Regular
Cowboys & aliens
| Jon Favreau
Colocar caubóis enfrentando alienígenas soa como uma ideia fantástica. De um lado, os conhecidos vaqueiros e xerifes do Oeste, do outro, inescrupulosos seres de outras galáxias. Essa ideia frutificou uma HQ, Cowboys & aliens, que, ao fazer a transição para o cinema, acaba caindo na vala mais genérica dos filmes de ação. Se você espera um faroeste mesclado com ficção científica, o que, considerando o nome do filme não é uma previsão absurda, provavelmente vai se decepcionar.
O filme abre com o personagem de Daniel Craig acordando no meio do deserto, ferido, com um bracelete de ferro e desmemoriado. O clichê do personagem sem memória, por mais cansativo que seja, acaba servindo a favor do filme, ainda que mais como muleta do que como recurso.
Em pouco tempo, Craig descobre que é Jake Lonergan, um criminoso procurado e que um de seus últimos crimes foi roubar uma diligência de Woodrow Dollarhyde (Harrison Ford). Em torno disso, surgem os outros personagens do filme, como Elle (Olivia Wilde) e Doc (Sam Rockwell). E, subitamente, com a sutileza de um rinoceronte em uma ala hospitalar, os alienígenas são arremessados na trama, atacando a cidade e sequestrando alguns cidadãos.
As performances são extremamente erráticas, ainda que a direção de Jon Favreau seja sólida e renda boas cenas de ação, segurando a estrutura do filme. Craig força um sotaque americano decente e consegue parecer durão nas cenas, mas seu personagem tem a profundidade de um pires. Wilde até que segura a onda, mesmo interpretando um dos piores personagens do ano, cheio de brechas no roteiro e saídas mal-explicadas. Rockwell é um alívio cômico medíocre, com incursões desastrosas no drama. Quem rouba a cena é Ford, que consegue segurar a onda de badass mesmo detrás das rugas e, ao mesmo tempo, consegue conferir peso dramático nas cenas.
A grande decepção de Cowboys & aliens vem do fato do filme jamais parecer um faroeste convincente. Sim, o período está caracterizado decentemente, mas os personagens são apenas versões de arquétipos do cinema de ação em roupas do fim do século XIX. As músicas não evocam faroestes, por mais que a atmosfera visual seja competente. Ao mesmo tempo, quando o filme embarca no expresso da maionese, ele não vira uma ficção científica, mesmo com naves e alienígenas saltando para todos os lados. Mais uma vez, os elementos estão ali, mas Favreau parece não saber empregá-los em seus respectivos gêneros. E talvez essa tenha sido a intenção, mas o resultado é genérico.
Calcanhar de Aquiles de diversas produções que lidam com alienígenas (quem não se lembra do ridículo monstro de Cloverfield?), o design das criaturas também leva. Cowboys & aliens para o solo, especialmente pela falta de consistência. Em algumas cenas, eles parecem verdadeiramente ameaçadores, juntando diversas criaturas medonhas da Terra em um pacote infernal. Em outros, parecem monstrengos ridículos evidentemente feitos em computação gráfica. E que tipo de criatura abre um compartimento no peito com mãozinhas extras, mas com o coração exposto para a visitação pública?
O bracelete de Lonergan é outro elemento sofrível. Ao que tudo indica, ele é uma espécie de revólver dos aliens, mas no filme, atua como um deus ex machina. Mesmo sem saber como ativá-lo, o caubói tem uma proficiência invejável com o dispositivo, o que, se analisado de perto, é absurdo. Jake dominar os aliens usando o bracelete é o equivalente a um chimpanzé dominar um soldado armado só porque pegou uma pistola. É uma tecnologia que ele não compreende nem domina, mas ele está tentando usá-la contra seres que conhecem perfeitamente seus mecanismos. A explicação do funcionamento da arma eventualmente chega - lá pro final do filme - e acaba gerando mais questionamentos do que respondendo qualquer coisa.
Em seus melhores momentos, Cowboys & aliens é um filme de ação competente, bem editado e divertido. Em seus piores, é um pastiche incoerente, com verdadeiros cânions no roteiro e uma galeria de personagens esquecíveis, mesmo com James Bond e Han Solo na mesma cena. E provavelmente isso é o bastante para valer o ingresso.
POR: [Gerhard Brêda]
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