Fraco
Par perfeito
| Robert Luketic
Se antes o glamour dos filmes de espião, cuja mitologia deve muito ao esquema galante e aventureiro imposto por Sean Connery e seu James Bond, a onda agora é humanizar esses heróis cujo único super-poder costuma ser excesso de charme.
Aliado a isso, os criadores de comédias românticas parecem ter encontrado uma nova fórmula para desestabilizar casais e assim colocá-los em conflito: basta fazer um agente secreto se apaixonar por uma garota de fora do ramo e metade das confusões do roteiro estarão garantidas.
Se Sr.e Sra Smith abriu as portas das comédias românticas with lasers & explosões e ainda rendeu de bônus a criação do casal mais pop dos últimos tempos, o verão norte-americano 2010 promoveu o Encontro explosivo entre Tom Cruise e Cameron Diaz, o que equivale a dizer que Ashton Kutcher e Katherine Heigl ainda precisam comer muito blockbuster para bater essa concorrência.
A história começa dentro de um avião. Nele, Jen vai de férias para a França acompanhada dos pais (interpretados pelos sempre incríveis Tom Selleck e Catherine O’Hara) depois de levar um pé na bunda. Logo na chegada ao hotel é recebida com uma dádiva e dá de cara com o misterioso Spencer Aimes (Ashton Kutcher) em traje de banho. E aqui cabe uma reclamadinha ao diretor que pecou pela falta de malícia ao desperdiçar a oportunidade de transformar esta numa das já clássicas cenas de filmes de espião, em que a entrada de um personagem na trama vem embalada em biquínis e slow motion, artifício tão manjado quanto bacana.
Aliás, desperdiçar boas oportunidades de fazer rir é uma das coisas mais intrigantes em Par perfeito. Todos os envolvidos parecem conscientes em estar fazendo mais do mesmo e ainda assim ninguém se diverte, muito menos o espectador.
Interessante se perguntar como Robert Luketic conseguiu tirar Katherine Heigl do que parecia uma trajetória interessante, depois de sua ótima atuação em Ligeiramente grávidos. Desde A verdade nua e crua a atriz vem desperdiçando tempo e beleza nas mãos de um diretor que não sabe como aproveitá-la em cena. E isto não é apenas "privilégio" dela: se Ashton Kutcher não chega a ser um grande ator, pelo menos não costuma decepcionar quando aparece em seu nicho natural, a comédia. Mas desta vez Kutcher assume um ar sério e desconcertante que engessa nele o que há de melhor: a facilidade em fazer humor bobo.
Sem sal e com menos explosões do que o recomendado, Par perfeito não emplaca nem como comédia, nem como romance e tampouco como aventura, deixando o fiel espectador de comédias românticas na mão. De repente deu até saudades da Meg Ryan.
POR: [Georgiane Euzebio]
Excelente
5x favela, agora por nós mesmos
| Coletivo
Filmes em episódios carregam a sina de estarem eternamente em desnível. Pendendo para um lado ou para outro, é fácil - e infeliz - apontar dedos, defeitos e delícias, super-expostos pela comparação imediata da sequência de exibição. 5x favela, agora por nós mesmos, filme montado a sete cabeças e cinco episódios, absolutamente não leva esse peso. Com alegria notável, os cinco filmetos passeiam pelas vielas cariocas com tal delicadeza que só poderia mesmo provir de um olhar interior.
A década que abriu com Cidade de Deus - o bisbilhote de Fernando Meirelles sobre uma das principais favelas do Rio - é arrematada agora por 5x favela, agora por nós mesmos, dirigido por jovens crias das tais comunidades. O funk, o tráfico, as pipas, a impunidade, o arroz com feijão - tudo está lá em seu devido lugar, entre becos, barracos e moleques de pé no chão, mas sem os clichês negativos que costumeiramente os acompanham. Esses aqui sabem, realmente, sobre o que estão falando, quem estão representando - eles mesmos. Onde pesa essa responsabilidade, sobra a leveza de culpas e precauções a menos, sobra o bom humor que marca a pobreza brasileira.
O humor, marcante em quatro dos cinco episódios, é uma opção consciente. Não é o estereestótipo do pobre feliz que rege as tramas, mas a certeza de que, como disse o ator Gregório Duvivier, "a pobreza brasileira é trágica ou cômica, nunca melancólica". O roteiro, criado a partir de oficinas audiovisuais nas favelas, já nasceu com o tom cômico, nunca escrachado, assinalado visualmente - está nos olhares, nos planos, nas incongruências, na desconstrução.
Cabem aqui algumas linhas sobre cada episódio, embora 5x favela se sustente muito bem como uma unidade (as histórias não se repetem, são complementares), universal (questões como amizade, solidariedade, superação, ambientadas na favela).
Em Fonte de renda, de Manaíra Carneiro e Wagner Novais, Maicon (Silvio Guindane) se vira como pode para se formar em Direito numa universidade pública - inclusos aí alguns meios pouco legais. O fim é feliz, os diretores o apresentam logo no início. A história é comum, e sobretudo as questões sobre diferenças sociais fluem com naturalidade, sustentadas na ótima atuação de Gregório Duvivier e Guindane. A força de Fonte de renda recai sobre os ombros de Hugo Carvana, no papel de padrinho e referência - embora já gasta - do rapaz.
Arroz com feijão, de Rodrigo Felha e Cacau Amaral, é o mais bem humorado dos episódios. O humor é fruto de um roteiro firme, desenvolvido na Cufa, que passeia por gêneros e traz um arremate surpreendente. Ancorado no drama de sua família pobre, o pequeno Wesley (Juan Paiva), com a ajuda de seu melhor amigo, Orelha (Pablo Vinicius) , tenta descolar uma carne para o cotidiano feijão com arroz da sua casa, em ocasião do aniversário do pai (Flávio Bauraqui).
Um respiro mais dramático e sombrio permeia Concerto para violino, de Luciano Vidigal. Único com desfecho implacavelmente trágico, traz a história de três amigos de infância cujas vidas tomaram rumos opostos. O tráfico é encarado de frente, encarnado na truncada e impressionante figura de Feijão, ex-chefe do tráfico de Acari, hoje líder do AfroReggae.
Em Deixa voar, de Cadu Barcelos, a violência também aparece, mas fica na espreita, sem nunca invadir a ação. A pipa de um amigo cai numa área da favela dominada por uma facção rival e Flávio (Vitor Carvalho) é o único que se atreve a ir buscá-la. Aqui, o tempo cinematográfico é muito bem explorado, levantando a tensão pelas suspensões reflexivas do protagonista. A cada passo leve do garoto, o coração palpita, a tragédia parece iminente.
O último episódio de 5x favela, agora por nós mesmos é Acende a luz, de Luciana Bezerra, uma das mais experientes do grupo. O humor é mais escrachado, remete às comédias italianas e joga com estereótipos debochados, que beiram o incômodo. É Natal, e parte do morro, justo lá em cima, está sem luz. Um técnico deixa os problemas pessoais no asfalto e se dispõe a subir para resolver o problema que parece insolúvel. A revolta atrapalhada dos moradores opera num crescente, intercalada por momentos de solidariedade luminosa, para voltar a descender numa desorganização felliniana.
5x favela, agora por nós mesmos passou fora de competição em Cannes e levou sete prêmios no Festival de Paulínia, onde foi exibido pela primeira vez no país. A conexão com o público é imediata. Sobretudo para o carioca, que se vê na tela em vários momentos, de um lado ou de outro dessa "cidade partida", aqui colada aos pedaços mais uma vez.
POR: [Marcella Huche]
Bom
Karate kid
| Harald Zwart
Um garoto fracote oprimido por valentões e sem uma figura paterna encontra um mestre em artes marciais disposto a passar lições, geralmente de uma forma pouco convencional. Em 1984, essa fórmula gerou Karate kid, um dos maiores clássicos de Sessão da Tarde. Em 2010, a fórmula foi reutilizada, com o reboot da franquia. E ainda funciona. Karate kid é um filme leve e divertido que acerta as mesmas notas do original, mesmo trocando o caratê pelo kung-fu.
No reboot, Dre Parker (Jaden Smith) sai dos Estados Unidos diretamente para a China por causa do trabalho da mãe. Lá, imediatamente se interessa por uma garota, Mei Ying, e se indispõe com os valentões de plantão. Ao tentar defender a menina, Dre leva uma surra, pois os garotos são praticantes de kung-fu. Após uma mal pensada tentativa de vingança, Dre é encurralado e, quando se prepara para ser massacrado, é salvo pelo zelador de seu prédio, Sr. Han (Jackie Chan), que decide treinar o garoto no verdadeiro kung-fu. É possível ver as semelhanças com o original, trocando apenas a arte marcial e os nomes. Os personagens, em geral, são bem similares.
Smith segura bem as coreografias – o garoto é até assustadoramente musculoso para 12 anos – e consegue convencer nas cenas dramáticas. O mais fascinante é que seu timing cômico, especialmente quando está constrangido, é muito similar ao que seu pai, Will Smith, usa. Chan é a melhor escolha possível para substituir o lendário Pat Morita como o mestre. Mesmo sendo mais trágico e amargo que o mestre Myagi, o Sr. Han de Chan consegue passar docilidade e uma sincera afeição pelo garoto. Chan é, sem dúvidas, o artista marcial mais relevante de sua geração.
O kung-fu acaba sendo uma boa troca. Ao contrário do caratê, estilo japonês muito mais contido, essa arte chinesa abusa de cambalhotas, golpes estranhos, voadoras e rasteiras. Na tela, o resultado é, por vezes, assustador: é estranho e inquietante ver uma criança de 12 anos levando uma voadora na cara.
Falta em Karate kid um vilão como foi John Kreese no original. Ele, com sua atitude arrogante e cartunesca, era um rosto odiável, que encaixava perfeitamente com seu dojo de pequenos psicopatas, o Cobra Kai. No reboot, há o insosso Li, que não é realista, nem exagerado, e fica no limbo. Talvez a arte dos bons vilões ridículos tenha morrido nos anos 80. Alguns momentos da trama também são meio deslocados, como a viagem de Han e Dre para um mosteiro de kung fu em uma montanha. Parece até um outro filme dentro do filme, de tão descartável a cena, que coloca Dre e Han em meio ao elenco de O tigre e o dragão.
Com o tom certo de referências ao original, mas mudando o que ficou datado, Karate kid apresenta a fórmula a uma nova geração e diverte, ainda que tenha lá suas falhas. O formato do azarão que, com alguma dedicação e o mentor adequado, consegue superar seus adversários é imortal. Lá pelas tantas, a mãe de Dre dispara: “Caratê, kung-fu, tanto faz”. Realmente. Pode ser um carateca ítalo-americano lutando contra valentões, um negro lutando kung-fu na China ou um nórdico aprendendo capoeira no Pelourinho, tanto faz.
POR: [Gerhard Brêda]
Fraco
O último mestre do ar
| M. Night Shyamalan
M. Night Shyamalan teve a chance de conferir novo fôlego à carreira surrada de fórmulas repetidas (O sexto sentido, A vila, Sinais), mas errou mais uma vez em O último mestre do ar. E errou feio. Errou muito. O resultado é perda de tempo e dinheiro, a incomodar até os mais otimistas e pacientes cinéfilos. Se gostou do trailer, que à primeira vista é até promissor, melhor ficar com esses dois minutos e meio bem editados de O último mestre do ar. O roteiro é disfuncional, com atores que travam uma disputa acirrada para ver quem passa a maior parte do tempo sem emitir qualquer expressão e/ou emoção. Os efeitos 3D são praticamente inexistentes. Na verdade até estão ali, só para atrapalhar a leitura das legendas.
Adaptado do desenho animado, o filme começou perdendo uma batalha em Hollywood: não pôde utilizar seu nome original, Avatar: the last airbender, pois James Cameron e a Fox chegaram primeiro e registraram o título para o blockbuster de Pandora. Não que faça muita diferença, mas só para exemplificar que as coisas definitivamente não começaram bem — e ficariam ainda piores.
Há 100 anos, as nações Ar, Água, Terra e Fogo conviviam em harmonia, num mundo tomado pela plenitude resultante da paz e do equilíbrio, gerados pela presença do Avatar, o indivíduo que dominava os quatro elementos e se comunicava com o mundo espiritual. Quando o Avatar desaparece, o mundo entra num período decadente, marcado por conflitos territoriais e gananciosos, liderados pela nação do Fogo. Até o momento em que Katara e seu irmão, Sokka, encontram Aang, a nova reencarnação do Avatar. Juntos, iniciam uma jornada para deter o mal e restaurar a ordem do planeta.
De longe, a premissa até desperta algum interesse, principalmente nos saudosos do desenho — esse sim de alguma qualidade. De perto, não há traço dos truques do cineasta indiano, que normalmente espalha pela trama armadilhas a serem desmentidas no final. Pelo contrário. Primeiro, o roteiro passa longe da ideia original concebida para a animação, mas, para maquiar a fuga do contexto, Shyamalan utiliza a arte e as locações da série original. Segundo, a trama que segue é uma combinação desastrosa de elementos desnecessários, diálogos obtusos e direção incompreensível devido a um roteiro superficial. E terceiro, porque o filme se resume a algumas cenas de lutas bem coreografadas — nem todas, já que em alguns momentos mais parecem oompa loompas evoluídos —, aos efeitos visuais e à trilha sonora.
O último mestre do ar faz uso também de um péssimo e azucrinante artifício, que, verdade seja dita, não é exclusivo de M. Night Shyamalan: a narração explicativa. Desde o início da trama, os personagens direcionam linearmente o espectador numa irritante tentativa de fixar mentalmente o que já é transmitido em cena. Subestimar o público é um erro, além de refletir insegurança na capacidade de comunicação do próprio roteiro.
Quanto ao elenco, falta carisma dos próprios personagens, e as atuações beiram o pastelão — se bem que até mesmo um bom pastelão consegue cativar a audiência. Talvez, a única exceção (ainda assim não chega perto de uma boa atuação) seja a jovem Nicola Peltz, intérprete de Katara. Percebe-se que houve um esforço por parte da atriz para passar a integridade e humanidade da única dominadora de um elemento da nação da Água. Já Noah Ringer, o Avatar, por ser um ator estreante, não chega a prejudicar o andamento da produção, até porque se destaca no que sabe fazer melhor — que, por sinal, é a principal característica do personagem: lutar. O jovem, campeão de taekwondo, realmente impressiona com suas habilidades marciais. O mesmo não se pode dizer Jackson Rathbone, o Sokka. “O Jasper de Crepúsculo” — como faz questão de anunciar o cartaz do filme —finalmente tirou uma dúvida que assolava os seguidores do vampiro. Sim, aquela cara de quem viu a luz do sol, ou um crucifixo, ou um lobisomem, não é exclusiva de seu personagem morto-vivo. As expressões faciais do ator resumem-se àqueles olhos esbugalhados.
Como já dito anteriormente, não gaste dinheiro pelo 3D. Alguém da equipe de pós-produção deixou passar batido — num estilo meio Fúria de titãs — e, ops, o 3D não está lá. Para as crianças, talvez, os efeitos visuais e as características físicas singulares de alguns personagens possam ser um atrativo. Mas, no geral, O último mestre do ar destoa — negativamente, para deixar claro —, de outros épicos. E M. Night Shyamalan já garantiu as outras duas continuações. Respire fundo.
POR: [Juliana D'Arêde]
Regular
A epidemia
| Breck Eisner
Numa época em que os gêneros se reciclam com criatividade — para citar alguns, a ficção científica com Distrito 9; o western com O assassinato de Jesse James pelo covarde Robert Ford; os desenhos com as produções pós-Shrek e a animação digital; e até mesmo o próprio formato de cinema com lançamentos em 3D — Epidemia (The crazies, no original) não deixa de ser em certa parte uma decepção. Trata-se do remake do clássico escrito e dirigido por George Romero em 1973, que no Brasil levou o nome de O exército do extermínio.
O início do filme é promissor. Uma linda imagem de uma clássica rua do meio oeste rural americano — com seus bem comportados prédios de um andar, pequenas lojas e bandeiras — deserta e completamente em chamas, seguida pela genial sacada de executar We’ll meet again’ (música da antológica cena final de Dr. Fantástico, agora na voz de Johnny Cash) por cima de imagens desta mesma cidade num dia comum. A expectativa começa lá no alto, mas não se concretiza. Desde cedo fica claro se tratar de um filme low budget com ares de telefilme — saem os grandes centros urbanos, entra a pequena e fictícia cidade de Ogden Marsh, com cerca de 100 mil habitantes.
A premissa é até interessante: um avião militar carregando uma arma química que, através de um potente vírus, transforma pacatos cidadãos em assassinos sedentos por sangue, cai num lago, contaminando a água de uma pequena cidade rural. Com o cruel exército americano acionado para uma operação de quarentena, a vida do xerife local e de sua mulher grávida (rostos desconhecidos, mas surpreendentemente bons) transforma-se num verdadeiro inferno.
Com Extermínio e Madrugada dos mortos na memória recente cinéfila, as obviedades encontradas aqui incomodam mais que o aceitável. É óbvio que há mais alguém no quarto mal iluminado, assim como é óbvia a absurda imunidade do casal protagonista — e por aí vai. Mesmo que desta vez não se trate de zumbis propriamente ditos, há absolutamente tudo o que já se viu antes num filme do rei dos mortos vivos George Romero. Todos os sustos esperados, toda a luta pela sobrevivência, toda a perversidade nauseante de filme de terror — que, no entanto, não chega ao alto (ou baixo) nível visto nas telas como em O albergue —fazem deste filme um thriller com forte senso de déjà vu.
Mesmo com uma boa carreira nas bilheterias americanas e internacionais (faturou quase o dobro do seu custo de produção), com seu excesso de 'american way of life' — seja na crença que só armas de fogo resolvam qualquer situação, seja na ambientação — é difícil não se perguntar por que este filme não permaneceu para consumo interno estadunidense. Embora não traga quase nada de novo, é uma boa opção para fãs de terror que encontram em Epidemia a única opção do gênero atualmente em cartaz.
POR: [Daniel Passi]
Bom
Cabeça a prêmio
| Marco Ricca
Uma das principais coqueluches entre os roteiristas da atualidade é retratar as diversas variáveis sociais contemporâneas através de um roteiro fragmentado. Lançam-se várias peças aparentemente desconexas ao longo da narrativa para ao final compor um só quebra-cabeça, que pretende se revelar, por meio de suas camadas, como um recorte específico de um mesmo contexto temporal. É uma tentativa arriscada, e poucos são os que driblam as dificuldades de conexão e conseguem sair vitoriosos da empreitada. Para o talento artesão de cada Robert Altman, temos os remendos malfeitos de vinte Alejandro González Iñarritu, uma equação nociva à saúde de qualquer espectador.
Estreando na direção de longas-metragens, o ator Marco Ricca resolveu adaptar para o cinema o romance do escritor Marçal Aquino intitulado Cabeça a prêmio, que possui uma estrutura recortada, numa mesma linha narrativa sobre a qual convergem histórias distintas. Um projeto ousado? Do ponto de vista do roteiro, sim. Até pela inexperiência de Ricca por trás das câmeras, as chances de esbarrar na superficialidade forçada amarrando situações de forma genérica eram grandes, mas, surpreendentemente, o agora cineasta contorna os desafios da montagem e fortalece seu filme através da coesão com a qual ele é engendrado.
A trama gira em torno de uma família de fazendeiros do Mato Grosso do Sul que se envolve com atividades ilícitas na fronteira com o Paraguai, desencadeando uma série de acontecimentos que mudarão o curso da vida dos envolvidos. É um drama de desilusões em uma região onde quase tudo é permitido, em que o trânsito de pessoas e mercadorias revela a instabilidade de um microcosmo e a incapacidade de lidar com o equilíbrio emocional. Todos os personagens possuem um rompante de fúria ou desespero, e a edição organiza os sucessivos descontroles que ali acontecem de forma a respeitar tanto a construção do próprio personagem como a posição do espectador diante deles.
O cenário é de uma beleza desoladora, a câmera explora as vastas planícies inabitadas e silenciosas do Pantanal sem apelar para imediatismos, construindo uma linha de tempo que passa ao largo do julgamento moral e se estabelece por meio de contrastes, tanto psicológicos quanto geográficos, mas sempre de maneira sóbria, sem os tiques histriônicos e deslumbrados que marcaram as estreias na direção dos também atores Selton Mello e Matheus Nachtergaele. É um filme essencialmente de personagens, e a ponderação no desenvolvimento das particularidades de cada núcleo, alheia a arroubos estéticos e invencionices desnecessárias, garante um tom solene à narrativa que permite a evidência de suas principais qualidades.
Através de uma aproximação sutil, mérito tanto do roteiro de Ricca, escrito em parceria com Felipe Braga, quanto da engenhosa montagem de Manga Campion, a desintegração lenta e gradual de uma família se enlaça ao cotidiano de dois matadores de aluguel e de um ambicioso jovem piloto paraguaio. Há um esmero muito particular na elaboração dos personagens, sem pressa, respeitando as nuances de comportamento próprias a cada um e criando personalidades verossímeis, sem passar perto de fantoches humanos a serviço de um discurso sociológico. A Marco Ricca não interessa divagar sobre questões inerentes à modernidade, cuja estrutura fragmentada do texto possibilita; sua pretensão termina na composição de um ambiente onde a harmonia é desatada por uma onda de violência, consequência direta das ações dos envolvidos no jogo.
Dotado de uma segurança que impressiona em se tratando de um cineasta estreante, Cabeça a prêmio, o filme, é a carta de intenções de uma direção pulsante, que se ampara tanto na força do texto e na consistência da montagem para compor um mosaico de personalidades que se chocam a todo instante, desencontradas e insatisfeitas, buscando na fronteira do Brasil uma afirmação para suas identidades. Com este filme, Marco Ricca entra na galeria de cineastas brasileiros pela porta da frente. Que seja bem-vindo.
POR: [Samuel Lobo]
Excelente
Um doce olhar
| Semih Kaplanoglu
A máxima 'o cinema é pintura em movimento' encontra em Um doce olhar (o título original Bal sendo a palavra turca para mel) uma ótima definição. Retrato poético de uma beleza impossível sobre a perda, a incomunicabilidade e a solidão infantil, o filme — vencedor do Urso de Ouro em Berlim —, assim como seu protagonista, comunica grandes coisas em pequenos sussurros.
Yusuf é uma criança de uma família que reside nas montanhas da Turquia e que tem na apicultura e plantação de chá seu principal sustento. Tem dificuldades, em parte por sua excessiva timidez, em ler e se expressar, tendo como único canal com o mundo seu pai, com quem se comunica através de sussurros. O filme é a última parte da trilogia semi-autobiográfica do diretor Semih Kaplanoglu que consiste ainda de Ovo (2007), que retrata a vida adulta do personagem, agora um poeta, e Leite (2009), o fim da adolescência. Ambos inéditos comercialmente no Brasil.
Mesmo tendo algo que o une aos outros filmes — como o primeiro contato do menino Yusuf com a poesia, fascinado ao ouvir uma menina recitar Minha boêmia, de Rimbaud — Um doce olhar pode ser apreciado de forma independente. Sem o uso de trilha sonora, com exceção de certos momentos chaves, e dando a impressão de muitas vezes usar a luz natural, a lenta vida no campo é traduzida com um ritmo narrativo que por vezes chega à fronteira do tédio. Assim, alcança enorme efeito dramático no desenrolar da história, mas corre o risco de ser taxado por muitos como simplesmente chato — pouco de fato acontece e quase nada é dito.
Totalmente construído em cima de sutilezas, o filme tem nos olhares e pequenas expressões – especialmente as das crianças, todas de no máximo seis anos — toda a sua força. O pequeno protagonista Bora Altas é daqueles raros achados do cinema que dão sentido à produção. Sem o talento bruto e insuspeito do menino, dificilmente o resultado da obra alcançaria o status de arte que o filme alça.
Embora todo o filme seja sólido, é a última sequência que merece atenção especial. Um poema visual embasbacante, de uma pureza difícil de descrever, ficará na memória de quem assistir durante um bom tempo. Um doce olhar é a verdadeira pérola do cinema turco.
POR: [Daniel Passi]
Bom
Os mercenários
| Sylvester Stallone
ão existe nada como Os mercenários em cartaz agora. Um filme como esses só poderia ser concebido, escrito e dirigido por um homem que viveu, nos anos 80 e 90, a crista da onda do cinema de ação. Sylvester Stallone entrega, em 2010, um dinossauro estranhamente familiar, um filme que junta a brutalidade que explorou em Rambo IV com diversos excessos típicos de filmes como Cobra e Comando para matar. Se você acha o herói moderno – o sujeito mirrado e cheio de problemas existenciais – uma doença, Os mercenários é a cura.
Na trama, Stallone é Barney Ross, líder de um grupo de mercenários que conta com Lee Christmas (Jason Statham, principal coadjuvante do filme e divertido como sempre), Ying Yang (Jet Li), Hale Caesar (Terry Crews), Toll Road (Randy Couture) e Gunnar Jensen (Dolph Lundgren). A base do grupo é na oficina de Tool (Mickey Rourke), um mercenário que se aposentou e agora arranja emprego para a equipe. A missão da vez é invadir a ilha de Vilena, na América do Sul, e eliminar o sanguinário General Garza (David Zayas).
Quando vão explorar a ilha, Ross e Christmas encontram Sandra (Giselle Itié), que acaba sendo detida pelo governo. Também descobrem que quem dá as cartas é James Monroe (Eric Roberts), um engravatado americano que comanda o gorila anabolizado Paine (Steve Austin) e o fluxo de dólares que alimenta a ditadura.
O mais incrível é como Stallone seguiu de perto os filmes de ação dos anos 80 na criação de Os mercenários. O emblema máximo é Monroe, um vilão caricato que parece que viajou no tempo. Se até James Bond abandonou os grandes inimigos exagerados em prol de terroristas burocratas e baseados na realidade, cabe a Stallone trazer uma relíquia de volta. Roberts se diverte no papel, cospe todas as falas sem nenhuma sutileza e usa o crachá de malvadão com orgulho.
Uma das metas de Stallone parece ter sido desvincular os atores de seus lendários personagens. O Christmas de Statham é muito diferente de Chev Chelios (de Adrenalina), o Gunnar de Lundgren em nada lembra o sisudo Ivan Drago (de Rocky IV) e o Sr. Church de Bruce Willis é o mais longe que se pode chegar de John McLane (de Duro de matar). Evidentemente, os personagens criados por Stallone não superam estes icônicos heróis, mas isso não se torna um problema pelo status já quase lendário de grande parte dos atores.
A trama pode ser risível e, em alguns momentos, até um pouco equivocada (todo o arco romântico de Christmas é um mergulho esquisito no drama, mas que acaba valendo por uma boa sequência de luta), mas a ação compensa. Ninguém em Hollywood faz ação como Sylvester Stallone. Em Rambo IV, o ator/diretor mostrou ao mundo os tiros mais brutais da história do cinema e em Os mercenários ele leva a técnica adiante. As balas parecem ter impacto, rasgando, furando e até dilacerando de forma cartunesca os capangas inimigos. Como o elenco varia entre lutadores de vale tudo, luta livre, kung fu e todo o resto, as cenas de luta são bastante diversificadas. Há o estilo de luta cheio de firulas e levezas de Li, contrastando com a agilidade eficiente de Statham. De um lado os agarrões e arremessos de Steve Austin, de outro, os golpes de MMA de Couture.
Mesmo assim, o filme tem uma falha grave: pouca ação. Ou melhor, menos ação do que se esperava. Com o elenco que tinha, Stallone podia ter elaborado mais embates memoráveis, mais tiroteios absurdos, mais coisas impressionantes. Falta em Os mercenários uma cena memorável, lendária. Falta um tiro de arco e flecha explosivo contra um helicóptero (Rambo 3), falta um carro sendo arremessado em um helicóptero (Duro de matar IV). A sequência final é excepcional e é uma das melhores do ano, mas faltou algo lendário. A edição, por vezes, também é um pouco frenética demais, obscurecendo a pancadaria com cortes alucinados.
Se não existe uma cena de ação digna de nota, a já famosa cena da igreja eleva Os mercenários ao status de lenda. Willis media o encontro entre Stallone e Schwarzenegger, que interpreta Trench, um mercenário rival. Os diálogos estão entre os mais brilhantes da carreira de Sylvester Stallone e conseguem unir a realidade com o universo do filme de uma forma hilariante. É uma pena que o encontro destes gigantes não tenha acontecido quando estavam no auge, mas é bom ver o Governator sair da geladeira e disparar seu inconfundível sotaque austríaco mais uma vez. É o sonho de uma geração, que cresceu vendo a Sessão da Tarde, se concretizando, ainda que de uma forma muito mais plácida do que se esperava.
Os mercenários não está no mesmo nível que filmes como Rocky – Um lutador e Rambo: Programado para matar, mas está bem longe de ser um fracasso como Alta velocidade ou Tango e Cash. Stallone faz uma homenagem aos anos 80, com um filme de ação inflado, insano e divertido, que acerta quando não se leva muito a sério. Ao mesmo tempo, ao colocar Jason Statham como seu principal parceiro, Sly parece ter escolhido alguém para passar o bastão e faz a ponte entre o ontem e o hoje, mas sem se esquecer de chutar uns traseiros no caminho.
POR: [Gerhard Brêda]
Bom
Almas à venda
| Sophie Barthes
Almas à venda é o novo filme de Charlie Kaufman — o roteirista it que ficou famoso por escrever historias kafkianas em que o amor, o absurdo e o surreal se misturam — em todos os sentidos exceto um: este não é um filme seu. É curioso ver como o homem responsável pelas histórias de Adaptação, Brilho eterno de uma mente sem lembranças e Quero ser John Malkovich conseguiu fundar uma verdadeira escola de roteiro moderno — ou modernoso — para o cinema tornando-se ídolo imediato de 11 entre 10 jovens aspirantes a roteiristas.
Almas à venda na verdade é escrito e dirigido pela estreante Sophie Barthes, que, para um primeiro longa-metragem, faz um belo trabalho. A estrela é Paul Giamatti — o eterno coadjuvante de filmes como O resgate do soldado Ryan e O ilusionista e herói indie de filmes como Sideways e Um herói americano — interpretando ele mesmo. Ou melhor, uma versão dele mesmo como um ator atormentado pela montagem teatral de Tio Vânia, de Anton Tchekhov. Trata-se de um homem de meia idade em crise (papel em que Giamatti parece ter se especializado) que aproveita sua obscuridade, mas almeja uma realização profissional — para, logo em seguida, experimentar um alívio pessoal, pois, a seu ver, é algo impossível de ser alcançado.
Sophie usa aqui um jogo de autorreferência mista de realidade e ficção que faz ecoar Quero ser John Malkovich. Giamatti vê num anúncio de revista a possibilidade de exterminar suas inquietações: uma clínica que promete aliviar o sofrimento ao extrair, congelar e guardar a alma das pessoas. Ao perceber que sua alma foi extraviada para a Rússia — detalhe para a boa escolha dos cenários russos —, Giamatti embrenha-se no mercado negro de almas: compra, venda e tráfico internacional.
Embora Almas à venda seja um bom filme, curiosamente sofre da mesma mazela dos feitos de Kaufman. Após a curiosidade inicial com a premissa se esvaecer, o filme não consegue se sustentar com o mesmo vigor. Mesmo tendo uma ideia original, o que faz o longa se garantir é a força de seu elenco — que conta ainda com Emily Watson e com David Straithairn, indicado ao Oscar por Boa noite e boa sorte. Embora em Almas à venda o tom seja um tanto mais soturno e menos bem humorado — destaque para as cenas de humor negro envolvendo Giamatti e o doutor responsável pela clínica de extração de almas, vivido por Straithairn — que nas produções de Kaufman, o filme consegue alcançar momentos de um lirismo mais profundo e tocante. Fora isso, Almas à venda é uma boa opção para aprender como se escreve um filme contemporâneo alternativo.
POR: [Daniel Passi]
Fraco
O aprendiz de feiticeiro
| Jon Turteltaub
O aprendiz de feiticeiro - FRACO
O aprendiz de feiticeiro é o típico filme de Sessão da Tarde, daqueles restritos ao período de férias. Só assim dá para resumir um filme totalmente desenvolvido sob clichês, sem qualquer traço — ou tentativa — de originalidade que possa realmente encantar o espectador — que, se espera, esteja ávido para ver o que Nicholas Cage consegue fazer com um pouco de mágica, um casaco desbotado e um cabelo que não sabe o que é xampu há alguns séculos. A única coisa que remete à qualidade Hollywood em O aprendiz de feiticeiro são os efeitos especiais, coerentes com a Disney. E só.
