Excelente
Machete
| Robert Rodriguez
Antes de o relógio contar cinco minutos de filme, Machete (Danny Trejo) se irrita com uma chamada em vídeo de seu chefe e esmaga um celular com as próprias mãos. Isso dá o tom: se algo está no caminho de Machete, está em vias de ser esmagado, destruído, explodido ou decapitado. Com Machete, o diretor Robert Rodriguez mergulhou no trash e na mexploitation para entregar um de seus melhores filmes.
A história segue o ex-federale (agente federal mexicano) Machete, que é traído por seu governo, perde sua família e é deixado para morrer. Por trás das maquinações, está Torrez (Steven Seagal , em versão gorducha e hilariante), um traficante que colocou aparentemente todos em sua folha de pagamento, do faxineiro de boteco em Guadalajara ao senador do Texas, John McLaughlin (Robert DeNiro). Machete, é claro, não morre e vai para os EUA como imigrante ilegal, onde é contratado por Michael Booth (Jeff Fahey) para matar McLaughlin. Traído e deixado para morrer novamente, Machete agora busca vingança.
Paralelamente a isso, McLaughlin quer se reeleger com a plataforma linha dura contra a imigração. O senador montou um esquadrão de extermínio na fronteira chefiado por Von Jackson (Don Johnson, o Sonny Crockett de Miami vice) e ainda defende a criação de uma cerca elétrica para proteger o Texas dos imigrantes.
A trama simples sustenta um argumento político completamente exagerado de Rodriguez em prol da imigração. O diretor mexeu em um assunto delicado para os yankees com a sensibilidade de um rinoceronte em uma loja de porcelanas, mas a atmosfera do filme o faz funcionar. O ar panfletário simplório complementa os diálogos artificiais e a violência exagerada. Em Machete, as falhas funcionam em prol do filme, como é o caso do discurso motivador que Jessica Alba arremessa em determinado momento com a frase “Não cruzamos a fronteira, a fronteira é que nos cruzou”, uma fala tão ruim que tem chance de se tornar um fenômeno da internet.
A escolha do elenco foi fantástica. Danny Trejo reprisa seu papel como Danny Trejo, como em todos os filmes de Rodriguez, um mexicano durão e de poucas palavras. Fahey, Seagal estão excelentes em seus papéis, nunca levando tudo muito a sério, mas mantendo a coerência em um mundo no qual um homem usa o intestino de outro para fazer rapel. Um dos destaques do elenco vai para Cheech Marin, que interpreta o irmão de Machete, um padre que é um ex-federale. Quando Marin saca duas escopetas em um tiroteio com Tom Savini em uma igreja ao som de Ave Maria, o espectador sabe que está diante de um momento especial do cinema.
A trilha sonora é apropriada: beats chicanos se encontram com lamentos de viola texanos em algo que parece Ennio Morricone comendo um burrito e alguns nachos. A música executada quando Machete subitamente conquista uma garota e a leva para cama é brilhante, uma guitarra massacrada por um pedal de wah-wah que parece ter saído de um obscuro blaxploitation dos anos 70.
O filme também conta com efeitos especiais satisfatórios. Machete tem uma predileção por facas e, por isso, fatia, decepa e decapita qualquer coisa em seu caminho, e a resposta no vídeo é satisfatória, com esguichos de sangue e membros voando para todos os lados. Os tiros também são bem executados, com sensação de impacto e sempre um jato vermelho pintando a parede.
O maior crime contra Machete é levar alguma coisa na tela a sério. Robert Rodriguez, que sempre carregou a bandeira mexicana em suas produções, pode considerar o filme um manifesto pró imigração, mas é evidente que o que está na tela é farsesco, insano e exagerado. E mais: é possível penalizar um filme que bota Robert DeNiro vestido como um cucaracho ilegal – com direito a poncho e chapéu surrado – atirando para todos os lados? Não, não é.
POR: [Gerhard Brêda]
Bom
500 dias com ela
| Marc Webb
Não é nada surpreendente que 500 dias com ela tenha rapidamente se tornado um sucesso indie. Afinal, o moleque franzino e socialmente esquisito que se apaixona por uma beldade blasé de olhos azuis provavelmente reacende memórias muito vívidas de seu público-alvo. Quando a hearbreaker em questão é a musa indie Zooey Deschannel, então, o tiro emocional é ainda mais certeiro. Adicione a isso um punhado de tiradinhas sarcásticas e uma trilha sonora descolada e, pronto, eis a história de (des) amor perfeita para os nerds de coração mole.
O filme narra o suplício emocional de Tom Hansen (Joseph Gordon-Levitt, na medida), o típico "rapaz da casa ao lado” , que se apaixona irremediavelmente por Summer (Zooey Deschannel, perfeita no papel), uma garota linda, espontânea e emocionalmente bipolar. Deprimido com o fim de seu conto-de-fadas, Tom começa a revisitar os momentos que passou com a saudosa amada, flutuando entre os sentimentos de depressão, raiva, conformidade e o eventual chororô afeminado.
Com uma história simples e bem contada, o filme triunfa nos detalhes e na sinceridade do sentimento. Ao declamar os belíssimos versos “Roses are red, violets are blue. F*&¨$ you, whore”, Tom resume perfeitamente os sentimentos mistos em relação a Summer: amor, saudade, e uma vontade intensa de amarrá-la aos trilhos de um trem ao som de Carlinhos Brown. A devoção do protagonista à amada beira a insanidade mas, ao mesmo tempo em que parece absolutamente demente, é perfeitamente compreendida por corn... Homens que já tiveram seus corações partidos. Graças à atuação discreta de Gordon-Levitt, Tom escapa de se tornar um panaca que precisa tomar tenência de homem, tornando-se um cara simpático que simplesmente foi muito sacaneado pelas circunstâncias.
Já a heartbreaker promete duas reações opostas: encantamento e o mais puro ódio. O encantamento vem de grande parte da da plateia masculina, que dificilmente resiste aos olhinhos azuis, sorriso tortinho e personalidade marcante (limítrofe?) de Summer - responsável por eternizar Zooey como a atriz mais mentalmente visualizada com roupas de Princesa Léia por nerds do mundo inteiro. Para alguns (particularmente as garotas), Summer surge como uma mulher enjoada, mimada e manipuladora, alheia aos sentimentos da vítima de sua leviandade. Para outros, ela simplesmente confirma o mito de que homens tendem a gostar mais daquelas que não batem muito bem das ideias. De qualquer modo, ninguém passa impune à presença de Summer Finn.
O filme é leve, fofo, e adoravelmente agridoce. Encanta, mas não necessariamente arrebata. Não precisa, também. As boas atuações, trilha sonora e, claro, Zooey Deschannel garantem a 500 dias com ela um lugar cativo no corações de sofredores em todos os cantos. Para um cara esperto, é o filme ideal para curtir abraçadinho com a namorada numa tarde chuvosa de sábado. O truque é menosprezar a presença de Zooey, dar aquele beijo apaixonado na namorada e sussurrar que ela "é muito melhor que qualquer Summer por aí". Fica dica.
POR: [Fernanda Prates]
Excelente
Piranha 3D
| Alexandre Aja
Praia, sol, mulheres nuas e membros humanos dilacerados. Muitos membros humanos dilacerados. Eis a receita para o sucesso de Piranha. Trash na melhor acepção da palavra, o filme de Alexandre Aja não tem medo de desbravar territórios toscos, repulsivos e maravilhosamente sanguinolentos, trazendo de volta uma podridão sem qualquer tipo de compromisso com a realidade, ou com o bom senso, que há muito não aparecia no cinema. E já não era sem tempo!
Piranha, remake do filme de 1978 de Joe Danta, conta a história de... Bem... Piranhas. Mais especificamente, piranhas mutantes e comedoras de carne que saíram do controle após um abalo sísmico, iniciando um impiedoso ataque ao Lago Vitória -- animado point de férias para jovens ébrios, empolgados e com o discernimento sexual de coelhos em época reprodutiva. O resto da trama é previsível: gritos, sangue, morte e desmembramentos, não necessariamente nesta mesma ordem.
Elisabeth Shue, a eterna "Ali com i", de Karate kid, vive a policial durona que se divide entre proteger os nada pacatos turistas sob ataque e a seus próprios filhos. Convincente, Shue quase nos faz acreditar que estamos vendo um filme sério. Mas Kelly Brook, Jerry O’ Connel e Christopher Lloyd logo tiram esta má impressão. Embora o pseudo romance bonitinho entre Jake (o bobalhão Steven R. McQueen) e Kelly (a linda Jessica Szhor) chegue a parecer fofo, é rapidamente esquecido em meio ao mar de sangue, braços, pernas e o ocasional pênis errante.
Comentar enredo e elenco é realmente improdutivo quando se trata de um filme como Piranha. A verdadeira graça é aproveitar as cenas grosseiras, exageradas e dolorosamente gráficas. As toscas piranhas, computadorizadas com uma sofisticação comparável à da VIP de Geisy Arruda, são tão assustadoras quanto chumaços de algodão, o que só faz o filme ser mais divertido. Cenas escalafobéticas, como a menina que tem as pernas brutalmente devoradas ao curtir um passeio de parapent (com os seios expostos, claro), contrastam de maneira cômica com a quase – ênfase no quase – poética cena das duas atrizes pornôs nadando juntas como ninfas siliconadas.
A alternância entre o massacre e o humor negro é o suficiente para prender a atenção – e a possível ânsia de vômito – do espectador. Em vez de cair na armadilha do meio termo hollywoodiano, o filme não dilui o tosco. É tudo muito ridículo, e, quando você acha que vai melhorar, piora. Ao mesmo tempo, o trabalho de maquiagem é tão detalhado e verossímil que você quase consegue acreditar no desespero da situação. Mas, tal qual um messias, Jerry O’ Connel retorna à tela para colocar as coisas em perspectiva.
O segredo para a verdadeira apreciação de Piranha é não esperar nada. Numa cultura cada vez mais hipster, cheia de tiradinhas blasé e humor sofisticado, é revigorante poder rir de algo tão absurdo e sem conteúdo quanto a jornada sangrenta das piranhas pré-históricas. Sem nenhuma pretensão além de divertir e chocar, o filme pode ser uma experiência libertadora para aqueles com um pouco de senso de humor – e certa resistência estomacal.
POR: [Fernanda Prates]
Excelente
A origem
| Christopher Nolan
Bem perto de um espasmo cerebral, A origem é dos filmes de ação mais inteligentes que você há de assistir. Daqueles que finalmente dão fim original a um orçamento milionário (US$ 160 milhões). Consagrado por outros arrasa-quateirões de qualidades inegáveis, Christopher Nolan agora invade a aventura solitária mais maravilhosa que desde sempre existiu — o sonho. Cria e manipula a vida onírica, fazendo dos inevitáveis momentos de solidão dos sonhos uma experiência compartilhada. É um blockbuster, entretenimento puro. Mas apresenta uma pegada tão intensa e nervosa que, depois de A origem, a trivialidade de encostar a cabeça no travesseiro e dormir já instala o crivo da dúvida. Trata-se do expoente do filme para se ver no cinema, que abusa do seu próprio dispositivo e da experiência compartilhada numa grande ode à sua própria arte.
