
POR: [Paulo Loureiro]
Regular
É pop!
| Vários
Nem tudo no pop de hoje, coletado neste CD da Som Livre, reluz como ouro. Tem o pop meio vazio, mas competente, de Katy Perry, que corre por fora sem pretensões ao posto de nova Madonna – mas joga areia na alegria de I kissed a girl com a mela-cueca Thinking of you. Tem a ótima Sunday morning, do Maroon 5, que deve muito de sua energia quase glam a muita coisa do pop oitentista, mas cruza guitarras em seu som de fácil digestão.
Tem o som meloso de James Blunt, com duas (!) músicas, Carry you home e o sucesso Same mistake, que só tendo paciência de santo para aturar – reconheça-se pelo menos que o moço tem muitos admiradores. Tem Lily Allen indo além na boa e triste The fear, que em nada lembra o sonzinho frouxo de seu primeiro disco e pode conquistar novos fãs. E o pop-rock quase perfeito, de belas e trabalhadas canções, do The Fray em Over my head, além do som cabisbaixo, e apenas razoável, dos ingleses do Ben ‘s Brother em Let me out.
Para quem não conhece, a surpresa é o som pianístico de Sara Bareilles, belo em seus poucos acordes e lembrando algo perdido em meio a Abba e Elton John, com Love song. O lado mais bobinho do CD (além do onipresente Blunt) é representado pela batidinha caidaça de Jordin Sparks com Tattoo, pelo som sem graça de Timbaland (com o One Republic em Apologize) e por Chris Brown, que com With you dá a impressão de ter copiado montes de boys bands dos anos 90.
POR: [Ricardo Schott]
Bom
BK3
| Bruce Kullick
O guitarrista Kullick hoje se divide entre inúmeros projetos, como sua própria carreira solo e a enésima formação (bastante desfigurada) do Grand Funk Railroad, monolito hard rock dos anos 70. Mas sempre será lembrado por ter sido o bom músico que segurou as seis cordas durante o período mais controverso da história do Kiss – a época sem máscara, na qual a potência hard-pop dos primeiros álbuns do quarteto alcançou níveis de choramingação e baba inimagináveis (até em trilha de novela o grupo esteve durante essa época).
Chegar a um consenso sobre discos horríveis – mas que muitos kissmaníacos cultuam - como Hot in the shade (1989) e Carnival of souls (1997) é quase impossível, claro. No entanto, em seu terceiro solo, BK3, Kullick mostra superioridade em relação à época 446 (como diria Tim Maia, falando sobre coisas que são tão ruins que não merecem nem nota 5) que passou no Kiss.
É claro que as coisas não são tão simples assim: o álbum soa menos como um trabalho individual e mais como um projetão bem armado, coalhado de convidados. Mas também cheio de canções que engrenam. Entre presenças marcantes como as do ex-patrão Gene Simmons, no hino Ain’t gonna die, e de Tobias Sammet (Edguy e Avantasia) na platinada I’m the animal, acha-se sons oscilando entre o hard rock e o punk (a abertura, com Fate,com vocais lembrando os de Scott Weiland, dos Stone Temple Pilots), uma chance para o filho do ex-chefinho (Nick Simmons, herdeiro do linguarudo do Kiss, na legalzinha Hand of the king), algumas canções belas e pesadas (como And I know e as baladas I’ll survive e Life) e um tema instrumental de boa qualidade (Between the lines).
POR: [Ricardo Schott]
Bom
Superguidis
| Superguidis
No Brasil, vai entender o motivo, poucas bandas procuraram entender o rock pós-grunge. Ou mesmo reproduzi-lo, ou usá-lo como base. Ou qualquer coisa. Com raras exceções (e praticamente nenhuma delas dizendo “presente!” no mainstream), depois da morte de Kurt Cobain, o som de três-quatro acordes feito no Brasil, engatou a quarta marcha e seguiu na direção do skate-rock, passando direto pela estética e pelo estilo Charlie Brown Jr de ser e de viver . E seguindo, com poucas escalas, até o som de Los Hermanos. Aparentemente, só Pitty chega perto de ser a versão brasileira de um guitar rock nada indie, nada afetado e com uma atitude mais próxima dos anos 70 e 90.
Louvável que uma banda como os Superguidis, com repertório cheio de canções emocionantes e guitarras pesadas – um estilo que foi seqüestrado pelos moleques do emo e recusa-se a se renovar no Brasil – exista e chegue ao terceiro disco. Tem muito de Foo Fighters, Smashing Pumpkins e Sonic Youth (além do próprio Nirvana) ali sim. Mas tem muito da cara própria deles, da felicidade em fazer refrões e melodias bacanas como as de Não fosse o bom humor, Fã clube adolescente, Quando se é vidraça e Visão além do alcance. E de usar uma referência que, para ouvidos atuais pode até soar alienígena (a abertura do álbum é com uma balada acústica, lindíssima, chamada Roger Waters). Os gaúchos continuam numa linha que agradaria bem mais se saísse dos circuitos independentes e chegasse às rádios. O som tem lá seus lados românticos, mas sem apelar (em De mudança), embora o grupo prefira mesmo é botar na frente sua faceta mais crua, que não precisa de muitas frases bem sacadas nas letras para soar bem no ouvido. Grande disco.
POR: [Ricardo Schott]
Bom
Mosaico
| Beatrice Mason
Criada no som clássico e dona de uma bela voz, a carioca Beatrice Mason deixou seu lado erudito de fora de sua estréia, Mosaico, lançada no ano passado de forma independente e agora relançada pela Universal. O disco, diferentemente do que seu nome possa deixa transparecer, tem unidade e traz MPB filtrada pelo pop. É o que se ouve a partir da primeira faixa, um curioso Samba mínimo (Delia Fischer), sem a menor aparência de samba, traçado por discretas programações e por riffs orientais e meditativos, além da harpa de Cristina Braga. Em seguida, vem a latinidade da bela Foi no mês que vem, de Vitor Ramil, e da releitura de Caramel, do repertório da folksinger Suzanne Vega, marcado pela percussão de Marcos Suzano.
A preocupação de entregar no CD um pop repleto de detalhes de gravação continua numa das melhores músicas,, Algum mistério – composta por Marcelo Caldi, Mauro Aguiar e pelo produtor do disco, Rodrigo Campello, presentes em praticamente todo o CD. E que, ao lado de nomes como Suzano (percussão) e Junior Tostoi (guitarra), conferem grande personalidade às músicas. Em Oração blues, de Rodrigo Maranhão e Pedro Luís, Tostoi assina até a pré-produção de uma gaita tocada por Gabriel Grossi, que surge nas caixas acústicas coberta de efeitos.
A aclimatação jazz-MPB que aparece em algumas interpretrações de Beatrice e da banda (destaque para o sensível baixo acústico de Jorge Helder) ganha mais força em canções como Lily Blonde (de Edu Krieger), referência à História de Lily Braun, de Chico Buarque. Ou na tranqüila Na beira do rio, de Chico Pinheiro e Paulo Neves, com sopros destacando as flautas em sol de Andrea Ernst Dias. Ao final, um lado mais bossanovista em O tempo do querer (Marcelo Caldi e Edu Krieger) e a terceira releitura do disco, Madre Tierra, pop-folk com a assinatura de Jorge Drexler, em bela versão.