Esqueça tudo o que já ouviu falar e sabe sobre Merlin. O filme não faz questão nenhuma de seguir o mito à risca, a não ser pela presença de Morgana. A descaracterização de ambos os personagens é até aceitável ao se tratar de um filme infantil, no qual os dois são apenas referências cansativas para o desenvolvimento de uma trama preguiçosa. Na história, Cage é Balthazar Blake, um feiticeiro ex-aprendiz de Merlin, que mora em Manhattan e precisa defender a cidade de um bruxo traidor — também ex-aluno do maior mago da história, que original — que deseja libertar o mal, personificado em Morgana, na Terra. Para cumprir sua missão, Balthazar nomeia um jovem com habilidades extraordinárias como seu pupilo.
Para manter o foco em alguma cena ou diálogo do filme, haja determinação. Mas se esse atributo lhe falta, não se preocupe. Nada muda ou acontece entre a primeira meia-hora e o final, dentro do esquema herói íntegro/vilão mau caráter/herói nerd e desengonçado que salva o mundo e fica com a mocinha. O produtor Jerry Bruckheimer certamente ficou orgulhoso do sucesso de sua franquia A lenda do tesouro perdido. Tanto que resolveu repetir a fórmula em outras produções como O vidente e o ainda inédito Caças às bruxas — acredite, outro filme com Nicolas Cage descabelado e magos à solta. Em O aprendiz de feiticeiro proliferam essas referências esgotadas, abandonando o espectador num limbo de desestímulo e tédio. Detalhe para a óbvia alusão ao clássico desenho Fantasia (1940), com direito, inclusive, a vassouras dançando. Não, não foi divertido, e ainda deixou um amargo constrangimento.
Cage, por sua vez, insiste em escolher papéis que subestimam seu talento, enquanto o bom Alfred Molina tenta salvar um vilão insosso. Destaque para Jay Baruchel e seu Dave, o pupilo de Balthazar, que possui as melhores (e raras) tiradas cômicas do filme. Dentro de uma caricatura (de nerd), consegue passar a sensibilidade e timidez do garoto rejeitado e sem perspectiva (pelo menos até se deparar com o protótipo de Merlin).
Sem qualquer tipo de pretensão (nem se quisesse), O aprendiz de feiticeiro é apenas mais um dentre tantos filmes do gênero, que não soube aproveitar os seus próprios recursos. Em época de três dimensões, apenas efeitos especiais não garantem a diversão. Falta magia.
POR: [Juliana d'Arêde]
Regular
Meu malvado favorito
| Pierre Coffin e Chris Renaud
Gru passeia por uma praça e subitamente repara num garoto. Lágrimas escorrem pelo rosto do menino, que segura uma casquinha de sorvete vazia e olha desolado para o sabor vermelho derretendo no chão. Gru pede que espere, sopra um balão, o contorce algumas vezes e entrega um poodle radiante para o moleque, ainda mais radiante. Gru fecha a cara, cata um alfinete e estoura a felicidade do garoto, que deixa para trás com passos firmes. Aí está o protótipo de Meu malvado favorito, o tal vilão anunciado, Gru.
A primeira cena do filme é o resumo dramático que permeia a animação de Pierre Coffin e Chris Renaud. Está ali condensado o conflito do protagonista, a visão doce e infantil de um vilão de alma boa, estragado por uma mãe rabugenta. No clímax final e sacarinado do filme, ainda surge a dúvida, será, mas será? Não é. Meu malvado favorito é pueril, previsível, com parcas tintas irônicas. Mas isso não o faz menos divertido, em especial para as crianças.
Voltado para a família, o filme pega emprestado o visual da Pixar e as piadas dos cartoons infantis. O resultado é um razoável filme de estreia do departamento de animação da Universal, o Illumination Entertainment. Comandado por Chris Meledandri, antigo colaborador da Fox (Era do gelo, Horton e o mundo dos quem), não deixa a perder para os gigantes consolidados da Pixar e da Dreamworks, tendo efeitos tridimensionais muito bem trabalhados.
No Brasil, o filme chega apenas em cópias dubladas, tanto em 2D como em 3D. Nos papéis principais, a dupla cômica Leandro Hassum e Marcius Melhem seguram as piadas com um ótimo trabalho autoral. Gru leva um sotaque portenho (um vilão argentino?) divertidíssimo criado por Hassum, enquando o chato Vetor, o verdadeiro vilão aqui, tem seus momentos divertidos com os tiques de Melhem.
Gru é o tipo rabugento trapalhão, que concretiza nossos pequenos momentos utópicos vis, como amassar sem piedade os carros vizinhos em vagas apertadas ou furar uma fila inteira só disparando um raio congelante nas pessoas à sua frente. A apresentação do protagonista é genial, ao som do ótimo rap de tons graves Despicable me, título original do filme. A trilha é assinada por Pharrell Williams e Hector Pereira, produzidos por Hans Zimmer, e pontua muito bem a animação.
A vida de um supervilão, mesmo equipado de geringonças de todos os tipos e mantendo a pose de mau, não é tão fácil assim. A concorrência pesa nos ombros caídos de Gru e ela atende pelo nome de Vetor, um jovem herói nerd, pleno de disposição e novas rebibocas futurísticas. Se Gru rouba o telão da Times Square e a Torre Eiffel e a Estátua da Liberdade de Los Angeles, Vetor ousa afanar uma pirâmide do Egito! Para manter seu posto, nosso vilão concatena então um plano mirabolante - roubar a lua!
Para isso, precisa de um super-raio-encolhedor e de um empréstimo no banco... dos vilões. Gru rouba a parafuseta encolhedora de uma base secreta na Ásia, mas Vetor a toma para si e a tranca em seu covil tecnológico. Obstinado, Gru adota três órfãs, Margo, Edith e Agnes, as únicas criaturas capazes de penetrar no recôndito de Vetor. O problema é que as três veem em Gru um pai em potencial e fazem despertar no malévolo um lado desconcertante para o vilão que clama ser.
Com o coração no lugar certo e referências à animação europeia, Meu malvado favorito conquista por seus personagens excêntricos. O roteiro é de Cinco Paul e Ken Daurio, adaptado da história de Sergio Pablos. As três garotas são tão estranhamente cativantes quanto o vilão que tomaram para pai.
Vale sublinhar a participação dos minions, pequenos seres amorfos e amarelos que adoram e ajudam Gru em suas façanhas diabólicas. Estão ali somente para divertir, atrapalhados, falando uma língua ininteligível, e desempenham honestamente seu papel. Entre ingenuidade emocional açucarada e raras pitadas de humor negro, Meu malvado favorito não é de todo mal, e bem diverte.
POR: [Marcella Huche]
Bom
Uma noite em 67
| Renato Terra e Ricardo Calil
"O público virou personagem". É assim que um dos personagens mais destacados da finalíssima do festival da TV Record de 1967, o cantor e compositor Sérgio Ricardo, define o que você vai assistir em Uma noite em 67, que traz os bastidores, os relatos históricos e as imagens raríssimas da final do evento, em 21 de outubro daquele ano. Não são poucas as pessoas, atualmente, fazendo comparações dos shows musicais competitivos dos anos 60 - que faziam sucesso a ponto de canções como a lírica O cantador, de Dori Caymmi e Nelson Motta, virarem discussão de mesa de bar - com os reality shows.
Talvez as músicas fossem melhores, mas o produto final era um programa, uma atração, movida pelo Ibope do público, que vaiava (muito) e aplaudia (pouco). Talvez o público tenha piorado com o passar dos tempos, embora não dê para julgar. Mas a cada artista, cabia representar um personagem - manipulado pelos produtores e pelo chefão do canal. Não eram propósitos muito diferentes de uma luta televisiva entre Marcelo Dourado e Dicesar. Só trazia música - e da boa, como se pode comprovar no próprio filme. E todo um contexto político e artístico, causado pela ditadura e pela polarização entre MPB e guitarras elétricas, nacionalistas e pré-pops. Personagens do festival, como Caetano Veloso (que defendeu Alegria alegria, com os Beat boys), Gilberto Gil (idem com Domingo no parque, com Os Mutantes), Roberto Carlos (idem com o samba Maria, carnaval e cinzas, de Luiz Carlos Paraná), Edu Lobo (ganhador com Ponteio, defendida por ele, Marilia Medalha e Momento Quatro), Chico Buarque (mostrou sua Roda viva, com o MPB 4), Sérgio Ricardo (defendeu-não defendeu sua Beto bom de bola e, vaiado, quebrou o violão ao fim da música), Sérgio Cabral (jurado), Solano Ribeiro (criador do evento), dão seus depoimentos, intercalados com imagens de época.
Para quem nunca leu livros como Noites tropicais (Nelson Motta), Roberto Carlos em detalhes (Paulo Cesar Araújo), Quem quebrou meu violão (Sérgio Ricardo) e A era dos festivais (escrito pelo técnico de som do festival da Record, Zuza Homem de Mello), as informações de Uma noite em 67 podem servir para derrubar mitos. Para quem conhece a extensa literatura sobre o período já feita no país, há muito documento e pouca novidade. É engraçado ver artistas hoje vetustos como Edu, Caetano e Chico com caras de pirralhos e pensar "quem diria, esse pessoal já foi jovem um dia..." Ou verificar que o início de carreira deles também foi marcado por uma certa manipulação. A ponto de caber ao aplaudidíssimo Chico Buarque fazer o papel de "mocinho" no evento. Ou a um reverente Gil, pressionado por amigos e pela direção do canal, participar de uma estranha manifestação hoje conhecida como a "marcha contra a guitarra elétrica", cuja ingenuidade envergonharia até mesmo alguns de seus mais ferrenhos participantes (como o pesquisador Sérgio Cabral, que admite a mancada aos diretores do filme). Os criadores do evento mal sabiam que aquilo tudo iria virar história - dependiam do Ibope, assim como os próprios concorrentes.
Os depoimentos atuais apontam para a tensão e as amarras do festival - e que já estranhavam. Edu preferiu sair do Brasil após ganhar a competição. Chico pouco caberia no papel de bom moço com o passar dos anos, e diz nem nem lembrar mais como se toca Roda viva. Caetano reclama até hoje "não ter se livrado de Alegria, alegria como Chico se livrou de A banda", mas tenta ensinar o espectador como tocá-la no violão. Sérgio, caso à parte, reconhece: quebrar seu instrumento e atirá-lo à plateia do evento foi "coisa de garoto", mas assume seu susto com o esquema por trás dos festivais e com a proto-interatividade que já reinava nos musicais televisivos. Estigmatizado pela atitude que tomou na finalíssima, tem os sete minutos (incluindo o antes, durante e depois) de sua Beto bom de bola expostos no filme. Roberto Carlos, páraquedista em festivais da canção, canta com total segurança Maria, carnaval e cinzas, numa fase na qual necessitava de um pulo da Jovem Guarda para o público adulto - e, em entrevista feita para o longa, diz nem saber que um grupo estava preparado para vaiá-lo no festival.
O trabalho de pesquisa de Uma noite em 67 é impressionante e merece palmas. Além de mostrar as principais finalistas na íntegra, recuperadas das imagens do festival, recuperam a cobertura feita por Randall Juliano e Cidinha Campos - o primeiro, grande nome do radialismo e da TV, morto em 2006, causa risos ao aparecer fumando durante as entrevistas que faz. E servem como os verdadeiros motivos pelos quais muita gente vai se apaixonar pelo longa.
POR: [Ricardo Schott]
Excelente
A origem
| Christopher Nolan
Bem perto de um espasmo cerebral, A origem é dos filmes de ação mais inteligentes que você há de assistir. Daqueles que finalmente dão fim original a um orçamento milionário (US$ 160 milhões). Consagrado por outros arrasa-quateirões de qualidades inegáveis, Christopher Nolan agora invade a aventura solitária mais maravilhosa que desde sempre existiu — o sonho. Cria e manipula a vida onírica, fazendo dos sonhos inevitáveis momentos de solidão, uma experiência compartilhada. É um blockbuster, entretenimento puro. Mas apresenta uma pegada tão intensa e nervosa que, depois de A origem, a trivialidade de encostar a cabeça no travesseiro e dormir já instala o crivo da dúvida. Trata-se do expoente do filme para se ver no cinema, que abusa do seu próprio diapositivo e da experiência compartilhada numa grande ode à sua própria arte.
O hype que cerca A origem desde seu anúncio, com pouquíssimas informações vazadas desde então, é simples e se resume a duas palavras — Christopher Nolan. O homem pensou no magnífico roteiro de A origem ainda bem novo e há oito anos o pôs no papel. Nesse meio tempo, conquistou o coração dos nerds ao fazer de Batman um herói novamente rico e respeitado, primeiro em Batman begins, depois, e ainda melhor, em O cavaleiro das trevas. Antes disso, arrebatou a crítica com Amnésia (2000) e Insônia (2002), ensaios, já em múltiplas camadas, sobre amor, sono, sonho e subconsciente. Era o que precisava para recolher a confiança suficiente para violar derradeiramente tais temas em A origem.
Não satisfeito com o ambicioso roteiro intrincado que criou, o estado de sonho se reproduz também na estética do filme. As imagens, captadas em seis países, não são esfumaçadas ou os sons distorcidos, como os sonhos geral e pobremente são reproduzidos no cinema. A origem aproxima dois universos que desde sempre caminharam juntos — a experiência cinematográfica e a onírica. No escuro, visualizamos imagens cuja completa apreensão perpassa uma montagem em boa parte também inconsciente; o tempo respeita códigos muito específicos da filmografia; enquanto também equilibramos o ver e o não-ver, assistindo projetada na tela a uma história que não sabemos exatamente como controlar, embora passemos boa parte tentando.
Em A origem, o rumo é bastante esse — caímos no meio de uma trama louca. Explicá-la formalmente é muito mais complexo do que entendê-la, senti-la durante as mais de duas horas do filme. O entendimento às vezes está realmente fora do nosso alcance. Os diálogos são rápidos, as cenas ainda mais, a tensão é crescente, mas intuitivamente entende-se o que se passa ali, embora nunca se consiga desvendar a próxima cena.
Para além da ficção científica, de um homem que adentra e manipula sonhos de outras pessoas, outras linhas fortes enlaçam a trama de A origem. O romance, a paranoia e até uma ou duas linhas de comédia são honestamente entregues, embebidas em gêneros consagrados e muito bem realizados. O protagonista é Dom Cobb, um magnificamente atormentado Leonardo DiCaprio, que encara seu destino fatal sem tanto desespero ao rumar numa última missão. O especialista em roubar segredos a mando de grandes industriais é um homem comum: rendido às tentações de escape de sua realidade (que nada tem de tão afugentadora assim), nosso herói desaprendeu a sonhar. Precisa se reconectar com o mundo real, suas falhas e perdas reais; precisa voltar a seu lar.
É exatamente o que lhe oferece o poderoso japonês Saito (Ken Watanabe). A derradeira tarefa de Cobb é, em vez de extrair, plantar uma ideia, sua semente, sua forma mais simplória, para que cresça naturalmente no subconsciente de sua vítima. Nessa última missão, uma manobra arriscada, e considerada por muitos até impossível, Cobb percorre o mundo (e que locações!) atrás da equipe perfeita (como bem fez Nolan ao montar este elenco impecável). Arthur (Joseph Gordon-Levitt) é seu comparsa de confiança, que aqui faz um tipo bobinho ao cuidar da proteção da equipe. Ariadne (Ellen Page) é a arquiteta, que constrói os labirintos surreais dos sonhos e serve também como alicerce contra os devaneios de Cobb. O inglês Eames é o falsificador (Tom Hardy), simplesmente genial ao incorporar pessoas no ambiente dos sonhos, de carisma e deboche encantadores. Yusuf (Dileep Rao) é o químico, responsável pela dopagem da gangue. No elenco há ainda Marion Cotillard, que interpreta Mal, a ambígua mulher de Cobb; Michael Caine, a figura patriarcal Miles; e Cillian Murphy, o herdeiro Richard Fischer — e isso é só o que se pode dizer sem estragar esta experiência surreal.
Nolan manda nesses personagens. Mapeia e prevê cada movimento, gesto e defeito, governa seus subconscientes. Um dos motivos para o sucesso absoluto de A origem é justamente a atenção aos detalhes, que faz com que toda a extravagância surrealista pareça simplesmente... real. Nolan coloca frente a frente o melhor da cinematografia clássica e moderna. Os movimentos de câmera são precisos, e muitas vezes são eles que originam as loucuras a que assistimos. Os efeitos espetaculares ajudam — e, de fato, transbordam os olhos.
Pequeno exemplo desse encontro, além das reverências a gêneros consagrados, como a própria ficção científica e o thriller noir, é a trilha de Hans Zimmer, parceiro de outros filmes de Nolan (Batman begins e O cavaleiro das trevas) — outros colaboradores frequentes participam, como o diretor de fotografia Wally Pfister e o editor Lee Smith. A trilha original foi toda composta em cima do clássico Non, je ne regrette de rien, de Edith Piaf, inclusos aí graves ensurdecedores e outros ruídos um tanto excessivamente perturbadores. O coração desse labirinto é uma história amarga de amor, arrependimento e culpa. Outras repressões psicológicas perambulam a trama e sempre foram questões centrais na cinematografia do diretor. Nolan plantou a ideia, metafísica, brilhante. Mergulhe. Enlouqueça. Sonhe.
Foto: Warner Bros./Divulgação
POR: [Marcella Huche]
Fraco
O bem-amado
| Guel Arraes
Em ano de eleições, o reaquecimento de O bem amado, texto escrito pelo dramaturgo Dias Gomes em 1962, soa como um lembrete necessário e oportuno. Levada às telas da Rede Globo no início dos anos 70, por meio de uma novela homônima de sucesso - e reprocessada como minissérie uma década depois, já no ocaso da ditadura militar -a sátira política que eternizou o personagem Odorico Paraguaçu chega aos cinemas pela primeira vez em uma adaptação dirigida por Guel Arraes, responsável por transposições de sucesso como O auto da compadecida e Caramuru – a invenção do Brasil.
O sucesso comercial, porém, atesta a influência que a propagação de uma linguagem própria da televisão exerce sobre o público brasileiro. A qualidade dos seriados comandados por Guel, como os supracitados e também TV Pirata eArmação ilimitada, são suficientes para que as versões cinematográficas do mesmo alcancem uma expressiva bilheteria e lhe garantam carta branca dentro do núcleo de projetos da emissora. Desta vez, O bem amado, que ganha ares de franquia, sofre da mesma debilidade que marca os outros filmes do diretor: é cinema feito para a televisão.
Os cortes rápidos, o ritmo acelerado, os planos fechados realçando o rosto de atores conhecidos do público - e símbolos da Rede Globo - corroboram a sensação de que estamos diante de uma minissérie dilatada. E feita para o público que assiste filmes buscando o comodismo e a facilidade que só uma narrativa domesticada é capaz de oferecer. Não há espaço para invenção, a imaginação fica presa por uma fórmula que cerceia as possibilidades de abordagem. Em função disso, a paródia política acaba sufocada por tiques de estilo cuja salvação imediata seria o controle remoto, caso estivéssemos no aconchego de nossas poltronas. Mas não. E o desconforto diante de tal situação vem da dissonância entre um discurso cinicamente burlesco limitado por uma forma careta, quadrada, oposta à acidez do texto. Como diria o grande Rogério Sganzerla, “o cinema brasileiro precisa sair do quarto de brinquedos”. É mais ou menos por aí.
A trama gira em torno das condições sedutoras proporcionadas pela sugestão do poder. Em uma cidade fictícia chamada Sucupira, o farsante político Odorico Paraguaçu elege-se prefeito, ancorado em uma promessa de campanha de finalmente construir o primeiro cemitério da cidade. Entre notas sujas e volumosos desvios de verba, a obra sai do papel e fica dependente de um elemento essencial para ser inaugurada: um defunto que se preste a fazer as honras da casa. De uma hora para outra, as mortes deixam de acontecer em Sucupira. E a promessa de campanha vira um enorme elefante branco no centro da cidade, enquanto a população se revolta contra seu principal regente. O engenhoso texto de Dias Gomes cria sub-tramas onde delineia diversos tipos (como as irmãs Cajazeiras e o matador Zeca Diabo) e a influência que o dinheiro e o poder exercem sobre eles, realçando a complexidade das relações e das personalidades em jogo. A excelência da peça original e seu trato com a ironia e a metáfora estão a anos-luz das intenções do filme.
Nem mesmo o elenco, formado por atores de calibre, consegue dar um sopro de vida à direção apática e televisiva de Guel. Marco Nanini sobrecarrega seu ótimo timing cômico e beira a caricatura em várias cenas, assim como José Wilker, que já foi o homem da capa preta, mas hoje não assusta mais ninguém. Até Andréa Beltrão, a melhor atriz brasileira da atualidade, tateia mas não acerta o tom de sua personagem. Uma pena. É o preço que pagamos por acreditar em um diretor que insiste em fazer cinema utilizando técnicas da televisão, sem demonstrar conhecimento que o tempo, o ritmo, a preparação e até mesmo a recepção do público exigem tratamentos distintos.
Esquemático e equivocado, O bem amado só acerta num único ponto: sua data de lançamento. Ao encerrar-se com uma provocativa questão sobre a escolha de nossos futuros políticos, a metáfora de uma Sucupira que na verdade é o Brasil mostra-se pontual e oportuna ao alertar os brasileiros quanto à responsabilidade que o voto possui na pavimentação de caminhos dignos para nosso país. É preciso estar atento e forte para saber identificar os Odoricos falsários que se escondem sob peles de inocentes cordeiros. Mas isso já é sociologia, e não cinema.
POR: [Samuel Lobo]
Bom
Predadores
| Nimrod Antal
Alguns monstros do cinema são tão explorados em sequências caça-níqueis que acabam se tornando piadas. Aconteceu isso com Jason Vorhees e suas desventuras espaciais em Jason X, aconteceu com Michael Myers e as infindáveis e terríveis – pelos motivos errados – continuações de Halloween. Aconteceu com o Predador que se perdeu em meio a batalhas sem graça com o Alien. Finalmente, o caçador espacial está de volta à boa forma. O filme de Nimród Antal não é brilhante, mas tem ação sólida, personagens carismáticos e devolve a dignidade do monstrengo.
O filme já abre com adrenalina. Adrien Brody, que interpreta o mercenário Royce, acorda caindo de um avião em direção a uma selva. Em determinado momento, um pára-quedas abre e ele cai no chão. Pouco tempo depois, encontra o traficante Cuchillo, interpretado pelo sempre carismático Danny Trejo (em um papel tipicamente Danny Trejo) e começa a construir o colorido elenco de aliados. Na trama, os Predadores organizam temporadas de caça. As presas são humanos, geralmente predadores em seu mundo. A equipe do filme conta com Isabelle (Alice Braga), uma atiradora de elite do exército de Israel; Nikolai (Oleg Taktarov), um membro do exército russo; Stans (Walton Goggins), um assassino prestes a ser executado; Hanzo (Louis Ozawa Changchien), um membro da Yakuza; Mombasa (Mahershalalhashbaz Ali), membro de uma tropa de um exército revolucionário de Serra Leoa e, perdido no filme, Topher Grace, que parece ainda interpretar Eric, do seriado That 70’s show, no papel do médico Edwin.
Grace é o elo mais fraco de um elenco sólido. Mesmo com uma reviravolta no fim, seu personagem não é muito necessário e não acrescenta nada à trama. Ele serve de alívio cômico, mas acaba perdendo espaço para Stans, que rouba a cena sempre que aparece, armado apenas com uma faca improvisada na cadeia.
Adrian Brody, imortalizado na figura do esquálido refugiado judeu de O pianista está em forma e consegue sustentar a ação. Pensar nele como o novo Schwarzenegger é risível, a princípio, mas com o passar do tempo, o ator consegue convencer. O uso da voz rouca, reservada para estóicos heróis de ação – e ridicularizada por Christian Bale em sua versão do Batman – cai bem e acaba servindo a favor de Brody.
Laurence Fishburne dá as caras e rouba a cena. Seu personagem, Noland, é um sobrevivente que acabou enlouquecendo no planeta alienígena, constantemente perseguido pelos Predadores. Ele vive entocado em uma nave abandonada, roubando água, comida e armas quando pode. Sua participação é perturbadora e muito estranha, mas é impossível desgrudar os olhos da tela.
O filme também apresenta uma nova camada da sociedade dos Predadores. No primeiro filme, o clássico com Schwarzenegger, há apenas um monstrengo. Na sequencia, com Danny Glover (injustamente ignorada em Predadores), aparecem vários outros monstrengos e um pouco da sociedade. Agora, é revelado que os Predadores se dividem em castas. Os maiores caçam os menores (e os menores eram os astros de todos os filmes).
Uma coisa que Predadores sabe fazer é manter o ritmo alto. Sempre há tensão ou ação na tela e é fácil se importar com o destino dos personagens. A direção é segura e as cenas de ação nunca ficam um borrão confuso de corpos se debatendo. Os planos são abertos e a câmera não se chacoalha. O duelo entre o membro da Yakuza e um predador é uma cena belíssima, fortemente inspirada em filmes e animês de samurais. A veia pop do produtor Robert Rodriguez aparece no decorrer do filme, citando outras referências cinematográficas. Quando Royce fala “Say goodbye to your little friend/ Diga adeus ao seu amiguinho”, fazendo referência a Scarface, é impossível não soltar um sorriso.
Mesmo seguindo à risca alguns clichês, como os diálogos carregados de frases de efeito e as armas que nunca acabam a munição (exceto nos momentos mais dramáticos), Predadores faz isso muito bem e diverte. Muito. Brody se segura como um herói moderno e o filme acerta ao pegar os elementos que deram certo no primeiro filme e elevar tudo à máxima potência. Não é melhor que o clássico de 1987, mas coloca o Predador de volta no jogo.
POR: [Gerhard Brêda]
Bom
Encontro explosivo
| James Mangold (diretor)
Falar de Encontro explosivo, inevitavelmente, é deixá-lo em segundo plano e tratar principalmente de Tom Cruise e Cameron Diaz. Causadores de grande comoção numa visita recente ao Brasil em julho para divulgação, a dupla – que já se reunira em Vanilla sky - foi o foco de grande parte da imprensa ao tratar do longa (cujo título nacional é tradução genérica e pouco empolgante para o original Knight and day, como ocorre com 9 entre 10 filmes de ação lançados no país).
Tom Cruise, claro, esteve no centro, bem mais que sua partner. É o ator pertencente ao “A-list” hollywoodiano; o excêntrico seguidor de uma igreja que prega a existência da vida na terra graças aos aliens; o multimilionário astro de filmes idem que dispensa dublês em cenas de ação... Ele parece ter chegado a um ponto de sua carreira em que há o tipo Tom Cruise, modelo este que o ator parece mais do que satisfeito e seguro em seguir, após a aclamação em filmes como Magnólia e Jerry Maguire. Cameron, em um processo que já acontece há alguns anos, em filmes como Sorte e amor em Las Vegas, mostra - mesmo com todo o aparatos do culto à beleza de Hollywood - que não vem envelhecendo bem. Numa indústria cruel como a do cinema americano, ela provavelmente não vai ter mais muitas chances de fazer o papel da loira gostosa, usando um mínimo da atuação dramática (o tipo Cameron Diaz).
Como os dois são a razão do filme, pouco importa então que a trama soe esquizofrênica. Que vá, em questão de minutos, de Nova York para os Alpes, ou de uma escondida ilha nos trópicos para as estreitas ruas (e telhados) da Áustria e finalmente para a impagável corrida de touros em Sevilha na Espanha (e, curiosamente, não na cidade de Pamplona onde ocorre na realidade). Que trate de espionagem e também contra ela própria, falando de um magnético e bem humorado agente secreto em busca de uma bateria geradora de energia eterna, criada por um adolescente. E que também fale de amor perigoso e traição. Encontro Explosivo tinha todos os requisitos para ser um filme ruim. Para ser mais um veículo para seus protagonistas. Mas é bom. Graças à inovação alcançada através da inteligência de seu roteirista, cria algo consideravelmente novo dentro dos padrões já gastos do filme de ação e se torna um dos melhores filmes em cartaz.
Embora não seja nenhuma revolução, Encontro Explosivo reafirma uma grande habilidade do cinema americano de ação: criar cenas e situações de completo arrebatamento, que embora completamente absurdas (quem procura plausibilidade em um filme de ação?), parecem excitantes. Enfim, carros em chama voam de uma highway, enquanto uma pessoa armada se penduram no topo de um outro veículo em alta velocidade - ao mesmo tempo que mantém uma conversa pelo parabrisa com o motorista. O que dá também a inexplicável sensação de segurança, ainda dentro desta lógica e num filme deste orçamento. Sabe-se, pois, que, não importa o tamanho do pepino, sempre há um jeito, digno de Houdini, de escapar da situação(ou como os personagens do filme dizem: “usar Houdini hands”). Aconteça o que acontecer, Tom Cruise não morrerá antes do final.
É nesse humor charmosamente surreal que o filme ganha. Embora inove em alguns aspectos, outros são bastante bem definidas. Sugere uma figura de anti-herói, mas tem o esquema “bandidos (estrangeiros, óbvio) e mocinhos” bem demarcado. A concepção clássica americana do macho alfa violento, que vem desde os tempos de Steve McQueen, também marca presença.
Usando e abusando do vertiginoso duo calmaria/confusão, o diretor James Mangold demonstra versatilidade ao atacar - com segurança - a área dos filmes de ação, depois de passar com sucesso pela biografia musical, com o premiado Johnny and June, e pelo western, em Os imperdoáveis. O filme conta ainda com uma curiosa participação de Paul Dano (Sangue negro e Little Miss Sunshine). Capaz de impressionar mesmo sem a assistência do 3D, Encontro Explosivo é um bom filme com dois atores, que pareciam estar se divertindo muito nas filmagens . É a sensação que todo mundo vai ter ao ver o filme. Que é para se ver nas primeiras fileiras do cinema.
POR: [Daniel Passi]
Bom
Shrek para sempre
| Mike Mitchell
Com a propagação em escala mundial do cinema em 3D, os grandes estúdios travam uma verdadeira batalha entre si a fim de explorar diferentes possibilidades de formato e também buscando maneiras de reinventar antigos personagens no embalo dessa recente onda digital. A Fox criou um mundo completamente novo em Avatar, a Disney mergulhou em Lewis Carroll para buscar Alice no País das Maravilhas, enquanto a Pixar tirou novamente os brinquedos do baú em Toy story 3, os maiores êxitos do cinema tridimensional até o momento. Para acirrar ainda mais a disputa, a DreamWorks volta aos pântanos do reino de Tão Tão Distante para contar aquela que parece ser a derradeira história do carismático ogro verde em Shrek para sempre.
Quando foi lançado, em 2001, Shrek surgia como uma versão mal comportada de um conto de fadas, completamente às avessas de qualquer convenção. Era desbocado, sarcástico, não perdoava nem mesmo as histórias que nossos avós ouviam antes de dormir. Chapeuzinho Vermelho, os Três Porquinhos, o Gato de Botas, Pinóquio e até mesmo Matrix entraram na mira de fogo do monstro, que era então o ser mais temido de seu universo. Seu charme vinha dessa constante iconoclastia, um destemor que não conhecia fronteiras e cujo humor era fruto da inteligência com a qual lidava com a paródia. De modos rupestres, ríspido e sujo, Shrek estava para a Pixar, estúdio até então dominante do mercado das animações, assim como os Rolling Stones estão para os Beatles — um contraponto venenoso, de resposta atrevida.
Passados dois filmes e nove anos, onde os roteiristas destrincharam diversos cânones da literatura infantil e consolidaram a figura grotesca do ogro mundo afora, Shrek rende-se aos efeitos do 3D em um filme acomodado, bem diferente de sua dinâmica original e mais próximo dos manuais próprios ao gênero infantil. Domesticado, casado e pai de família, Shrek vê-se entediado com seu cotidiano banal e resolve fazer um acordo perigoso com o charlatão Rumplestiltskin, moleiro pobre das histórias dos Irmãos Grimm. Em troca de um dia de liberdade, com o direito de voltar a ser o instintivo e temido monstro do pântano que sempre foi, Shrek terá de abrir mão de um momento significante de seu passado, cujo resultado pode ser irreversível. Mais Sympathy for the devil impossível, não? Como não poderia deixar de ser, as consequências de tal aliança não são nada gratificantes para nosso herói.
Preservando o ritmo ágil e o humor sustentado por bons coadjuvantes, como o Burro Falante e os Três Porquinhos, Shrek para sempre flui agradavelmente e conjuga boas cenas de ação a um roteiro que consegue conciliar a crise existencial do protagonista com a fantasia de uma realidade inventada e repleta de figuras interessantes. As bruxas, por exemplo, carregam o mal em sua expressão e realçam a opção oportunista pelo 3D, que, a despeito das cenas de movimento incessante, não acrescenta praticamente nenhum elemento de vital importância para a narrativa, reduzindo-se simplesmente a um mero adorno. Mas não chega a ser um problema, já que o grande trunfo da franquia está mesmo no roteiro e na reconfiguração levemente subversiva que faz dos personagens principais.