O hype que cerca A origem desde seu anúncio, com pouquíssimas informações vazadas desde então, é simples e se resume a duas palavras — Christopher Nolan. O homem pensou no magnífico roteiro de A origem ainda bem novo e há oito anos o pôs no papel. Nesse meio tempo, conquistou o coração dos nerds ao fazer de Batman um herói novamente rico e respeitado, primeiro em Batman begins, depois, e ainda melhor, em O cavaleiro das trevas.
Antes disso, arrebatou a crítica com Amnésia (2000) e Insônia (2002), ensaios, já em múltiplas camadas, sobre amor, sono, sonho e subconsciente. Era o que precisava para recolher a confiança suficiente para violar derradeiramente tais temas em A origem.
Não satisfeito com o ambicioso roteiro intrincado que criou, o estado de sonho se reproduz também na estética do filme. As imagens, captadas em seis países, não são esfumaçadas ou os sons distorcidos, como os sonhos geral e pobremente são reproduzidos no cinema. A origem aproxima dois universos que desde sempre caminharam juntos — a experiência cinematográfica e a onírica.
No escuro, visualizamos imagens cuja completa apreensão perpassa uma montagem em boa parte também inconsciente; o tempo respeita códigos muito específicos da filmografia; enquanto também equilibramos o ver e o não-ver, assistindo projetada na tela a uma história que não sabemos exatamente como controlar, embora passemos boa parte tentando.
Em A origem, o rumo é bastante esse — caímos no meio de uma trama louca. Explicá-la formalmente é muito mais complexo do que entendê-la, senti-la durante as quase três horas de filme. Os diálogos são rápidos, as cenas ainda mais, a tensão é crescente, mas intuitivamente entende-se o que se passa ali, embora nunca se consiga desvendar a próxima cena.
Para além da ficção científica, de um homem que adentra e manipula sonhos de outras pessoas, outras linhas fortes enlaçam a trama de A origem. O romance, a paranoia e até uma ou duas linhas de comédia são honestamente entregues, embebidas em gêneros consagrados e muito bem realizados. O protagonista é Dom Cobb, um magnificamente atormentado Leonardo DiCaprio, que encara seu destino fatal sem tanto desespero ao rumar numa última missão. O extrator, especialista em roubar segredos ao penetrar em sonhos, trabalha a mando de grandes industriais, mas é um homem comum: rendido às tentações de escape de sua realidade (que nada tem de tão afugentadora assim), nosso herói desaprendeu a sonhar. Precisa se reconectar com o mundo real, suas falhas e perdas reais; precisa voltar a seu lar. Sem sentido figurativo aqui: o que Cobb mais quer é retornar aos EUA.
É exatamente o que lhe oferece o poderoso japonês Saito (Ken Watanabe). A derradeira tarefa de Cobb é, em vez de extrair, implantar uma ideia, sua semente, sua forma mais simplória, para que cresça naturalmente no subconsciente de sua vítima. No caso, do concorrente de Saito, Richard Fischer, vivido por Cillian Murphy.
Nessa última missão, uma manobra arriscada, e considerada por muitos até impossível, Cobb percorre o mundo (e que locações!) atrás da equipe perfeita (como bem fez Nolan ao montar este elenco impecável). Arthur (Joseph Gordon-Levitt) é seu comparsa de confiança, que aqui faz um tipo bobinho ao cuidar da proteção da equipe. Ariadne (Ellen Page) é a arquiteta, que constrói os labirintos surreais dos sonhos a serem percorridos e serve também como alicerce contra os devaneios da mente arruinada de Cobb. O inglês Eames é o falsificador (Tom Hardy), simplesmente genial ao incorporar pessoas no ambiente dos sonhos, de carisma e deboche encantadores. Yusuf (Dileep Rao) é o químico, responsável pela dopagem da gangue, que tem de ficar sonhando por horas a fio, sonho coletivo dentro de sonho coletivo. No elenco há ainda Marion Cotillard, que interpreta Mal, a ambígua mulher de Cobb e Michael Caine, a figura patriarcal Miles — e isso é só o que se pode dizer sem estragar esta experiência surreal.
Nolan manda nesses personagens. Mapeia e prevê cada movimento, gesto e defeito, governa seus subconscientes. Um dos motivos para o sucesso absoluto de A origem é justamente a atenção aos detalhes, que faz com que toda a extravagância surrealista pareça simplesmente... real. Nolan coloca frente a frente o melhor da cinematografia clássica e moderna. Os movimentos de câmera são precisos, e muitas vezes são eles que originam as loucuras a que assistimos. Os efeitos espetaculares ajudam — e, de fato, transbordam os olhos.
Pequeno exemplo desse encontro, além das reverências a gêneros consagrados, como a própria ficção científica e o thriller noir, é a trilha de Hans Zimmer, parceiro de outros filmes de Nolan (Batman begins e O cavaleiro das trevas) — outros colaboradores frequentes participam, como o diretor de fotografia Wally Pfister e o editor Lee Smith. A trilha original foi toda composta em cima do clássico Non, je ne regrette de rien, de Édith Piaf, inclusos aí graves ensurdecedores e outros ruídos um tanto excessivamente perturbadores. O coração desse labirinto é uma história amarga de amor, arrependimento e culpa. Outras repressões psicológicas perambulam a trama e sempre foram questões centrais na cinematografia do diretor. Nolan plantou a ideia, metafísica, brilhante. Mergulhe. Enlouqueça. Sonhe.
POR: [Marcella Huche]
Excelente
Príncipe da Pérsia: As areias do tempo
| Mike Newell
Gerhard Brêda
Príncipe da Pérsia é um marco divisor na história do cinema pop. Longe de ser um grande clássico ou um cult incompreendido, a produção tem o mérito de ser o primeiro bom filme baseado num videogame, ainda que com sua cota respeitável de falhas.
Jake Gyllenhaal, com um físico bastante diferente do franzino Donnie Darko que o lançou, vive o príncipe Dastan, que nasceu plebeu, mas foi admitido na corte da Pérsia por sua coragem. Dastan tem dois outros irmãos, Tus (Richard Coyle), o primeiro na linha de sucessão, e Garsiv (Toby Kebell). A trama é uma das partes mais fracas e é o batido conto de um herói que precisa provar sua inocência diante de provas esmagadoras. No caso, Dastan é acusado de matar o rei Sharaman, precisa fugir dos irmãos e descobrir a identidade do verdadeiro assassino.
O elenco conta também com Gemma Arterton vivendo a princesa Tamina, numa performance que quase fica irritante, mas estaciona confortavelmente no “charmosa”. Ben Kingsley vive o enigmático irmão de Sharaman, Nizam, num papel óbvio e sem muitas camadas. Outro que faz uma ponta é o Doutor Octopus em pessoa, Alfred Molina, que age como alívio cômico no papel de um sheik trambiqueiro e ganancioso.
O maior mérito de Príncipe da Pérsia: As areias do tempo é capturar admiravelmente o espírito do game e traduzir a experiência interativa para a tela. Numa cena, quando o príncipe está invadindo o reino de Alamut, seu fiel amigo Bis passa os objetivos da missão. A câmera, tal qual faria em um game, viaja pelos alvos do príncipe (ou o jogador, caso o joystick esteja na mão), que precisa descobrir uma forma de cumpri-los. Esta mecânica, descobrir uma forma de chegar do ponto A ao ponto B com acrobacias, define a jogabilidade dos recentes jogos da franquia Prince of Persia, como Sands of time, Warrior within e The two thrones. O filme, aliás, parece pegar deixas no design de todos estes games, mas toma a correta decisão de não seguir fielmente nenhum deles. A história é coerente com o mundo do príncipe, mas não segue nenhuma de suas aventuras anteriores. Provavelmente a atenção à questão da atmosfera foi garantida pela presença de Jordan Mechner, o pioneiro designer da franquia, na produção do longa.
O príncipe de Gyllenhaal tem alguns problemas. O ator exala carisma e tem a aparência certa para o papel (ainda que a Pérsia do filme seja estranhamente caucasiana), com um sorriso nobre e humilde na mesma medida. Os problemas surgem quando Gylenhaal dispara um estranho — a princípio — sotaque britânico forçado e, mais grave, nas próprias falas. Está estabelecido no mundo dos games que o príncipe é sarcástico, com respostas tão afiadas quanto suas cimitarras, mas a escrita do filme precisa ser amolada. O esqueleto de boas frases de efeito está ali, mas raramente o príncipe dispara algo fora do comum ou genuinamente engraçado.
As cenas de ação são bem coreografadas, com muita ênfase em acrobacias. A edição é ligeiramente esquizofrênica e a câmera um pouco tremida, mas os personagens costumam ser distintos o bastante para que o espectador saiba quem é quem. No geral, os efeitos especiais não comprometem e só chegam a um nível constrangedor quando surgem as cobras controladas pelos Hassanssin, feitas em CG datado. Todo o mecanismo das Areias do tempo é interessante, ainda que pouco explorado, e se inspira apropriadamente em Prince of persia: The two thrones.
O primeiro passo está dado. Uma empresa gigantesca como a Disney colocou uma franquia de peso dos games como Prince of Persia sob suas asas e disparou um dos mais sólidos blockbusters da temporada. Os filmes baseados em quadrinhos já estão amadurecidos. Quem vai dar o próximo passo?
POR: [Gerhard Brêda]
Regular
Planeta 51
| Jorge Blanco / Javier Abad
Um enredo de ET ao contrrário, com pitadas de humor que só os mais velho saberão apreciar. Soma-se a isso toda coleção de clichês que vem junto a esta ideia e o resultado é uma história que poderia render mais, principalmente porque as possibilidades são ilimitadas em uma animação. Planeta 51 é dirigido a crianças e adultos, por reunir diversas referências culturais e de outras produções ao longo da sua narrativa, fáceis de acompanhar. Mas tanta previsibilidade impede que em alguns momentos o filme decole. O roteirista, Joe Stillman, o mesmo de Shrek I e II e mais város epidódios para a televisão de Beavis e Butthead e O rei do pedaço já provou que tem talento e experiência de sobra para trabalhar com animação, mas aqui apresenta um trabalho no mínimo burocrático. Talvez porque essa seja a primeira incursão dos diretores Jorge Blanco e Javier Abad em qualquer coisa que se projete em uma parede plana.
