Excelente
Back and forth
| Foo Fighters
David Grohl errou por inabilidade algumas vezes - o erro mais comum em pessoas de boa intenção, mas que metem os pés pelas mãos para fazer valer suas vontades. De baterista e coadjuvante, viu-se transformado em líder, guitarrista, vocalista e gestor de uma superbanda. Convidou um velho amigo (Franz Stahl, ex-guitarrista do Scream) para fazer parte do Foo Fighters sem pensar se tinha a ver ou não - e precisou tirá-lo. Comandou uma sessão caríssima de gravações (a que geraria o disco One by one, de 2002) para depois jogar tudo no lixo. Regravou todas as baterias do disco The colour and the shape (1997) e não avisou isso ao titular do instrumento, William Goldsmith - que, ofendido, saiu do grupo. Em compensação, criou - entre doses desiguais de Queen, Sex Pistols, Led Zeppelin e Dead Kennedys - uma cara própria e bastante vendável para o rock pós-grunge.
Essa história de muitos acertos e poucos erros está em Back and forth, documentário dos Foo Fighters. Periga qualquer roqueiro entre os 20 e 40 anos apertar o botão play do dvd-player achando que David Grohl, com sua mania por trabalho e diversão, é a verdadeira salvação do rock atual. E talvez seja. Nome raro a conseguir fazer com que o estilo ainda continue bombado, impressiona pelo estilo verdadeiro que impõe a Back and forth, dirigido por James Moll. Grohl é mostrado como um roqueiro com atitude de fã de rock, que correu atrás do sonho de ter uma banda e praticamente impôs sua presença em meio aos artistas mais clássicos do estilo.
Histórias que, hoje, poucos imaginariam terem feito parte do cotidiano de uma superbanda também são comuns no DVD - como as dificuldades para levar turnês adiante e a incerteza no começo da trajetória do grupo, quando Grohl chegou a recusar um convite para ser baterista de Tom Petty. Em ritmo de filme da Sessão da tarde (não por acaso, a abertura do longa tem ares de comédia adolescente), Back and forth traz depoimentos até de quem saiu brigado do grupo. E joga mais luz sobre a carreira de um músico que se recusou a ficar na sombra.
POR: [Ricardo Schott]
Regular
Greatest hits - The ultimate video collection
| Bon Jovi
Não supervalorize o Bon Jovi. Com o passar dos anos, muitos fãs de rock pesado e de rock clássico passaram a falar frases como "eu até gosto do Bon Jovi". Músicas do caipirão grupo americano passaram a ser tocadas até em uma ou outra festa indie - sempre, mesmo nos dias de hoje, tem aquela chamada "hora da lentinha". Dizer que canções como Bad medicine, You give love a bad name, Blaze of glory e Always são ruins seria escroto, ok. Mas nem Jon Bon Jovi é essa máquina de cuspir hits que os defensores da banda querem fazer supor, nem o grupo escapa, muitas vezes, de parecer apenas com um bando de bons diluidores, autores de músicas parecidas entre si e de discos que dividem hits bacanas com momentos de encheção de linguiça.
The ultimate video collection une boa parte dos velhos clipes da banda e serve para atrair fãs casuais - daqueles que curtem uma ou outra música, mas sem exageros. Sucessos como Keep the faith, Livin on a prayer, Born to be my baby, Lay your hands on me e muitos outros aparecem tanto em gravações ao vivo - feitas na fase pós-1995, quando Jon Bon Jovi já tinha abandonado o visual Farrah Fawcett - quanto em jurássicos clipes. Alguns chegam a soar quase como paródias de bandas de poodle rock, como o de You give love a bad name. Para quem pouco acompanha o Bon Jovi, as surpresas são o surgimento de um lado político-social explícito em clipes como We weren t born to follow, de 2009. Mas sem exageros. Aqui, reina o rock arrumadinho e pleno de bom-mocismo.
POR: [Ricardo Schott]
Bom
Loud quiet loud
| Pixies
Não dá para separar uma cena reveladora sequer de Loud quiet loud, documentário que registra os bastidores (e algumas cenas de palco) da turnê de retorno dos Pixies, em 2004. Motivo simples: o doc inteiro é, ele próprio, tão revelador que se presta a uma, duas, três sessões. Dando rewind na história da banda, as dificuldades já começam na maneira como, em 1992, Black Francis (vocais, guitarra e todas as músicas), Kim Deal (baixo), Joey Santiago (guitarra solo) e David Lovering (bateria) se separaram - graças a uma curta e grossa entrevista do cantor a uma rádio, anunciando o fim do grupo sem falar com os colegas. E prosseguem nos destinos que cada um dos quatro tiveram.
Quem acompanhou a música pop nos anos 90, lembra do desfecho da banda: o cantor, transmutado em Frank Black, teve algum sucesso com sua carreira solo, mas nada de parar o trânsito - e fechou a produção de discos legendários ao colocar o último acorde em seu segundo solo, Teenager of the year, de 1994. Kim Deal teve hits com sua segunda banda, Breeders, mas precisou se equilibrar entre a falta de grana e o vício em álcool e drogas. Passa Loud quiet loud quase todo o tempo tensa, sob os cuidados da irmã gêmea Kelley (e ocasionalmente dos pais), fumando feito uma chaminé e tomando litros de cerveja sem álcool. Joey Santiago, pai de família e com um filho a caminho em 2004, diz, sem entrar em detalhes, que "a volta da banda vem em um momento certo". David Lovering, por sua vez, entrega tudo. Para sobreviver sem a banda, o baterista precisou se virar com hobbies bizarros como catação de objetos de metal na areia da praia e shows de mágica. Em meio à turnê do grupo, simplesmente pira e começa a se entupir de Valium.
Loud quiet loud mostra o silêncio sepulcral nos camarins da banda, cujos integrantes pouco se falam e, antes do último show da tour, em Nova York, desejam "bom show para você" como se fossem músicos de dois grupos diferentes que dividirão o mesmo palco. Traz o desencanto do próprio líder da banda, que atende jornalistas pelo telefone com má vontade evidente (numa das cenas, sem a menor vergonha, posta-se de cuecas e sem camisa numa cama de hotel para mais uma agenda de entrevistas), vira a cara para não cumprimentar fãs, repete frases de auto-ajuda antes de dormir no tour bus e, preparando um disco solo, mostra desânimo completo durante um papo com seu produtor. Não parecia que a banda, que recentemente afirmou estar compondo material novo, iria recomeçar do zero. Mas foi o que aconteceu, em meio a shows sold-out, tensões nos ensaios (especialmente para a sensível Kim Deal) e expectativas de fãs e jornalistas. Ainda bem.
POR: [Ricardo Schott]
Fraco
Projeto paralelo
| NX Zero
POR: [Ricardo Schott]
Bom
You really got me
| Kinks
Os Kinks são e sempre serão uma grande banda a ser desvendada e descoberta - ainda mais aqui no Brasil, país onde tiveram edições mal feitas de seus discos originais, quase sempre por selos irrelevantes. Nunca terão como ser a melhor banda da invasão britânica porque este lugar já causa brigas suficientes entre grupos como Who, Beatles e Stones, mas têm um lugar garantido na história do rock como uma das bandas com a trajetória mais sui generis - e como criadores do hard rock, graças a bombas sonoras como You really got me. E é essa música que dá nome a este DVD, um documentário sobre a história do grupo, entremeado com alguns de seus grandes sucessos.
O grupo dos irmãos Ray e Dave Davies perdeu bondes importantes para embarcar em alguns trens desgovernados. Uma briga no palco os deixou, no auge da carreira, proibidos de entrar nos EUA por quatro anos, tornando-os um fenômeno essencialmente britânico e anglicista - o grupo poderia até usar tons de música indiana meses antes dos Beatles, mas, por causa do embargo, pouco aproveitariam a fama vinda disso. Na era dos discos conceituais, hipervalorizariam o segmento, partindo para álbuns longos, teatrais e um tanto exagerados - e muitas vezes chatos mesmo, como as duas partes de Preservation act, de 1973 e 1974. Nada disso apaga, no entanto, a beleza de músicas como Waterloo sunset, Victoria e o hino desencantado Celluloid heroes. Ou o fato de que, mesmo segurando-se num patamar bem abaixo de seus pares sessentistas, mantiveram a chama acesa até os anos 90, excursionando e gravando hits como Come dancing e State of confusion. No doc, só algo a lamentar: relatos tímidos a respeito das brigas (de horrorizar até os irmãos Gallagher) dos brothers Davies. Mas vale a compra.
POR: [Ricardo Schott]
Regular
Live in Houston
| Velvet Revolver
Havia uma comunidade do Orkut cujo título era "No começo, parecia uma boa ideia". Isso talvez explique o que fez com que uma trupe de ex-Gunners (Slash, Duff McKagan e Matt Sorum) e mais um camarada (Dave Kushner, ex-Wasted Youth) convidasse o ex-(mais um?)Stone Temple Pilots Scott Weiland para assumir os vocais do Velvet Revolver. Juntar o currículo malvadeza-durão da rapaziada com o caráter junkie e encrenqueiro de Weiland poderia ter dado certo. Mas bateu na trave. Rendeu dois CDs razoáveis, um punhado de boas canções (nada clássico) e um projeto paralelo de luxo, que até agora não arrumou novo vocalista desde que Weiland tornou a se por à frente dos STP.
Gravado em 2005, Live in Houston compensa a falta de canções excelentes com a atividade da galera no palco. Se o Guns sempre foi uma mescla de hard rock com pré-punk à moda dos New York Dolls, pode-se dizer que a união de Weiland com os músicos até fez sentido. E impressiona pelo dínamo que o grupo é no palco, embora nem seja o caso de fazer ninguém morrer de vontade de ouvir o disco em casa. As exceções à regra são a pancadaria quase punk de Set me free e a doloridíssima Fall to pieces, com dedilhado aproveitando a mesma bossa que Slash criara para Sweet child O mine. E, vá lá, sintomático: o grupo deixa cair nas releituras de canções dos Stone Temple Pilots (Crackerman e Sex type thing) mas Weiland parece entediado e sem força vocal ao ser obrigado a recordar Used to love her, do Guns N Roses. Slash até hoje diz que procura alguém "menos problemático que Axl e Weiland" para bancar o frontman da banda. Que a inspiração lhes seja mais generosa.
POR: [Ricardo Schott]
Regular
Beijo bandido
| Ney Matogrosso
Ney Matogrosso está devendo a seus fãs, em especial aos que o acompanharam na fase mais pop, dos anos 80, um CD/DVD/show de rock. Algo que o tire da estranha condição de medalhão na qual está nos dias de hoje - e que teve como seu último grande momento o pacote gravado ao lado de Pedro Luís e a Parede, que apresentou o compositor carioca e seu grupo a outros públicos. Por rock, entenda-se um repertório que vá dos anos 70 até o que dê para aproveitar dos anos 90, com uma banda de verdade por trás e um som nunca visto em seus discos.
Por ora, enquanto isso não acontece, Beijo bandido, espetáculo gravado em DVD para o Canal Brasil, cai dentro de clássicos da música romântica, trazendo de antigos clássicos (de Tom Jobim, Herivelto Martins, Vinicius de Moraes, Roberto e Erasmo) a iguarias de gerações recentes (Nada por mim, de Herbert Vianna e Paula Toller e Mulher sem razão, de Cazuza, Bebel Gilberto e Dé Palmeira). Gravado no vetusto Teatro Municipal do Rio de Janeiro, tem seu clima solene quebrado pelo visual de Ney - quase um indie glam, de gravatinha e camisa branca - e pelo sempre agitado público do cantor. Por mais que seja um trabalho bacana -e, como documento de um show, lindíssimo - sobra reverência e falta novidade. Como a de sacudir seu repertório e incluir lá coisas que seu público jamais sonharia ouvir de sua voz. A versão CD traz músicas gravadas apenas para novelas, Verdade da vida e uma releitura do hit antigo Seu tipo.
POR: [Ricardo Schott]
Excelente
Tropa de elite 2
| José Padilha
Toda continuação de um grande sucesso tem três problemas para enfrentar quando chega aos cinemas. O primeiro é superar a expectativa de quem gostou do primeiro, o segundo é crescer como obra cinematográfica e o terceiro é satisfazer o bolso dos investidores pra justificar o aumento no custo de produção. Pois Tropa de elite 2 atingirá 100% de seus objetivos. Dentre os que gostaram do primeiro filme, existem dois tipos de público. Aquele que gostou mais das cenas de ação e aquele que apreciou muito mais a faca enfiada na ferida na PM. Este segundo filme tem menos ação, mas é por um bem muito maior. Tropa de elite precisaria apontar a faca mais pra cima e, quando se fala de política, a ação tende a se prender entre quatro paredes. Mesmo assim, essa comparação quase desaparece em cena quando você entra de cabeça na luta dramática do Capitão Nascimento. Nascimento não passou muito tempo fora do BOPE quando deixou o comando nas mãos do André (Ramiro). A encrenca era muito grande e precisou voltar para enfrentar almofadinhas que lutam pelos direitos humanos. Até que uma operação no presídio de segurança máxima Bangu 1 coloca nosso grande herói dentro da Secretaria de Segurança do Rio de Janeiro. O primeiro caveira entre os engravatados. Quando pensou que estando lá poderia lutar contra o tráfico conhecendo o sistema, percebeu que o tráfico era apenas a ponta do Sistema. E claro, sua vida familiar continuava indo ralo abaixo. A produção é excelente. Talvez seja o melhor áudio cinematográfico já produzido em terra brasileira. E as metralhadoras cospem fogo. Mantendo a ideologia de explicitação nas cenas de violência para dar maior realidade à sua causa, o diretor José Padilha sabe como comandar um filme de ação como poucos. E nenhum tiro é desperdiçado. O roteiro dá sentido a cada ação que durante todo o filme se encaixa perfeitamente a narração clássica do personagem de Wagner Moura. Cenas de duplo sentido vazam pelo ladrão e o humor aqui é nervoso. Você ri o tempo todo do personagem de André Mattos, uma caricatura de apresentador de programa de denúncia social que, é claro, entra para a política e não deveríamos rir de palhaços que estão lá para nos representar. A política. É nesse tema que Tropa de elite 2 supera o primeiro como filme. É na denúncia. Enquanto a ideologia do BOPE é limpar a rua dos traficantes e deixar a PM corrupta sem "clientes", os políticos só querem votos (sim, Tropa de elite 2 é urgente) e a PM sempre arruma uma nova forma de corrupção. Nunca um filme nacional de "ficção" deflagrou de forma tão explícita o quanto estamos (eu, você e seus filhos) nas mãos de quem elegemos. E se Tropa de elite 2 está estreando nos cinemas uma semana após as eleições é porque o sistema é poderoso. Deputados são atingidos no peito e até o Ficha Limpa é questionado. Em certo momento do filme, Capitão Nascimento afirma não saber pra quem e por quem mata, e é neste exato momento, há pouco menos de um mês de uma eleição para president, que refletimos: pra quem e por quem votamos? E se no meio de tanto tiro e sangue, um filme nos faz pensar em nossa vida real é porque já valeu sua existência, algo raríssimo em continuações.
POR: [Reginaldo Zaglia]
Fraco
O último mestre do ar
| M. Night Shyamalan
M. Night Shyamalan teve a chance de conferir novo fôlego à carreira surrada de fórmulas repetidas (O sexto sentido, A vila, Sinais), mas errou mais uma vez em O último mestre do ar. E errou feio. Errou muito. O resultado é perda de tempo e dinheiro, a incomodar até os mais otimistas e pacientes cinéfilos. Se gostou do trailer, que à primeira vista é até promissor, melhor ficar com esses dois minutos e meio bem editados de O último mestre do ar. O roteiro é disfuncional, com atores que travam uma disputa acirrada para ver quem passa a maior parte do tempo sem emitir qualquer expressão e/ou emoção. Os efeitos 3D são praticamente inexistentes. Na verdade até estão ali, só para atrapalhar a leitura das legendas.
Adaptado do desenho animado, o filme começou perdendo uma batalha em Hollywood: não pôde utilizar seu nome original, Avatar: the last airbender, pois James Cameron e a Fox chegaram primeiro e registraram o título para o blockbuster de Pandora. Não que faça muita diferença, mas só para exemplificar que as coisas definitivamente não começaram bem — e ficariam ainda piores.
Há 100 anos, as nações Ar, Água, Terra e Fogo conviviam em harmonia, num mundo tomado pela plenitude resultante da paz e do equilíbrio, gerados pela presença do Avatar, o indivíduo que dominava os quatro elementos e se comunicava com o mundo espiritual. Quando o Avatar desaparece, o mundo entra num período decadente, marcado por conflitos territoriais e gananciosos, liderados pela nação do Fogo. Até o momento em que Katara e seu irmão, Sokka, encontram Aang, a nova reencarnação do Avatar. Juntos, iniciam uma jornada para deter o mal e restaurar a ordem do planeta.
De longe, a premissa até desperta algum interesse, principalmente nos saudosos do desenho — esse sim de alguma qualidade. De perto, não há traço dos truques do cineasta indiano, que normalmente espalha pela trama armadilhas a serem desmentidas no final. Pelo contrário. Primeiro, o roteiro passa longe da ideia original concebida para a animação, mas, para maquiar a fuga do contexto, Shyamalan utiliza a arte e as locações da série original. Segundo, a trama que segue é uma combinação desastrosa de elementos desnecessários, diálogos obtusos e direção incompreensível devido a um roteiro superficial. E terceiro, porque o filme se resume a algumas cenas de lutas bem coreografadas — nem todas, já que em alguns momentos mais parecem oompa loompas evoluídos —, aos efeitos visuais e à trilha sonora.
O último mestre do ar faz uso também de um péssimo e azucrinante artifício, que, verdade seja dita, não é exclusivo de M. Night Shyamalan: a narração explicativa. Desde o início da trama, os personagens direcionam linearmente o espectador numa irritante tentativa de fixar mentalmente o que já é transmitido em cena. Subestimar o público é um erro, além de refletir insegurança na capacidade de comunicação do próprio roteiro.