Shrek para sempre, mesmo se distanciando do tom satírico que lhe fez fama e pendendo para a desgastada fábula moral, é um epitáfio digno da simpatia com a qual seus personagens nos fisgam já nas primeiras cenas, muito em função dos contornos com os quais são elaborados e também a partir de uma preocupação certeira com pequenos detalhes, como o simples levantar de uma sobrancelha ou a trava de segurança de uma carroça, que, no fim das contas, fazem toda a diferença.
POR: [Samuel Lobo]
Bom
Almas à venda
| Sophie Barthes
Almas à venda é o novo filme de Charlie Kaufman — o roteirista it que ficou famoso por escrever historias kafkianas em que o amor, o absurdo e o surreal se misturam — em todos os sentidos exceto um: este não é um filme seu. É curioso ver como o homem responsável pelas histórias de Adaptação, Brilho eterno de uma mente sem lembranças e Quero ser John Malkovich conseguiu fundar uma verdadeira escola de roteiro moderno — ou modernoso — para o cinema tornando-se ídolo imediato de 11 entre 10 jovens aspirantes a roteiristas.
Almas à venda na verdade é escrito e dirigido pela estreante Sophie Barthes, que, para um primeiro longa-metragem, faz um belo trabalho. A estrela é Paul Giamatti — o eterno coadjuvante de filmes como O resgate do soldado Ryan e O ilusionista e herói indie de filmes como Sideways e Um herói americano — interpretando ele mesmo. Ou melhor, uma versão dele mesmo como um ator atormentado pela montagem teatral de Tio Vânia, de Anton Tchekhov. Trata-se de um homem de meia idade em crise (papel em que Giamatti parece ter se especializado) que aproveita sua obscuridade, mas almeja uma realização profissional — para, logo em seguida, experimentar um alívio pessoal, pois, a seu ver, é algo impossível de ser alcançado.
Sophie usa aqui um jogo de autorreferência mista de realidade e ficção que faz ecoar Quero ser John Malkovich. Giamatti vê num anúncio de revista a possibilidade de exterminar suas inquietações: uma clínica que promete aliviar o sofrimento ao extrair, congelar e guardar a alma das pessoas. Ao perceber que sua alma foi extraviada para a Rússia — detalhe para a boa escolha dos cenários russos —, Giamatti embrenha-se no mercado negro de almas: compra, venda e tráfico internacional.
Embora Almas à venda seja um bom filme, curiosamente sofre da mesma mazela dos feitos de Kaufman. Após a curiosidade inicial com a premissa se esvaecer, o filme não consegue se sustentar com o mesmo vigor. Mesmo tendo uma ideia original, o que faz o longa se garantir é a força de seu elenco — que conta ainda com Emily Watson e com David Straithairn, indicado ao Oscar por Boa noite e boa sorte. Embora em Almas à venda o tom seja um tanto mais soturno e menos bem humorado — destaque para as cenas de humor negro envolvendo Giamatti e o doutor responsável pela clínica de extração de almas, vivido por Straithairn — que nas produções de Kaufman, o filme consegue alcançar momentos de um lirismo mais profundo e tocante. Fora isso, Almas à venda é uma boa opção para aprender como se escreve um filme contemporâneo alternativo.
POR: [Daniel Passi]
Excelente
Vittorio de Sica - Minha vida, meus amores
| Mario Canale, Annarosa Morri
A vida de uma das figuras essenciais da história do cinema ganha um leve e delicioso registro (quase) a sua altura. Baseado principalmente em imagens de arquivo de especiais para a televisão italiana, Vittorio de Sica - Minha vida, meus amores traça um perfil do ator, diretor e homem quintessencialmente italiano Vittorio de Sica, um dos responsáveis pela renovação do cinema pós-guerra e ganhador do prêmio especialmente criado pela Academia para coroar a excelência de seu Ladrões de bicicleta, precursor do atual prêmio de Melhor Filme Estrangeiro.
Usando o tradicional esquema depoimento/imagem de arquivo, o documentário poderia muito bem se encaixar como um extra de um DVD de algum de seus filmes. Através de testemunhos de familiares e colegas de trabalho, o clima geral é de merecida celebração. Mesmo ao expor suas fraquezas — como, via depoimentos dos próprios filhos, o fato de ter sido um pai negligente com duas famílias — o tom é leve e reverente. É abordado ainda o nada leve vício do diretor em jogatinas, mazela que o fez levar adiante projetos em que não acreditava totalmente, com resultados muitas vezes desastrosos, apenas para pagar as enormes dívidas contraídas nas mesas dos cassinos. Conta, em depoimentos do próprio de Sica, pérolas impagáveis — como quando foi parando estrategicamente em cassinos do litoral italiano e francês quando viajava com seu roteirista para a Espanha, onde apresentaria o projeto de um filme. Terminam sem o carro e esmolando para atravessar a fronteira.
O filme serve também para mostrar o inusitado começo de carreira do diretor de filmes densos, como Umberto D. — um homem de modos teatrais, que começou como um ator de comédia popular, ídolo das matinês. Este fato transparece em alguns momentos de sua filmografia, sobretudo no início e nas produções menores.
Recomendado até para quem nunca teve contato com a obra de de Sica, Minha vida, meus amores narra os pontos altos da carreira de um dos mestres do neo-realismo e é altamente ilustrado com cenas antológicas que se tornaram símbolo de toda uma geração do cinema. Dividido em pequenos capítulos, um é especialmente dedicado ao inesquecível duo Loren/Mastroianni, responsável por gravar o nome de de Sica na memória coletiva cinematográfica, com Girassóis da Rússia e Ontem, hoje e amanhã (Loren, no seu auge, é de uma beleza de tirar o fôlego). Há ainda curiosidades, como a participação de de Sica num bizarro filme de Andy Warhol sobre vampiros, rodado na Itália.
Chama a atenção a participação inusitada de atores que tiveram a chance de serem dirigidos por ele, como Shirley Maclaine e Clint Eastwood, convencido a fazer comédia pelo respeito que tinha pelo diretor e, segundo o produtor, por conta de seu pagamento: uma ferrari. Woody Allen, embora não tendo trabalhado com de Sica, aparece confessando sua admiração e incredulidade ao saber que de Sica assistiu a mais de uma vez seu segundo filme, Bananas.
Típico documentário que abre em poucas salas e sai rápido de cartaz, Minha vida, meus amores, porém, deve ser assistido nos cinemas, para se ver as cenas clássicas em toda a sua magnitude, mesmo que curtas de duração. Afinal, Vittorio de Sica - Minha vida, meus amores é mais que o retrato de um diretor. É uma verdadeira celebração da arte cinematográfica.
POR: [Daniel Passi]
Regular
Eclipse
| David Slade
Em termos diretos, Eclipse é o melhor filme da saga Crepúsculo. Isso não quer dizer que seja bom, mas quer dizer que a cada versão, a equipe por trás das adaptações aprende um pouco. Com ocasionais boas performances e cenas de ação, direção mais segura e tentativas de fazer humor, o filme se sustenta como um blockbuster decente.
Após os eventos que não mudaram muita coisa de Lua nova, o relacionamento de Bella (Kristen Stewart) e Edward (Robert Pattinson) está na mesma. O vampiro quer se casar e a moçoila quer virar vampira, mesmo a contragosto de seu pálido namorado. Por outro lado, o relacionamento de Bella com Jacob (Taylor Lautner), está deteriorado. O lobisomem está apaixonado e não aceita que a garota queira se vampirizar. É um triangulo amoroso melodramático, aonde tudo é exagerado. Todos os sentimentos são amplificados, o amor é grande, a dor é imensa e a saudade alucinante. Hormônios, pelo visto, também afetam os monstros.
A grande vilã do filme é a vampira Victoria (Bryce Dallas Howard), que deseja se vingar de Edward, matando Bella. No primeiro filme, o vampiro assassinou James, o amor de sua vida. Para isso, a ruivinha convoca um exército de vampiros para atacar a cidade de Forks. Por trás dos panos, os Volturi – aqui, liderados por Jane (Dakota Fanning) – podem intervir a qualquer momento.
Eclipse acerta em tentar se aventurar pelo humor. Uma pena que a direção não tenha, por vezes, o timing cômico correto. Em uma cena, Edward caçoa do fato de Jacob nunca usar uma camisa, mas a edição corta rápido e sufoca a chance de qualquer risada com o abdômen definido do rapaz.
O elenco é instável. Kristen Stewart entrega sua melhor performance como Bella e, no geral, faz um bom trabalho. Não é tão fácil detectar a garota abobalhada de Crepúsculo em Eclipse. Até mesmo o infame hábito de morder o lábio foi contido no filme. A cena na qual a garota tem uma conversa sobre sexo com o pai, Charlie (Billy Burke), é um dos pontos altos do filme e consegue arrancar genuíno constrangimento, mas pelos motivos certos.
Billy Burke, aliás, é o melhor ator do filme. Como Charlie, ele tem timing cômico e consegue se mostrar um pai protetor, mas não obsessivo. Em meio a tantos sentimentos fabricados e descabidos, Burke se destaca com sua atuação correta de um pai que ama a filha, mas entende as transformações da adolescência.
Já Pattinson e Lautner raramente conseguem arrancar boas cenas. Pattinson, quando suspende sua cara de cão abandonado, consegue trazer alguma simpatia para seu personagem. Lautner mostra sua limitação constantemente e é possível ver as engrenagens se movendo em sua performance, passando de feliz para irritado, circunspecto para irritado, irritado para enfurecido.
O dúbio troféu de pior papel, no entanto, vai para Dakota Fanning. A participação dos Volturi no filme é similar à sexualidade da franquia: ameaça decolar, mas, na hora da verdade, não vai a lugar nenhum. Ela e seus dois asseclas andam vagarosamente, com semblantes sérios, de um lado para o outro e não cumprem função alguma na história. Fanning foi longe demais em sua interpretação de vilã e simplesmente se transformou em um andróide sem sal.
A sexualidade, grande questão da série, se mantém nebulosa. Bella, ainda virgem, deseja se entregar para Edward, que recusa. O bom rapaz quer, antes de tudo o matrimônio. Só depois de colocar o anel no dedo e assinar a papelada, Edward quer fincar os dentes e outras coisas em Bella.
A estrela do filme, para aqueles que não suspiram quando Edward e Bella trocam palavras piegas de amor eterno, são as cenas de ação. E são muito boas. Pela primeira vez na tela, vampiros são atingidos com violência e é interessante ver que o papo de “pele de diamante” não ficava só nos poros brilhantes. Em vez de sangrarem, os sanguessugas trincam, racham e se despedaçam, como se fossem estátuas. Os lobos também receberam uma maquiagem e estão mais realistas do que em Lua nova. A batalha principal entre os Cullen e os novos vampiros é, infelizmente, breve, mas é um dos pontos altos do longa.
Socialmente, pode-se dizer que Eclipse faz um desserviço à modernidade, explicitamente colocando o sexo após o casamento em um pedestal, mas como filme, entretém. O romance é exageradamente teen, mas o arco final é genuinamente tenso e, no geral, arranca as melhores performances dos atores. Mesmo com o ritmo se arrastando lá pelo meio do longa e o melodrama nas alturas, não é insultante como Crepúsculo nem abarrotado de falhas como Lua nova. Eclipse não é sensacional, mas a série está crescendo, assim como os fãs.
POR: [Gerhard Brêda]
Excelente
Brilho de uma paixão
| Jane Campion
A cineasta neozelandesa Jane Campion tem o costume de filmar mulheres fortes, obstinadas. Em Um anjo em minha mesa, seu primeiro filme, retrata a história de uma mulher considerada esquizofrênica que supera obstáculos para se tornar uma escritora de sucesso; em O piano, o mais premiado e conhecido de seus trabalhos, Holly Hunter interpreta uma pianista que desafia o silêncio para se impor diante de um ambiente hostil e faz da arte seu único elo de ligação com o mundo exterior. Já Brilho de uma paixão, o primeiro longa-metragem que Campion dirige desde 2003, apresenta uma personagem feminina que enfrenta diferenças econômicas e sociais para ficar ao lado de sua grande paixão, o poeta inglês John Keats.
São as turbulências envolvendo o romance entre os amantes que dão o tom em Brilho de uma paixão, um filme adulto, repleto de sutilezas, que exige uma imersão por parte do espectador devido ao seu ritmo lento e contemplativo, empenhado em descortinar a nuvem sentimental que fomentou a produção literária do poeta, morto precocemente aos 25 anos. Os compassos de sua rebuscada poesia surgem em diversos momentos, cadenciando as rimas das estações interiores do casal e intensificando os dilemas que cercam um amor impossível, impedido de se consumar.
Alheia a arroubos estéticos e invenções de linguagem, Campion compõe um painel delicado para recriar o cenário da Inglaterra em que o Romantismo conhecia seu auge, e confere à narrativa elementos específicos à escola literária da qual seu protagonista fazia parte. A ligação com a natureza, por exemplo, marca várias cenas em que a expressão bucólica do ambiente é pintada como se fosse um quadro de pinceladas leves, onde os personagens contracenam com planícies floridas e espaços abertos que a belíssima fotografia elabora de forma a revelar o estado de espírito dos jovens amantes.
Acompanhamos, então, o encontro entre Fanny Brawne e John Keats — interpretados com naturalidade por Abbie Cornish e Ben Whishaw, ambos totalmente entregues às tormentas de seus personagens —; o florescer da paixão entre os dois (com um esmero particularmente especial no que tange aos diálogos desse momento, simplesmente saborosos); o surgimento de um amor que provoca os conceitos morais de uma sociedade rígida e o fim trágico, catalisado pela tuberculose que castigou uma existência errática marcada pelos excessos de uma passagem desregrada. Em uma época em que o amor era a mais libertária das formas de expressão, entregar-se a ele abertamente era a única maneira de acreditar que se pode criar poesia através da existência, simplesmente vivendo.
Nesse sentido, Brilho de uma paixão se aproxima de outro grande filme sobre a tristeza que o amor em excesso carrega consigo: Adele H, de François Truffaut, em que a filha do escritor Victor Hugo se vê condenada a vagar eternamente por caminhos errantes por não ter sido correspondida pelo homem que ama. Exaltando a sensibilidade dos pequenos momentos através de imagens líricas inseridas em uma atmosfera suave, Brilho de uma paixão faz uma elegia ao amor para revelar que nem os que amam demais escapam ao destino de ser tristes.
POR: [Samuel Lobo]
Excelente
O profeta
| Jacques Audiard
Finalmente eis um filme capaz de impressionar o espectador através de suas tintas pesadas e sua vibração ininterrupta e pulsante. O profeta é um exercício de complexa elaboração realizado pelo cineasta francês Jacques Audiard, que se apropria da máxima literária para confirmar o êxito de sua proposta — quanto mais difícil de escrever, mais fácil de ler. Em meio a um circuito exibidor que respira com dificuldade, carente de obras de expressão, O profeta surge como uma alternativa vigorosa cuja força depõe diversas pré-concepções consolidadas e constrói um personagem brilhante através da interseção entre máfia e polícia.
No início do filme, acompanhamos o árabe Malik El Djebena, um jovem arredio e amedrontado, em seus primeiros passos após ser confinado numa penitenciária. A intimidação do lugar, reforçada pelas manifestações de agressividade e intolerância por parte de seus companheiros, corroboram a noção que se tem acerca do sistema prisional como um lugar cruel e desumano. Mas bastam poucos minutos para que Audiard subverta nossas concepções e trace um painel diferenciado para seu protagonista. Analfabeto, Malik tem na cadeia a possibilidade de aprender a ler e escrever; solitário, encontra proteção e instrução para lidar com os perigos do ambiente que o cerca; subserviente, vai aos poucos adquirindo confiança até destituir hierarquias e se impor diante do seu universo, cercado de grades e muros com arame farpado.
Durante esse processo de fortalecimento individual, Audiard parece derrubar uma ideia viciada cuja solução para alguns se aproxima de uma utopia — a de que um preso é incapaz de se regenerar na cadeia. Em vez de afundar na ruína que o espaço que ocupa lhe reserva, Malik passa por uma metamorfose impressionante, responsável não só por regenerá-lo, mas por adaptá-lo a uma sociedade que desconhece fronteiras no que diz respeito ao cumprimento de leis. Da violência inerente ao cárcere, Malik subtrai forças para se reinventar, lentamente, com o ímpeto e a grandeza de uma personalidade no esplendor de sua formação.
A Audiard não interessa como julgamento de valor a conotação das atitudes tomadas por seu protagonista para concretizar seu processo de reconstrução — os fins justificam os meios. Para isso, a penitenciária, geralmente associada a um lugar claustrofóbico e opressor, ganha dimensões abrangentes e esparsas, em poucos momentos parecendo de fato uma prisão, com a intenção de contribuir espacialmente para a transformação de Malik (a maioria dos planos são abertos, criando uma sensação maior de mobilidade). O retrato desse microcosmo é apresentado através de uma narrativa vigorosa, que as divisões do roteiro encaixam de forma a enriquecer a intricada teia de personagens, todos eles pairando ao redor de questões ligadas ao crime, à vingança e às turbulências sócio-raciais existentes na Europa contemporânea.
Imprimindo um ritmo ágil e necessário para suas 2h30 de duração, privilegiado por cortes rápidos e secos, como das impactantes cenas de assassinato, O profeta solidifica a carreira de Jacques Audiard, conhecido do público brasileiro por meio de longas como De tanto bater, meu coração parou e Sobre meus lábios, como um dos mais notáveis realizadores franceses em atividade, e, de quebra, é desde já um dos grandes filmes do ano.
POR: [Samuel Lobo]
Bom
A jovem Rainha Victoria
| Jean-Marc Vallée
Excelente recriação da vida na corte num dos períodos mais importantes da história da Inglaterra — e do mundo — A jovem Rainha Victoria é um ótimo filme. De amor sem ser piegas, de época sem ser pedante e grandioso ou perder a face humana, o filme consegue achar um bom equilíbrio entre suas partes. Escrito pelo roteirista de Assassinato em Gosford Park, Julian Fellowes, a história narra a passagem do fim da adolescência para os primeiros anos de reinado da rainha Victoria. Usando artifícios técnicos como edição rápida e inovadores truques de câmera que não soam forçados — destoa, talvez, o uso desnecessário de um truque recorrente nos filmes de Spike Lee, de fazer o personagem parecer flanar em vez de andar — o diretor Jean-Marc Vallée consegue trazer frescor a uma estrutura clássica. A rainha aqui é Emily Blunt, e a estranheza de ver uma figura real diferente das imagens clássicas — a mais famosa uma fotografia tirada em 1887 onde se vê uma mulher austera, velha e acima do peso — é logo dissipada pela boa e sutil atuação da atriz.
No que diz respeito ao que mais ganha destaque numa produção de época, os figurinos, A jovem Rainha Victoria acerta em cheio ao não imobilizar os personagens em seus trajes. As roupas têm o seu lugar, não roubam toda a atenção, mas convenceram a Academia em 2010, levando o Oscar na categoria. Em parte isto se deve à trama ser ambientada na segunda metade do século 19, uma época já com um tanto menos de pompa e exuberância.
A história pode ser resumida a um conceito básico: não é fácil ser rainha. Em A jovem Rainha Victoria, encontramos paralelos claros com o filme de 2007 A rainha. Embora trate de dois períodos diferentes, ambos servem para mostrar como, devido à rígida criação e o distanciamento atrás dos portões do palácio, a figura da rainha da Inglaterra é a de um dos seres humanos mais isolados da Terra — tendo, além de tudo, uma nação inteira pronta para crucificá-la ao menor passo em falso.
Embora dê ênfase a acontecimentos um tanto supérfluos para aumentar a carga dramática, A jovem Rainha Victoria é uma arrebatadora história de amor. Contando os pormenores da união entre a rainha e o Príncipe Albert, fica bem claro também que monarquia e matrimônio não é a melhor combinação para um casal recém-casado. O filme talvez peque ao não mostrar inteiramente o cinismo e as picuinhas existentes na sociedade vitoriana da época, mas, por outro lado, não deixa estes elementos envenenarem a celebração do amor de um dos casais mais célebres da História.
POR: [Daniel Passi]
Bom
Toy story 3
| Lee Unkrich
Depois de mais de uma década de saudades, Woody, Buzz Lightyear e trupe, aqui acrescida de dezenas de novos personagens, fazem um retorno tridimensional emocionante. Toy story 3 não causa exatamente a mesma excitação que colocou a Pixar no mapa, lá em 1995, mas onde falta inovação, sobra uma boa história, recheada da nostalgia, leveza e simplicidade características da franquia.
Nesta continuação Andy tem 17 anos e se prepara para ir à faculdade — fato que tormenta as cabecinhas de plástico dos brinquedos. Tudo o que eles querem é entreter a imaginação de uma criança amável, mas um sótão sombrio e úmido — uma opção triste, mas palatável — é seu destino mais provável. Por engano, contudo, a mãe de Andy leva o saco preto recheado com nossos heróis de borracha para a creche Sunnyside (pelo menos não foi o lixo!). Chegando no ensolarado local, eles conhecem uma dezena de novos brinquedos e o ser estofado cuja voz fala mais alto por ali. O urso Lotso, aromatizado de, argh, morangos silvestres, explica que agora eles serão genuinamente felizes, servindo eternamente de brinquedos para crianças ávidas por diversão.
É por aí que o questionamento existencial começa a fervilhar os miolos siliconados de Woody, Buzz, Rex, sr. e sra. Cabeça de Batata, Porquinho e tantos outros. Eles não são mais os brinquedos de Andy. Sempre souberam, em suas juntas sintéticas, que em algum momento isso aconteceria, e então devem lutar por dignidade e sobrevivência. E é na creche, onde crianças sempre vêm e vão sem nunca envelhecer, que os bonecos de plástico podem encontrar algum carinho. Mas não é exatamente isso que Lotso, com um passado de perda traumático, tem a lhes oferecer, alocando a trupe na sala para pré-escolares — sinônimo de mordidas, babadas, membros perdidos e todo o tipo de tortura inocente.
Numa reviravolta, porém — sra. Cabeça de Batata esqueceu um olho em casa e consegue ver o que se passa por lá... — os brinquedos descobrem que Andy os procura avidamente em casa e decidem escapar da prisão comandada por Lotso e seus comparsas. Toy story 3 vira um filme de fuga de prisão, com todas as referências possíveis ao gênero. O 3D não faz nenhum peça pular no seu colo ou causa incômodo algum. Mas, como na maioria das vezes dos que aderiram à febre do verão americano, é completamente dispensável.
Toy story 3, porém, não é. O motivo que sustenta a animação, além dos milhares de dólares que certamente retornarão aos estúdios, é a forte ligação emotiva dos personagens, tão bem trabalhados. Trata-se aqui da história de um ciclo de vida, que tocou crianças e adultos em 1995, e sobrevive em sua segunda continuação, um tanto mais sombrio, por ser um fecho depois de tantos anos. O entretenimento, a leveza da distração, alcança os 90 minutos do longa, e não se propõe a enveredar em clichês heróicos ou tensões em ápices, comuns aos blockbusters. As risadas continuam lá e vêm naturalmente, seja de um Ken canastrão ou das peripécias de um Buzz mal configurado.
Entre conquistar nova audiência e não decepcionar os antigos fãs, hoje crescidos, Toy story 3 apela aos dois lados, sem desequilíbrio. Tanto os mais novos como os mais velhos tiveram seus brinquedos preferidos e já encararam algum tipo de perda ou escolha difícil. A mensagem fica bastante óbvia no final, o que poderia ser um tanto menos explícito, mas causa emoções genuínas por um monte de plástico. Sobretudo se o amontoado evocar o que descartamos em nossas vidas, com tanta facilidade, ou o que escolhemos deixar para trás, a contragosto. Isso faz parte do ciclo, inevitável como o dia e a noite, complementares, como o estúdio apresenta no espetacular curta Dia & noite, exibido praticamente como prólogo do que vem a seguir.
POR: [Marcella Huche]
Regular
A ressaca
| Steve Pink
A comédia dirigida por Steve Pink (em inglês, Hot Tube Time Machine) recebeu tradução para o português idêntica a um dos maiores sucessos do cinema de 2009 e já começa, portanto, com o pé esquerdo. A escolha peca não somente pela falta de criatividade, mas pelas inevitáveis comparações com o engraçadíssimo longa de Todd Phillips que, de longe, bate o filme deste ano na maioria absoluta dos quesitos.
A história traz três grandes amigos da juventude que – frustrados, em crise de meia idade e entediados com a própria vida – se encontram muitos anos depois e, após uma noitada de bebedeira, acordam em 1986, transportados no tempo por uma banheira de hidromassagem. Os fracassados tem então uma chance para reviverem o passado e , sobretudo, tentar mudar o futuro: um bom ponto de partida para o longa. A boa premissa, entretanto, rapidamente desmorona nos primeiros minutos do filme, que não consegue convencer com o roteiro fraco.
A história se desenrola com pouca ousadia e não é difícil prever onde cada cena desemboca. O ápice cômico está em Rob Corddry, muito bem no papel do Lou, um alcólatra descontrolado e festeiro que empenha-se em auto destruir-se. John Cusack (interpretando o ressentido Adam, deixado pela namorada), Craig Robinson (caricato na pele de Nick, marido fiel) e o jovem Clark Duke (Jacob, seu sobrinho nerd, fã de videogames) estão apenas convincentes em seus papéis, mas não surpreendem.
Algumas sequências (a maioria delas protagonizadas por Corddry) arrancam gargalhadas, mas no geral o filme não empolga pela comédia e muito menos pela história. Fica nítida, por exemplo, uma certa falta de coragem de se levar algumas ideias ousadas adiante e não é difícil sentir-se frustado ao final das cenas com o que elas poderiam ter sido: um possível erro de principiante do diretor.
Apesar de este ser apenas o segundo filme dirigido por Steve Pink (é dele a comédia Aprovados, de 2006), sua parceria com John Cusack é longa. Eles atuaram juntos, por exemplo, nas comédias Garota Sinal Verde (um dos primeiros filmes de Cusack, de 1985), Matador em Conflito (1997) e Os Queridinhos da América (2001): roteirizou os dois últimos. Pink também adaptou e co-produziu a adaptação da obra-prima de Nick Hornby, Alta Fidelidade (2000), protagonizada por Cusack.
POR: [Philippe Noguchi]
Excelente
Kick-ass: Quebrando tudo
| Matthew Vaughn
Kick-ass: Quebrando tudo abre com um questionamento interessante. Como é possível que em um mundo com 6 bilhões de habitantes, nenhum decida se tornar um super herói? Dave Lizewski (Aaron Johnson) não está satisfeito com isso. Com uma roupa de ski comprada da internet e dois bastões, o rapaz adota a alcunha de Kick-Ass e decide fazer justiça com as próprias mãos. Sua primeira missão, contra dois assaltantes, acaba mal quando o garoto é esfaqueado e atropelado. Dave se recupera, mas perde parte da sensibilidade. Origem mal explicada e implausível para uma vantagem contra os heróis? Parece uma história de super heróis se formando no horizonte.
Bem, não é. Mesmo com a alta tolerância à dor, Kick-Ass continua sendo um nerd que não tem perícia alguma de combate. O verdadeiro trabalho de fazer justiça com as próprias mãos (e facas, armas e granadas) está a cargo de Big Daddy (Nicolas Cage) e Hit Girl (Chloe Moretz), pai e filha, que buscam derrubar o império criminoso de Frank D’Amico (Mark Strong).
Kick ass: Quebrando tudo nada mais é que uma versão videoclíptica, geração MTV e punk rock de Watchmen, a obra prima de Alan Moore e Dave Gibbons (adaptada ao cinema por Zack Snyder). O que está na tela é: “Quão insano, incrível e hilário seria se existissem super heróis?”. Enquanto Watchmen encara a situação de forma dramática, sisuda e profunda, Kick ass mira na comédia e no choque, mas tem tanto sucesso quanto. Ver a garotinha Hit Girl, de 11 anos (13 na vida real) levar tiros, ser espancada, atirar e matar de forma brutal e acrobática é uma experiência que pode ofender os mais conservadores, mas é, no fim das contas, sensacional e divertidíssimo. A garota, que dispara alguns palavrões, rouba a cena quando aparece.
Outro que rouba a cena é Nicolas Cage. Finalmente. O ator, preso em papéis terríveis e atuações burocráticas nos últimos anos, já começava a caminhar para virar um clichê de si mesmo, mas em Kick ass brilha. No papel do vingativo (e certamente psicótico) ex-policial Damon McReary (e o vigilante vestido como o Batman, Big Daddy), o ator mostra doçura no tratamento com a filha, que treinou para se tornar a Hit Girl, e brutalidade com os criminosos. A cena na qual Damon atira na garota para mostrar como um colete a prova de balas funciona é impagável. A ação na tela é de violência extrema (um pai atirando quase a queima roupa na filha de 11 anos), mas os diálogos são mais doces que um torrão de açúcar. Brilhante.
Mark Strong também está convincente como o vilão Frank D’Amico, embora seja um papel sem muitas surpresas. É um gangster default, sem muitas firulas, feito como de acordo com o manual. O ator tem potencial para ser um excelente Sinestro em Lanterna verde.
O elo fraco do filme é Christopher Mintz-Plasse, que interpreta o filho de Frank, Chris D’Amico e o herói Red Mist. Plasse arranca gargalhadas da plateia, mais pelo lendário McLovin, de Superbad, do que por qualquer relevância na trama ou piada na tela. O personagem de Chris, especialmente no alter-ego Red Mist, nada mais é que um deus ex machina que move adiante o roteiro. Plasse é engraçado, mas infelizmente, não tem muito alcance de performance. O garoto vai ser, pra sempre, o McLovin.
Com bom ritmo, excelente edição e bons personagens, Kick ass é um dos filmes de super herói mais divertidos já feitos. Se o filme não ficar conhecido pelo herói principal ou pela garotinha com a boca suja e armada até os dentes, vai ser lembrado por ter o papel que trouxe a carreira de Nicolas Cage de volta à vida.
POR: [Gerhard Brêda]
Regular
Cartas para Julieta
| Gary Winick
A comédia romântica, uma das instituições-mór do cinema norte-americano, ganha mais um reforço para as suas fileiras. Quem procura os pilares básicos deste gênero em Cartas para Julieta sairá mais do que satisfeito. O espectador encontrará, óbvio, cenas de Nova Iorque (com a onipresente tomada inicial de Manhattan vista por cima), mal entendidos, trilha sonora bonitinha e pessoas mais ainda, olhares apaixonados, panorâmicas do interior de um país da Europa ocidental vista por olhos americanos e choque de culturas — ou melhor, coleção de estereótipos.
Se não encontramos o Hugh Grant propriamente dito, há aqui um forte candidato a sucessor do galã britânico — embora australiano de nascença, Christopher Egan apresenta todos os tiques necessários para se tornar uma estrela do gênero. Definição do clichê "filme de mulherzinha", Cartas para Julieta é, no geral, uma superdose de feromônio em todos os aspectos possíveis.
Sophie, a atriz/bonitinha Amanda Seyfried de Mamma mia e Meninas malvadas, é uma pesquisadora do New Yorker que sonha com a chance de se tornar escritora. Ela é fiancée de Victor, um latino freneticamente entusiasmado que se esforça ao máximo para parecer um italiano com seus trejeitos ora charmosos, ora uma espécie vulgar de Borat. Interpretado por um Gael Garcia Bernal completamente fora de seu elemento, Victor é um chef de cozinha ocupado em abrir um restaurante. Para tal, faz uma visita aos seus fornecedores em Verona, na Itália. Sophie acompanha-o no intuito de passar uma pré-lua de mel.
Uma vez lá, negligenciada pelo namorado e com tempo de sobra para turismo, conhece um grupo de senhoras que se ocupam de responder as cartas com dilemas amorosos deixadas sob a varanda da Julieta de Shakespeare. Sophie vê nesta atividade uma boa maneira de passar o tempo e resolve participar respondendo uma carta de Claire, datada de 1951. Alguns dias depois, Claire, agora uma avó e entusiasmada por ter recebido uma resposta mais de cinquenta anos depois, parte para a Itália acompanhada pelo neto (Egan) em busca de Lorenzo, por quem fora apaixonada na juventude. Sophie vê na situação uma ótima matéria para a revista: logo, todos saem Toscana afora, à procura de Lorenzo.
Já temos uma ideia bastante clara de tudo o que vai acontecer desde o começo da trama. Escrito pelo roteirista indicado ao Oscar por Diários de motocicleta José Rivera, não espere — com exceção de Gael Garcia Bernal e de grande parte do filme se passar numa estrada — absolutamente nada semelhante: este é mais uma produção saída das linhas de montagem dos grandes estúdios para agradar quase que exclusivamente as mulheres.
Se há um elemento que valerá, se não todo, parte do preço do ingresso, ele se chama Vanessa Redgrave. Com uma elegância atemporal, a atriz britância parece flanar sobre o resto do elenco, interpretando a senhora Claire. Cartas também ganha pontos ao reforçar a velha noção do cinema-entretenimento como uma das melhores formas de escapismo existentes: serve quase como uma viagem de 90 minutos por belíssimas paisagens do sul da Itália, para as quais a história nos transporta.