O astronauta americano, Capitão Charles "Chuck" Baker, pousa com seu módulo no Planeta 51 pensando em se tratar de uma região inóspita e desabitada. Sua intenção é plantar a bandeira de seu país, recolher o rover que foi previamente enviado para recolher amostras de pedras e retornar em segurança para a nave em órbita que vai levá-lo de volta à Terra. Para sua surpresa, o planeta povoado por pequenas criaturas verdes, que falam seu idioma e cuja cultura é idêntica a da terra exceto por estarem nos anos 50 e não chover água, mas pedras. Ele se assusta e os cidadãos do subúrbio em que pousa também. O clima é de muita paranoia, semelhante ao que havia na terra durante os anos dourados, com os habitantes temendo uma invasão de extraterrestres, ou melhor, humanoides que viriam para dominar o planeta e devorar seus cérebros.
A cidadezinha é típica do interior e todos se conhecem. Neste ambiente, o astronauta trava uma amizade com o jovem Lem, típico adolescente feliz em conseguir seu primeiro emprego no planetário e que não encontra coragem para se declarar à bela Neera, uma vizinha envolvida com colegas um tanto hippies, chegados a realizar protestos. Lem então é forçado a ajudar o astronauta a retornar com o rover e deixar o planeta em pouco mais de 70 horas. Então surge o principal obstáculo da empreitada, o General Grawl, que invade a cidade com o exército local em busca do pretensamente perigoso e hostil visitante extraterrestre.
A animação cinematográfica evoluiu muito ao longo dos últimos anos, ao ponto em que atores de peso emprestam seus melhores trejeitos faciais, além de suas vozes aos personagens. Os sofisticados efeitos especiais, unidos à nova tecnologia CGI, ajudam a realçar essas nuances, trazendo dramaticidade às histórias. Nao é à toa que no passado recente, várias dessas produções concorreram ao Oscar em pé de igualdade com filmes de verdade. Planeta 51 não tem essa ambição, por se tratar de uma comédia, mas mesmo assim não consegue fazer bom uso dos talentos de Jason Long, Dwaine Johnson e Gary Oldman, que emprestam suas vozes, respectivamente, ao jovem Lem, ao astronauta e ao general. Os personagens têm pouca expressividade, tornando difícil uma rápida identificação com o público. As boas tiradas de humor são poucas, e todas juntas só dariam para sustentar meia hora de história, o que torna o filme arrastado.
O resultado final até diverte, mas não empolga ao ponto de justificar uma ida ao cinema. A superficialidade e a ausência de uma mensagem que prenda a atenção são tamanhas que será possível esquecer parte do enredo ao chegar em casa. Melhor apreciar as poucas boas tiradas e a excelente qualidade dos efeitos especiais para assistir com os pequenos em casa, quando chegar a versão em DVD.
POR: [Franz Valla]
Excelente
A princesa e o sapo
| Ron Clements e John Musker
Uma história simples e universal, aliada a excelentes números musicais e o uso de muita luz e cor, ainda é a receita de sucesso do estúdio de animação que domina o mercado mundial há 70 anos. O lançamento de A princesa e o sapo marca o retorno da Disney ao programa básico que elevou a instituição ao patamar que ocupa imbatível no setor de desenhos animados. A empreitada prova que não é necessário fazer uso de sofisticadas técnicas de computação gráfica ou de 3D para criar um espetáculo de entretenimento para toda a família. O fato de que pela primeira vez é introduzida uma princesa negra é só o começo.
O filme é uma adaptação de um conto de fadas dos irmãos Grimm, em que há um príncipe transformado em sapo que precisa receber o beijo de uma princesa para retornar a forma humana. Nesta versão, que se passa na virada do século XX, em New Orleans, encontramos a heroína Tiana, uma criança negra, filha de pais trabalhadores, ainda em sua infância, sendo criada ao lado de Charlotte, uma patricinha rica e branca, que adora histórias de contos de fadas. Tiana não pensa nem de longe em virar princesa. Seu único sonho é realizar o sonho de seu pai, abrir um restaurante.
A história avança até os anos vinte onde encontramos a heroína já adulta, trabalhando em dois empregos como garçonete e economizando suas gorjetas para abrir o tal restaurante e realizar o sonho do já falecido pai. Nesse ínterim chega à cidade o príncipe Naveen do distante reino da Maldonia, que vai se hospedar na casa de Big Daddy Labouff, pai de Charlotte. A amiga de infância de Tiana só pensa em se casar com o príncipe e assim realizar seu sonho de infância de se tornar princesa na vida real e contrata nossa heroína para providenciar a comida que será servida na festa de recepção ao príncipe. Tiana vê ali a oportunidade que precisa para juntar o dinheiro que precisa para comprar seu restaurante e aceita o trabalho.
Ficamos sabendo logo no princípio do filme que o charmoso príncipe não está bem de finanças e que procura um casamento de conveniência para continuar mantendo sua vida boemia. Logo que ele chega à cidade acaba caindo nas garras de Dr. Facilier, um perigoso charlatão que pratica o vudu e tem interesse em se apoderar da fortuna de Big Daddy Labouff e dominar a cidade. O ambicioso vilão faz acordo com o serviçal do príncipe e transforma nosso herói em sapo. Em sua nova condição anfíbia o príncipe Naveen acaba encontrando com Tiana na festa de Charlotte e lhe pede um beijo para voltar a ser humano. Mas o que parece ser o final do filme sinaliza apenas seu começo porque passaram apenas 15 minutos do seu início.
A história a partir daí é cheia de clichês, mas concentra a narrativa em excelentes números musicais e tiradas de humor sutil que vão agradar as crianças e entreter os adultos. A mágica dos filmes anteriores da Disney é utilizada aqui com toda a força. É impossível não se encantar com a humanização do jacaré gordinho que quer tocar em uma banda de jazz ou do vaga-lume caipira que esta apaixonado por uma estrela. Os cenários do filme são um personagem a parte assim como a música bem desenvolvida pelo premiado Randi Newman, e conduzida por músicos de peso como o trompetista Terence Blanchard. Não demora muito para sermos transportados a era do ragtime e do nascimento do jazz, nos pântanos de New Orleans.
Houve um cuidado especial também quanto ao sotaque dos personagens, típico do sul dos EUA, que agrega qualidade ao filme. Resta saber se as dublagens, incluindo a do Brasil, saberão reproduzir esse elemento. O brasileiro Bruno Campos contribui com um forte sotaque estrangeiro ao personagem do príncipe, sem dar a entender a sua origem. Alguns críticos chegaram a comparar sua voz grave a de Antonio Bandeiras, mas o nosso talentoso carioca não deixa nem de longe transparecer um sotaque identificável.
A promessa de levantar a divisão de animação da Disney, feita por John Lasseter ao assumi-la em 2004 foi cumprida com sucesso. Ajudou bastante trazer o mesmo time de sucesso na direção de A pequena sereia, Ron Clements e John Musker, para alinhavar o processo.
O resultado final é que os pequenos vão descobrir que uma história bem contada ainda é suficientemente forte para disputar com a enxurrada de animações em 3D que promete invadir os cinemas no próximo ano, e os adultos ainda vão ter que aprender a conter as lágrimas ao final da projeção de uma história bem conhecida, contada com muito humor.
POR: [Franz Valla]
Bom
Alvin e Os Esquilos 2
| Betty Thomas
Baseado numa série dos anos 80, Alvin e os esquilos 2 lança mão da técnica de misturar personagens animados com atores reais e é tiro certo para levar a criançada para a sala escura nas férias sem se obrigar a duas horas de tédio e oligofrenia. O segundo longa sobre a boy band formada por três esquilos arquetípicos – o apolíneo Alvin, o engraçado e gordinho Theodore e o intelectual Simon – tem trama de high school comedy clássica e meia dúzia de cenas divertidíssimas.
Alvin e seus irmãos são matriculados numa escola. Por serem diferentes, ainda que famosos, sofrem de início com os alunos mais "descolados". Logo, no entanto, Alvin mostra habilidades no futebol e passa a ser um garoto popular. Nisso, os irmãos se sentem abandonados por seu líder. Um grupo musical rival, as Esquiletes (imagine o Destiny Child com vinte centímetros), aparece na escola, desafiando os Esquilos para uma batalha de bandas, e por aí vai.
Alguns lances de luta do bem contra o mal e lições sobre o valor da amizade e da solidariedade surgem aqui e ali, em meio a números musicais impagáveis, como covers anabolizados de Sister Sledge (We are family) e Corinne Bailey Rae (Put your records on) performados pelos pequenos roedores.
Com roteiro simplesinho, mas razoavelmente bem urdido, mostrando até alguns aspectos pouco elogiáveis da cultura adolescente americana, e animação de primeiríssima, Alvin e os Esquilos 2 é diversão estival livre de contraindicações.
POR: [Dirley Fernandes]
Excelente
Homem de ferro 2
| Jon Favreau
Robert Downey Jr. funde-se mais uma vez com o bilionário playboy Tony Stark para dar vida a Homem de Ferro. O segundo filme do herói da Marvel, dirigido por Jon Favreau, joga na lata os mesmo ingredientes que tornaram o primeiro filme um cult — tecnologia requintada, humor perfurante e ação explosiva — em doses consideravelmente mais prazerosas. Não tema, Homem de Ferro 2 é tudo aquilo que se espera dele, tão bom ou até melhor que o original que emplacou nos cinemas há dois anos, apontando para o amadurecimento do gênero.
Tirando proveito do fato de ser uma continuação, Homem de Ferro 2 pula as apresentações desnecessárias e começa do exato ponto em que o primeiro filme parou. Tony Stark é tudo, menos um herói convencional e, por isso mesmo, não se esconde sob uma identidade secreta. Downey Jr, mais uma vez, empresta as aflições que viveu há uma década ao personagem, cativante, leve, descontraído e muito humano, com falhas de caráter e vícios (alcoolismo, alfinetado nos dois filmes). Ao sair da sombra de sua armadura hiper high-tech, o playboy narcisista desfruta do melhor da vida, mas está sendo envenenado por sua fama, seu passado e até mesmo pelo disco brilhante que pulsa em seu peito, fazendo seu coração bater à base de paládio, algo nada saudável. No seu encalço, a pressão para entregar seu traje rubro e dourado aos militares e um desafeto do passado da Stark Industries, Ivan Vanko / Whiplash (Mickey Rourke), um físico que manda, da Rússia, seu ódio enegrecido por duas gerações. Doente e descontente, o bilionário entrega o comando de sua empresa a Virginia Pepper Pots (Gwyneth Paltrow).
Entre diálogos espetaculares e explosões em alta velocidade, Favreau não esquece de alinhavar uma boa trama, sob o comando de Justin Theroux. Além de Stark, Pepper e o coronel Rhodey (agora vivido por Don Cheadle, em boa substituição a Terrence Howard), somos apresentados a uma outra penca de personagens, todos meticulosamente delineados e em atuações encantadoras. Há Scarlett Johansson desfilando sex appeal num justíssimo macacão preto de couro, como Natalie Rushman (Viúva Negra), e um durão Samuel L. Jackson com um tapa-olho de respeito no papel de Nick Fury, líder da S.H.I.E.L.D. Os vilões arregalam mais os olhos. Mickey Rourke empresta a cara feia a Vanko, o único a deter a mesma tecnologia que Stark, que ora brada chicotes incandescentes, ora acaricia uma cacatua. Sam Rockwell encarna com perfeição o carismático Justin Hammer, um empresário que busca espaço na indústria bélica no vácuo deixando pela Stark Industries. Irônico, trava os melhores diálogos com Stark, soprando um quê do coronel Hans Landa, vivido por Christoph Waltz, em Bastardos inglórios.