Quanto ao elenco, falta carisma dos próprios personagens, e as atuações beiram o pastelão — se bem que até mesmo um bom pastelão consegue cativar a audiência. Talvez, a única exceção (ainda assim não chega perto de uma boa atuação) seja a jovem Nicola Peltz, intérprete de Katara. Percebe-se que houve um esforço por parte da atriz para passar a integridade e humanidade da única dominadora de um elemento da nação da Água. Já Noah Ringer, o Avatar, por ser um ator estreante, não chega a prejudicar o andamento da produção, até porque se destaca no que sabe fazer melhor — que, por sinal, é a principal característica do personagem: lutar. O jovem, campeão de taekwondo, realmente impressiona com suas habilidades marciais. O mesmo não se pode dizer Jackson Rathbone, o Sokka. “O Jasper de Crepúsculo” — como faz questão de anunciar o cartaz do filme —finalmente tirou uma dúvida que assolava os seguidores do vampiro. Sim, aquela cara de quem viu a luz do sol, ou um crucifixo, ou um lobisomem, não é exclusiva de seu personagem morto-vivo. As expressões faciais do ator resumem-se àqueles olhos esbugalhados.
Como já dito anteriormente, não gaste dinheiro pelo 3D. Alguém da equipe de pós-produção deixou passar batido — num estilo meio Fúria de titãs — e, ops, o 3D não está lá. Para as crianças, talvez, os efeitos visuais e as características físicas singulares de alguns personagens possam ser um atrativo. Mas, no geral, O último mestre do ar destoa — negativamente, para deixar claro —, de outros épicos. E M. Night Shyamalan já garantiu as outras duas continuações. Respire fundo.
POR: [Juliana d'Arêde]
Regular
Gente grande
| Dennis Dugan
Ser amigo de Adam Sandler compensa muito se você for um ator. Sandler, que já está longe de seus dias de glória como Happy Gilmore (Um maluco no golfe) e Billy Madison (Billy Madison, um herdeiro bobalhão), se aventura em comédias medianas ou familiares, sempre empregando seus amigos da época Saturday night life que não conseguiram a mesma projeção hollywoodiana. Gente grande é mais do mesmo, mas para quem gosta do estilo do ator, é decente.
E amigos abundam no elenco, que é uma espécie de Os mercenários da comédia americana da década de 90. Ao lado de Sandler, estão David Spade, Rob Schneider, Chris Rock e Kevin James como os protagonistas, cinco amigos que venceram um campeonato de basquete na escola quando crianças e depois acabaram separados pela vida. O reencontro acontece quando o antigo treinador do time, Bobby “Buzzer” Ferdinando, morre. O grupo se reencontra e decide passar um fim de semana em um chalé, onde comemoraram, anos atrás, o campeonato de basquete.
Para quem assistia o SNL nessa época (ou reprises), o elenco é um prato cheio: Spade, Rock e Sandler eram considerados os bad boys do programa e tinham uma química incrível. Por todos os cantos, participações de ex-integrantes do programa, como Colin Quinn, Tim Meadows, Maya Rudolph e Norm MacDonald. No filme, também um velho parceiro de Sandler, infelizmente meio sumido: Steve Buscemi.
Sandler interpreta Lenny Feder. Casado com a belíssima Roxanne Chase-Feder (Salma Hayek), é o único que conseguiu sucesso material, fama e fortuna. Desde sempre o líder da equipe, Lenny parece ser uma alegoria para a liderança de Sandler para com esse grupo de atores. O sucesso de Lenny sai pela culatra quando percebe que seus filhos estão mimados ao extremo e sua mulher está se distanciando, mergulhada na carreira de estilista.
James interpreta o rechonchudo Eric Lamonsoff. Cheio de filhos e atualmente desempregado, Eric decide fingir para os amigos que é sócio de uma empresa de móveis e ostenta um dinheiro que não possui. Spade é o solteirão alcóolatra e meio hippie Marcus Higgins. Escalar o ator, baixinho e visivelmente envelhecido, como um sedutor canalha foi uma escolha bastante cômica e o jeito cafajeste como Spade entrega todas as falas desde o começo de sua carreira encaixa como uma luva no personagem.
Rob Schneider (famoso por gritar “You can do it!” em diversos filmes de Adam Sandler), assume o papel de Rob Hilliard, um homem fracassado, um vegan metido a monge new age, cheio de pomadas e cremes feitos de ervas, casado com uma anciã e com um histórico de casamentos falidos. Por fim, Chris Rock tenta reproduzir mais uma vez no cinema o sucesso que fazia no SNL e em sua carreira de stand-up comedy, mas acaba como Kurt McKenzie, um homem que assumiu o papel de mulher no relacionamento com Deanne (Maya Rudolph). Atormentado pela sogra, Kurt assiste a programas de culinária e tenta reproduzir as receitas sem sucesso.
Com todos os personagens quebrados de alguma forma pela vida, Gente grande se estabelece logo de cara como um filme para levantar estes homens retorcidos por seu sucesso ou fracasso e aproximá-los. O problema é que isso nem sempre acontece – basta ver o desenvolvimento nulo do personagem de Spade – e, quando acontece, acaba sendo de uma forma pouco crível – tudo o que acontece com a família de Sandler. Mas o problema maior é que, para um filme de comédia, Gente grande não é particularmente engraçado.
Claro, há aqui e ali a comédia física, cortesia de James e Schneider, o sarcasmo vintage – e hilariamente desatualizado – da performance de Spade e uma pequena sombra do humor gerado por conflitos raciais nos poucos momentos nos quais Rock brilha. Mas as situações verdadeiramente engraçadas estão distantes umas das outras.
Gente grande vale como um catálogo de uma geração de comediantes recente, mas já quase esquecida. Vale também como um testemunho sincero em prol da amizade, tanto no roteiro quanto fora dele. Fica a certeza, para quem sai do cinema, que se Phil Hartman e Chris Farley estivessem vivos, estariam ali, em uma cena ou outra, fazendo uma pontinha.
POR: [Gerhard Brêda]
Fraco
Australian made - INXS live
| INXS
Uma velha piada diz que a Oceania é como a mulher após os 70 anos - todo mundo sabe onde fica, mas ninguém vai lá. Maldade com as setentonas (Jane Fonda, por exemplo, é uma delas) e com o continente onde se localiza a Austrália, terra que gerou bandas bacanas como Midnight Oil e Hoodoo Gurus, além de outras que, se não têm discografias excelentes, produziram hits de longo alcance, como o Spy vs Spy e o Gang Gajang. O INXS pode ter feito muita gente dançar ao som de músicas como Suicide blonde, mas acabou queimando o filme da própria pátria ao ser apresentado, para muitos, como a grande opção do rock australiano para se ouvir nos anos 80. Mesmo uma boa coletânea não esconde a mediocridade do repertório da banda.
Australian made - INXS live, com sua qualidade de som e imagem de dar pena, foi gravado em 1987 e pega mais a fase em que o grupo do vocalista Michael Hutchence ainda conseguia enganar como banda de skate-rock - mesmo fazendo um popzinho bobão e de suíngue fraco. Não tem o grande hit dessa fase, talvez o melhor single da banda, New sensation (de Kick, de 1987) e foca em sucessos pregressos, como Burn for you, Melting in the sun, The loved one. Relata um turnê do grupo por estádios lotados, e traz músicas das bandas conterrâneas que abriram as apresentações, algumas boas (The Saints), outras sem sal (The Divinyls, três anos antes do hit masturbatório I touch myself) e certas outras irrelevantes (I m Talking). Curiosamente, chega a dar saudades da fase mais bundalelê do INXS, quando a MTV começou no Brasil e os clipes do grupo passavam direto na estação. Pelo menos tudo parecia um tantinho mais coerente.
POR: [Ricardo Schott]
Fraco
Xique bacanizado - ao vivo
| João Carreiro e Capataz
Pouca gente fora do meio sertanejo conhece João Carreiro e Capataz – o que já causa estranhamento ao se dar uma checada na gravação de seu DVD tão lotada de gente, embora esse tipo de surpresa seja até comum nesse tipo de som. Autointitulados “os brutos do sertanejo”, acreditam mesclar modas de viola com rock. O que entregam para o público é um produto que se sustenta mais pelas canções cheias de ganchos pop quase infantis (da mesma forma que as cantadas por Luan Santana), pelo humor das letras (que dá certo em músicas como Faculdade da pinga, retrato verdadeiro do dia a dia universitário em todo o Brasil) e por uma e outra guitarra inseridas nos arranjos, que deixam o som dos dois meio parecido com uma versão Raimundos-Matanza do sertanejo de Victor e Leo.
Para dar uma ou duas risadas - a não ser em caso de preconceito com o estilo musical, claro - até vale a pena dar uma orelhada em músicas como Lágrimas de crocodilo, Cada um com seus problemas e Tá bagunçado mas tem gerência. Já a curiosidade de Bruto, rústico e sistemático, música na qual sacaneiam os roqueiros tatuados, dá vontade de rir quando se imagina, pela letra, qual a visão que a dupla tem de roqueiros e tatuados. No mais, só para fãs.
POR: [Ricardo Schott]
Fraco
Horizonte distante vivo
| Rosa de Saron
Demorou para o Brasil descobrir o rock católico - que pode ser ouvido por fãs de bandas como NX Zero e outras, sem preconceito. O Rosa de Saron já tem uma carreira sólida desde os anos 80, passou por algumas mudsanças de formação e por alguns selos independentes antes de encarar a Som Livre e o lançamento de um CD e de um DVD - no caso, este Horizonte distante ao vivo, contrapartida de palco do CD anterior, homônimo.
Se para boa parte das bandas nacionais atuais, o bom-mocismo (ou bunda-molice, vá lá) das letras e entrevistas é algo que salta aos olhos, no caso do RS, até que se justifica. Vindos do movimento Renovação Carismática Católica - que deu o Padre Marcelo Rossi ao mundo - Os músicos da banda sobem ao palco com aquele idealismo de quem quer salvar o universo. Uma espécie de tradução excessivamente bem comportada da atitude de grupos como U2 e Legião Urbana. Entre o rock dos anos 80 e o metal papai-mamãe do Bon Jovi (e o pop sujinho-limpinho dos Goo Goo Dolls), pintam várias referências - o próprio Renato Russo, na releitura de Mais uma vez, é uma delas. E uma e outra canção interessante, como Muitos choram, Mais que um mero poema e Menos de um segundo - bacaninhas para fazer alguém se surpreender com a banda, mas incapazes de fazer o rock nacional se sobressair em meio aos sertanejos universitários. Isso, entre um e outro discurso confuso - um deles lembrando merchandising de marca de celular. Para fãs, enfim.
POR: [Ricardo Schott]
Bom
Uma noite em 67
| Renato Terra e Ricardo Calil
"O público virou personagem". É assim que um dos personagens mais destacados da finalíssima do festival da TV Record de 1967, o cantor e compositor Sérgio Ricardo, define o que você vai assistir em Uma noite em 67, que traz os bastidores, os relatos históricos e as imagens raríssimas da final do evento, em 21 de outubro daquele ano. Não são poucas as pessoas, atualmente, fazendo comparações dos shows musicais competitivos dos anos 60 - que faziam sucesso a ponto de canções como a lírica O cantador, de Dori Caymmi e Nelson Motta, virarem discussão de mesa de bar - com os reality shows.
Talvez as músicas fossem melhores, mas o produto final era um programa, uma atração, movida pelo Ibope do público, que vaiava (muito) e aplaudia (pouco). Talvez o público tenha piorado com o passar dos tempos, embora não dê para julgar. Mas a cada artista, cabia representar um personagem - manipulado pelos produtores e pelo chefão do canal. Não eram propósitos muito diferentes de uma luta televisiva entre Marcelo Dourado e Dicesar. Só que trazia música - e da boa, como se pode comprovar no próprio filme. E todo um contexto político e artístico, causado pela ditadura e pela polarização entre MPB e guitarras elétricas, nacionalistas e pré-pops. Personagens do festival, como Caetano Veloso (que defendeu Alegria alegria, com os Beat boys), Gilberto Gil (idem com Domingo no parque, com Os Mutantes), Roberto Carlos (idem com o samba Maria, carnaval e cinzas, de Luiz Carlos Paraná), Edu Lobo (ganhador com Ponteio, defendida por ele, Marilia Medalha e Momento Quatro), Chico Buarque (mostrou sua Roda viva, com o MPB 4), Sérgio Ricardo (defendeu-não defendeu sua Beto bom de bola e, vaiado, quebrou o violão ao fim da música), Sérgio Cabral (jurado), Solano Ribeiro (criador do evento), dão seus depoimentos, intercalados com imagens de época.
Para quem nunca leu livros como Noites tropicais (Nelson Motta), Roberto Carlos em detalhes (Paulo Cesar Araújo), Quem quebrou meu violão (Sérgio Ricardo) e A era dos festivais (escrito pelo técnico de som do festival da Record, Zuza Homem de Mello), as informações de Uma noite em 67 podem servir para derrubar mitos. Para quem conhece a extensa literatura sobre o período já feita no país, há muito documento e pouca novidade. É engraçado ver artistas hoje vetustos como Edu, Caetano e Chico com caras de pirralhos e pensar "quem diria, esse pessoal já foi jovem um dia..." Ou verificar que o início de carreira deles também foi marcado por uma certa manipulação. A ponto de caber ao aplaudidíssimo Chico Buarque fazer o papel de "mocinho" no evento. Ou a um reverente Gil, pressionado por amigos e pela direção do canal, participar de uma estranha manifestação hoje conhecida como a "marcha contra a guitarra elétrica", cuja ingenuidade envergonharia até mesmo alguns de seus mais ferrenhos participantes (como o pesquisador Sérgio Cabral, que admite a mancada aos diretores do filme). Os criadores do evento mal sabiam que aquilo tudo iria virar história - dependiam do Ibope, assim como os próprios concorrentes.
Os depoimentos atuais apontam para a tensão e as amarras do festival - e que já causavam estranhamento. Edu preferiu sair do Brasil após ganhar a competição. Chico pouco caberia no papel de bom moço com o passar dos anos, e diz nem nem lembrar mais como se toca Roda viva. Caetano reclama até hoje "não ter se livrado de Alegria, alegria como Chico se livrou de A banda", mas tenta ensinar o espectador como tocá-la no violão. Sérgio, caso à parte, reconhece: quebrar seu instrumento e atirá-lo à plateia do evento foi "coisa de garoto", mas assume seu susto com o esquema por trás dos festivais e com a proto-interatividade que já reinava nos musicais televisivos. Estigmatizado pela atitude que tomou na finalíssima, tem os sete minutos (incluindo o antes, durante e depois) de sua Beto bom de bola expostos no filme. Roberto Carlos, páraquedista em festivais da canção, canta com total segurança Maria, carnaval e cinzas, numa fase na qual necessitava de um pulo da Jovem Guarda para o público adulto - e, em entrevista feita para o longa, diz nem saber que um grupo estava preparado para vaiá-lo no festival.
O trabalho de pesquisa de Uma noite em 67 é impressionante e merece palmas. Além de mostrar as principais finalistas na íntegra, recuperadas das imagens do festival, recuperam a cobertura feita por Randall Juliano e Cidinha Campos - o primeiro, grande nome do radialismo e da TV, morto em 2006, causa risos ao aparecer fumando durante as entrevistas que faz. E o DVD ainda tem os extras, cabendo depoimentos inusitados de Chico Anysio (que diz odiar Ponteio, mas canta a música perfeitamente) e da desaparecida Marília Medalha.
POR: [Ricardo Schott]
Bom
A noite perfeita - Ao vivo
| Leoni
O terceiro DVD de Leoni traz uma novidade não apenas para a carreira de um dos maiores artesãos pop do país, como também para o próprio mercado fonográfico nacional: como o próprio adiantou em conversa com o LABORATÓRIO POP, trata-se do registro ao vivo de um repertório que não existe em formato físico, só no virtual. Decidido por pesquisas com seu público, o set list foca em canções lançadas por ele após 2000, sem forçar no glorioso catálogo que ele construiu com o Kid Abelha e nos hits que teve com os Heróis da Resistência – dessas épocas, só entram Dublê de corpo, a bela Os outros e Por que não eu? Em medleys, os totens oitentistas Fórmula do amor e Educação sentimental, além da lembrança de Exagerado, parceria com Cazuza e Ezequiel Neves, que ganha violões corridos e, fechando o show, entrega para a faixa-título A noite perfeita – que vem na sequência - uma sonoridade quase The Who.
O restante mostra que toda uma produção pop está sendo feita na internet, direto às mãos do consumidor: A noite perfeita, A canção da despedida, Um herói que mata, Igual a qualquer um (feita em parceria com um fã-músico, Eduardo Toledo), É proibido sofrer. Traz os hits que Leoni acumulou quase sem o apoio de discos, dos anos 90 para cá (Garotos II, Temporada das flores, Melhor pra mim) e um tema feito para teatro, Alucinadas, ao vivo e em clipe. As imagens misturam a captação do show com momentos em que público e palco aparecem granulados e esbranquiçados, como se fossem gravados pela câmera de um celular. Outra novidade é que, para quem está acostumado com a faceta mais tranquila de Leoni – exibida em show de voz e violão – A noite perfeita entrega para os fãs um lado mais pesado do cantor, centrado na boa guitarra de Gustavo Corsi e na bateria de Lourenço Monteiro. Vale até como opção de presente de Natal.
POR: [Ricardo Schott]
Regular
Rock de Inverno 2009
| Hotel Avenida
Formada por seis músicos, a banda curitibana Hotel Avenida é quase um projeto – os integrantes vão se revezando entre instrumentos e vocais e, pelo que se percebe em pouco tempo, dificilmente um show é igual ao outro. Para marcar o começo de um trabalho que já foi registrado num EP, com músicas como Um centavo e Nas profundezas do coração do fundo do copo, Ivan Santos, Carlão Zubek, Allan Yokoyama, Rubens K, Igor Ribeiro e Giancarlo Ruffato decidiram registrar o show dado em 2009 no festival Rock de Inverno num DVD independente.
