Excelente
Shameless - S01E01
| Showtime
Em geral, o termo "adaptação americana" é mau agouro para qualquer série. Com pouquíssimas exceções (vide The office), produções britânicas tendem a perder boa parte do charme ao serem transportadas para o outro lado do oceano, seja por uma questão de (falta de) senso de humor ou pelas insistentes tentativas de se "aguar" a sinceridade brutal dos ingleses (vide Skins). Shameless, contudo, sobreviveu à viagem. Abusando do humor negro e de um realismo dolorosamente cru, a nova série do Showtime não parece disposta a facilitar a digestão de ninguém.
Shameless conta a história da família Gallagher – sendo o termo "família" usado livremente aqui. O patriarca (William H. Macy, a caminho de um Emmy), um bêbado crônico que faz Al Bundy parecer um pai responsável e amoroso, divide seu tempo entre o balcão do bar e o chão da cozinha. Com a improbidade paternal do progenitor, Fiona (Emmy Rossum, que não deixa a dever para Macy), a filha mais velha, assume o papel materno, cuidando de seus quatro irmãos transviados. A família não passa fome, mas vive numa casa digna da cena de "antes" no Extreme makeover, sobrevivendo com o mínimo necessário.
Além da irmã mais velha, conhecemos Lip (Jeremy Allan White, um bom novato), o aluno exemplar que dá aulas particulares para juntar dinheiro (e um ocasional favor sexual). Entre uma aula e outra, ele se dedica a tentar converter o irmão Ian (Cameron Monaghan), um adolescente na difícil fase do "Será que ele é?", enquanto Debbie (Emma Kenney) e Carl (Ethan Cutkosky), jovens aprendizes de meliantes, encontram seus métodos questionáveis de ajudar. Liam, o irmãozinho bastardo, é uma criancinha muito da fofa. O que, convenhamos, é muito mais agradável do que bebês prodígios que ganham papéis desproporcionalmente relevantes.
Os dramas da família enorme e disfuncional resultam num episódio piloto um pouco atribulado, mas conciso e fluido. O ritmo acelerado é um alívio àqueles que aproveitam as infinitas pausas dramáticas de dramas da HBO para usarem o banheiro ou entrarem em coma, sem chegar a confundir. Os diálogos são sutis, sem esforço e, ao contrário do que acontece em 90% dos dramas televisivos, plenamente acreditáveis (veja e aprenda, Grey s anatomy). Sem desabafos existenciais de 20 minutos e frases de biscoito da sorte repetidas à exaustão, Shameless acontece naturalmente. Uma bela alternativa ao pseudo-realismo ostensivo de similares dramáticas.
O maior problema, curiosamente, talvez, seja também um dos aspectos mais interessantes da trama: o romance entre Fiona e Steve, o suposto mauricinho que também tem lá seus esquemas para pagar as contas no fim do mês. Embora tanto a cena em que se conhecem quanto a que eles se conhecem MESMO na cozinha (se é que vocês me entendem) sejam realistas e bem conduzidas, os altos e baixos do romance logo no piloto tiram um pouco a credibilidade da relação. Apesar de o papo de amor à primeira vista aquecer os corações mais românticos, essa história de "mal te conheço, mas te amo para sempre e vou te dar uma máquina de lavar mesmo depois de você me tratar como lixo" pode parecer um pouco mal contada. Por outro lado, a pressa em se estabelecer um relacionamento sólido se justifica por se tratar de um episódio de introdução. E, bem, nada como um casalzinho turbulento e assanhado para apimentar os níveis de audiência.
Se qualidade fosse o único critério relevante, Shameless teria potencial para uma vida tão longa quanto à do primo inglês (no ar desde 2004). Contudo, num mundo onde Jersey Shore é renovado e Kim Kardashian é considerada uma celebridade, as coisas não são tão simples assim. A verdade é que, embora maravilhosamente escrita, atuada e dirigida, Shameless não tem vampiros libidinosos e humor enlatado para os intelectualmente desafiados, e tampouco se preocupa em maquiar as olheiras da realidade de muitas famílias americanas. A honestidade de Shameless, talvez, seja sua própria ruína algum dia. Isso, sim, seria uma pena.
Foto: Divulgação
POR: [Fernanda Prates]
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