Laboratório Crítico | LABORATÓRIO POP
  • Regular

    Família vende tudo

    | Alain Fresnot

     

    Embalado por nada menos que cinco prêmios na 15ª edição do CinePE Festival do Audiovisual – mas espinafrado pela crítica especializada na ocasião –, o longa Família vende tudo chega oficialmente ao circuito nesta sexta (30). A nova comédia do diretor Alain Fresnot (Desmundo, Ed Mort), trata a história de uma Cinderela golpista da periferia paulista – com tipos mais clichês que em contos de fadas – envolta em uma estética de realismos que não aproximam e de absurdos que não encantam o público. Do cortejo ao politicamente incorreto, sai uma narrativa fraca apoiada fragilmente por bons atores.


    Na trama da fita, uma família com dificuldades financeiras tem uma brilhante ideia: fazer com que a filha Lindinha (Marisol Ribeiro) engravide do famoso cantor popular Ivan Cláudio (Caco Ciocler) para tirá-la do sufoco. Assim, os pais e os irmãos da moça planejam o dia em que ela deve dormir com o “Rei do Xique-xique” e passam a acompanhar sua agenda de shows. Lima Duarte, Vera Holtz, Robson Nunes e o jovem Rafael Rodrigues compõem o núcleo de parentes/gangue de Lindinha. Luana Piovani, Aílton Graça e as participantes especiais Marisa Orth e Beatriz Segall arrematam o elenco.


    Entendido pelo diretor como uma “tragédia romântica para rir”, Família vende tudo leva para o varejo bugigangas paraguaias e moralismos caretas. Mas, ao tentar fazer um deboche de situações risíveis da atualidade – como pseudo-cantores, marias-microfones e golpes-da-barriga –, o filme fica no limite arriscado da dúvida entre a crítica e o escracho. É quase como a lógica de “humor” do Zorra total, em que você se pergunta a cada novo quadro: “é isso mesmo?”.


    Toda a diversão fica por conta dos trejeitos e caracterizações dos personagens caricatos – descontando preconceitos gastos, como a loura burra (Luana), e perigosos, como o negro com potencial de bandido (Rodrigues). Marisol interpreta com frescor a mocinha destrambelhada, Ciocler está surpreendentemente mais cafona que Latino (a fonte de inspiração) e o casal vivido por Duarte e Vera é ao mesmo tempo repugnante e carismático.


    Dessa forma, Família vende tudo, desapoiado pela pouca divulgação, vai passar praticamente em branco pelos cinemas. Rodado há cerca de dois anos, o longa terminou suas filmagens com dívidas e por isso sofreu atrasos para ser lançado. Para quem se arriscar, vale pelo encontro do elenco e pelo prestígio de Fresnot, que realizou um trabalho envolvente em Desmundo (2002), seu filme anterior.

     

    Foto: Divulgação

    POR: [Camila Lamha]

  • Bom

    Contra o tempo

    | Duncan Jones

    Contra o tempo começa com uma bela sequência de abertura que mostra cenas da vida cotidiana da cidade de Chicago embalada por uma música que faz lembrar os filmes do agente James Bond, o 007. Dentro de um trem, conhecemos o capitão Colter Stevens (Jake Gyllenhaal), atordoado por estar sendo confundido com Sean, uma pessoa que ele não faz ideia de quem seja.

     

    Aos poucos, descobrimos que Stevens está no corpo de outro homem e que ele faz parte de uma missão para salvar Chicago de um terrível acidente de trem. A tarefa faz parte de um experimento secreto do governo americano chamado Source Code, um programa que permite ao agente assumir a identidade de outra pessoa em seus últimos oito minutos de vida. É com esse tempo que Stevens conta para desvendar o que vai acontecer com o trem e evitar a tragédia.

     

    Em seu vagão, ele encontra Christina Warren (Michelle Monaghan), por quem acaba se apaixonando. Além de descobrir quem está por trás dos planos de espalhar novamente o terror pelos Estados Unidos, ele vai fazer o possível para impedir que a amada morra na explosão do trem. Mas, para salvá-la, ele vai precisar convencer a capitã Colleen Goodwin (Vera Farmiga) da necessidade dessa missão.

     

    Logo após os atentados do 11 de setembro, os americanos tiveram dificuldade para lidar com o terrorismo. Mas, passados dez anos daquela trágica terça-feira, o tema ganhou força nos cinemas e se tornou um dos maiores filões de Hollywood, explorado em gêneros diversos, do drama ao horror, mas com especial intensidade nos thrillers.

     

    À primeira vista, Contra o tempo parece um típico filme de ação, já que o protagonista tem um curto espaço de tempo para evitar uma tragédia. Mas o roteiro de Ben Ripley mostra inteligência ao apostar suas fichas no intrincado processo cerebral que propicia a experiência do código fonte, evitando repetir clichês do gênero.

     

    A direção de Duncan Jones (ele mesmo, o filho de David Bowie), que debutou no cinema em 2009 com "Lunar", também acerta no uso criterioso dos efeitos especiais. Os elementos técnicos, discretos e bem empregados, ficam a serviço do elenco capitaneado por Jake Gyllenhaal. Ainda que não apresente o mesmo vigor de O segredo de Brokeback Mountain e Zodíaco, o ator cumpre bem a proposta do filme. Ao lado dele, com desempenhos também eficientes, Michelle Monaghan e Vera Farmiga.

     

    Orçado em US$ 32 milhões, Source Code - título original - nasceu com o objetivo de ser um filme médio, daqueles que mantêm as bilheterias da indústria hollywoodiana a todo vapor enquanto os blockbusters de verão e os possíveis candidatos à temporada de prêmios estão em produção. Contra o tempo mostra que ser médio não significa ser mediano e que, mesmo dentro destas limitações, é possível fazer entretenimento de qualidade.

     

     

    Foto: Divulgação

    POR: [Pedro Rabello]

  • Regular

    Amor a toda prova

    | Glenn Ficarra, John Requa

    Saem Jennifer Aniston, Ashton Kutcher e Katherine Heigl. Entram Steve Carell, Emma Stone e Ryan Gosling. No lugar dos estonteantes espiões, policiais e agentes duplos envolvidos em romances diplomaticamente complicados, entram... Pessoas. E já está de bom tamanho. Lembrando que no universo das comédias românticas menos pode ser mais, Amor a toda prova investe em personagens pé-no-chão – e atores acima da média – para enriquecer uma trama agridoce que usa o próprio caos a seu favor.

     

    O carro-chefe do filme é o empertigado Cal (Steve Carrel), o típico homem médio (no pior sentido) que, após receber o pedido de divórcio da esposa (Julianne Moore), não sabe mais o que fazer além de se lamentar publicamente enquanto afoga as mágoas em drinks afeminados. Em um de seus desabafos etílicos, ele conhece Jacob (Ryan Gosling), um conquistador que usa sua lábia admirável – e alfaiataria de primeira – para garantir um fluxo constante de aquecedoras de travesseiro alcoolizadas.

     

    Enquanto Cal tenta usar os conselhos de Jacob para recuperar a masculinidade perdida, seu filho de 13 anos (Jonah Bobo) começa a experimentar as dores do amor não correspondido. O objeto de seu afeto, uma babá de 17 anos (Analeigh Tipton), tem interesse por outro membro da família: Cal. A ex-mulher (Juliane Moore) vive um romance desinteressado com um colega (Ethan Hawke) na tentativa de aplacar a crise de meia idade (e a saudade do ex-marido paspalho). Já o mulherengo Jacob, aparentemente imune às flechas do cupido, muda de ideia quando conhece a palhaça Hannah (Emma Stone).

     

    Parece embolado. E é. No bom sentido. Em meio às várias (e igualmente legais) narrativas pessoais, o filme parece sempre prestes a se perder – mas nunca chega exatamente lá. Momentos de deliciosa breguice são abruptamente interrompidos por estocadas de um ceticismo pungente. É mais ou menos como assistir a um julgamento no qual o réu – no caso, o amor – é defendido e acusado pelo mesmo advogado. Amor a toda prova tem sim seus momentos meigos, mas definitivamente não é tão pôneis-e-arco-íris quanto o título sugere

     

    O elenco faz um trabalho excepcional aparando as pontas soltas. Só Carell conseguiria fazer um homem tão bobo funcionar como protagonista no meio de personagens indiscutivelmente mais divertidos. Gosling consegue superar sua carinha de cãozinho-prestes-a-virar-sabonete e cria um Jacob fanfarronesco na medida. O timing cômico impecável de Emma Stone nos faz desejar que Hannah ganhe seu próprio filme. Os fofíssimos Jonah Bobo e Analeigh Timpton têm uma dinâmica tão adorável que, se não fosse tão esquisito e nojento, até torceríamos por um final feliz. É Julianne Moore que, apesar da habitual competência, acaba um pouco de lado,  em parte devido a uma personagem meia-boca.

     

    A falha mais evidente - talvez a única que chegue a incomodar - é a mudança abrupta de ritmo. Se do início à metade o filme parece uma compassada meia-maratona, no fim mais parece uma prova olímpica de 100m rasos.  Este estranhamento, que poderia ter sido evitado com uma edição mais eficiente nos minutos iniciais, é compensado por alguns momentos - como a deliciosa cena em que uma maravilhada Hannah descobre o abdômen estatuesco de Ryan Gosling. O balanço, no fim das contas, é positivo.

     

    Oscilando entre profunda fofura e choques de realidade, Amor a toda prova conquista pela sinceridade. Sem muito choro e sem muitas gargalhadas, é um filme sobre gente de verdade, com problemas de verdade e relacionamentos de verdade. Sem julgar ou infantilizar, ele nos lembra que não há fórmula mágica para o amor - embora ter uma barriguinha como a de Ryan Gosling seja uma mão na roda.

     


    POR: [Fernanda Prates]

  • Regular

    Cowboys & aliens

    | Jon Favreau

    Colocar caubóis enfrentando alienígenas soa como uma ideia fantástica. De um lado, os conhecidos vaqueiros e xerifes do Oeste, do outro, inescrupulosos seres de outras galáxias. Essa ideia frutificou uma HQ, Cowboys & aliens, que, ao fazer a transição para o cinema, acaba caindo na vala mais genérica dos filmes de ação. Se você espera um faroeste mesclado com ficção científica, o que, considerando o nome do filme não é uma previsão absurda, provavelmente vai se decepcionar. 

     


     
    O filme abre com o personagem de Daniel Craig acordando no meio do deserto, ferido, com um bracelete de ferro e desmemoriado. O clichê do personagem sem memória, por mais cansativo que seja, acaba servindo a favor do filme, ainda que mais como muleta do que como recurso. 

      


     
    Em pouco tempo, Craig descobre que é Jake Lonergan, um criminoso procurado e que um de seus últimos crimes foi roubar uma diligência de Woodrow Dollarhyde (Harrison Ford). Em torno disso, surgem os outros personagens do filme, como Elle (Olivia Wilde) e Doc (Sam Rockwell). E, subitamente, com a sutileza de um rinoceronte em uma ala hospitalar, os alienígenas são arremessados na trama, atacando a cidade e sequestrando alguns cidadãos. 