Com cenas "fofinhas", algumas emocionantes, como aquela em que Claire penteia o cabelo de Sophie — linda cena que parece se desprender do filme — e outras dolorosamente constrangedoras, como a chegada de Lorenzo, Cartas é quase um guia de como fazer uma comédia romântica. Se encarado no estado de espírito certo, que mal tem?
POR: [Daniel Passi]
Regular
A última música
| Julie Anne Robinson
Se faz muito tempo que você deixou de ser adolescente talvez desconheça a boa fama de Miley Cyrus. Filha do cantor country Billie Ray Cyrus, Miley é conhecida por seu papel como Hannah Montana, a menina que se dividia entre ser uma garota comum e também uma famosa cantora teen. Nada mais apropriado.
Da atual safra de estrelinhas da Disney, Miley é uma das mais bem sucedidas. Tanto que chegou a hora de ingressar em outro mercado, o dos romances adolescentes. Acompanhando as mudanças de seu público, a atriz-cantora encara agora conflitos mais adultos, ou talvez menos abobalhados.
Aliás, conflito é o que não falta na trama roteirizada por Nicholas Sparks — curiosamente roteirista de outro filme em cartaz: Querido John. Na história de Ronnie (vivida por Miley) aquilo que não é problema, é clichê: desde a ideia toscamente desenrolada sobre a preservação de uma ninhada de tartarugas marinhas até uma doença terminal, a mocinha ainda terá que lidar com preconceitos de classe, conquistar novos amigos e viver a dores e delícias de sua primeira paixão. O saldo disso tudo é a constatação da fragilidade do talento dramático de Miley.
Mesmo chamando Greg Kinner para representar a ponta forte do drama entre pai e filha, nem de longe dá para emular a simpatia da carismática família de Pequena Miss Sunshine. Pouca comédia e muito drama fazem de Ronnie uma garotinha blasé na maior parte do tempo. E quando o bicho pega, ela até tenta chorar, mas não convence. Fora isso, o ritmo condensado do filme deixa o roteiro com um jeitão robótico, e o projeto transparece toda sua natureza de comida congelada: compacto, industrializado e pouco temperado.
No entanto, nada disso é páreo para a arrecadação polpuda que o filme conseguiu em seu primeiro final de semana em cartaz nos EUA, o que leva a pensar que talvez os adolescentes criados à base de tanto fast-food e conservantes não tenham o paladar treinado para reconhecer as pequenas delicadezas que podem estragar o sabor de um filme. Ou, quem sabe, nada disso realmente importe e Miley Cyrus seja um símbolo do futuro do cinema.
POR: [Georgiane Euzebio]
Bom
Esquadrão classe A
| Joe Carnahan
A adaptação para o cinema de Joe Carnahan para a clássica série de TV americana da década de 80 é ação pop em toda a sua glória. O remake é um excelente presente para os fãs de B.A. Baracus, seu furgão e companhia; e uma grata surpresa para os mais novos que não conhecem esses excelentes personagens da cultura pop americana. São eles o ponto alto deste filme que desconhece a palavra "verossimilhança", mas tem compromisso com o gênero de ação e o apresenta em sua melhor forma.
O remake traz os mesmos personagens, com algumas mudanças. O esquadrão que era de veteranos da Guerra do Vietnã na série é transformado num grupo especial de combatentes da Guerra do Iraque e o furgão de B.A., numa caminhonete esportiva, por exemplo. Mas a história é praticamente a mesma da série, com uma pegada contemporânea: o Esquadrão, sabotado por um comandante do exército, é condenado à prisão por uma corte militar por um crime que não cometeu. Mas os homens escapam rapidamente da cadeia de segurança máxima e procuram provar que são inocentes.
Seguindo o padrão dos grandes blockbusters americanos, não encontramos em Esquadrão classe A um grande roteiro — todos (ou quase todos) os acontecimentos se desenrolam sem grandes explicações, em favor das sequências de ação de tirar o fôlego. O experiente Liam Neeson (que interpreta o líder do grupo, Hannibal Smith) comanda o quarteto entrosado de atores: Bradley Cooper é o galã fanfarrão Cara-de-Pau; o excelente Sharlto Copley encarna o piloto enlouquecido Murdock; e o lutador Quinton "Rampage" Jackson faz B.A., talvez o personagem mais popular entre os fãs da série. Todos, sem exceção, estão muito bem em seus papéis, com destaque para Copley. Jessica Biel também não deixa a desejar como a comandante Charisa Sosa.
A comédia, aliás, é outro trunfo deste blockbuster. A insanidade do grupo contrasta o tempo todo com as figuras dos personagens. Cara-de-Pau é um grande playboy que consegue sempre o que quer pela inteligência, enquanto B.A. é bruto e meigo ao mesmo tempo. Murdock rouba a cena (e gargalhadas) agindo no limiar entre o genial e o lunático. As cenas de ação são tecnicamente muito bem executadas e com bons efeitos especiais, ofuscando a trama que, embora seja interessante, acaba em segundo plano.
POR: [Philippe Noguchi]
MuitoRuim
Plano B
| Alan Poul
Bem fraquinha esta comédia romântica dirigida por Alan Poul e estrelada por Jennifer Lopez e o australiano Alex O’Loughlin. A trama do filme (se assim pode-se chamar) já não é das mais empolgantes. Gira em torno de Zoe (J. Lo), uma mulher de trinta e poucos anos encalhada que resolve começar uma família por si mesma e faz inseminação articial. No mesmo dia (claro) conhece apaixona-se pelo bonitão dos seus sonhos (O’Loughlin), que pouco tempo depois resolve manter o namoro mesmo descobrindo o “brinde” inesperado. Ok até aí.
Talvez o filme fosse somente mais uma comédia bobinha e divertida se não fosse o roteiro constrangedoramente ruim que lhe foi dado. Trata-se de um desastre completo. A primeira sequência do filme já anuncia o amadorismo. Na cena, Jennifer Lopez aparece deitada em uma cama de hospital com um terrível pensamento em off, na qual expõe o seu dilema com os homens e a vontade de engravidar. Golpe dos mais baixos. Entre tantas outras maneiras de se introduzir a história, o roteirista apela para a mais fácil.
Como toda comédia romântica padrão que se preze, não há trabalho para quem assiste, está tudo ali, mastigado. Resta, oras, a comédia, a salvação do gênero. O problema é que nela, justamente, Plano B falha miseravelmente. O longa se arrasta por 1h40min de piadas sem graça e chega a constranger com a falta de criatividade do roteiro, que não somente usa e abusa das velhas fórmulas como consegue piorá-las, tornando-as indigestas.
Apesar da total falta de química com Alex O’Loughlin, a atuação de Jennifer Lopez é quase o ponto alto (seria médio?) do filme, o que já é um indício de que algo está muito errado. No fim das contas, Plano B é um filme para contribuir negativamente com a carreira já um tanto infeliz de J.Lo no cinema e para afundar de vez a moral do diretor Alan Poul, que entrega a bomba como sua primeira incursão no cinema depois de uma carreira na TV.
POR: [Philippe Noguchi]
Regular
O golpista do ano
| Glenn Ficarra e John Requa
O golpista do ano é uma história sobre segredos. É deles que o protagonista da trama, Steven Russell (Jim Carrey), tira sustento, proteção e amor; é sobre eles que se equilibra a trama verídica amarrada por Glenn Ficarra e John Requa, também diretores, a partir do livro de Steven McVicker. Trata-se de uma comédia independente americana, sobre a vida real de um trambiqueiro gay, disposta a arregalar olhos e rasgar sorrisos irônicos, sem pesar o humor negro. Dispa-se de expectativas. Esse filme, como seu protagonista, se delicia em esconder segredos, trapacear, mentir e desafiar perspectivas.
As primeiras cenas do filme se desenrolam num ritmo frenético, capaz de fisgar o mais sonolento dos espectadores. Deitadas num campo verdejante do Texas, crianças investigam as formas inusitadas das nuvens no céu. Esse mesmo céu pueril, de nuvens castas e azul intenso, aparece como lembrete em diversas situações nos próximos 90 minutos — é ali que se esboça o paraíso e se delineia o limite de nosso carismático protagonista subversivo.
Do céu ao inferno. Numa das melhores cenas de O golpista do ano, o primeiro e mais cáustico segredo dos muito que perseguirão a vida do homem — Russell é adotado. Ali o jovem faz o juramento de ser a melhor pessoa do mundo. Entenda-se: um bom pai, um bom cristão, um bom policial e um ótimo marido para Debbie (Leslie Mann) — ser aceito, ser amado. Mas Russell é gay, e isso complica bastante as coisas para viver a novela da vida perfeita que armou para si mesmo. É esse o segredo que guardava em quartos escuros e viagens suspeitas, e que compartilha conosco, além de toda sua família, depois de um acidente de carro.
Russell vai então para Flórida viver a vida dos felizes e desimpedidos. Desfila um namorado bronzeado — no caso, Rodrigo Santoro, num papel que pouco aparece, mas tem grande importância para a trama — e todos os itens dourados de seu guarda-roupa em hotéis, restaurantes e tudo o mais que o dinheiro lhe permitisse. Ser gay é caro, logo pondera Russell, que passa a fazer alguns milhares aplicando golpes escusos em companhias de seguro. Numa dessas, o homem desliza e acaba preso, e o filme finalmente começa.
É na prisão que Russell cruza olhares com Phillip Morris (Ewan McGregor), um tipo loirinho, branquinho e sensível que dá nome, sensatamente, ao título do filme em inglês, I love you Phillip Morris. É sobre ele que gravita o resto da vida de Russell e do filme. Começam então alguns trambiques fortes, para ganhar a vida e manter Morris firme a seu lado. É praticamente inevitável conter a atração por um tipo tão cafajeste como Russell, que, da mesma forma que Frank Abagnale Jr., vivido por Leonardo DiCaprio em Prenda-me se for capaz, de Steven Spielberg, abusa da inteligência sem derramar um pingo de sangue — ok, uma só vez, e o ferido foi o próprio Russell — para escapar da prisão nada menos que quatro vezes.
Há o drama da sobreposição de segredos e mentiras de um sociopata; há o amor sincero entre dois gays presidiários; e há também comédia. Física, ao estilo de Carrey, ame-o ou odeie-o, e que não se sustenta sozinha, como acontece em alguns momentos pelo meio do filme. É justamente de frente a McGregor que as caretas caricatas de Carrey perdem a graça. McGregor tem uma atuação contida, brilhante, cuja força cresce a cada cena, fazendo a pretensa fragilidade e ingenuidade de Morris derreter-se filme abaixo, sobretudo num eletrizante tapa na cara lá perto dos créditos finais.
O golpista do ano — fica a dúvida de onde essa referência anual vem... — é muito mais um filme sobre amor e aceitação do que sobre gays. Há aqui rompantes de criatividade, sobretudo na montagem, que retalha a vida de segredos de Russell num constante movimento de passado e futuro; e nas referências estéticas, seja na bela fotografia de Xavier Perez Grobet, seja em signos cuidadosamente alocados pela trama, como o céu texano mencionado. Uma história surreal, bem dirigida e interpretada, faz de O golpista do ano um bom entretenimento, mas não trilha caminho além disso.
POR: [Marcella Huche]
Fraco
Ao sul da fronteira
| Oliver Stone
Oliver Stone talvez seja o mais político dos cineastas norte-americanos ainda vivos. A grande maioria de seus filmes denota uma linha de pensamento que se aproxima de uma tese, firmando uma posição fundamentada em conceitos que não raro analisam a condição dos Estados Unidos através de um ponto de vista crítico e feroz. Foi assim com Platoon, JFK, Nascido em 4 de julho e W., que reconstrói a vida e a carreira do presidente George W. Bush valendo-se de ironia e deboche para demonstrar insatisfação diante dos resultados de seu atrapalhado governo.
Em Ao sul da fronteira, seu mais recente filme, Stone se coloca diante das câmeras e dá continuidade à sua jornada questionadora através de um interlocutor adverso à política externa norte-americana, a Venezuela de Hugo Chávez. A partir deste ponto específico, o filme investiga os desdobramentos que a consolidação de governos de caráter esquerdistas ocasionaram na América Latina, intercalando entrevistas com Cristina Kirchner, Rafael Correa, Evo Morales e com o mais pop dos governantes do sul, Luiz Inácio Lula da Silva.
Adotando a usual parcialidade que marca o tom de sua cinematografia, Stone propõe uma visão simplista a fim de compor o retrato de seu personagem principal — Hugo Chávez é tratado como um visionário, a própria reencarnação de Simon Bolívar, e todo o esforço para corroborar essa ideia é propagado por meio de depoimentos auto-afirmativos do próprio presidente, de colocações lisonjeiras vindas de seus aliados e de cenas favoráveis à sua figura, como passeios públicos por Caracas e uma visita à casa onde passou sua infância. Interpostas entre tais elogios surgem cenas de noticiários americanos que atacam frontalmente a imagem de Chávez, taxando-o de tirano, ditador e assassino, adjetivos que a montagem faz questão de diminuir diante da postura de não-alinhamento do governante venezuelano.
Em seu caráter sociológico, Ao sul da fronteira comete o mesmo equívoco que critica em seus divergentes ideológicos — lança luz sobre apenas um lado da moeda. Enquanto vozes ressonantes vindas de estúdios de televisão configuram Hugo Chávez como uma ameaça global e são questionadas a todo instante, suas aspirações democráticas e socialmente comprometidas saltam aos nossos olhos diante da negação de seu governo à subserviência imposta pelo sistema capitalista. Chávez vira um herói da resistência. Tudo o que depõe contra seus princípios é definido como perseguição ou tentativa de golpe da oposição. E basta uma dose mínima de senso crítico para saber que não é por aí que a banda toca. Ciente das acusações que cercam o presidente, envolvendo violência, cerceamento da imprensa, prisões e autoritarismo exacerbado, o discurso de Stone logo se fragiliza e expõe a falta de intimidade que o diretor possui para lidar com o tema.
O filme evidencia a tal reinvenção da esquerda capitaneada pelo governo de Hugo Chávez, inspirado nos ideais bolivaristas, através do qual a Venezuela diminuiu índices de analfabetismo, pobreza, desnutrição e outras deficiências sociais, mas passa ao largo e faz questão de ignorar, numa ótica suspeita, o controle do Banco Central e da Assembléia Nacional por um mandato que se afirma democrático, e que também exerce a centralização do poder e mantém o domínio da indústria petrolífera venezuelana, a terceira maior potência em escala mundial. Tal desnível de informação faz com que o documentário chegue aos cinemas envelhecido antes mesmo de estrear, e certamente o aprisionará numa cápsula que o desatualiza a cada medida extrema adotada pelo ex-militar presidente, estas cada vez mais recorrentes.
Mas, e aos que esperam ver algo além de um tratado político na tela, sobra alguma coisa? Bem, o cinema de Oliver Stone sobrevive até hoje mais graças às suas concepções do que às suas qualidades enquanto cineasta, artífice de imagens. Não é difícil associar Ao sul da fronteira a um Globo Repórter achatado, limitado em seu padrão convencional e maniqueísta de abordagem rasteira e imediata. Orson Welles já dizia: "Um filme deixa de existir quando passa a ser veículo de uma mensagem". Para bom entendedor, as palavras de um autêntico mestre bastam.
POR: [Samuel Lobo]
Bom
Príncipe da Pérsia: As areias do tempo
| Mike Newell
Príncipe da Pérsia é um marco divisor na história do cinema pop. Longe de ser um grande clássico ou um cult incompreendido, a produção tem o mérito de ser o primeiro bom filme baseado num videogame, ainda que com sua cota respeitável de falhas.
Jake Gyllenhaal, com um físico bastante diferente do franzino Donnie Darko que o lançou, vive o príncipe Dastan, que nasceu plebeu, mas foi admitido na corte da Pérsia por sua coragem. Dastan tem dois outros irmãos, Tus (Richard Coyle), o primeiro na linha de sucessão, e Garsiv (Toby Kebell). A trama é uma das partes mais fracas e é o batido conto de um herói que precisa provar sua inocência diante de provas esmagadoras. No caso, Dastan é acusado de matar o rei Sharaman, precisa fugir dos irmãos e descobrir a identidade do verdadeiro assassino.
O elenco conta também com Gemma Arterton vivendo a princesa Tamina, numa performance que quase fica irritante, mas estaciona confortavelmente no “charmosa”. Ben Kingsley vive o enigmático irmão de Sharaman, Nizam, num papel óbvio e sem muitas camadas. Outro que faz uma ponta é o Doutor Octopus em pessoa, Alfred Molina, que age como alívio cômico no papel de um sheik trambiqueiro e ganancioso.
O maior mérito de Príncipe da Pérsia: As areias do tempo é capturar admiravelmente o espírito do game e traduzir a experiência interativa para a tela. Numa cena, quando o príncipe está invadindo o reino de Alamut, seu fiel amigo Bis passa os objetivos da missão. A câmera, tal qual faria em um game, viaja pelos alvos do príncipe (ou o jogador, caso o joystick esteja na mão), que precisa descobrir uma forma de cumpri-los. Esta mecânica, descobrir uma forma de chegar do ponto A ao ponto B com acrobacias, define a jogabilidade dos recentes jogos da franquia Prince of Persia, como Sands of time, Warrior within e The two thrones. O filme, aliás, parece pegar deixas no design de todos estes games, mas toma a correta decisão de não seguir fielmente nenhum deles. A história é coerente com o mundo do príncipe, mas não segue nenhuma de suas aventuras anteriores. Provavelmente a atenção à questão da atmosfera foi garantida pela presença de Jordan Mechner, o pioneiro designer da franquia, na produção do longa.
O príncipe de Gyllenhaal tem alguns problemas. O ator exala carisma e tem a aparência certa para o papel (ainda que a Pérsia do filme seja estranhamente caucasiana), com um sorriso nobre e humilde na mesma medida. Os problemas surgem quando Gylenhaal dispara um estranho — a princípio — sotaque britânico forçado e, mais grave, nas próprias falas. Está estabelecido no mundo dos games que o príncipe é sarcástico, com respostas tão afiadas quanto suas cimitarras, mas a escrita do filme precisa ser amolada. O esqueleto de boas frases de efeito está ali, mas raramente o príncipe dispara algo fora do comum ou genuinamente engraçado.
As cenas de ação são bem coreografadas, com muita ênfase em acrobacias. A edição é ligeiramente esquizofrênica e a câmera um pouco tremida, mas os personagens costumam ser distintos o bastante para que o espectador saiba quem é quem. No geral, os efeitos especiais não comprometem e só chegam a um nível constrangedor quando surgem as cobras controladas pelos Hassanssin, feitas em CG datado. Todo o mecanismo das Areias do tempo é interessante, ainda que pouco explorado, e se inspira apropriadamente em Prince of persia: The two thrones.
O primeiro passo está dado. Uma empresa gigantesca como a Disney colocou uma franquia de peso dos games como Prince of Persia sob suas asas e disparou um dos mais sólidos blockbusters da temporada. Os filmes baseados em quadrinhos já estão amadurecidos. Quem vai dar o próximo passo?
POR: [Gerhard Brêda]
Fraco
Marmaduke
| Tom Dey
Quem nunca viu (e pouco riu) de filmes infantis com animais fofinhos no meio, como Beethoven, Scooby-Doo, ou, até mesmo, Como cães e gatos? Marmaduke é um genérico de todas essas histórias juntas. E como se a carência de originalidade não fosse o bastante, o roteiro ainda mistura os piores clichês cinematográficos do gênero Sessão da tarde. Sim, quando se fala de clichê, pode incluir na lista o célebre Marvin Gaye e seu hit manjado de comédias românticas, Let’s get it on. Nem Gaye escapou de uma ponta nesta fraca produção canina.
Marmaduke é um personagem conhecido do público americano, criado pelos cartunistas Brad Anderson e Phil Lemming e publicado em tiras cômicas nos jornais desde 1954. Em sua estreia cinematográfica, o desengonçado Dog Alemão — alguém aí também pensou em Scooby-Doo? — vai com a família para a Califórnia após promoção de seu dono. A mudança faz com que ele precise se adaptar aos novos costumes da agitada cidade, além de tentar se encaixar em algum grupo social.
Paremos um instante. É esse um filme de cachorro ou um episódio estendido da extinta The O.C.? Quase. Principalmente porque o diretor Tom Dey (Bater ou correr e Showtime) colocou Marmaduke para assistir a um episódio do seriado para ter ideia de como funciona a vida californiana. Parece mesmo que Joss Schwartz resgatar sua antiga produção televisiva — há uma tomada externa de sol-praia-surfistas bronzeados ao som de California, interpretada por Phantom Planet. Nem o tema ficou de fora.
Marmaduke é para o público infantil, mas tenta usar uma linguagem mais "despojada". Não dá certo. No começo, temos o cachorro falando diretamente ao público, mostrando coisas óbvias e apontando de maneira precoce a falta de criatividade da produção. Por que não aceitar que as crianças realmente conseguem absorver as coisas? Fazer com que o personagem tenha que apresentar os demais e dar o gancho para o resto da trama já é batido e completamente desnecessário.
Até que o filme não se compromete (mais) ao tentar expor a questão da adaptação dos adolescentes sob a ótica canina (apesar de tudo, ainda é um filme de cachorros), e é possível esboçar algumas risadas em determinadas cenas. As representações sociais americanas, incansáveis em praticamente todas as produções, são bem exemplificadas. Nunca é fácil ser o novato numa cidade agitada e já dividida em grupinhos em plena puberdade. Marmaduke é o novato da vez e precisa conviver com os atletas (cães que jogam frisbee), os nerds (aqueles que aprendem truques), os vira-latas (excluídos), além dos "doidões" (talvez uma das melhores sacadas do filme) e, claro, os cães com pedigree, aqueles que reinam absolutos e representam a alta sociedade.
Quanto aos (de)efeitos especiais, alguns nem devem passar despercebidos pelas crianças, tamanha superficialidade. O ponto positivo, talvez, seja o fato de a "atuação" dos cachorros conseguir ser superior à falsa naturalidade dos "humanos". Sem esquecer as mensagens familiares, essas não podem faltar, Marmaduke é mais um, entre tantos, daqueles que valem pela reunião familiar e a pipoca. Mas Beethoven e Scooby-Doo não precisam se preocupar com a concorrência.
POR: [Juliana d’Arêde]
Fraco
Pânico na neve
| Adam Green
Desde que Alfred Hitchcock reinventou o conceito de suspense no cinema, em 1960, fazendo da trilha sonora elemento vital para a composição de uma atmosfera, nossos banhos nunca mais foram os mesmos. O assassinato no chuveiro em Psicose, emoldurado pelos acordes estridentes da música de Bernard Herrmann, mostrou a força que o aparato sonoro possui na sugestão de um ambiente aterrorizante, rodeado pelo perigo. Fechar os olhos no chuveiro passou a ser arriscado, muito em função da memória daquela famosa cena, em que violinos cortantes como lâminas afiadas agem como catalisadores de uma sensação permanente de terror.
Hitchcock pensou o som sendo um recurso para a narrativa, uma forma de contribuição às suas intenções. É um atributo potente, capaz de explorar níveis sensoriais que a imagem por si só não consegue alcançar. Pânico na neve também utiliza o aparelho sonoro como principal mecanismo para atingir o desconforto e incomodar o espectador, porém, opta pelo caminho fácil do susto simples e fugaz. É uma debilidade do cinema de terror atual, que sucumbe às possibilidades de invenção e praticamente outorga uma carta de sensações através do som. O truque é baixo: após o silêncio, um estrondo. Quantos filmes de terror você já viu assim?
A trama gira em torno de três jovens, que, após subornarem o funcionário responsável pela estação de esqui por uma última descida, ficam presos no teleférico em meio a uma montanha de gelo e precisam tomar atitudes extremas para salvar suas vidas. Diante de tempestades de neve e riscos de hipotermia, têm de conviver ainda com lobos selvagens e com as próprias diferenças sobre como lidar com a situação. É uma premissa que possui diversas formas interessantes de abordagem, mas o diretor Adam Green optou por conduzi-la pelos trilhos por onde passaram Jogos mortais e bastardos do tipo, filmes fundamentados na crença da causa e consequência, que realçam a preferência pelo sadismo e pela crueldade que os personagens merecem após um ato de corrupção social — neste caso, o suborno. É o velho aqui se faz, aqui se paga.
Através de resoluções que desvalorizam o ambiente hostil e se prendem à necessidade de chocar o espectador, expondo feridas e escoriações corporais a troco de nada, Pânico na neve coleciona uma sucessão de clichês de gênero que banalizam o suspense e não causam impacto algum. A trilha sonora, em certos momentos, sufoca o desenvolvimento do filme de tal forma que subjuga os outros elementos de cena à sua existência, tomando a narrativa para si e não correspondendo com o que é mostrado na tela. Um equívoco completamente saturado. Em Psicose, o som é construído através da densidade psicológica da obra. É um adendo, não o protagonista. E Pânico na neve faz o contrário: não importa o significado da imagem, desde que a sonoridade cumpra seu objetivo de causar espanto.
Não que a comparação seja justa, muito menos necessária, mas serve como forma de ilustrar um problema crônico em filmes recentes do gênero, prejudicados pela fragilidade com que os diferentes componentes da linguagem cinematográfica são organizados na narrativa, de forma a criar um clima de suspense — um suspense autêntico, impresso em tensão permanente, não esse frenesi passageiro que sentimos e que vai embora assim que as luzes se acendem. Mais vantajoso que assistir Pânico na neve é lembrar dos gritos de Janet Leigh durante o banho, ou então simplesmente arriscar fechar os olhos debaixo da água quente do chuveiro.
POR: [Samuel Lobo]
Fraco
Sex and the city 2
| Michael Patrick King
Carrie (Sarah Jessica Parker), Samantha (Kim Cattrall), Charlotte (Kristin Davis) e Miranda (Cynthia Nixon) alocaram os melhores modelitos na bagagem, subiram na garupa de um camelo e levaram o sexo a outra cidade — Abu Dhabi, no caso — mas as tiradas inteligentes, a diversão e até mesmo o bom senso ficaram perdidos em alguma esquina de Manhattan. Na segunda sequência cinematográfica, o quarteto fantástico apela para o feminismo descarado, a que nunca teve de se ajoelhar em seus seis anos de série para servir de algum tipo de voz, rouca, vá lá, para mulheres contemporâneas. Algo tristemente parecido com um musical de mau gosto, Sex and the city 2 se perde no meio do deserto do Oriente Médio, soterrado por excessos, clichês e estereótipos maldosos.
O início do filme pincelava tons promissores, voltando a 1986 para mostrar as meninas garbosas em jaquetas de couro e cabelos excessivamente volumosos. Mas já se poderia se suspeitar do que viria à frente quando Liza Minnelli coloca as pernas sexagenárias de fora — devidamente contidas numa grossa meia-calça preta, graças a Dior — para cantar All the single ladies, num casamento gay, com direito a cisnes e coro de cartola branca.
Os anos passam, mesmo para as quatro mulheres ricaças que deveriam ser tudo, menos ordinárias. A começar por Samantha, a melhor das quatro nesta segunda empreitada, que passa duas horas e meia sentindo os calores da menopausa e tomando 48 comprimidos para tentar voltar ao normal. Charlotte é agora mãe de duas filhas e, mesmo com uma babá em tempo integral, chora escondida no armário as dificuldades da vida do lar — inclusa aí a desconfiança sobre a linda babá irlandesa avessa a sutiãs. Carrie matuta sobre os votos matrimoniais, reclamando que o zilionário Mr. Big (Chris Noth) coloca os pés no sofá, assiste demais à TV e não vai mais para nenhuma festa. Miranda é uma workaholic, coagida por seu chefe sexista.
Entenda-se: é difícil a tarefa de segurar o interesse na vida completamente normal dessas mulheres quarentonas — ou de Samantha, cinquentona acalorada. Assim, só levando a trupe para Abu Dhabi, com custos pagos por um sheik bondoso chegado a Samantha, onde se abraçar em público é quase crime, para que as moças pareçam chocar alguém. A ostentação árabe beira o esdrúxulo (uma limo, um mordomo e uma suíte de US$ 22 milhões para cada uma) e é lá que começam as crises existenciais — Charlotte se descabela com um celular sem cobertura; Carrie reencontra o fantasma de Aidan (John Corbett); Samantha tem seus comprimidos mágicos confiscados; Miranda escora esse navio mambembe e está pronto o drama. Afinal, em Abu Dhabi é realmente crime se agarrar em público.
É nessa Abu Dhabi, em que aparentemente habitam nazistas da areia escaldante, que o quarteto sobe num palco para cantar I am a woman, momento mais constrangedor do filme. “O véu diminui a conta do botox!”, dispara Samantha. Carrie perde o passaporte e quase perdemos Charlotte em meio a contrabandistas. E a lista de preconceitos clichês pode crescer infinitamente aqui, citando burcas malvadas. Os melhores momentos ficam justamente nas cenas mais esposa-mediana-americana. Desde quando Sex and the city ficou tão longo e tão pouco divertido? É hora de trocar de loja.
POR: [Marcella Huche]
Bom
O escritor fantasma
| Roman Polanski
A obra de Roman Polanski é largamente vista como um exorcismo para os demônios que o afligem. É quase que impossível analisar a filmografia do genial polonês sem fazermos menção à sua atormentada vida. O que dizer, por exemplo, de MacBeth, de 1971, uma das mais sangrentas adaptações de Shakespeare para o cinema apenas dois anos depois da trágica morte de sua então esposa Sharon Tate, brutalmente assassinada por uma seita de fanáticos? Ou então de O pianista, uma de suas melhores obras, sobre um músico judeu nos guetos de Varsóvia durante a Segunda Guerra Mundial, tendo o próprio Polanski perdido a mãe no campo de concentração e, ainda criança, virar fugitivo dos guetos poloneses? Quão conveniente é então que O escritor fantasma (The ghost writer, no original), o 29º filme de sua carreira, trate do tema de um escândalo e suas repercussões, no ano em que seu nome — mais uma vez — volta a surgir com frequência nos noticiários mundiais por conta do caso, exaustivamente divulgado, com as acusações de que teria estuprado uma menor de idade nos anos 70.
Autoral, do time de diretores mundiais cujo nome virou grife, Polanski nos apresenta possivelmente o filme mais contido e correto de sua carreira. Neste suspense com fortíssimos tons hitchcockianos, Ewan McGregor faz o papel de um escritor fantasma — profissional contratado para escrever algo creditado a outra pessoa, prática muito comum no caso de autobiografias — cujo nome, com artimanha, não é mencionado em nenhum momento do filme. O escritor é escalado para completar as memórias do ex-primeiro ministro britânico Adam Lang (Pierce Brosnan), após seu antecessor no projeto ter morrido num obscuro suicídio. Agora vivendo numa luxuosa casa numa ilha ao norte dos Estados Unidos com sua esposa Ruth (a bela atriz britânica Olivia Williams) e sua equipe de secretários (incluindo uma participação da ex-Sex and the city Kim Catrall), Lang se vê envolvido num imenso escândalo político no qual ele é o principal acusado de crimes de guerra. Jogado no meio do furacão antes mesmo de começar o projeto, o escritor fantasma aos poucos faz importantes descobertas que põem sua vida em risco.
Embora elementos clássicos de sua obra estejam presentes aqui — como o isolamento claustrofóbico e a constatação de que ninguém é realmente confiável — a direção de Polanski é excessivamente distante e fria. Parece seguir à risca a cartilha clássica; tirando a linda cena final não há quase nenhuma inovação no uso dos planos e sequências. A trama peca por não se aprofundar de fato em nada do que se propõe. Como thriller político, envolve-se pouco na questão principal, que é até onde o governo americano vai para conseguir apoio para suas guerras — mais especificamente a guerra ao terror no Oriente Médio. Questão que, aliás, é um tema recorrente na Hollywood contemporânea, abordada no excelente Intrigas de Estado, filme de 2009 que guarda muitas semelhanças com O escritor fantasma, investigando os meandros sujos da vida política.
O filme também toca só superficialmente nos bastidores do que é o trabalho de um escritor fantasma. Como filme de ação, há pouca ação. Ou seja, embora a primeira metade do filme prenda a atenção do espectador com um crescendo de suspense, esta atenção é perdida num desenrolar arrastado pela falta de um foco definido.
Pierce Brosnan brilha no papel do ex-político com ecos de Tony Blair. Ainda destilando quilos do seu usual charme canastrão, porém sem se render ao pastiche de James Bond a que estamos tão acostumados, somos imediatamente atraídos por este personagem com uma atuação madura, irresistível. Ewan McGregor tem pouco trabalho em simplesmente ser Ewan McGregor — em cartaz também com o hilário Os homens que encaravam cabras. Embora utilize todo o seu usual arsenal de expressões, o ator consegue sustentar o papel principal. Além de Pierce, merece destaque Olivia Williams, que, interpretando o papel possivelmente mais complexo do filme, consegue expor um toque humano de fragilidade a uma personagem impenetrável num primeiro momento. Fique atento à participação do excelente ator britânico Tom Wilkinson — seu nome não é tão famoso quanto seu rosto — como um misterioso professor em uma clara referência ao clima dos filmes de Hitchcock.