O som é – perdão pelo clichê – invernal e aponta para uma espécie de folk-punk, com canções levadas ao violão e, quase sempre, passando longe de qualquer virtuosismo. Foca em letras tristes ou simplesmente introspectivas, lembrando em boa parte do tempo o Arnaldo Baptista triste de Lóki e Singin alone, ou as viagens líricas dos paulistanos oitentistas do Fellini. O repertório tem músicas bacanas como Um centavo e Eu não sou um bom lugar e outras nem tanto como Noturna, longa e arrastada demais.
POR: [Ricardo Schott]
Regular
A hora do pesadelo
| Samuel Bayer
O sub-gênero de terror conhecido como slasher ganhou força nos anos 80, especialmente com três grandes nomes: Jason Vorhees, da série Sexta feira 13, Michael Myers, de Halloween e Freddy Krueger, de A hora do pesadelo. Nestes filmes, um grupo de adolescentes era dizimado, um a um, por um psicopata monstruoso e praticamente imortal. O remake de A hora do pesadelo, com o mesmo título, segue bem a cartilha do slasher. Uma pena que o gênero de terror avançou e o filme, visto hoje, soa datado.
Na trama, jovens começam a morrer misteriosamente enquanto dormem. Os que sobrevivem, descrevem um estranho homem, Freddy, desfigurado por queimaduras, que atormenta seus sonhos. O mistério é descobrir quem são os alvos de Krueger e o motivo por trás das mortes. O gancho é que os protagonistas precisam evitar cochilos, pois o psicopata habita apenas o mundo dos sonhos.
A premissa de A hora do pesadelo era criativa quando o primeiro filme foi lançado e envelheceu bem. É estranho, no entanto, perceber a gama de poderes que Krueger tem no filme. A primeira morte dá a entender que ele apenas tem o poder de controlar o corpo da vítima e fazer com que ela se mate no mundo real, mas, pouco tempo depois, o psicopata arremessa o corpo de uma garota nas paredes, antes de fatiá-la, do mundo dos sonhos para o mundo real, em um piscar de olhos.
Outra coisa que flutua em Freddy é sua personalidade. Nos primeiros filmes, Krueger era um psicopata ameaçador, mas, com o passar do tempo, se tornou um piadista, disparando trocadilhos e sarcasmo antes de eliminar as vítimas. No remake, o roteiro tenta equilibrar os dois, mas as piadas parecem forçadas e deslocadas, ainda que algumas tenham uma carga inegável de humor negro.
Jackie Earle Haley, o Rorschach, de Watchmen, encarna Krueger no remake, mas não é perfeito. A cena com Freddy antes de se tornar um monstro é sensacional e exibe muito do talento do ator, que, caracterizado com uma maquiagem excessivamente pesada, não consegue se expressar e apenas rosna frases de efeito antes de fatiar os pobres dorminhocos. Krueger é um dos ícones de maior carisma do cinema de horror, mas em A hora do pesadelo versão 2010, ele é apagado e inexpressivo.
Os protagonistas, por outro lado, são competentes, ainda que sigam fielmente a cartilha de vítimas bobas em slashers. Eles seguem garotinhas assustadoras por corredores estreitos, se aventuram em quartos escuros e se recusam a admitir que algo estranho está acontecendo até que alguém exploda numa bola de sangue diante de seus olhos.
Krueger está de volta. Com seu chapéu estiloso, suéter rubro-negro e luva com garras, o ícone consegue sobreviver do carisma que conquistou em seus outros filmes. A performance de Haley é instável, especialmente quando está imobilizado pela maquiagem. Os sustos estão espalhados pelo filme, mas o gênero de terror já caminhou muito desde os slashers. De comédias românticas com zumbis (Todo mundo quase morto) a filmes que não mostram nada (Atividade paranormal), o terror acordou e esse pesadelo ficou para trás.
POR: [Gerhard Brêda]
Bom
In New York - Webster Hall 2007
| Linkin Park
O Linkin Park é bom para tocar air guitar, bater cabeça, pular muito e gritar o tempo todo - quem assistir ao show da banda no SWU e, mesmo tendo algo contra aquele subgênero que nos anos 90 era chamado de nu metal, não reconhecer isso, é mentiroso. Dá ate para esquecer o fato de que a banda andou lançando discos meio equivocados. Em Minutes to midnight (2007), beiraram o heavy metal de macho em No more sorrow e Given up. E foi a turnê desse disco mais ou menos que gerou o DVD In New York - Webster hall, 2007, que a Coqueiro Verde acaba de lançar.
Com o prosseguir de hits e não-hits como One step closer, Lying from you, Papercut, Numb e vários outros, dá até para pegar no pé dos caras e dizer que seguem uma fórmula, como muita gente diz por aí - riff gélido, rap, som funkeado, berros e voilá, sai uma música. Bom, como se bandas legais como Ramones e Helmet (lembra?) também não tivessem construído suas carreiras em cima de elementos bem parecidos e não tivessem conseguido fazer discos fantásticos. Complementando, ainda tem boas canções e hits indiscutíveis como Crawling e In the end.
POR: [Ricardo Schott]
Bom
Aconteceu em Woodstock
| Ang Lee
No começo de Aconteceu em Woodstock, de Ang Lee, não dá nem para acreditar que aquele rapaz caretão, estilo CDF, filho de mãe histérica e de pai omisso, que troca a liberdade na capital novaiorquina para ajudá-los a administrar um hotel numa cidade interiorana no Estado, teria um papel tão importante assim no histórico festival de rock. Elliot Tiber, responsável por levar o festival de Catskills - de onde os organizadores haviam sido expulsos - para White Lake, contou sua história no livro de mesmo nome, e mostra como o festival mudou a história até mesmo de quem sequer apareceu por ali para assistir aos shows.
Com apresentações gratuitas (forçadas, vá lá), organizadores que estavam na mesma vibe do público e dinheiro a rodo rolando por todos os lados, Woodstock era importante até para quem ficava curtindo com os amigos nas kombis estacionadas ali por perto. É o que mostra o roteiro. A vida de Tiber, diga-se de passagem, ia na contramão de todo o sonho sessentista. Presidente da câmara de comércio da cidade, morando com os pais após os 20 anos - numa época marcada pelo espírito leave home - ele teria tudo para ser um personagem desinteressante, até resolver tomar a atitude de chamar Michael Lang, criador do evento, para conhecer o hotelzinho que seus pais administravam e as áreas próximas. Interpretado pelo comediante Demetri Martin, consegue não sumir na trama nem mesmo diante da força do evento - que, numa artimanha interessante do roteiro, é focalizado a distância, sem mostrar nenhum show ou ator interpretando artista.
O foco acaba ficando mesmo no público, nos criadores do festival (Jonathan Groff manda bem interpretando Michael Lang, a ponto do próprio, no extras, reconhecer que ver o ator em ação "era como sair do corpo") e no retrato de como o evento vai modificando toda a pequena cidade. Fora alguns momentos em que o roteiro parece estar contaminado pelo caos do período, misturando passagens aparentemente sem significado com momentos carregados de simbolismo (atenção para o final), Aconteceu em Woodstock valoriza-se pela originalidade ao buscar novas fontes e novas maneiras de se contar as histórias de uma época.
POR: [Ricardo Schott]
Bom
Multishow ao vivo - Skank no Mineirão
| Skank
Depois de Ouro Preto, o Skank registra outro show em uma emblemática locação mineira. “Minas não tem mar, mas o Skank colocou um mar de gente aqui no Mineirão”, decretou Samuel Rosa diante de 50 mil pessoas, do palco do Gigante da Pampulha – que, na ocasião, se despediu para entrar reformas para a Copa do Mundo de 2014. O DVD/Blu-ray/CD Multishow ao vivo – Skank no Mineirão, registro do show no estádio em Belo Horizonte no dia 19 de junho, chega às lojas na segunda quinzena de setembro, mas um especial vai ao ar pelo canal por assinatura no domingo (12), às 22h30.
O grupo faz uma apresentação entusiástica, e passeia por seu repertório, o qual é suficiente para fazer uns três shows repletos de sucessos sem ter que repetir música. O roteiro vai das bombadas Garota Nacional e Vou deixar à estreante De repente - esta, um reggae em parceria com Nando Reis.
Negra Li repete a canja registrada em estúdio e se junta ao grupo em Ainda gosto dela, único momento em que se quebra o protocolo de cada um tocar comportado “no seu quadrado” - Samuel menos um pouco, eventualmente instigando o público na frente do palco, sem guitarra, com microfone sem fio.
Além do show, o DVD não vai trazer muito mais que clipes e making of. Dá para imaginar que Falcão, do Rappa, conseguiria imprimir uma marca forte no lançamento – o cantor faria uma participação, que não se realizou por impedimento da Warner, sua gravadora. O show ganharia em ritmo e surpresa, e a canja nunca registrada seria um dos pontos altos da performance.
POR: [Leandro Souto Maior]
Muito Ruim
O golfinho - A história de um sonhador
| Eduardo Schuldt
Na animação O Golfinho – A história de um sonhador, do peruano-alemão Eduardo Schuldt, um jovem golfinho deixa sua família e amigos para se aventurar no oceano em busca de um sonho — surfar a onda perfeita. Não sabe, no entanto, que, ao alcançar seu raso (ou profundo?) objetivo, pode reacender a esperança de todos os seres marinhos, que, de tão absortos em regras e padrões, deixaram de sonhar e ouvir seus corações. Lindinho, não? No percurso, Daniel Alexandre Golfinho conhece vários animais e tem de duelar contra Lucius, um monstro das profundezas do oceano, conhecido como Devorador de Sonhos, e seu exército de 400 barracudas. A coprodução entre Peru, Itália e Alemanha é o terceiro filme de Schuldt, o primeiro a estrear no Brasil. Embora lance mão da bela mensagem clichê de filmes infantis — “nunca desista de seus sonhos” — El Delfin (no original) poderia render uma boa diversão para os pequenos. Mas as aventuras de Daniel empolgam pouco, seja pelos personagens fracos, pelo roteiro vacilante ou pelos recursos visuais pouco elaborados.
Baseado no livro homônimo de Sergio Bambarén, o roteiro de Schuldt e Michael Wogh parece querer abarcar todos os personagens e situações da obra original, e acaba pecando por excesso. Algumas referências são pouco desenvolvidas: não fica claro por que Daniel é o escolhido para sua missão ou por que ela deve ser feita impreterivelmente num dia de eclipse do sol. Além da falta de carisma do próprio protagonista, há alguns personagens misteriosos, como a Voz do Mar, a arraia Manta ou o Peixe-Sol, que surgem sem maiores explicações ao longo de todo o filme, somente para guiar e encorajar Daniel a seguir em frente em sua busca pela onda perfeita.
Apesar da seriedade de Daniel, os personagens secundários são bem-humorados e devem cativar o público infantil, mesmo fazendo claras alusões a outros hits da animação. Exemplo disso é o peixe que dorme enquanto fala, à semelhança de Dory (Procurando Nemo), ou outro com olhos inspirados no Gato de Botas de Shrek. Lulito, uma lula que acompanha a viagem de Daniel, vale atenção especial. Reclamona, atrapalhada e orgulhosa, é forte candidata à queridinha dos pequenos, confirmando a tendência da animação em apostar em personagens coadjuvantes que contrapõem com os principais.
O maior pecado da produção da Fox é a forma como o longa apresenta a lição de moral da história. Diferentemente das fábulas tradicionais, em que a mensagem provém do desenrolar da trama, em O Golfinho ela é repetida literal e incessantemente ao longo da história, que trama personagens específicos para a função. O recurso parece um exagero, mesmo para um filme feito para crianças mais novas, e acaba por subestimar a compreensão geral.
POR: [Marcella Huche]
Bom
Acústico
| Fernando e Sorocaba
O tal do sertanejo universitário (que deve ser o pior rótulo já criado na história da música popular brasileira) difere em pouca coisa do som feito pelas duplas dos anos 80/90, aquelas que se apresentavam em especiais de TV como Amigos. É só um som feito por garotos que cresceram ouvindo Zezé di Camargo & Luciano e Sandy & Junior, mas que eram adolescentes (ou crianças, no caso de Luan Santana) na época que os Titãs excursionavam por todas as festas de peão na rabeira do sucesso do Acústico MTV (1997). Ou que sentiam que tinha alguma coisa ali em Faroeste caboclo, chiclete de ouvido radiofônico da Legião Urbana em 1988, que não era nada mais, nada menos do que a boa e velha violada que eles ouviam com suas famílias em casa. E aproveitaram influências de tudo isso.
No caso de Fernando e Sorocaba, a grande diferença é tirar o estilo da vala brega e acrescentar toques do "sertanejo para beber e brigar" de Sérgio Reis. No DVD acústico, começam com a caipira Da cor do pecado e seguem com as gozadas A casa caiu, Celebridade, Chevetão, Delegada e Paga pau. Tem a corneira abissal de Madri, claro, mas tem os sons de Que raiva que dá e Aqui a tristeza pula de alegria, no nível de canções que todo roqueiro já se pegou cantando no banheiro, como Eu me amarrei, de Daniel. E tente não ser cruel e não dê risada da releitura dos dois rapazes para o brega-folk Baby, can I hold you, de Tracy Chapman. É o sertanejo, finalmente, após anos de tentativas, buscando seu lugar ao sol do pop-rock.
POR: [Ricardo Schott]
Bom
Filosofia de vida - Martinho da Vila
| Edu Mansur (direção) / Marco Mazzola (direção musical e geral)
No documentário Filosofia de vida, sobre o sambista Martinho da Vila, nem o próprio cantor parece acreditar quando pensa sobre o tipo de ser humano que se tornou: vindo do interior do Rio, criado numa favela no subúrbio, se tornou um dos maiores criadores da história da música brasileira – e sem ter o direito a ostentar o título de “MPBista”, que a crítica musical dos anos 60/70 outorgou em definitivo a Caetano, Chico, Gil, Milton e a quem revise sua estética impiedosamente. Virou intelectual e palestrante sem ter formação universitária, teve acesso aos livros sem passar bor bons colégios e, sem abandonar as raízes, tornou-se uma espécie de estadista afro-brasileiro e lusófono, aplaudido e reconhecido em vários países do mundo.
Seja como for, Filosofia de vida tem pouco de O segredo (aquele filme-livro de auto-ajuda que andou na moda há alguns anos), apesar se segurar nos versos “meu destino eu moldei/quem quiser, pode moldar”, da música-título, que praticamente usa como epígrafe. Como documentário, recorre menos a imagens históricas do que docs recentes como Lóki e Uma noite em 67. Traz o próprio cantor, mulher, filhos, amigos e parentes falando sobre sua vida e obra, e dando ao artista um verniz bem mais intelectual e poético do que o samba geralmente recebe, mesmo quando é louvado pela crítica. Mostra um certo lado empreendedor do sambista que ergueu uma escola de samba, montou uma obra, criou pontes verde-e-amarelas com a África e com a Europa, construiu uma (enorme) família – dá até para perder a conta do número de filhos – e apresentou às grandes gravadoras e às enormes vendagens de discos um estilo musical sujeito a montes de preconceitos. O principal é tratar Martinho sem exageros e mostrar que, ao contrário do que se imagina no universo do samba, nem tudo se consegue com um “deixa a vida me levar”.
POR: [Ricardo Schott]
Regular
Ao vivo
| Hyldon
Hyldon é daqueles artistas de quem se usar dizer o lugar-comum “merecia ter sido mais reconhecido pela história da música brasileira”. Sua obra guarda pérolas tão ou mais interessantes que as poucas que atravessaram gerações, como as resgatadas Na rua, na chuva, na fazenda e As dores do mundo, nas versões de Kid Abelha e Jota Quest, respectivamente. No DVD Ao vivo, a beleza da melodia e da vibração de Na sombra de uma árvore e a surpreendente canja de Mr. Catra em Velho camarada emocionam.
É por essas e outras que o comentário que abre esse texto se justifica. A qualidade de suas músicas e a importância como referência no movimento da música negra brasileira, principalmente nos anos de 1970, credenciam Hyldon a ter, no mínimo, melhor infra-estrutura e produção mais caprichada neste registro do resgate de sua carreira em DVD. A aparição de Carlos Dafé, que preso à letra de Quando o amor chegar registrou performance prejudicada, constrange. O pequeno (para o tamanho do talento do artista) e recém-extinto (e já saudoso) Cinemathéque, em Botafogo, também é injusto com sua relevância. Sua obra cada vez mais em extinção ainda resiste no coração daqueles poucos, que de cara, na abertura do show, comovidos cantavam Na sombra de uma árvore.
POR: [Leandro Souto Maior]
MuitoRuim
Surpresa em dobro
| Walt Becker
Coloque dois atores de carreira instável, adicione outro igualmente irrelevante e faça eles repetirem as mesmas caretas e expressões de outros trabalhos. Pronto. Você acaba de descobrir a receita para Surpresa em dobro. Dirigido por Walt Becker (Motoqueiros selvagens), o longa consegue ser menos do que uma daquelas sessões da tarde. É enfadonho, totalmente previsível e consegue ser até irritante.
Na trama, que tem seu desenrolar logo no início (sim, porque o que vem depois é quase um bônus negativo de uma história que não precisa de uma hora e meia para ser contada), temos os dois melhores amigos Charlie (John Travolta, com um penteado a la Drácula de Bram Stoker) e Dan (Robin Williams). Ambos são dois lobos solitários bem-sucedidos no mercado esportivo de vendas. Até o dia em que um antigo caso de Dan, Vicki (Kelly Preston), reaparece e o informa que os dois tiveram gêmeos e pede para que ele cuide das crianças enquanto ela passa duas semanas na cadeia (e aí? Já dormiu?). Não se preocupe se você não agüentou tanta falta de originalidade de um roteiro extremamente pobre e chegou a cochilar em determinados momentos. Não perdeu absolutamente nada. Os dois solteirões convictos não têm jeito com crianças. Estas, por sua vez, é claro que não são anjinhos obedientes, mas, no final, todos se amam e vivem felizes para sempre. Ponto.