Se o primeiro filme pecou nas cenas de ação, Homem de Ferro 2 se redime. Três grandes batalhas pontuam o filme, muito bem posicionadas e explicadas, sem gratuidade. Homem de Ferro 2 aquece em Mônaco, quando encontra pela primeira vez Vanko, mostra a batalha de armaduras, entre o herói e Rhodey, e o clímax final, na feira Expo Stark. A sequência traz ainda a esperada fusão do universo dos heróis da Marvel. Há referências a Capitão América, Thor, e Os Vingadores, segurem-se. A cena pós-crédito é hilária, mas não será exibida nos cinemas brasileiros, pois o filme só estreia uma semana depois nos Estados Unidos.
A qualidade de Homem de Ferro 2, além das explosões, ângulos abundantes e inusitados e as armaduras reluzentes, sustenta-se sobre os diálogos e interpretações afiados, orquestrados majestosamente por Favreau. Cresce Downey Jr., cresce Favreau e amadurecem os filmes de heróis, que contam com um roteiro quebra-tudo que qualifica os personagens e a ação.
POR: [Marcella Huche]
Regular
Lua nova
| Chris Weitz (diretor)
Lua nova é um novo capítulo na saga da família Cullen, vampiros do bem que procuram se ambientar num lugar remoto, bem no interior dos EUA. A história de amor que foi iniciada no primeiro filme, entre o personagem de Pattinson, o elegante vampiro adolescente Edward Cullen, e o de Stewart, a jovem mortal Bella Swan, aqui chega à maturidade, na qual aspectos mais delicados de sua relação complicada são discutidos mais a fundo. O filme começa com Bella sofrendo pesadelos ao finalmente perceber que inevitavelmente irá envelhecer enquanto seu parceiro continuará jovem para sempre. A primeira sugestão de que possa já estar desenvolvendo um fio de cabelo branco no dia em que completa 18 anos o revolta, ao ponto de temer que o amado se desinteresse por ela à medida que envelhece.
O problema do filme é que se baseia muito na trama desenvolvida no seu antecessor e, para quem não assistiu a Crepúsculo, fica difícil entender a narrativa. O roteiro malfeito começa, segue por pouco mais de duas horas e termina no mesmo ponto em que começou. Para preencher o meio, somos introduzidos aos lobisomens, mas estes não acrescentam nada para a evolução do argumento e a situação de Bella e Edward não avança um palmo. O filme é arrastado na maior parte do tempo, recheado de diálogos pobres. As cenas de ação, que incluem boas tomadas com efeitos especiais são escassas e servem para acordar quem não resistir a um cochilo. A adaptação do roteiro de Melissa Rosenberg procurou se manter fiel ao livro original, mas esticou uma história que poderia ser contada na metade do tempo.
Edward e o resto dos vampiros estão ausentes na maior parte do filme. Se Edward aparecer por 15 minutos é muito. O foco mesmo está nos lobisomens, que nesta continuação são as estrelas. Na esperança de satisfazer ao público adolescente feminino, que assistira ao filme em trovas, ficou acertado que Jacob e seus amigos aparecem com o peito nu na maior parte do tempo para que ninguém note a ausência de Edward. Nem Bella consegue desviar os olhos do tanquinho do amigo Jacob toda vez que ele tira a camisa. As cenas estúpidas e sem sentido não param por aí. Os momentos em que Bella sofre de saudade de Edward são de dar agonia enquanto só se ouve a trilha sonora que os produtores esperam vender a rodo a reboque do filme. Faz falta um controle remoto para adiantar a fita. O elenco é a grande casualidade dessa produção malfeita. Todos, sem exceção, comparecem com disposição para entregar uma atuação de nível, mas são desperdiçados. No final fica a impressão de que tudo foi feito com o objetivo de encher linguiça enquanto um próximo filme não vem.
O destaque aqui fica para a curta cena em que Edward aparece tentando telefonar para Bella, do lugar aonde se encontra no seu exílio voluntário. Da janela de sua casa, ou aparentemente, um barraco, pode-se ver o nosso Cristo redentor iluminado na noite.
POR: [Franz Valla]
Regular
Dupla implacável
| Pierre Morel
A fascinação que a raça humana tem com duplas é fantástica. Batman e Robin, Riggs e Murtaugh, Zezé di Camargo e Luciano, todos são adições ao panteão de pares da cultura pop. Talvez seja a ideia de que um complementa o outro. Em Dupla implacável (uma inexplicável tradução do bom título From Paris with love), John Travolta e Jonathan Rhys Meyers sem dúvida são uma dessas parcerias que se complementam, em um filme recheado de clichês mas que, no fim das contas, diverte.
Na trama, Rhys Meyers, em uma performance melhor que sua média, é James Reece, o assistente do embaixador americano na França que quer entrar para o time de agentes secretos do governo e botar as mãos na massa. Sua contrapartida é Charlie Wax, um John Travolta careca, com um delineado cavanhaque e alguns quilos acima do peso. Wax é uma bomba relógio ambulante, sempre matando o prestes a matar algum terrorista. Viciado em armas, Wax é exagerado, mas divertido. Os dois precisam desarmar os planos de terroristas que querem explodir uma delegação americana que visita Paris. À exceção de uma interessante reviravolta no fim, o longa passa cuidadosamente pelos clichês estabelecidos pelos filmes de ação. Alguns tiroteios surgem quase do nada e a história, escrita por Luc Besson, transparece o amor por balas voando do cineasta francês, que ainda tenta superar a insanidade que criou com Carga explosiva 2.
O que separa, ainda que não muito, o filme de outros do gênero é a presença de Travolta. Como de costume, o ator está excelente e há algo de fascinante em ver um levemente gorducho Travolta espancando alguns terroristas com um taco de beisebol. As tiradas do personagem são ágeis e a relação como Reece, ainda que um pouco forçada, não descamba (tanto) para o bromance declarado. Algumas citações inteligentes espalhadas pelo roteiro também são dignas de nota, como a discussão sobre Star trek que os dois têm e uma clara referência ao personagem Vincent Vega, de Pulp fiction, vivido por Travolta alguns quilos mais jovem e alguns anos mais leve.
É um filme de ação com uma trama fraca e a contagem de corpos e explosões não é particularmente notável. Nem mesmo a cidade de Paris concede algum charme à produção, que busca apenas a segurança confortável de ser um filme medíocre. E, nesse aspecto, tem muito sucesso.
POR: [Gerhard Brêda]
Fraco
Um sonho possível
| John Lee Hancock
Há de se perdoar a tradução em português para este filme, que soa piegas do início ao fim. The blind side, no original, se apega ao drama baseado numa história real e, pretensiosamente, quase se lança ao limbo dos filmes que fazem de tudo para emocionar o espectador. Quase. Sem sal, o longa de John Lee Hancock (O álamo) se limita a apostar entre duas margens: a do drama carregado por traumas e deficiências do protagonista e a da comédia das entrelinhas, boba e desnecessária. Quantos filmes já se viu assim, com o mesmo enredo? É uma formula para agradar a todos, ser leve. O risco principal é cair no "mais ou menos". Por isso, Um sonho possível fica à beira do precipício.
Sandra Bullock entra pra endossar a campanha do sem graça. Faz seu trabalho, com uma atuação nada de mais, nada de menos. Apenas interpreta um papel como há muito deveria fazer — talvez seja uma pena ficar resignada a atriz de comédia. O Oscar de Melhor Atriz não se justifica, mas demonstra o que fez por merecer: atuou. Bullock convence da maneira que o filme se propõe a convencer. É que Um sonho possível é mais do que previsível, a se julgar pelo nome que já antevê, acima de tudo, um final passível de frases feitas a favor da esperança.
A história de Michael Oher, personagem de Quinton Aaron, lembra facilmente a de Preciosa, não somente por ser um ator negro no papel principal, mas pelos fatos inspirados na vida do jogador. Obeso, Michael chama a atenção de todos em qualquer lugar pelo seu jeito desengonçado e tímido. Parece ser mais agressivo do que aparenta ser. Possui traumas de infância, revelados por flashbacks, e ganha a simpatia de Anne Leigh e, aos poucos, de sua família. Com ares de socialite, a personagem de Bullock adota Michael e passa a integrá-lo à "vida social". O clima é de filantropia por boa parte do filme, até os treinos e partidas de Michael romper esses momentos — além da amizade contrastante com o filhinho de Anne. Cenas do tipo fazem o espectador sair um pouco da inércia, embora qualquer filme com competições, minimamente bem dirigido, é capaz de entreter — eis, então, mais uma fórmula de Um sonho possível. Ter uma professora particular democrata — personagem de Kathy Bates — vai ser só mais um elemento de pieguice ao drama insosso.
Apesar de se vender como um filme sobre superação, Um sonho possível deixa claro que a mediação de Anne, rica e instruída, a favor de Michael é o único meio de o jovem se tornar o que é hoje, vulgo "vencer". Compreensível até certo ponto. O longa extrapola nessa intenção e mostra que até mesmo o dom para o esporte só foi despertado pela pseudo socialite. É perceptível a alteração da biografia que dá base ao filme. Coisa de cinema. Coisa de indústria. A ordem é funcionar.
POR: [Monike Mar]
Fraco
O caçador de recompensas
| Andy Tennant
Depois de acertar (e bem) a mão com a ótima comédia romântica Hitch - conselheiro amoroso(2005), estrelada por Will Smith, Andy Tennant tenta repetir o feito com O caçador de recompensas. Mas falha retumbantemente. Ao contrário do ótimo timing apresentado em Hitch, com sintonia perfeita entre o trio Smith, Kevin James e Eva Mendes, O caçador de recompensasapresenta uma trama que mescla ação e romance, o que funciona até certo ponto, quando os clichês e a previsibilidade tomam conta do roteiro. O caçador mira, atira, mas erra feio.
Milo Boyd (Gerard Butler) é um ex-policial que se tornou caçador de recompensas e não consegue superar o fim de seu casamento. Até o dia em que descobre que a sua próxima missão é prender a repórter Nicole Hurly (Jennifer Aniston), ninguém menos do que sua ex-mulher. Mal sabia não ser o único a mirar na jornalista, que investigava uma matéria de um suposto suicídio, com suspeitas de envolvimento de policiais. Para conseguirem se livrar da barbada, precisam unir forças para sobreviver.