POR: [Ricardo Schott]
Excelente
The Pursuit
| Jamie Cullum
O jazzman britânico volta em forma ao piano e com um álbum bem mais comercial em The Pursuit, se comparado aos discos anteriores. Enveredando claramente para vertentes mais pop, Cullum dá a sua cara às fórmulas mais conhecidas dos gêneros e apresenta um disco maduro, ainda com maior cruzamento de estilos, certamente sua maior virtude.
One of those things, um cover da balada jazz de Cole Porter arranjado por Frank Foster, abre o disco ao melhor estilo de Cullum e não indica muito bem o caminho que veremos nas músicas seguintes. A versão, apesar de convenientemente amparada por uma big band, não é de suas mais inventivas, lembra as suas principais faixas dos primeiros discos, um tanto jazz genérico dos anos 60. Vemos, claro, pequenos traços de releitura, mas em essência é apenas jazz (o suficiente para muitos).
O single I’m all over it vem em seguida e escancara as aspirações do jazzman com o álbum. Cullum, do alto de seu brilhantismo jazzístico, desce de seu pedestal de prodígio do gênero para produzir uma canção comercial até a alma. O resultado? A melhor música do disco e, possivelmente da sua carreira. Absolutamente grudenta e com uma linha melódica viciante, a música pode até remeter a muito do que vemos no indie rock por aí, mas tem a assinatura de Jamie Cullum nos arranjos.
O single apresenta Cullum mergulhando no indie rock. Vemos o mesmo na suave Wheels, que vem vem em seguida. A música lembra o piano rock do Keane e um tanto The Killers nos refrões. Também comercial, ouvimos uma batida pop guiar toda a melodia, embora mascarada nas escovinhas do jazz. A dobradinha de I’m all over it e Wheels representa o ponto alto do disco, que a partir daí apresenta alguns baixos, mas outras excelentes canções.
Love aint gonna let you down é uma belíssima balada soul ao piano com bons versos e refrão emocional, que constrasta diretamente com a levada rock de Mixtape, que vem em sua cola. Na lenta If I ruled the word, vemos Cullum se perder um pouco na melodia arrastada, mas You and me are gone trata logo em seguida de correr na contramão: embalada por percussões latinas aceleradas e piano cabaré com traços incidentais de jazz, representa bem o brilhantismo de Cullum no cruzamento de gêneros que admiramos.
Seguida à lenta I think I love, nos deparamos com a excelente We run things. A música cativa com versos grooviados e com refrões soul modernosos na medida certa, que lembram muito a linha de Amy Winehouse. Supreendendo no fim, Cullum apresenta a quase eletrônica Music is through, que transporta o pianista aos teclados. A música, embalada por sintetizadores nos versos (uma verdadeira novidade para Cullum), encerra bem o disco desse jazzman que ama o pop e que, por isso, soa sincero ao fazê-lo.
POR: [Philippe Noguchi]
Fraco
My world 2.0
| Justin Bieber
Depois do industrializado e desalmado My world, o astro mirim canadense Justin Bieber segue com sua incursão pela vertente mais pop possível do hip hop em My world 2.0. O título engana: 2.0 não é uma evolução, mas sim um trabalho igualmente sem graça, mas com muito mais foco. Melhor? Não. Mas mais promissor.
O primeiro disco claramente chamou a atenção de alguns grandes nomes do hip hop e R&B. Enquanto My world tinha apenas a bênção de Usher, a versão 2.0 conta com Ludacris, Sean Kingston e Jessica Jarmell em parcerias com Bieber. Desta vez, o garoto tem uma voz menos afeminada, embora não menos afetada. Os auto-tunes, batidas farofeiras (e prontas para o sucesso nas pistas), overdubs e modulações de voz ainda transbordam, mas o disco abandona um pouco o ar Backstreet Boys em início de carreira de seu antecessor. É uma aproximação clara com o R&B e o hip hop. Ainda é açucarado, mas o garoto dispara, ocasionalmente, alguns versos acelerados. Esse rapazinho canadense ainda precisa comer feijão com arroz para alcançar Ludacris, como fica claro na primeira faixa, Baby, mas quem sabe um dia ele chega lá.
Runaway love tem uma boa base de verso. Sintetizadores carregam uma melodia interessante, grave e densa. O outro até mesmo arranca boas melodias da voz esganiçada de Bieber. Uma faixa interessante que, se pautar os trabalhos futuros do canadense, pode assinalar bons discos no futuro. Com That should be me, novamente, Bieber fecha um disco com uma balada. E essa não é das piores. O garoto se esgoela em uma faixa redondíssima, feita para o rádio.
Não é bom, mas, assim como My world, não é ruim. My world 2.0 não é exatamente um avanço em seu antecessor, mas sim uma visão mais focada e melhor executada. É pop R&B, é diluído, é o Vanilla Ice mirim. Mas é hit. Se Bieber continuar chamando atenção, pode chegar ao My world 5.0 sem um disco bom, mas vai ter como parceiros Jay Z, Kanye West e outros gigantes do mundo hip hop. E com padrinhos desse porte, ele está feito.
POR: [Gerhard Brêda]
Bom
Teen dream
| Beach House
Ainda sem muito nome por aqui, o duo de Baltimore, Beach House lança seu terceiro disco. E aposta na fórmula que o fez evoluir desde seu debut homônimo, através de Devotion, culminando com o que está sendo considerado seu melhor momento, Teen dream.
Não se deixe levar por nenhum dos dois nomes: o da banda e o do disco. Não há nada praiano nem teen no som deles. Há sim angústia, lirismo, romantismo, reflexos de psicodelia saudável e melodia. Alex Scully e Victoria Legrand (sobrinha do compositor Michel Legrand) se isolaram em uma igreja adaptada para gravações no norte de Nova Iorque ao lado do produtor Chris Coady. O afastamento parece ter sido vital para a atmosfera do disco, que combina bem órgãos sessentistas e batidas minimalistas, melodias otimistas e harmonias que remetem desde a The Cure (Lover of mine) como a R.E.M. (Used to be).
O timbre grave e espacial de Victoria Legrand se encaixa com perfeição nas canções do duo, apesar de não ser uma exímia cantora. Talvez pela genética que herdou, seu grande trunfo está nas melodias, sempre intrigantes. Na parte instrumental, tudo muito simples, básico e bom. Instrumentos fazendo o necessário e as apostas todas no fundamento que é a boa canção. Arpegios recorrentes colorem o som opaco/climático da gravação em geral resultando em uma assinatura bastante convincente de Chris Coady.
A parte rítmica talvez seja o ponto mais baixo da produção. As programações parecem ter sido feitas às pressas e sem muita atenção, e as idéias são fracas e repetitivas. Onde o simples vira quase infantil.
Traçando um paralelo com o que está acontecendo hoje no cenário, Beach House é diferenciado pelas boas referências, pela experiência e comprometimento com a evolução e a certeza de que esta vai continuar.