      


     
    As performances são extremamente erráticas, ainda que a direção de Jon Favreau seja sólida e renda boas cenas de ação, segurando a estrutura do filme. Craig força um sotaque americano decente e consegue parecer durão nas cenas, mas seu personagem tem a profundidade de um pires. Wilde até que segura a onda, mesmo interpretando um dos piores personagens do ano, cheio de brechas no roteiro e saídas mal-explicadas. Rockwell é um alívio cômico medíocre, com incursões desastrosas no drama. Quem rouba a cena é Ford, que consegue segurar a onda de badass mesmo detrás das rugas e, ao mesmo tempo, consegue conferir peso dramático nas cenas. 

      


     
    A grande decepção de Cowboys & aliens vem do fato do filme jamais parecer um faroeste convincente. Sim, o período está caracterizado decentemente, mas os personagens são apenas versões de arquétipos do cinema de ação em roupas do fim do século XIX. As músicas não evocam faroestes, por mais que a atmosfera visual seja competente. Ao mesmo tempo, quando o filme embarca no expresso da maionese, ele não vira uma ficção científica, mesmo com naves e alienígenas saltando para todos os lados. Mais uma vez, os elementos estão ali, mas Favreau parece não saber empregá-los em seus respectivos gêneros. E talvez essa tenha sido a intenção, mas o resultado é genérico. 

     


     
    Calcanhar de Aquiles de diversas produções que lidam com alienígenas (quem não se lembra do ridículo monstro de Cloverfield?), o design das criaturas também leva. Cowboys & aliens para o solo, especialmente pela falta de consistência. Em algumas cenas, eles parecem verdadeiramente ameaçadores, juntando diversas criaturas medonhas da Terra em um pacote infernal. Em outros, parecem monstrengos ridículos evidentemente feitos em computação gráfica. E que tipo de criatura abre um compartimento no peito com mãozinhas extras, mas com o coração exposto para a visitação pública? 

     


     
    O bracelete de Lonergan é outro elemento sofrível. Ao que tudo indica, ele é uma espécie de revólver dos aliens, mas no filme, atua como um deus ex machina. Mesmo sem saber como ativá-lo, o caubói tem uma proficiência invejável com o dispositivo, o que, se analisado de perto, é absurdo. Jake dominar os aliens usando o bracelete é o equivalente a um chimpanzé dominar um soldado armado só porque pegou uma pistola. É uma tecnologia que ele não compreende nem domina, mas ele está tentando usá-la contra seres que conhecem perfeitamente seus mecanismos. A explicação do funcionamento da arma eventualmente chega - lá pro final do filme - e acaba gerando mais questionamentos do que respondendo qualquer coisa. 


     
    Em seus melhores momentos, Cowboys & aliens é um filme de ação competente, bem editado e divertido. Em seus piores, é um pastiche incoerente, com verdadeiros cânions no roteiro e uma galeria de personagens esquecíveis, mesmo com James Bond e Han Solo na mesma cena. E provavelmente isso é o bastante para valer o ingresso.

     

     

    POR: [Gerhard Brêda]

  • Bom

    Planeta dos Macacos: A Origem

    | Rupert Wyatt

    Chimpanzés são hilariantes. Apenas olhar para estes atrapalhados e, na melhor das hipóteses, confusos proto-humanos peludos, é garantia de algumas boas gargalhadas. Exceto quando eles estão agressivamente espancando outros indivíduos de sua espécie e organizando verdadeiros exércitos assassinos. E assim funciona Planeta dos macacos: A origem, um filme que mostra bem o lado fofo e inofensivo, mas também a brutalidade destes primatas.


    Mas é claro que um bando de comedores de banana, em circunstâncias normais de temperatura e pressão, não seriam uma ameaça em escala global. Entra James Franco como o cientista Will Rodman, uma mente brilhante da gigante farmacêutica Gen Sys, que está obcecado em uma droga viral capaz de reparar danos psíquicos e, em tese, curar doenças degenerativas como Alzheimer e Parkinson. E para isso, Will testa seus efeitos em uma macaca, Bright Eyes, que um dia acorda... com a macaca, e sai por aí destruindo o laboratório durante uma reunião de acionistas. Fecham o projeto, Will é desacreditado e a pesquisa é abruptamente fechada.



    Aqui entra a primeira grande falha do filme, um erro colossal que acaba tornando todo o resto mais frágil: na sela de Bright Eyes, descobrem um filhote: aparentemente a macaca estava grávida e nenhum cientista viu e ela estava apenas querendo proteger sua cria. Não dá para saber exatamente qual o protocolo para testar drogas experimentais em chimpanzés contrabandeados da África, mas há de se imaginar que os cientistas gostariam de saber o que diabos está acontecendo com o corpo do símio antes de sair desperdiçando bilhões de dólares em pesquisas por suas veias. Uma equipe futurista como a de Will deixar passar uma coisa tão gigantesca quanto uma gravidez (que altera toda a taxa hormonal do sangue) é difícil de engolir.



    Difícil ou não de engolir, lá está o bebê macaco, que Will leva para casa e decide criar. Caesar, interpretado por Andy Serkis em uma camada de CG, é o maior trunfo do filme. Quem acha que a história do doutor está em primeiro plano vai se decepcionar profundamente: o filme todo é um arco desenvolvendo Caesar, um macaco que, desde o nascimento, apresentou um intelecto avançadíssimo, mas que não deixa de ser um macaco. E esse é o verdadeiro drama do personagem: Caesar não entende seu lugar no mundo, como mais que um mascote, mas menos que uma pessoa.



    Os 15 minutos finais, como o trailer mostra, são pura ação de macacos contra humanos, mas tudo o que acontece antes disso é fundamental para dar peso dramático. O resultado na tela é similar ao visto em filmes como O franco atirador, com um começo mais lento e psicológico, seguido de uma conclusão mais explosiva. É possível entender as motivações de Caesar e, se você se distrair, vai se pegar quase comovido com um chimpanzé de CG. É difícil compreender como os roteiristas conseguiram criar tão bem uma personalidade em um macaco, mas é possível ver a determinação e a soberba do primata em diversos momentos.



    Lá pelas tantas, o filme, que é um reboot da clássica franquia com Charlton Heston, mas, ao mesmo tempo, uma prequel, mostra que o composto viral que deixa os macacos super-inteligentes é fatal para os humanos... mas também não espere que essa trama vá muito longe. Ela é fundamental, sim, para a história, e explica a derrocada dos humanos perante os macacos, mas no filme ela vira quase um subtexto, perante a ascensão de Caesar ao posto de líder dos símios.



    Os outros humanos do filme não são particularmente interessantes. John Lithgow é Charles, o pai de Will, e sofre de Alzheimer em estágio avançado. O personagem não é mais que uma motivação para a obsessão do cientista, mas o ator até consegue injetar uma carga de doçura no papel, especialmente em sua relação com Caesar. Brian Cox é completamente desperdiçado nas parcas cenas que aparece, como supervisor de uma espécie de canil para macacos (aparentemente, eles existem). O ator entra, fala algumas coisas com intensidade e não muda muito o universo ao seu redor. Tom Felton, famoso pelo papel de Draco Malfoy, é o mais perto que o filme chega de um vilão, como o tratador sádico Dodge Landon.



    A relação de Caesar com Will é uma ponte que permite com que o filme não vilanize nem os macacos insurgentes, nem a raça humana, um erro que Distrito 9 cometeu. Claro, Caesar é o herói e o protagonista, mas em nenhum momento a humanidade parece determinada a brutalizar os símios pelo simples prazer de brutalizar.



    Planeta dos macacos: A origem tem sim suas falhas, algumas faltas de lógica colossais no roteiro e sua parcela de saídas fáceis, mas também é um filme com um ritmo quase perfeito, uma construção primorosa de personagem para Caesar e que consegue não demonizar ou santificar a humanidade.

     



    Foto: Divulgação

    POR: [Gerhard Brêda]

  • Regular

    Professora sem classe

    | Jake Kasdan

    Seu preguiçoso título original (Bad teacher) já dá uma ideia do que se deve esperar de Professora sem classe: um punhado de saídas fáceis. Resgatada da total mediocridade graças a um elenco de apoio melhor do que merecia, a comédia neopastelão estrelada por Cameron Diaz e Justin Timberlake deixa a apelação e a preguiça abafarem o potencial de uma historinha até interessante. Desleixado, desatento e constantemente no "quase", o filme é a versão cinematográfica daquele aluno até inteligente que poderia passar de ano se abrisse um livro e fizesse um esforcinho.

     

    O filme conta a história de Elizabeth Halsey (Cameron Diaz), uma mulher imoral e desbocada (além de chegada numa ervinha) que decidiu virar professora por todas as “razões certas”: expedientes curtos e férias de verão. Prestes a concretizar seu grande sonho de vida – casar com um cara rico -, Elizabeth larga seu emprego na escola John Adams (JAMS) e, num golpe do destino, toma um pé na bunda logo em seguida. Muito a contragosto, volta a “lecionar” (entende-se passar filmes enquanto tira sonecas) e conhece Scott Delacorte (Timberlake), um professor bem apessoado, puro e, convenientemente, milionário.

     

    Para conquistar seu alvo, contudo, Elizabeth precisa mudar algo a respeito de si mesma. E não, não é sua personalidade terrível, seus hábitos aditivos ou seu vocabulário de estivador. São seus peitos. A beleza, contudo, custa caro (uns US$ 10 mil, mais especificamente), e ela irá levantar os fundos para seu upgrade nem que isso envolva roubar de criancinhas, seduzir pais, enrolar mães e drogar homens inocentes. Antes, contudo, terá que se esquivar da uber neurótica Amy Squirrel (Lucy Punch), também em busca do coração idôneo de Delacorte.

     

    Novamente, Cameron atua com seu maior trunfo: o corpo. Sua performance não chega a ser propriamente ruim – até porque o papel não exige exatamente habilidades de Meryl Streep –  mas, ao mesmo tempo, não leva a personagem a lugar algum. Não que a unidimensional Elizabeth tivesse muito para onde ir, mesmo. Boba e desinteressante, parece ter sido escrita às coxas, com palavrões como primeiro e último recurso cômico. Com a ajuda da eventual jogada de cabelo. Se a ideia era criar um antiherói afável, no estilo do Papai Noel de Billy Bob Thorton em Papai Noel às avessas ou do professor de Jack Black em Escola do rock, o tiro saiu pela culatra. Elizabeth começa e termina o filme como começou: tão interessante quanto uma Kardashian.  

     

    Timberlake, apesar de substituível, tem lá seus momentos, como em uma “cena de sexo” deliciosamente embaraçosa. Os bons minutos, contudo, são eventualmente interrompidas por alguma pastelonice sem propósito. Pouco inspirada, a dupla parece simplesmente pegar carona no vácuo do elenco de apoio. Lucy Punch é perfeita no retrato de Squirrel ("esquilo" em inglês, mais uma sutil analogia), a típica controladora neurótica sempre à beira de um AVC. Jason Segal entrega a única performance verdadeiramente natural do filme, na pele de um professor de educação física tão elegante quanto a protagonista (embora muito mais encantador). Phyllis Smith poderia ter tido mais tempo em cena na pele da professora baranga eternamente com batom  nos dentes e John Michael Higgins é engraçadinho como um diretor obcecado por golfinhos.