De fato o filme poderia ser mais uma ótima tirada de Tennant, não fosse pela extensão desnecessária da trama, tornando-a por vezes cansativa. A produção ainda consegue lascas dinâmicas e bonitinhas em determinados momentos, mas nada que prenda de forma consistente e original o espectador. Butler e Aniston têm uma excelente química, o que parcialmente salva esse dia de caça. Destaque também para a cômica Christine Baranski, como Kitty, a mãe da personagem de Aniston. Sem dúvidas, a melhor coadjuvante do filme, que roubou a cena em suas breves entradas.
Muitas indiretas e confusões por parte do casal protagonista aqui, algumas perseguições de carros — para variar — ali, personagens e atuações caricatas para complementar e O caçador de recompensas acaba como um filme leve e bobinho, um ótimo passatempo a quem precisa de ajuda para se entediar. Para quem se entusiasmou com o trailer, fica a dica que aqueles dois minutos e meio são mais atrativos do que as quase duas horas do longa.
POR: [Juliana d'Arêde]
Fraco
Cadê os Morgan?
| Marc Lawrence
Em poucas palavras, Cadê os Morgan? é uma comédia romântica medíocre. É o mínimo denominador comum, o ponto mais mediano possível em um gênero que já não é conhecido pela inovação ou originalidade. As piadas não têm graça e o romance é previsível. A única coisa que pode arrastar algum desavisado para o cinema é o charme de Hugh Grant ou a elegância de Sarah Jessica Parker. E mesmo os dois não seguram o filme.
Na trama, Parker e Grant são Meryl e Paul Grant, um casal em crise que está vivendo separado. Em um encontro para discutir a desmoronante relação, os dois testemunham um assassinato. Para escapar do assassino, que quer eliminar as testemunhas, o casal se vê forçado a entrar no programa de proteção de testemunhas e são enviados para a cidadezinha de Ray, Wyoming. Lá, eles ficam sob a custódia do xerife Clay Wheeler e sua esposa, Emma. Isolados de seu mundinho civilizado e tecnológico, os dois redescobrem o amor. Que novidade.
O ponto positivo do filme é Sam Elliot, no papel do xerife Wheeler. Ostentando um frondoso bigode grisalho e uma voz grave de trovão, além de uma coleção de DVDs de John Wayne e Clint Eastwood, Elliot é um carismático caubói.
O roteiro, por outro lado, faz o filme desabar mais rápido que a relação dos Morgan. Além das piadas óbvias e sem graça, típicas de qualquer comédia romântica, o filme insiste em longas piadas que se repetem durante o filme, mas nunca chegam perto da comédia. Todo o arco que envolve os assistentes é completamente desprovido de graça, assim como a garota bonita e burra que é enfermeira, garçonete e assistente do corpo de bombeiros. Outro aspecto que beira o ridículo é que os Morgan parecem não fazer falta alguma para o mundo que abandonaram em sua fuga. Meryl era uma famosa corretora de imóveis da cidade de Nova York, que aparecia em capas de revistas e era requisitada o tempo todo, enquanto Paul era chefe de uma firma gigantesca de advocacia. Ninguém, além dos patéticos assistentes, parece dar falta dos dois membros chaves desta firma.
Hugh Grant é carismático, mas não tanto. Até a metade do filme, seu repertório habitual de poses e caras até convence, mas ele é abatido pelas péssimas falas e cenas que o filme arremessa nele. É doloroso ver Grant, claramente um homem britânico, dançando quadrilha com os caipiras mais estereotipados possíveis, em um rincão do interior dos EUA, usando um chapéu e camisa xadrez.
Sarah mostra no filme toda a sua limitação como atriz. Em uma versão aguada da célebre Carrie Bradshaw, de Sex and the city, a atriz não tem nem a aparência nem o talento para segurar o filme acima da lama da mediocridade. Pelo contrário, Meryl Morgan consegue ser completamente irritante em diversos momentos do filme.
No geral, Cadê os Morgan? é uma história sem graça ou atrativos sobre um casal apaixonado em uma situação "peixe fora da água". Se você for fã de Hugh Grant ou Sarah Jessica Parker, vai dar uma chance, mas não espere o carisma de Letra e música nem a inteligência de Sex and the city. Eles, assim como os Morgan, estão perdidos por aí.
POR: [Gerhard Brêda]
Bom
Ilha do medo
| Martin Scorsese
Leonardo DiCaprio desafiando os limites entre realidade e loucura numa ilha? Não é a primeira vez que vemos isso. Ele deixa o ensolarado A praia, de Danny Boyle, para embarcar num claustrofóbico e tortuoso thriller noir assinado por Martin Scorsese. Trata-se da adaptação de Laeta Kalogridis do romance homônimo de Dennis Lehane — cuja obra já inspirou Sobre meninos e lobos (Clint Eastwood, 2003) e Medo da verdade (Ben Affleck, 2007). Perfeito em sua estética, Shutter island (no original) treme na trama, que especula, duvida e desorienta-se demais somente para polir o óbvio.
De Niro em 70, DiCaprio nos anos 2000. Em seu quarto trabalho com Scorsese — antes, Gangues de Nova York (2002), O aviador (2004) e Os infiltrados (2006) — o ex-galã encarna Teddy Daniels, um agente federal que ruma a Shutter Island, com seu parceiro Chuck Alue (Mark Ruffalo) na bagagem, para desvendar a fuga de uma mulher de um manicômio para criminosos. A procurada é Rachel Solando, que afogou os três filhos no lago de sua casa e sumiu, descalça, de uma cela trancada por fora. Entre um interrogatório e outro, Teddy é atormentado por enxaquecas, pesadelos e paranoias. Tudo parece encobrir um mistério, todos sabem de algo mais, nada é tão aquilo que é. É 1954, coração da Guerra Fria, e boatos de conspirações pululam a cada esquina.
Mas Scorsese tem mais em mente do que um interno insano à solta. Nas penumbras do hospital penitenciário, há o temor de bomba atômica, memórias dos campos de concentração nazistas e rumores de experimentos científicos questionáveis. O drama que ganha força, porém, é a sombria fronteira entre realidade e percepção, loucura e sanidade. Pouco a pouco, Scorsese larga tudo nos já pesados ombros de Teddy, que aprendemos, sofre com a morte da mulher (Michelle Williams), cujo assassino é um paciente do sanatório. Nenhum problema é pouco para DiCaprio, contudo, que aqui encarna tão bem Teddy que sua ansiedade arrepia nossa própria pele, enquanto Scorsese ocupa-se em despir a vulnerabilidade e o olhar preocupante — e preocupado — do policial.
O problema é que, aos 40 minutos do filme, Teddy é um homem nu de quase todos os mistérios, e o principal eixo dramático de Ilha do medo perde gradativamente o interesse do espectador. Exatamente quando deveria acelerar, a trama prende Teddy, fazendo-o encontrar atores excelentes (Emily Mortimer, Jackie Earle Haley e Patricia Clarkson), que expõem cuidadosamente assuntos que enlouqueceriam qualquer um. Resta ainda os admiráveis acenos de Scorsese ao noir, as sombras meticulosas nos chapéus de feltro, os cigarros queimando sinuosamente, um denso e estreito corredor de celas de onde surgem mãos agonizantes.
O filme de Scorsese mais próximo do que se pode considerar terror foi Cabo do medo, com Robert De Niro psicopata e tatuado. O trailer de Ilha do medo o vende assim — o que talvez explique os recordes de bilheteria na estreia americana — mas nada ali assusta, nem mesmo seu final invertido. Scorsese merece o poder da dúvida, contudo, e muitos dizem ser uma adaptação perfeita do livro de Lehane — o próprio diretor já saiu em defesa da obra. A fronteira realista em debate no filme, utilizada por Scorsese como veículo de estudo psicológico ou crítica social em outras ocasiões, aqui não extrapola o sistema claustrofóbico da ilha, mesmo que iluminado por fachos de virtuosidade.
POR: [Marcella Huche]
Regular
Chico Xavier
| Daniel Filho (diretor)
Chico Xavier ganha um retrato correto, mesmo que populista, do (ateu) Daniel Filho, e que sai em DVD e Blu-ray em julho. O diretor de Se eu fosse você 1 e 2 e Tempos de paz segue sua cartilha démodé — mais é sempre melhor. A estratégia de não restringir Chico Xavier à fé e fazer de um filme de nicho um espetáculo para as massas, contudo, atropela sutilezas e atocha uma biografia pouco contraditória e bem mediana — na mais cretina linha do politicamente correto.
A vida de um homem não cabe num filme, apressa-se a explicar o letreiro no início da projeção. Mesmo assim, Chico Xavier tenta passar gordas e desajeitadas pinceladas sobre um panorama da vida do médium, alinhavados por depoimentos do retratado no programa Pinga-fogo, na extinta TV Tupi. Matheus Souza, Ângelo Antônio e Nelson Xavier dividem a responsabilidade de encarnar (o trocadilho não é nada proposital) o ícone espírita em seus devidos tempos — infância, maturidade e velhice — baseados no livro As vidas de Chico Xavier, de Marcel Souto Maior.
Somos apresentados a um órfão, obediente, religioso e deslocado, que conversa com o espírito da mãe (Letícia Sabatella) sob uma frondosa árvore no quintal de casa. O pequeno Chico apanha da madrinha (Giulia Gam) e sofre da desconfiança geral dos que o cercam. O sofrimento não diminui com o passar do tempo, mas é acalentado nos braços da madrasta (Giovanna Antonelli) ou nos conselhos de Emmanuel (André Dias), seu guia espiritual. De anedota em anedota, Daniel Filho, verdade seja dita, consegue um apanhado dos principais acontecimentos da vida de Chico Xavier. Mas, é exatamente por transbordar exatidão onde deveriam sobrar contradições, sutilezas e organicidade que Daniel Filho faz um retrato em preto e branco do médium, atochando a grandeza humana do personagem que tem em mãos numa narrativa pobre.
Não é bem por drenar o aspecto religioso do longa — escolha da produção para ampliar o público-alvo — que Chico Xavier fica no escuro. Seria incorreto afirmar que assistimos a um filme panfletário do espiritismo ou sustentado pela fé. A mensagem e a “missão de vida” do maior ícone espírita brasileiro se agigantam a isso. Mas, no longa, a essência de Chico Xavier é condensada em pílulas de epígrafe, frases impactantes e frias que, mesmo com as ótimas interpretações dos Chicos, não ganham a dimensão do personagem, ora caricato, ora pacato, ora santo. Muito se fala sobre Nelson Xavier, que já era parecido com o médium, e em Chico Xavier sua caracterização é espetacular, mas pouco aproveitada. O tempo dedicado a essa fase do personagem é relativamente curto e, por isso, brilha mais o trabalho de Ângelo Antônio.