POR: [Paulo Loureiro]
Regular
Believers never die - Greatest hits
| Fall Out Boy
Esta é uma compilação de singles da banda emo americana, que traz apenas quatro músicas inéditas. As músicas dispostas em ordem cronológica permitem uma conclusão simples: o Fall Out Boy é uma banda que evoluiu uma barbaridade, mas não o suficiente.
O começo do disco beira o irrelevante: faixas completamente genéricas, adolescentes e cheias de fórmulas que marcaram o início carreira da banda. Saturday é uma delas e exemplifica bem como a banda parecia perdida nesse primeiro momento. No meio do refrão ouvimos gritos rasgados e graves em backing vocals quase guturais (?!).
Aos poucos chegam canções com mais personalidade. A partir de This ain’t a scene, it’s an arms race, o Fall Out Boy parece assumir o pop-punk-dançante-despretencioso do primeiro hit que emplacaram, Dance, dance, e convivem muito bem com isso, obrigado. Outras como I m Like a Lawyer… e The take over, the break s over são pegajosas e tem bons versos, melodicamente ricos, que enfraquecem com refrões genéricos (uma insistência da banda).
Impossível também não reparar a evolução das letras. De conflitos adolescentes estampados nas terríveis Dead on arrival e Where is your boy, ouvimos ainda despretenciosos, mas marcantes versos em I don t care. A banda não deveria fugir disso, pois falham quando procuram construir algo mais poético como em What a catch, Donnie, que é um pouco piegas e constrange um pouco.
Embora reconheça as limitações do Fall Out Boy, alimento desde que o grupo surgiu no mainstream uma simpatia grande por este quinteto. Estamos diante de uma banda positiva, despretenciosa e, sobretudo, sincera. O Fall Out Boy nunca se propôs a fazer nada mais que um pop rock otimista.
Certamente construir uma personalidade não foi o suficiente para a banda de Chicago. Mas, gostemos ou não do estilo criado pelos caras, admitamos: ela está ali. Ponto. E isso já é o bastante para não atirarmos o Fall Out Boy no mesmo limbo onde agonizam uma infinidade de bandas de hardcore emo.
POR: [Philippe Noguchi]
Regular
Relapse: Refill
| Eminem
Este é o aguardado relançamento de Relapse, disco lançado por Eminem em 2009. Com apenas sete faixas, o disco é o que seu nome sugere: um refil de músicas que acabaram não entrando no álbum original. E, como o próprio Eminem já disse, é também um presente para os fãs na expectativa por Relapse 2, que será lançado ainda em 2010.
Em Relapse: Refill, Eminem cai numa armadilha conhecida do rap/hip hop: é temático em boa parte das faixas. O rapper recorre a clichês, ornamentando faixas como Music box com melodias de caixinhas de música, ou Drop the bomb on ‘em com, adivinhem, sons de bombas explodindo. É quase como se pudéssemos esperar o que estar por vir somente pelo nome da música.
O disco acerta, entretanto, em dois momentos: quando faz algum tipo de croosover com outros gêneros, como em Buffalo Bill, que brinca com sonoridade latina; ou quando explora Eminem naquilo que faz melhor: humor. Há um resgate desse lado em Elevator, uma boa faixa que lembra o debute do rapper em 1999, The Slim Shady, com trombones e fagotes embalando os versos rápidos.
A grande maioria das músicas tem personalidade (esse, definitivamente, não é o problema do disco), mas não tem um grande delivery do rapper. É o caso Hell breaks loose, embalada por violinos agudos criando uma atmosfera de urgência, com versos que deixam a desejar. E de Taking my ball, com um background árabe nos versos, mas com um refrão cantado por Eminem (quase sempre um erro).
Seguindo a tendência irremediável e generalizada do gênero, o grande single do disco (e sensação das noitadas), Forever, está entre as piores faixas: é realmente interminável. A música é uma parceria com Drake, que canta o refrão, intercalado com versos de Kanye West, Lil Wayne e Eminem, que com erros e acertos, não cria um grande álbum, mas faz o suficiente para se manter entre os melhores e mais criativos do rap, talvez um feito não tão grande assim.
POR: [Philippe Noguchi]
Bom
We are here
| Apparatjik
Formado originalmente para a gravação da música Ferreting, que faz parte da coletânea beneficente Songs For survival, da BBC, o supergrupo Apparatjik parece ter chegado para ficar. Formado por Magne Furuholmen (vocalista da banda dinamarquesa Mew), Magne Furuholmen (tecladista/guitarrista do A-Ha) e Guy Berryman (baixista do Coldplay) e o produtor Martin Terefe, a banda lançou há pouco menos de um mês seu primeiro álbum oficial, We are here.
Por suas 11 faixas passeiam canções que lembram as melodias etéreas do Mew, com pitadas do synthpop do A-Ha e um pouco do rock apoteótico do Coldplay, tudo num mix recheado de instrumentos eletrônicos usados para tornar o som mais experimental, mas sem deixar de lado a melodia.
Gravado inteiramente no estúdio de Magne Furuholmen, na Noruega, We are here mostra que o Apparatjik não é apenas um projeto de diversão dos músicos de férias de suas bandas principais, mas sim algo que possa abrir uma nova perspectiva para todos os envolvidos nesse projeto.
POR: [Luciano Vianna]
Bom
Quarantine the past
| Pavement
Disco do ano. E ponto final. Mais do que uma espécie de greatest hits de uma banda que nunca teve um hit de verdade, Quarantine the past traz 23 músicas que não envelheceram um segundo, apesar de terem sido lançadas entre 1989 a 1999.
Maior das bandas menos conhecidas dos anos 90, o Pavement se não criou, pelo menos foi o principal responsável pela "popularização" da estética lo-fi. Eles não sabem tocar direito, cantam desafinado, mas mesmo assim criaram pérolas pop como Stereo, Cut your hair, Here, Shady lane, Summer baby e a sublime In a mouth a desert, só para citar algumas.
Stephen Malkmus e companhia escolheram a dedo as 23 faixas do álbum, que traz desde lado B, faixa de coletânea, músicas da fase mais experimental até músicas pop perfeitas, todas remasterizadas digitalmente, o que deixa o som do disco com uma coesão impressionante em comparação com as músicas originais.
Quarantine the past foi criado para que seu lançamento coincida com a turnê de volta do grupo que durante oito meses (pelo menos por enquanto) vai se apresentar por todo o mundo para plateias muito maiores do que tinham antes da separação.
Com sua volta e o lançamento de Quarantine the past, o Pavement vem mostrar ao grande púbilco por que, ao lado do Pixies e Nirvana, é uma das três maiores bandas de rock surgidas nos Estados Unidos nos últimos 20 anos. Nota 10. Com louvor.
POR: [Luciano Vianna]
Regular
Rebirth
| Lil Wayne
Podia ser pior... O sétimo álbum de estúdio do rapper americano Lil Wayne chegou às lojas recheado de expectativas, afinal, foram meses e meses de sucessivos adiamentos desde que o rapper anunciou no twitter que havia encerrado as gravações até o lançamento oficial de Rebirth. Com essa demora toda logo começaram a aparecer boatos de que o disco teria sido rejeitado pela gravadora e que outros produtores estariam colocando sua mãozinha para tornar o álbum mais comercialmente viável.
