Kane and Lynch 2: Dog days | LABORATÓRIO POP
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    Kane and Lynch 2: Dog days

    | IO Interactive

    O crime pode não compensar, mas seduz. A vida na fronteira da lei serve de temática para jogos como Grand theft auto, Saints row e, de certa forma, Red dead redemption. Kane & Lynch: Dead men, surgiu em 2009 como um medíocre game de tiro em terceira pessoa com uma dupla de criminosos desprezíveis que tinha potencial para ser algo mais. Em 2010, a IO Interactive traz Kane & Lynch 2: Dog days e prova que a franquia pode até ser algo mais, mas vai precisar de um milagre para se levantar.

    No game, Lynch chama Kane para uma missão na China, que envolve o contrabando de algumas armas. Rapidamente a situação sai do controle e a dupla acaba pisando no calo de um funcionário corrupto do governo, Shangsi,  e precisa escapar do país. Durante as missões, o jogador basicamente controla Lynch e Kane é controlado ou pela IA ou por um outro jogador.

    A trama beira o ridículo em diversos momentos. Lynch tem uma trama paralela romântica que define um relacionamento bidimensional e Kane tem uma situação mal explicada com a filha. Mas o maior problema está nos recursos atribuídos a Shangsi. O criminoso arremessa capangas, a polícia de Shangai e, em determinados momentos, o exército chinês e uma frota de helicópteros em cima de Kane e Lynch. Como ele consegue mover esses recursos por baixo dos panos? Não há como defender isso, simplesmente não faz sentido.  

    Com uma trama tão simples, mesmo abarrotada de buracos e inconsistências, os personagens precisam ser brilhantes ou, no mínimo, tridimensionais. Aqui, a primeira oportunidade perdida. Nenhum personagem que cruza a tela é memorável ou interessante. A dupla principal, que poderia roubar o show, fica no meio do caminho. Por um lado, é fascinante tentar entender como Kane e Lynch conseguem ser amigos: Kane é um sociopata enrustido e que vive a ilusão de que vai ser honesto algum dia e Lynch é um psicopata instável e egoísta. Infelizmente, as personalidades não são desenvolvidas de forma apropriada na tela e tudo fica com uma pesada superficialidade. A IO poderia ter escrito um profundo, tortuoso e bizarro conto sobre a amizade, mas preferiu uma história risível de vingança e fuga.

    Os gráficos são uma bênção e uma maldição em Kane & Lynch 2. A IO Interactive decidiu adotar um estilo realista, baseado no Youtube, com a imagem propositalmente pixelada, as luzes distorcidas e estouradas. Até os menus seguem a estética, com botões de play, pause e flashforward.  Esse estilo é bastante interessante e revolucionário, colocando a perspectiva do real por um filtro mediado, ou seja, o real é aquilo que, por incrível que pareça, parece menos real.

    Embora essa escolha venha com seus problemas, como a câmera quando o jogador corre, que se sacode violentamente, como um camera man de verdade (essa opção pode ser desativada, no entanto) e um visual um pouco confuso devido aos pixels, o grande problema gráfico de Kane & Lynch 2 está por baixo dos filtros. O motor do game simplesmente é genérico. Os inimigos são repetitivos, as animações raramente são impressionantes, os efeitos são desinteressantes e até mesmo o design – tanto das armas quanto das missões – é decepcionante.

    O som não é um grande problema, mas não se destaca. No geral, Kane e Lynch tem bons dubladores, mas por vezes as falas são disparadas de forma estranha e o roteiro é completamente constrangedor. Nenhuma música se destaca e as armas não tem um som potente e impactante.

    Kane & Lynch 2 poderia ter todas essa falhas e mais se tivesse uma jogabilidade brilhante, mas não. Pelo contrário, inclusive. O game traz a jogabilidade mais travada, arcaica, medíocre, desinteressante e tediosa de todos os games mainstream dessa geração. O game é quebrado em salas de tiro. Quando o jogador vence uma, passa para a próxima.

    As armas não tem impacto nem são divertidas, os tiros são imprecisos e fracos e acertar alguém não gera uma resposta visceral, mas sim um irritante X branco no lugar do impacto, a única coisa que geralmente indica que a bala acertou o alvo, dado que os inimigos costumam não se incomodar ao serem crivados de balas.

    A jogabilidade ainda erra em outros elementos, como a ausência de granadas. A ideia evidentemente era deixar o game mais realista, com Lynch tendo um acesso reduzido a artefatos militares, mas a busca pelo realismo não impede que a dupla de psicóticos arrase pelo menos uns 300 militares, gângsters e policiais chineses em seu caminho de destruição. A ausência de granadas, no entanto, tira muito do dinamismo dos tiroteios, que acabam ficando travados com o jogador e os inimigos entocados atrás de uma cobertura.

    Quando o modo campanha termina, abruptamente após cerca de quatro horas, o jogador pode se aventurar pelo multiplayer. O maior destaque é o modo Fragille Alliance, herdado do primeiro Kane & Lynch, no qual os jogadores são ladrões que, a qualquer momento, podem tentar trair os integrantes do grupo para ficarem com uma parcela maior do roubo. É divertido, é interessante, mas ainda sofre dos mesmos problemas de jogabilidade que a campanha principal. O modo cooperativo é outro que diverte, mas apenas coloca uma pessoa a mais para sofrer com a terrível jogabilidade do game. Além disso, o design parece ter ignorado a existência do modo cooperativo, pois apenas em pouquíssimas situações o game permite que os jogadores tomem rotas diferentes.

    Kane & Lynch 2: Dog days tenta algumas coisas inovadoras que dão errado, mas não é por isso que ele deve ser punido. O game merece ser crucificado pela jogabilidade inaceitavelmente preguiçosa e repetitiva, pela campanha obscenamente curta, pelos gráficos feios (por trás do filtro intencionalmente lo-fi), pelo design contra intuitivo, pelos personagens rasos e pela história sem graça. Esse cachorro aqui não ladra nem morde.

    POR: [Gerhard Brêda]

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