Para agradar seu grande público, Daniel Filho passeia por alguns gêneros. O drama da vida sofrida de Chico Xavier abre espaço também para cenas cômicas, como a que explica o porquê da peruca usada pelo médium, as em que Emmanuel dispara conselhos um tanto arrogantes ou a esquete em que Chico pensa que vai morrer num acidente de avião. A inserção do humor folhetinesco, porém, é totalmente deslocada da esfera dramática que cerca o filme e pode esvaziar a clamada emoção nos desavisados. A emoção encontra seu espaço na boa dupla de Tony Ramos e Christiane Torloni. Ele, um produtor de TV ateu que edita as cenas ao vivo do Pinga fogo, ela, sua esposa que conta com a ajuda do médium para superar a morte do filho. E está montado o ponto alto de Chico Xavier.
Num retrato esteticamente muito bem apanhado, mas frio, Chico Xavier tem bons ganchos para atingir o grande público. A história de um personagem que sempre enfileirou fiéis por onde passou, atores globais em boas interpretações, personagens diversificados e um roteiro que não se compromete com nenhum dos lados da disputa religiosa — além das 370 cópias distribuídas pelo país — garantem o apelo politicamente correto de Chico Xavier. Se em Pinga fogo a fé de Chico era televisionada para as massas e nascia ali um ícone nacional, Daniel Filho faz favor de a trazer para os cinemas.
POR: [Marcella Huche]
Bom
Os homens que encaravam cabras
| Grant Heslov
Os homens que encaravam cabras, que sai em julho em DVD e Blu-ray, é uma adaptação do romance homônimo de John Ronson. Narra a história de Bob Wilton (Ewan McGregor), um jornalista em crise em busca da história de sua vida, que é enviado por seu editor para uma entrevista com um suposto paranormal: Gus Lacey, que afirma poder viajar para qualquer lugar que quiser somente através da força da mente. Gus também diz ter feito parte de um projeto secreto do governo americano durante a Guerra Fria, o “Projeto Jedi” , que pretendia criar um exército de monges psíquicos. Duvidando da sanidade do entrevistado, Bob simplesmente ignora a história.
Pouco tempo depois, numa viagem ao Kwait, conhece por acaso Lyn Cassady (George Clooney), citado por Gus como o psíquico mais poderoso que já existiu. Lyn está partindo para o Iraque em busca de Bill Django (Jeff Bridges), militar que teria fundado o tal “Exército da Nova Era”. Lyn explica a Bob que os membros da unidade eram dotados de incríveis poderes paranormais: conseguiam ler a mente do inimigo, atravessar paredes e até mesmo matar uma cabra simplesmente com um olhar. Hesitante e duvidando da sua própria sanidade, o jornalista resolve acompanhar Lyn em sua viagem, a fim de escrever sua grande história.
Como a trama apresentada já pôde indicar, o filme se desloca em dois eixos: a comédia e nonsense, onde estão o seu lado positivo e negativo, respectivamente. Flutuando do humor fino ao negro deslavado, consegue arrancar boas gargalhadas de quem assiste. Ponto para o excelente elenco. Mas a história desconexa do filme vai se mostrando menos suportável conforme correm seus minutos. A insanidade dos acontecimentos é, digamos, “cool” numa primeira análise. Depois, torna-se gratuita, denunciando falta de habilidade em amarrar a trama de maneira atraente.
Esse não me parece, entretanto, um problema de direção, mas sim do roteiro que, em defesa do roteirista, é adaptado. Não há brilhantismo no nonsense criado por John Ronson. Há humor: seja ao observar um George Clooney bigodudo encarar uma cabra até matá-la, um Ewan McGregor oxigenado (que já foi Obi Wan Kenobi) perguntar inocente o que é um “jedi”, ou um Jeff Bridges de tranças e hippie a colocar seu batalhão para dançar e usar LSD como táticas de guerra. Humor. Cabe a quem assiste julgar se isso basta.
POR: [Phillippe Noguchi]
Regular
Alice no País das Maravilhas
| Tim Burton
Se há um diretor em Hollywood aparelhado para uma viagem à toca do Coelho abaixo, é o imaginativo Tim Burton, extremamente aplaudido por contos fantásticos como Edward Mãos de Tesoura (1990), Ed Wood (1994) e Peixe grande (2003). Novamente em dupla com Johnny Depp e sua mulher Helena Bonham Carter, o diretor remexe nas histórias de Lewis Carroll e traz uma versão febril — em cores, mil deslumbramentos e, pelo menos no cinema, três dimensões — mas fraca, com poucos espasmos de emoção, tensão ou suspense. Entre xícaras de esquisitices, colheres de tiques nervosos e grandes cubos de surrealismo, Burton traz Alice, 13 anos depois, de volta ao seu mundo encantado para um chá de poucas maravilhas, que já está em pré-venda em Blu-Ray.
Alice (Mia Wasikowska), a menina loira do vestido inflado e anil, cresceu numa mulher pouco convencional e muito avoada para o século 19, avessa a espartilhos e meias-calça, para apontar os menores dos delitos. A bela toma uma carruagem para uma chique festa aristocrata, que, ela desconhece, é onde será pedida em casamento por um pedante lorde ruivo, Hamish. É ali que volta a se encontrar, providencialmente, com o tradicional Coelho Branco, quem ela acreditou fazer parte de um sonho que a persegue desde a infância, e se enfia, mais uma vez, buraco abaixo.
A trilha de Alice no País das Maravilhas dessa vez, vale apontar, é outra. Quase todos os personagens antigos estão ali, é verdade, mas as peripécias da garota apontam muito mais para um filme de fantasia com requintes de ação, como Nárnia, que para um sonho onírico e experimental como o original da Disney. Na cabeça de Burton, Alice volta e se vê predestinada a salvar o reino da fantasia do domínio da Rainha Vermelha (Helena Bohnam Carter) — a louca de cabeça consideravelmente avantajada, entusiasta da decapitação — sem decepcionar seus amigos (?), os personagens excêntricos e, dessa vez, mais humanos, como o Chapeleiro Louco (Johnny Depp), o gato Cheshire (Stephen Fry) ou os gêmeos Tweedledee e Tweedledum (Matt Lucas).
O grande problema de Alice..., justiça seja feita, não é tanto de Burton, que entrega esteticamente o que bem se esperava dele, mas do fraco e antiquado roteiro de Linda Woolverton. A roteirista é queridinha da Disney, tendo assinado A bela e fera (1991), O rei leão (1994) e Mulan (1998), mas desta vez passeia pelos personagens extraordinários de Carroll ou as cenas meticulosas de Burton sem muita atenção ou profundidade. A heroína imaginativa pretensamente trava uma jornada pessoal, à cata de sua “muchness”. No início do filme, ela é uma menina obstinada, de gênio forte. Ao fim de 1h40, ela é a mesma menina obstinada, de gênio forte. Pouco é mostrado nos vários encontros de Alice, friamente calculados para entregar minutos de ação, para arregalar os olhos, ou de humor excêntrico, para relaxar a barriga.
Mesmo com a história girl power de Linda, magra para desenvolver o apelo dramático que o filme requer, os atores brilham. Destaque absoluto para a Rainha Vermelha de Helena Bonham Carter, simplesmente perfeita a cada grito estridente e/ou ordem esdrúxula. Ela vive entre a supremacia do poder e do amor, desamparada numa corte em que todos fingem ter uma anomalia para chamar de sua e transitar a compaixão nos privilégios da corte de copas. Do outro lado, a estranha Rainha Branca (Anne Hathaway) chega a assustar mais (num mau sentido) que sua irmã cabeçuda, com uma bondade irreparável entre gestos exagerados e dedos nervosos. Com pouco sucesso, Mia se esforça para encontrar uma nuance envolvente em sua Alice de uma nota só, mas parece ser a que menos satisfaz. Depp faz um Chapeleiro mucho louco, cheio de tiques e parecendo sofrer de algum tipo de distúrbio psicológico sério — os fãs, como sempre, provavelmente cairão de amores.
Não bastassem as falhas que carrega sozinho, Alice... também teve o infortúnio de ser o primeiro grande lançamento no encalço de Avatar. Burton escolheu filmar em 2D e converter seu material final para três dimensões, o que realmente soa como o último suspiro da “moda antiga” de se fazer cinema. O 3D aumenta o deslumbramento com o filme, que realmente se sustenta no visual, mas não é efetivamente indispensável neste Alice no País das Maravilhas.
Felizmente, o drama, ou a falta dele, não é tão comprometedor quanto parece. Esse deserto de tensão se mostra terreno fértil para a criatividade ímpar de Burton criar o mundo de loucuras (macabras ou fantásticas) que assolam o País das Maravilhas. Para levar seu espectador por seu enredo pouco imaginativo, Burton festeja um parque de diversões alucinante, numa viagem de visual impressionante, pontuada pela maravilhosa música de Danny Elfman. No fim, Alice... é um corpinho bonito — e, nos cinemas, em 3D!
POR: [Marcella Huche]
Bom
En vivo
| Roberto Carlos
"O Roberto Carlos é um trabalhador. Tem que viajar para resolver negócios, criar suas canções, gravar um disco por ano. Ele deveria descansar mais", disse Wanderléia, há 12 anos, numa entrevista à Playboy. Desde 2005, quando lançou seu burocrático último disco de inéditas (com fraco desempenho até mesmo se comparado com os álbuns produzidos na época da doença da mulher Maria Rita, e perdendo feio para os álbuns "com título" feitos após sua morte), Roberto parece empenhado em seguir o conselho da velha amiga. Seu disco inédito, prometido para 2006, 2007, 2008, vem sendo adiado e o cantor toca projetos. En Vivo, Blu-ray com uma apresentação do cantor no Ziff Opera House - casa de shows dentro do complexo Carnival Center for the Performing Arts, em Miami, nos Estados Unidos -, continua na mesma base de fornecer souvenirs para os antigos fãs. O principal da lembrança em questão é trazer, pela primeira vez em vídeo, Roberto Carlos cantando em espanhol - e num lançamento para o mercado internacional. O original em DVD saiu em 2008.
Além da escolha do idioma hispânico, há mais novidades. O cantor fez uma regravação de Un gato en la oscuridad, canção-título de seu primeiro álbum em espanhol, lançado em 1972 - e que já era uma versão da balada Un gatto nel blu, música do italiano Toto Savio, que cantara no Festival de San Remo, um ano antes. Pouco conhecida no Brasil (saiu em italiano no álbum San Remo 1968, de 1976), a música é acompanhada por parte da platéia de Miami, também lotada de brazucas. Dá para perceber pelo entusiasmo do público quando Roberto mistura espanhol e português em Detalles, versão de Detalhes, que, como em várias apresentações do cantor, é o momento em que Roberto toca violão. O cantor (ostentando a mesma expressão triste, embora bastante simpática, com a qual tem aparecido em suas recentes apresentações) também faz uma releitura de El día que me quieras, bolero de Carlos Gardel e Alfredo Le Pera, que definiu, em pleno palco, como um "atrevimento", pedindo licença à platéia para cantar a música, que já lançara no álbum Roberto Carlos Inolvidables, de 1993, só com regravações em espanhol.