     

    O final é coerente com o resto: puro desleixo. Se por um lado há certo mérito em não se tentar “limpar” a personalidade obviamente irrecuperável de Elizabeth, ao mesmo tempo a tentativa de “final feliz” parece um remendo de última hora numa trama mal costurada. Não há nada de errado com personagens detestáveis ou politicamente incorretos - desde que eles sejam minimamente interessantes. Elizabeth, no caso, não é. Talvez o filme ganhasse mais dando uma maltratada na protagonista do que tentando nos vender uma moral distorcida na pele de “solução sem julgamento”. Trocadilho cretino, mas as circunstâncias pedem: Professora sem classe passa raspando.

     


    POR: [Fernanda Prates]

  • Bom

    Os Smurfs

    | Raja Gosnell

    Para os mais desavisados – aqueles que provavelmente passaram a infância em um casulo –, os Smurfs são pequenas criaturas azuis, que vivem em um floresta de cogumelos e cantam em coro “La la la la la la (repete várias vezes)”. Levados ao cinema através da tecnologia de integração entre animação 3D e live-action, os miúdos do “tamanho de três maçãs” podem provocar reações diversas. 

     

    Adultos mais rabugentos vão achar irritante a felicidade estridente cor-de-anil, envolta em uma trama de matéria gorda e alto teor de açúcar – a chamada “comida lixo cinematográfica”. Já o primeiro contato da crianças vai fazê-las descobrir um mundo paralelo de horas eternas de recreio e despertar o desejo de embarcar nas peripécias dos carismáticos pseudo-duendes. Os saudosistas, por sua vez, vão ficar impressionados com a apuro do desenho, as referências bem humorados e a agilidade das figurinhas com nomes correspondentes às suas personalidades complexadas. Apesar das três respostas fazerem sentido, marco aqui a opção três.

     

    Na trama de Os Smurfs, que chega às salas brasileiras nesta sexta (4), a perseguição do malvado feiticeiro Gargamel (o ótimo Hank Azaria) e seu gato Cruel expulsa os personagens azulados da vila em que moram. Através de um portal mágico, Desastrado (Anton Yelchin), Smurfette (Katy Perry), Gênio (Fred Armisen), Arrojado (Alan Culimming), Ranzinza (George Lopez) e Papai Smurf (jonathan Winters) vêm parar em nosso mundo, mais precisamente em Nova York. Presos na Big Apple, eles conhecem o casal de humanos Patrick Winslow (Neil Patrick Harris) e Grace (Jayma Mays), que os acolhem e os ajudam na missão de volta para casa.

     

    Criados em 58 pelo cartunista belga Peyo – sim, a bélgica tem Tintim e Smurfs – as criaturas ganharam fama mundial através da série de TV produzida a partir de 81 pela Hanna-Barbera. Agora, sob o comando de Raja Gosnell (dos fracos Scooby Doo 1 e 2) e assinatura da divisão de animação da Sony Pictures, os pequeninos interagem pela primeira vez na tela grande com personagens de carne osso. Em um cenário mais sujo e com uma cartela de cores de um céu com nuvens – apesar das menções a outras célebres figuras azuis como o Blue Man Group e os confeitos M&M's – os seres em miniatura portam fantasia a um ambiente caótico.

     

    O resultado é uma aventura divertida e de alto nível técnico, com destaque para um 3D que, em algumas cenas, parece nos levar para um simulador de parque de diversão. Momentos da trilha sonora, como direito a AC/DC e uma cena no Guitar hero embalada por Aerosmith, também agradam. Os clichês de um roteiro batido – em liquidificador por dezenas de produções – passam sem incomodar tanto, já que o interesse da fita é, através de um blockbuster confesso, apresentar às novas gerações os encantadores Smurfs, homenageando, de quebra, as não tão novas assim.

     

    Dessa forma, misturando palavras do inglês (ou português, na dublagem) com o idioma Smurfs, o longa atualiza um desenho de fãs cativos para angariar novos adoradores mirins. Como uma tarde de piquenique, Os Smurfs satisfaz o público descompromissado e, assim como no hino dos personagens, “canta para a tristeza espantar”. A “Smurfranquia” está inaugurada – mais dois, pelo menos, vêm por aí.

     

     

    Foto: Divulgação

    POR: [Camila Lamha]

  • Bom

    Capitão América: O primeiro Vingador

    | Joe Johnston

    Panfletário, “certinho” e representante do imperialismo yankee, o Capitão América não faz muito sucesso pelas terras subnutridas e subdesenvolvidas na periferia do capitalismo. Mesmo assim, a Marvel, na busca de avançar com os Vingadores, tenta conquistar o mundo com os olhos de filhote (e o abdômen de halterofilista) de Chris Evans, no papel de Steve Rogers. O resultado é um filme patriótico, sim, mas não bitolado e xenófobo. A incursão de Joe Johnston pelo “bandeiroso” herói não assume riscos, mas dosa bem a diversão.


    A história de Steve Rogers mostra o primeiro super-herói anabolizado de todos os tempos. Magrelo e infestado de condições crônicas, Rogers colecionava rejeições do exército, mas o franzino garoto do Brooklyn se recusa a desistir. A determinação do garoto acaba chamando a atenção do Dr. Abraham Erskine (Stanley Tucci, caricato, mas afetuoso), um cientista alemão que se opõe aos nazistas e cria um super soro que amplia as características de quem recebe a dose. Nas palavras do próprio, “o bom vira ótimo e o mau vira péssimo”.


    Erskine coloca Rogers em sua divisão de pesquisas, liderada pelo Coronel Phillips (Tommy Lee Jones, interpretando Tommy Lee Jones, o que é ótimo). Lá, Rogers mostra seu valor e acaba sendo cobaia para o projeto do Super-Soldado. A inoculação do super soro e a irradiação de raios Vita funcionam e Rogers sai da máquina musculoso, mas um espião do Reich consegue matar Erskine.


    Enquanto isso, na Europa, o cientista Johann Schmidt, o Caveira Vermelha, lidera sua divisão de pesquisa dentro do Reich, a Hydra, ganhando cada vez mais poder embaixo dos bigodes do Führer. A performance de Hugo Weaving é, como sempre, confiável e em um papel exagerado como o do tresloucado Caveira Vermelha, Weaving pode mastigar cada palavra de texto com raiva e cuspir com ira afetada. O vilão está atrás do todo-poderoso Cubo Cósmico, artefato supremo do Universo Marvel, que é, no filme, relacionado a Odin, Thor e os outros deuses nórdicos. 


    Parte do sucesso de Capitão América está na performance de Evans. O ator consegue passar a imagem de um rapaz comprometido com seu país e seus companheiros do exército, mas não de uma forma panfletária. Acima de tudo, Evans transmite uma bondade e simpatia ímpar para o capitão e consegue, de alguma forma, combinar isso com uma presença imponente em cena.  É bom ver que Tony Stark, Thor e Steve Rogers foram caracterizados tão bem em seus filmes, um ótimo presságio para Os Vingadores.


    O filme é abarrotado de referências, incluindo uma citação bem discreta a Indiana Jones e os caçadores da Arca Perdida, filme que deu ao diretor Joe Johnston um Oscar, na época como diretor de efeitos especiais. O primeiro escudo do Capitão, mais triangular, também dá as caras, assim como a clássica capa de HQ na qual ele aparece entregando um belo cruzado na cara de Hitler.

    No meio do caminho, pipocam pela tela personagens clássicos como Dum Dum Dugan e Bucky Barnes, com performances breves, mas intensas. Uma pena que Dugan foi introduzido na Segunda-Guerra, o que lima suas chances de dar as caras no filme dos Vingadores, a menos que ele viva mais de 100 anos.


    O filme, infelizmente, não é perfeito. A primeira coisa que salta aos olhos é a quase desconcertante falta de ambição da película. Johnston ousa tão pouco, joga tão seguro, que chega a ser incômodo. Ainda assim, talvez seja melhor apostar no que dá certo a fazer um drama shakespeariano esquizofrênico, como acabou saindo Thor.


    Outro problema é Howard Stark, o pai de Tony. É louvável que o filme tente fazer a ponte com os outros filmes da Marvel, mas Stark é enfiado à força em todas as cenas possíveis, rompendo a barreira do ridículo. Stark constrói a máquina que transforma Rogers no Capitão América. Stark pilota o avião que leva Rogers além das linhas inimigas. Stark constrói o escudo do herói e desenvolve o tecido de sua roupa. Stark lidera as buscas pelo herói quando ele desaparece. Stark chuta. Stark agarra. Stark arremessa e, adivinhem, Stark rebate. O personagem é até carismático,  espelhando algumas características de sua prole de forma orgânica, mas foi enfiado de forma truculenta em todas as brechas do roteiro. A forma como o filme se ligou a Thor foi muito mais elegante e eficiente.


    Capitão América
    é melhor que Thor. Ousa menos, mas acerta muito mais. Não chega ao panteão de Homem de Ferro, O cavaleiro das trevas e os dois primeiros filmes do Homem-Aranha, mas é um filme de quadrinhos mais do que eficaz e, tal qual um clássico hambúrguer americano, enche e é gostoso, mas não alimenta. Os alicerces para Os Vingadores estão armados, com três filmes no mínimo sólidos sustentando os heróis principais. Agora, tranquilizado pelo patriótico Capitão, o mundo pode respirar aliviado e bradar: Avante, Vingadores!


    Foto: Divulgação

    POR: [Gerhard Brêda]

  • Regular

    Assalto ao Banco Central

    | Marcos Paulo

    Em agosto de 2005, o Banco Central sofreu o maior assalto da história da instituição. Dos cofres da unidade de Fortaleza, no Ceará, foram roubadas três toneladas de notas, totalizando a quantia de R$ 164,7 milhões. No fim de semana em que tudo ocorreu, as câmeras de segurança não mostraram qualquer atitude suspeita, os sensores de presença não apitaram e nenhum tiro foi disparado. Os bandidos entraram no cofre por um túnel de 84 metros, cavado entre o cofre e uma casa nas proximidades do banco. A ação sofisticada exigiu mais de três meses de planejamento e milhares de reais. Foi um assalto digno de cinema.

     

    Estreia de Marcos Paulo na direção cinematográfica, Assalto ao Banco Central imagina como foi realizado o roubo e ficcionaliza respostas para questões sobre o crime que ainda não foram totalmente esclarecidas: quem eram as pessoas envolvidas no esquema, como conseguiram desenvolver uma operação desse porte e o que aconteceu com elas depois.

     

    O roteiro de Renê Belmonte, que também escreveu Se eu fosse você 1 e 2, é construído com dois tempos paralelos. Em um, o espectador acompanha o planejamento da ação e, no outro, o desenrolar das investigações que levaram alguns dos criminosos à prisão. A divisão dá uma maior dinâmica ao filme, mas tira a possibilidade de qualquer suspense em relação ao final, já que se sabe de antemão o destino dos personagens.

     

    Quebrar a temporalidade também é um recurso para dar maior ritmo, antecipando respostas para questões que não são cruciais para o desfecho. O truque, muito utilizado nos filmes de ação americanos, não funciona tão bem em Assalto ao Banco Central como funcionou em Tropa de elite ou Cidade de Deus. As sequências são constantemente intercaladas com cenas dramáticas ou alívios cômicos, quebrando a velocidade necessária para garantir a adrenalina da ação.

