Quinze | LABORATÓRIO POP
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    Quinze

    | Jota Quest

    Pode haver a hipótese de hoje, época em que CDs perderam valor, alguém resolver comprar  a coletãnea Quinze, que repassa 15 anos do Jota Quest, só para, num arroubo de boa vontade, tentar perder o preconceito contra o popíssimo grupo mineiro? 

    Levando isso em conta, vai aí a má notícia: Fácil está no repertório e, ouvida e vista sob qualquer ângulo, é um chiclete de ouvido fraco, com uma letra que se recusa a fazer sentido. Mas dê um desconto. Quem tiver bom ouvido para referências bacanas, como Earth, Wind and Fire, New Order fase Technique (1989) e soul nacional dos anos 70, vai se deparar com canções bacanas nos dois CDs da compilação. Encontrar alguém, As dores do mundo (Hyldon), De volta ao planeta, O que eu também não entendo e Do seu lado (da lavra de Nando Reis) têm grandes atributos.  Ok, muitas vezes, o JQ padece por tentar reproduzir o que ouvia nas letras dos "grandes poetas" do rock nacional dos anos 80. E acaba atingindo um resultado apenas razoável em suas investidas, quando não fraco. Mas ainda há músicas como De volta ao planeta, Sempre assim e Dias melhores, com boas melodias e recados bem dados. 

    O complicado é que o Jota Quest acaba se tornando interessante por, no fundo, lembrar momentos da música pop nacional que pouco servem para vender o grupo para a crítica. Poucos jornalistas musicais entenderiam canções como La plata, Tudo me faz lembrar você e O vento como acenos à época em que quem dava as cartas no rádio brasileiro era um arranjador, compositor e produtor proscrito chamado Lincoln Olivetti - que, veja só, fez arranjos de cordas para Rogério Flausino & cia em alguns discos. Muitos desses mesmos jornalistas sequem entendem o suficiente de música pop verde-e-amarela para, no mínimo, saber ou gostar disso.

    Boa parte das músicas do JQ lembram a fase menos popularesca e mais soul de (não fuja!) Fábio Jr - músicas como Já foi e Vem andar comigo poderiam estar no mesmo álbum que continha a clássica Pai, canção pop boa sob qualquer ponto de vista. Só hoje e Amor maior, além da inédita Coração, poderiam ter saído do violão do esquecido Guilherme Lamounier - gênio pop que escreveu Enrosca, gravada por Fábio Jr. e Sandy & Junior e hoje, sofrendo de esquizofrenia, permanece sumido do mercado. 

    Seja como for, com manadas de fãs e muitos discos vendidos, o grupo está no lugar certo: carreiras como a do Jota Quest só costumam ser redescobertas e revalorizadas após décadas e décadas de porradas. Que venham os próximos 15 anos.

    POR: [Ricardo Schott]

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