As crianças podem até se divertir nas horas em que Dan e Charlie criam milhares de confusões num acampamento – momento completamente desnecessário do filme -, liderado por um Matt Dillon dos mais canastrões. Ou até mesmo no final, quando eles invadem um zoológico (esta, talvez, atentem para o “talvez”, possa vir a ser a parte menos entediante de Surpresa em dobro). Tudo para que, mais uma vez, nos emocionemos com as mensagens sobre amizade e laços familiares que só a Disney consegue passar sem que a produção fique quase didática. Mas, desta vez, o estúdio errou na mão. E feio.
Alguma coisa está errada quando as melhores atuações são de duas crianças e um cachorro, e não de veteranos já conhecidos e, até mesmo, premiados. Travolta e Williams estão irreconhecíveis, de maneira negativa, com atuações forçadas e superficiais, quase patéticos. Seth Green é aquele personagem meio aleatório na trama, mas que consegue salvar os raros momentos em que o filme tentava ser engraçado e não conseguiu.
Totalmente merecidas as cinco indicações ao Framboesa de Ouro (algo como o Oscar dos piores), pois, para um filme que promete dupla diversão, a surpresa é extremamente desagradável.
POR: [Juliana D'Arêde]
Excelente
Rush: Beyond the lighted stage
| Scot McFadyen/Sam Dunn
A história de três amigos que resolvem montar uma banda. Não usam drogas, não são chegados a orgias e madrugadas adentro, bebem só ocasionalmente, detestam escândalos e estão pouco se lixando para caras e bocas no palco. O que escrever sobre eles então, analisaria a paupérrima crítica musical nos EUA e na Inglaterra - e consequentemente no resto do mundo. Há 42 anos, o Rush de Geddy Lee (baixo e voz), Alex Lifeson (guitarra) e John Rutsey, depois Neil Peart (bateria) faz o que qualquer artista deveria, em tese: tocar, melhorar, compor canções, melodias, letras, arranjos, realizar shows emblemáticos e vai. Espelhados como chatos por redações formadas pela escola punk nos anos 70, 80, 90 e, acredite, 2000, o grupo atravessou todo esse tempo tendo que deixar isso para lá. Nos 80, por exemplo, o produtor Ezequiel Neves tachou, controverso: “Rock progressivo é música de penteadeira de bicha”. Frase não muito diferente das revistas especializadas gringas (“a voz de Geddy Lee soa como rato preso numa ratoeira”) ou coisas assim. Pois Rush: Beyond the lighted stage lembra a trajetória dos outsiders canadenses que viveram à sombra do reconhecimento, mas vívido entre os que entendiam que sua música era muito maior do que seus detratores.
O surpreendente documentário de Scot McFadyen e Sam Dunn arrebatou o Tribeca Film Festival 2010 com sessões lotadas - e venceu. Incrível que o filme seja relegado pelo cinema no Brasil e saia direto em DVD. Esqueceram que um Maracanã lotado já havia recebido o grupo anos atrás e que outro o espera em outubro. As quase duas horas contam a saga do Rush e reconstituem religiosamente os passos dos três desde Toronto, no Canadá. A cena em que Alex Lifeson, ainda um adolescente, discute com os pais e diz que quer seguir a carreira de músico e sair da escola, registrada sabe-se lá por que, numa mesa de jantar na década de 60, é um dos tesouros do filme.
McFadyen e Dunn tiram a casca do Rush e fazem o grupo se defrontar com seus erros e seus medos. Nascido em 1968, o trio tinha John Rutsey no começo, expulso da banda antes de assinar com uma major com uma (até no filme) inexplicada justificativa - "ele tinha diabetes, estava doente". Rutsey morreu em 2008, com complicações da doença. Dedicava-se ao fisiculturismo e virou o Pete Best do trio.
O primeiro disco, Rush (1974), veio logo após o grupo tentar obter alguma atenção em bailes escolares (“As meninas e meninos queriam dançar e nós não tocávamos o que eles queriam. No fim, estava todo mundo no fundo do salão conversando”, conta Geddy Lee). O LP era cru, zeppeliniano, pesado, por vezes hard rock.
Em 1975, ainda tentando achar uma identidade para o som que queriam fazer, mais complexo para instrumentistas que passavam o dia estudando como academicistas do rock, lançaram dois discos, Fly by night e Caress of steel. Este último, tão soturno quanto raivoso, genial e confuso, quase levou-os de volta a Toronto. Um fracasso. Até que surgiu o ambicioso 2112 (1976), que instaurou os teclados e sintetizadores e pôs o Rush, enfim, na rota do rock progressivo. Tempo de muitas notas, quanto mais, melhor.
O Rush que virou uma megabanda começa aí. E o filme registra essa mudança. A busca por uma música tão complexa que tocá-la ao vivo era um desafio, não um show, foi engessando a banda na sua própria genialidade. “Era exaustivo. Começamos a ver que a música não era tudo nas nossas vidas, mas uma parte delas. Tínhamos uma família que precisava da gente”.
A maturidade do Rush é revista ao longo do documentário. Gene Simmons, do Kiss, lembra que estranhava o fato de, após os shows, os três irem para o quarto do hotel assistir TV e conversar: “Eu pensei: Será que esses caras são bichas”? A independência artística, a forma com que construíram cada disco, a paciência um com o outro, tudo permeia a história do Rush. Em 42 anos, nunca houve um só caso rumoroso, que pudesse manchar seus nomes e atrapalhar a carreira.
Gente como Mike Portnoy (Dream Theater), Jack Black e Kirk Hammett, entre outros, tentam explicar o que o Rush fazia, comentam arranjos, letras e recheiam o documentário. A admissão de que a partir de Power Windows (1985) o grupo simplificaria ainda mais suas intenções e partia em busca de um papel mais importante para os sintetizadores mostra a insatisfação de Alex Lifeson. Achar um meio termo entre as guitarras e os sintetizadores virou um problema para o grupo, que passou os anos 90 e 2000 sem lançar um só disco no nível dos anteriores.
A atrapalhar, a morte da filha de Neil Peart num acidente de carro e de sua mulher, Jacqueline Taylor, de câncer, em 1997 e 1998, respectivamente. O filme registra o momento e reconstitui os 90 mil quilômetros percorridos de moto feitos em quatro anos por Peart, que fugiu para longe de todos. “Sabíamos que ele precisava desse tempo e ficamos esperando o tempo que fosse preciso”, diz Lee. O filme termina com a volta dos três aos palcos com Vapor trails.
Passam quase que em branco a antipatia crônica de Neil Peart e a confusão que envolveu Alex Lifeson no réveillon de 2004 num hotel na Flórida, em que foi preso. Veja abaixo.
Rush: Beyond the lighted stage é uma espécie de ajuste de contas. O DVD é um bom dever de casa para quem ainda acha que o punk rock foi a melhor coisa que aconteceu para a música.
POR: [Mario Marques]
Bom
Performance
| Donald Cammell/Nicholas Roeg
Filmado em 1968 e lançado apenas em 1970, Performance, dirigido por Donald Cammell e Nicholas Roeg, tem o stone Mick Jagger como um de seus atores principais e ainda era mais conhecido apenas pelos fãs dos Rolling Stones, ou por quem curtisse a estética dos filmes psicodélicos dos anos 60. E acabou se tornando um dos raros exemplares deste tipo de filme a ser lançado por uma grande produtora, a Warner. Se a idéia original era a de que fosse um equivalente dos filmes dos Beatles (tinha muita gente da produtora achando que o resultado seria algo próximo de A hard day s night), o resultado saiu repleto de referências musicais e literárias que não podem ser captadas logo de cara - com sexo, drogas, rock n roll, perversão e tortura psicológica no último volume. Mais: as histórias por trás de sua realização são tão ou mais turbulentas e interessantes do que o próprio Performance, já disponível em DVD numa edição que ainda contém um telefilme antigo falando da "carreira solo" de Mick como músico e ator e um documentário explicando como foi realizado o filme. Bom, explicando, é maneira de falar: há fatos que foram deixados de fora, e vale citar que o próprio Mick Jagger não foi entrevistado para os extras do vídeo.
O enredo de Performance já o coloca tranquilamente numa espécie de "lado negro da força" do cinema experimental dos anos 60. Não há nada de flower power, muito menos do espírito comunitário de Woodstock. O filme inicia mostrando o estilo de vida do gângster Chas (interpretado por um ator conhecido na época, James Fox), cujo trabalho gira em torno de mulheres, espancamentos, ameaças, torturas, tiros e muita truculência - tudo mostrado na tela com realismo. Após ser jurado de morte, ele tem que se esconder e, por vias completamente tortas, acaba indo parar na casa de um rockstar aposentado, Turner (Mick Jagger), que vive com duas amantes: a diabólica Pherbe (Anita Pallenberg, modelo e atriz ítalo-germânica que era casada com o também stone Keith Richards) e a gracinha Lucy (a atriz francesa Michele Breton). A aproximação de Turner e Chas acaba sendo o estopim para mudanças nas personalidades de ambos – especialmente quanto o roqueiro e Pherbe oferecem a Chas, sem avisar, uma sessão de degustação de cogumelos que um cozinheiro jamais colocaria numa pizza... Sons estranhos, colagens desconexas, cortes bruscos e seqüências sinistras já aparecem desde o começo do filme, mas é aí que o bicho pega de vez, ganhando ares de verdadeira bad trip. Especialmente para Chas, que praticamente vira um hippie doidão e decadente nas mãos de Turner e suas concubinas.
A verdade estava do outro lado das câmeras. Se você não achou nada de estranho ao saber que Anita Pallenberg, mulher do guitarrista dos Stones Keith Richards, contracenava com Jagger, saiba que as cenas de sexo e de uso de drogas são bem reais – especialmente no que diz respeito ao trio Jagger-Michele-Anita. Pelo que consta, durante as gravações, os atores realmente usavam drogas para manter o clima chapado e decadente do filme. No documentário, são relatados detalhes de como uma das cenas de sexo foi feita – e Anita, hoje uma senhora, sorri e explica que “foi bem divertido”. Bom... a suposta dor-de-corno de Keith teria dado em pelo menos duas músicas dos Stones (You got the silver e Gimme shelter) e em sua recusa a participar da trilha de Performance – quem toca guitarra em Memo from Turner, que Mick canta ao conseguir “penetrar na mente” de Chas, é o guitarman Ry Cooder. Segundo Anita, Keith, já prevendo problemas, ofereceu a ela o mesmo cachê da produção só para que ela não o fizesse. “Mas eu queria mesmo fazer o filme”, enfatiza ela.
A lista corrida de histórias bizarras a respeito do filme é bem grandinha – dentre elas, há o fato de James Fox ter largado o cinema para se dedicar à vida religiosa, o fato de Anita ter metido o pé na jaca das drogas furiosamente após Performance e o desaparecimento de Michele (que, dizem, teria morrido de overdose, virado prostituta ou estaria incógnita na Alemanha). O que vale afirmar é que o longa é um baita relato de uma época, e que qualquer pessoa que queira entender o que foi a doideira cultural-existencial dos anos 60, precisa dar uma olhada no filme. Além do caráter psicodélico, a película inclui desde teorias malucas sobre “demônios internos”, a referências a gente como o bluesman Robert Johnson (cuja Come on in my kitchen é tocada por Jagger ao violão) e o papa do realismo mágico, o escritor Jorge Luís Borges, que inspirou boa parte do roteiro e cuja imagem chega a aparecer no filme.
O clima de Performance não passou batido. Além de censurado no Brasil dos anos 70, ele chegou a ganhar classificação de “pornográfico” no EUA, e isso porque dizem que boa parte do material filmado, de tão sexualmente explícito, foi cortado. Lendas e mais lendas. Ultrajados, os chefões da Warner só liberaram o filme após ele passar por quatro montagens - e ainda assim, a fita foi lançada sem muito alarde. Só agora, após quatro décadas, Performance sai da maldição e se revela um grande filme, para além de qualquer polêmica.
POR: [Ricardo Schott]
Bom
Uma noite fora de série
| Shawn Levy (diretor)
Shawn Levy pode ter encontrado o caminho para a sua (quase) redenção na comédia. Após algumas fracas tentativas, como A pantera cor-de-rosa (2006) e os dois filmes da série Uma noite no museu (2006 e 2009), parecia que o timing cômico do cineasta, que agradou muito com Recém-casados (2003), estava longe de nos dar o ar de sua graça (com o perdão da expressão). Mas eis que Levy tem a brilhante ideia de juntar dois dos maiores comediantes do momento nas telas de cinema, com muitos carros, tiros e questões conjugais. A química entre Tina Fey (30 rock) e Steve Carrell (The office) em Uma noite fora de série é absoluta, resultando numa explosão de entretenimento e algumas gargalhadas. O filme está em pré-venda em DVD.
Phil (Carrell) e Claire (Tina) Foster são, como eles mesmos se denominam, um casal insosso da classe média de Nova Jersey. Dominados pela rotina de dois filhos, trabalho e tarefas domésticas, eles não se permitem mais aqueles momentos carinhosos de início de relacionamento, penetrando numa total inércia e comodidade. Até o dia em que, impressionados com a separação de um casal de amigos, Phil e Claire resolvem dar uma esquentada na relação e decidem sair para jantar fora. Mas o que era para ser uma noite romântica se transformou num verdadeiro pesadelo quando Phil resolve pegar a reserva do restaurante em nome de outro casal. Quem poderia imaginar que os Tripplehorns estavam envolvidos numa chantagem e sendo perseguidos por bandidos?
A partir daí, o que segue é uma trama divertida e despretensiosa, liderada pelo talento cômico inegável de Tina e Steve. A dupla de atores nos proporciona momentos simplesmente impagáveis, como a perseguição de carros e a dança erótica, por exemplo. Junto a isso, as participações de outros personagens no desenrolar da história são adições muito bem-vindas. Destaque para Mark Wahlberg, como um ex-agente bonitão que ajuda a dupla em sua jornada para se livrar dos bandidos, e para James Franco e Mila Kunis, que interpretam o verdadeiro casal Tripplehorns, alheio a tudo o que está acontecendo. O encontro entre os Fosters e os Tripplehorns rende boas gargalhadas, principalmente quando se percebe a força dos atores para não rir em cena.
Além do intuito de divertir, Uma noite fora de série consegue mesclar momentos e diálogos leves e românticos, que, mesmo previsíveis, não afetam negativamente o roteiro. Pelo contrário, chegam a ser até agradáveis, muito por conta das atuações de Fey e Carrell, que fazem questão de não se levar a sério. Deixando de lado os clichês, esses nunca podem faltar, o filme cumpre com o objetivo de entreter o público (apesar de correr o risco de não superar as expectativas dos mais críticos) e reforça o bom momento de Tina Fey e Steve Carrell como dois dos melhores representantes do gênero.
POR: [Juliana d Arêde]
Excelente
Ao vivo
| O Rappa
Num país que valoriza o lançamento de discos em escala industrial, e que queima carreiras por excesso de trabalho, a longevidade do Rappa - e sua ligação a uma mesma gravadora por duas décadas - é louvável. E inexplicável. O grupo de Marcelo Falcão (voz), Xandão (guitarra), Marcelo Lobato (teclados) e Lauro Farias (baixo) foi uma das raras bandas nacionais dos anos 90 que realmente criou um som próprio, tornou-se base para uma série de imitações baratas e "chegou lá" sem seguir a cartilha Caminho suave das bandas de pop-rock nacionais. São uma das raras bandas nacionais que ainda valorizam a formação de um conceito na hora de lançar um disco. E ainda sobreviveram à perda de um integrante que era tido como líder.
Nota 10 em sobrevivência, retomam seus hits no DVD Ao vivo, gravado em 2009 na Rocinha. O repertório, tocado com competência de banda de estúdio - incluindo os detalhes de teclados e efeitos de Marcelo Lobato, acompanhado pelo irmão Marcos nas teclas - serve como uma grande coletânea, incluindo sucessos como Lado B, lado A, Reza vela, Monstro invisível, Vapor barato, Todo camburão tem um pouco de navio negreiro e muitos outros, numa audição longa, mas incansável. Aos 16 anos de som gravado, o Rappa tem muito a ensinar às bandas novas - entre os valores expostos pelo DVD ao vivo, estão o amor à música e a integridade, tão em falta nos dias de hoje.
POR: [Ricardo Schott]
Regular
Simplesmente complicado
| Nancy Meyers
Nos anos 80 e 90, era muito lucrativo fazer filmes de ação. Foi a era dos grandes action-heroes americanos, fortões como Arnold Schwarzenegger e Sylvester Stallone. De uns tempos para cá, o paradigma vem mudando. As mulheres estão indo mais ao cinema e as comédias românticas são o porto seguro de Hollywood. Antes, para cada Rocky IV e Exterminador do futuro, pequenos clássicos do gênero, você enfrentava dezenas de genéricos com Steven Seagal e companhia. Nas comédias românticas, a situação é similar: em um mar de Matthew McConaugheys e Meg Ryans, você encontra apenas alguns filmes como Simplesmente complicado.
