Reencontrando a felicidade | LABORATÓRIO POP
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    Reencontrando a felicidade

    | John Cameron Mitchell

    Assistir a um filme com Nicole Kidman deixou, há algum de tempo, de ser um programa atraente e seguro. A atriz argamassada de botox, e abertamente criticada pelos colegas por isso, incomodava a cada nova performance pela pose dura, reforçada pelo nariz rinoplasticamente empinado. Mas em Reencontrando a felicidade é diferente. Com a sinceridade de cabelos mal cuidados e de pouca maquiagem, Nicole vive com honestidade uma mulher comum do subúrbio americano; tão imperfeita como todas as outras, mas isolada por uma perda.

     

    Oito meses se passaram desde a morte de Danny, filho de quatro anos do casal Becca (Nicole) e Howie (Aaron Eckhart). Enquanto os dois reagem de manerias diferentes à dor, eles tentam encontrar juntos ajuda em um grupo de pessoas também em luto. Mas o casal acaba seguindo caminhos opostos no labirinto da tragédia. Becca busca uma possível solução se encontrando com o adolescente envolvido no acidente que provocou todas as mudanças em sua vida. Já Howie tenta voltar a se sentir vivo através de práticas e de prazeres cotidianos.

     

    Enquanto o título jogado em português é traiçoeiro e entediante, no original a fita se chama Rabbit hole, que se refere ao buraco de Alice, mas também a uma história em quadrinhos importante em determinado momento do longa. Se a trama é essencialmente batida, aqui ela é observada de maneira sensível, indo além da tristeza, através de soluções encontradas em variadas perspectivas. E, da sala de cinema, é impossível não reagir junto dos personagens às suas respostas de dor e de conforto, como em analogia ao exercício de viver.

     

    A direção do indie John Cameron Mitchell (de Hedwig – Rock, amor e traição e de Shortbus) é menos carnal como de costume, trabalhando com situações mais delicadas, sem tocar o melodramático. Na evolução da produção, a perda do filho parece ganhar força, depois de um tempo de aparente calma, para só então começar a ser superada. A interpretação de Eckhart, no entanto, fica meio fora de lugar. Bem como um cínico em Obrigado por fumar ou um vilão meio canastra em Batman, dessa vez falta ao ator equilíbrio entre força e fragilidade.

     

    Reencontrando a felicidade não teve sucesso de público quando estreou ano passado nos EUA e tampouco vai fazer barulho no Brasil. Apesar disso, foi elogiado pela crítica internacional e rendeu a Nicole uma indicação discreta ao Oscar de Melhor Atriz – e também as pazes com a carreira. O grande mérito do filme é funcionar, através de boas ideias, em um motivo tão gasto no cinema. E em pequenas doses de frustração, a trama vai abrindo e selando, aos poucos, fissuras de uma dor viva

     

      

     

    Foto: Divulgação 

    POR: [Camila Lamha]

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