Bom
Loud quiet loud
| Pixies
Não dá para separar uma cena reveladora sequer de Loud quiet loud, documentário que registra os bastidores (e algumas cenas de palco) da turnê de retorno dos Pixies, em 2004. Motivo simples: o doc inteiro é, ele próprio, tão revelador que se presta a uma, duas, três sessões. Dando rewind na história da banda, as dificuldades já começam na maneira como, em 1992, Black Francis (vocais, guitarra e todas as músicas), Kim Deal (baixo), Joey Santiago (guitarra solo) e David Lovering (bateria) se separaram - graças a uma curta e grossa entrevista do cantor a uma rádio, anunciando o fim do grupo sem falar com os colegas. E prosseguem nos destinos que cada um dos quatro tiveram.
Quem acompanhou a música pop nos anos 90, lembra do desfecho da banda: o cantor, transmutado em Frank Black, teve algum sucesso com sua carreira solo, mas nada de parar o trânsito - e fechou a produção de discos legendários ao colocar o último acorde em seu segundo solo, Teenager of the year, de 1994. Kim Deal teve hits com sua segunda banda, Breeders, mas precisou se equilibrar entre a falta de grana e o vício em álcool e drogas. Passa Loud quiet loud quase todo o tempo tensa, sob os cuidados da irmã gêmea Kelley (e ocasionalmente dos pais), fumando feito uma chaminé e tomando litros de cerveja sem álcool. Joey Santiago, pai de família e com um filho a caminho em 2004, diz, sem entrar em detalhes, que "a volta da banda vem em um momento certo". David Lovering, por sua vez, entrega tudo. Para sobreviver sem a banda, o baterista precisou se virar com hobbies bizarros como catação de objetos de metal na areia da praia e shows de mágica. Em meio à turnê do grupo, simplesmente pira e começa a se entupir de Valium.
Loud quiet loud mostra o silêncio sepulcral nos camarins da banda, cujos integrantes pouco se falam e, antes do último show da tour, em Nova York, desejam "bom show para você" como se fossem músicos de dois grupos diferentes que dividirão o mesmo palco. Traz o desencanto do próprio líder da banda, que atende jornalistas pelo telefone com má vontade evidente (numa das cenas, sem a menor vergonha, posta-se de cuecas e sem camisa numa cama de hotel para mais uma agenda de entrevistas), vira a cara para não cumprimentar fãs, repete frases de auto-ajuda antes de dormir no tour bus e, preparando um disco solo, mostra desânimo completo durante um papo com seu produtor. Não parecia que a banda, que recentemente afirmou estar compondo material novo, iria recomeçar do zero. Mas foi o que aconteceu, em meio a shows sold-out, tensões nos ensaios (especialmente para a sensível Kim Deal) e expectativas de fãs e jornalistas. Ainda bem.
POR: [Ricardo Schott]
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