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Camelot
| Starz
Guardadas as devidas proporções, pode-se dizer que, quando se trata de recontar a lenda do rei Arthur, acontece algo parecido como no futebol: todo mundo vira técnico, especialista e comentarista. Ou seja, acha que pode dar pitacos e reescrever a história à sua própria maneira. Determinar quais das versões para o clássico chegam mais perto da realidade não é das tarefas mais fáceis, até porque todas as adaptações defendem a tese de que seus roteiros são os mais fiéis ao "mito". É claro que Camelot, nova série do canal Starz, não faria diferente. Focada na origem do personagem – sua juventude, o primeiro encontro com Merlin e sua jornada até a coroação -, a produção traz a qualidade artística impecável característica da emisssora (se você ainda não viu Spartacus, faça esse favor a si mesmo). Mas, embora apresente um "elenco dos sonhos", com nomes de peso como Joseph Fiennes e Eva Green, Camelot frustra o séquito de Arthur, partindo de um roteiro pobre e deturpado, além de atuações que em nada lembram "a cara da nobreza".
A lenda do rei Arthur é uma das mais conhecidas da literatura britânica, e suas aventuras e batalhas junto aos Cavaleiros da Távola Redonda e ao Mago Merlin encantam gerações, reunindo admiradores ao redor do mundo. Em Camelot, do Starz, a feiticeira Morgana não aceita o casamento do pai, o rei Uther, com sua madrasta, Igraine, e decide envenenar o progenitor para assumir o trono. A cruel filha do monarca resolve, então, unir-se ao maior inimigo de seu pai, Lot, para tomar o reino. Enquanto isso, Merlin, o poderoso mago e amigo pessoal de Uther, tenta evitar que o pior aconteça e parte em busca do filho bastardo de Uther, Arthur, para que o jovem herde a coroa e salve o país do futuro sombrio e caótico previsto por ele em uma de suas visões. Até aí, tudo bem, aceitável. Qualquer um que tenha lido ou visto algo sobre a história consegue reconhecer a sinopse. O problema TODO é a sua execução, ainda que o piloto divulgado seja apenas uma prévia do que está por vir, já que a estreia oficial da série está marcada para 1º de abril nos Estados Unidos (e aí resta a torcida de que esse episódio tenha sido apenas mais uma estratégia brincalhona e imatura em relação ao Dia da Mentira).
Para não desmerecer, Camelot até tem seus pontos altos que merecem ser destacados. A começar por uma belíssima abertura, editada com muito bom gosto, que mistura todos os elementos da série em imagens deslumbrantes e efeitos especiais decentes. Apesar de ser um pré-requisito para uma atração histórica ser considerada, pelo menos, aceitável, a fotografia de Camelot, a trilha sonora e o figurino são dignos da pompa e do prestígio de seus personagens. Mas, como já dito anteriormente, a nobreza passa batida no que diz respeito à qualidade dos diálogos da trama, que em absolutamente nada remetem às referências históricas e à classe da literatura. Ainda que seja uma produção voltada para a TV – e, portanto, adaptações linguísticas são, de fato, necessárias -, Camelot peca na falta de ousadia (não no sentido literal da palavra, já que o sexo definitivamente não é um problema para as séries da emissora e, em Camelot, Morgana, Lot e Arthur que o digam) por não explorar a riqueza de seu próprio material.
Durante a quase uma hora de episódio, impossível não se decepcionar com a escassez de referências e com a incapacidade de se desenvolver um diálogo forte, tenso e profundo, como a história demanda e como Os pilares da Terra e Spartacus sabem mostrar muito bem – lembrando que ambas são do mesmo canal de Camelot. Difícil aceitar que não há uma mente criativa o bastante para construir uma fala para Merlin que não faça um dos personagens místicos mais notáveis de todos os tempos parecer um discípulo do Mestre Yoda de Guerra nas Estrelas (nada contra o Mestre Yoda, que fique claro).
Tudo bem que Camelot opte por mostrar um rei Arthur jovem e inexperiente, até mesmo um pouco mimado, mas nada justifica a escolha de Jamie Campbell Bower para o papel. Nem se ele adquirisse um terço das habilidades "extraordinárias" de seu personagem vampiresco da saga Crepúsculo (para quem não lembra, não viu ou não deseja ver, Bower interpreta Caius, um dos três líderes da trupe dos Volturi, aquele quase imperceptível nas cenas com uma constante expressão de "nojinho") conseguiria fazer com que o público aceitasse a ideia de que ele pode chegar perto do carisma, da força e da altivez que descrevem Arthur. É quase como escolher a Sandy para ser a garota propaganda da Devassa. Simplesmente não funciona. Joseph Fiennes, por sua vez, ainda precisa encontrar o tom certo, porque passa longe da personalidade forte e marcante de Merlin. Uma grata surpresa é Eva Green, que parece ter absorvido Morgana em suas características mais sombrias, de maneira consistente. James Purefoy (o Marco Antônico de Roma, da HBO) também não compromete como Lot e a química entre Morgana e seu personagem chegou a salvar o episódio em alguns momentos.
Sendo Starz, Camelot e Arthur, é quase certo dar o benefício da dúvida à produção, principalmente pelo o que a lenda representa e por inúmeros (bons) personagens que ainda não deram o ar da graça. Portanto, para que a jornada de Arthur possa seguir sem maiores obstáculos – já basta uma meia-irmã maquiavélica, ressentida e poderosa -, Guinevere, Lancelot e Excalibur (é claro que a espada também entra nessa), contamos com vocês para salvar o futuro do rei, do reino e da série.
POR: [Juliana d Arêde]
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