     

    Se não acerta no ritmo, resquício de um vício televisivo do diretor, Marcos Paulo conta com um bom elenco, que só não brilha mais por causa do tempo reduzido. O roteiro se esforça para aprofundar alguns conflitos dramáticos, mas recua diante da impossibilidade de abrir histórias paralelas para mais de uma dezena de protagonistas.

     

    Mas bons atores conseguem atuar nos mínimos espaços, sobretudo quando preparados pelas técnicas pouco ortodoxas, mas muito eficientes, de Fátima Toledo. Milhem Cortaz, Hermila Guedes, Giulia Gam e Lima Duarte dão a sustentação do filme, enquanto Gero Camilo, Tonico Pereira e Vinícius Oliveira ficam responsáveis pelas intervenções cômicas. Eriberto Leão, peça-chave para dar liga à quadrilha, não têm a mesma consistência de seus pares, mas não compromete. Os demais integrantes do elenco cumprem suas funções, mas pouco podem fazer além do básico.

     

    A história intrigante do maior roubo a banco do país ganharia maior relevo nas mãos de um diretor mais acostumado à linguagem e ao ritmo cinematográficos. Ainda que não possa ser comparado aos bons filmes americanos sobre grandes crimes, gênero no qual Hollywood é especialista, ou aos dois Tropa de Elite, Assalto ao Banco Central cumpre de forma satisfatória a função de entreter.

     

     

    Foto: Divulgação

    POR: [Pedro Rabello]

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    Harry Potter e as relíquias da morte: Parte 2

    | David Yates

    Nesta sexta (15), o ritual cinéfilo-literário, que se cumpria praticamente uma vez por ano, chega ao fim com Harry Potter e as relíquias da morte: Parte 2 – assim como anunciam os dizeres do cartaz: “tudo termina aqui”. Durante uma década, uma geração de fãs devotou sua fidelidade de público, atores se tornaram mega estrelas e uma franquia, a mais bem sucedida da história do cinema, virou um acontecimento da cultura pop. Isso porque, o justo tratamento adulto de uma história nascida para crianças foi sendo sazonado, ao longo de oito fitas, chegando ao seu ápice sombrio no último volume da saga.

     

    Apesar da estratégia de mercado, a astúcia em dividir o sétimo livro da série de JK Rowling em dois consentiu uma estética de espetáculo ao longa final. Urgente e emocionante, a Parte 2 começa justamente de onde a Parte 1 entrega, mas com fôlego de ação digno de um desfecho épico. O motivo dark – que mais se aproxima de O prisioneiro de Azkaban (2004), de Alfonso Cuáron – alcança a intensidade dramática de um cenário, agora, de trevas. Feitiços, azarações e maldições se conjugam às concepções artísticas violentas e melancólicas – destaque para a trilha sonora e as direções de arte e de fotografia.

     

    Já a direção de David Yates, que também assina o comando dos três últimos filmes, é muito particular. O cineasta consegue um resultado comercialmente excitante, e respeitoso ao material original, mas sem apelar para o melodrama da despedida. Isso faz da experiência de adeus ao bruxinho menos traumática, mas acaba pecando na pressa. Se, na primeira metade do longa, momentos de silêncio e suspense preparam o espectador para a grande batalha, nas situações avançadas, remates importantes ficam caducos ou fora do encaixe – como o destino da malvada Bellatrix ou a falta do ápice emocional da relação de Harry e Gina.

     

    A verdade é que a difícil tarefa de levar o fenômeno literário aos cinemas foi sendo construída e inovada passando pelas mãos de diretores diferentes, com olhares distintos. Enquanto a visão de Chris Columbus, dos dois primeiros, era infantilmente correta e a de Cuarón, estilisticamente ousada, Yates combinou os elementos de uma saga milionária e popular, mantendo a essência de fantasia do universo das histórias. E o sucesso maior do projeto, como franquia, está nesta audácia criativa inquieta, que sempre sustentou o alto nível de produção, roteiro e elenco ao longo dos anos.

     

    Os atores, aliás, são um ponto forte e especial de Harry Potter e as relíquias da morte: Parte 2. Além da lista sempre espetacular dos veteranos britânicos, a química do trio principal experimentou o seu melhor momento. Se a espontaneidade de Rupert Grint (Rony) e o carisma fotogênico de Emma Watson (Hermione) afloraram mais cedo, a presença de Daniel Radcliffe (Harry) ganhou mais energia na fita final, quase como se amadurecesse junto com o personagem. A maravilhosa interpretação de Alan Rickman (Snape), dando vida a uma das figuras mais complexas da obra, também se espalhou pela tela.

     

    Assim, o último Harry Potter faz honra a uma série que tornou um divertimento potencialmente descompromissado em um marco da indústria e da identidade cinematográfica contemporânea. Alavancada pelos altos orçamentos e expectativas, a franquia mostrou esforço de produção e dedicação ao público. E a resposta da plateia é dada pelos olhos marejados e por uma imensa sensação de satisfação ao final do filme.

     

     

    Foto: Divulgação

    POR: [Camila Lamha]

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    Cilada.com

    | José Alvarenga Jr.

    Todo mundo já ouviu falar que, em tempos de redes sociais e de facilidade de produção e distribuição de imagens e vídeos, todo cuidado é pouco. E que acabou a época em que era preciso ser uma celebridade para ser alvo dos flashes. Para o bem ou para o mal, qualquer mortal pode ter os quinze minutos de fama proclamados por Andy Warhol.

     

    Em Cilada.com, Bruno (Bruno Mazzeo) é flagrado traindo a namorada durante uma festa de casamento. Revoltada com o vexame público, Fernanda (Fernanda Paes Leme) publica na internet um vídeo em que aparece transando com o ex-namorado, numa relação que durou menos de quinze segundos por conta da ejaculação precoce dele.

     

    A cena faz sucesso na internet e Bruno vira uma celebridade instantânea. Para se livrar da péssima fama e conquistar novamente a namorada, o publicitário vai precisar provar que é bom de cama e que é capaz de dizer “eu te amo”. Nessa tentativa, claro, ele vai se meter nas maiores ciladas.

     

    Derivado da série homônima do canal Multishow, Cilada.com escapa de ser apenas um episódio de maior duração. Ficaram de fora, por exemplo, os comentários do antropólogo e do viciado em academia, que não funcionariam no cinema. Também não está presente Renata Castro Barbosa, uma das namoradas de Bruno na sitcom, e Débora Lamm não faz mais que uma participação.

     

    O roteiro, assinado por Bruno Mazzeo e Rosana Ferrão com colaboração de Marcelo Saback e José Alvarenga Jr, tem algumas piadas eficientes e frases que trabalham bem as palavras e expressões como recursos cômicos, mas peca em referências visuais manjadas, como a peruca estranha do personagem de Fulvio Stefanini e a alusão à cena das sombras de Os Normais, também dirigido por Alvarenga Jr.

     

    Ignorar a cartilha do politicamente correto, que tem castrado muitos comediantes, também é um acerto do grupo de roteiristas. A falta de pudor ao abordar temas como homossexualidade e travestismo, ainda que brevemente, também arranca risos da plateia, mas não chega perto da anarquia completa de Se beber não case. O único risco é acabar apelando para piadas pesadas e o uso excessivo de palavrões. E é neste último item que o filme escorrega, mas não chega a cair.

     

    Além de Bruno Mazzeo e Fernanda Paes Leme, o elenco conta com nomes de força da comédia nacional, como Luís Miranda, Sérgio Loroza, Dani Calabresa, Fabíula Nascimento e Thelmo Fernandes. Este último não é muito conhecido, mas sua habilidade para o humor é latente desde a primeira aparição em cena. Marcos Caruso, Milhem Cortaz e Alexandre Nero são participações de luxo, já que seus personagens pouco acrescentam à trama.

     

    Parte de uma trilogia que começou em 2010 com o fraco Muita cama nessa hora e vai terminar ano que vem com E aí, comeu?, Cilada.com não tem qualquer pretensão de discutir a força da internet, é apenas uma comédia de costumes divertida.

     

     

    Foto: Divulgação

    POR: [Pedro Rabello]

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    Corações perdidos

    | Jake Scott

    Esqueça o vampiro e o lobisomem que disputavam o coração de Bella Swan em Crepúsculo. Os conflitos emocionais da stripper Mallory (Kristen Stewart) em Corações perdidos são menos sobrenaturais e mais duros. A adolescente, órfã de mãe, abandonou sua Flórida natal para tentar ganhar a vida em Nova Orleans, se sujeitando às humilhações de clientes alcoolizados em troca de alguns poucos dólares.

     

    É no clube que Mallory conhece Doug Riley (James Gandolfini, o Tony Soprano de A família Soprano). O empresário vive um momento familiar difícil desde a morte de sua única filha. Apesar de passados oito anos do acidente de carro que vitimou Emily, as consequências da fatalidade ainda persistem: Doug recorre a amantes para encontrar conforto, enquanto a mulher, Lois (Melissa Leo), passou a ter pânico de sair de casa.

     

    Quando encontra Mallory no clube e descobre que ela ainda é menor de idade, Doug desenvolve pela adolescente um sentimento de que deve protegê-la e livrá-la dos perigos da prostituição. Para quem fugiu de casa em busca de liberdade, não faz parte dos planos da jovem aceitar as regras que o empresário tenta impor.

     

    Histórias sobre a expiação de culpa pela perda de um filho e sobre a deteriorização da relação de um casal costumam render bons filmes, como Reencontrando a felicidade, de John Cameron Mitchell. Corações perdidos, de Jake Scott, infelizmente, não entra nesta lista.

     

    É possível perceber todas as possibilidades de conflito entre os protagonistas da trama, mas elas não se desenvolvem porque os personagens aceitam as mudanças passivamente. E um drama não é um bom drama se não tiver grandes conflitos. E, sem eles, o filme perde o ritmo e não consegue prender o espectador por muito tempo.

     

    Não fossem os atores, Corações perdidos beiraria o fracasso. James Gandolfini confere a credibilidade necessária ao empresário Doug Riley, sendo o responsável por articular os demais personagens. Melissa Leo, vencedora do Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante este ano por O vencedor, é uma camaleoa. Com pequenas mudanças na maquiagem e no cabelo, a intérprete entrega sempre personagens fisicamente diferentes.

     

    A única boa surpresa fica por conta de Kristen Stewart. Ainda que não tenha o mesmo desempenho dos seus parceiros de filme, a atriz prova que é capaz de usar recursos mais complexos do que os exigidos pela saga Crepúsculo. Diferentemente de Robert Pattinson, ela consegue sustentar cenas mais dramáticas sem cair na caricatura ou soar inexpressiva. Se não funciona como um bom drama, pelo menos Corações perdidos serve para mostrar uma melhora significativa na atuação de Kristen.