Para quem pretende apenas ter um bom greatest hits ao vivo do cantor, vale informar que o repertório é de primeira. Como o show é dedicado a Maria Rita, inevitavelmente aparece a fraca Mulher pequena (Mujer pequeña), sucesso de 1992 dedicado à mulher - por outro lado, também merecedora da arrebatadora Acróstico, que Roberto canta e toca ao piano, com a letra original em português. Mas tem as ótimas Amigo, Desabafo (Desahogo), Como vai você (Que será de ti), Jesus Cristo, A distância (La distancia) e, encerrando, Yo solo quiero (Un millón de amigos), versão em espanhol da bela Eu Quero Apenas, popular em países hispânicos. Resta agora Roberto manter a boa qualidade de discos recentes seus, como Amor sem limite (2000).
POR: [Ricardo Schott]
Excelente
Gimme Shelter - Rolling Stones (1970)
| Albert Maysles, David Maysles, Charlotte Zwerin
No fim dos anos 60, uma pequena gama de coisas aconteceu e cortou toda a magia e o otimismo, regados ao hippismo e à paz e amor, que marcaram a década. Além dos crimes da comunidade-religião hippie liderada por Charles Manson (que cortaram de vez a noção, partilhada por muito artistas e membros liberais da alta sociedade, de que cada cabeludo era um irmão) ainda teve o festival de Altamont, em 1969, encabeçado pelos Rolling Stones. A banda teve a inacreditável ideia de convidar os truculentos motociclistas dos Hell’s Angels para fazer a segurança, em troca de caixas de cerveja. O clima geral foi de total bizarria – um rapaz, Meredith Hunter, foi assassinado na plateia por um dos seguranças improvisados, um músico (Marty Balin, da banda Jefferson Airplane, que abria a noite) apanhou justamente por reclamar da violência, gente apanhando com tacos de sinuca e coisas do tipo. O filme dessa noite – que, de todo jeito, mostra uma das mais significativas e memoráveis apresentações dos Rolling Stones – virou um dos melhores documentários de rock de todos os tempos, Gimme shelter, feito pelos irmãos Maysles e Charlotte Zwerin e lançado em 1970 nos cinemas (inclusive no Brasil, com direito a histórias sobre sessões que acabavam em pancadaria nas salas de exibição).
Com cenas-chave para se compreender a relação entre rock e negócios na época (já que são mostrados flashes das discussões dos executivos da banda com donos de espaços para shows, além das conversas de bastidores), o filme procura defender a banda, que já era bastante perseguida pela polícia e por setores conservadores, das acusações de que teria provocado a morte do rapaz. O grupo dá mostras de que pouco sabia o que se passava na plateia, apesar de Keith Richards ter revelado, numa entrevista à Playboy, em 1989, que chegou a pedir que segurassem o Hell Angel responsável pelo assassinato. Se não fosse o registro de uma das maiores bandas do mundo em sua melhor fase (a época em que esfregavam sua sobrevivência aos revezes na cara dos Beatles, contrapondo o selvagem álbum Let it bleed ao canto do cisne beatle Let it be, é imbatível), já valeria como documento histórico – que ainda é valorizado por um canal de áudio com comentários dos diretores Albert Maysles e Charlotte Zwerin.
POR: [Ricardo Schott]
Regular
Flight 666
| Iron Maiden
Flight 666 retrata uma turnê ousada do Maiden – a Somewhere back in time, que rodou 13 países com Bruce Dickinson pilotando o avião de excursão, durante os 45 dias em que a brincadeira durou, em 2008. Na verdade, a ousadia fica por conta da estrutura do negócio, além do fantástico avião Ed Force One. Para o grupo, foi moleza lotar estádios só com os hits de suas fases áureas. Em versões muito pouco burocráticas, diga-se – fãs da banda não têm do que se queixar.
O blu-ray divide-se em vários hits, inteiros, capturados cada um em uma cidade – no Brasil, tem Heaven can wait, em São Paulo, e The clairvoyant, em Curitiba – e em um documentário sobre a turnê, de Sam Dunn e Scott McFadyen, cuja exibição no Brasil fez os fãs cantarem junto com a banda até nos cinemas, durante os momentos em que são mostradas as canções do Maiden. O interesse do doc é enorme para fãs ardorosos do grupo e para quem se amarra em ver aquelas brincadeiras descerebradas que qualquer banda faz em meio a turnês. No caso do Maiden, a coisa é até um pouco mais comportada, ainda que no tal avião 666, antes dos pousos, uma aeromoça seja encarregada de dissipar odores esquisitos dentro da aeronave... Mas a grande diversão do sexteto é jogar golfe. Nada de muito assustador, a não ser a tal história do pastor paulista que era fã doente do grupo e tem mais de 150 tatuagens pelo corpo. E prepare-se para rir de (e com) Nicko McBrain, baterista, palhaço e boa-praça de plantão da banda.
POR: [Ricardo Schott]
Bom
Avatar
| James Cameron
Não é fácil confirmar expectativas de tantos anos. Mas Avatar cumpre o que promete. Ao se deparar com este épico pós-colonial, faroeste interplanetário ecológico, pode-se imaginar o mesmo encantamento sentido por um espectador ao ver um filme como Intolerância ou King Kong, nas primeiras décadas do século passado. Com sua crença inabalável no cinema como espetáculo superdimensionado, Cameron leva o espectador a um exercício de imersão sem precedentes. A parte gráfica não só funciona, como é um dos pontos fortes. A mistura entre atores e cenários reais com os sintéticos é surpreendente – poucas vezes, o digital foi tão convincente.
O hibridismo está no centro mesmo da trama: um ex-combatente precisa escolher entre seu corpo real, aleijado pela ganância dos homens (a guerra), e sua versão avatar, que circula livremente em outro planeta, convivendo com seus habitantes, oprimido pelos terráqueos. Inflitrando-se entre os inimigos, descobre novos valores e uma outra abordagem da existência, que o coloca em conflito com suas origens humanas.
Cameron talvez seja, hoje, o único diretor a unir três tradições do cinema americano: a do pioneiro revolucionário com rompantes megalomaníacos (D. W. Griffith ou F. F. Coppola), a do entertainer clássico que domina com perfeição o story telling (John Ford) e a do autor com temas recorrentes e obsessivos (Martin Scorsese, entre outros). Sim, porque sob a superfície deste típico produto industrial de engrenagem vitaminada encontram-se algumas das obsessões mais caras do cineasta: a união homem-máquina (que tem em Exterminador do futuro 2 seu exemplo extremo) e a convivência entre mundos reais e artificiais (tema de O segredo do abismo e em um de seus primeiros curta-metragens, Xenogenesis), aqui representada por uma simbiose radical entre o cinema clássico e o numérico, a era da película e a do digital. É verdade que este foi um assunto recorrente nos filmes da última década. Nenhum deles, porém, levou-o ao paroxismo com a mesma ferocidade que Avatar.
POR: [Bolívar Torres]
Regular
Alvin e os esquilos 2
| Betty Thomas
Baseado numa série dos anos 80, Alvin e os esquilos 2 lança mão da técnica de misturar personagens animados com atores reais e é tiro certo para animar a criançada no pós-férias férias, sem se obrigar a duas horas de tédio e oligofrenia. O segundo longa sobre a boy band formada por três esquilos arquetípicos – o apolíneo Alvin, o engraçado e gordinho Theodore e o intelectual Simon – tem trama de high school comedy clássica e meia dúzia de cenas divertidíssimas. Se nos cinemas dava para aguentar, no conforto do lar Alvin e os esquilos 2 é ainda mais divertido, mesmo que peque pela ausência de extras.
Alvin e seus irmãos são matriculados numa escola. Por serem diferentes, ainda que famosos, sofrem de início com os alunos mais "descolados". Logo, no entanto, Alvin mostra habilidades no futebol e passa a ser um garoto popular. Nisso, os irmãos se sentem abandonados por seu líder. Um grupo musical rival, as Esquiletes (imagine o Destiny Child com vinte centímetros), aparece na escola, desafiando os Esquilos para uma batalha de bandas, e por aí vai.
Alguns lances de luta do bem contra o mal e lições sobre o valor da amizade e da solidariedade surgem aqui e ali, em meio a números musicais impagáveis, como covers anabolizados de Sister Sledge (We are a family) e Corinne Bailey Rae (Put your records on) performados pelos pequenos roedores.
Com roteiro simplesinho, mas razoavelmente bem urdido, mostrando até alguns aspectos pouco elogiáveis da cultura adolescente americana, e animação de primeiríssima, Alvin e os esquilos 2 é diversão estival livre de contraindicações.
POR: [Dirley Fernandes]
Regular
Distrito 9
| Neill Blomkamp
Distrito 9 é bipolar. A primeira meia hora, com um estilo de falso documentário e as performances excepcionais promete uma das melhores ficções científicas da história. Passados estes 30 minutos, o filme abraça um maniqueísmo burro, um racismo embutido e força goela abaixo uma dupla dinâmica entre o protagonista e um dos “camarões”.
A história do filme se passa na África do Sul. Uma nave alienígena encalhou por lá e os alienígenas, apelidados pejorativamente de “camarões” acabaram vivendo em um gueto ali. Uma metáfora clara do apartheid, só que às avessas. No mundo de Distrito 9, o negro/”camarão” invadiu o mundo do branco/humano. Vá entender.
Apesar do verniz anti racismo, há racismo ali. Os negros são retratados como criminosos estereotipados. O clichê máximo do guerrilheiro africano, que dança trance com AK 47 nas mãos, enfeitado de ouro e diamantes de sangue. Outra bola fora.
O maniqueísmo que o filme adota como ferramenta também beira o ridículo. Quando o protagonista Wikus Van De Merwe se infecta e começa a se transformar em um dos “camarões”, a raça humana inteira (incluindo sua esposa) dá uma guinada artificial em direção à maldade pura e simples. Wikus, subserviente do jeito que era, teria cedido seu corpo para a ciência, sem precisar da truculência dos militares.
Quando Wikus escapa da prisão, o filme decide abandonar os questionamentos e vira um filme policial dos anos 80, com um elo entre ele e um cientista “camarão”. Os dois, a princípio se odeiam, mas eventualmente se respeitam. É tudo forçado demais, nem a boa interpretação de Sharlto Copley salva o roteiro, que, neste momento, desaba.
Mesmo com todas as pontas soltas, o filme impressiona no aspecto visual. Os “camarões” são muito bem feitos, assim como todos os efeitos, construídos com maestria por Blomkamp e seu orçamento muito abaixo das ficções científicas atuais. Em alta definição, as explosões causadas por Wikus e seu parceiro são ainda mais impressionantes.
No fim das contas, os fãs de ficção científica precisam assistir Distrito 9. Ele não é o salvador do gênero na tela grande (Star trek, de JJ Abrams, chegou mais perto), mas tem algumas boas ideias que, se bem trabalhadas, podiam construir um excelente filme. Do jeito que está, é um belo filme com um roteiro que perde gás depois da primeira meia hora.