A curiosidade é que, no final do ano passado, por um erro da loja Amazon, centenas de fãs que haviam feito a pré-reserva do disco em mp3 receberam o álbum por e-mail acidentalmente, o que possibilitou que Rebirth fosse rapidamente para os sites de download grátis quase dois meses antes do seu lançamento oficial.
Mas o que importa para a gente é que Rebirth finalmente viu a luz do sol oficialmente e, apesar das críticas negativas da grande maioria das publicações americanas, estreou como número 2 na parada da Billboard, vendendo quase 180 mil cópias na primeira semana.
Nas gravações, Lil Wayne comentava sobre o álbum como se ele fosse o seu “rock álbum”. E o disco mostra ser um bom crossover de hip hop e rock, com participações dos garotos do Fall Out Boy, de Eminem, Lenny Kravitz e do baterista Travis Barker, do Blink-182, além de músicas produzidas por medalhões como DJ Infamous, Cool & Dre e DJ Nasty.
O que estraga um pouco o clima mais pesado de Rebirth são as baladinhas, mal necessário em todos os álbuns de hip hop hoje em dia. Outro ponto negativo é o fato de Wayne cantar em quase todas as músicas usando o recurso do Autotune, que transforma artificialmente a sua voz pouco potente.
Ponto para Wayne por ter tido a coragem de tentar se transformar como artista num ponto de sua carreira em que ele não precisaria mais disso para aparecer. Mas, até mesmo como uma prova do seu talento como rapper, o melhor de Rebirth são as faixas “tradicionais” de hip hop, nas quais ele versa muitas vezes sobre o cotidiano de New Orleans, sua cidade natal.
POR: [Luciano Vianna]
Excelente
Family Jewels
| Marina and the Diamonds
Marina Lambrini Diamandis. Com um nome desses, uma mistura de italiano com grego e de origem galesa, já poderiam prever um grande futuro para essa britânica de apenas 25 anos. Aproveitando o sobrenome para se batizar artisticamente, Marina deu o que falar ano passado, fazendo shows sempre lotados mesmo antes do lançamento do seu primeiro single, o que deu a ela a oportunidade de se apresentar em festivais como o Glastonbury e Reading, na Inglaterra.
Eleita em segundo lugar na lista da BBC de nomes para se prestar atenção em 2010, Marina and the Diamonds mostra agora, com seu álbum de estréia, se todo o hype em cima do seu nome é justificado. E para esse crítico que vos escreve é justificadíssimo... Family Jewels é um dos melhores discos pop inteligentes lançados nos últimos anos. Na verdade Marina and the Diamonds é tudo o que o Ting Tings prometeu ano passado mas não conseguiu cumprir em seu álbum de estréia. Mostrando músicas que vão agradar desde os adolescentes catadores de MP3s em blogs moderninhos até coroas antenados que ainda insistem em comprar CDs.
“Hollywood” foi o primeiro single. Escolha estranha, visto que tem músicas muito mais representativas do álbum, mas, mesmo assim, o single entrou nas primeiras posições da parada de sucesso inglesa. O engraçado é que, ao fazer 20 anos e depois de incontáveis bandas sem sucesso na adolescência, Marina resolveu aprender a tocar piano e criar ela mesma, sozinha em casa, as músicas que se tornariam o álbum Family Jewels.
Ecos de techno-pop dos anos 80 permeiam todo o disco, principalmente por influência de bandas como Sparks e Eurythmics, mas sem o ranço excessivamente saudosista de tantos grupos por aí e com uma vocalista de personalidade que parece rumar a passos largos para o estrelato. Em resumo, Marina Diamandis fez em Family Jewels um álbum que, desde já, posso afirmar que vai estar em todas as listas de melhores do ano de poprock.
POR: [Luciano Vianna]
Bom
Troubador
| K´Naan
Misturar música Africana com hip hop pode dar um bom samba. Em Troubador, o rapper somaliano K´Naan mostra que usar e abusar das raízes da cultura negra num mix de modernidade pode soar muito bem. Gravado na Jamaica, no mesmo estúdio caseiro onde Bob Marley gravou as demos de muitos dos seus clássicos, Troubador se mostra internacional ao misturar reggae, dancehall, hip hop, música tradicional africana e até rock´n´roll.
A história de vida de K´Naan é simbólica. Fugitivo com a família da guerra civil no Somali, eles se refugiaram na América do Norte, onde K´Naan aprendeu inglês ouvindo discos de rap e em centros culturais voltados para os refugiados africanos. Logo começou a fazer seus próprios versos, misturando impressões sobre a sua nova vida com lembranças de sua infância na Somália. Todo esse caldeirão de influências explica um pouco essa diversidade de ritmos em Troubador. Apesar de o hip hop ser a linha mestra do disco, traz colaborações com nomes como Damian Marley, Adam Levine (Maroon 5), Kirk Hammett (Metallica), Mos Def e outros que acrescentam suas influências à música de protesto de K´Naan.
Algumas publicações europeias chamaram o disco de pretensioso, enquanto outras louvaram a capacidade de K´Naan de circular bem por todo o espectro da nossa música pop sem diluir suas letras ácidas e de protesto. O curioso é que, mesmo de temática difícil, K´Naan parece ser queridinho da empresa de games EA Sports. Músicas de Troubador figuram como trilha sonora de jogos de vídeo-games como Madden 09, Fight night round 4 e NBA 2K10. Além disso já foi anunciado que Wavin flag, canção do álbum que conta com a colaboração do cantor espanhol David Bisbal, será tema do jogo 2010 Fifa World Cup. É a globalização da música de protesto.
POR: [Luciano Vianna]
Fraco
The Soft Pack
| The Soft Pack
O Soft Pack é um grupo malandro, que pode bem enganar quem tem pouco tempo de estrada. Porque o som do disco de estreia da banda, de saída, soa interessante e enche de esperança o ouvido. O beat direto e reto da bateria, a guitarra barulhenta e o vocal firme do quarteto californiano parecem coisa de quem cultiva o rock na veia, com mais energia do que firulas, que faz a alegria de quem ama Chuck Berry, Ramones e Arctic Monkeys.
Ao fim da audição das 11 faixas do disco de estreia do quarteto, a soma dos detalhes espertos revela a ausência de criatividade e o aproveitamento murídeo da herança dos grandes heróis do rock n roll. Não se trata de somar referências, mesmo que ao excesso para formatar um som próprio, como já fez o Oasis em outros tempos, porque não há nada de marcante ou peculiar no som dessa banda.
O que sobra é um desfile de faixas repetitivas, com uma guitarra chupada dos Ramones em Pull out, uma melodia com fraseado dylaniano em C mon, uns vocais do earlier The Who em Down on loving, uma levada sub-Cake em Mexico e por aí vai. É tudo bem embaladinho, mas o conteúdo é quase nada. Detalhe desimportante: a banda já se chamou The Muslims. Ô nome bom para um grupo californiano.