O bom aproveitamento de O escritor fantasma é inversamente proporcional às expectativas de quem entra na sala de cinema. Como filme do Polanski, trata-se de uma obra menor, quase decepcionante. Como boa opção para uma ida à tarde ao cinema, um ótimo filme. Finalizando, uma curiosidade: como o diretor seria imediatamente preso se pisasse em solo americano, O escritor fantasma se passa inteiramente numa Alemanha que imita incrivelmente bem a paisagem do nordeste americano. O espectador não duvida em momento algum de que o que vê é de fato Massachusetts.
POR: [Daniel Passi]
Excelente
Olhos azuis
| José Joffily
Olhos azuis conta a história de Marshall (David Rasche), chefe do departamento de imigração americano, que no último dia antes da aposentadoria resolve se divertir à sua maneira, detendo um grupo de latino-americanos e expondo-os a situações humilhantes. Alcoólatra, com seus atos Marshall faz a noite tomar um rumo inesperado. Anos depois, usando como referência um vídeo dentro de uma câmera portátil, ele sai à procura de uma pequena menina por Pernambuco, contando com a ajuda da prostituta Bia. Este é um filme sobre palavras. Aqui elas agem como bombas e parecem ter o mesmo peso dos galopantes tambores de maracatu que abrem os letreiros iniciais.
Como uma grande lavação de roupa suja sem restrições morais, Olhos azuis nos mostra o ódio e o rancor ocultos de uma nação traumatizada pós 11 de setembro, representada pela figura de Marshall. Dirigido por José Joffily (Dois perdidos numa noite suja), ganhador do Festival de Paulínia de Cinema 2009, trata-se também de um filme sobre contrastes. Dicotomizam rico e pobre; claro e escuro; espaços claustrofóbicos e abertos. Não há hesitação em jogar o espectador de um lado para o outro, criando com essa agilidade uma intensa carga dramática.
Duas histórias acontecem paralelamente. Uma, em flashback, se passa inteiramente dentro do sufocante espaço do departamento de imigração de um grande aeroporto americano. Com uma iluminação fria e sons de vertigem ao fundo, a realidade é exposta de maneira crua. Para tal, Joffily lança mão de um tom documental, alcançando, porém, um nível de veracidade maior do que qualquer documentário conseguiria atingir. Talvez este seja o aspecto mais perturbador da obra — isto pode estar acontecendo neste momento, em qualquer aeroporto americano, e não há nada que possamos fazer.
Todos os personagens presos neste limbo são uma síntese, uma unidade representando um drama coletivo. Embora postos no mesmo saco latino pelos oficiais, fica clara cada particularidade. Temos o mestiço brasileiro que, saído de uma pequena cidade do interior, tenta a vida em outro país (impossível não vir à cabeça a imagem de Jean Charles); a dançarina cubana morena que mesmo conseguindo um visto cultural ainda assim é importunada por conta de Fidel; a equipe esportiva com traços andinos.
O casal de poetas argentinos é a inteligente escolha que o filme faz de não vitimizar ninguém: embora estejam saindo de Buenos Aires por não conseguirem grande aceitação de seus trabalhos, financiam sua ida traficando cocaína para os "viciados americanos", escondendo a carga dentro de seus livros (detalhe para o hilário título: Poesias y algo más).
Na situação de fragilidade em que todos se encontram, os viajantes são submetidos por Marshall - cada vez mais alterado pela garrafa de Jack Daniels que consome desde o começo do expediente - e sua equipe (uma negra e um descendente de mexicanos) a tormentos desnecessários. Em especial o brasileiro Nonato (interpretado com vigor por Irandhir Santos em cartaz com Quincas Berro D’água e como a voz do protagonista itinerante de Viajo porque preciso, volto porque te amo). Na escalada de acontecimentos que se seguem, o que vemos é a reação natural de qualquer ser humano exposto a abusos físicos e psicológicos, seja ele latino, americano ou árabe — a razão é deixada de lado, torna-se então uma bomba relógio ambulante.
Corta para os grandes espaços abertos de Petrolina. Da excessiva organização burocrática do aeroporto somos jogados para Recife durante o carnaval. Da iluminação fria e artificial, para a brutal luminosidade do sertão pernambucano. Agora com todo o lirismo de um road movie, vemos Marshall, doente e alcoólatra, buscar anos depois sua redenção, como em todo filme do gênero que se preze. Para isto conta com a ajuda de Beatriz (Cristina Lago), perfeitamente a imagem estadunidense de um país latino-americano — uma prostituta com um vocabulário importado do lixo cultural estrangeiro, abundância de shits e fucks. No emocionante desfecho da história, mais uma vez a força das palavras é celebrada, mesmo que aqui sejam as que não são ditas.
Embora todos os atores estejam no tom, é David Rasche quem mostra sem dúvida uma das melhores atuações de sua carreira. Pouco conhecido do público brasileiro, foi definitivamente uma escolha acertada. Destaque também para Frank Grillo que interpreta Bob, o outro oficial de imigração. Grillo e Rashe, ao pesquisarem para o papel em aeroportos americanos, alcançaram um realismo embasbacante.
Simbólico, Olhos azuis é um dedo na ferida ainda bastante aberta do preconceito que o fará ficar sentado na poltrona depois que aparecerem os letreiros finais. Um dos poucos filmes atuais que faz o que uma boa obra de arte tem de melhor. Isto é, ser um fomentador de discussões. Olhos azuis é um filme obrigatório.
POR: [Daniel Passi]
MuitoRuim
Deu a louca nos bichos
| Roger Klumbe
Houve um tempo em que os filmes que passavam na Sessão da tarde exerciam papel fundamental na formação das pessoas. Ligava-se a televisão após o almoço e lá estavam Jerry Lewis, Charlie Chaplin, John Carpenter, John Hughes e o infalível Tubarão, de Steven Spielberg, para inundar de delírio e fantasia o recheio cotidiano dos nossos dias. Muitos desses filmes eram ingênuos, inocentes e felizes até demais, mas correspondiam às necessidades do imaginário infanto-juvenil de dialogarem de igual para igual com o espectador, sem subestimar sua capacidade crítica ou diminuí-lo diante do que é narrado. O desrespeito a essa equivalência é a grande diferença entre Deu a louca nos bichos e os filmes que nos acostumamos a assistir nas longínquas tardes de verão.
Movido pelo desejo de alcançar um cargo de prestígio, um alto e sedutor salário e proporcionar o melhor para sua família, um ambicioso empreendedor (Brendan Fraser) muda-se com esposa e filho para uma distante área florestal — o objetivo é construir um pólo comercial naquele perímetro. Para isso, há de se desmatar uma imensa área verde e acarretar a extinção de milhares de animais nativos do local. Quando um guaxinim fica sabendo das intenções ali circunscritas, arquiteta, junto aos outros companheiros de selva, um plano para expulsar os líderes humanos que atentam contra a natureza e a preservação do lugar. Uma espécie de A revolução dos bichos em tempos contemporâneos.
O filme se constrói sobre a clara intenção de transmitir uma mensagem, como se fosse um divertido aviso de alerta, realçando a importância que a função social da moral pode ter ao final de uma fábula. Reflexo de dias politicamente corretos? Não haveria tantos problemas caso a crença nesse ideal de conservação fosse verdadeira, autêntica — e não é. Nem para uma criança de 5 anos, público alvo que Deu a louca nos bichos tenciona atingir. O humor não decola, as situações são caricatas, óbvias, desprezam a inteligência das crianças, e tal postura é equivocada em sua essência diante de uma geração que encontrou na suntuosidade de Avatar um interlocutor acerca de questões ambientais e ecológicas.
Rodado numa parceria entre estúdios norte-americanos e o Imagenation Abu Dhabi FZ, dos Emirados Árabes, pelo diretor Roger Klumbe (o mesmo de Segundas intenções), Deu a louca nos bichos soa como o resultado de investimentos de uma grande empresa no setor cultural como forma de atenuar sua parcela de emissão de gases na camada de ozônio — parece feito sob encomenda, da forma mais simplista possível. Óbvio e rasteiro, como que realizado para a desatenção da televisão, não honra seus antecessores de Sessão da tarde e tem a difícil tarefa de manter abertos os olhos das crianças diante de uma história mal e preguiçosamente contada.
POR: [Samuel Lobo]
Regular
Quincas Berro D’água
| Sérgio Machado
O cinema nacional sempre se entendeu bem com a literatura do escritor baiano Jorge Amado. Nosso maior trunfo em bilheteria pertence a Dona Flor e seus dois maridos, que, adaptado por Bruno Barreto em 76, permanece até hoje sendo o filme brasileiro que mais levou espectadores às salas de cinema — foram cerca de 12 milhões de ingressos vendidos. A escrita de Jorge Amado foi ainda determinante para a criação artística de Nelson Pereira dos Santos, Marcel Camus, Cacá Diegues e do também baiano Sérgio Machado, que se aventurou pelos becos estreitos de Salvador a fim de reconstruir o último dia de vida de Quincas Berro D’água, figura boêmia e irresistível cujo nome serve de título para seu mais recente filme.
Inspirado em A morte e a morte de Quincas Berro D’água, novela escrita em 61, a o filme transcorre após o falecimento de Joaquim Soares da Cunha, brilhante funcionário do Estado, cidadão exemplar e honesto pai de família, que, num rompante de insatisfação, abriu mão do conforto de uma vida programada e abraçou os prazeres de uma existência desavergonhada, entre vielas e doses de cachaça, para se tornar Quincas Berro D’água. Daí o duplo substantivo que intitula o livro. Uma morte simbólica para uma vida pacata; outra, física, para uma vida errante.
Enquanto a família burguesa luta para preservar em memória a honra e a altivez do cidadão Joaquim, os três mosqueteiros amigos de Quincas tencionam para o "campeão do falecimento" uma despedida festeira, esculhambada, que fizesse jus aos dias de glória e luxúria que passaram juntos nas ruas de Salvador. O tom solene e melancólico que Jorge Amado conferiu à história, ressaltando a nostalgia de tempos que se foram e selando uma ode à amizade, foi substituído no filme de Sérgio Machado por tintas bem humoradas, que se esforçam para reproduzir a riqueza da fauna urbana e a tipologia própria da Bahia, um lugar onde a literatura de seu mais popular autor fez cintilar o brilho de tudo o que ali vive.
O domínio com que o diretor configura visualmente personagens tão distintos e caracteres próprios de um local, de meretrizes e arruaceiros até mães-de-santo e suas celebrações religiosas, designa uma intimidade com aquele panorama social que já existia em Cidade baixa, seu filme anterior, e que se mostra mais nítida e bem trabalhada aqui. É compreensível. Tendo como protagonista um cadáver que se mantém passivo durante toda a narrativa — cuja voz e sorriso irônico pertencem a Paulo José —, praticamente um anti-personagem, situado no centro da ação sem nunca acioná-la, era necessário um investimento naqueles que o cercam para trazer cores e movimento ao mundo de Quincas Berro D’água. E é através desse entorno, recheado de piadas, tipos estranhos, humor popular, palavrões e sotaques pesados que o filme encontra seus melhores momentos e atinge a mesma força que o livro — ao compor o retrato de uma sociedade que poderia facilmente ser inventada, mas que a própria realidade tratou de construir.
Levando-se em conta o potencial contido nas armações da trama, tal qualidade, infelizmente, não é suficiente. Pautada por uma narrativa que dá pouco espaço à criatividade e que evita os riscos que a fantasia poderia lhe emprestar — apesar da sugestão que os animados créditos iniciais prefiguram — em muitos momentos temos a impressão de que estamos diante de uma minissérie compactada, bonitinha e ordinária, seguindo o manual formatado em Ó pai, ó, que se preocupa além do necessário com determinadas questões (os destinos de personagens secundários, por exemplo, que ainda arriscam uma singela lição de moral) e sofre revezes que interrompem o ritmo em função da decupagem relaxada de determinadas cenas. Tais vícios de linguagem passam bem longe da precisão literária com que Jorge Amado engendrou o texto original.
Entre tantas mortes e poucos feridos, banhado à cachaça e guardado entre seus erros e acertos, Quincas Berro D’água pavimenta o caminho para Capitães de areia, próxima obra do escritor a ser transposta para as telas, e mostra que, no que diz respeito ao diálogo entre cinema e literatura, a Bahia de Jorge Amado continua sendo a estação primeira do Brasil.
POR: [Samuel Lobo]
Fraco
Fúria de titãs
| Louis Leterrier
Fúria de titãs é uma grande aventura que não sabe ser uma grande aventura. A salada mitológica, que joga mitos árabes e nórdicos em uma carcaça grega, tem seu charme, mas no fim das contas, o filme faz mais coisas erradas do que certas.
O filme conta a história de Perseu, vivido por Sam Worthington, que segue sua carreira de papéis pouco marcantes em filmes de ação. O herói começa o filme como um pescador, que tem a família assassinada por Hades (Ralph Fiennes) e busca se vingar. Sem carisma algum, Perseu é uma folha em branco que nunca é preenchida, tem pouquíssimas falas e não tem destaque. Sua motivação perde força lá pela metade do filme e fica impossível de se importar com os sorrisos amarelos e rosnados de Worthington.
Hades, o deus do submundo, planeja soltar sua maior fera, o Kraken, na cidade de Argos se eles não sacrificarem a princesa Andrômeda. Fiennes entrega, em Fúria de titãs, a pior performance de sua carreira. Seu Hades é ridículo, caricato e nada ameaçador. A barba lhe caiu mal e tudo parece uma fantasia elaborada de Halloween. As falas são uma atrocidade à parte, com quase todas as baboseiras disparadas pela divindade sendo uma frase de efeito.
Soberano, no alto do Olimpo, Zeus observa seu irmão (Hades) punir a humanidade por sua insolência. O design da armadura de Zeus é um dos dez piores da história de Hollywood. Uma massa branca, brilhante e completamente ridícula adorna o corpo de Zeus, o que o deixa perigosamente parecido com um personagem do anime Cavaleiros do zodíaco. A ponta que o personagem faz como mentor de Perseu também é fraquíssima e patética.
Mas nem tudo é guerra. Lá pelas tantas, Perseu conhece Io (Gemma Arterton, em performance sem sal) e engata um anêmico romance, nunca consumado.
Os personagens são fracos, mas e a jornada? Mediana. Perseu sai de Argos ao lado de uma equipe de soldados, que vão morrendo como moscas no caminho. O destaque vai para Draco (Mads Mikkelsen, o Le Chifre de Cassino royale), que consegue brilhar mesmo em um papel tão bidimensional. Lá pelas tantas, em um verdadeiro deus ex machina, o grupo encontra os Djins, ex-humanos que se corromperam com magia e agora parecem feitos de madeira queimada. O único propósito dos Djin é mover a trama em determinados momentos, pois eles não adicionam peso algum na narrativa, simplesmente surgem do nada para resolver tudo.
As cenas de ação são medíocres, com cortes rápidos e muitos movimentos visivelmente coordenados por meio de cabos. A batalha final é a definição perfeita de anti-clímax. Ainda assim, é divertido ver o que a equipe de produção fez com os seres mitológicos. Enquanto o Pégaso e a Medusa são basicamente o que se espera, o Kraken assume uma peculiar forma humanóide com tentáculos.
O efeito 3D também não se segura. Ao contrário de Avatar, concebido e filmado em 3D, Fúria de titãs recebeu a tecnologia depois. Em decorrência disso, poucas cenas usam o efeito bem e ele geralmente piora a experiência, tornando cenas de ação confusas demais.
Fúria de titãs mostra que uma aventura não se sustenta sem bons personagens, arcos e trilha sonora. Fiennes e Neeson estão fracos em seus papéis e o filme não se esforça para conceber um roteiro interessante. No papel, a jornada de um homem para matar um deus é lendária. Na tela, nem tanto.
POR: [Gerhard Brêda]
Regular
Os homens que não amavam as mulheres
| Niels Arden Oplev
Não é todo dia que nosso circuito comercial recebe a estreia de um filme sueco, então, é fato que qualquer bom coração cinéfilo nutre (boas) expectativas a seu respeito. Acontece que — e é bem complicado estragar a surpresa assim, logo no primeiro parágrafo — Os homens que não amavam as mulheres é até correto, mas quase não surpreende.
A melhor chance que o filme tem para conquistar algum mérito no seu, no meu, no nosso coração, é assisti-lo sem conhecimento de causa, totalmente no escuro de todas as suas reverberações. Assim é possível se envolver com a trama e curtir as reviravoltas e descobertas que o casal de investigadores vai destrinchando durante o filme.
Aliás, a duração é outro ponto interessante sobre Os homens que não amavam. Prepare-se para duas horas e meia de mergulho no aquário da sala de cinema, atracado a uma história diretamente saída de um best-seller escrito pelo sueco Stieg Larsson, cuja trajetória pessoal pode ser confundida com a do protagonista deste filme, Mikael Blomkvist (interpretado por Michael Nyqvist) — um jornalista investigativo que expõe várias canalhices sobre industriais corruptos e pouco confiáveis. A revista Expo na qual trabalhou Larsson se transforma aqui na polêmica Millenium, única capaz de dar espaço ao que Blomkvist tem a dizer.
Antes de qualquer julgamento estético-cinematográfico sobre o filme, vale dar uma conferida na questão comercial: Larsson, o autor do livro, escreveu esta história dentro do que chamou de Trilogia Millenium. A temática dos três livros é a mesma, podridões escondidas nos porões da burguesia decadente e muita lavagem de dinheiro. Com faro fino para a equação trilogia + polêmica = grana, Hollywood já comprou os direitos de refilmagem de Os homens que amavam as mulheres e convocou David Fincher (pra quem não lembra, diretor de Zodíaco) para a função de dar forma a esta versão, na mesma perspectiva do que aconteceu com outro filme sueco bastante comentado, Deixe ela entrar, cujas refilmagens já começaram nos EUA. E — para o bem ou para o mal —este é o motivo pelo qual uma produção dinamarquesa-sueca-alemã tenha chegado até nós, gente bronzeada e latino-americana.
Para não estragar tudo falando da sinopse, basta dizer que este é um filme sobre os segredos e preconceitos que todos escondem, sendo que uns escondem melhor que os outros. Lisbeth (Noomi Rapace) é uma hacker contratada para devassar a vida de Blomkvist, o jornalista envolvido num baita quiproquó com um industrial peso-pesado. A partir de sua investigação descobrimos que o jornalista é o único na trama que não tem nada a esconder, fato que deve ser a projeção do autor sobre seu protagonista. Seguindo em frente, apesar de ter sido derrotado pelo industrial nos tribunais, Blomkvist é contratado para investigar o desaparecimento da sobrinha de outro ricaço sueco. Enquanto isso, na outra ponta da trama, Lisbeth tenta se livrar do oficial que cuida de sua tutela enquanto mantém certa obsessão por Blomkvist mesmo após o fim de seu trabalho sobre ele.
O diretor Niels Arden Oplev não deixa nenhuma trama paralela para trás, respondendo a todos os conflitos e causos mesmo que de maneira torta. Isso ajuda a entender a duração do filme, mas não a sua apatia, já que mesmo com a mistura de muitas questões polêmicas como racismo religioso, assassinatos, estupros e corrupção, Os homens que não amavam não consegue sair da bolha de tédio para explodir nossa cabeça.
POR: [Georgiane Euzebio]
Fraco
Robin Hood
| Ridley Scott
O fora da lei mais badalado da Inglaterra já rondou Hollywood muitas vezes, desde 1938, na pele de Errol Flynn, até 1991, quando foi vivido por Kevin Costner. Nesse, Ridley Scott tenta inovar, explicando o homem por trás do mito arqueiro, que rouba dos ricos para dar aos pobres. A saga de Robin Longstride termina, portanto, onde a maioria dos filmes de Robin Hood — sensatamente, descobrimos depois — começa. No meio disso tudo, 2h20 preenchidas por pouco carisma, muitos diálogos e excessivas explicações históricas sobre a Inglaterra do século 12, além de boas sequências de ação. Robin Hood, escolhido para abrir o Festival de Cannes, é uma história banhada em honra e lealdade, que, contudo, erra o alvo.
Robin é um dos arqueiros de maior destreza do exército de Ricardo Coração de Leão (Danny Huston), na época em que o rei morre na batalha que abre o filme — para o deleite de quase todos — repleta de flechas lancinantes, espadas rangentes e fogo, muito fogo (sobretudo aquele que vem de galões de óleo fervente). Por sorte do acaso, ou destino inevitável do herói, Robin e seus comparsas cruzam com uma emboscada feita à tropa que levava a coroa do rei morto de volta à Inglaterra, liderada por Sir Robert Loxley. Agora moribundo, o cavaleiro clama a Robin que entregue sua espada a seu pai Sir Walter Loxley, em Nottingham. Imbuído da honra e lealdade que lhe são inatas, Robin toma o fardo para si e segue com seus Merry Men para a cidade, onde conhece a destemida e bela viúva Lady Marion (Cate Blanchett). E, mais uma vez oportunamente, deve se passar pelo marido morto da moça — o que ele já vinha fazendo no caminho para evitar punição militar. Nessa trama, o vilão monotemático é Sir Godfrey (Mark Strong), que, embora aconselhe o jovem e inconsequente Rei João (Oscar Isaac), pretende mesmo é entregar a Inglaterra para a França. Essa extensa sinopse, já cheia de detalhes pouco empolgantes, é entregue no primeiro quarto do filme — e é a partir dela que a pré-sequência começa a ser mal delineada, com soluções de “puro acaso” do roteiro.
O Robin de Crowe é um homem sombrio, de pouquíssimas palavras, que carrega nos ombros um passado emocionalmente pesado com o pai e um sentido utópico de justiça. Crowe segue o tom do filme, desprovido de carisma e emoção — o que nos deixa pensando que Robin Longstride só virou Hood por mera sorte do acaso. Ao seu lado, Crowe tem a gloriosa Cate Blanchett, natural e encantadora na pele da viúva independente que carrega sempre uma adaga nas coxas. Em sua companhia, Crowe cresce e parece realmente passar por mais do que sua cara fechada gostaria de transparecer. Seria o coração do filme, mas bate tão fraco que mal pode empolgar a audiência, que deve se contentar com as duas grandes batalhas do filme, na abertura e na conclusão, um tanto atrapalhadas pela câmera trepidante e cortes excessivamente rápidos.
O elenco secundário é sub-aproveitado, talvez por tentar abraçar tantos personagens de uma só vez. Temos William Hurt como Sir William Marshal, conselheiro do antigo rei, homem de ética e lealdade, que usa até mesmo de um pombo-correio para ser um contraponto ao jovem e inconsequente Rei João. Mark Addy na batina do Frei Tuck é um alívio cômico nas arrastadas horas do filme, ao lado de João Pequeno (Kevin Durand), Will Scarlet (Scott Grimes) e Allan A’dayle (Alan Doyle). Quem mais brilha é o clássico Max von Sydow na pele de Sir Walter Loxley, sogro de Marion, cego e com uma queda por um bom vinho e boas palavras. É dele o personagem mais carismático desse frio Robin Hood.
A comparação com Gladiador, mais um filme em que Scott e Crowe selam parceria, é inevitável. O épico romano fatalmente sai na frente, com cenas frenéticas de (boa) ação e bons personagens que carregam tensão à trama. É exatamente este conflito que falta a Robin Hood, estático, frio e até mesmo entediante no meio de tantos, tantos acontecimentos. Scott tem um bom olho para filmes épicos e batalhas sangrentas, o que fica óbvio na bela fotografia de Robin Hood, onde o interior da Inglaterra e do País de Gales parecem mais belos que nunca. Mas, no fim, o que conta é uma boa história. E Robin Hood parece só uma longa aula de história.
POR: [Marcella Huche]
Regular
O preço da traição
| Atom Egoyan
Mentira tem perna curta, principalmente quando vem em dobro. A sinopse você já conhece muito bem — o marido é um professor universitário bonitão e a mulher desconfia que está sendo traída. Como resolver o mistério? Contratar uma prostituta para testar a fidelidade de seu conjugue. Sim, você já viu situação parecida. O preço da traição é uma refilmagem do original francês, de 2003, coescrito e dirigido por Anne Fontaine e estrelado por Fanny Ardant, Gérard Depardieu e Emmanuell Béart. A nova versão, comandada pelo cineasta egípcio radicado no Canadá Atom Egoyan (O doce amanhã e O fio da inocência), exibe o ar introspectivo e questionador usual do diretor, apesar da previsibilidade da trama, sob o roteiro de Erin Cressida Wilson.
Desta vez, Liam Neeson é David, um carismático professor que vive um momento conturbado em seu casamento com a ginecologista Catherine (Juliane Moore). A partir do momento em que a médica desconfia da fidelidade de seu marido, vê em Chloe (Amanda Seyfried), uma prostituta, a oportunidade para colocar as cartas de sua relação na mesa. Essa decisão suspeitamente esperta, contudo, pode modificar completamente a vida de sua família.
Mesmo com uma trama pouco diversificada, o filme consegue levantar boas reflexões, principalmente no que diz respeito à personalidade feminina. Os questionamentos da mulher madura, sua insegurança atrelada à cuidados com a estética são colocados para o público de maneira humana, porém pesada e arrebatadora. Tudo do ponto de vista de Catherine, médica bem-sucedida que vê a vida pessoal estagnada e sem perspectiva, presa a um marido possivelmente infiel e um filho adolescente rebelde, que se deixa levar por Chloe, uma garota misteriosa, excitante e de boa lábia.
O trio protagonista leva a trama com consistência e Seyfried mostra versatilidade para papéis mais fortes e maduros. Neeson é o retratado do homem cinquentão que construiu uma bela família e carreira, mas deixou o trabalho tomar conta de sua vida. Ao mesmo tempo, segue com seus conflitos internos, principalmente os do gênero masculino. Mas o grande destaque, sem surpresas, é a excelente Julianne Moore, que soube defender um personagem difícil e exigente com verdade e pura emoção.
POR: [Juliana d’Arêde ]
Excelente
Viajo porque preciso, volto porque te amo
| Marcelo Gomes e Karim Aïnouz
Experimentalismo e diário de viagem com tons quase antropológicos. Falando assim, muita gente vai torcer o nariz. Mas é só deixar de lado a preguiça para que a viagem de Marcelo Gomes e Karim Aïnouz se transforme numa experiência afetiva sobre as pessoas e as cores do sertão nordestino.
Através da utilização de diversos suportes para captação de imagens (16mm, 35mm, Super-8, câmera digital, máquina fotográfica) o filme propõe acompanhar a viagem de trabalho de um geólogo, cujo diário, além das anotações técnicas sobre as condições rochosas dos lugares onde passa, registra também a saudade aguda que José Renato trouxe na mala a respeito de uma certa galega. Como numa bonita — e sobretudo, brega — canção romântica, José externaliza as mais belas juras de amor e ódio por esta mulher que parece apenas uma ilusão, uma invenção da distância.
Depois de cair em si e negar o amor, o filme concede ao protagonista uma pequena bad trip, um tempo para desanuviar o coração e poder seguir em frente. À medida em que se afasta da amada, se aproxima do sertão. Logo o veremos transformado de viajante apaixonado em cientista descrente, que deixa de olhar só para dentro e passa a adotar uma atitude curiosa sobre o mundo lá fora. Atravessado por uma procissão em Caruaru, José é fisgado por uma nova paixão que é justamente esse produto afetivo que Marcelo Gomes e Karim Aïnouz gostariam, e talvez mais que isso, precisavam entregar ao público sobre esse pedaço de nordeste que esta na raiz do cinema (e da vida) dos dois, o primeiro, pernambucano, o segundo, cearense.
Em entrevista, Gomes relata que a viagem que deu origem ao material usado no filme foi fundamental para que ele pudesse contar a história de Cinema, aspirinas e urubus; já Aïnouz saiu daí para filmar O céu de Suely, e a sensação de semelhança e continuidade entre os projetos estéticos destes três filmes é claro. Dá até pra ir mais longe e propor que a prostituta entrevistada por José em Viajo porque preciso foi o start para o que viria a ser a Suely interpretada por Hermila Guedes logo depois.
Mas o grande barato deste filme é justo o fato de ter sido criado a partir do arranjo de um material totalmente fragmentado que só posteriormente ganhou um roteiro e se transformou nessa história sobre paixão, que é tanto digna de uma canção do Peninha quanto de um discurso antropológico. Das coisas mais inventivas do cinema nacional neste ano, vale a pena.
POR: [Georgiane Euzebio]
Bom
O mundo imaginário do doutor Parnassus
| Terry Gilliam
O mundo imaginário do doutor Parnassus é o último circo fantástico a emergir da mente atormentada de Terry Gilliam. Fatalmente um dos mais azarados e talentosos diretores da indústria, Gilliam se usa de alguns abracadabras, outros negócios escusos, paetês de todas as cores, sopros de fumaça e até mesmo um anão para nos brindar com seus mais deliciosos delírios. Trata-se da história de um homem imortal, profundamente humano, meio tolo e muito turrão, que ganha a vida oferecendo a seu distinto público uma viagem nas veias de sua imaginação. É também, e infelizmente, a última atuação de Heath Ledger, mas vai brilhantemente além disso.
Ledger morreu de overdose acidental em 28 de janeiro de 2008, no meio da produção de Parnassus. Desesperado ou inventivo, Gilliam não desistiu do filme e trouxe outros três grandes atores para preencher o papel vazio de Tony Shepard — Johnny Depp, Jude Law e Colin Farrell — entrando justamente atrás do espelho mágico de Parnassus, onde cada um é o que tudo pode ser, seguindo seus devaneios. Os três estão bem, mas o papel era mesmo de Ledger, que assombra todo o filme, impregnando-o com sua presença e energia. É um experimento, releva-se. Afinal, onde mais os quatro galãs dividiriam a mesma tela?
Parnassus (Christopher Plummer, deliciosamente irreconhecível) é um jovem monge, que, num encontro infortuito com o diabo — providencialmente chamado de Mr. Nick (Tom Waits, absoluto em cada fio de seu bigodinho) — aposta, e ganha, sua imortalidade. Dezenas, centenas de anos depois, Parnassus ainda carrega nos ombros os pecados de outra escolha — em nova aposta, daria sua filha a Nick quando ela completasse 16 anos, em troca de seu corpo jovem mais uma vez, para conquistar uma mulher. Parnassus está então fadado ao castigo que cavou para si, preso a uma espécie de teatro itinerante, onde oferece, vestido em trapos quase circenses, o tráfico das fantasias — e almas — de seus clientes. É pelas escolhas que tomam no mundo de devaneio que Parnassus ganha ou perde para Nick a alma do viajante. Ao seu lado estão sempre sua bela filha Valentina (Lily Cole), o baixinho Percy (Verne Troyer) e o jovem Anton (Andrew Garfield), que persegue cegamente o coração da moça até encontrar a concorrência de Tony. Pendurado pelo pescoço embaixo de uma ponte, esta é a primeira aparição de Ledger. Os três intrépidos não temem e salvam o desconhecido, de passado ambíguo, mas doces palavras.
Se Ledger pendurado pelo pescoço pode parecer contrastante com o restante do belo imaginário do doutor Parnassus, não se engane. Todo o mundo exterior ao espelho mágico do ancião é sujo, frio, úmido e escuro. O dinheiro é a força motora deste mundo real e a crítica de Gilliam está lá, pendurada diante dos olhos dos que perderam o tempo para sonhar. E, mesmo dentro do incrível mundo de Parnassus (ou Gilliam, vá saber), a ameaça de perder almas para Nick sempre ronda a áurea lúdica dos fantásticos cenários mentais.
O mundo imaginário do doutor Parnassus é absolutamente o mais estético dos filmes de Gilliam, o único membro americano do Monty Phyton. A mágica do diretor fisga o público pelos olhos, até porque o roteiro de Gilliam and Charles McKeown em dado momento começa a mancar (ou sentir saudades de Ledger, como seria o resto do filme com ele?) e não chega a fazer roer as unhas nos minutos derradeiros. Mas salvam as loucuras de um vale de sapatos de saltos altos, um mar de nuvens de algodão, escadas gigantes que logo se tornam pernas de pau, cabeças colossais e robóticas; é o novo mundo fantástico de Alice no País das Maravilhas que queríamos que Tim Burton tivesse recriado com propriedade.
Ledger à parte, a grande estrela de O mundo imaginário do doutor Parnassus é a própria imaginação incomparável de Gilliam. Desde já o filme avisa, "não se preocupe se não entender tudo de início", flutue na viagem fantástica e surreal do diretor. Doses de humor inglês, poucas explicações explícitas e uma estética desafiadora para quem se aventurar a atravessar o tal espelho.
