Bom
Planeta dos Macacos: A Origem
| Rupert Wyatt
Chimpanzés são hilariantes. Apenas olhar para estes atrapalhados e, na melhor das hipóteses, confusos proto-humanos peludos, é garantia de algumas boas gargalhadas. Exceto quando eles estão agressivamente espancando outros indivíduos de sua espécie e organizando verdadeiros exércitos assassinos. E assim funciona Planeta dos macacos: A origem, um filme que mostra bem o lado fofo e inofensivo, mas também a brutalidade destes primatas.
Mas é claro que um bando de comedores de banana, em circunstâncias normais de temperatura e pressão, não seriam uma ameaça em escala global. Entra James Franco como o cientista Will Rodman, uma mente brilhante da gigante farmacêutica Gen Sys, que está obcecado em uma droga viral capaz de reparar danos psíquicos e, em tese, curar doenças degenerativas como Alzheimer e Parkinson. E para isso, Will testa seus efeitos em uma macaca, Bright Eyes, que um dia acorda... com a macaca, e sai por aí destruindo o laboratório durante uma reunião de acionistas. Fecham o projeto, Will é desacreditado e a pesquisa é abruptamente fechada.
Aqui entra a primeira grande falha do filme, um erro colossal que acaba tornando todo o resto mais frágil: na sela de Bright Eyes, descobrem um filhote: aparentemente a macaca estava grávida e nenhum cientista viu e ela estava apenas querendo proteger sua cria. Não dá para saber exatamente qual o protocolo para testar drogas experimentais em chimpanzés contrabandeados da África, mas há de se imaginar que os cientistas gostariam de saber o que diabos está acontecendo com o corpo do símio antes de sair desperdiçando bilhões de dólares em pesquisas por suas veias. Uma equipe futurista como a de Will deixar passar uma coisa tão gigantesca quanto uma gravidez (que altera toda a taxa hormonal do sangue) é difícil de engolir.
Difícil ou não de engolir, lá está o bebê macaco, que Will leva para casa e decide criar. Caesar, interpretado por Andy Serkis em uma camada de CG, é o maior trunfo do filme. Quem acha que a história do doutor está em primeiro plano vai se decepcionar profundamente: o filme todo é um arco desenvolvendo Caesar, um macaco que, desde o nascimento, apresentou um intelecto avançadíssimo, mas que não deixa de ser um macaco. E esse é o verdadeiro drama do personagem: Caesar não entende seu lugar no mundo, como mais que um mascote, mas menos que uma pessoa.
Os 15 minutos finais, como o trailer mostra, são pura ação de macacos contra humanos, mas tudo o que acontece antes disso é fundamental para dar peso dramático. O resultado na tela é similar ao visto em filmes como O franco atirador, com um começo mais lento e psicológico, seguido de uma conclusão mais explosiva. É possível entender as motivações de Caesar e, se você se distrair, vai se pegar quase comovido com um chimpanzé de CG. É difícil compreender como os roteiristas conseguiram criar tão bem uma personalidade em um macaco, mas é possível ver a determinação e a soberba do primata em diversos momentos.
Lá pelas tantas, o filme, que é um reboot da clássica franquia com Charlton Heston, mas, ao mesmo tempo, uma prequel, mostra que o composto viral que deixa os macacos super-inteligentes é fatal para os humanos... mas também não espere que essa trama vá muito longe. Ela é fundamental, sim, para a história, e explica a derrocada dos humanos perante os macacos, mas no filme ela vira quase um subtexto, perante a ascensão de Caesar ao posto de líder dos símios.
Os outros humanos do filme não são particularmente interessantes. John Lithgow é Charles, o pai de Will, e sofre de Alzheimer em estágio avançado. O personagem não é mais que uma motivação para a obsessão do cientista, mas o ator até consegue injetar uma carga de doçura no papel, especialmente em sua relação com Caesar. Brian Cox é completamente desperdiçado nas parcas cenas que aparece, como supervisor de uma espécie de canil para macacos (aparentemente, eles existem). O ator entra, fala algumas coisas com intensidade e não muda muito o universo ao seu redor. Tom Felton, famoso pelo papel de Draco Malfoy, é o mais perto que o filme chega de um vilão, como o tratador sádico Dodge Landon.
A relação de Caesar com Will é uma ponte que permite com que o filme não vilanize nem os macacos insurgentes, nem a raça humana, um erro que Distrito 9 cometeu. Claro, Caesar é o herói e o protagonista, mas em nenhum momento a humanidade parece determinada a brutalizar os símios pelo simples prazer de brutalizar.
Planeta dos macacos: A origem tem sim suas falhas, algumas faltas de lógica colossais no roteiro e sua parcela de saídas fáceis, mas também é um filme com um ritmo quase perfeito, uma construção primorosa de personagem para Caesar e que consegue não demonizar ou santificar a humanidade.
Foto: Divulgação
POR: [Gerhard Brêda]
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