POR: [Dirley Fernandes]
Bom
Astro Coast
| Surfer Blood
Este é o ensolarado debut do Surfer Blood, quinteto da Flórida e um dos grupos nerds da nova leva de bandas indies. Por baixo de uma máscara de surf music ingênua e tímida, Astro coast esconde músicas com personalidade e boas melodias. O rock fácil da banda lembra aquele produzido pelo Weezer ou Pavement nos anos 90, ou o do Kaiser Chiefs atualmente. É cru e simples, mas não simplório.
A banda traz bons refrões, que, apesar de soarem um pouco imaturos, são grudentos e amigáveis. O single Swin tem com certeza o melhor deles. A música vai de uma levada quase punk rock a um curioso interlúdio que lembra muito música latina - algo que o Weezer, por exemplo, sempre gostou de fazer.
Outras faixas também se destacam, como a inteligente Harmonix, que tem os versos tocados sugestivamente em harmônicos de guitarra (um fenômeno físico que ocorre nas cordas e que geram um efeito sonoro agudo característico). A música mais uma vez remete aos anos 90, com versos à la R.E.M. e refrões que são Oasis até a alma.
A intensa (e longa) Slow jabroni é outra boa faixa. Sai de versos graves e densos para um refrão leve e brilhante. Floating vibes abre o disco dando ótimas expectativas e é, talvez, a melhor faixa, com bons riffs, melodia praiana totalmente irresistível.
De forma inusitada, a banda acabou rejeitando os estúdios e resolveu gravar e mixar o álbum quase totalmente dentro do apartamento do guitarrista. Resultado: o debut ganha ainda mais identidade e consegue fugir do genérico com uma preocupação extra de timbragem dos instrumentos.
Por outro lado, os reverbs exagerados nas vozes e instrumentos também contribuem negativamente para o resultado: acabam embaçando as boas melodias e transformando uma parte das faixas numa grande massa sonora.
POR: [Philippe Noguchi]
Regular
Plano de fuga pra cima dos outros...
| Letuce
O Letuce, projeto da cantora Leticia Novaes (que participava dos shows de João Brasil, aquele do Pau molão) e do músico Lucas Vasconcelos, do grupo Binário, é uma excelente ideia. Pelo menos no papel: um músico de boa procedência; uma bela vocalista; letras e referências safadas (Caso sério, de Rita Lee e Roberto de Carvalho, foi regravada em francês, com vocais herdados de Edith Piaf, e virou Sérieuse affaire); um pop que, diz o release, teve como inspiração o show de Patti Smith no Tim Festival, no qual a diva punk declarou, no palco, que a guitarra é a única maneira de se fazer uma revolução.
No geral, o que dá para dizer é que Plano de fuga..., disco que, afirma o encarte, “foi feito com calma”, pode ter sido fiel a seu conceito. E o conceito, ouvido daqui, soa como uma música mais rascunhada do que artefinalizada, tendendo a uma cabecice estranha – algo que soaria como um mérito em outros trabalhos, mas que, no caso da dupla, deixa lacunas, como acontecia nos momentos em que o Kid Abelha queria tirar onda de sério, gravando um disco chamado Tomate (1987) e musicando letras do arroz-de-festa Jorge Mautner.
Isso acontece nos vocais incertos de Leticia e em algumas melodias e letras que parecem inacabadas – exceção feita a Darwin s fairy tale, Binóculos, Horizontalizar, Seresta quentinha. O engraçado é que parece tudo bem menos animado do que nos shows da dupla. Que, no disco, relê Rita Lee, Roberto de Carvalho e Marina Lima (tem uma versão de Acontecimentos) e dá a entender que o ideal pop do Letuce ainda pode ser outro, tão sofisticado quanto acessível. Vá ao show e espere o próximo disco.
POR: [Ricardo Schott]
Regular
Odd blood
| Yeasayer
Querido leitor, desconfie do hype. O Yeasayer é um quarteto nova-iorquino de música pop experimental ao qual a crítica é só elogios desde que lançou o álbum All hour cymbals, em 2008. Misturando elementos do pop, música indiana e do leste europeu, foi rapidamente considerado a salvação.
Odd blood não é um disco ruim, mas está muito longe de ser tudo isso que anunciam por aí. Não é um disco fácil, contudo. Só depois de duas ou três audições começa a cativar em algumas músicas. Causa imediatamente um grande estanhamento com a faixa de abertura, The children, profundamente desinteressante e monótona, dois crimes capitais para quem produz um álbum pop.
O single do disco, Ambling alp, chega com muitos sintetizadores e samplers e, não por acaso, é a melhor faixa do disco. E uma das poucas músicas que reúne as referências da banda de forma minimamente interessante, com personalidade e, principalmente, algumas sonoridades inovadoras.
As músicas, essencialmente, são uma salada de tudo que você já conhece, com uma pegada anos 80, o que por alguma razão incomoda. A referência à década é deliberada e faz questão de se mostrar faixa por faixa - às vezes pelos maus elementos que a marcaram, como a horrível batida sintetizada presente na maioria das canções.
Pouca novidade é colocada na mesa nesse disco, embora o Yeasayer venha sendo vendido como uma banda inovadora. Verdade seja dita: grande maioria desse disco poderia tocar em qualquer rádio 30 anos atrás sem causar qualquer tipo de estranhamento.
Algumas faixas como a dançante Mondegreen e a emocional Madder red se destacam com linhas melódicas bonitas e vocais bem trabalhados. Não conseguem, entretanto, salvar o Yeasayer. Odd blood é um disco pop que não gruda na cabeça, de uma banda com valor, mas superestimada.
POR: [Philippe Noguchi]
Regular
Transference
| Spoon
Em Transference, o Spoon embarca em duas missões distintas, o que acaba praticamente rachando este álbum em dois. A primeira parte, uma tentativa experimental que funde eletrônica com math rock, é uma boa aposta no papel, mas soa realmente lamentável na prática. O segundo deles, mais rock e simples, valoriza os vocais e letras de Britt Daniel e beira o brilhantismo, resultando num álbum verdadeiramente mediano por definição.
A banda apresenta um começo de disco completamente mecânico e confuso. Com um trio fraquíssimo de músicas na abertura, começa-se a temer pelo pior. Os arranjos, rasos, não sustentam as harmonias experimentais, apesar do esforço grande em se extrair bons timbres e texturas das cordas e sintetizadores (algumas músicas trazem camadas mais bem exploradas, como Before destruction).
Alguns sinais de melhora chegam com The mystery zone, que é uma boa canção, mas não impressiona. Apesar de longa demais, é pegajosa e simpática. Mas, se cria algum otimismo, Who makes your money, a faixa seguinte, trata de destruí-lo. Arrastada, esta poderia ser perfeitamente uma faixa do Gorillaz que não deu nada certo.
É quando chega aos seus ouvidos Written in reverse e você pensa: "Ok, essa música é sensacional". Então você escuta novamente e constata: "Não, não é brilhante, é somente uma faixa realmente boa depois de de um monte de canções muito ruins". É a faixa mais rock do disco e também a melhor - se não é o single, deveria ser. O groove com um quê de blues encaixa como uma luva na voz emocional de Britt Daniel. Entre uma leva de músicas esquecíveis, talvez seja uma que permaneça na memória.