Na trama, Jane (Meryl Streep) tem um caso com seu ex-marido, Jake (Alec Baldwin). Enquanto isso, começa um pequeno romance com Adam (Steve Martin), o arquiteto que trabalha na reforma de sua casa. O segredo de Simplesmente complicado não está em quebrar as correntes do formato com uma trama inovadora. Pelo contrário, todos os clichês do estilo estão ali — o trunfo é uma trinca de performances que seguram todo o espetáculo. De um lado, a sempre excelente Meryl Streep, cuja interpretação se faz nos detalhes, nos olhares e nas expressões faciais. Os diálogos não fogem muito do esperado de uma mulher insegura, traumatizada pelo divórcio, mas, ao mesmo tempo, mãe carinhosa e carismática. Segurando a outra ponta está o ótimo John Krasinski, o Jim Halpert da série The office. Com um timing cômico impecável, Krasinski, interpetando o genro de Jane, Harley, tem as falas mais engraçadas do filme. A sequência no restaurante do hotel é toda construída em cima do ator, que traz muito do clima de "comédia de constrangimento" de The office na bagagem.
O outro pilar que faz com que Simplesmente complicado flutue acima da comédia romântica padrão é Alec Baldwin. Baldwin chegou a um estágio de sua carreira em que não interpreta mais personagens. Ele interpreta Alec Baldwin, apenas rebatizado por algo genérico como Jack ou Bill. Neste caso, é Jake, o ex-marido de Jane, que engatou um casamento com uma mulher muito mais nova, Agness (Lake Bell).
No geral, Simplesmente complicado é um filme mediano. Simples assim. Para cada brilhantismo do roteiro (por exemplo, Agness não é demonizada por ser mais atraente que Jane. Em uma cena na qual Jane dança afetivamente com Jack, vemos a tristeza sincera no olhar de Agness), temos algumas saídas mal explicadas, algumas performances medianas (Steve Martin, estou olhando para você) e algumas piadas deslocadas (humor com maconha é golpe baixo). Mesmo assim, se quer uma distração para desligar o cérebro no fim de semana, Simplesmente complicado é a pedida. Alec Baldwin já vale o ingresso.
POR: [Gerhard Brêda]
Bom
Nova York, eu te amo
| Vários diretores
Quando surgiu o primeiro projeto de curtas-metragens em homenagem à Cidade-Luz, percebeu-se que muito havia de universal no amor. E cada um ao seu modo. A cada esquina. Dezoito diretores projetavam em Paris seus distintos olhares, em diferentes manifestações ou estágios, do sentimento que garantirá ainda mais três filmes da franquia I love you depois de Nova York, eu te amo. O pano de fundo das cidades – Xangai, Rio e Jerusalém são as próximas fontes de inspiração – funciona muito mais como entusiasmo para criação e tempero para evoluir com a concepção do projeto, que desde Paris, te amo, lançado no Brasil em 2007, é de Emmanuel Benbihy.
A evolução do conceito do produtor vista no lançamento deste ano refere-se muito mais à forma. Nova York, em sua magnitude cosmopolita, recebe citação pelo conjunto dos olhares de 11 diretores, de várias nacionalidades, debruçados em criatividade, para entrelaçar as histórias. Diferentemente de Paris, te amo, a maioria dos curtas dialoga entre si não somente pelo tema. Personagens de uma determinada história irrompem em outras. A transição dá um frescor incontestável, já que a mera justaposição de curtas deixaria de contemplar a ideia de que NY permite casuais encontros em suas veias.
E, assim, o filme se sequencia por descrever os personagens a partir de suas respectivas ações em decorrência de suas qualidades aparentes. Nada mais justo quando a efemeridade explica as construções de afeto. O rapaz que se atrai por uma bela jovem, a senhora que se encanta por um rapaz deficiente, o homem que se surpreende com a inteligência de uma mulher, os pais desencantados que se renovam com a companhia de uma criança, a judia recém-casada que se apaixona por um indiano...
O maior mérito dos fragmentos, portanto, é sua unidade, embora um ou outro não corresponda a essa afirmativa – mas nada que possa ser classificado como decepcionante. Além da interseção do elenco, a fotografia colabora para endossar o investimento em coesão. Esta pode ser mesmo a melhor palavra para definir Nova York, eu te amo, se partirmos do pressuposto de que contrastes em integração são a melhor expressão para definir a metrópole.
Sem se prender às vestes de seu predecessor, Nova York, eu te amo conduz o espectador a se emocionar ao final. Um breve apelo depois de algumas surpresas. Um misto de histórias, que, no geral, se movem pelo conjunto – já que algumas se constituem de elementos fantásticos, enquanto outras se realizam pela verossimilhança. A imersão resultante pode não ser das mais empolgantes, mas Nova York se sobressalta no conceito exatamente por trazer nele uma novidade, apesar de Paris, eu te amo funcionar melhor como mistura.
POR: [Monike Mar]
Regular
L ascoteranno gli Americani
| Amedeo Minghi
O pop italiano parece viver em eterno clima de jovem guarda - e olha que foi de lá mesmo, da Itália, que vieram vários hits de bandas como os Incríveis e até uns sucessos nacionais dos anos 80, como Mamma Maria (gravada pelo Grafite) e Eva (idem com o Radio Taxi). Estrelinhas pop como Laura Pausini mostram que letras românticas, sem medo de resvalar na breguice, são de rigor no país. Amedeo Minghi, uma espécie de primo mais velho, musicalmente falando, da italianinha, já tem status de "música popular italiana", se é que isso existe - com grande número de canções já compostas e gravadas por nomes como Gianni Morandi, Andrea Bocelli e outros.
NO DVD L ascolteranno gli Americani, que traz Minghi comemorando 40 anos de carreira, a série de hits oscila entre o pop e o clássico, com orquestra, coral e sons tradicionalmente românticos como Alla fine, Cantare é d amore, 1950 (com participação da gatíssima cantora Serena Altieri, em situação meio complexa ao revelar para o sessentão Minghi que costumava ouvir sua mãe cantar a música para ela "quando criança") e Un nuovo amico (Call a friend). Tem religião no meio: a música nova Um uomo vento da Lontano é dedicada ao Papa João Paulo II e abre com textos escritos pelo próprio. Em Gerusaleme, realiza um velho sonho e divide a letra com uma artista árabe e um judeu. No fim, mantém o clima familiar recebendo uma cantora mirim, Annuncia, para dividir L amore mio per sempre. O que aqui no Brasil é diferente e popular, como os espetáculos de Roberto Carlos, em alguns lugares é padrão - e atrai olhares por isso.
POR: [Ricardo Schott]
Excelente
2008 - In concert live at Tokyo Dome
| The Police
O rock estaria salvo em 2010 se pelo menos 10% das bandas atuais tivesse a mesma capacidade de tocar (muito) bem e fazer ótimas canções - daquelas que atingem todo tipo de público - que o Police tinha. Artífices de um som cujos ecos podem ser encontrado em praticamente tudo o que foi feito depois deles (até discos de heavy metal e punk têm, volta e meia, sons de guitarra que lembram os criados por Andy Summers), ressurgem nesse DVD gravado no Japão em 2008, quando faziam uma turnê nostálgica que chegou a passar pelo Brasil.
A seleção ultrapassa o limite do "show para fãs": reúne canções que estão no Top 10 de qualquer pessoa que ligou um rádio FM nos últimos 30 anos: Message in a bottle (uma das melhores letras já feitas na história do rock, sem dúvida), Syncronicity II, Walking on the moon, Every little things she does is magic, King of pain. E pelo menos duas canções não tão lembradas: Driven to tears e Hole in my life. Em termos de performance, nem é covardia comparar o trio coroa de 2007/2008 com os garotões do fim dos anos 70 - até mais por Summers e pelo baterista Stewart Copeland do que por seu frontman, que se esforça para manter os mesmos vocais do começo da banda (e, em alguns momentos, é ajudado por diminuições de tom). Enfim, pode comprar já.
No YouTube, rolam uns vídeos amadores feitos pelos fãs na mesma noite do show do Police em Tókio. Veja abaixo, na visão dos fãs, a banda tocando Every breath you take:
POR: [Ricardo Schott]
Fraco
O magnata
| Johnny Araújo (direção)
O roteiro de O magnata tem muitos furos - é perfeitamente possível acreditar que Chorão, inexperiente no assunto, seja o responsável por tudo, muito embora ele ainda tenha sido ajudado pelo rodado Bruno Mantovani, de filmes como Cidade de Deus e Tropa de elite. A história, insossa, parece um refugo das revistas Circo e Chiclete com Banana; os personagens são vazios; o final, moralista quando já não há mais tempo para tal (e, justamente por isso, parecendo deslocado de todo o filme), esgota qualquer possibilidade de mudança pessoal. Dificilmente o sinal vermelho do moralismo não pisca na cara do espectador durante quase todo o filme, seja ele adolescente ou adulto. O Charlie Brown Jr, na sua formação pós-debandada geral, coadjuva todas as cenas nas quais a galera marginal do filme se diverte, o que - caso a banda ainda estivesse na crista da onda - já serviria para dar estofo a vários debates entre pais, filhos e mestres. Por aí, num mercado fonográfico que raciocina entre extremos, dá até para entender por qual porta passou 100% do rock nacional coxinha de hoje.
Não chega a compensar o roteiro ruim, mas a surpresa é o ritmo ágil com o qual a história de Magnata (Paulo Vilhena) é levada à tela pelo diretor Johnny Araújo. E o fato de O magnata fugir completamente do bom-mocismo da cinematografia nacional atual. Filho de uma mulher rica e alcoólatra (Maria Luísa Mendonça) e namorado de uma garota que, num primeiro contato, o detesta (Rosane Mulholland), Magnata se equilibra entre o desejo de se tornar rockstar num mundo onde inexistem movimentos como emo, happy rock e quejandos, e a marginalidade pura e simples. Anda armado, se mete com drogas, rouba um Cadillac, tem 0% de valores familiares e, quando resolve ter, já era.
No som do filme, há só aquele hardcore bicho solto, meio playboy, meio marginal, que dominava o rock brasileiro até meados da década passada, e que é filho dileto do próprio Charlie Brown Jr. Para dar veracidade, ícones como João Gordo, Dead Fish e Tolerância Zero (banda casca-grossa de Indaiatuba, SP, autora da pérola Ninguém presta) despontam no filme. E é no quesito "participaçoes roqueiras" que aparece a pior mancada do roteiro: Marcelo Nova faz o papel da consciência do Magnata e, podendo ser bem aproveitado no longa, limita-se a narrar a história e quase não interage.
De resto, dá para rir (bem pouco) com os raros momentos cômicos do longa, que soam como um misto de cinema marginal com a sutileza de O peru da festa, disco clássico do humorista Costinha - e incluem a participação do palhaço Tiririca numa passagem, e a "canção" dedicada por Paulo Vilhena a uma garota da plateia (veja abaixo). Mas O magnata não justifica nem 10% do dinheiro investido.
POR: [Ricardo Schott]
Bom
2 aprile 1980
| Mercedes Sosa
Morta em 2009, Mercedes Sosa havia sido expulsa de seu país natal, a Argentina, e estava exilada em 1980, quando gravou este especial para a TV Suíça, lançado agora pela Coqueiro Verde. 2 Aprile 1980 traz Mercedes e sua voz de soprano, respeitada até por gente de música clássica, relembrando o som folclórico latino que marcou sua carreira.
O clima é triste - na entrevista, ela faz questão de se referir de maneira carinhosa aos compositores e cantores que foram forçados a se calar, e o repertório dá voz a artistas latinoamericanos que passaram por problemas parecidos em suas próprias terras, como o hermano Athahualpa Yupanqui (em canções belíssimas como Piedra y camino e Chacarera de las piedras) e Violeta Parra (o hino Gracias a la vida, já relido por nomes como Joan Baez e Elis Regina), além de lembrar o artista chileno Victor Jara, assasinado pela ditadura chilena (em A Victor). Um clima bem pouco pop para os leitores de um site que se propõe ser um LABORATÓRIO POP, mas válido para conhecer um tipo de som que se eternizou por não se render a inovações - e que, com o tempo, transformou-se, injustamente, em sinônimo de politização extrema, de (até) chatice, como se o público que acompanha a cantora se confundisse com seu trabalho. Ouça (e veja) disposto a se surpreender.
POR: [Ricardo Schott]
Regular
Ginger Baker in Africa
| Tony Palmer
Veterano baterista de rock, recriador do solo de bateria, hoje com 71 anos, Ginger Baker é, antes de tudo, um bravo. Ou um maluco, dada a sua vocação para criador de caso. Sua biografia, além de participações em bandas sólidas como Cream, Blind Faith e Air Force, inclui décadas de abuso de drogas, casamentos fracassados, sangrias de dinheiro e brigas com colegas, empresários, donos de gravadoras e até com milicianos sulafricanos (durante a época do Apartheid, mudou-se para a África do Sul, onde vive até hoje, e arrumou briga com um movimento no estilo white power). Em 1971, levou a maluquice ao status de arte: sem emprego fixo, com pouca grana no bolso e desejando manter-se longe da heroína, meteu-se num jipe com o cineasta Tony Palmer (que dirigira o filme do concerto de despedida do Cream, em 1968, e, na época, preparava 200 motels, comédia musical criada por Frank Zappa) e partiu rumo à Nigéria, na África, passando pelo deserto do Saara. O objetivo era se encontrar com seu amigo músico Fela Kuti, conhecer os sons africanos e montar um estúdio em Lagos, então capital do país. E fazer um documentário da aventura.
O resultado você confere em Ginger Baker in Africa, filme curto (55 minutos) que mostra a saga de Palmer e Baker. Foca em poucas ideias de jerico – a maior delas, ilustrada por divertidos desenhos, foi penetrar em países africanos, todos dominados por ditaduras, sem se apresentar à polícia local. Os passeios pelo deserto e pelas localidades são narrados por Baker com uma espécie de prosa–poesia psicodélica (acentuada por sua voz grave e envelhecida) e centram mais fogo no estranhamento ao deparar com uma música diferente do que se fazia na época, além dos sons meditativos e lisérgicos que Baker tirou em seu estúdio com os músicos nigerianos. Com fortes percussões, órgãos apitando e metais em brasa, dão um efeito de road movie doidão ao documentário. E ainda tem a música poderosa de Fela Kuti, outro ser humano com indiscutível talento musical e forte aptidão para a encrenca. Curiosamente, a construção do tal estúdio de Baker, material passível de gerar várias histórias bizarras, ficou de fora. Ainda que deixe várias perguntas na cabeça do espectador, vale, e muito.
POR: [Ricardo Schott]
Regular
Dalva e Herivelto
| Maria Adelaide Amaral (roteiro)/Denis Carvalho (direção)
Com Adriana Esteves e Fabio Assunção nos papéis-título, Dalva e Herivelto dá conta do quanto a cantora Dalva de Oliveira (1917-1972) sofreu com traições no casamento e com o orgulho ferido do marido Herivelto Martins (1912-1992), que não a visitou nem em seu leito de morte e ganhou status (merecido, diga-se) de vilão da história. Mas as tintas estão pouco carregadas – o principal está mesmo em Minhas duas estrelas, livro que o filho do casal, Pery Ribeiro, escreveu em 2005 e conta a história detalhada, cabendo até detalhes sombrios como a presença de um feto, embebido em álcool, na casa da família (era um filho que Dalva perdeu ao ser empurrada da escada, grávida, pelo marido).
A série acaba sendo útil como lembrança de um período áureo da MPB, com um mercado musical ainda em formação, em que hits nacionais eram ligados ao carnaval e serviam como comentaristas de seu tempo. Num concurso musical, Herivelto apresenta sua Praça Onze, protestando contra o fato da praça, reduto do samba carioca nos anos 30/40, desalojar o carnaval por conta de reformas. Ganha de Ataulfo Alves, que apresenta sua Ai que saudades da Amélia, feita com Mario Lago – mas a composição de Ataulfo é a que ficou para a posteridade, sem ser atropelada pelos acontecimentos.
Por aí já dá para ter a noção de que os tempos eram outros, com outros parâmetros, embora tão imediatistas quanto os de hoje. Mas com atuações e direção irrepreensíveis, a série traz mesmo Dalva e Herivelto para o universo pop, sob outra ótica, além de mostrar o período em que, já separados, ambos se alfinetavam em canções e gravações. Quem acompanhou as relações destrutivas no estilo Sid & Nancy-Kurt & Courtney vai ver algo parecido aqui, mas em ritmo de samba.
POR: [Ricardo Schott]
Regular
Na linha do tempo
| Michael Sullivan
Michael Sullivan, desde que não seja a única opção a ser ouvida no rádio, faz falta. No DVD Na linha do tempo, repassa em clima soul seus maiores sucessos com convidados inusitados (Arnaldo Antunes, com 100% de desconforto, recordando a declamação de Tim Maia em Me dê motivo, e Daniel Jobim ao piano em Um dia de domingo), parceiros benvindos (Carlinhos Brown, que manda bem em uma das melhores canções da dupla Sullivan & Paulo Massadas, Retratos e canções) e uma estranheza (os vocais excessivamente graves de Jorge Aragão, desencontrado em Talismã – aquela mesma, do desaparecido Elson do Forrogode). Conta também com a participação da mulher Anayle Lima, pendendo para o gospel em Amanhã. E abre com a pepita pop My life, sucesso solo de Sullivan gravado em 1976, em tempos de êxitos tapuias como Mark Davis, Pete Dunaway e Christian.
Com um repertório que vendeu propagados 60 milhões de discos, Sullivan e Massadas funcionavam em total linha de montagem nos anos 80. Começaram compondo em pequena escala para artistas como The Fevers, Fernando Mendes e Odair José e, pós-1985, construíram um desdobre à direita do pop brasileiro. Logicamente, a fábrica de canções da dupla acertou em vários momentos, alguns deles relembrados no DVD: Joga fora (com Sandra de Sá), Um dia de domingo (com Tim Maia e Gal Costa), Amor perfeito (com Roberto Carlos), Leva (com Tim Maia). Mas caiu na mesmice e no pior da breguice em inúmeros outros, como Deslizes, hit insuportável de Fagner, e em sambas como Nem morta, de Alcione, longe do soul que marcou boa parte dos trabalhos de Sullivan. Para balizar, oferece boas canções novas, como Baladeiro, parceria com Hyldon, e Açúcar, gozação soul feita com Dudu Falcão, além de um bom momento pop oferecido ao Babado novo (Ver-te mar, parceria com Carlinhos Brown). No geral, uma volta em clima de reabilitação.