     

    Foto: Divulgação

    POR: [Pedro Rabello]

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    Os pinguins do papai

    | Mark Waters

    Produções destinadas a toda a família que envolvem animais em suas tramas normalmente geram um inconveniente educativo. Se, em 101 dálmatas, as crianças quiseram multiplicar filhotes e, em Babe, o porquinho atrapalhado, bateram o pé pra conseguir um leitão de estimação, em Os pinguins do papai, os miúdos vão sair do cinema desejando fazer uma coleção de pinguins. Ainda mais porque as aves marinhas ganham trejeitos propositalmente mais fofos por computação gráfica, dançam em fila e gostam de Chaplin.

     

    A verdade é que a nova fita de Jim Carrey, com rugas rasgadas pelos anos de caretas, chegou, no mínimo, meia década atrasada. A animações Happy feet e Tirando onda, sem esquecer a jornada documental de A marcha dos pinguins, já trataram de explorar e gastar todo o potencial do gênero “pinguins vão à loucura”. O que se destaca, contudo, no filme que estreia nesta sexta (1) é a interação de personagens em live-action com os bichinhos de plumagem alvinegra. E, quando a interação principal é com um dos maiores protagonistas da história da comédia, é difícil ficar indiferente ao que se desenrola na tela – mesmo com as previsíveis cenas de defecação animal e fuga do bando e os “momentos pastelão”, como uma corrida em câmera lenta.

     

    Os pinguins do papai é baseado em um um clássico da literatura infantil americana, de Richard e Florence Atwater, publicado em 38. Carrey interpreta o Sr Popper, um executivo nova-iorquino bem sucedido, que recebe de herança do pai ausente seis pinguins pelo correio. Sua primeira reação é querer se livrar da trupe de aves exóticas, mas ele logo se apega e aprende a gostar dos novos colegas. A novidade gera transformações radicais na sua vida, proporcionando a sua reconciliação com filhos e ex-mulher.

     

    Apesar de quase sempre simpática, a trama do pobre homem rico que redescobre valores com a chegada de um “algo” inesperado é mais do que manjada. Aqui, ao invés de um filho bastardo, um parente intrometido, ou uma viagem no tempo, a mudança se dá pelo presente com o selo postal da Antártida. No elenco, se destacam a divertida Ophelia Lovibond (como a assistente Pippi), que faz aliterações do “p” em todas as suas falas, e a veterana Angela Lansbury (como a Sra Van Gundy), que aos 85 anos mostra muita elegância e vitalidade. O trabalho na direção do especialista em água com açúcar Mark Waters (Meninas malvadas, E se fosse verdade...), por sua vez, é visualmente agradável, mas sem imprimir um ganho de personalidade.

     

    Assim, Os pinguins do papai tira de cima da geladeira um dos maiores símbolos da cultura kitsch para trazer ao cinema um bonito conto de Nova York. Carrey, que veio ao Brasil para promover o filme, cumpre o seu papal preferido de entreter a audiência, servindo de recreio, ao certo, para todas as idades.

     

      

     

    Foto: Divulgação

    POR: [Camila Lamha]

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    X-Men: Primeira classe

    | Matthew Vaughn

    Os primeiros três filmes da franquia X-Men fizeram bem em estabelecer um mundo cheio de mutantes, mas nenhum deles decolou acima da marca de “bom filme baseado em HQs”, sendo o terceiro da série massacrado pela crítica (até certa medida, injustamente). Quando a Fox anunciou que mergulharia no passado dos mutantes, com a primeira classe formada por Charles Xavier, os fãs se retorceram, esperando mais uma tragédia nos moldes de X-Men: Origins – Wolverine. Estavam errados: X-Men: Primeira classe, em certa medida, ensina à Marvel como fazer filmes Marvel.

     

    A trama se passa nos anos 60, antes da humanidade tomar conhecimento da existência dos mutantes, e mostra como Charles Xavier, então um jovem e promissor pesquisador de mutações genéticas, conheceu seu principal adversário político, Erik Lehnsherr, o Magneto. A relação entre os dois é um dos aspectos mais fascinantes do filme, com a ideologia que marcaria os personagens em suas versões mais velhas, já muito bem delineada em suas juventudes. A amizade forjada entre os dois poderosos mutantes ganha contornos dramáticos quando você sabe aonde tudo vai acabar, em uma disputa ideológica violenta e irreversível no decorrer de vários anos.

     

    Unindo esses dois personagens está Sebastian Shaw, um mutante imortal que planeja, ao lado da equipe de mutantes chamada Círculo do Inferno, acelerar a Terceira Guerra Mundial e um apocalipse nuclear entre os Estados Unidos e a União Soviética. Shaw age mais como um fio condutor da ação e, no geral, com seu poder de absorver energia, é uma ameaça bastante real para a humanidade. Para contra-atacar o Círculo do Inferno, Xavier e Erik montam um grupo de mutantes, incluindo alguns bastante famosos, como Fera e Mística e outros não tanto, como Darwin e Destrutor (o irmão mais novo de Scott Summers, o futuro Ciclope).

     

    O maior acerto de X-Men: Primeira classe é a escolha dos protagonistas. James McAvoy encaixa perfeitamente com a jovialidade de um Xavier que pode andar e está descobrindo seus poderes, constantemente maravilhado com o encontro com outros mutantes. McAvoy consegue equilibrar insegurança com a maturidade do futuro Professor X sem esforço, e casa muito bem com a performance plácida de Patrick Stewart nos outros X-Men. O Magneto de Michael Fassbender é brilhante e bota Sir Ian McKellen contra as cordas. É outro personagem: no lugar do respeitado e equilibrado ativista político/terrorista Magneto, Erik Lehnsherr é irascível, precipitado e ainda sem o controle pleno de seus poderes. Quando Erik sai em busca de vingança contra os nazistas que roubaram sua infância e mataram sua mãe – incluindo Shaw, que atuava como um médico a serviço do Reich – Fassbender encarna Hans Landa e fala alemão, francês e inglês.

     

    Ainda no elenco, os elos mais fracos estão entre os vilões, à exceção de Kevin Bacon, como Shaw. O ator entrega um personagem arrogante demais para enxergar suas próprias fraquezas, mas ainda assim inteligente demais para sempre ter um plano alinhado e poderoso o suficiente para justificar a banca que coloca.  Por outro lado, o resto do Círculo do Inferno não impressiona. A performance de January Jones (ou melhor, de seu avantajado busto) é unidimensional como Emma Frost, com a atriz tentando demais parecer cool e se vestindo como uma atriz pornô dos anos 60 (o que, a bem da verdade, faz sentido com o personagem) para se preocupar com trivialidades como atuar, por exemplo. Jason Flaming no papel de Azazel, um Noturno genérico, utiliza aproximadamente 0% das capacidades do ator, com o personagem disparando apenas umas cinco frases com sotaque russo. Maré Selvagem, ou Riptide, no original, não ganha uma fala sequer e serve apenas para... para o que mesmo?

     

    No lado dos heróis a situação é melhor. A escolha para todos os personagens funciona muito bem, do ruivo cover de Rupert Grint interpretando o gritador Banshee, à traiçoeira stripper mutante Angel, todos os novatos são sólidos em seus papeis.

     

    O ritmo do filme é à prova de críticas, com cenas de ação intercalando debates entre Erik e Xavier ou algum tipo de debate envolvendo questões como preconceito e diferenças, as temáticas clássicas da franquia X-Men. Algumas participações, como Rebecca Romjin e Hugh Jackman, mostram que a Fox quer uma espécie de “Foxverso” em seus filmes de super herói.

     

    Maduro, inteligente, bem dirigido – por Matthew Vaughn, o homem que levou Kick-Ass ao cinema – e com performances admiráveis, X-Men: Primeira classe tem grandes chances de ser o melhor filme de baseado em HQs do ano. O deus do trovão, produzido pela Marvel Studios, ficou bem para trás. Cabe ao Lanterna Verde, na noite mais sombria, tirar esse caneco das mãos dos jovens Professor X e Magneto

     

    Foto: Divulgação

    POR: [Gerhard Brêda]

  • Bom

    Se beber, não case 2

    | Todd Phillips

    Prepare aquele combinado tradicional “cura ressaca” – serve água, café e analgésico. A bebedeira que vem por aí é bem conhecida e nada de novo vai acontecer na festa. Mas, se repetir a noite mais incrível da sua vida é uma saída para os dias de tédio, tenha certeza que nada se compara à primeira vez. A dor de cabeça, aliás, vem sempre mais forte. Se beber, não case 2 (Hangover 2) é uma reprise do primeiro filme, com os mesmos personagens, a mesma estrutura e uma mesma história apenas deslocada para Bangcoc. Possivelmente tudo que acontece em Las Vegas deva realmente ficar por lá, mas, para quem gosta de rir de uma piada pela segunda vez, vale passar pelo ritual de novo.

     

    A parte 1 foi considerada original nos limites do gênero e extremamente engraçada, levando um Globo de Ouro de Melhor Comédia em 2009. Ora, a nova fita é divertida na mesma medida insana e insensível da anterior – inclusive com doses maiores de humor grotesco e do politicamente incorreto. A questão é que é simplesmente impossível recriar o impacto da primeira vez. Se a amnésia alcoólica levou às maluquices do desconhecido, no segundo momento, os lugares imprevisíveis se tornam comuns. O desaparecido da vez é irmão da noiva de Stu, o bebê perdido é substituído por um macaco traficante e o dente quebrado é trocado pela tatuagem do Mike Tyson (que também repete sua pontinha freak).

     

    Na trama, Phil (Bradley Cooper), Stu (Ed Helms), Alan (Zach Galifianakis) e Doug (Justin Bartha) viajam para a Tailândia para o casamento de Stu. Após a inesquecível despedida de solteiro do amigo em Vegas, o noivo prefere não abusar na farra e celebrar a nova fase com uma inofensiva cerveja na praia. Obviamente, as coisas não saem como o planejado e eles acordam em um quarto de hotel imundo em Bangcoc. A tarefa agora é relembrar a última noite e encontrar o jovem Teddy (Mason Lee) antes que a cidade fique com para sempre. O excêntrico Mr. Chow (Ken Jeong) também está de volta.

     

    O diretor Todd Phillips prefere brincar com as fórmulas já vistas através do jogo do “eu não acredito que esteja acontecendo de novo”. Não é uma opção carente de criatividade ou medíocre, mas uma espécie de tributo à ideia e à legião de fãs formados. O roteiro também de Phillips, juntamente com Craig Mazin e Scot Armstrong, é inegavelmente cômico em algumas partes, mas menos atraente que o do original. A perseguição de carro em alta velocidade não decepciona, a trilha é eclética como a do primeiro longa e a sequência dos créditos finais é tão chocante quanto antes. Uma determinada cena no clube de strip é de fazer tombar o queixo e um flash back de Alan, alcançado através de meditação, com crianças no lugar dos personagens marmanjos é sensacional.

     

     Dessa forma, Se beber, não case 2 não é de maneira nenhuma um mau filme. Cabe ao espectador revisitar o longa, em novo ambiente, e decidir se topa ou não encarar o jogo de reprodução das situações. E para que esperou dois anos para cair de novo numa farra inesquecível (no caso, esquecível) com Phil, Stu e Alan, provavelmente, não vai se importar.