A música abre os ouvidos para faixas melhores, que vêm em seguida. A descontraída Trouble comes running, e as melancólicas I saw the light e Out go the lights trazem um som cru, com identidade e refrões pegajosos. Got nuffin encerra bem o disco, mas não consegue anular o fracasso das faixas experimentais.
POR: [Philippe Noguchi]
Excelente
Broken Bells
| Broken Bells
Broken Bells é o nome do projeto paralelo do produtor e multiinstrumentista Danger Mouse (creditado no disco com o nome real, Brian Burton) e o vocalista da banda The shins, James Mercer. Broken bells, o disco, soa como um filho bastardo (e menos deprimido) do Amnesiac, do Radiohead, com o Demon days, do Gorillaz (este produzido por Danger Mouse). Burton mostra todo o seu talento ao arranjar belíssimas orquestrações com o vocal versátil de Mercer, além de tracks experimentais, com batidas eletrônicas. No disco, pianos aparecem sem prestar serviço ao ridículo, violões pintam sem soarem vazios e até um empoeirado rock organ sai da gaveta pra brindar os ouvintes em Sailing to nowhere, que também tem excelentes arranjos de piano, violino e voz. Mercer, aqui, soa como Fyfe Dangerfield, do Guillemots.
Diferentemente de muitos produtores atuais, que acham que sabem manipular o recurso das orquestrações, Burton sabe. Os arranjos não são baratos, não tentam tornar as músicas épicas. São arranjos naturais, não intrusivo, complementares e belíssimos. Se o disco tem um ponto baixo é na dupla Trap doors e Citizen. As duas canções não apresentam nada de muito impressionante, ainda que não deixem a peteca do disco cair. Mesmo em seus momentos menos brilhantes, o Broken Bells faz música bem composta, com bom uso de instrumentos acústicos e batidas eletrônicas. É bom, mas é desnecessário.
October abre com belos violinos e uma guitarra deslizante. Subitamente, a melodia se dispersa e Burton e Mercer trazem a faixa mais rock do disco, com ocasionais acordes (levemente) distorcidos. O segredo aqui é a harmonia de fundo, que guia a música mais do que a guitarra dedilhada, a batida tradicional 4/4, os acordes e a voz de Mercer. Escondida, nas sombras, ela leva a faixa nas costas.
Mongrel heart é uma faixa carregada pela bateria, que mira no pós punk dos anos 80, e pelo baixo. A cozinha leva a música, temperada com sintetizadores, até um dos mais interessantes interlúdios da década. Subitamente, Burton apresenta sua orquestra pessoal com ruídos, pianos, metais e guitarras. Pictórico, o interlúdio soa como uma cena de faroeste. É desolador, imprevisível e belíssimo. O ponto alto do disco, sem dúvida.
Broken bells é um sopro de ar fresco no pop eletrônico sem graça e no rock metido à orquestra. Burton mostra seu valor como produtor, arranjando belas faixas melódicas e, ao mesmo tempo, viajando em experimentações. Candidato a melhor do ano.
POR: [Gerhard Brêda]
Regular
Contra
| Vampire Weekend
O Vampire Weekend é uma banda estranha. Quatro rapazes brancos do Brooklyn se juntaram para fazer rock misturado com música clássica e batidas africanas. A banda estourou com o hit A-punk, do disco de estreia (Vampire Weekend). Contra, o segundo disco da banda, arremessa os rapazes no Caribe, mantém a mama África e remove as guitarras. Não espere um A-punk aqui.
Não é que as guitarras não apareçam, mas elas são colocadas em terceiro plano, atrás de batuques diversos e criativas linhas de baixo, como em Holiday. Sintetizadores, modulações na voz, pianos e violinos também dão as caras na salada mundial do Vampire Weekend. É o mundo todo esmagado, filtrado, diluído e reconstituído pelos quatro rapazes brancos do Brooklyn.
Horchata abre o disco como um manifesto. Estão ali todas as premissas que definem o som do Vampire Weekend, abundam as batidas africanas. O disco segue saudável por White sky e Holiday, mas começa a perder fôlego na excessiva modulação realizada na track de voz em California english. Taxi cab, apesar de arrastada, tem uma bela melodia com pianos e violinos. Run tem um bom riff orquestrado, mas, no geral, é fraca.
O deslocado rockzinho upbeat Cousins é uma tentativa malsucedida de recriar A-punk. Giving up the gun e Diplomat’s son enterram o disco com batidas repetitivas, especialmente a segunda, uma música de boate com seis minutos de duração e extremamente arrastada. É Britney Spears em baixa rotação. No fim da faixa, violinos faceiros tentam mascarar a falta de criatividade e punch da música com orquestrações.
Se Diplomat’s son é o enterro de Contra, I think ur a contra é a missa de sétimo dia. A galera do Vampire Weekend sabe das coisas. Sabe juntar beats afro com arpeggios de violino. Mas não sabe que música lenta não é garantia de música bonita. I think ur a contra, se arrasta por mais de quatro minutos e deixa um gosto amargo na boca do ouvinte, que corre para ouvir Horchata novamente.
Contra é uma obra difícil de categorizar. Por um lado, é diferente de qualquer coisa que o rock ocidental esteja fazendo; por outro lado, tem cara de protótipo. Quem sabe no terceiro disco, os caras não afinam a proposta e entregam um rock misturado com world music, mas menos diluído e mais criativo.
POR: [Gerhard Brêda]
Regular
Raymond vs Raymond
| Usher
A sensação teen dos meados dos anos 90 cresceu e, desde os 20, virou uma estrela internacional. Após seis discos, Usher ataca com mais uma superprodução, dessa vez inspirada em sua separação. Raymond vs Raymond, produzido pelo parceiro Brian Cox, é mais pessoal do que seus trabalhos anteriores. Ainda assim, martela o tema da menina no clube, das “pegações” na pista de dança, e solta (algumas vezes) boas baladas.
A mania de fazer discos enormes - este tem 20 faixas - continua a prejudicar a turma do r&b e até de outros segmentos. Em Raymond vs Raymond não é diferente. Pelo menos seis ou sete canções do disco poderiam continuar na gaveta ou mesmo propositalmente esquecidas. Duas ou três delas poderiam nem mesmo existir. Alguns bons hits para as pistas, como More, explicitamente dance; Cut her of, um charm de “boa” letra e arranjo esperto; a bela Be (que é, talvez, a melhor coisa do disco) e a clubber In my bag, resolvem. O resto passeia pelo óbvio ou pelo chato com ênfase nessa moda de cantar/falar rapidamente sobre uma batida mais lenta. Usher faz isso bem, mas, como tudo o que acontece em demasia, perde a graça.
Na tentativa de regravar um dos hinos do charm moderno, a ótima Secret garden, de Quincy Jones, Usher acelera um pouco o andamento e não desaponta, apesar de não chegar perto do arranjo original. Mais uma vez as salvações estão em seu belo timbre e em sua colocação vocal. Já o primeiro single do disco, Papers, não traz nada de inovador além das mesmas sequências harmônicas de tantos outros hits atuais.
