The ghost who walks | LABORATÓRIO POP
  • Excelente

    The ghost who walks

    | Karen Elson

    "A verdade está na caspa e não no shampoo", diziam os irmãos Marcos e Paulo Sérgio Valle num curioso verso da canção Pigmalião 70 - feita como tema de abertura para uma novela global de 1970 cujo personagem principal, veja só, era um suburbano chucro e fora de moda que era apresentado às belas modelos e às festas da alta sociedade. Modelo transformada em cantora, compositora e instrumentista - e mulher de roqueiro, Jack White - Karen Elson pode até não ter escutado a canção. Mas faz do verso uma espécie de epígrafe não-assumida de seu primeiro disco, The ghost who walks

     

    Como na tal música dos brothers bossanovistas, Karen prega que "a verdade está na sujeira/e não em sua gaiola dourada, com sua colher enferrujada" (The truth is in the dirt). Fala sobre como é ter seu amado roubado por uma mulher "cujos truques de magia negra enfeitiçaram seu coração" (Cruel summer). Versa solene a respeito de segredos que vai levar para o túmulo (The birds they circle). Põe clima mortal numa canção country de ninar (The last laugh). O clima une blues, country, soul e toques lisérgicos. E lembra o das investidas cantantes de Marianne Faithful, modelo desposada por Mick Jagger nos anos 60 e que se tornou cantora. Não por acaso, a (agora sim de verdade!) epígrafe do disco é uma frase da escritora francesa Anaïs Nin, que afirma que "o amor nunca morre de causas naturais". Detalhe (entenda como quiser): Anaïs, em qualquer biografia respeitável, tem vida própria mas não escapa do epíteto "mulher de Henry Miller". E o mesmo já rola com Karen Elson e seu consorte Jack White.

     

    Não importa que Karen esteja casada com um roqueiro que trabalha feito um jumento e não tem a mesma fama de "limpa-trilhos" que Jagger tinha (e tem). A temática do disco traz estranhamento, inadequação, magicismo e tristeza, mas sem lambeção de chão. E isso em excelentes canções, como as já citadas, o bolerinho Pretty babies, o country docinho e espacial Lunasa e a etérea 100 years from now - esta, com quase um minuto só de voz-e-piano, clima de valsinha lisérgica e qualidade de gravação de single de 78 rotações velho. Inesperadamente, um candidato a disco do ano.

     

    POR: [Ricardo Schott]

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