POR: [Marcella Huche]
Regular
Querido John
| Lasse Hallström
Quem conhece as obras do escritor Nicholas Sparks sabe que ele é um dos mestres em fazer os leitores se afogar em lágrimas. Ilustrando em seus livros dramas da vida real com uma boa pitada de romance, Sparks se consagrou no gênero e também no cinema. Muitos de seus clássicos já foram adaptados, como Um amor para recordar, Diário de uma paixão, Noites de Tormenta e, agora, Querido John. E, se Sparks é um dos melhores para fazer os leitores chorarem com palavras, coube ao cineasta sueco Lasse Hallström a mesma responsabilidade. Para quem gosta do estilo do diretor de Chocolate (2000) e Um lugar para recomeçar (2005), pode preparar o lencinho.
Querido John conta a história de John Tyree (Channing Tatum), um soldado americano que se apaixona pela jovem estudante Savannah Curtir (Amanda Seyfried), durante uma licença de seu serviço. Juntos passam duas semanas de puro amor e companheirismo até que ocorrem os atentados de 11 de setembro e o rapaz é convocado novamente. A partir daí, cartaz vão e vem enquanto os pombinhos aprendem a lidar com um sentimento que cresce frente aos obstáculos. Mesmo sacando que o caminho certo era apostar nessa correspondência transatlântica, falta consistência na fluência do filme.
Como em toda a obra de Sparks, Querido John fala sobre amores quase impossíveis, embora arrebatadores. Quase sempre, pura ternura inunda e transborda até a temível hora do sofrimento. Mas, apesar de abordar uma questão ainda bastante delicada — os atentados de 11 de setembro — misturando a relação de dois jovens completamente diferentes que se completam, Querido John peca pela falta de ritmo e pela falta de expressão do mocinho. Enxugadas as lágrimas, a sensação é que algumas cenas poderiam simplesmente ser menores, quando são puxadas do poço pela força de Amanda, simplesmente maravilhosa. Mas só ela não basta.
Quem brilha mais, contudo, é o excelente Richard Jenkins, responsável por um dos momentos mais emocionantes do filme. Mesmo com poucas falas, sua expressão consegue passar tudo o que precisa para o personagem. A trilha sonora de Deborah Lurie e a fotografia de Terry Stacey conseguem passar a delicadeza e a sensibilidade das obras de Sparks com propriedade, angariando pontos técnicos para o filme.
Como uma adaptação de Sparks, Querido John deve agradar aos leitores e aos amantes do gênero. Para os demais, a produção pode vir a ser um pouco monótona, açucarada demais. Faltou o sal.
POR: [Juliana d'Arêde]
Regular
A hora do pesadelo
| Samuel Bayer
O sub-gênero de terror conhecido como slasher ganhou força nos anos 80, especialmente com três grandes nomes: Jason Vorhees, da série Sexta feira 13, Michael Myers, de Halloween e Freddy Kruger, de A hora do pesadelo. Nestes filmes, um grupo de adolescentes era dizimado, um a um, por um psicopata monstruoso e praticamente imortal. O remake de A hora do pesadelo, com o mesmo título, segue bem a cartilha do slasher. Uma pena que o gênero de terror avançou e o filme, visto hoje, soa datado.
Na trama, jovens começam a morrer misteriosamente enquanto dormem. Os que sobrevivem, descrevem um estranho homem, desfigurado por queimaduras, em seus sonhos, chamado Freddy. O mistério do filme é descobrir quem são os alvos de Kruger e o motivo por trás das mortes. O gancho é que os protagonistas precisam evitar cochilos, pois o psicopata habita apenas o mundo dos sonhos.
A premissa de A hora do pesadelo era criativa quando o primeiro filme foi lançado e envelheceu bem. É estranho, no entanto, perceber a gama de poderes que Kruger tem no filme. A primeira morte dá a entender que ele apenas tem o poder de controlar o corpo da vítima e fazer com que ela se mate no mundo real, mas, pouco tempo depois, o psicopata arremessa o corpo de uma garota nas paredes, antes de fatiá-la, do mundo dos sonhos para o mundo real, em um piscar de olhos.
Outra coisa que flutua em Freddy é sua personalidade. Nos primeiros filmes, Kruger era um psicopata ameaçador, mas, com o passar do tempo, se tornou um piadista, disparando trocadilhos e sarcasmo antes de eliminar as vítimas. No remake, o roteiro tenta equilibrar os dois, mas as piadas parecem forçadas e deslocadas, ainda que algumas tenham uma carga inegável de humor negro.
Jackie Earle Haley, o Rorschach, de Watchmen, encarna Kruger no remake, mas não é perfeito. A cena com Freddy antes de se tornar um monstro é sensacional e exibe muito do talento do ator, que, caracterizado em uma maquiagem excessivamente pesada, não consegue se expressar e apenas rosna frases de efeito antes de fatiar os pobres dorminhocos. Kruger é um dos ícones de maior carisma do cinema de horror, mas em A hora do pesadelo versão 2010, ele é apagado e inexpressivo.
Os protagonistas, por outro lado, são competentes, ainda que sigam fielmente a cartilha de vítimas em slashers. Eles seguem garotinhas assustadoras por corredores estreitos, se aventuram em quartos escuros e se recusam a admitir que algo estranho está acontecendo até que alguém exploda em uma bola de sangue diante de seus olhos.
Kruger está de volta. Com seu chapéu estiloso, suéter rubro negro e luva com garras, o ícone consegue sobreviver do carisma que conquistou em seus outros filmes. A performance de Haley é instável, especialmente quando está imobilizado pela maquiagem. Os sustos estão espalhados pelo filme, mas o gênero de terror já caminhou muito desde os slashers. De comédias românticas com zumbis (Todo mundo quase morto) a filmes que não mostram nada (Atividade paranormal), o terror acordou e deixou este pesadelo para trás.
POR: [Gerhard Brêda]
Bom
Tudo pode dar certo
| Woody Allen
Pop aos quase 50, Woody Allen transita em diferentes estilos, mas não tem jeito. Sempre revisita o que lhe reservou a marca na calçada da fama. Logicamente não é destaque, aqui, sua idade, mesmo com toda sua experiência. O profílico diretor estreia no Brasil mais um filme que já o leva rumo ao número cinquenta de obras feitas, mas sem o desgaste compreensível para tamanho fôlego. Tudo pode dar certo chega animando fãs nostálgicos do frescor característico de muitas de suas comédias com profundidade tangível, ágeis e verborrágicas.
O longa traz o comediante Larry David, criador de Curb your enthusiasm e coautor de Seinfeld, no papel do personagem central Boris Yellnikoff, um senhor culto e inteligente que absorve o mau humor contemporâneo. Lembrando trejeitos de Allen ator, Larry encarna um pessimista morador de Nova York, que expressa a todo momento suas opiniões sobre religião, relacionamentos amorosos, crises existenciais e frustrações, apresentadas por sua arrogância e impaciência. Alterego de Woody Allen, ou dos personagens de filmes do diretor — como muito bem cabe dizer —, Boris tem personalidade facilmente encontrada em longas como Noivo neurótico, noiva nervosa e Manhattan, por exemplo.
A vida do nova-iorquino ganha movimento com a chegada de Melody, uma jovem que fugiu de sua casa no Mississipi. Alojada por intromissão na casa do senhor que poderia ser seu avô, a personagem de Evan Rachel Wood é o oposto de Boris. Sem a instrução que muitas vezes a deixa fora de conversas intelectuais, a menina simpatiza com o homem que lhe dá abrigo e passa a aprender com ele (ou pelo menos se esforça muito). Melody é bem interpretada pela atriz que lhe dá ar ingênuo e doce, em contraponto ao estilo espevitado. A sagacidade entra em cena com a mãe da jovem, personagem de Patricia Clarkson. A mulher causa uma reviravolta no filme quando chega à cidade, mudando o rumo da sua vida e a do casal. Impressionante como Nova York é também personagem dos filmes do diretor. Aqui, as caricaturas, os estereótipos e os clichês são temas, objetos de risos.
Woody Allen provoca mais uma vez com temas nem tão chocantes, mas nem por isso, incapazes de chamar a atenção. A vida a três é uma delas — enredo que já foi visto em Vicky Cristina Barcelona. Mas não é assunto explorado a fundo, a ponto de causar polêmica. Em Tudo pode dar certo, só aparece como elemento de humor. Assim é todo o filme. Ao trazer personagens em cena dialogando com o espectador na sala de cinema, Allen brinca com um universo metalinguístico sem burocracias, sem intelectualismos. A inteligibilidade é ponto forte na comédia não superficial do diretor. Deixando de lado o tom dramático de Match point, O sonho de Cassandra e Vicky, Allen volta às origens. Tudo pode dar certo é previsível nesse sentido, embora surpreenda pela forma como o diretor consegue se manter com genialidade.
POR: [Monike Mar]
Excelente
Homem de ferro 2
| Jon Favreau
Robert Downey Jr. funde-se mais uma vez com o bilionário playboy Tony Stark para dar vida a Homem de Ferro. O segundo filme do herói da Marvel, dirigido por Jon Favreau, joga na lata os mesmo ingredientes que tornaram o primeiro filme um cult — tecnologia requintada, humor perfurante e ação explosiva — em doses consideravelmente mais prazerosas. Não tema, Homem de Ferro 2 é tudo aquilo que se espera dele, tão bom ou até melhor que o original que emplacou nos cinemas há dois anos, apontando para o amadurecimento do gênero.
Tirando proveito do fato de ser uma continuação, Homem de Ferro 2 pula as apresentações desnecessárias e começa do exato ponto em que o primeiro filme parou. Tony Stark é tudo, menos um herói convencional e, por isso mesmo, não se esconde sob uma identidade secreta. Downey Jr, mais uma vez, empresta as aflições que viveu há uma década ao personagem, cativante, leve, descontraído e muito humano, com falhas de caráter e vícios (alcoolismo, alfinetado nos dois filmes). Ao sair da sombra de sua armadura hiper high-tech, o playboy narcisista desfruta do melhor da vida, mas está sendo envenenado por sua fama, seu passado e até mesmo pelo disco brilhante que pulsa em seu peito, fazendo seu coração bater à base de paládio, algo nada saudável. No seu encalço, a pressão para entregar seu traje rubro e dourado aos militares e um desafeto do passado da Stark Industries, Ivan Vanko / Whiplash (Mickey Rourke), um físico que manda, da Rússia, seu ódio enegrecido por duas gerações. Doente e descontente, o bilionário entrega o comando de sua empresa a Virginia Pepper Pots (Gwyneth Paltrow).
Entre diálogos espetaculares e explosões em alta velocidade, Favreau não esquece de alinhavar uma boa trama, sob o comando de Justin Theroux. Além de Stark, Pepper e o coronel Rhodey (agora vivido por Don Cheadle, em boa substituição a Terrence Howard), somos apresentados a uma outra penca de personagens, todos meticulosamente delineados e em atuações encantadoras. Há Scarlett Johansson desfilando sex appeal num justíssimo macacão preto de couro, como Natalie Rushman (Viúva Negra), e um durão Samuel L. Jackson com um tapa-olho de respeito no papel de Nick Fury, líder da S.H.I.E.L.D. Os vilões arregalam mais os olhos. Mickey Rourke empresta a cara feia a Vanko, o único a deter a mesma tecnologia que Stark, que ora brada chicotes incandescentes, ora acaricia uma cacatua. Sam Rockwell encarna com perfeição o carismático Justin Hammer, um empresário que busca espaço na indústria bélica no vácuo deixando pela Stark Industries. Irônico, trava os melhores diálogos com Stark, soprando um quê do coronel Hans Landa, vivido por Christoph Waltz, em Bastardos inglórios.
Se o primeiro filme pecou nas cenas de ação, Homem de Ferro 2 se redime. Três grandes batalhas pontuam o filme, muito bem posicionadas e explicadas, sem gratuidade. Homem de Ferro 2 aquece em Mônaco, quando encontra pela primeira vez Vanko, mostra a batalha de armaduras, entre o herói e Rhodey, e o clímax final, na feira Expo Stark. A sequência traz ainda a esperada fusão do universo dos heróis da Marvel. Há referências a Capitão América, Thor, e Os Vingadores, segurem-se. A cena pós-crédito é hilária, mas não será exibida nos cinemas brasileiros, pois o filme só estreia uma semana depois nos Estados Unidos.
A qualidade de Homem de Ferro 2, além das explosões, ângulos abundantes e inusitados e as armaduras reluzentes, sustenta-se sobre os diálogos e interpretações afiados, orquestrados majestosamente por Favreau. Cresce Downey Jr., cresce Favreau e amadurecem os filmes de heróis, que contam com um roteiro quebra-tudo que qualifica os personagens e a ação.
POR: [Marcella Huche]
Fraco
Sonhos roubados
| Sandra Werneck
Sonhos roubados, de Sandra Werneck, é o típico filme brasileiro aclamado pela crítica. Pobreza, violência, prostituição, favelas, estupros e funk são o background de mais um longa brazuca que apela para fórmulas desgastadas pelo uso em excesso. É um filme baseado no livro jornalístico As meninas da esquina, de Eliane Trindade, sobre garotas que precisam se prostituir para garantir a sobrevivência.
O enredo traz três amigas pobres da periferia que se envolvem com a protutuição de maneiras diferentes, mas que convivem com a mesma realidade: famílias disfuncionais, gravidez precoce e falta de dinheiro. Jéssica (Nanda Costa) se divide entre o avô doente (Nelson Xavier), a filha pequena e os programas que tem de fazer para pagar as contas. Sabrina (Kika Farias) é sonhadora e se apaixona por um traficante da comunidade, com a ilusão de alcançar uma vida mais digna. Já Daiane (Amanda Diniz) é uma menina traumatizada com os estupros do tio (Daniel Dantas), que corre atrás da atenção do pai ausente (Ângelo Antônio).
A trama (genérica, mas com potencial) é apresentada de maneira superficial, um tanto gratuita. Embora o filme esteja sendo vendido como poético, não é bem o que se vê nas telas. Se há poesia em Sonhos roubados, ela é uma poesia ruim, que passa desapercebida. O enredo é fraco em essência: desenvolve-se a passos de formiga, ignora o conceito básico de clímax e não consegue escapar dos clichês mais previsíveis. É como se assistíssemos a uma eterna apresentação da vida ruim das meninas, com fatos que vão desencadeando ações, que por sua vez não levam a lugar nenhum. O final reticente do filme contribui ainda negativamente nesse sentido.
No elenco vemos, entretanto, algumas boas interpretações. Marieta Severo está bem no papel da cabelereira Dolores, que ajuda a pequena Daiane dando-lhe abrigo, ensinando-lhe a profissão e incentivando-a a denunciar o tio pedófilo. Tio interpretado por Daniel Dantas, que incorporou o personagem com sinceridade. MV Bill está convincente na pele de um presidiário que pede Jéssica em casamento após alguns programas da menina na cadeia e supera as (baixas) expectativas. Quanto ao trio de protagonistas, duas decepções e uma boa surpresa com Amanda Diniz, quase impecável para uma estreante no papel da traumatizada Daine. A dupla Sabrina e Jéssica não faz feio, mas fica aquém do que pode se esperar de um papel principal.
POR: [Philippe Noguchi]
Bom
A estrada
| John Hillcoat
Nos últimos anos dois filmes impactantes invadiram os cinemas com mais força de reflexão que os já costumeiros filmes-catástrofe: O nevoeiro, de Frank Darabont e Distrito 9 de Neill Blomkamp. Ambos lidam com o medo do desconhecido apoiados ainda pela construção de novos modelos de (co) existência e reorganização social pós-catástrofe, levando a pensar sobre os conceitos de moralidade e a fragilidade da presença humana sob a Terra. Agora é chegada a hora de A estrada levantar essa mesma bola.
Com roteiro baseado no livro de Comarc McCarthy — autor cujo livro homônimo deu origem ao classudo Onde os fracos não tem vez, dos Irmãos Coen — que foi aclamado pela crítica literária norte-americana e lhe rendeu até um Pulitzer, A estrada já chega exibindo seu pedigree dramático.
Através da saga de um pai buscando proteger seu filho, esbarramos em diversos limites e convenções que precisam ser descartadas para que a dupla permaneça viva num mundo devastado — e por que não dizer — morto! Após um cataclisma — que o roteiro não se interessa muito em explicar — poucas foram as formas de vida restantes e a sobrevivência daquele garoto (Kodi Smit-McPhee) ganha contornos messiânicos aos olhos do pai (Viggo Mortensen), cuja responsabilidade em mantê-lo vivo lhe dilacera lentamente. O garoto foi concebido antes da tragédia, e sua mãe (Charlize Theron) representou por um tempo o grande enclave da dúvida entre eles: vale a pena resistir a esta condição miserável? A possibilidade do suicídio é tema que vai e volta na trama, tornando o ar sempre mais pesado.
Canibalismo, tortura, assassinatos, roubos, abandono. São questões com as quais eles precisam lidar em sua jornada rumo ao sul do que um dia foi os Estados Unidos, já que o pai certamente não sobreviverá a mais um inverno. É um longo caminho para escapar da desumanização: a falta de banho, comida ou contato humano torna o pai cada vez mais endurecido, enquanto a bondade do filho apenas cresce.
Viggo Mortesen une sua capacidade para filmes de ação com uma atuação bastante emocionante. Já o roteiro deixa a desejar em vários momentos, como a má inserção de um merchan da Coca-cola que quebra a corrente de emoção que o filme constrói ou nas indiretas mal amarradas sobre o caráter de divindade que o garoto adquire ao longo do filme e são diretamente importantes para seu desfecho. Felizmente não são estas coisinhas miúdas que diminuem o recado que a história tem a passar.
POR: [Georgiane Euzebio]
Regular
Alice no País das Maravilhas
| Tim Burton
Se há um diretor em Hollywood aparelhado para uma viagem à toca do Coelho abaixo, é o imaginativo Tim Burton, extremamente aplaudido por contos fantásticos como Edward Mãos de Tesoura (1990), Ed Wood (1994) e Peixe grande (2003). Novamente em dupla com Johnny Depp e sua mulher Helena Bonham Carter, o diretor remexe nas histórias de Lewis Carroll e traz uma versão febril — em cores, mil deslumbramentos e três dimensões — mas fraca, com poucos espasmos de emoção, tensão ou suspense. Entre xícaras de esquisitices, colheres de tiques nervosos e grandes cubos de surrealismo, Burton traz Alice, 13 anos depois, de volta ao seu mundo encantado para um chá de poucas maravilhas.
Alice (Mia Wasikowska), a menina loira do vestido inflado e anil, cresceu numa mulher pouco convencional e muito avoada para o século 19, avessa a espartilhos e meias-calça, para apontar os menores dos delitos. A bela toma uma carruagem para uma chique festa aristocrata, que, ela desconhece, é onde será pedida em casamento por um pedante lorde ruivo, Hamish. É ali que volta a se encontrar, providencialmente, com o tradicional Coelho Branco, quem ela acreditou fazer parte de um sonho que a persegue desde a infância, e se enfia, mais uma vez, buraco abaixo.
A trilha de Alice no País das Maravilhas dessa vez, vale apontar, é outra. Quase todos os personagens antigos estão ali, é verdade, mas as peripécias da garota apontam muito mais para um filme de fantasia com requintes de ação, como Nárnia, que para um sonho onírico e experimental como o original da Disney. Na cabeça de Burton, Alice volta e se vê predestinada a salvar o reino da fantasia do domínio da Rainha Vermelha (Helena Bohnam Carter) — a louca de cabeça consideravelmente avantajada, entusiasta da decapitação — sem decepcionar seus amigos (?), os personagens excêntricos e, dessa vez, mais humanos, como o Chapeleiro Louco (Johnny Depp), o gato Cheshire (Stephen Fry) ou os gêmeos Tweedledee e Tweedledum (Matt Lucas).
O grande problema de Alice..., justiça seja feita, não é tanto de Burton, que entrega esteticamente o que bem se esperava dele, mas do fraco e antiquado roteiro de Linda Woolverton. A roteirista é queridinha da Disney, tendo assinado A bela e fera (1991), O rei leão (1994) e Mulan (1998), mas desta vez passeia pelos personagens extraordinários de Carroll ou as cenas meticulosas de Burton sem muita atenção ou profundidade. A heroína imaginativa pretensamente trava uma jornada pessoal, à cata de sua “muchness”. No início do filme, ela é uma menina obstinada, de gênio forte. Ao fim de 1h40, ela é a mesma menina obstinada, de gênio forte. Pouco é mostrado nos vários encontros de Alice, friamente calculados para entregar minutos de ação, para arregalar os olhos, ou de humor excêntrico, para relaxar a barriga.
Mesmo com a história girl power de Linda, magra para desenvolver o apelo dramático que o filme requer, os atores brilham. Destaque absoluto para a Rainha Vermelha de Helena Bonham Carter, simplesmente perfeita a cada grito estridente e/ou ordem esdrúxula. Ela vive entre a supremacia do poder e do amor, desamparada numa corte em que todos fingem ter uma anomalia para chamar de sua e transitar a compaixão nos privilégios da corte de copas. Do outro lado, a estranha Rainha Branca (Anne Hathaway) chega a assustar mais (num mau sentido) que sua irmã cabeçuda, com uma bondade irreparável entre gestos exagerados e dedos nervosos. Com pouco sucesso, Mia se esforça para encontrar uma nuance envolvente em sua Alice de uma nota só, mas parece ser a que menos satisfaz. Depp faz um Chapeleiro mucho louco, cheio de tiques e parecendo sofrer de algum tipo de distúrbio psicológico sério — os fãs, como sempre, provavelmente cairão de amores.
Não bastassem as falhas que carrega sozinho, Alice... também teve o infortúnio de ser o primeiro grande lançamento no encalço de Avatar. Burton escolheu filmar em 2D e converter seu material final para três dimensões, o que realmente soa como o último suspiro da “moda antiga” de se fazer cinema. O 3D aumenta o deslumbramento com o filme, que realmente se sustenta no visual, mas não é efetivamente indispensável neste Alice no País das Maravilhas.
Felizmente, o drama, ou a falta dele, não é tão comprometedor quanto parece. Esse deserto de tensão se mostra terreno fértil para a criatividade ímpar de Burton criar o mundo de loucuras (macabras ou fantásticas) que assolam o País das Maravilhas. Para levar seu espectador por seu enredo pouco imaginativo, Burton festeja um parque de diversões alucinante, numa viagem de visual impressionante, pontuada pela maravilhosa música de Danny Elfman. No fim, Alice... é um corpinho bonito — e em 3D!
POR: [Marcella Huche]
Regular
Rita Cadillac - A lady do povo
| Toni Venturi
Em mais de 30 anos de carreira, Rita Cadillac fez pouco mais que empinar o derrière tonificado. Arranhou cantar, interpretar. Mas sempre foi o rebolado seu ganha-pão. Em Rita Cadillac - A lady do povo, Toni Venturi encara a chacrete mais famosa de frente, derrete o mito, mas não explica o sucesso assombroso por trás do Cadillac. Exercício simples de linguagem documental, centrado nas lembranças da dançarina, o filme cresce pela força da personagem, cuja vida simples hoje interessa mais que o exotismo dos tempos áureos, sobretudo quando temperado pela lucidez gritante de Rita de Cássia.
O diretor de Cabra-cega e O velho encontrou o compasso perfeito para dosar as ambiguidades de Rita, ora Cadillac, ora de Cássia. Logo nos primeiros minutos do doc, uma senhora loira, com as raízes dos fios escuras expostas, de cabelos presos, vestindo moletom e calça de ginástica, prepara uma feijoada para a neta. É Rita, sem a fantasia que a consagrou e que vestiria mais tarde, frente às câmeras. Decote profundo e boas camadas de maquiagem depois, está montada a sensual Rita Cadillac — mas o mito dos anos 80 ficou perdido em algum lugar no meio do estica-puxa-e-pula da meia calça.
Mas a imagem de Rita, novinha, maiô de paetês colado corpo, dedinho a fazer o "roda, roda e avisa" não sumiria tão cedo. Venturi explora o sucesso da moça, nos shows internacionais, no programa do Chacrinha ou na peregrinação por prisões e garimpos do Brasil. O festejo da Lady do povo, entretanto, logo divide espaço com lembranças menos felizes da dançarina. Franca, absolutamente consciente de seu espaço na mídia, Rita disseca as portas que seu corpo lhe abriu — e as outras tantas que se fecharam por conta disso. É aqui que, pela primeira vez, fala publicamente sobre o ano em que se prostituiu para sustentar o filho, antes de qualquer fama.
Se até aí algumas lágrimas rolam, é com ainda mais lucidez que Rita analisa a declínio da carreira, que veio junto com a decadência (que forte!) do corpo. Para falar dos filmes pornôs, enxuga o choro e brada, "fiz por dinheiro mesmo, por que mais?". No vai e vem das perguntas, Rita fala dos anos enfurnada num colégio de freira e da menina criada pela avó esquerdista. A honestidade e a cumplicidade estão lá, assim como certas máscaras, evidentes nas cenas do casamento surpresa encenado para o então noivo, ponto alto do constrangimento cinematográfico (o noivo, vendado, pensa que é uma festa das Brasileirinhas, selo que fez os filmes pornôs de Rita).
O maior trunfo do documentário de Venturi é sua personagem, muito mais do que a construção de linguagem do diretor. É exatamente o formato tradicional, quase enfadonho, que ceifa voos mais altos da produção. O respeito com que Venturi retrata sua personagem invade as salas, mas é ainda mais forte o próprio respeito que Rita se impõe do alto dos seus 56 anos. O mérito do diretor é explorar, na edição, as contradições, profundamente humanas, da dançarina que povoou sonhos quentes nos anos 80 e hoje curte o sossego da vida de avó —mas ainda tasca beijos na boca de homens mais novos. Venturi despe a chacrete e retrata: nem alto clero, nem meretriz; nem rainha, nem plebeia. Rita é lady, do povo.
POR: [Marcella Huche]
Bom
As melhores coisas do mundo
| Laís Bodanzky
O cinema nacional rejuvenesce alguns anos. Se até então nossa safra era acusada de se apoiar unicamente sobre o tripé de comédias globais, documentários e dramalhões de miséria, As melhores coisas do mundo sopra o frescor da juventude. A ficção de Laís Bodanzky fervilha como os hormônios dos jovens retratados, ágil e moderno, abraçando os superlativos da idade com delicadeza e muito respeito. Trata-se da história de Mano (Francisco Miguez), um adolescente de 15 anos, que tenta se equilibrar nas próprias ideias em meio ao divórcio dos pais, a uma paixonite platônica e ao ciberbullying que o espreita nos corredores do colégio.
Para o roteiro de As melhores coisas do mundo, Luiz Bolognesi mescla as descobertas da série de livros Mano, de Heloísa Prieto e Gilberto Dimenstein, e cria uma história exclusiva. O adolescente que, ao lado do irmão (Fiuk), vê seu mundo ruir com a separação dos pais em termos, hum, estranhos, é comum — atormentado porque a primeira transa ainda não rolou, agarra-se ao violão (sua os dedos e contorce a cara para aprender a dedilhar Something para a garota mais bonita da escola) e esgueira-se pelo organismo vivo onde estuda. O colégio é um “BBB do mal”, define o rapaz, onde todos olham desconfiados por cima dos ombros, vigiando, controlando e, sobretudo, punindo os desalinhados — que têm seus deslizes cruelmente panfletados em blogs ou mensagens de celular.
Implicações éticas e exercício da cidadania — afinal, até onde vai a relação aluno-professor? Como lidar com as diferenças? — perpassam a trama com fluidez e leveza, destilados com sarcasmo por Mano. Além do roteiro consistente, As melhores coisas do mundo reluz pelo respeito cuidadoso com que trata o universo dos jovens, mergulhando nas aflições, gírias, códigos e ponderações púberes. Os flagrantes de realidade, por vezes, beiram o (bom) constrangimento de tão verossímeis. A culpa, de um lado, recai sobre o ótimo trabalho dos próprios jovens atores, Gabriela Rocha e Gabriel Illanes, que vivem Carol e Deco, os melhores amigos de Mano, todos rostos desconhecidos à exceção do galã Fiuk, filho de Fabio Jr. Por outro, sobre as dezenas de jovens que meteram a colher no roteiro, incentivados pela equipe do filme em rondas pelos colégios paulistas.
Laís faz um retrato colorido dos jovens de classe média, a ponto de, finalmente, ferver um filme nacional de amadurecimento – gênero já consolidado em outros países, os dramas de coming of age. As melhores coisas do mundo, sem estereótipos, maniqueísmos ou mesmo superlativos, conversa facilmente com seu público-alvo – até por e-mail, sms, redes sociais...
POR: [Marcella Huche]
Regular
Zona verde
| Paul Greengrass
O ator principal é o mesmo de Identidade Bourne. O diretor é o mesmo dos últimos capítulos da trilogia do agente desmemoriado. Até mesmo o pôster lembra os cartazes da trilogia Bourne. Zona verde, no entanto, não é um ágil e inovador thriller de ação, mas um atrasado filme panfletário anti-Bush, que sofre ao tentar equilibrar realismo, revelações bombásticas e ação desenfreada.
Matt Damon aqui é Roy Miller, um militar de alta patente na guerra do Iraque, caçando as armas de destruição em massa que Sadam Hussein teria escondido pelo país. Após algumas incursões frustradas em lugares apontados pela inteligência — que pega as informações de uma fonte conhecida como Magellan — Miller começa a desconfiar que existe uma conspiração. No meio do caminho, conhece o iraquiano Freddy, interpretado por Khalid Abdalla, e o veterano agente da CIA Martin Brown, papel de Brendan Gleeson. Freddy passa a ser o tradutor da equipe de Miller, enquanto Brown age como força opositora a Clark Poundstone, vivido por Greg Kinnear, que trabalha diretamente com o Pentágono. Brown quer trabalhar com o exército iraquiano e Poundstone quer desmantelar as Forças Armadas para colocar no poder um exilado iraquiano fantoche dos americanos. No meio da salada de personagens, surge uma jornalista do Wall Street Journal chamada Lawrie Dane, papel de Amy Ryan, interessada em descobrir a verdade por trás de Magellan.
Começa aí o primeiro problema do filme — trata-se de uma crítica direta ao governo Bush e às políticas que deram início aos conflitos no Iraque. Zona verde é, de certa forma, uma pequena síntese de tudo o que já foi abordado em relação ao conflito, tanto às armas inexistentes quanto a política americana de democracia forçosa. Zona verde seria um filme atual alguns anos atrás; agora, simplesmente soa datado.
Outro problema do filme é que os personagens não são particularmente interessantes ou carismáticos. A intenção de mostrar personagens mais realistas conflita diretamente com o tom conspiratório do filme, que aponta para algo à margem da realidade. Clark Poundstone é um vilão que necessita apenas de uma cartola e um bigode fino para cair no clichê máximo. O burocrata malvado que ignora as boas sugestões de Martin Brown e que, em vez de soltar uma gargalhada maquiavélica, dispara sorrisos amarelos pelos corredores da chamada zona verde — o lugar onde ficam as tropas e o alto comando da operação de guerra.
Miller é um dos papéis mais apagados de Damon, um personagem raso e desprovido de carisma. Não herdou nem mesmo alguns movimentos de luta de Jason Bourne. O destaque vai para Freddy, que por vezes se aventura na interpretação estereotipada e tropeça no roteiro panfletário, mas, no geral, é um bom trabalho de atuação de Khalid Abdalla.
O último elemento de Zona verde é a ação, que pode salvar ou matar o filme. Nem um nem outro. Apesar de ser bastante realista na primeira metade da produção, a sequência final é um tiroteio que faz jogos de videogame se constranger. Helicópteros explodem, AK-47s disparam rajadas e granadas estouram enquanto Damon corre pelos escombros urbanos devastados. O grande problema aqui é a filmagem e a edição. O estilo epiléptico da câmera somado aos cortes videoclípticos abala algumas cenas que, nas mãos de um diretor mais calmo, permitiriam que o espectador presenciasse melhor os tiroteios.
Zona verde é um filme mediano de ação. Não inova, não ousa, não impressiona, nem é uma sequência espiritual dos filmes de Jason Bourne. Personagens fracos e desinteressantes arrastam a produção, que suga seu tema das manchetes de cinco anos atrás. A zona pode ser verde, mas o tema já está mais que maduro.
POR: [Gerhard Brêda]
Fraco
O caçador de recompensas
| Andy Tennant
Depois de acertar (e bem) a mão com a ótima comédia romântica Hitch - conselheiro amoroso (2005), estrelada por Will Smith, Andy Tennant tenta repetir o feito com O caçador de recompensas. Mas falha retumbantemente. Ao contrário do ótimo timing apresentado em Hitch, com sintonia perfeita entre o trio Smith, Kevin James e Eva Mendes, O caçador de recompensas apresenta uma trama que mescla ação e romance, o que funciona até certo ponto, quando os clichês e a previsibilidade tomam conta do roteiro. O caçador mira, atira, mas erra feio.