Indubitavelmente, Usher é um bom cantor. Tem forte influência de Michael Jackson, assim como 95% dos artistas de r&b da atualidade, é excelente dançarino e, à exceção dos relacionamentos conturbados que invariavelmente são tema de suas canções, é avesso a maiores confusões. Para substituir o ídolo Michael falta muito, mas Usher é um dos mais talentosos representantes da música negra pop americana.
POR: [Paulo Loureiro]
MuitoRuim
The element of freedom
| Alicia Keys
Não se trata de saudosismo puro e simples. Mas bate uma nostalgia ao conferir The element of freedom, novo CD da cantora, compositora, multiinstrumentista, produtora e atriz, entre outras atribuições, Alicia Keys. Continua cantando muita coisa. A produção, super. Entre muitos delays e texturas sonoras, está tudo perfeitamente no seu lugar. Perfeito até demais, carecendo daquele elemento gostoso que é a sensação humana na gravação. O diamante bruto, as canções em si, trazem linhas melódicas e harmonias previsíveis. E, portanto, não se sustentam sem todo o aparato tecnológico, sem a maquiagem. É um punhado de músicas (14 no total) que se revelam longe das tramas sublimes entre notas e acordes, daquelas à la Stevie Wonder ou outros nomes em cujos trabalhos tais combinações são abundantes.
O disco não acontece. Em um ou outro momento, com boa vontade, até se crê que o negócio vá decolar, mas o chorus seguinte já chega para frustrar tal expectativa. Nem a participação de Beyoncé em Put it in a love song - com cenas para o clipe filmadas aqui no Rio em fevereiro – é suficiente para levantar o lançamento. Arrastado, o CD assustou nos Estados Unidos ao entrar na segunda posição das paradas, feito incomum para Alicia, acostumada a só debutar em primeiro (okay, por outro lado, é seu primeiro álbum a alcançar tal êxito na Inglaterra).
Fala mesmo alta a saudade da Alicia Keys antes de redefinir sua nova assinatura sonora. É mais do mesmo desta multifacetada artista. Dessas facetas é melhor ao natural, como na releitura de Wild horses (Rolling Stones), de seu Unplugged, mas nisso já se vão cinco anos. É possível identificar a Alicia de ontem e a de hoje. O que mudou de lá
para cá foi, principalmente, o repertório, seu jeito de fazer musica, distando cada vez mais de um soul moderno, repleto de boas referências, para se enamorar da música pop descartável. The element of freedom já vendeu muito, portanto, como diziam de Elvis, sei lá quantos milhões de fãs não podem estar errados. Morram de saudades os que discordarem.
POR: [Leandro Souto Maior]
Bom
Heligoland
| Massive Attack
O mundo anda às voltas, nas últimas décadas, com artistas ou bandas que lançam discos tão espaçados quanto febres musicais. Apesar de que as últimas estão cada vez mais efêmeras. É o caso de Seal, Peter Gabriel, Tears for fears e alguns outros. Na esteira desse fenômeno também se encontra o, agora duo, inglês Massive Attack, um dos mais criativos e originais representantes da cena trip hop mundial. Desde seu primeiro trabalho Blue lines, de 1991, seguido do espetacular Protection, primaram por texturas sombrias e hipnóticas, camas de sintetizadores e batidas tão etéreas quanto pesadas. Além, é claro, da variedade de vozes que passaram por lá, incluindo Tricky e Sinead O’Connor.
A demora já estava grande, já que o último disco, o polêmico e obscuro 100th window, saiu há sete anos. Foi quando o ex-membro Grant "Daddy G" Marshall juntou-se ao único remanescente Robert "3D" del Naja para preparar Heligoland. Longe de perder a identidade e a eterna inquietude, o Massive Attack mudou o foco de suas composições para algo mais simplório. Melodicamente, não tem o poder de Protection. Mas nem por isso deixa de intrigar.
O pessimismo, a ironia e a aura escura ainda estão lá, mas carregam uma preocupação formal um pouco maior. Sua audição é, em grande parte, bem mais leve do que seu predecessor, o que não o torna um disco melhor; é apenas a primeira impressão. E, como tudo o que eles já fizeram, tem enorme cuidado sônico na excelente gravação das vozes, no cuidado com os detalhes, na escolha das músicas. As participações são de Guy Garvey (Elbow), Martina Topley-Bird, Grant Marshall, Horace Andy e Tunde Adebimpe (TV on the radio). A paleta de vozes e timbres guarda muito do diferencial desse grupo que tanto influenciou por quase 20 anos.
O duo de Bristol sempre foi mais ligado à questão experimental do que à emoção em si, apesar dos timbres viajantes e da dinâmica quase apoteótica de algumas composições. Heligoland mantém a tradição, mas foca em algo mais orgânico e sutil.
POR: [Paulo Loureiro]
Bom
The courage of others
| Midlake
O quinteto barbudo do Texas retorna em seu terceiro álbum com menos teclados e mais cordas, mantendo a atmosfera bucólica dos seus trabalhos anteriores. A sonoridade inspirada no folk, conferida em Bamnan and Slivercork (2004) e no excelente The trials of Van Occupanther (2006), chega maximizada em The courage of others com fortes traços de medievalismo.
Lançando mão de instrumentos alternativos, como a alaúde e flauta, Tim Smith e sua voz hipnótica nos transportam imediatamente a lugares que não conhecemos, talvez uma aldeia do século 14 cravada no meio de alguma floresta europeia.
“Great are the sounds of all that live”, brada suavemente o vocalista no refrão de Acts of man, a sugestiva faixa de abertura do disco. A música já indica o que está por vir: uma ode à natureza. Contemplativa, a banda leva a tarefa a sério: simplesmente nenhuma das 11 faixas do disco foge a essa temática, que é instigante num primeiro momento, mas torna-se um tanto chato a cada faixa.
As letras, deslumbrantes e cheias de significado, no decorrer do disco, inexplicavelmente, passam a lembrar uma terrível trilha sonora de um filme da Disney, Pocahontas ou Tarzan, talvez. E a sensação apenas aumenta com duas faixas ornamentadas por ocarinas, que trazem um poucoda música indígena, dos Andes.
Sim, essa temática soa pouco honesta. Convenhamos, estamos diante de uma banda de Austin, Texas, de onde a imagem mais próxima de uma floresta que nós, brasileiros, temos é a de um cactus no meio do deserto. É preciso, entretanto, admitir que essa é uma visão limitada. É quase estranhar uma banda argentina que faça algo que não remeta ao tango.
Sem contar que Texas é um estado enorme e Austin, além de ser “a cidade mais verde dos EUA”, é cercada de florestas. Justifica? Não. Mas ameniza o abismo, que separa a origem da banda da sua proposta.
É impossível questionar a qualidade musical do quinteto, que conseguiu de fato traduzir nos arranjos a exuberância que sugerem nas letras. The courage of others pode representar uma queda se comparada à inventividade do seu antecessor de 2006, que trazia faixas geniais como Young bride e Head home, mas o Midlake continua misturando bem diferentes sonoridades e construindo esse folk-de-lugar-nenhum que lhes deu a simpatia da crítica.