POR: [Ricardo Schott]
Regular
Vivo na cena
| Nasi
Nasi está mais roqueiro que nunca. Como que sob uma implícita responsabilidade de dar seu recado no primeiro lançamento depois da barraqueada saída do Ira!, o vocalista pegou firme nas guitarras e foi fundo no rock and roll em Vivo na cena – ao contrário de suas outras investidas solo, calcadas em sua velha paixão pelo blues. Livre para fazer o rock mais barulhento sem ter que evitar competir ou confundir-se com o som do grupo, Nasi deu uma geral em um monte de sons que sempre fizeram sua cabeça, incluindo coisas já previamente registradas com o Ira!, entre umas poucas inéditas. Entre garimpos do Voluntários da Pátria (Verdades e mentiras), Muzak (Onde estou?), Zé Rodrix (Por amor), Picassos Falsos (Carne e osso) e Raul Seixas (Rockixe, esta com Marcelo Nova), bola fora apenas para a desnecessária e impiedosa destruição de O tempo não para (Cazuza), além da participação desespecial da voz chata de Vanessa Krongold, da também desinteressante banda Ludov.
Já a voz de Nasi continua aquela, rouca - mas as boas músicas escolhidas para o repertório e a atitude ao interpretá-las lhe garante propriedade para com este lançamento seguir relevante na cena. As performances foram registradas ao vivo em estúdio. O som capturado está quente, orgânico, como todo rock deve ser. Disponível também em DVD, lá pela metade o cenário monotemático pode cansar o espectador. Os extras também não ajudam muito: o mini documentário Quem é Nasi, com depoimentos do contemporâneo Kid Vinil e dos músicos da banda e envolvidos na produção do lançamento, deixa a desejar pelo que poderia ser o filminho se um punhado de nomes relevantes desde a época dos primórdios do Ira! tivessem sido chamados para resgatar suas memórias. Faz falta ao CD e DVD pelo menos uma informação básica, para orientar no mínimo os que vão se deparar com seu som pela primeira vez: crédito dos compositores das faixas. No mais, fica a aula do veterano para os aspirantes a um rock honesto e com pegada.
POR: [Leandro Souto Maior]
Bom
Candy
| Chet Baker
Pelos vocais suingados que coloca em Candy (Mack David, Alex Kramer e Joan Whitney), faixa de abertura e música-título deste DVD, Chet Baker já poderia ser considerado como parte importante da história da música popular brasileira – afinal, influenciar João Gilberto não é para qualquer um. Gravado em 1985 na biblioteca da gravadora sueca Sonet, cria um ambiente informal que remete direto ao que se esperaria de uma música carioca e zonasulina, com Baker nos vocais e trompete, acompanhado do pianista francês Michel Graillier e do baixista belga Jean-Louis Rassinfosse. E segue com o instrumental Love for sale, de Cole Porter, num arranjo entre o jazz e o soul, que soa como a música pop nacional dos anos 70/80 (do saudoso Marcio Montarroyos aos momentos mais globais da dupla Lincoln Olivetti e Robson Jorge). Dá a impressão de que, num contínuo, Baker influenciou e continuou sendo influenciado pelos sons mais sofisticados do Brasil.
Em 1985, Baker continuava cercado das amarguras que marcaram sua vida. E estava prestes a vir ao Brasil pela primeira vez, para se apresentar no Free Jazz Festival (durante o DVD, ao ser entrevistado, chega a falar que viria ao país). Por aqui, fez um show que atraiu músicos famosos, dividiu opiniões e foi marcado por contratempos de backstage, com o trompetista fazendo de tudo para fugir das drogas e sendo apresentado, por amizades ocasionais, à cocaína dos morros cariocas – dizem que quase teve uma overdose na casa de um músico famoso, que o meteu num banho gelado e passou-lhe um solene esporro. Os problemas pessoais de Baker batem ponto na tristeza com que sopra seu instrumento (e olha para o vazio no fim de algumas canções), em seu rosto envelhecido e na timidez com que se comporta até mesmo diante de seus músicos e do pianista Red Mitchell, que o entrevista – e ouve dele a frase “não sei muito sobre música”.
Musicalmente, é algo a não ser perdido, com o músico e seus dois acompanhantes ocupando todos os espaços, como uma banda completa, em temas como Tempus fugue-it (Bud Powell) e Bye bye blackbird (Mort Dixon e Ray Henderson). Baker dá uma lição de ocupação de espaço musical, não apenas com o que toca, mas com o que não toca: em muitos momentos apenas ouve o grupo, sem interferir, num comportamento típico do jazz, mas que no caso dele, vira uma declaração de princípios. E que mudou a música do mundo.
POR: [Ricardo Schott]
Bom
Pearl Jam In Santiago
| Pearl Jam
Em 2005, o Pearl Jam estava de novo em evidência, preparando-se para lançar aquele que seria seu melhor disco em muitos e muitos anos – o “do abacate”, um dos poucos da banda pós Vitalogy (1994) que dava para sair cantando algumas faixas e recordando quase todas. E levava seu circo numa turnê que passaria pelo Brasil e chegaria a Santiago, no Chile.
O presente DVD traz o show de Santiago, gravado numa escuridão só, com imagem paupérrima - mas que tem valor inestimável para os fãs pela lista de músicas que mistura hits (Animal, Do the evolution, Jeremy, Even flow, Betterman) a canções que residem em algum lugar nos corações dos admiradores, além das tradicionais releituras de Rockin’ in the free world (Neil Young) e I believe in miracles (Ramones), que encerram a noite.
De brinde, Eddie Vedder cantando milagrosamente bem. Torto após goladas de vinho chileno, que bebe no palco, mas carismático e emocionado como sempre, em canções como Rearview mirror, State of Love and trust (raridade incluída apenas na trilha do filme Vida de solteiro), Immortality e outras. Dá até para esquecer que, no fundo, o Pearl Jam tem bem pouco peito para sustentar a pose de clássico que mantém, com centelhas de hits espalhadas em vários discos chatos e poucos álbuns realmente bons do começo ao fim – mesmo o recente Backspacer, animador, sequer se compara à época em que começaram. Eddie Vedder e seus amigos, por vezes, dão a impressão de que trocaram a cruzada em prol da boa música, a porradaria nos estúdios, a saudável discussão dos ensaios, as poças de suor no chão das salas de gravação, pela durabilidade da banda. Uma espécie de zona de conforto que deve ser ótima para eles após tantos anos de convivência, como deve acontecer em tantos outros relacionamentos de trabalho(não foi Erasmo Carlos que afirmou evitar qualquer ponto de discordância do “amigo” Roberto Carlos, para não dar problema?). Mas que é enfadonha para quem ouve o resultado final e não é fã incondicional do grupo. Em Pearl Jam in Santiago, eles quase chegam perto de ser o que já foram, ou o que pareciam ser.
POR: [Ricardo Schott]
Regular
1972
| José Emilio Rondeau (direção)/Ana Maria Bahiana (roteiro)
Como se faz um filme jovem, mas falando da juventude que habitava o Rio há quase quarenta anos? Correndo riscos. O principal é o de parecer datado, coisa que 1972 não é – afora as cenas em que tudo soa como um daqueles clipes-com-historinha dos anos 80 (opa! alguns deles eram concebidos pelos próprios idealizadores do filme) e o fato de várias gírias do período causarem crises de vergonha alheia. Outro risco: fazer tudo parecer fantasioso demais – algo que, assumidamente, já faz parte do pacote, já que o longa trata, como pano de fundo, de um desenvolvimento inexistente do rock nacional no começo dos anos 70 (bandas novatas disputadas a tapa por gravadoras, revistas de rock tendo longa circulação nas bancas e etc). Impossível não recorrer no clichê de compará-lo com filmes como Quase famosos, e com minisséries como Anos rebeldes, mas é mais ou menos na união desses dois climas que se resume o filme. E, provavelmente, isso é intencional.
1972 lança uma estrelinha cinematográfica que acabou não vingando (a bela Dandara Guerra), mas que é a responsável, ao lado da coadjuvante Debora Lamm (que hoje pode ser vista no seriado Cilada, do Multishow), por algumas das atuações mais seguras do longa – os demais atores jovens parecem verdes demais ainda. Toni Tornado, que faz um personagem cheio de mistério, rouba todas as cenas nas quais aparece, e é ainda um grande ator em busca de um personagem que realmente o evidencie. Trazendo o amor de uma candidata a jornalista de rock (Dandara) e um candidato a músico (Rafael Rocha) filtrado pelo rock, 1972 deixa passar tudo de maneira razoavelmente palatável . Corre riscos - olha aí de novo! - por algumas vezes não se decidir se quer se aproximar da geração Malhação, ou se quer usar a mesma linguagem caótica dos filmes jovens dos anos 80 (e, consequentemente, acabar sem saber para que público está falando). A relação do casal principal demora demais para começar, até mesmo para os padrões de uma era pré-concurso de beijo na micareta – e bota pré nisso. Mas cumpre a tarefa de trazer de volta uma época única de volta às telas, com embasamento histórico, alguns personagens reais – como a banda A Bolha e o DJ Big Boy – e outros baseados em figuras da época . Só é meio estranho perceber que a tal banda ficíticia do longa, o Vide Bula, se mexer daqui e dali, vira quase um Smiths. Ou Teenage Fanclub.
POR: [Ricardo Schott]
Bom
Live at the Ritz - 1988
| Guns N Roses
Guns N Roses já foi uma grande banda. Sim, já foi, no passado – e não existe mais. A formação que vem se arrastando nos palcos por aí afora, e que recentemente esteve no Brasil para uma turnê repleta de desastres e coincidências infelizes, está mais para Axl Rose E Seus Cometas. Ou para Chorão tocando no Vasquinho de Morro Agudo com a nongentésima formação do Charlie Brown Jr. E Axl sabe disso - muito embora neste DVD gravado em fevereiro de 1988, no Ritz, em Nova York, o vocalista já dê uma de dono do jogo e, ao apresentar o guitarrista Izzy Stradlin, solte um "ele está tocando comigo há 13 anos". Essa faísca de primmadonice, em meio a um showzaço, vem isolada, mas diz muito sobre o que ocorreria com o Guns em dois anos - abarcando nisso desde a sonoridade inflada do par de álbuns Use your illusion (1992) até o bota-fora (ou saídas voluntárias) de todos os outros músicos, até que só sobrasse o cantor e seus delírios no horrendo Chinese democracy (2009).
Fiquemos então com o frescor do Guns na época que a banda realmente interessava. Bancando os deliquentes juvenis do rock numa época em que isso não dava camisa a ninguém, Axl (vocal), Slash, Izzy (guitarras), Duff McKagan (baixo) e Steven Adler (bateria) eram novidade no fim dos anos 80. Vinham a bordo da selvageria da estreia Appetite for destruction (1987) e do próprio apetite (sem trocadilho) de seu público, dos jornais e estações de TV por novidades do quinteto. Gravando especial para a MTV, mandam bala em nove músicas do debute, todas tocadas sem um erro sequer. It s so easy, a melô da bagaceirice rock n roll Mr. Brownstone, o riffão de Sweet child O mine, hard rocks com alma punk como Paradise city, Out ta get me e Welcome to the jungle... Knockin on heaven s door, de Bob Dylan, é a cover da noite. Nos extras, mais saudosismo com os clipes de Patience, Don t cry e November rain. Uma era que acabou, e deu lugar à festa-baile que Axl arrasta pelo mundo, usando o nome do Guns. Só não dá para levar um “excelente” pela imagem fraca e mal conservada, lembrando um piratão licenciado.
POR: [Ricardo Schott]
Fraco
Lugano Jazz Festival - 1985
| Astrud Gilberto
São apenas 39 minutos de apresentação. O tempo médio que se leva para devorar uma picanha, com molho a campanha, batatas fritas e linguiças, tudo regado por cervejinhas geladas. O curto show de Astrud Gilberto, em 1985, no festival de jazz de Lugano, na Suíça, lançado agora em DVD no Brasil pela Coqueiro Verde, tem as características do que se costuma chamar de show de churrascaria. O repertório é uma reunião de batidas músicas da bossa nova, como Girl from Ipanema e Água de beber, em execuções mais previsíveis ainda. Para gringo ver mesmo. O textinho na contracapa do produto vende que o show traz “toda a elegância de uma intérprete inigualável”. Mas o que se confere é a ex de João Gilberto cantando mal e com postura amadora no palco. Em Águas de março, calcada na célebre versão de Elis e Tom, dá vergonha alheia ao lembrar da imbatível interpretação da Pimentinha.
No DVD, o show, numa praça ao ar livre, já começa de sopetão, com a cantora e a banda já no palco contando "1,2,3". Nem registra o clima pré-show, o anúncio da brasileira ao palco, essas coisas. Além da breve duração, não há nenhum extra nem informações básicas, como créditos dos compositores ou dos instrumentistas. No clássico álbum Getz/Gilberto, ao lado do ex-marido, Tom Jobim e Stan Getz, sua presença cool em algumas caiu bem e entrou para a história. Porém, segurando um show inteiro como frontwoman - ela que já declarou ter medo de palco - à frente de uma banda sem originalidade, guarda momentos constrangedores.
POR: [Leandro Souto Maior]
Bom
Pãozinho de Açúcar - Arranco canta Martinho
| Arranco de Varsóvia
O quinteto Arranco de Varsóvia sempre teve em sua proposta agregar ao samba os mais diversos elementos, com pitadas até de rock. A ideia é traduzida desde o nome do grupo, algo como um bloco oriundo da Polônia, expressando que o lance é mesmo não ter limites ou segmentação. Na estreia em DVD, Paõzinho de açúcar - Arranco canta Martinho, intrincados arranjos vocais dão vida nova às excelentes canções de Martinho da Vila. Que ficam, desculpem o risco da heresia, melhores até que as versões originais. A façanha já havia sido cumprida pela banda quando surgiram no cenário homenageando Cartola.
Gravado no Teatro Fecap, em São Paulo, o DVD tem qualidade sonora das melhores - o espaço é preparado especialmente para gravações desse tipo. O registro do show, porém, é o feijão com arroz de sempre: apenas o grupo desfilando no palco o que ensaiou em estúdio. De diferente, destaque para o momento em que o próprio MartInho aparece em vídeo cantando a capella e junto do grupo, que faz uma bela cama vocal, promovendo até um duelo de pergunta e resposta. Mas isso está nos extras, registre-se, parte que pode ser mais interessante até que a própria apresentação em si. Nesta, Martinho chega junto, ao vivo, e divide um punhado de canções com o Arranco. Nelson Sargento também dá sua palhinha.
Ainda nos extras, há diversos momentos dos ensaios, onde dá para se ter um belo raio x de como foram criados os nós de vozes, característica do quinteto. Também há um bocado da história do grupo, pioneiro no resgate e revigoramento do samba no Rio bem antes da Lapa entrar na moda e um sem número de novos artistas pegarem carona nessa onda.
POR: [Leandro Souto Maior]
Bom
Video clip collection
| AC/DC
Começando pelo pecado: Video clip collection, indispensável DVD-coletânea de clipes do AC/DC, não tem Blow up your video, um dos melhores promos da banda, de 1988. O problema: nem toda pompa cênica disfarça que essa música é também uma das mais fracas do grupo, e pertence a um dos discos mais chulés dos “velhinhos” (como diz Roberto Medina, que os resgatou para o Rock In Rio I, em 1985), de mesmo nome. O que mostra o quanto a linguagem de clipes sempre foi importante para os australianos, nem que fosse para disfarçar momentos não muito gloriosos de sua carreira. Enfim, um dino de carteirinha, mas preparado para os anos 80, época em que esse tipo de procedimento virou padrão. E os 90, e os 00, ou de 2010 em diante. Pode contar que, daqui a vinte anos, o AC/DC ainda estará trancado em estúdio produzindo clipes que você não vai cansar de assistir, ainda que a música nem se compare aos momentos mais clássicos do quinteto.
A discografia da banda, um tanto irregular para quem não é fã incondicional, se divide em momentos excelentes (tudo até Back in black, de 1980, e alguns mais recentes) e em discos que assustam de tão burocráticos – como toda sua produção na década de 80, em especial a imediatamente anterior ao RiR 1, quase catando cavaco. Mas, ora veja, Danger, Shake your foundations e Stand up, três músicas meio barro, meio tijolo de Fly on the wall (1985) ganham até outra cara com seus clipes interligados, que fazem parte de um filmete promocional feito pelo grupo na época. E em DVD merecem a tecla repeat.
Numa ordem não muito linear, o DVD começa com Dirty deeds done dirt cheap, gravado no começo da carreira em algum programa de TV australiano. Bon Scott, o primeiro vocalista, de mullet e colete de oncinha, lembra um vocalista de banda de glam rock. A seleção passa por Back in black, What do you do for money honey e You shook me all night long, todas já com o caminhoneiro Brian Johnson no vocal e estaciona no rock irresistível de Jailbreak, ainda com Scott e trazendo Angus Young irreconhecível de cabelo curto, em 1974. O AC/DC só voltaria a dizer a que veio no par de clipes de The razor’s edge (1991, com os hits Thunderstruck e Moneytalk), mas ainda deixaria uma pérola solitária em 1988, com o hino Who made who e seu clipe cheio de sósias de Angus Young. E Big gun, com participação de Arnold Schwarzenegger (promovendo o longa O último grande herói, de 1993, que tem essa música na trilha), é o clipe que qualquer roqueiro com senso de humor vai querer ver de novo.