     

     

    Foto: Divulgação

    POR: [Camila Lamha]

  • Bom

    Um novo despertar

    | Jodie Foster

    Na fase de pré-produção de Um novo despertar (The beaver), que estreia na sexta (27), os atores comediantes Jim Carrey e Steve Carell foram, em determinado momento, cogitados para o papel principal da trama. Felizmente, o escolhido para viver um homem, que dá vida, através da sua imaginação, a um castor fantoche que carrega na mão esquerda, foi Mel Gibson. E nesta história de crise familiar, amparada por interpretações comoventes de veteranos e de jovens promissores, é impossível não aproximar o deprimido personagem do problemático ator a cada fala carregada de falso sotaque do boneco de pelúcia.

     

    Walter Black (Gibson) é o presidente de uma empresa de brinquedos que, com o passar dos anos, se afunda em uma depressão e se torna cada vez mais distante dos filhos e da esposa (Jodie Foster). Depois de sair de casa e tentar o suicídio, encontra nova esperança em um fantoche de castor, achado no lixo, que passa a usar na mão e tratar como se fosse real. Incorporando a personalidade de seu amigo de pelúcia, ele reencontra o sucesso profissional e a boa relação com a esposa, mas de uma maneira frágil e doentia.

     

    Além de atuar, Jodie Foster assina a direção do longa, o terceiro na carreira – seus outros trabalhos são Mentes que brilham (91) e Feriados em família (95). Ela traz no seu recorte um olhar sensível e maduro para uma produção não apelativa, nem excessivamente dramática, que ao se fazer contida joga com as emoções e os limites da sanidade. Aquele homem triste e desesperado arrisca alto na sua loucura até um ponto que o falso equilíbrio se torna insustentável. Pitadas de comédia, como vestir o animal de mentira com um smoking sob medida, se postam como uma quebra da tensão, rebatidas com agonia.

     

    Gibson e Jodie estão perfeitos como um casal que se ama, mas que não sabe lidar com as próprias complexidades. Os jovens Anton Yelchin (Star Trek) e Jennifer Lawrence (Inverno da alma), que vêm emendando uma produção atrás da outra, fazem um par romântico que não cai nos clichês dos personagens adolescentes tanto no papel como na atuação. O roteiro, aliás, de Kyle Killen, é um exemplo de um script comercial, que não fere a inteligência do espectador. Ao propor e encerrar o seu tema, com as evidentes limitações do pouco tempo, ele não não ousa deixar questões em aberto, incomodando apenas no gosto amargo que fica no final da sessão.

     

    Assim, Um novo despertar, é talvez lugar de algumas contradições – a começar pelas incoerências carregadas na bagagem do seu protagonista. É tristemente divertido enquanto comercialmente provocativo. Jodie, que vai contracenar com Wagner Moura em Elysium, consegue uma direção tão honesta e sóbria como todo e qualquer papel que resolve encarar. E dessa vez a situação não é nada fácil.

     

    Foto: Divulgação

    POR: [Camila Lamha]

  • Regular

    Piratas do Caribe: Navegando em águas misteriosas

    | Rob Marshall

    Encerrar uma trilogia e seguir abocanhando o osso é uma decisão arriscada. Toda e qualquer franquia amadurece um ciclo depois do terceiro longa, correndo o risco alto de caducar no próximo passo. Piratas do Caribe: Navegando em águas misteriosas, que estreia na sexta (20), aponta tanto a trama quanto a sobrevivência da série em uma bandeira clara: encontrar a Fonte da Juventude. Ao renovar o diretor e retirar o casal apêndice (Orlando Bloom + Keira Knightley), sem prejuízos, o filme investe naquilo (ou naquele) que tem de melhor, mas não consegue ressurgir como roteiro.

     

    Na história de Piratas 4, o Capitão Jack Sparrow (Johnny Depp) está pronto para começar uma nova jornada quando cruza com uma bela mulher do seu passado (Penélope Cruz). Sem saber, ele vai parar a bordo do navio Queen Anne's revenge, do temido Braba Negra (Ian MacShane), pai da moça. Para continuar vivo, Sparrow tem que guiar a embarcação até a Fonte da Juventude, mas um navio inglês, comandado por Barbossa (Geoffrey Rush), e uma frota espanhola também querem encontrar a nascente rejuvenescedora. Entre sereias, zumbis, e Keith Richards (retomando o papel de pai de Sparrow), fica difícil apontar a criatura mais assustadora.

     

    O script da produção começa por fracassar na tentativa de fazer aparecer o novo. A trama é previsivelmente rala e sem substância, deslocando, como de costume, as atenções para o aspecto visual da fita. Movido por mais um encontro de corsários ambiciosos, apenas acrescido de novas figuras míticas, o roteiro não envolve completamente o espectador e deixa, inclusive, lacunas na compreensão da trama – profecias e maldições mal resolvidas pelo caminho.

     

    A decisão, contudo, de centrar a produção no capitão da fanfarra interpretado por Depp é acertada. A cada andar desleixado, trejeito de bebum ou piadinha boba o ator prova a sua capacidade de reinvenção de um personagem gasto. Dessa vez, sem precisar roubar a cena, ele assume o leme de uma nova aventura de entretenimento, bem aconchegada pelo combinado de pipoca e refrigerante. Conservando o mote dos diálogos divertidos e dos personagens caricatos, o quarto longa mostra que uma nova trilogia pode estar a caminho, encabeçada pelo pirata certo. 

     

    A direção de Rob Marshall (Chicago) não imprime grandes novidades, mas, afinal de contas, a série já se tornou uma marca consolidada da Disney – e filme que está ganhando não se mexe. Surpreendentemente, o 3D, pela primeira vez na série, tampouco chama uma atenção especial. Já as cenas de ação ganham a medida certa, sem cansativos exageros como No fim do mundo. O tom sombrio se mantém – como na extraordinária sequência do ataque das sereias vampirescas – mas o que marca é a volta a uma diversão despretensiosa, como no primeiro longa. E a moçoila ambígua vivida por Penélope ajuda a carregar em sotaque e em simpatia a fita.

     

     Assim, Piratas do Caribe 4 acaba por repetir antigas formas na tentativa de ganhar frescor. Com falhas e pouca criatividade de roteiro, esperadas em franquias de qualquer tipo, o longa se segura no seu espetáculo visual e no mesmo Jack Sparrow velho de guerra. Investe na tarefa de entreter o público, seja com falas engraçadas ou efeitos de ação, e anuncia que mais águas misteriosas, em breve, serão desbravadas.

     

     

    Foto: Divulgação

    POR: [Camila Lamha]

  • Bom

    Os agentes do destino

    | George Nolfi

    A origem, Efeito borboleta, Ultimato Bourne,  Matrix, Brilho eterno de uma mente sem lembranças, Cidade dos anjos, Sex and the city... Com um mix de sci-fi, romance, humor negro e piração existencial, Os agentes do destino recebeu tantas comparações da crítica que já entrou em cartaz com rótulo de dejá-vu. Não é bem assim. Surpreendentemente sóbrio em sua própria viagem, o longa sobre homens de chapéu que controlam o destino da humanidade ganha identidade e atitude graças a George Nolfi, seu intrépido diretor, e aos afáveis pombinhos Matt Damon e Emily Blunt. Os furos e tolices narrativas são numerosos, mas perdoáveis em uma fábula nonstop sobre vida, morte, "Deus" e, por mais brega que possa soar, amor.



    Matt Damon é David Norris, um promissor político que, a caminho de se tornar o mais jovem senador de Nova York, tem sua trajetória interrompida devido ao vazamento de infortunas fotos do passado. Prestes a fazer seu discurso de derrota, ele conhece Elise (Emily Blunt, em atuação apaixonante), uma dançarina divertida e espontânea. As faíscas são imediatas. Eles são perfeitos um para o outro. Então, como em toda boa história de amor, tudo dá terrivelmente errado. Mas, desta vez, não são infelizes coincidências que separam o casal principal - e sim um grupo de homens de estilo duvidoso conhecidos como “agentes do destino”. David, contudo, está disposto a lutar contra o “plano” para ficar com Elise.

     

    Parece um pouco absurdo, porém... OK, é bem absurdo. Mas funciona graças ao casal principal. Não é fácil construir um romance inabalável e 100% crível - do tipo que  nos convence de que uma garota aleatória no banheiro valeria enfrentar poderes cósmicos fenomenais durante anos – mas Os agentes do destino chega o mais perto possível. O mérito aí é todo de Damon, Emily e os bons genes do casalzinho, que conspiram a favor de uma química arrebatadora e uma simpatia instantânea pela causa. O envolvente romance é o carro-chefe da narrativa, abafando os efeitos visuais e todo o nhenhenhem filosófico. Frente ao carisma do casal, é difícil, até para o coração mais gelado, não torcer por um final feliz.

     

    Os tais “agentes do destino” não impõem muito respeito. Na realidade, eles não passam de uns caras meio aparvalhados que provavelmente falharam no teste para a Matrix e ficaram presos com o indigno trabalho de derramar os cafés das pessoas para as coisas não saírem de rumo. Isso, contudo, não atrapalha; pelo contrário, deixa tudo muito mais leve. Da mesma maneira, todas as questões existenciais – “Deus” existe? Temos livre arbítrio? Qual é o índice ideal de brilho em sapatos masculinos? – são abordadas de maneira surpreendentemente leviana. Se por um lado as soluções parecem meio fáceis e “largadas”, por outro evitam dar uma carga desnecessariamente filosófica a um filme despretensioso e de ritmo agradável. E nos poupa de mais uma daquelas viagens de quatro horas cheias de reviravoltas e alusões enjoadas à já super mal-frequentada caverna do Platão.

     

    É nos breves momentos em que tenta ser sério e abordar temas religiosos que o filme perde a credibilidade. A narrativa não tem a sutileza necessária para sustentar uma alegoria religiosa, e algumas das falas mais “profundas” acabam soando simplesmente bobas. Estapafúrdio em essência, o filme ganha mais brincando com o romance e com a figura carismática de David do que questionando a habilidade do ser humano de se autogovernar e tudo mais. O final também acaba sendo meio bobo, mas, em defesa do diretor, parecia simplesmente inevitável.

     

     

    Para os fãs mais ardorosos de sci-fi, a discrição dos efeitos tecnológicos em prol do romance deve ser uma decepção.  Do mesmo modo, aqueles em busca de alguma incursão incrementada à mente humana à la A origem devem diminuir as expectativas. Os agentes do destino é acima de tudo uma história de amor, breguinha que só ela, que tem como primeiro e último objetivo fazer você torcer por um final feliz. E se você conseguir questionar alguma das bases da sua existência no meio do caminho, bem, pode-se dizer que saiu no lucro.

     


    POR: [Fernanda Prates]

  • Regular

    Todo mundo tem problemas sexuais

    | Domingos de Oliveira

    Há duas maneiras de assistir Todo mundo tem problemas sexuais, que estreia nesta sexta (13). A primeira é embalada pelo discurso descabido de Pedro Cardoso – que presenciei no Festival do Rio de 2008 – em protesto à nudez artística (ou em suas palavras à “pornografia gratuita”) nos cinemas. Se no filme, de fato, todos tratam o sexo sempre bem vestidos, isso só contribui para a estética falsa, calcada em uma fotografia de baixo orçamento e em performances estilo pastelão – a praia inegável do intérprete de Agostinho Carrara. Sendo assim, o longa se torna um festival de toscarias constrangedoras.