Milo Boyd (Gerard Butler) é um ex-policial que se tornou caçador de recompensas e não consegue superar o fim de seu casamento. Até o dia em que descobre que a sua próxima missão é prender a repórter Nicole Hurly (Jennifer Aniston), ninguém menos do que sua ex-mulher. Mal sabia não ser o único a mirar na jornalista, que investigava uma matéria de um suposto suicídio, com suspeitas de envolvimento de policiais. Para conseguirem se livrar da barbada, precisam unir forças para sobreviver.
De fato o filme poderia ser mais uma ótima tirada de Tennant, não fosse pela extensão desnecessária da trama, tornando-a por vezes cansativa. A produção ainda consegue lascas dinâmicas e bonitinhas em determinados momentos, mas nada que prenda de forma consistente e original o espectador. Butler e Aniston têm uma excelente química, o que parcialmente salva esse dia de caça. Destaque também para a cômica Christine Baranski, como Kitty, a mãe da personagem de Aniston. Sem dúvidas, a melhor coadjuvante do filme, que roubou a cena em suas breves entradas.
Muitas indiretas e confusões por parte do casal protagonista aqui, algumas perseguições de carros — para variar — ali, personagens e atuações caricatas para complementar e O caçador de recompensas acaba como um filme leve e bobinho, um ótimo passatempo a quem precisa de ajuda para se entediar. Para quem se entusiasmou com o trailer, fica a dica que aqueles dois minutos e meio são mais atrativos do que as quase duas horas do longa.
POR: [Juliana d'Arêde]
Bom
Vidas que se cruzam
| Guillermo Arriaga
Para quem conhece Guillermo Arriaga de sua parceria com Alejandro González Iñárritu (Amores brutos, Babel, 21 gramas), este título, preguiçosamente traduzido como Vidas que se cruzam, serve como etiqueta ou atestado de que em seu primeiro trabalho como diretor Arriaga continua seguindo pela mesma linha narrativa que o tornou conhecido. O que não deixa de ser uma verdade, mas também impede que os espectadores mais atentos sejam surpreendidos pela trama de The burning plain, no original.
Se você é daqueles que conhece bem os códigos narrativos do diretor, pode tentar desvendar os pequenos mistérios que vão surgindo, em doses reguladas e espalhados ao longo da história, de modo que em determinado momento da trama estejamos diante de apenas um único e grande ponto de conflito. Desta vez, contudo, Arriaga introduz uma novidade na organização do roteiro — se antes sua marca era a de mostrar várias histórias individuais que entram em choque; agora, ao contrário, vemos uma única história contada a partir de um corte no tempo, aquele que separa a história vivida por Mariana (Jenniffer Lawrence) da vida de Sylvia (Charlize Theron).
Existe um dado simpático no trabalho de Arriaga — a presença constante de seu México natal, seja como palco para a trama, seja com um coajunvante perdido no deserto. O que inicialmente pode ter sido encarado como charme e força exótica, hoje se enquadra naturalmente nas histórias contadas pelo diretor. Aliás, é possível até fazer um paralelo entre a linha de comoção latina, suada e sangrenta explorada em Amores brutos — seu primeiro trabalho — com a atmosfera mais enxuta e menos marcada por elementos visualmente reconhecíveis como melodramáticos de Vidas que se cruzam.
Para quem andava saudoso de ver Kim Bassiger nos cinemas, agradáveis são as surpresas. E, para não usar a velha piada da panela velha com comida boa, dá para dizer que além de ainda muito bela lá do alto de sua loirice platinada, Kim tem ótimos momentos como uma dona de casa que vive um amor proibido.
E esse blá blá blá todo, que disse muito sem contar nada sobre o que de fato acontece por lá, serve só para manter o suspense, já que o filme guarda surpresas que uma resenha como esta não merece estragar.
POR: [Georgiane Euzebio]
Bom
Uma noite fora de série
| Shawn Levy
Shawn Levy pode ter encontrado o caminho para a sua (quase) redenção na comédia. Após algumas fracas tentativas, como A pantera cor-de-rosa (2006) e os dois filmes da série Uma noite no museu (2006 e 2009), parecia que o timing cômico do cineasta, que agradou muito com Recém-casados (2003), estava longe de nos dar o ar de sua graça (com o perdão da expressão). Mas eis que Levy tem a brilhante ideia de juntar dois dos maiores comediantes do momento nas telas de cinema, com muitos carros, tiros e questões conjugais. A química entre Tina Fey (30 rock) e Steve Carrell (The office) em Uma noite fora de série é absoluta, resultando numa explosão de entretenimento e algumas gargalhadas.
Phil (Carrell) e Claire (Tina) Foster são, como eles mesmos se denominam, um casal insosso da classe média de Nova Jersey. Dominados pela rotina de dois filhos, trabalho e tarefas domésticas, eles não se permitem mais aqueles momentos carinhosos de início de relacionamento, penetrando numa total inércia e comodidade. Até o dia em que, impressionados com a separação de um casal de amigos, Phil e Claire resolvem dar uma esquentada na relação e decidem sair para jantar fora. Mas o que era para ser uma noite romântica se transformou num verdadeiro pesadelo quando Phil resolve pegar a reserva do restaurante em nome de outro casal. Quem poderia imaginar que os Tripplehorns estavam envolvidos numa chantagem e sendo perseguidos por bandidos?
A partir daí, o que segue é uma trama divertida e despretensiosa, liderada pelo talento cômico inegável de Tina e Steve. A dupla de atores nos proporciona momentos simplesmente impagáveis, como a perseguição de carros e a dança erótica, por exemplo. Junto a isso, as participações de outros personagens no desenrolar da história são adições muito bem-vindas. Destaque para Mark Wahlberg, como um ex-agente bonitão que ajuda a dupla em sua jornada para se livrar dos bandidos, e para James Franco e Mila Kunis, que interpretam o verdadeiro casal Tripplehorns, alheio a tudo o que está acontecendo. O encontro entre os Fosters e os Tripplehorns rende boas gargalhadas, principalmente quando se percebe a força dos atores para não rir em cena.
Além do intuito de divertir, Uma noite fora de série consegue mesclar momentos e diálogos leves e românticos, que, mesmo previsíveis, não afetam negativamente o roteiro. Pelo contrário, chegam a ser até agradáveis, muito por conta das atuações de Fey e Carrell, que fazem questão de não se levar a sério. Deixando de lado os clichês, esses nunca podem faltar, o filme cumpre com o objetivo de entreter o público (apesar de correr o risco de não superar as expectativas dos mais críticos) e reforça o bom momento de Tina Fey e Steve Carrell como dois dos melhores representantes do gênero.
POR: [Juliana d'Arêde]
Regular
Dupla implacável
| Pierre Morel
A fascinação que a raça humana tem com duplas é fantástica. Batman e Robin, Riggs e Murtaugh, Zezé di Camargo e Luciano, todos são adições ao panteão de pares da cultura pop. Talvez seja a ideia de que um complementa o outro. Em Dupla implacável (uma inexplicável tradução do bom título From Paris with love), John Travolta e Jonathan Rhys Meyers sem dúvida são uma dessas parcerias que se complementam, em um filme recheado de clichês mas que, no fim das contas, diverte.
Na trama, Rhys Meyers, em uma performance melhor que sua média, é James Reece, o assistente do embaixador americano na França que quer entrar para o time de agentes secretos do governo e botar as mãos na massa. Sua contrapartida é Charlie Wax, um John Travolta careca, com um delineado cavanhaque e alguns quilos acima do peso. Wax é uma bomba relógio ambulante, sempre matando o prestes a matar algum terrorista. Viciado em armas, Wax é exagerado, mas divertido. Os dois precisam desarmar os planos de terroristas que querem explodir uma delegação americana que visita Paris. À exceção de uma interessante reviravolta no fim, o longa passa cuidadosamente pelos clichês estabelecidos pelos filmes de ação. Alguns tiroteios surgem quase do nada e a história, escrita por Luc Besson, transparece o amor por balas voando do cineasta francês, que ainda tenta superar a insanidade que criou com Carga explosiva 2.
O que separa, ainda que não muito, o filme de outros do gênero é a presença de Travolta. Como de costume, o ator está excelente e há algo de fascinante em ver um levemente gorducho Travolta espancando alguns terroristas com um taco de beisebol. As tiradas do personagem são ágeis e a relação como Reece, ainda que um pouco forçada, não descamba (tanto) para o bromance declarado. Algumas citações inteligentes espalhadas pelo roteiro também são dignas de nota, como a discussão sobre Star trek que os dois têm e uma clara referência ao personagem Vincent Vega, de Pulp fiction, vivido por Travolta alguns quilos mais jovem e alguns anos mais leve.
É um filme de ação com uma trama fraca e a contagem de corpos e explosões não é particularmente notável. Nem mesmo a cidade de Paris concede algum charme à produção, que busca apenas a segurança confortável de ser um filme medíocre. E, nesse aspecto, tem muito sucesso.
POR: [Gerhard Brêda]
Regular
Chico Xavier
| Daniel Filho
No dia em que completaria 100 anos, e justo em meio ao feriado de Páscoa, Chico Xavier ganha um retrato correto, mesmo que populista, do (ateu) Daniel Filho. O diretor de Se eu fosse você 1 e 2 e Tempos de paz segue sua cartilha démodé — mais é sempre melhor. A estratégia de não restringir Chico Xavier à fé e fazer de um filme de nicho um espetáculo para as massas, contudo, atropela sutilezas e atocha uma biografia pouco contraditória e bem mediana — na mais cretina linha do politicamente correto.
A vida de um homem não cabe num filme, apressa-se a explicar o letreiro no início da projeção. Mesmo assim, Chico Xavier tenta passar gordas e desajeitadas pinceladas sobre um panorama da vida do médium, alinhavados por depoimentos do retratado no programa Pinga-fogo, na extinta TV Tupi. Matheus Souza, Ângelo Antônio e Nelson Xavier dividem a responsabilidade de encarnar (o trocadilho não é nada proposital) o ícone espírita em seus devidos tempos — infância, maturidade e velhice — baseados no livro As vidas de Chico Xavier, de Marcel Souto Maior.
Somos apresentados a um órfão, obediente, religioso e deslocado, que conversa com o espírito da mãe (Letícia Sabatella) sob uma frondosa árvore no quintal de casa. O pequeno Chico apanha da madrinha (Guilia Gam) e sofre da desconfiança geral dos que o cercam. O sofrimento não diminui com o passar do tempo, mas é acalentado nos braços da madrasta (Giovanna Antonelli) ou nos conselhos de Emmanuel (André Dias), seu guia espiritual. De anedota em anedota, Daniel Filho, verdade seja dita, consegue um apanhado dos principais acontecimentos da vida de Chico Xavier. Mas, é exatamente por transbordar exatidão onde deveriam sobrar contradições, sutilezas e organicidade que Daniel Filho faz um retrato em preto e branco do médium, atochando a grandeza humana do personagem que tem em mãos numa narrativa pobre.
Não é bem por drenar o aspecto religioso do longa — escolha da produção para ampliar o público-alvo — que Chico Xavier fica no escuro. Seria incorreto afirmar que assistimos a um filme panfletário do espiritismo ou sustentado pela fé. A mensagem e a “missão de vida” do maior ícone espírita brasileiro se agigantam a isso. Mas, no longa, a essência de Chico Xavier é condensada em pílulas de epígrafe, frases impactantes e frias que, mesmo com as ótimas interpretações dos Chicos, não ganham a dimensão do personagem, ora caricato, ora pacato, ora santo. Muito se fala sobre Nelson Xavier, que já era parecido com o médium, e em Chico Xavier sua caracterização é espetacular, mas pouco aproveitada. O tempo dedicado a essa fase do personagem é relativamente curto e, por isso, brilha mais o trabalho de Ângelo Antônio.
Para agradar seu grande público, Daniel Filho passeia por alguns gêneros. O drama da vida sofrida de Chico Xavier abre espaço também para cenas cômicas, como a que explica o porquê da peruca usada pelo médium, as em que Emmanuel dispara conselhos um tanto arrogantes ou a esquete em que Chico pensa que vai morrer num acidente de avião. A inserção do humor folhetinesco, porém, é totalmente deslocada da esfera dramática que cerca o filme e pode esvaziar a clamada emoção nos desavisados. A emoção encontra seu espaço na boa dupla de Tony Ramos e Christiane Torloni. Ele, um produtor de TV ateu que edita as cenas ao vivo do Pinga fogo, ela, sua esposa que conta com a ajuda do médium para superar a morte do filho. E está montado o ponto alto de Chico Xavier.
Num retrato esteticamente muito bem apanhado, mas frio, Chico Xavier tem bons ganchos para atingir o grande público. A história de um personagem que sempre enfileirou fiéis por onde passou, atores globais em boas interpretações, personagens diversificados e um roteiro que não se compromete com nenhum dos lados da disputa religiosa — além das 370 cópias distribuídas pelo país — garantem o apelo politicamente correto de Chico Xavier. Se em Pinga fogo a fé de Chico era televisionada para as massas e nascia ali um ícone nacional, Daniel Filho faz favor de a trazer para os cinemas.
POR: [Marcella Huche]
MuitoRuim
Surpresa em dobro
| Walt Becker
Coloque dois atores de carreira instável, adicione outro igualmente irrelevante e faça eles repetirem as mesmas caretas e expressões de outros trabalhos. Pronto. Você acaba de descobrir a receita para Surpresa em dobro. Dirigido por Walt Becker (Motoqueiros selvagens), o longa consegue ser menos do que uma daquelas sessões da tarde. É enfadonho, totalmente previsível e consegue ser até irritante.
Na trama, que tem seu desenrolar logo no início (sim, porque o que vem depois é quase um bônus negativo de uma história que não precisa de uma hora e meia para ser contada), temos os dois melhores amigos Charlie (John Travolta, com um penteado a la Drácula de Bram Stoker) e Dan (Robin Williams). Ambos são dois lobos solitários bem-sucedidos no mercado esportivo de vendas. Até o dia em que um antigo caso de Dan, Vicki (Kelly Preston), reaparece e o informa que os dois tiveram gêmeos e pede para que ele cuide das crianças enquanto ela passa duas semanas na cadeia (e aí? Já dormiu?). Não se preocupe se você não agüentou tanta falta de originalidade de um roteiro extremamente pobre e chegou a cochilar em determinados momentos. Não perdeu absolutamente nada. Os dois solteirões convictos não têm jeito com crianças. Estas, por sua vez, é claro que não são anjinhos obedientes, mas, no final, todos se amam e vivem felizes para sempre. Ponto.
As crianças podem até se divertir nas horas em que Dan e Charlie criam milhares de confusões num acampamento – momento completamente desnecessário do filme -, liderado por um Matt Dillon dos mais canastrões. Ou até mesmo no final, quando eles invadem um zoológico (esta, talvez, atentem para o “talvez”, possa vir a ser a parte menos entediante de Surpresa em dobro). Tudo para que, mais uma vez, nos emocionemos com as mensagens sobre amizade e laços familiares que só a Disney consegue passar sem que a produção fique quase didática. Mas, desta vez, o estúdio errou na mão. E feio.
Alguma coisa está errada quando as melhores atuações são de duas crianças e um cachorro, e não de veteranos já conhecidos e, até mesmo, premiados. Travolta e Williams estão irreconhecíveis, de maneira negativa, com atuações forçadas e superficiais, quase patéticos. Seth Green é aquele personagem meio aleatório na trama, mas que consegue salvar os raros momentos em que o filme tentava ser engraçado e não conseguiu.
Totalmente merecidas as cinco indicações ao Framboesa de Ouro (algo como o Oscar dos piores), pois, para um filme que promete dupla diversão, a surpresa é extremamente desagradável.
POR: [Juliana d'Arêde]
Regular
Sede de sangue
| Park Chan-wook
Se alguém disser que o novo filme de Park Chan-wook poderia ser dividido em quatro histórias diferentes, não se espante. E, se por algum motivo você for sensível a imagens sangrentas, repense a ida ao cinema. Sede de sangue é um nome até simpático para a quantidade de corante vermelho que escorre, espirra e esguicha em pouco mais de duas horas de uma história bastante inusitada.
De cara somos apresentados a um padre católico e oriental envolvido com questões missionárias de cura, resolvendo dedicar-se ao estudo sobre uma rara epidemia da qual apenas os negros estariam livres. Um vírus tão poderoso que a intenção do religioso em ajudar é investigada como possível tentativa de suicídio, já que, por melhores que sejam suas preces, nada lhe fará escapar da doença. Aliás, há um tom moralista sorrateiramente escondido por baixo da batina de Sang-hyeon — temas como o suicídio e a culpa, que na doutrina cristã possuem grande importância, são trabalhados exaustivamente durante a história.
Mas, deixemos isto de lado por ora. O que importa é que, de repente, uma historinha sobre fé e cura vai se transformando aos poucos num... conto vampiresco! Isto mesmo, vampiros ao melhor estilo oriental, sem os pudores de produções crepusculares adolescentes. A Sede de sangue que passa a dominar Sang-hyeon tem nuances bastante orgânicas que relacionam a dependência do vampiro com questões como a sexualidade, por exemplo. Se quisermos, é possível até comparar Sede de sangue e Crepúsculo, no que diz respeito a cenas que indicam a fortíssima tensão sexual entre seus protagonistas. Aqui, o pobre padreco, além de lidar com a transformação em vampiro, precisa também rever seus conceitos sobre voto de castidade ao reencontrar Tae-joo, uma conhecida de infância que toca (oops!) diretamente sua libido.
Diferente do translúcido casal formado por Bella e Edward, Sang-hyeon e Tae-joo não reprimem seus desejos sexuais, ainda que a moral cristã complique um pouquinho as coisas para o padre. Até a questão do irrefreável desejo por sangue é transformada no filme de Chan-wook num joguinho para apimentar a relação entre o vampiro e a mocinha. Eis que neste momento o espectador se encontra então em meio à segunda trama dentro do mesmo filme — o amor entre um (padre) vampiro e uma humana. Te lembra alguma coisa?
Chan-wook parece não ter pressa e conduz a narrativa sem eclipsar nenhum detalhe. Há na verdade um fluxo anormal de pequenas reviravoltas na trama que a fazem saltar de um gênero a outro, alternando basicamente entre a comédia e o terror, maneirismo que cansa em dado momento. Quando o amor entre vampiro e mocinha ganha tonalidades de obsessão, um plano imperfeito dos dois nos coloca dentro da terceira parte desta história — aquela em que a culpa fará a relação entre eles balançar mais que Titanic em dia de tsunami.
Mesmo que durante todo o filme sejamos apresentados a cenas de terror escrachado, a quarta e última parte reserva os momentos mais grotescos e sangrentos deste conto vampiresco contemporâneo. De gata borralheira e amante espevitada, Tae-joo se transforma numa assassina frívola e deslumbrada, fato que levará Sang-hyeon a uma atitude extrema.
O grande problema é que, neste momento, mesmo o espectador mais empolgado já terá perdido boa parte do fôlego, e as várias piruetas do diretor Chan-wook deixarão um gosto de pretensão não alcançada, ainda que a sequência final tenha lá sua boa dose de poesia e ironia.
POR: [Georgiane Euzebio]
Fraco
Cadê os Morgan?
| Marc Lawrence
Em poucas palavras, Cadê os Morgan? é uma comédia romântica medíocre. É o mínimo denominador comum, o ponto mais mediano possível em um gênero que já não é conhecido pela inovação ou originalidade. As piadas não têm graça e o romance é previsível. A única coisa que pode arrastar algum desavisado para o cinema é o charme de Hugh Grant ou a elegância de Sarah Jessica Parker. E mesmo os dois não seguram o filme.
Na trama, Parker e Grant são Meryl e Paul Grant, um casal em crise que está vivendo separado. Em um encontro para discutir a desmoronante relação, os dois testemunham um assassinato. Para escapar do assassino, que quer eliminar as testemunhas, o casal se vê forçado a entrar no programa de proteção de testemunhas e são enviados para a cidadezinha de Ray, Wyoming. Lá, eles ficam sob a custódia do xerife Clay Wheeler e sua esposa, Emma. Isolados de seu mundinho civilizado e tecnológico, os dois redescobrem o amor. Que novidade.
O ponto positivo do filme é Sam Elliot, no papel do xerife Wheeler. Ostentando um frondoso bigode grisalho e uma voz grave de trovão, além de uma coleção de DVDs de John Wayne e Clint Eastwood, Elliot é um carismático caubói.
O roteiro, por outro lado, faz o filme desabar mais rápido que a relação dos Morgan. Além das piadas óbvias e sem graça, típicas de qualquer comédia romântica, o filme insiste em longas piadas que se repetem durante o filme, mas nunca chegam perto da comédia. Todo o arco que envolve os assistentes é completamente desprovido de graça, assim como a garota bonita e burra que é enfermeira, garçonete e assistente do corpo de bombeiros. Outro aspecto que beira o ridículo é que os Morgan parecem não fazer falta alguma para o mundo que abandonaram em sua fuga. Meryl era uma famosa corretora de imóveis da cidade de Nova York, que aparecia em capas de revistas e era requisitada o tempo todo, enquanto Paul era chefe de uma firma gigantesca de advocacia. Ninguém, além dos patéticos assistentes, parece dar falta dos dois membros chaves desta firma.
Hugh Grant é carismático, mas não tanto. Até a metade do filme, seu repertório habitual de poses e caras até convence, mas ele é abatido pelas péssimas falas e cenas que o filme arremessa nele. É doloroso ver Grant, claramente um homem britânico, dançando quadrilha com os caipiras mais estereotipados possíveis, em um rincão do interior dos EUA, usando um chapéu e camisa xadrez.
Sarah mostra no filme toda a sua limitação como atriz. Em uma versão aguada da célebre Carrie Bradshaw, de Sex and the city, a atriz não tem nem a aparência nem o talento para segurar o filme acima da lama da mediocridade. Pelo contrário, Meryl Morgan consegue ser completamente irritante em diversos momentos do filme.
No geral, Cadê os Morgan? é uma história sem graça ou atrativos sobre um casal apaixonado em uma situação "peixe fora da água". Se você for fã de Hugh Grant ou Sarah Jessica Parker, vai dar uma chance, mas não espere o carisma de Letra e música nem a inteligência de Sex and the city. Eles, assim como os Morgan, estão perdidos por aí.
POR: [Gerhard Brêda]
Bom
Os homens que encaravam cabras
| Grant Heslov
Os homens que encaravam cabras é uma adaptação do romance homônimo de John Ronson. Narra a história de Bob Wilton (Ewan McGregor), um jornalista em crise em busca da história de sua vida, que é enviado por seu editor para uma entrevista com um suposto paranormal: Gus Lacey, que afirma poder viajar para qualquer lugar que quiser somente através da força da mente. Gus também diz ter feito parte de um projeto secreto do governo americano durante a Guerra Fria, o “Projeto Jedi” , que pretendia criar um exército de monges psíquicos. Duvidando da sanidade do entrevistado, Bob simplesmente ignora a história.
Pouco tempo depois, numa viagem ao Kwait, conhece por acaso Lyn Cassady (George Clooney), citado por Gus como o psíquico mais poderoso que já existiu. Lyn está partindo para o Iraque em busca de Bill Django (Jeff Bridges), militar que teria fundado o tal “Exército da Nova Era”. Lyn explica a Bob que os membros da unidade eram dotados de incríveis poderes paranormais: conseguiam ler a mente do inimigo, atravessar paredes e até mesmo matar uma cabra simplesmente com um olhar. Hesitante e duvidando da sua própria sanidade, o jornalista resolve acompanhar Lyn em sua viagem, a fim de escrever sua grande história.
Como a trama apresentada já pôde indicar, o filme se desloca em dois eixos: a comédia e nonsense, onde estão o seu lado positivo e negativo, respectivamente. Flutuando do humor fino ao negro deslavado, consegue arrancar boas gargalhadas de quem assiste. Ponto para o excelente elenco. Mas a história desconexa do filme vai se mostrando menos suportável conforme correm seus minutos. A insanidade dos acontecimentos é, digamos, “cool” numa primeira análise. Depois, torna-se gratuita, denunciando falta de habilidade em amarrar a trama de maneira atraente.
Esse não me parece, entretanto, um problema de direção, mas sim do roteiro que, em defesa do roteirista, é adaptado. Não há brilhantismo no nonsense criado por John Ronson. Há humor: seja ao observar um George Clooney bigodudo encarar uma cabra até matá-la, um Ewan McGregor oxigenado (que já foi Obi Wan Kenobi) perguntar inocente o que é um “jedi”, ou um Jeff Bridges de tranças e hippie a colocar seu batalhão para dançar e usar LSD como táticas de guerra. Humor. Cabe a quem assiste julgar se isso basta.
POR: [Philippe Noguchi]
Bom
Como treinar o seu dragão
| Dean DeBlois e Chris Sanders
Quando a Pixar parece planar metros acima da concorrência, a DreamWorks mostra que também pode subir às alturas e descer com uma animação encantadora como Como treinar o seu dragão. Os diretores Dean DeBlois e Chris Sanders (Lilo & Stich) tiveram 12 meses para encorparem um rascunho da adaptação do livro infantil de Cressida Cowell num filme mais maduro. Pois Como treinar o seu dragão, que retrata um adolescente viking tentando se equilibrar nas próprias e magricelas pernas, fascina as crianças e mantém até os adultos ocupados.
Na Ilha de Berk, matar dragões é um estilo de vida. Os vikings são robustos e destemidos e passam a vida a proteger seu pequeno povoado dessa peste que os sobrevoa a cuspir fogo e roubar ovelhas. É aí que vive o franzino e desajeitado Soluço, que sonha em matar um dragão e assim mostrar seu méstrar seu mepor respeito go, filho do l a proteger seu pequeno povoado dessa peste que os sobrevoa a cuspir fogo e roubar suas rito ao pai (Stoico, líder do povoado, que pressiona o filho a honrar seu sangue viking), aos amigos e, sobretudo, à sua paquera (a loirinha e aguerrida Astrid). Aprendiz de ferreiro (o carismático Perna-de-peixe), ele monta uma geringonça e consegue abater um temível Dragão da Noite. Cara a cara com o bicho ferido e acuado, de faca na mão, o garoto não consegue dar fim à vida do dragão que ele apelida de Banguela, por ter dentes retráteis. No olho verde e ágil do monstro, Soluço reconhece o medo que sente no peito raquítico, e tomba de compaixão pela fera.
Em volta da relação perigosa de amizade entre o dragão e o menino, o filme cresce e tem suas cenas mais cativantes. Soluço se torna um exímio conhecedor de dragões e usa toda sua sabedoria no Treino de Dragões, aulinhas que os adolescentes vikings frequentam para se tornar matadores de feras aladas e incendiárias. Entre mensagens de tolerância e confiança, voos rasantes de Banguela e Soluço preenchem a tela tridimensional, numa aventura que vale contar mais para não estragar o final. Em queda livre, entre nuvens e pedras ou planando sobre as lindas paisagens medievais, o formato é explorado ao máximo, proporcionando um espetáculo saboroso aos olhos. A fotografia, vale ressaltar, é de filme de gente grande: Roger Deakins (A vila, Onde os fracos não têm vez) assina o trabalho minucioso de luz, textura e composição.
A história do improvável herói Soluço empolga, voa alto e desce como um bonito retrato sobre amizade e relação pai e filho. A DreamWorks tem uma produção vacilante, que oscila entre o fraco Kung fu panda e o genial Shrek — Como treinar o seu dragão pousa mais perto do ogro. Algumas piadas ácidas fazem falta onde sobram lições de moral, mas nada que comprometa a história singela ou a aventura tridimensional de Soluço e Banguela pelos ares de Berk.
POR: [Marcella Huche]
Regular
Amelia
| Mira Nair
Só mesmo uma mulher para entender a essência e a verdadeira personalidade de outra, podem afirmar as mais feministas. Deixando um pouco para trás seu lado social mais introspectivo, como em Feira das vaidades (2004), e sua cultura indiana, a premiada Mira Nair apresenta em sua mais nova produção, Amelia, toda a glória, os sonhos e a luta de um dos ícones americanos do fim da década de 20.
Baseado na história real de Amelia Earhart, a primeira mulher a atravessar o Oceano Atlântico pilotando um avião, o longa é um retrato histórico bem construído da vida batalhada da queridinha da América na época — apesar de não poder ser considerado um grande drama épico. Apesar de alguns pontos positivos, a produção não empolga e, de fato, percebe-se o porquê de o filme não ter agradado tanto o público internacional.
A falta de ritmo de Amelia é um de seus maiores problemas, e, a não ser que você seja realmente um grande admirador da aviadora e tenha contado as horas para ver o resultado cinematográfico, é bem capaz de se sentir um pouco sonolento (a) em determinados momentos, tanto em terra quanto no ar. A ideia de intercalar imagens reais da época com as do filme é uma boa premissa para fugir da monotonia, mas esbarra no velho esquema de flashbacks x tempo real, que, em certas produções, como é o caso, limita em determinados períodos a fluência do roteiro.
Por outro lado, a fotografia de Stuart Dryburgh é belíssima, um alento para os espectadores, e algumas tomadas áreas nos permitem voar junto com Amelia. Hilary Swank, atriz vencedora de dois Oscar — por Meninos não choram, em 2000, e Menina de ouro, em 2004 — nos apresenta uma Amelia delicada e tímida, porém segura de seus ideais e muito determinada, em mais uma atuação consistente. Mas, vale destacar que não se aproxima de suas melhores performances.
Richard Gere, no papel de George Putnam, editor e futuro marido de Amelia, tem uma atuação razoável, compatível com os pré-requisitos de seu personagem, enquanto Ewan McGregor, que interpreta Gene Vidal, grande amigo e amante da aviadora, também cumpre sua obrigação, apesar de soar meio forçado em determinadas cenas. Destaque para Fred Noonan, como Christopher Eccleston, o navegador que acompanhou Amelia e desapareceu junto com ela em sua última aventura. O elenco conta ainda com a jovem Mia Wasikowska (a Alice de Tim Burton).
Longe de ser um marco das cinebiografias, Amelia também não é um fracasso absoluto. Os últimos momentos de vida da aviadora, incluindo o seu desaparecimento, foram construídos de maneira muito singela e, de fato, o final talvez seja a parte mais tocante do filme. A voz leve de Hilary sobrepondo-se às delicadas imagens da verdadeira Amelia dão o tom certo à representação de um dos modelos femininos mais influentes e apaixonados da história.
POR: [Juliana d'Arêde]
Fraco
Criação
| Jon Amiel
Duas cenas são capazes de resumir o filme. Charles Darwin senta à mesa com a família e põe-se a comer antes que todos comecem a prece de agradecimento. No subtexto, o ateísmo em conflito aos dogmas religiosos da esposa, que não disfarça olhares de reprovação. A mensagem fica ainda mais completa quando um primata toca o dedo do Darwin de Paul Bettany, em referência à pintura de Michelangelo.
Com atmosfera clássica intensificada pela trilha, Criação é linear; a dramaticidade é ininterrupta. A todo o tempo o naturalista inglês sofre entre quatro paredes a dor de pensar opostamente aos preceitos religiosos da época. É um conflito interno que vaza para o semblante – é possível contar quantos sorrisos o personagem dá ao longo de todo o filme, e o ator, aqui, por vezes, o interpreta como um abobalhado. Por isso, também não é difícil se incomodar com essa constante enternecedora. Em alguns instantes, cenas ganham tamanho efeito dramático a ponto de dar ao problema de Darwin o status de tragédia. E a plástica e pasteurizada fotografia colabora para tornar ainda mais frio o que poderia ser sutilmente comovente. Assim, distante, Criação não deixa de ter momentos exagerados.
A opção do diretor Jon Amiel em humanizar a figura do teórico revolucionário se perde na tentativa de entregar a perturbação do personagem por meio de delírios desprovidos de beleza onírica. E embora o epílogo alerte o espectador que a história a ser contada é referente ao processo de escrita da obra A origem das espécies, o longa não se aprofunda em motivações científicas que levaram Darwin a elaborar suas teorias. Fica tudo en passant. Não compromete o entendimento e tampouco se força com didatismos, mas peca pela falta.
Poderia ser um bom filme sobre a figura que gera polêmicas há dois séculos por todo o mundo, mas se conforma em (re)apresentar aquilo que há de mais óbvio em relação à vida do estudioso. Traz Darwin-pai, Darwin-marido e o deixa com ar patético, no melhor sentido da palavra, de gênio incompreendido. Tem, sim, experimentos em laboratório, imagens que remetem à lei de seleção natural bem ao estilo “discovery” e cenas em que se debruça sobre a pena para escrever o livro, mas também não passa disso. Enquanto se desprende da ideia de lidar com o Darwin de livros didáticos, Criação se fixa no dilema sem gerar polêmicas para o lado de cá. E sabemos que internalizar, da tela para lá, transtornos psicológicos de um personagem só cria barreiras.
O trabalho de direção, do ponto de vista formal, é praticamente impecável. Planos bem feitos, sequências bem elaboradas. Mas se o ponto de referência passa a ser o enfoque, Criação se define como um filme que corta caminhos para chegar a lugares comuns.