POR: [Ricardo Schott]
Regular
Melhor assim
| Teresa Cristina
Passou um tempo desde que Teresa Cristina surgiu no cenário, emergida da Lapa carioca como a representante da nova geração do samba. No entanto, a aparência madura da cantora no filme Melhor assim - registro de show no Espaço Tom Jobim, no Jardim Botânico, no Rio de Janeiro, que sai em DVD - não se traduz na sua música. A voz continua a mesma: dotada de alguma propriedade única, porém de timbre não extraordinariamente particular. Nessa trajetória, não se confirmou mais brilhante que um punhado de cantoras que se destaca noite após noite no boêmio bairro do Rio. Não domina com propriedade o espaço do palco e, autenticamente tímida mas nitidamente nervosa, não se entrega e o show não decola.
Os músicos, se o clima fosse algo como “um informal churrasco da galera”, provavelmente estariam mais vibrantes. Concentrados ao máximo, lendo partituras, presos à pauta, negam qualquer espontaneidade. Não interagem, não emocionam (exceção para percussionistas, os únicos aparentando curtir). Perde espontaneidade, aquela típica do samba, das rodas.
Pilotando a composição, no entanto, Teresa Cristina não deixa a desejar a nenhum outro gigante no repertório escolhido, como Paulinho da Viola, Arlindo Cruz, Edu Lobo e Chico Buarque. No início do filme, a cantora agradece: “Boa noite, obrigado por vocês estarem aqui”. Há cantoras às quais o público é quem agradece o privilégio de estar ali dividindo o mesmo tempo e espaço mas, provavelmente, Teresa não tem tal pretensão. A Lapa, assim, parece que não ficou pequena para ela. Teresa Cristina ainda funcionaria bem ali, mas no badalado Espaço Tom Jobim, ainda falta.
O formato do DVD é o mesmo de sempre: show com convidados ilustres, no caso, Seu Jorge e Marisa Monte, entre outros. Alguém ainda aguenta? Se é fã da cantora, vale: é honesto registro.
POR: [Leandro Souto Maior]
Bom
Ray Charles
| Live at the Olympia
Gravado em 22 de novembro de 2000, quase quatro anos antes da morte de Ray Charles, Live at the Olympia não chega a refletir a tensão na qual foi feito. Um depoimento de seu empresário e produtor, o francês Jean-Pierre Grosz, dá a entender que a data era importante para ele, por fazerem 40 anos de seu primeiro show na Europa, justamente no Olympia. Passados os revezes, Ray e seu grupo conseguiram transformar a tensão em música, com releituras de hits e de clássicos que partiram do jazz e ajudaram a formar o rock´n roll. What I’d say, primeira canção a ser lembrada num caso desses (figurava nos repertórios de nomes como Beatles e Jerry Lee Lewis), encerra o DVD. E é precedida por temas como Route 66, de Bobby Troup - outra a freqüentar as listas de canções de bandas conhecidas dos anos 60 e 70, entre elas os Rolling Stones.
O lado pianístico de Ray surge renovado no DVD, com o cantor se acompanhando ao piano elétrico e criando diferentes sonoridades, timbres e efeitos. E ainda passa por outros hits, entre o sacolejo e o romantismo, como Hallelujah, I love her so (do próprio Ray), A song for you (de Leon Russel) e indefectível Georgia on my mind (Carmichael). Aos 70 anos, ainda que amparado por roadies na hora de chegar ao palco (compreensível levando em conta suas possibilidades físicas), Ray ainda se sentia confortável no papel de estrela. E tinha agilidade de popstar, além do conhecido desembaraço ao piano e ao microfone. A cegueira não o impedia de levantar da cadeira para pedir mais animação da platéia, assim como a idade (ou os excessos) nem de longe o haviam transformado numa sombra do que já havia sido. Showzaço.
POR: [Ricardo Schott]
Bom
Live in London
| George Michael
Quando o cenário de um show, seja em DVD, seja ao vivo, chama mais a atenção do que o próprio artista, o fã roxo de música (e não de espetáculo) costuma torcer o nariz. Em seu primeiro DVD ao vivo, Live in London, gravado no estádio londrino de Earls Court, George Michael tem a chance de, enfim, vá lá, pôr de volta no lugar algumas ventas por aí afora. Mesmo com um telão colorido impressionante (cuja montagem, durante o documentário I’d know him a mile off, que vem nos extras, chama a atenção) e badulaques cênicos de tirar o fôlego (como o George Bush inflável da gozadora Shoot the dog),ficam a força das canções e a musicalidade do veterano cantor pop. E seu carisma: mesmo com uma banda excelente e com a presença de backing singers no canto, o grego passa a maior parte do tempo só na frente do palco, com todos os músicos espalhados em mezaninos. O que poderia ser apenas um DVD para divertir, vale por uma aula de palco.
O repertório é uma boa antologia, e uma boa demonstração de que, longe das paradas ou imerso nelas, George Michael sempre teve fôlego para hits de longo alcance. Houvesse público ou não, ou ainda que as atenções dos tablóides estivessem mais voltadas para sua conturbada vida pessoal. Tem as pérolas infalíveis de Faith (a faixa-título, Father figure, One more try), a beleza sacana, com os pés na disco music e até nos Rolling Stones, de Freedom ’90, e a série de hits-ou-quase que o cantor acumulou depois disso. Sem esquecer da infalível I’m your man, do Wham e de seu primeiro acerto solo, Careless whisper. No meio, o clima “somos tão jovens” de John and Elvis are dead, single de 2005 que aparece em clipe, numa das saídas estratégicas de George do palco.
POR: [Ricardo Schott]
Excelente
Live at Shea Stadium
| Beatles
“Essa música é do nosso disco... acho que o Beatles VI”, “Essa música é do nosso disco anterior, acho. Não sei, não comprei o disco”, “Essa música é do nosso disco anterior, o que saiu antes desse que está na loja agora”. Esqueça os textos que aparecem na caixa do DVD The Beatles Live At Shea Stadium, gravado em 1965 na raspa do tacho da beatlemania, durante a grandiosa apresentação da banda em Nova York – e que falam sobre o grande momento pelo qual o grupo passava. Os comentários acima, feitos por um ensandecido John Lennon no palquinho montado no lendário estádio de beisebol, mostram bem o lado para o qual já giravam as cabeças dos quatro de Liverpool, em meio a shows variados, inúmeros singles, dois discos por ano, filmes. E ainda por cima, em meio a um naco de discografia completamente desconhecido para eles, já que a EMI americana retalhava os discos do grupo e transformava em outros, com faixas de compactos (Beatles IV, Beatles VI, são títulos que não existem nem em CD hoje em dia).
Live at Shea Stadium, só para você ver, abre com um passeio de helicóptero por Nova York (de que outro jeito a banda mais famosa do planeta, em seu auge, poderia conhecer a cidade?) e prossegue com uma imagem icônica: uma caricatura do boa-praça Ringo Starr, com uma coroa de louros, como se fosse um césar. Ao lado, o próprio Ringo, fumando, com uma cara de tédio de dar pena. Se a mesmice tomava conta dos dias dos Beatles, os quatro, no palco, apertados em seus terninhos, tentavam não deixar transparecer – apesar da sensação de tocar para 55 mil pessoas e não atingir ninguém, ampliada pelo ridículo que era ver o grupo num palco minúsculo, se comparado à grandiosidade do estádio. E pelas tensões do público, sempre à beira de um ataque de nervos, e dos olhares perdidos do empresário Brian Epstein, flagrado em certo momento do DVD.
Entremeados com explosões até do bom garoto Paul McCartney, que diversas vezes para tudo para perguntar “vocês estão ouvindo a gente?”, e com a catarse do gênio (e genioso) Lennon – que chega até mesmo a berrar um palavreado incompreensível para a plateia, na base do “esse povo aplaude até fratura exposta” – hits como Twist and shout, Dizzy Miss Lizzy, Can’t buy me Love, I’m down, Help, A hard day’s night, Act naturally. Mas no geral é para rir. E para entender uma parte importante da história dos Beatles, justamente a mais tensa. Que chegou ao seu ápice quando a gravadora pediu mais uma salada de canções do grupo (na coletânea Yesterday & today, de 1966, unindo músicas de álbuns como Help e Revolver a faixas de singles) e os quatro responderam com a célebre foto em que apareciam fantasiados de açougueiros, em meio a pedaços de carnes e bonecas decepadas.
POR: [Ricardo Schott]
Bom
Salvatore Adamo en concert - Un soir au Zanzibar
| Salvatore Adamo
“São muitas emoções... Opa, só um minuto”, diz o cantor ítalo-belga Salvatore Adamo em En concert – Um soir au Zanzibar, antes de pegar flores que lhe são oferecidas por uma moça na platéia. Não, não é um DVD de Roberto Carlos. É do Adamo mesmo, antes de engatar um papo sobre o romantismo de outrora e o peso musical de hoje. “O mundo ficou mais cínico e mais agressivo desde então. Até as guitarras cocottes ficaram mais agressivas.Uma guitarra cocotte hoje soa assim”. O guitarrista de Adamo toca e surge um inesperado mix de música francesa e reggae (por causa dos metais preguiçosos) chamado Ô monde, daqueles que é impossível não ouvir e não ficar viciado de cara.
É outro pop, outra onda, que começa com o lado orquestral de C’est ma vie, num show dado no Zanzibar, em Bruxelas, em 2004, reunindo seus principais hits. Entre diálogos com o cantor que deixam o DVD parecido com um filme de arte, brilha uma música pop romântica demais para ser colocada lado a lado com o pop atual – mas que, mexe daqui, mexe dali, tem algo que pode ser entendido pelos fãs de uma ou outra banda indie, ou mesmo pelos que ouviram discos como Bloco do eu sozinho (2001), de Los Hermanos, com atenção. Não tem como não se apaixonar pelo lado pop de temas românticos e nostálgicos como Tombe le neige, Inch’allah (um de seus maiores sucessos), Mourir dans tes bras e Ne t’en va pas, apaludidiíssimos, ou pelo inesperado blues La nuit. Ou por Adamo, ao violão, ganhando a platéia com a polca (country?) Ma tete, ou com a beleza franco-italiana de Un air em fa mineur. E curta o lado mais cartão-postal, típico e apaixonante, de músicas como Vous permettez Monsieur e Les filles du bord de mer, com interação total com a plateia.
POR: [Ricardo Schott]
Excelente
Pandemonium
| Pet Shop Boys
Em 21 de dezembro de 2009, a glamourosa dupla Pet Shop Boys deixou o O2 Arena um lugar mais cor de rosa. E vermelho, verde, amarelo, roxo e todas as outras cores do espectro. Com uma produção invejável, visual impecável e o synth pop de qualidade de sempre, o Pet Shop Boys chega aos anos 2000 cheio de luxo.
O som do Pet Shop Boys é similar a outras bandas de sua era, como o Devo, mas muito menos esquisito. São batidas eletrônicas contornadas por sintetizadores e o vocal certeiro, modulado e característico de Neil Francis Tennant. Ouvindo os veteranos da dupla, é possível ver daonde Lady Gaga tira sua inspiração, tanto sonora, quanto nos visuais extravagantes e fashionistas.
O visual do show é simplesmente sensacional. O projeto mistura de altíssima tecnologia, com telões, palcos modulares e uma estética quadradona e pixelada, puxando da memória os anos 80. Todo o projeto conceitual que contorna a performance é reproduzido nos menus e na arte do disco, os quadrados estão por toda a parte. O palco construído pelo Pet Shop Boys no show da O2 Arena está entre um dos melhores da história do pop. No repertório, os clássicos da carreira da banda, incluindo a épica Go west (originalmente do Village People), com backvocals e orquestrações explodindo e a triunfante It’s a sin.
No departamento de extras, além do CD com as faixas tiradas do show (as execuções são perfeitas, sem as microfonias e peripécias dos astros de rock), uma gorducha seção de extras, incluindo o excêntrico (e, analisando em comparação ao show na O2 Arena, contido) medley, com participação de Lady Gaga e Brandon Flowers no Brit Awards 2009.
O principal defeito do produto é a embalagem. Por alguma razão, o pacote CD e DVD vem em uma caixa de CD, dando a entender que este é o principal produto comercializado. Um erro, haja vista o moribundo mercado fonográfico. Se fosse alardeado como um DVD com CD extra, adornaria ainda mais prateleiras. Do jeito que está, é a cristalização gloriosa de uma das bandas de pop mais interessantes dos anos 80 em excelente forma e com um visual embasbacante.
POR: [Gerhard Brêda]
Regular
O solista
| Joe Wright
Steve Lopez é um daqueles jornalistas que escrevem colunas humanas para grandes jornais, daqueles que saem às ruas entrevistando estranhos para descobrir uma grande história. O grande jornal no caso, o Los Angeles Times, veículo impresso de maior circulação da cidade dos anjos, o "lar das estrelas".
Numa certa manhã, Lopez descobre um morador de rua, que incógnito numa praça, toca seu violino como se ignorasse todo o barulho da cidade. Nathaniel Ayers é verborrágico e parece por vezes dizer muita coisa sem sentido. Entretanto, revela ao seu desconfiado interlocutor já ter sido aluno da conceituada escola de artes Julliard. Lopez acaba descobrindo que a história de Ayers é verdadeira e que este havia abandonado a escola no segundo ano do curso. A partir daí Lopez e Ayers desenvolvem uma amizade que beira o paternalismo, na tentativa de Lopez de proteger Ayers e fazê-lo desenvolver seu dom apesar de ser declarado clinicamente esquizofrênico. A relação entre os dois transformou-se na coluna, escrita para o Los Angeles Times de 2005 a 2008, transformada em livro pelo próprio Lopez e agora tem sua tradução para o cinema pela roteirista Susannah Grant e do diretor Joe Wright (Orgulho e preconceito, Desejo e reparação).
O grande problema dessa troca de linguagem foi que a versão cinematográfica preferiu seguir o caminho largo do mais do mesmo, "gênio-incompreendido-com-problemas-psicológicos-descoberto-e-auxiliado-tem-finalmente-sua-redenção". Mas não é por isso que O solista deixa de ser um filme bonito, com cenas sensíveis e de um humanismo tocante. Por exemplo, a cena em que Lopez leva Ayers a um ensaio onde é executado Beethoven, a grande paixão deste, e ele ao fechar os olhos vê as notas transformadas em cores num efeito quase que lisérgico, pode com toda certeza figurar como uma das mais belas do ano até agora.
O filme, antes de tudo, transforma-se numa terna homenagem tanto à música quanto ao ermo jornalismo ético numa época onde a primeira por vezes vira mera mercadoria e o segundo deixa de lado seu poder transformador em prol da ortografia vazia. E nesse ponto a experiência áudio-visual é extremamente feliz, fazendo o título de "solista" se confundir entre o músico e a solidão do jornalista.
O que poderia ser mais bem tratado em celuloide é a questão social, que abre espaços que não são comumente tratados pelo cinema hegemônico, como a questão dos moradores de rua e de chefes de instituição que, funcionando como líderes comunitários, em plena Los Angeles, veem seu trabalho árduo levado ao chão pelos demais poderes, como fica claro na cena em que a polícia violentamente invade o bairro fazendo tudo voltar à prancheta. O assunto é lentamente deixado de lado no filme até ser completamente esquecido, vilipendiando o que seria um ótimo diferencial deste para outros filmes do gênero.
Ainda assim, O solista com certeza irá agradar a uma grande parte de sua plateia, mas mais por conta de sua sensibilidade do que por méritos de bom cinema. O filme traz belas interpretações do trio principal, Lopez, Ayers e a ex-esposa de Lopez, Mary (Robert Downey Jr., Jamie Foxx e Catherine Keener, respectivamente) são personagens cativantes, a trilha sonora é de primeira, a fotografia e a direção são seguras, porém, para aqueles que têm o cinema como uma atividade freqüente, invariavelmente ficará a sensação de já ter visto este filme.
POR: [Wander Colombo]
Excelente
Live In Detroit
| Iggy Pop & The Stooges
Gravado em 2003 – e já lançado em outra ocasião no Brasil, por outro selo – Live in Detroit é mais uma celebração do que um show. Mostra os Stooges, de volta após participarem de algumas canções do disco Skull ring, de seu líder Iggy Pop, em show na sua cidade natal. A banda não está mais tão pirada quanto antigamente – só mesmo Iggy Pop segura a onda do papel de velho herói punk, cantando sem camisa, descabelado e se jogando. E convidando os fãs para subir no palco em Real cool time - uma experiência que nem sempre dá certo, mas que no caso do DVD, surtiu bons resultados.
O espírito de Iggy permanece o mesmo: insere um “fucking” a cada frase (às vezes dois numa frase), refere-se a seus fãs como “motherfuckers” e berra enlouquecidamente como se o tempo não tivesse passado, em canções como Loose, Down on the street, 1969, No fun, 1970 e em Little doll (na qual convida, politicamente incorreto, seus fãs a irem para a “fucking Africa”, enquanto o resto da banda faz algo que parece uma velha canção de Bo Diddley).
Produzido pela revista americana Creem, Live in Detroit tem atrativos básicos ao ser lançado nestes tempos no Brasil. O primeiro é ajudar os fãs a matar as saudades do guitarrista Ron Asheton, morto em 2009 e aqui tocando como em 1969, 1970 – no baixo, está Mike Watt, dos Minutemen. O segundo é ouvir todas as músicas quase como elas estavam nos discos originais. Em músicas como I wanna be your dog e TV eye, parece até que os músicos seguem partituras, tamanha a fidelidade. E ver que, ao contrário do que muitos afirmavam, o saxofonista Steve Mackay ainda está vivo – o músico, que participou de um trio básico de músicas em Funhouse (1970) já havia sido dado como morto e ainda faz a maior fanfarra na reprise de I wanna be your dog, no final do DVD. Nos extras, um show dispensável da banda numa livraria, gravado como se fosse um bootleg, com uma câmera só. Imagine os punks cavalares encolhidos num palco qualquer de megalivraria e sinta o drama.