     

    Se pensarmos, no entanto, no diálogo provocado pelo diretor Domingos de Oliveira (Todas as mulheres do mundo) entre “teatro, cinema e vida”, há de se reconhecer um valor na fita. Nesse caso, as atuações exageradas fazem sentido na liberdade da cena teatral, recortadas por planos e movimentos de câmera, e o humor grita para se dirigir ao público participante. Como definir afinal qual ficção é mais verdadeira? Ao colocar em questão os limites conceituais da representação, o longa abandona um ponto de vista único e atiça a diegese cinematográfica.

     

    O filme é a adaptação da peça de mesmo nome, que fez um enorme sucesso quando estreou em 2000. A partir de cartas recebidas pelo psicanalista Alberto Godin e publicadas na coluna Vida íntima do jornal O globo, foram selecionadas seis histórias para compor o espetáculo. Para a versão cinematográfica, Oliveira escolheu apenas cinco, realizando um corte e colagem de trechos originais das apresentações no teatro e de trechos postos em cena para o cinema. Acrescendo ao mosaico, bate-papos de bastidores entre ele e os atores em um clima de conversa de buteco. Além de Cardoso, no elenco da produção também estão Priscilla Rozenbaum, Claudia Abreu, Orã Figueiredo, Paloma Riani e Ricardo Kosovski.

     

    A trama se divide entre homens inseguros, casais enrustidos, descobertas sexuais e fantasias com desconhecidos. A intenção de Oliveira de emprestar ao cinema alguns dos poderes do teatro, que é mais velho, é alcançada menos com o humor escrachado do roteiro, e mais com a sensibilidade artística que lhe é característica. E, sendo assim, vale a experiência entre quatro paredes da sala de cinema.

     

     

    Foto: Divulgação

    POR: [Camila Lamha]

  • Regular

    Velozes e furiosos 5

    | Justin Lin

    Esqueçam as araras azuis, buldogues amigáveis e povo alegre. A imagem calorosa e meiga da Cidade Maravilhosa que Rio pintou nos cinemas foi atropelada, metralhada e espancada por Vin Diesel e companhia em Velozes & furiosos: operação Rio. Contudo, pra quem consegue superar os sotaques ridículos, biquínis de vovó e, claro, total desmoralização da imagem carioca, é um filme de ação bem aceitável. Além dos habituais carros pimpados, coisas explodindo e moçoilas seminuas, o quinto volume da franquia ainda nos presenteia, enfim, com um quebra-pau épico entre os dois carecas mais vascularizados do cinema.


     

    No filme, o ex-policial Brian O’Conner (Paul Walker) se junta a Mia Toretto (Jornada Brewter) para ajudar o ex-presidiário Dom Toretto (Vin Diesel) a escapar de um ônibus de prisão. Onde eles poderiam curtir a clandestinidade e fazer seus negócios ilegais sem muito incômodo? Rio de Janeiro, é claro. Com a descoberta da gravidez de Mia, eles decidem elaborar um último plano para roubar a bolada do megacriminoso Reyes (Joaquim de Almeida), e seguir com vidas "normais" (com identidades falsas e dinheiro roubado, mas quem se importa?). Eles têm problemas, contudo, quando descobrem que cerca de 99% da polícia carioca tem conchavo com o vilão. E ainda sofrem com o agente Luke Hobbs (The Rock) em sua cola.

     

    Não é como se estivéssemos esperando uma visão lúcida e bem embasada do Rio de Janeiro. Embora desta vez não exista nenhum grande esquema de tráfico de órgãos envolvido (Turistas, lembram?), há um certo, ahn, exagero dos problemas cariocas. Um bom exemplo é a cena em que Vin Diesel, de braços abertos, comenta que “isso é o Brasil” e toda a população – armada até os dentes, sempre – decide se virar contra o FBI. Fora isso, é o velho esquema “cidade sem lei”, na qual todo policial é corrupto, toda mulher anda por aí de biquíni (ou seriam anáguas?) e as favelas são as organizações habitacionais vigentes. Nada disso, contudo, incomoda tanto quanto os sotaques medonhos e obviamente estrangeiros. Vá lá que a gente aceita muita porcaria sobre a cidade em nome da arte e da pancada, mas não dava pra achar atores brasileiros?

     

    Além de absolutamente previsível, esta generalização é abstraível num filme que obviamente não prima pela história, e sim pelo visual. E que visual. As cenas de ação são verdadeiras obras de arte, as tomadas são estonteantes, e o Rio parece mais lindo que nunca (grande parte foi filmada em Porto Rico, mas abafa o caso). As cenas inicial e final já valem o filme. O "racha" com carros de polícia pelas ruas cariocas também é irreprensível – embora fique aquela curiosidade para saber onde eles encontram ruas vazias por aqui.

     

    Dwayne “The Rock” Johnson, a cerejinha que faltava ao bolo de testosterona, arrebenta no papel de Luke Hobbs, o típico agente do FBI disparador de frases de efeito. Uma bela escolha de personagem, afinal, quem melhor que o Rock para segurar o “Viesel”? A ideia deles brigando "mano a mano" causa certo assoberbamento – seria o princípio de uma hecatombe nuclear? -, mas não é que os bombadões têm mais química que Tom Hanks e Meg Ryan? O personagem de Hobbs, aliás, praticamente inutiliza os adoráveis olhinhos verdes de Brian, que retorna bobinho, bobinho.

     

    Falando em bobinho, o romance entre Brian e Jordana é outro papo que simplesmente não cola dessa vez. Se a ideia é nos solidarizar com o drama dos dois – que, coitados, PRECISAM roubar milhões de dólares para sustentar uma criança -, ela falha. Sem contar que Jordana, amiga, está na hora de abrir essa boquinha e comer um pretzel. A interação entre Elena (a única policial não-corrupta do Rio, aparentemente) e Hobbs, embora forçada, pelo menos é um pouco mais caliente.

     

    Tiradinha sarcástica aqui, cofre desgovernado acolá, Velozes & furiosos entrega o que promete: ação. Os "furos" com a população carioca devem passar despecerbidos lá fora, e a gente pelo menos saiu bonito na foto. Em termos de filme de ação, o único pecado mesmo é o tempo. Com 130 minutos de duração, o filme cansa os olhos e a paciência até dos maiores fãs do gênero. Furiosos eles até estão, mas podiam ser bem mais velozes.

     


    POR: [Fernanda Prates]

  • Bom

    Reencontrando a felicidade

    | John Cameron Mitchell

    Assistir a um filme com Nicole Kidman deixou, há algum de tempo, de ser um programa atraente e seguro. A atriz argamassada de botox, e abertamente criticada pelos colegas por isso, incomodava a cada nova performance pela pose dura, reforçada pelo nariz rinoplasticamente empinado. Mas em Reencontrando a felicidade é diferente. Com a sinceridade de cabelos mal cuidados e de pouca maquiagem, Nicole vive com honestidade uma mulher comum do subúrbio americano; tão imperfeita como todas as outras, mas isolada por uma perda.

     

    Oito meses se passaram desde a morte de Danny, filho de quatro anos do casal Becca (Nicole) e Howie (Aaron Eckhart). Enquanto os dois reagem de manerias diferentes à dor, eles tentam encontrar juntos ajuda em um grupo de pessoas também em luto. Mas o casal acaba seguindo caminhos opostos no labirinto da tragédia. Becca busca uma possível solução se encontrando com o adolescente envolvido no acidente que provocou todas as mudanças em sua vida. Já Howie tenta voltar a se sentir vivo através de práticas e de prazeres cotidianos.

     

    Enquanto o título jogado em português é traiçoeiro e entediante, no original a fita se chama Rabbit hole, que se refere ao buraco de Alice, mas também a uma história em quadrinhos importante em determinado momento do longa. Se a trama é essencialmente batida, aqui ela é observada de maneira sensível, indo além da tristeza, através de soluções encontradas em variadas perspectivas. E, da sala de cinema, é impossível não reagir junto dos personagens às suas respostas de dor e de conforto, como em analogia ao exercício de viver.

     

    A direção do indie John Cameron Mitchell (de Hedwig – Rock, amor e traição e de Shortbus) é menos carnal como de costume, trabalhando com situações mais delicadas, sem tocar o melodramático. Na evolução da produção, a perda do filho parece ganhar força, depois de um tempo de aparente calma, para só então começar a ser superada. A interpretação de Eckhart, no entanto, fica meio fora de lugar. Bem como um cínico em Obrigado por fumar ou um vilão meio canastra em Batman, dessa vez falta ao ator equilíbrio entre força e fragilidade.

     

    Reencontrando a felicidade não teve sucesso de público quando estreou ano passado nos EUA e tampouco vai fazer barulho no Brasil. Apesar disso, foi elogiado pela crítica internacional e rendeu a Nicole uma indicação discreta ao Oscar de Melhor Atriz – e também as pazes com a carreira. O grande mérito do filme é funcionar, através de boas ideias, em um motivo tão gasto no cinema. E em pequenas doses de frustração, a trama vai abrindo e selando, aos poucos, fissuras de uma dor viva

     

      

     

    Foto: Divulgação 

    POR: [Camila Lamha]

  • Regular

    Thor

    | Kenneth Brannagh

    Thor é uma propriedade estranha da Marvel. Criado por Stan Lee, Larry Lieber e Jack Kirby e baseado na mitologia nórdica, Thor era uma espécie de Superman da Casa das Ideias, extremamente poderoso. O texto, escrito em inglês arcaico e empolado, cortesia do sempre prolixo Stan Lee, acabou por deixar o personagem em segundo plano no escalão da editora. Kenneth Brannagh, do alto de sua sensibilidade, tentou pegar o personagem e dar a ele um drama shakesperiano, com filhos ilegítimos, rivalidade entre irmãos e o dilema da sucessão real. Ao mesmo tempo, abraçou de forma confusa clichês de blockbusters. O resultado não chega a ser profano, mas está longe de ser divino.



    A estrutura de Thor é esquisita. Enquanto histórias de origem seguem um crescendo - mero mortal consegue poder de alguma forma, tenta aprender a usá-lo e, lá pelo fim, chuta traseiros - , Thor segue uma linha completamente diferente, com o personagem começando o filme extremamente poderoso, perdendo tudo e recuperando a força no ato final. Ao mesmo tempo, a estrutura psicológica do protagonista segue uma jornada até comum, com o herói começando cheio de falhas (no caso, a arrogância desmedida) e ficando mais maduro pelo decorrer da fita. O problema é que o miolo do filme se arrasta, com o fortão Chris Hemsworth (Thor) forçando um romance com Natalie Portman (Jane Foster), Kat Dennings (Darcy Lewis) disparando cultura pop “humorística” e Stellan Skarsgård (Erik Selvig) tendo o único e exclusivo propósito de conectar alguma coisa com a cultura nórdica.