POR: [Monike Mar]
Fraco
Um sonho possível
| John Lee Hancock
Há de se perdoar a tradução em português para este filme, que soa piegas do início ao fim. The blind side, no original, se apega ao drama baseado numa história real e, pretensiosamente, quase se lança ao limbo dos filmes que fazem de tudo para emocionar o espectador. Quase. Sem sal, o longa de John Lee Hancock (O álamo) se limita a apostar entre duas margens: a do drama carregado por traumas e deficiências do protagonista e a da comédia das entrelinhas, boba e desnecessária. Quantos filmes já se viu assim, com o mesmo enredo? É uma formula para agradar a todos, ser leve. O risco principal é cair no "mais ou menos". Por isso, Um sonho possível fica à beira do precipício.
Sandra Bullock entra pra endossar a campanha do sem graça. Faz seu trabalho, com uma atuação nada de mais, nada de menos. Apenas interpreta um papel como há muito deveria fazer — talvez seja uma pena ficar resignada a atriz de comédia. O Oscar de Melhor Atriz não se justifica, mas demonstra o que fez por merecer: atuou. Bullock convence da maneira que o filme se propõe a convencer. É que Um sonho possível é mais do que previsível, a se julgar pelo nome que já antevê, acima de tudo, um final passível de frases feitas a favor da esperança.
A história de Michael Oher, personagem de Quinton Aaron, lembra facilmente a de Preciosa, não somente por ser um ator negro no papel principal, mas pelos fatos inspirados na vida do jogador. Obeso, Michael chama a atenção de todos em qualquer lugar pelo seu jeito desengonçado e tímido. Parece ser mais agressivo do que aparenta ser. Possui traumas de infância, revelados por flashbacks, e ganha a simpatia de Anne Leigh e, aos poucos, de sua família. Com ares de socialite, a personagem de Bullock adota Michael e passa a integrá-lo à "vida social". O clima é de filantropia por boa parte do filme, até os treinos e partidas de Michael romper esses momentos — além da amizade contrastante com o filhinho de Anne. Cenas do tipo fazem o espectador sair um pouco da inércia, embora qualquer filme com competições, minimamente bem dirigido, é capaz de entreter — eis, então, mais uma fórmula de Um sonho possível. Ter uma professora particular democrata — personagem de Kathy Bates — vai ser só mais um elemento de pieguice ao drama insosso.
Apesar de se vender como um filme sobre superação, Um sonho possível deixa claro que a mediação de Anne, rica e instruída, a favor de Michael é o único meio de o jovem se tornar o que é hoje, vulgo "vencer". Compreensível até certo ponto. O longa extrapola nessa intenção e mostra que até mesmo o dom para o esporte só foi despertado pela pseudo socialite. É perceptível a alteração da biografia que dá base ao filme. Coisa de cinema. Coisa de indústria. A ordem é funcionar.
POR: [Monike Mar]
Regular
O livro de Eli
| Albert e Allen Hughes
Sem rodeios e firulas, O livro de Eli é um filme cuja premissa é melhor que o resultado. A atmosfera desoladora, a fotografia estourada, a performance de Denzel Washington, boas cenas de ação e uma homenagem ao faroeste escondem um filme panfletário do cristianismo e com personagens, diálogos e elenco questionável.
O personagem de Denzel, durante mais da metade do filme sem nome, é um andarilho que vaga pelos escombros dos Estados Unidos após a terceira guerra mundial, em uma missão para o oeste. O andarilho carrega consigo uma Bíblia, que ele lê todos os dias. A atualização (ou homenagem) do faroeste é clara. Washington é o estranho ameaçador que chega na pequena cidade comandada por um xerife com mão de ferro. Até cena de duelo na rua central da cidade acontece. Faltou apenas o chapéu de caubói.
O xerife em questão é Carnegie, interpretado por Gary Oldman. A performance do ator é apropriada para o personagem ridículo que ele interpreta. Carnegie é simplesmente mal e os diretores, em uma das cenas mais didáticas de todos os tempos, fazem questão de mostrar o personagem lendo a biografia de Mussolini. De qualquer forma, Carnegie quer a Bíblia para poder dominar os corações e mentes dos oprimidos e ampliar seus domínios (os excessos da performance de Oldman o colocavam a um passo de "tentar conquistar o mundo"). E aí o filme começa a deslizar.
Primeiro ponto: a guerra que destruiu a civilização ocorreu 30 anos antes dos eventos do filme. Nestes 30 anos, a cultura humana praticamente desapareceu e quase nenhum dos habitantes sabe ler, à exceção de Carnegie, do andarilho e de um dos capangas do vilão, ninguém sabe ler. Isso soa exagerado, considerando o pequeno intervalo entre a guerra e o filme. O segundo ponto é todo o interesse de Carnegie pela Bíblia. Se ninguém sabe ler, porque ele não pega qualquer livro (incluindo a biografia de Mussolini que ele estava lendo) e inventava alguma história mítica que favorecesse o poder dele. Ele poderia apontar para o livro e ninguém saberia de sua mentira. E por que a Bíblia traria poderes a Carnegie? Nada disso é explicado e tudo fica solto no ar.
No elenco, além de Oldman e Washington, está a fraquíssima Mila Kunis. A personagem alterna entre ser fugitiva, amiga, amante, confidente e aluna de Denzel e convence muito pouco em todos estes papéis. Uma participação simpática, no entanto, é a de Malcom McDowell, o lendário Alex DeLarge, de Laranja mecânica. Washington não vai levar um Oscar por sua atuação, mas mantém seu alto padrão e reafirma sua posição como um dos maiores atores de sua geração.
O final do filme vai dividir opiniões, assim como o tom religioso do filme. Alguns podem achar panfletário demais e até mesmo barato. Outros, vão achar o uso da fé um ponto positivo. O livro de Eli não vai pro céu, nem pro inferno. Esse fica no purgatório mesmo.
POR: [Gerhard Brêda]
Bom
Ilha do medo
| Martin Scorsese
Leonardo DiCaprio desafiando os limites entre realidade e loucura numa ilha? Não é a primeira vez que vemos isso. Ele deixa o ensolarado A praia, de Danny Boyle, para embarcar num claustrofóbico e tortuoso thriller noir assinado por Martin Scorsese. Trata-se da adaptação de Laeta Kalogridis do romance homônimo de Dennis Lehane — cuja obra já inspirou Sobre meninos e lobos (Clint Eastwood, 2003) e Medo da verdade (Ben Affleck, 2007). Perfeito em sua estética, Shutter island (no original) treme na trama, que especula, duvida e desorienta-se demais somente para polir o óbvio.
De Niro em 70, DiCaprio nos anos 2000. Em seu quarto trabalho com Scorsese — antes, Gangues de Nova York (2002), O aviador (2004) e Os infiltrados (2006) — o ex-galã encarna Teddy Daniels, um agente federal que ruma a Shutter Island, com seu parceiro Chuck Alue (Mark Ruffalo) na bagagem, para desvendar a fuga de uma mulher de um manicômio para criminosos. A procurada é Rachel Solando, que afogou os três filhos no lago de sua casa e sumiu, descalça, de uma cela trancada por fora. Entre um interrogatório e outro, Teddy é atormentado por enxaquecas, pesadelos e paranoias. Tudo parece encobrir um mistério, todos sabem de algo mais, nada é tão aquilo que é. É 1954, coração da Guerra Fria, e boatos de conspirações pululam a cada esquina.
Mas Scorsese tem mais em mente do que um interno insano à solta. Nas penumbras do hospital penitenciário, há o temor de bomba atômica, memórias dos campos de concentração nazistas e rumores de experimentos científicos questionáveis. O drama que ganha força, porém, é a sombria fronteira entre realidade e percepção, loucura e sanidade. Pouco a pouco, Scorsese larga tudo nos já pesados ombros de Teddy, que aprendemos, sofre com a morte da mulher (Michelle Williams), cujo assassino é um paciente do sanatório. Nenhum problema é pouco para DiCaprio, contudo, que aqui encarna tão bem Teddy que sua ansiedade arrepia nossa própria pele, enquanto Scorsese ocupa-se em despir a vulnerabilidade e o olhar preocupante — e preocupado — do policial.
O problema é que, aos 40 minutos do filme, Teddy é um homem nu de quase todos os mistérios, e o principal eixo dramático de Ilha do medo perde gradativamente o interesse do espectador. Exatamente quando deveria acelerar, a trama prende Teddy, fazendo-o encontrar atores excelentes (Emily Mortimer, Jackie Earle Haley e Patricia Clarkson), que expõem cuidadosamente assuntos que enlouqueceriam qualquer um. Resta ainda os admiráveis acenos de Scorsese ao noir, as sombras meticulosas nos chapéus de feltro, os cigarros queimando sinuosamente, um denso e estreito corredor de celas de onde surgem mãos agonizantes.
O filme de Scorsese mais próximo do que se pode considerar terror foi Cabo do medo, com Robert De Niro psicopata e tatuado. O trailer de Ilha do medo o vende assim — o que talvez explique os recordes de bilheteria na estreia americana — mas nada ali assusta, nem mesmo seu final invertido. Scorsese merece o poder da dúvida, contudo, e muitos dizem ser uma adaptação perfeita do livro de Lehane — o próprio diretor já saiu em defesa da obra. A fronteira realista em debate no filme, utilizada por Scorsese como veículo de estudo psicológico ou crítica social em outras ocasiões, aqui não extrapola o sistema claustrofóbico da ilha, mesmo que iluminado por fachos de virtuosidade.
POR: [Marcella Huche]
Bom
Direito de amar
| Tom Ford
Adaptar um livro de tom intimista e psicológico, onde o personagem aparece sem um sentido na vida e sofrido poderia resultar num melodrama repleto de clichês não fosse a elegância na direção estreante do estilista Tom Ford, nas interpretações de Colin Firth e Julianne Moore e na fotografia de Eduard Grau. Firth faz o papel principal como George numa atuação intrigante que mistura o mórbido e o irônico de forma caricata, trazendo certo humor às cenas de um homem que não consegue assimilar a perda do companheiro com quem vivia há anos, Jim, e começa a ensaiar a forma mais interessante de se matar. A interpretação rendeu a Colin Firth o prêmio de Melhor Ator no Festival de Veneza e no BAFTA, além da indicação ao Oscar e ao Globo de Ouro.
O longa-metragem Direito de amar é inspirado no livro de Christopher Isherwood A single man, que costuma ser listado entre os melhores filmes de temática gay do século 20, mas é bem mais que isso. A narrativa que se passa nos anos 1960 – o livro foi escrito em 1964 – tem seu valor psicológico ao adentrar na angústia do personagem, que é um professor universitário, e trazer uma dor universal – a da perda - às telas. Um enredo que abrange idas e vindas, relacionamentos e solidão, existência e dor numa espécie de dança da vida – aliás, bem ritmada pela trilha sonora de Abel Korzeniowski, que traz força e impacto às cenas e confere certo reforço no aspecto caricato e dolorido do personagem.
Apesar de encontrar-se num estado apatia e inclinamento ao suicídio, George também reencontra pessoas e até se diverte. Uma delas é Charley, personagem interpretada por Julianne Moore, uma antiga namorada, que passou a ser uma amiga depois de o perder, embora ainda demonstre um desejo por ele. Agora, é um aluno que desperta no personagem alguma vivacidade escondida. Nesse momento, lidando com o inesperado encontro, com delicadas sensualidades, George descobre que na vida há coisas que não se planeja, elas simplesmente acontecem, entre elas, a morte.
O filme opta por focar na história de George e Jim e para voltar ao passado utiliza flashbacks um tanto forçados e dramáticos demais. As imagens que variam do cinza ao colorido vívido, entre as memórias do passado do personagem e a vivência do presente. Por se passar nos anos 1960, o filme ganha um aspecto antigo, que é retratado também nos figurinos e aparência dos personagens. De maneira geral, a fotografia ganha uma aparência antiga e elegante. Pode-se dizer, em se tratando de um diretor que é um dos grandes nomes da moda, que o filme tem é estilo.
Na verdade, a maior elegância da adaptação é trazer a característica do livro de tratar o universo gay de maneira muito natural e delicada. Mostrar que uma história de amor bonita, que deixa um forte sofrimento de perda por ter sido intensa, também acontece entre pessoas do mesmo sexo livremente. Por ter esse cunho de uma narrativa homossexual com naturalidade – não cheia de debates - e tratar de angústias que são universais, o título Direito de amar em português foi uma barbeiragem na escolha para a transmissão da ideia do filme chamado A single man no original. É uma história humana e mostra que humanidade e afetos, assim como angústias e perdas, são das coisas incontidas, que independem da orientação sexual.
POR: [Carolina Leal]
Regular
Entre irmãos
| Jim Sheridan
Nos primeiros 20 minutos de Entre irmãos, o diretor Jim Sheridan fornece todas as informações necessárias para recriar em nossas cabeças, quase completamente, a trama a se desenrolar nos longos 105 minutos que temos pela frente. O filme, de fato previsível, não consegue escapar da história rasa do produto do qual foi adaptado — afinal, é quase um remake do dinamarquês Brothers, de 2004 — por mais que uma boa direção pudesse contornar isso.
Estamos diante de dois irmãos quase opostos. Sam (Tobey Maguire) é um fuzileiro naval prestes a embarcar numa nova missão no Afeganistão, um homem de família firme, casado com Grace (Natalie Portman), sua namorada da adolescência, com quem tem duas filhas. Já Tommy (Jake Gyllenhaal) é um homem solitário que acaba de ser libertado da prisão por assalto à mão armada, não muito tempo antes da partida do seu irmão para o Oriente Médio.
A jovem Grace recebe a notícia de que o helicóptero onde Sam viajava fora atacado, matando os soldados a bordo. Na verdade, ele e o companheiro de marinha Joe Willis (Patrick Flueger) sobreviveram e acabaram aprisionados e torturados por dias por terroristas no deserto. Sua mulher, desgostosa, carente e, sobretudo, desavisada acaba se envolvendo com Tommy, que desde a "morte" do irmão tenta se redimir aos olhos de sua família.
A narração desta trama certamente não acarretaria em grandes spoilers. Prefiro, contudo, deixar a surpresa” no ar e provar que possivelmente você foi capaz de imaginar quase perfeitamente o desenrolar dessa história, quando finalmente a assistir numa sala de cinema.
Entre irmãos é um dos filmes mais previsíveis dos últimos anos, o que não seria um problema tão grande caso este não fosse um filme centrado na trama e nas atuações, que não falham, mas não brilham em momento algum. O filme é esteticamente genérico e não constrói nenhuma espécie de personalidade sobre a fotografia, o que poderia ser um bônus diante da trama superficial. Por último, o final reticente da história contribui para uma frustração ainda maior.
É preciso, entretanto, valorizar a preocupação detalhista do diretor Jim Sheridan. O principal e mais visível deles é a mudança física que sofre Sam desde que sai de casa até quando volta do Afeganistão após dias de tortura. Tobey Maguire, tal qual fez na transição de sua atuação em Homem-Aranha para Sea Biscuit, teve de emagrecer muitos quilos e parecia assustadoramente frágil na tela, como se fosse quebrar a qualquer instante.
POR: [Philippe Noguchi]
Bom
Coração louco
| Scott Cooper
Ao ver Coração louco, de Scott Cooper, a comparação com O lutador, de Darren Aronofsky, é inevitável. Mickey Rourke e Jeff Bridges, Randy "The Ram" Robinson e Bad Blake, vivem personalidades decadentes, entregues aos vícios de carreiras capengas, quando conhecem mães solteiras redentoras. É mais fácil envelhecer cantor que lutador, contudo, e essa história já foi contada várias vezes. O que faz de Coração louco um filme honesto e emocionante, que trepida, mas não cai nos clichês de sua trama, é a atuação de Jeff Bridges. Ano passado esse era o filme de Rourke, também favorito ao Oscar. Em 2010, porém, Bridges parece não ter concorrência.
Coração louco é a estreia de Cooper, preparador de personagens, na direção. Não é exagero dizer que reside aí o trunfo da produção, que nos brinda com um personagem ao mesmo tempo decepcionado e desesperado, ressentido e prazeroso. Com quase 40 anos de carreira e quatro indicações ao Oscar (Uma sessão de cinema, O último golpe, O homem das estrelas e A conspiração) Bridges chega a Coração louco no auge de sua forma — embora a barrigona branca esteja lá, entre uma camisa aberta e outra, e incomode nos primeiros minutos do filme.
Aqui, ele é Bad Blake, calejado do country, de cabelo grisalho desgrenhado e alguns quilos a mais, que equilibra na cabeça um chapéu; na boca, um cigarro; no nariz, um Ray Ban caramelo; e, às vezes, um copo de uísque na barriga. Veterano de quatro casamentos, toca seu country em buracos de cidadezinhas americanas, para seu público e suas groupies de terceira idade. A eles bastam os antigos sucessos e o charme cambaleante do alto das botas de vaqueiro de Blake. É essa figura que encontra a jornalista Jean — Maggie Gyllenhaal, em boa performance num personagem pouco crível, ponto fraco do roteiro — a quem o cantor entrega seu coração louco em frangalhos.
O primeiro terço do filme, que apresenta o incrível Blake & sua rotina maldita são encantadores. Lá para o fim Coração louco perde o ritmo porque você já conhece essa história muito bem. O cantor alcoólatra faz burrada, quebra o coração da mocinha e sua dor de cotovelo lhe proporciona o retorno da inspiração, adormecida pelo uísque e pelos anos. Mas é aí que Bridges toma as rédeas do filme, que mesmo equilibrado em clichês, consegue ser extremamente emocionante.
Em dueto com a interpretação de Bridges e sendo condição vital para o êxito de Coração louco é a excelente música que Blake canta, que também concorre a Melhor Canção Original no Oscar. O produtor musical T Bone Burnett e o guitarrista Stephen Bruton escreveram The weary kind, que compõe a melancolia de Blake tanto quanto as palavras e os gestos de Bridges.
Como bônus, há ainda os azuis do céu do Texas, captados com maestria pela fotografia de Barry Markowitz, assim como o brilho apaixonado dos olhos de Maggie. Mas, surpresa mais grata é Tommy Sweet, o aprendiz supostamente ingrato de Blake, que hoje balança as botas num country moderno, cantando os hits escritos pelo mentor. Quando entra em cena, entretanto, o que vemos é um Colin Farrell tímido, retraído ao extremo de não encarar nos olhos, tão grato que quase arrependido. A ponta de Farrell comprova que, como fez em Na mira do chefe, é mais descontraído e eficaz como protagonista cult, alternativo, que nos papéis de herói clássico. Coração louco é memorável, por — e para — Bidges e Farrell.
POR: [Marcella Huche]
Excelente
O segredo dos seus olhos
| Juan José Campanella
O segredo dos seus olhos, de Juan José Campanella, é um filme angustiante. E impactante. Tem como personagem central Benjamin Espósito (Ricardo Darín), oficial de um Tribunal Penal de Buenos Aires, que ao se aposentar, decide escrever, embora hesitante, sobre um caso específico que investigou em 1974, e que marcou sua vida: o assassinato e estupro de uma jovem em casa.
O filme prende o espectador, aliando humor e um subnúcleo romântico ao suspense que fundamenta a trama. E é capaz de levantar um bom número de questões relevantes sem se perder ou parecer pretensioso. Traz, por exemplo, o vício na figura de um melhor amigo alcoólatra do protagonista; e a política, na figura do estado ditatorial da Argentina da década de 70 e personificada em um agente corrupto do Tribunal. Todas essas referências surgem entrelaçadas pelas memórias de Benjamin, que começa a questionar sua própria visão dos fatos ao relembrá-los para o romance.
O segredo dos seus olhos se passa, portanto, em dois momentos, simultaneamente. Um, no período do crime, quando um Benjamin jovem começa a investigar o caso da moça estuprada e torna-se amigo de seu viúvo, que admira por sua devoção à esposa morta. Em meio à trama policial, desenrolam-se dois eixos paralelos: as relações conturbadas com o amigo alcoólatra do Tribunal (interpretado por Guillermo Francella) e com Irene (Soledad Villamil), sua chefe, por quem alimenta uma paixão secreta.
O segundo eixo do filme apresenta Benjamin 35 anos depois do caso, ao procurar Irene (neste momento já casada e com filhos) para ajudá-lo a escrever o romance. Benjamin parte para uma investigação posterior do caso, a fim de esclarecer partes da história que nunca ficaram resolvidas, e se vê diante de equívocos que poderiam o ter poupado dos traumas que tanto o marcaram. Essa reviravolta desemboca numa enorme revelação sobre os personagens envolvidos na história.
Embora a trama seja tensa, o roteiro não deixa de oferecer como bônus boas tiradas de humor, que tornam o filme mais leve e fácil de digerir. Impossível não considerar também as atuações, que contribuem nesse sentido. Ricardo Darin, um verdadeiro ícone da Argentina, e Soledad Villamil não brilham, mas dão conta do recado, com destaque para a cena em que interrogam o suspeito do crime, deixando o jogo psicológico à flor da pele. Quem realmente se destaca, entretanto, é Guillermo Francella, o comediante argentino que executa esplendidamente tanto o papel dramático de alcoólatra, quanto as cenas cômicas ao lado de Benjamin durante as investigações.
Se a força do filme encontra-se na trama, inspirada na novela de Eduardo Sacheri, A pergunta de seus olhos, seria uma injustiça creditar suas virtudes somente ao texto. Juan José Campanella faz realmente um trabalho brilhante e captura as cenas com poética, em quadros muitos bem feitos. As escolhas estéticas, como o desfoque de personagens em certas cenas, ajudam a manter o clima de suspense. Também vemos planos sequências belíssimos, que não deixam nada a dever às megaproduções de Hollywood, e uma reconstrução de época impecável.
O filme exibe com um desfecho surpreendente, que já vale o ingresso — e talvez a própria indicação ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro. Novamente, ponto para Juan José Campanella, que dirige a sequência sem erros. Um fechamento para classificar o longa argentino como obra de arte. Um filme impactante que fica (literalmente) em você depois de deixar a sala de cinema, com um torcicolo de tensão e um sentimento indecifrável, como um nó na garganta.
POR: [Philippe Noguchi]
Regular
Simplesmente complicado
| Nancy Meyers
Nos anos 80 e 90, era muito lucrativo fazer filmes de ação. Foi a era dos grandes action-heroes americanos, fortões como Arnold Schwarzenegger e Sylvester Stallone. De uns tempos para cá, o paradigma vem mudando. As mulheres estão indo mais ao cinema e as comédias românticas são o porto seguro de Hollywood. Antes, para cada Rocky IV e Exterminador do futuro, pequenos clássicos do gênero, você enfrentava dezenas de genéricos com Steven Seagal e companhia. Nas comédias românticas, a situação é similar: em um mar de Matthew McConaugheys e Meg Ryans, você encontra apenas alguns filmes como Simplesmente complicado.
Na trama, Jane (Meryl Streep) tem um caso com seu ex-marido, Jake (Alec Baldwin). Enquanto isso, começa um pequeno romance com Adam (Steve Martin), o arquiteto que trabalha na reforma de sua casa. O segredo de Simplesmente complicado não está em quebrar as correntes do formato com uma trama inovadora. Pelo contrário, todos os clichês do estilo estão ali — o trunfo é uma trinca de performances que seguram todo o espetáculo. De um lado, a sempre excelente Meryl Streep, cuja interpretação se faz nos detalhes, nos olhares e nas expressões faciais. Os diálogos não fogem muito do esperado de uma mulher insegura, traumatizada pelo divórcio, mas, ao mesmo tempo, mãe carinhosa e carismática. Segurando a outra ponta está o ótimo John Krasinski, o Jim Halpert da série The office. Com um timing cômico impecável, Krasinski, interpetando o genro de Jane, Harley, tem as falas mais engraçadas do filme. A sequência no restaurante do hotel é toda construída em cima do ator, que traz muito do clima de "comédia de constrangimento" de The office na bagagem.
O outro pilar que faz com que Simplesmente complicado flutue acima da comédia romântica padrão é Alec Baldwin. Baldwin chegou a um estágio de sua carreira em que não interpreta mais personagens. Ele interpreta Alec Baldwin, apenas rebatizado por algo genérico como Jack ou Bill. Neste caso, é Jake, o ex-marido de Jane, que engatou um casamento com uma mulher muito mais nova, Agness (Lake Bell).
No geral, Simplesmente complicado é um filme mediano. Simples assim. Para cada brilhantismo do roteiro (por exemplo, Agness não é demonizada por ser mais atraente que Jane. Em uma cena na qual Jane dança afetivamente com Jack, vemos a tristeza sincera no olhar de Agness), temos algumas saídas mal explicadas, algumas performances medianas (Steve Martin, estou olhando para você) e algumas piadas deslocadas (humor com maconha é golpe baixo). Mesmo assim, se quer uma distração para desligar o cérebro no fim de semana, Simplesmente complicado é a pedida. Alec Baldwin já vale o ingresso.
POR: [Gerhard Brêda]
Bom
Educação
| Lone Scherfig
Condenar moralismos não pode ser o tipo de crítica suficiente para julgar um filme cuja narrativa, a partir de começo e meio, acaba com uma lição de moral. O feito desconsideraria espontaneamente gêneros que se popularizaram há séculos por essa característica, tais como contos de fada, e que seguiu como pano de fundo para obras primordiais do cinema, a exemplo de D. W. Griffith. Antes de se chegar a afirmar que um filme é moralista, é necessário reconhecer a gratuidade dos elementos que o fazem como tal. Caso contrário, o melhor que se tem a fazer é assistir a uma história que, por algum motivo, mereceu ser contada. E Educação se enquadra nessa última sentença.
Num primeiro momento, o que mais chama atenção — sem falar nas três indicações ao Oscar deste ano — é a assinatura do roteiro pelo escritor pop Nick Hornby. Depois, basta render-se ao enredo baseado nos relatos autobiográficos da jornalista Lynn Barber, publicados numa revista inglesa. E não, isso não aparece no filme. Em Educação, a diretora Lone Scherfig faz um recorte, que foca um acontecimento principal e nele se desdobra para não se perder. Lynn recebe o nome de Jenny, personagem carismática interpretada por Carey Mulligan. O rosto foi feito para encantar, mas a fragilidade nele expressa se confirma depois que a jovem também se encanta. Assim, faz-se justificável o apelo ao ato inconsequente de uma adolescente que se inicia na vida social para além de sua conservadora escola.
A bossa de Hornby nos diálogos e a direção da dinamarquesa colaboram para a empatia aos personagens, mesmo alguns deles estando em pecados capitais. O filme não é pretensiosamente reflexivo. Leve e sem ambições, a aposta é na sutileza e no realismo, embora algumas caricaturas sejam inevitáveis.
A inocência perdida, o amadurecimento, o despertar para o mundo. Típico de incontáveis obras que se centraram no universo feminino na flor da idade. Na pele de Carey Mulligan, Jenny se torna um arquétipo. O trabalho de Lone Scherfig e Hornby entram em congruência quando disfarçam acontecimentos históricos — estamos numa Londres em plena década de 60! — e tornam o filme contemporâneo e universal, com tintas frescas e um tom retrô para quem quiser sentir certa nostalgia nos leves cenário e figurino. Educação não explicita o período — assim como a própria Lynn Barber em seu livro — mas o mantém como base para consolidar os personagens.
Jenny não vai assustar ninguém com uma flor e uma fita no cabelo, tampouco ouvir Janis Joplin. A menina transmite um ar angelical, escuta música francesa e planeja a data para perder sua virgindade. Uma garota como poucas, mas que poderia ser qualquer uma que apenas segue seus impulsos, ou melhor, até onde os pais a deixam ir. Transgredir a ditadura familiar ela só consegue com o mais velho e experiente David, personagem de Peter Sarsgaad. Sedutor à filha e aos pais, o homem passa a deslumbrá-la pelos passeios a lugares sofisticados e ambientes culturais. A menina, que tem uma pré-disposição ao gosto clássico, não se faz de rogada e encabeça no novo mundo de David e o inseparável casal de amigos.
A figura paternal deixa de representar a rigidez instaurada em ambiente familiar para conceber a maleabilidade das exigências diante do deslumbre, que tomou conta de todos que, pelo horizonte de oportunidades e a bem da felicidade, se conformam em se contradizer. Para a menina, felicidade amorosa e sexual. Para os pais, uma filha bem encaminhada ao casamento, sem dificuldades. A questão toda é ter se dedicado à vida inteira para passar para a universidade e, no último ano, ficar num impasse entre a profissão e a vida que não imaginara ter. Um tom feminista ecoa.
Por fim, tem-se aqui um conto sobre o recomeço. Não à toa, o filme ganha um título passível de ambiguidade. Educação não é o que recebemos quando pequenos como forma de preparação para a vida adulta? Pois bem, se a paternal se esfacela, a de um estranho no ninho se manifesta, mesmo com um gosto amargo. Alguns justificariam pela idade. Outros, que errando é que se aprende.
POR: [Monike Mar]
Fraco
Um olhar do paraíso
| Peter Jackson
Tal qual os filmes de grindhouse dos anos 70, Um olhar do paraíso apresenta dois filmes numa sessão. Nenhum deles é particularmente bom. O primeiro, uma comédia familiar açucarada digna da Sessão da Tarde. O outro, um thriller sobre um assassinato com um dos psicopatas mais caricatos dos últimos anos. Amarrando estes dois filmes, uma série de sequências sobrenaturais com bons efeitos especiais e boas ideias arremessadas, literalmente, no limbo. Peter Jackson dirige um filme de cerca de 2h30 de duração e nenhum personagem cativante.
Um olhar do paraíso conta a história dos Salmon, uma família caricata e feliz dos anos 70. Eles se amam incondicionalmente, são trabalhadores, vivem com o orçamento apertado, mas tem uns aos outros. A primeira parte do filme tenta estabelecer o carisma da família, mas falha. Miseravelmente. Cada fala dos Salmon soa falsa, como se estivessem num comercial de margarina. Susie (Saoirse Roman, com performance irregular) estuda num típico high school americano e tem até mesmo um amor platônico por Ray, poeta da escola. A garota, num dos raros momentos honestos do filme, se queixa para a avó, Lynn (Susan Sarandon, em bom desempenho, mas num papel equivocado) de que o garoto nem nota que ela existe. O filme, dedicado em arruinar qualquer rastro de credibilidade, anula este momento quando, cenas depois, coloca Ray se declarando para Susie no corredor da escola. "Você é linda, Susie Salmon", diz o rapaz, do nada, para uma abobalhada Susie.
Esta parte açucarada é cortada pelo assassinato de Susie (que já estava explícito pela narração da própria garota, do além). Aqui começa praticamente outro filme, que é ainda pior que a comédia-família de antes. O assassino, George Harvey (Stanley Tucci, quase irreconhecível) bate em todos os clichês estabelecidos pelo cinema nos últimos 50 anos. A interpretação de Tucci não é ruim, na verdade, é uma das melhores do filme, mas o estereótipo de homem solitário, com um hábito ridículo e obsessivo (no caso, construir casas de boneca), frustrado e "acima de qualquer suspeita" não cola mais. Se existe um modelo de psicopata guardado nos arquivos de Hollywood, este modelo é George Harvey. O modo como Harvey atrai Susie também desafia o bom senso do espectador. Quanto à cena do assassinato em si, Jackson tentou ser tão sutil que o espectador é levado a crer, ainda que por apenas alguns segundos, que Susie escapou das garras do assassino. O problema é que cinco segundos depois o filme já mostra que não foi bem assim, tirando o propósito da cena que acabou de exibir.
O problema maior é que Jackson não abandona um filme pelo outro. Enquanto os pais de Susie, Jack (Mark Wahlberg, em performance mediana) e Abigail (Rachel Weisz, também mediana) estão lutando para lidar com a morte da filha — Jack perseguindo incessantemente o assassino sem rosto e Abigail se alienando cada vez mais da família — a avó Lynn se infiltra na casa e o tom fica animado e carregado de piadinhas. Jackson tentou mostrar como as famílias lidam com o luto de formas diferentes, mas a mão do diretor foi pesada demais e a transição das emoções densas para as leves é brutal.
Amarrando os dois filmes, está a melhor parte de Um olhar do paraíso. Susie, no limbo, observa e, de certa forma, influencia todos os acontecimentos. Ali, Jackson tem um belo playground visual, pois esta dimensão intermediária entre a vida e a morte é um reflexo das emoções da garota. Uma chuva torrencial ou uma nevasca pontuam a raiva e tristeza da menina, enquanto um clima ensolarado e florido ilustra a felicidade que ela consegue encontrar neste momento tão difícil.
Com falas forçadas e personagens idealizados, Jackson não faz o espectador se importar muito com o caso da menina Salmon. Com o caricato psicopata, não aborda a questão do maníaco infiltrado na sociedade. E com a mão pesada, não leva a narrativa com a finesse que o tema exige. Um olhar do paraíso é, no final das contas, infernal.
POR: [Gerhard Brêda]