POR: [Gerhard Brêda]
Bom
MTV Apresenta
| Casuarina
No que depender da plateia do Casuarina, ninguém sai de um show da banda em clima de O dia se zangou (hit sambístico de Mauro Diniz e Ratinho relido pelo grupo neste MTV Apresenta). A quantidade de gatas por metro quadrado assusta e anima, a ponto de ser divertido não apenas ver o show, como também ver os flashes do público. Musicalmente, além disso, vale a pena dar ouvidos ao grupo, que em DVD e blu-ray, arremessa um dos melhores registros ao vivo do samba dos últimos tempos, mantendo o clima de roda de samba que marca suas apresentações durante a gravação. E exibindo – não apenas pela participação do burocrático Moinho em Rosa Morena, de Dorival Caymmi – um lado baiano no samba carioca, repleto de percussões afro e de misturas de ritmos, como se o samba voltasse reembalado e influenciado por Paralamas do Sucesso e Novos Baianos. Estes, por sinal, relembrados com Swing de Campo Grande, do Acabou chorare, dos NB.
Nas uniões rítmicas, rola até rock em trechos de Velho bandido, de Sergio Sampaio (compositor pop com alma de sambista). E na recordação de Já fui uma brasa, brincadeira de Adoniran Barbosa com os “moleques do iê-iê-iê” dos anos 60, com participação de Frejat. O grupo ainda homenageia os sambistas veteranos trazendo para o palco Roberto Silva (em seu hit irônico Jornal da morte) e Wilson Moreira (para reler sua Senhora liberdade). Lindo.
POR: [Ricardo Schott]
Regular
Lua nova
| Chris Weitz
A continuação do fenômeno vampiresco Crepúsculo, que elevou seus astros Robert Pattinson e Kristen Stewart ao patamar de estrelas de primeira grandeza de Hollywood, chega com força em DVD e, sobretudo, em blu-ray. Embora o filme compareça apenas com algumas gotas de sangue, ao contrário dos galões oferecidos pela bem orquestrada campanha de marketing que antecipou seu lançamento, os fãs da saga devem cair de amores pelos extras PIP — Picture in picture, um quadro com comentários cena a cena — e pelo teaser do que os espera em Eclipse. Na história, somos introduzidos a uma matilha de lobisomens para servir de contraponto aos senhores míticos que comandaram o primeiro episódio, mas mesmo estes não conseguem segurar o filme todo. Em Lua nova, o romance iniciado no primeiro filme, entre o personagem de Pattinson, o elegante vampiro adolescente Edward Cullen, e o de Stewart, a jovem mortal Bella Swan, aqui chega à maturidade, na qual aspectos mais delicados de sua relação complicada são discutidos mais a fundo.
O filme começa com Bella sofrendo pesadelos ao finalmente perceber que inevitavelmente irá envelhecer enquanto seu parceiro continuará jovem para sempre. A primeira sugestão de que possa já estar desenvolvendo um fio de cabelo branco no dia em que completa 18 anos o revolta, ao ponto de temer que o amado se desinteresse por ela à medida que envelhece. Preocupado com o rumo que a coisa toma — pois acha que é representa um perigo pra jovem — Edward decide se afastar da amada para o próprio bem dela. Ele vai embora com a família, mas não sem antes fazê-la jurar que nunca irá se meter em encrencas. Os meses passam e a inconsolável Bella começa a se envolver com o sarado amigo de infância Jacob Black, personagem de Taylor Lautner, na esperança de esquecer o romance mal resolvido com o ex-namorado. Ao descobrir acidentalmente que a imagem de seu amado aparece a ela toda vez que se envolve em situações de perigo, Bella passa a perseguir situações como esta na ânsia de vê-lo aparecer na sua frente por inteiro. Em meio a isso, descobre que seu amigo Jacob, que nutre por ela uma paixão platônica, vem a ser um lobisomem. Neste ponto a heroína percebe que não pode viver mais sem a companhia do pálido Edward e decide ir à cata de seu amor, nem que para isso tenha que pôr sua vida em perigo.
O problema do filme é que se baseia muito na trama desenvolvida no seu antecessor e, para quem não assistiu a Crepúsculo, fica difícil entender a narrativa. O roteiro malfeito começa, segue por pouco mais de duas horas e termina no mesmo ponto em que começou. Para preencher o meio somos introduzidos aos lobisomens, mas estes não acrescentam nada para a evolução do argumento e a situação de Bella e Edward não avança um palmo. O filme é arrastado na maior parte do tempo, recheado de diálogos pobres. As cenas de ação, que incluem boas tomadas com efeitos especiais — especialmente saborosas em blu-ray — são escassas e servem para acordar quem não resistir a um cochilo. A adaptação do roteiro de Melissa Rosenberg procurou se manter fiel ao livro original, mas esticou uma história que poderia ser contada na metade do tempo.
Edward e o resto dos vampiros estão ausentes na maior parte do filme. Se Edward aparecer por 15 minutos é muito. O foco mesmo está nos lobisomens, que nesta continuação são as estrelas. Na esperança de satisfazer ao público adolescente feminino, que assistira ao filme em trovas, ficou acertado que Jacob e seus amigos aparecem com o peito nu na maior parte do tempo para que ninguém note a ausência de Edward. Nem Bella consegue desviar os olhos do tanquinho do amigo Jacob toda vez que ele tira a camisa. As cenas estúpidas e sem sentido não param por aí. Os momentos em que Bella sofre de saudade de Edward são de dar agonia enquanto só se ouve a trilha sonora que os produtores esperam vender a rodo a reboque do filme. Faz falta um controle remoto para adiantar a fita. O elenco é a grande casualidade dessa produção malfeita. Todos, sem exceção, comparecem com disposição para entregar uma atuação de nível, mas são desperdiçados. No final fica a impressão de que tudo foi feito com o objetivo de encher linguiça enquanto o próximo filme não vem.
O destaque aqui fica para a curta cena em que Edward aparece tentando telefonar para Bella, do lugar aonde se encontra no seu exílio voluntário. Da janela de sua casa, ou aparentemente, um barraco, pode-se ver o nosso Cristo redentor iluminado na noite. O quarto e último livro da série (por enquanto) é ambientado no Rio de Janeiro e o próprio Pattinson já deixou escapar em entrevista recente que espera que possam acabar vindo filmar no Brasil.
POR: [Franz Valla]
Excelente
Blade Runner - The Final Cut
| Warner Bros
Para comemorar os 25 anos de lançamento de Blade Runner, o diretor Ridley Scott arregaçou as mangas e se dedicou por quase um ano à pós-produção em blu-ray da versão que considera (finalmente) a definitiva dessa obra-prima do cinema mundial.
Blade Runner – The Final Cut realmente usa e abusa de todas as possibilidades que o blu-ray deixa transparecer e que muitos (re)lançamentos na nova mídia ainda não tinham explorado. As cores parecem pular nos nossos olhos de tão vibrantes e o som, em 5.1 Dolby Digital, faz tremer o sofá com um potente sistema de som.
A visão do futuro de Scott (cada vez mais presente) aparece aqui em todas as quatro versões oficiais do filme e em um sem-número de documentários, trailers, observações, introduções, feitos diretamente para sanar todas as dúvidas e curiosidades do fã mais viciado em Blade Runner . Não vamos contar o que muda na história de uma versão para outra, mas pequenos detalhes aqui e ali ajudam a compreender melhor toda a estética e as implicações filosóficas da história, além de cada versão contar com um final diferente, é claro.
Fora a remasterização e remixagem de Blade Runner – The Final Cut, o grande destaque da versão importada (são 5 discos recheados de material inédito) é o documentário Dangerous Days, assinado pelo produtor Charles de Lauzirika que, em quase três horas e meia apresenta todos os aspectos do filme, desde o seu surgimento como livro até seu final controverso.
Se você ainda não tem motivos par acomprar um aparelho de blu-ray, com Blade Runner – The Final Cut agora você ganhou um.
POR: [Luciano Vianna]
Bom
Maysa - Quando fala o coração
| Jayme Monjardim/Manoel Carlos
Loucura pouca é bobagem, já dizia o velho ditado. Compositora pioneira na história da música popular brasileira – muito embora o “feminino” como assunto a ser abordado em letra de música ainda fosse matéria inexplorada – Maysa, quando da exibição da minissérie Quando fala o coração, poderia ter virado uma ícone da doideira pop e do surto mulherístico no nível de uma Amy Winehouse. Levada ao ar pela Globo em 2008 (com atuação irrepreensível de Larissa Maciel no papel-título) e hoje trazida de volta pelo blu-ray, assusta pelo massivo exercício psicológico ao qual seu filho, o diretor Jayme Monjardim, deve ter se submetido. Recorda bebedeiras, brigas com namorados e ex-maridos, a luta para se impor no mercado, o seu afastamento, voluntário, do próprio filho. E abre com o acidente que a matou em 1977, em closes nada agradáveis.
Desponta, em meio a tudo isso, a música, a visão de uma perspectiva musical nacional de outras décadas e que, com a chegada do Tropicalismo, foi se tornando anacrônica – muito embora a avançadinha Maysa tenha sido esperta o suficiente até para gravar Light my fire, dos Doors, quando a banda era novidade recém-lançada no Brasil. Conectada com as cantoras americanas da época, cheias de moods, altos e baixos, Maysa e sua história podem dizer muita coisa para quem acompanha as musas turbulentas dos dias de hoje.
POR: [Ricardo Schott]
Excelente
Toy Story
| John Lasseter
Os dois Toy story foram recentemente passados para o formato tridimensional que encantou os fãs de Avatar, de James Cameron – e, vale lembrar, neste fim de semana Toy story 2 reestreia dessa forma nos cinemas nacionais. O primeiro filme da série, que já está em pré-venda nos formatos DVD e blu-ray, não precisa nem de óculos 3D nem de maiores curtições para levar o público a viajar na história e a se apaixonar pelos personagens.
Apesar da presença de personagens humanos, como o garoto Andy e de sua mãe, o que encanta mesmo é o dia-a-dia dos brinquedos que o menino guarda em seu quarto. Quem já viu lembra das gags que surgem durante a disputa entre o caubói Woody, brinquedo favorito de Andy, e de seu novo presente, o patrulheiro do esaço Buzz Lightyear, pela liderança dos brinquedos.
Logicamente o super-herói Buzz, repleto de recursos, vai levando a melhor, até que uma situação de perigo para todos os bonecos faz com que tenham que se unir e ajudar seus amigos antes que o pior aconteça. Os extras da edição de colecionador trazem novidades como o diário de Buzz Lightyear. E tudo fica bem mais nítido e divertido no novo formato. Não é preciso nem usar uma criança como desculpa para se divertir.
POR: [Ricardo Schott]