Lights Out - S01E01 | LABORATÓRIO POP
  • Excelente

    Lights Out - S01E01

    | FX

    Em geral, basta um pugilista para que um filme ou série ganhem o sufixo "de boxe". Lights out, contudo, não deveria receber essa alcunha. Embora seja, sim, sobre um ex-lutador, a série é tanto "de boxe" quanto de "pós-aposentadoria", "procura de identidade" ou "medo da demência iminente após décadas de socos na cabeça".  Complexa, visualmente chocante e conduzida por uma atuação daquelas que te fazem acreditar na boa televisão novamente, Lights out não nocauteia logo de cara, mas promete alguns belíssimos rounds.

     

    A série gira em torno de Patrick "Lights" Learey, um ex-campeão de boxe que se aposenta por livre e espontânea pressão da patroa (a insossa Catherine McCormack). Cinco anos depois, ocioso, cansado da vida de pai em tempo integral e falido, Learey tenta encontrar maneiras de prover para sua família, ao mesmo tempo em que busca sua identidade. Às voltas com problemas financeiros e com a descoberta de uma lesão cerebral que pode se tornar a chamada "demência de pugilista" (que, a indicar pelos lapsos de memória, parece uma possibilidade bem real), Leary tenta balancear a figura de pai ideal com a de lutador.        


    Toda esta baboseira psicológica poderia se tornar infernalmente chata, não fosse pelo verdadeiro show de Holt McCallany. Com uma performance sutil e sorrateira, ele consegue transmitir uma imagem de serenidade surpreendentemente ameaçadora. Como um plácido mar azul prestes a virar uma onda titânica que destrói a cidade inteira. Estranhamente paternal, de um jeito meio "te amo muito, mas ai de você se não comer todo esse maldito quiabo", Leary parece o tipo de paizão que todos queriam ter, mas com quem não ousariam violar o toque de recolher. Calmo como uma bomba-relógio.


    Sua mulher, Theresa, é preocupada e amorosa (tão dedicada, coitada, que obviamente não tem tempo nem pra comer), mas isso não impede que seja odiável. Embora seja possível compreender porque ela quis que o marido se afastasse dos ringues – a primeira cena, com ele deitado numa maca com o rosto mais destruído que banheiro feminino após uma festa de formatura, é uma bela explicação –, parece que ela, ao mesmo tempo, não compreende os problemas do marido e seu amor pela luta.  Ou nosso amor por um pouco de sangue.

     

    Assombrado por memórias de sua última luta (e derrota), Leary é desafiado para uma revanche com seu algoz. A primeira reação de sua mulher é, claro, dar um belo chilique. Tal qual Adrian tentando impedir seu amado Rocky de lutar contra Ivan Drago, Theresa só quer o melhor para o marido. Mas o melhor para o marido pode não ser necessariamente o que ele ou a audiência querem e, se a série tiver um mínimo de lógica, esta revanche está fadada a acontecer em algum momento.

     

    Acima de tudo, Lights out é uma série altamente relacionável. Os problemas de Leary são comuns a tantos outros que abandonam suas carreiras e lutam para encontrar algum tipo de identidade própria fora do ambiente de trabalho. Com o agravante de que a profissão do protagonista o levou a se aposentar uns 20 anos antes do normal, ou seja, assistir ao programa da Ana Maria Braga comendo cereal de fibras ou se mudar para um condomínio em Boca Raton não parecem alternativas viáveis. Mesmo longe da linha da pobreza, o boxeador está disposto a fazer trabalhos "suspeitos" para garantir que sua família não tenha que abrir mão do padrão de vida ao qual está acostumada. Nem que isso signifique ter que mentir para a mulher – e quebrar uma ou duas patelas por aí.

     

    Da mesma maneira, ele enfrenta o problema clássico do homem contemporâneo, que, embora esteja presente em casa e cuide dos filhos, ainda tem aquele "macho interior", aquela voz grossa que o leva a encarar ameaçadoramente o namorado nerd da filha e dar um olhar de reprovação silenciosa quando a mulher afirma que finalmente poderá botar dinheiro na casa. Se até o bom e velho analista de sistemas ainda parece ter esse lado neandertal sufocado, imagine um cara que passou a vida golpeando as têmporas e as costelas dos coleguinhas. Leary simboliza a panela-de-pressão que é a mente de um homem moderno, mutiplicada por 10. E parte da graça do show é esperar até ela estourar.

     

    Paralelos com filmes como Rocky sempre serão feitos – e, de fato, é difícil não relacionar o drama dos dois pugilistas, divididos entre a família, a fome de lutar e a necessidade de pagar a conta de luz no fim do mês. Mas, fora isso, o silenciosamente tempestuoso e intenso "Lights" pouco tem a ver com o bondoso e brincalhão Garanhão Italiano. Leary não está se preparando para uma batalha épica contra um russo que mais parece uma máquina de refrigerante com pernas, e sim para diversos inimigos invisíveis que chegam de todos os lados. O "Olho de Tigre" dá lugar ao medo do Leão, doidinho para tomar o que lhe resta.

     

    Com um drama pessoal simples, apoiado por uma fotografia crua e realista e uma atuação sutilmente brilhante, Lights out mostra que não é necessário derrubar aviões em ilhas místicas ou jogar psicopatas com fuzis em hospitais para construir um drama cativante. Resta torcer para que o público consiga apreciar o sabor agridoce de um show no qual a catarse não está a alguns rounds e músicas inspiradoras de distância. Nem sempre as lutas mais interessantes terminam com nocautes espetaculares. Rocky Balboa que o diga.


    POR: [Fernanda Prates]

FORMULE