POR: [Philippe Noguchi]
Excelente
Corinne Bailey Rae
| The sea
De vez em vez uma cantora - ou a tendência seguida por ela - dita um padrão e logo uma geração de semelhantes, eventualmente até com certa originalidade, começa a pipocar. Que nem aqui no Brasil o efeito Marisa Monte e Fernanda Abreu. Lá fora - de onde até hoje ainda surgem crias da "geração Madonna" (vide as tantas Britney Spears) - ainda têm vez as Winehouses. Porém, se não se dissipar no oceano de cantoras com "pegada" semelhante, os holofotes vão revelar uma artista mais interessante até que badaladas como Joss Stone. Corinne Bailey Rae chega mais soul, funk (o americano, não o carioca), blues e um bocado "o mais puro rock and roll stoniano" em The sea, quatro anos depois de emplacar, ainda que discretamente aqui no Brasil, a pop corretinha Put your records on.
Maturidade? Corinne chega aos 30 anos, mas a morte prematura do marido - o saxofonista Jason Rae - pode ser o determinante. Pilotando voz, guitarra e composições, a inglesa soma à base das 11 faixas do novo lançamento, segundo da carreira, pouco mais que bateria (mixada na cara, com o bumbo acima dos outros instrumentos) e baixo, além de um discreto hammond aqui e ali. O quase minimalismo instrumental, no entanto, não a limita para tirar um belo punhado de cartas da manga.
Redundante, a esta altura do texto, repetir que Corinne Bailey Rae cresceu artisticamente, mas vale imprimir que o que era meio "música de mulherzinha", apesar de legal e desde antes ter um pé no blues e no rock, agora pisa firme com os dois pés nestes gêneros. Entre o primeiro e o segundo álbum, como que anunciando a guitarrada que viria, ela até Led Zeppelin cantou. Bom... o Babado Novo também gravou Led Zeppelin, mas, seguindo a boa tradição roqueira dos ingleses, sempre craques em reciclar o melhor da música americana, as pauleiras e baladas (sim, há umas três delas no disco) de The sea o torna um belo lançamento.
Os que curtiram esta canção docinha e de bem com a vida, entre o soft rock e o soul, não estranhem a comparação com Amy. Rehab não tem muito a ver com Corinne, mas a moça já dista daquela imagem inicial. No visual também. A voz continua a mesma, mas os cabelos... assim como o som estão mais black power.
POR: [Leandro Souto Maior]
Bom
Scratch my back
| Peter Gabriel
Exposto com metade do rosto nas sombras no encarte do disco, Peter Gabriel explicita no papel o que é Scratch my back. Étnico, sempre interessado em percussões africanas, estilista, adepto religioso de texturas mistas de teclados desde os tempos do Genesis, depois amalgamado com Larry Fast (Sinergy), Gabriel agora põe tambores, pratos ou quaisquer baticuns e barulhinhos para fora de seu Real World Studio. Aqui o que vale são orquestrações catatônicas, minimalismos incômodos, instantes dramáticos, cinematográficos. Aqui vende-se mistério. Ao longo das últimas quatro décadas, Peter Gabriel parece cansado de pular e botar para pular sua banda. É hora de descansar. Scratch my back é um belo de um repouso mental e físico.
Lendo o primeiro parágrafo poderia se supor que Peter Gabriel partiu, como sempre, da gênese de sua criação ao arranjo. Não: como já se sabe largamente, é um disco de releituras, muitas delas aleatórias, não necessariamente as favoritas do ex de Sinéad O Connor. O próprio Gabriel diz que sugestões vieram de várias fontes, de suas filhas, Anna e Melanie, e de Bob Ezrin (discreto produtor canadense que já dividiu pizzas em sessões de estúdio com gente como Lou Reed, Jane’s Addiction e próprio Gabriel). Mas foi John Metcalfe, que partilhou com Vinny Reilly os delírios obscuros do Durutti Column e dá batente no Real World Studio, quem distribuiu as camisas ao time. Foi ele quem chegou com os pacotes de arranjos embrulhados para presente.
O disco é, claramente, uma obra dividida em duas: a primeira, as músicas e os arranjos; a segunda, a mixagem. É um CD que, pelo resultado, deixa claro virar outro na mesa de estúdio. Cheio de silêncios, voz na cara, suprema, ordenhada, lapidada, customizada para a grandiloqüência. Peter Gabriel está nu, costurado por vestimentas eruditas. Guardando-se as distâncias estéticas e as propostas, Scratch my back tem fortíssima ligação cossanguínea com o último de k. d. Lang (Watershed). Ambos são apegados a rasas brisas, a parcas poluições sonoras, são gotas de torneira no meio da chuva.
Não se poderia supor, na medida de suas fontes originais, que The boy in the bubble (Paul Simon) e Listening wind (Talking Heads) pudessem virar o que viraram. Mas o resto, mesmo, é relido de forma mui respeitosa, incorporada ao disco justamente por suas sutilezas, aqui realçadas por violas, violinos, flautas, trombones e trompetes de sua London Scratch Orquestra. Ou, no caso de The book of Love (Magnetic Fields), pela Hungarian Orchestra.
Gabriel, portanto, não está subvertendo nada. Apenas potencializa os suspiros de canções suficientemente tristes para estarem aqui. Da Philadelphia (do filme dramático de Jonathan Demme, de 1993) de Neil Young, carregada na matriz de desesperança e aqui instada a soluços mais claudicantes, passando pela quase muda Mirrorball (Elbow), na qual violinos tracejam a letra, há uma busca de unidade já no repertório. Gabriel não reinventa. Limita-se a aplaudir as canções, como se assinasse embaixo não só harmonias, melodias e ritmos, mas também no que se transformaram nas mãos de seus arranjadores.
É impressionante a forma como reverencia, com dignidade, bandas relativamente novas como o Arcade Fire (My body is a cage), pontuando a rigorosa virulência do refrão. Assim como passeia sorrateiramente pelas hostes academicistas ao abrir os porões a violinos brutais em I think It’s going to rain today (Randy Newman). E, sim, também tem Radiohead, claro. A banda que mais mandou sinais ao pop de que há mais coisas a apreciar na fonte do rock progressivo do que os punk-descerebrados possam imaginar é revista em Street spirit, moída por uma carga emocional tão portentosa que até Thom Yorke se chocaria.
As 12 faixas de Scratch my back poderiam estar tanto em So (1986) como em Us (1992), mas como complementos. Ícone pop, de origem progressiva nos anos 60, teatral, ligado em música, mas também em interpretação, Peter Gabriel tornou as exceções, regras.
Há muito ele usa sua carreira musical como um toldo de suas várias facetas empresariais. Desde Up (2002), que tinha muitos equívocos, tal qual sua seminal admiração pela eterna promessa Daúde, Peter Gabriel pintava no campo dos negócios (tem posto na Reebok), mas se distanciava do show business. Aos 60 anos, completados em 13 de fevereiro, seu novo disco tende a ser transportado a pequenos palcos, a virar motivo para recitais. Uma volta – em termos.
POR: [Mario Marques]