POR: [Ricardo Schott]
Bom
100% Johnny - Live à la Tour Eiffel
| Johnny Halliday
Você não conhece Johnny Halliday. Nem a pau. E, se resolveu dar uma googlada, já deve ter levado um susto com a aparência brega, cheia de botox, do sujeito - que já anda pelos seus quase 70 anos e, francês de nascença, canta numa língua alienígena demais, rebuscada demais para os critérios do rock´n roll. Na França, o cara é uma espécie de Elvis Presley-Roberto Carlos local, com direito a fazer um show como esse, aos pés da Torre Eiffel, e atrair meio mundo. Só que um tanto mais selvagem: nos anos 60 foi responsável por abrir shows de Jimi Hendrix Experience na França e chegou a bater altos papos com o guitarrista; em 1969 reuniu integrantes do grupo mod Small Faces no estúdio, para compor e gravar o disco Johnny Halliday, um de seus títulos mais conhecidos fora de seu país de origem.
Mesmo que 200 roqueiros debatessem durante um fim de semana inteiro, não daria para chegar a um consenso sobre se Halliday é legal ou não. O fato é que, para curtir as 24 canções de 100% Johnny – Live à La tour Eiffel, gravado em 2000, é preciso perder o preconceito e se preparar para conhecer um roqueiro “das antigas” bem diferente do que quase todo mundo por aqui se acostumou a ver. Com registro vocal de tenor, medo zero de se roçar no brega (as vestimentas de palco da rapaziada, baladas como Vivre pour Le meilleur , com a então Sandy francesa, Sonia Lacen, e as dancinhas meio latinas das backing vocals entregam isso) e uma visão do rock que o coloca entre os Rolling Stones e a ingenuidade da jovem guarda, manda bala em boas canções cujos riffs bebem direto da fonte do r&b dos anos 60, como Allumer Le feu e Je suis ne dans la rue. Além de verter para sua língua canções dos Beatles (Got to get you into my life virou Je veux te graver dans ma vie), Animals (The house of the rising sun faz biquinho e vira Le penitencier) e clássicos gravados por meio mundo como If I were a carpenter (Si j’etais um carpenter). Também convida outro nome roqueiro famoso da França para subir ao palco – o Les Rita Mitsouko em Ma guelle, com uma performance da cantora Catherine Ringer que mais parece as pataquadas “bregas” de Marisa Orth. E sua banda ataca um (ótimo) medley instrumental de temas de filmes de James Bond com um aparato cênico que... só vendo para crer. O que é rock para eles pode virar outra coisa para nós, pobres colonizados. Mas vale abrir olhos e ouvidos.
POR: [Ricardo Schott]
Excelente
A princesa e o sapo
| John Musker e Ron Clements
Após alguns anos apostando apenas no formato 3D, a Walt Disney retorna às origens da animação tradicional com o belíssimo A princesa e o sapo. Dos consagrados diretores John Musker e Ron Clements, de A pequena sereia e Aladdin, o novo desenho do estúdio é um conto de fadas em seu modo mais clássico, que nos leva de volta à charmosa Nova Orleans da década de 20, onde vive Tiana, a primeira princesa negra da Disney.
Contrariando todos os seus conceitos mais antigos, Tiana não é o protótipo da realeza Disney, muito pelo contrário. Ela é uma garçonete que não tem medo do trabalho e espera ter o seu próprio restaurante no futuro. Até o momento em que ela encontra o príncipe Naveen, transformado em sapo por um feiticeiro. A partir daí, todos os valores e a moral que tanto conhecemos nos desenhos são apresentados aos espectadores na forma de muito jazz, com a trilha sonora impecável da produção, outra marca registrada do estúdio, assinada por Randy Newman.
De forma consistente, o DVD traz, além dos belíssimos traços tradicionais da animação, um conteúdo que agrada não só as crianças, mas também aos marmanjos que cresceram sob o encantamento dos desenhos Disney e esperam nada menos do que a qualidade que o estúdio representa. Nos extras, é possível viajar pelo mundo criado por Musker e Clements, com depoimentos dos profissionais envolvidos no projeto, além de acompanhar as canções com os personagens do desenho. Para um DVD infantil, A princesa e o sapo preenche todos os pré-requisitos para deixar qualquer criança — e, por que não, adultos — hipnotizados por algumas horas. Com certeza, o filme é o exemplo de que a Disney não só não perdeu a mão em suas animações tradicionais, como melhora com o passar dos anos.
POR: [Juliana d'Arêde]
Fraco
Kings Of Leon live at the O2, London, England
| Kings of Leon
Kings Of Leon live at the O2, London, England é a estreia do quarteto americano em DVD. A ocasião, porém, parece não ter tido carinho especial. O vídeo não traz qualquer atrativo além do show. Nenhum bônus, fotos, discografia, entrevista, making of, nada. É o manjado formato somente com a apresentação, apesar de tantas possibilidades de chamegos aos fãs que ainda gastam um punhado de suas economias em um CD ou DVD.
Áudio e imagens estão espetaculares, registre-se. De altíssima qualidade, na equalização e captação das cenas. Infelizmente, a edição muito rápida, que muda de quadro a cada cinco segundos, não permite desfrutar direito de nenhum momento. Mesmo com os belos instrumentos Gibsons vintage que são marca do som e visual da banda, o show é arrastado, não decola. E isso já não é mais um ponto negativo do DVD apenas, mas se estende ao grupo. Os músicos tocam olhando para baixo, paradões, mal encaram a plateia.
Para quem não é fã ferrenho do grupo, será difícil gastar tempo com 22 músicas em 100 minutos de apresentação tendo em casa, por exemplo, um The song remains the same, do Led Zeppelin. Saudosismo? Nem tanto. Mas ali no clássico show do grupo de Jimmy Page há uma aula do que é uma performance de rock and roll capturada em vídeo. Sinceramente, vamos reconhecer, o KOL é até legal, mas trata-se de um típica banda que, se não existisse, não precisava ser inventada.
POR: [Leandro Souto Maior]
Excelente
No distance left to run
| Blur
Nos anos 90, a Inglaterra viveu um momento importante em sua história musical com a guerra do britpop, que teve alguns participantes. Mas que, no fim das contas, se resumiu ao rock despretensioso dos garotos de Manchester do Oasis contra os “riquinhos” de Essex e Londres do Blur. No decorrer da década, enquanto o Oasis ascendia em fama e decaía em qualidade, o Blur tateava em todas as direções, ora produzindo grandes discos (Parklife, de 1994 e The great escape, 1995), ora errando na dosagem de experimentalismo (Blur, de 1997). A banda se desintegrou no início dos anos 2000 e agora voltou para uma série de shows na Inglaterra.
No distance left to run se divide em dois discos. O primeiro conta com o documentário de pouco mais de 90 minutos que, resumidamente, passa pela trajetória da banda. Não é um doc ágil ou conflituoso (como foi o circo psicológico Some kind of monster, do Metallica, por exemplo), mas é recheado de declarações extremamente honestas de todos os membros da banda, especialmente do introspectivo vocalista, Damon Albarn. Desenterrando alguns vídeos da época, um dos pontos altos do documentário mostra a guerra de singles que o Blur travou com o Oasis em 1995. E perdeu.
O disco dois tem o show que o Blur fez no Hyde Park em 2009, um dos primeiros da nova turnê. O repertório passa por todos os discos do Blur, embora ignore até demais o excepcional Think tank, que foi gravado sem Graham Coxon. Apenas Out of time dá as caras. O som está muito bem mixado e Damon está com performance vocal notavelmente superior à que tinha 15 anos atrás. A melhor faixa, sem dúvida, é Parklife, possivelmente a melhor versão ao vivo desta música já feita pela banda, com direito à participação de Phil Daniels, que cantou os versos na versão de estúdio e raramente se aventura com o Blur nos palcos. O refrão, entoado a plenos pulmões pela plateia, mostra que Parklife ainda é hino.
O título do DVD tem um tom melancólico. O Blur avisa que é o fim, que não há mais chão para percorrer, mas é difícil concordar. Ao se ouvir o mar de mesmice que se tornou o rock inglês e ver Albarn (geralmente contido e distante) chorando de emoção com a recepção do público em Glastonbury, os 4 “riquinhos” de meia idade do Blur são tudo o que a Inglaterra precisa para desinfetar a cena.
POR: [Gerhard Brêda]
Fraco
MTV Apresenta: Scracho
| EMI
Lá pelas tantas, no meio do show, o vocalista e guitarrista Diego Miranda dispara que esse é o melhor show da vida dele, com uma sinceridade convincente. Se MTV apresenta: Scracho não é exatamente bom, interessante e recheado de conteúdo extra, pelo menos, é sincero.
A banda, formada por Diego, Caio Miranda (baixo), Gabriel Leal (guitarra) e Débora Teicher (bateria) apresenta um set esquizofrênico. Do começo da carreira, o pop punk praiano carioca, carregando nos palm-mutes e nas letras de amor adolescente. Uma boa parcela do show desce quadrado, como um grande bloco intransponível de melodias iguais e distorções enjoativas. Quando os rapazes (e garota) cansam da fórmula punk diluída, começam a alçar vôos desconexos em outras áreas. Algumas linhas de reggae daqui, uma gaita do blues ali, um scratch do hip hop acolá, é a salada cultural da era da internet, em seus momentos menos brilhantes.
O destaque maior do Scracho é a baterista, Débora. Jeitosa e talentosa, a menina até se arrisca no vocal em um cover de A menina dança, dos Novos Baianos. Que não foi um fracasso, ao contrário do que você talvez esteja pensando.
O outro cover do show é Chopis centis, do Mamonas Assassinas. Os músicos trocam seus intrumentos. Débora, em bom carioquês, apresenta o desconfortável Diego na bateria, e arrisca powerchords na guitarra. Caio solta o gogó na peculiar apresentação. Divertida, mas muito peculiar.
A mixagem do som está boa, no geral. Os ângulos de câmera são conservadores, até o cenário é sem graça. Na verdade, até a caixa do DVD é insossa, em um tom de roxo quase mórbido. No departamento de extras, um mini documentário com a banda falando da origem da banda e algumas músicas no estúdio. Nada acima da média, mas nada mal.
No geral, o som do Scracho é bastante fraco. Em todos os estilos que eles tocam, eles acertam o mínimo denominador comum, a fórmula, o caldo mais insosso. Com escolhas de cover como A menina dança e Chopis centis, os sobreviventes da onda pop punk do Rio de Janeiro (que tinha bandas como Dibob, Forfun e Emo., hoje, obscuras), parecem forçar a imagem de antenados com a história da MPB, mas, ao mesmo tempo descolados. A pergunta é: alguém ainda acha Mamonas Assassinas uma banda descolada? Não, não acha.
POR: [Gerhard Brêda]
Bom
Dinastia parangoleira - 10 anos
| Parangolé
Já passou carnaval na Região dos Lagos (RJ) alguma vez? Lembra de ter achado bregas aquelas brincadeiras de lambaeróbica que uns DJs, uma banda e meia dúzia de dançarinos faziam na praia, nos anos 90? Bom, esconda-se em algum lugar seguro, porque, depois que os Black Eyed Peas fizeram uma plateia de 20 mil pessoas pular feliz ao som de I got a feeling, aquelas micagens passaram a ser vistas como audience participation, lotam festivais e fazem hits, como a dançante Sou favela e a hilariante Rebolation, ambas da banda baiana Parangolé. Que, a bem da verdade, já tem 10 anos e faz brincadeiras com a plateia há tempos, mas só agora encontrou o caminho aberto para estourar no Sudeste.
O grupo pode ser a desculpa que faltava para alguém passar a gostar de axé. Cantam letras vergonhosas sem o menor complexo de culpa, inauguram o palavrão explícito na história da música baiana (em Pagodão) e unem percussões e vocais indianos numa proporção que faria o Asian Dub Foundation morrer de inveja, em músicas como Larga o doce, pivete, Sou parangoleiro, É parangolé, Anjo parangoleiro (sim, os caras são mais autoreferentes do que a Lia do Big Brother Brasil 10) e Balacubaco. Tchanco tchanco (Samba de roda) engana com uma abertura meio rock, meio A Cor do Som, enquanto Fera ferida (Quem sou eu?) introduz rap e raggamuffin no som do grupo. Baculejo mostra as dançarinas do grupo (bem menos gatas do que as duas Sheilas do É O Tchan, mas bem mais ativas no palco, vale citar) dando uma geral no vocalista Leo Santana. Em Desço a madeira, o público forma um verdadeiro mar de camisetas levantadas para o alto, sob o comando do vocalista. Em Rebolation, que só aparece como clipe, nos extras, juntam axé e música eletrônica.
Assistindo ao DVD, só assusta mesmo é a quantidade de grupinhos de machos pulando (quase como num show de rock) na plateia, jogando um pouco de areia naquela ideia de que show de axé serve para pegar mulher. No geral, é som baiano de quem não passou imune a Sepultura, Nação Zumbi, O Rappa e Charlie Brown Jr – e, vá lá, pelo menos duas dessas referências podem causar mais pânico ainda, mas tudo bem.
POR: [Ricardo Schott]
Regular
Sete chaves
| NX Zero
“Tem gente que fala que a gente não é rock, que a gente não fala nada de contestador. A gente toca em rádio popular, então a gente é o rock do popular”, reconhece Gee Rocha, guitarrista e principal compositor do NXZero. Sete chaves, o documentário – feito pelo canal Multishow, para o programa Registro - que vem neste DVD, mostra o que há por trás da banda paulista. Têm os bastidores de suas turnês, suas farras nos hotéis, a composição das músicas (nas quais mostram um inevitável lado de dupla sertaneja, com Gee e o vocalista Di Ferrero cantando a duas vozes e um violão), a gravação do mais recente CD, de mesmo nome.
Criticar é fácil. E tentar ouvir o som que a sobrinha ou a filha de 14, 15 anos gostam, às vezes, causa vergonha alheia. Mas vá lá: dá para reconhecer mais talento e disposição nos rapazes do que em nomes musicalmente cansados como Pitty e Cachorro Grande. Afastando o tédio das letras cheias de clichês (num tom romântico que se convencionou classificar como “emo”), difícil não reconhecer ótimas canções em músicas como Cedo ou tarde e Insubstituível. Ainda que, acompanhados de perto pelo produtor Rick Bonadio no estúdio, mostrem vir de uma forte linha de montagem pop que gerou o fraco último dos Titãs, Sacos plásticos (com os vocais bregas de Antes de você e arranjos de cordas gravados na meca country, Nashville, onde os NX também trabalharam) e coisas tétricas como O Surto.
Para quem sonha montar uma banda, o DVD mostra como é o dia a dia de um grupo num período em que discos vendem pouco, gasta-se cada vez mais grana para bombar um artista e, por terem virado a maior fonte de renda, shows são dados em escalas inimagináveis, na proporção de três estados diferentes às vezes em uma semana. Mas traz todo o esquema A hard day s night ao qual uma banda de rock justa tem direito: fãs atiradas, cidades conhecidas apenas pelas janelas dos hotéis, tédio aplacado com brincadeiras imbecis pelos corredores, noites sem dormir etc. E a sensação de que o mais pesado ficou de fora. “Quer tocar pelo Brasil inteiro? Foda-se, problema seu. Depois fica de mau humor, reclama que avião é desconfortável...”, detona o guitarrista Fi Ricardo, enquanto passeia desnorteado por um aeroporto. Rock, hoje, é isso.
POR: [Ricardo Schott]
Regular
Monobloco 10
| Monobloco
Está tudo muito bom, está tudo muito bem, mas realmente eu preferia que o Monobloco estivesse mais nu. Menos vestido da produção que a transferência de cima do trio (ou dos malandros palcos cariocas) para o limitado formato do DVD geralmente exige. Nem a imunda Fundição Progresso, na Lapa, parece a Fundição no DVD, tamanha a maquiagem. Menos ainda pela (boa) qualidade do som (problemas de áudio naquele "caixote de concreto" são conhecidos). Está muito "stereo" para o Monobloco em plena Fundição.
Quem nunca conferiu a big band ao vivo que não ache aquilo ali seu real poder de fogo. Que vá conferir na reduzida versão Monobloco Show (a registrada neste Monobloco 10), que abarrota de foliões pelo Rio e Brasil em qualquer época do ano, ou na versão completa, arrastando milhares de pessoas pelas avenidas no Carnaval. De verdade, o negócio é mais roots, no melhor sentido. E mais pressão também.
É correto que a descontraída iniciativa de Pedro Luis, Parede e afilhados merece registro de imagens ao chegar aos 10 anos de batucada em crescente ascensão. Pela efeméride, é justo, mas nem precisava. Sentar em casa para assistir ao show do Monobloco em vídeo não é um paliativo tão interessante como pode ser curtir os desfiles das escolas de samba pela TV, uma vez impossibilitado de estar in loco. É monotemático: o palco da Fundição, bicolor, com o azul do cenário bacana e a cor de laranja do figurino dos músicos, é praticamente estático. As cenas, os takes, as tomadas se repetem. E cansa.
Na pista, é outra coisa. Por incrível que pareça, ficar pulando e gritando por 1h30 chapa menos do que ver o DVD sentado numa poltrona. Com repertório infalível, misturando sambas e sucessos pop manjados com clássicos de Tim Maia a Gilberto Gil, é praticamente impossível não sair do chão e/ou cantar aqueles refrões irresistíveis que se conhece de pequeno e de onde saltam arranjos e convenções impecavelmente executados, como as paradinhas das escolas de samba.
Cuidada, a percussão está redondinha. Monobloco 10 celebra os 10 anos do grupo, e desse período registre-se a baixa da voz de Serjão Loroza, hoje mais conhecido como presidente do júri da Dança dos Famosos do Programa do Faustão e garoto-propaganda de cervejaria. Pedro Luis se dá bem cantando daquele jeito dele as suas próprias
músicas, com aquela interpretação que lhe é super peculiar. Na função meramente de crooner, perde um bocado por não ter uma voz poderosa. Como aliás não tem nenhuma das outras vozes do grupo. Falta um gogó de responsa ao Monobloco. Chama o síndico!
POR: [Leandro Souto Maior]