Fraco
Mr. Sunshine
| ABC
É seu aniversário de 18 anos. Você tem sido um bom filho, passou no vestibular para uma faculdade pública e acha que pode ganhar aquele Palio que seus pais vinham te prometendo há anos. Você abre a porta da garagem. E, lá está, enrolada em um grande laço vermelho.... Uma Caloi azul celeste. Bem, é mais ou menos essa a sensação causada pelo piloto de Mr Sunshine. Apesar da boa premissa e do elenco respeitável, a nova comédia de Matthew Perry não inova, não encanta e, pra falar a verdade, simplesmente não é muito engraçada.
Mr Sunshine conta a história de Ben Donovan, um homem egoísta e frio que gerencia uma arena esportiva. Ele foge de relacionamentos, não se importa com o próximo e pensa muito positivamente a respeito de si mesmo. Porém, quando sua "amiga com benefícios" o larga para morar com outro homem, deixando-o sozinho em seu aniversário de 40 anos, Ben sente que é hora de virar um ser humano mais afetuoso. E é a busca pelo Ben 2.0, revisado e melhorado, que pauta toda a série.
Eis o problema principal: Ben não é um personagem divertido, legal ou remotamente carismático. Talvez por já termos visto Matthew Perry na pele do adoravelmente desajustado Chandler Bing, é difícil aceitá-lo como um protagonista tão insosso. Perry parece ter perdido até seu impecável timing cômico, matando na tela piadas que parecem até interessantes no papel. Enquanto Matt Le Blanc conseguiu sorrateiramente escapar da maldição de Friends com um personagem curioso (ele mesmo, no caso), Matthew Perry parece fadado a sucumbir na pele de um protagonista tão substancioso quanto o papel de Rodrigo Santoro em Lost.
Já o outro grande nome da produção, Allison Janney, causa sentimentos confusos na pele de Crystal, a hipocondríaca levemente racista dona da arena. Embora Janney seja realmente engraçada em alguns momentos – como são todos os personagens paranoicos, inapropriados e com valores morais questionáveis --, em outros, parece uma caricatura forçada de algo que já vimos milhares de vezes na televisão. Ver uma atriz tão talentosa sendo jogada em um papel tão bobo é meio como ver as obras perdidas de Michelangelo sendo expostas na casa do BBB. Não faz muito sentido, não é mesmo?
Alguns outros personagens chegam a fazer uma gracinha ou outra em cena. É o caso de Roman, o filho roliço e socialmente inapto de Crystal, interpretado pelo bobalhão perene Nate Lawrence. Da mesma maneira, Portia Doubleday consegue ser mais encantadora como Heather (a secretária com inclinações psicopatas) do que Perry consegue como Ben. Detalhe: ela só aparece em cena por aproximadamente 10 segundos. Até Jorge Garcia, que rapidamente se tornou queridinho da audiência por seu humor obeso em Lost, some completamente como... Ahn... O que quer que ele seja na série. Um zelador, quem sabe? Algo do tipo.
O piloto faz uma tentativa de humor nonsense que poderia até ser interessante, se não tivesse sido feita umas 400 vezes antes. Eles soltam um elefante na arena. Sim, literalmente um elefante. E sim, eles fazem todo tipo de piadinha batida envolvendo "o elefante na sala". Que original. Apelar para o velho truque do mamífero da savana africana num contexto urbano é um sinal claro de que falta confiança nos diálogos, personagens e, basicamente, no tom cômico do show. E isso é um grande tiro no pé em uma época em que séries como Community e Modern family triunfam em cima do humor cru, no qual até o absurdo – e há muito absurdo – ainda surge a partir do mundano.
Mr Sunshine não faz jus ao seu título. Tanto a série quanto seu protagonista parecem incapazes de fornecer qualquer tipo de brilho ou calor. Até a câmera "moderninha" e a tentativa de adequar os diálogos ao formato off-beat e desconjuntado das sitcoms atuais se perdem em meio aos personagens fracos e a uma premissa essencialmente boba. Sem graça e sem charme, a série é um desperdício de elenco e (mais) uma brutal punhalada nos rins dos órfãos de Friends. Nas palavras do saudoso Chandler Bing: Matthew Perry, could you BE any more disappointing?
Foto: Divulgação
POR: [Fernanda Prates]
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