    Logo de cara, o filme estabelece as diferenças entre Thor e Loki, irmãos disputando o trono de Asgard, e aqui, Brannagh brinca de Shakespeare. As falas são berradas, cuspidas, sibiladas e a sutileza vai para Valhalla. Hemsworth desliza constantemente, mas apesar de alguns excessos na performance, Anthony Hopkins consegue viver um bom Odin, imponente e sábio na mesma medida, e Tom Hiddleston é um Loki versátil, capaz de fazer algo exagerado e sutil dentro da mesma cena. Em outra referência ao Bardo, um dos Três Guerreiros, Fandral, parece ter saído de uma peça da Inglaterra vitoriana, com direito a cavanhaque, roupa bufante e esgrima.



    Por outro lado, Brannagh mergulhou em clichês insanos, como o grito de "Por que?!" destinado aos céus - com pontos extra por ser em uma cena chuvosa e, pior, em uma cena na qual um personagem derrama uma única lágrima. Amigo, isso não cola mais.
    E não é de hoje.


    As cenas de ação, ainda que escassas, são divertidas e utilizam bem o escopo de poderes de Thor. O personagem, em consonância com o universo Marvel no cinema, teve seus poderes bastante reduzidos, deixando de ser o Superman nórdico dos quadrinhos e ficando em um nível mais próximo do Homem de Ferro. O climax do filme não é dos melhores e as batalhas parecem se resolver muito rápido, o que não permite que Thor mostre a extensão de seus poderes de forma apropriada.




    O filme também faz um esforço gigantesco para inserir a SHIELD na jogada e, até agora, o universo Marvel parece coeso, com a ciência humana virando a magia de Asgard. É conveniente, mas necessário, vá lá. Ponto para Os vingadores, de Joss Whedon.




    A direção de arte é fantástica em Thor, com Asgard apresentando cores magníficas e construções belíssimas. O design das fantasias é soberbo e a roupa de Thor está no mesmo nível que a armadura de Tony Stark nos filmes do Homem de Ferro. Os efeitos especiais são bons, mas a festança (necessária) de CGI não é tão boa.  




    Thor é um filme abarrotado de pequenos detalhes, como a sempre divertida pontinha de Stan Lee ou a inclusão sutil de Clint Barton, o Gavião Arqueiro, como um agente da Shield, ou até mesmo a menção aos raios gama (radiação que criou Hulk). Kenneth Brannagh não domina tão bem o cinema blockbuster, enfia goela abaixo um romance entre Thor e Jane e força piadas, especialmente na personagem de Dennings, mas conseguiu segurar a coesão do universo Marvel até a chegada do Capitão América.

     


    POR: [Gerhard Brêda]

  • Regular

    Água para elefantes

    | Francis Lawrence

    Lembra quando Robert Pattinson era apenas um inocente galãzinho britânico fadado a uma vida de frívolos papéis adolescentes no cinema? Bons tempos. Agora sua inexpressividade afeta diretamente aos adultos também. Embora bonitinho e visualmente bem construído, Água para elefantes é brutalmente aleijado pelo protagonista que, sem carisma ou qualquer tipo de talento, não convence hora nenhuma como par romântico de uma já não-tão-boa-assim Reese Witherspoon. Nesta fábula circense pouco deslumbrante, quem brilha mesmo é Rosie, o lânguido elefante indiano que relega a Pattinson o papel de paquiderme da história.


    Inspirado no livro de Sara Gruen, o filme conta a história de Jacob (Pattinson), um jovem que, em vias de se formar em Cornell, recebe a notícia da morte de seus pais. Falido, ele desiste da faculdade e vaga sem rumo até se infiltrar no trem do circo dos irmãos Benzini, onde é contratado como veterinário. Lá, ele se apaixona por Marlena (Witherspoon), com quem divide o amor pelos animais e, aparentemente, a profunda falta de graça. A amada, contudo, é mulher do dono do circo (Christoph Waltz, segundo ponto alto do filme), o emocionalmente instável August. O líder, que a princípio parece dócil e protetor, logo mostra sua face cruel, possessiva e nada ecoamigável.


    A história, bonitinha por si só, apoia-se sobre uma estrutura narrativa conservadora: um Jacb idoso (Hal Holbrook) conta a história do Jacob novo. Sabiamente, o filme mantém o velhinho apenas no início e no fim – poupando-nos dos excruciantes falatórios corta-clima estilo Benjamin Button. Tudo é bastante meigo, colorido e absolutamente previsível, como uma versão de Moulin Rouge para o público infantil. Quer dizer, sem toda a prostituição, esbórnia, tuberculose e afins. Anões, acrobacias e cachorrinhos inteligentes completam toda a aura circense – um pouco nostálgica em tempos de Cirque du soleil e homens barulhentos pintados de azul. Em linhas gerais, o filme fica em cima do muro; encanta de leve, mas não arrebata. Enternece, mas não apaixona.


    O que derruba Água para elefantes para a linha da mediocridade é Robert Pattinson. Se a ideia era provar talento verdadeiro após o apático Edward Cullen, o britânico falhou miseravelmente. Sim, todos nós já entendemos que ele tem olhos amendoados e maxilar proeminente, mas nem todos os olhares sedutores do mundo conseguem salvá-lo da apatia atroz. O papel de Jacob exigia uma profundidade emocional mínima – ainda que para chorar a morte dos pais ou morrer de amores pela mulher do chefe -, mas o mínimo parece ser exigir demais do limitadíssimo ator. Não há desculpas desta vez. Pattinson simplesmente não sabe atuar. E quanto mais cedo superarmos isso, melhor para todos. Vejam como Keanu Reeves está se saindo bem.


    Em defesa do galã baunilha, Pattinson não foi o único elo fraco. Reese Witherspoon, esquálida na atuação e na silhueta, já viveu dias melhores. Marlena, uma daquelas personagens fortes-porém-sensíveis que se veem divididas entre a estabilidade e o amor verdadeiro (*cof cof* SATINE *cof cof*), não se sustenta como protagonista feminina. Em boa parte devido à palpável falta de química com Pattinson, que, dizem as más línguas, chorou e tudo na filmagens das cenas mais "calientes" (bem morninhas, na verdade). Não fosse por Christoph Waltz e seu inegável talento para interpretar sádicos narcisistas com personalidade limítrofe, toda interação humana teria sido perdida.

     

    Todos, no entanto, enpalidecem perante a magnitude de Rosie, o glorioso paquiderme. Seus olhares de dor e desolação transmitem muito mais do que os cansativos carões de Pattinson. Sua presença é muito mais marcante e dinâmica que a de Reese.  O protagonista, diga-se de passagem, parece muito mais inclinado a se aninhar no abdome cilíndrico de Rosie do que nos braços raquíticos de seu affair. Além disso, é esta estrela não-declarada que protagoniza o momento de maior comoção do filme, quando é agredida por Augustus com um fustigador. O objeto afiado, aliás, provavelmente teria sido melhor utilizado para espremer algum tipo de reação de Pattinson.


    Em toda justiça, a obra tem uma solução visual belíssima, enaltecida pela trilha sonora impecável de James Newton Howard (O cavaleiro das trevas). Estes cuidados, aliados à graciosidade de Rosie e ao talento de Waltz, o salvam de ser – com o perdão do trocadilho – um desastre de trem. Mas seu engessado casal principal acaba com qualquer chance de arrebatamento.  Carente de paixão e carisma, Água para elefantes faz jus ao título: é insípido, inodoro e emocionalmente incolor.

     


    POR: [Fernanda Prates]

  • Regular

    A minha versão do amor

    | Richard J. Lewis

    O amor é cego, surdo e, aparentemente, tem altíssima tolerância ao álcool. Esta é a principal lição que tiramos de Minha versão do amor, uma comédia (?) incrivelmente sombria sobre um homem feio, gordo, beberrão e egoísta que, por motivos que a própria razão desconhece, conseguiu ser casado três vezes. Propelido por mais uma atuação impecável (e pouco autoelogiosa) de Paul Giamatti, o filme equilibra muito bem seu cinismo pungente com momentos de profunda ternura, mas, muito ansioso por resoluções, acaba perdendo a mão.

     

    A história, contada em flashbacks, concentra-se em três relacionamentos amorosos de Barney Panofsky – e num quarto, possivelmente homicida, com o “frienemy” (algo como um “amigo/inimigo”) Boogie (Scott Speedman).  Todos fracassados. Sua primeira esposa (Rachel Lefevre) é um espírito livre sem muito tato, amor ao próximo e, a julgar por seu desfecho, pouco amor a si mesma. A segunda (Minnie Driver) é uma socialite afetada e embaraçosamente apegada aos pais, de quem Barney se cansa ainda na cerimônia de casamento. O algoz do segundo matrimônio é o vestido azul de Miriam - seu futuro verdadeiro amor. Obstinado (vulgo stalker), ele a persegue de todos os modos imagináveis até que, após seu divórcio, consegue o que quer. Encantada com a persistência (ou vencida pelo cansaço), Miriam se apaixona por Barney, que, coerentemente, estraga tudo.

     

    Barney é um dos personagens mais absolutamente detestáveis já vistos. Sem compaixão ou qualquer tipo de inclinação ao bem, ele nada tem de mocinho. Ao mesmo tempo, falta-lhe a astúcia diabólica que poderia qualificá-lo como vilão, ou ainda o carisma despretensioso dos adoráveis “caras normais”. Barney não é um cara normal. Permanentemente enganchado a uma garrafa de whiskey e mais feio que briga de foice no escuro, ele é excepcionalmente babaca. Sua total falta de apelo é tão angustiante que poderia facilmente subtrair do filme. Mas Paul Giamatti não deixa isso acontecer. Contido e consciente, ele entrega uma daquelas performances tão convincentes que você poderia jurar que, no fundo no fundo, ele também não deve prestar.

     

    O relacionamento entre Miriam e Barney é um dos aspectos mais inquietantes (e envolventes). Como uma mulher linda, composta, engraçada e agradável poderia se apaixonar pelo bagaço pós-apocalíptico que é seu marido? Mais que isso: sabe-se lá como, ela tolera anos de bebedeiras e displicência de um cônjuge grosseiro, desleixado e deselegante, e é ele que, no fim das contas, dá um jeitinho de destruir tudo em uma noite. “O que esta mulher viu nesse homem?” é uma das milhões de perguntas – não respondidas – que assombram o espectador.  E, por isso mesmo, é o ponto mais interessante do longa. Graças em grande parte a Rosamund Pike, que, muito charmosa, brilha como uma personagem que nos alivia da visão pitoresca de Barney Panofksy.

     

    Outra valiosa adição é Dustin Hoffman, encantador como o corrupto e fanfarrão Izzy Panofsky. Mais que seu pai, Izzy surge como uma versão mais carismática, envolvente e gostável de Barney. A evolução de seu pokemón, por que não? Seu personagem rende a cena mais bela do filme, quando Giamatti, chorando e rindo, sintetiza o tom agridoce da história. Scott Speedman também é uma grata surpresa no papel de Boogie, o bon-vivant inescrupuloso e bonachão que abusa da boa-vontade de Barney e consegue, com muito esforço, tirá-lo do sério.

     

    Por outro lado, Boogie também é foco do maior buraco narrativo de Minha versão para o amor. O fator mistério, que deveria acrescentar sabor, acaba parecendo um pouco gratuito e dissonante. Logo no começo, sabe-se apenas que Barney foi suspeito do homicídio do amigo, mas teria sido inocentado em circunstâncias suspeitas. A cena do suposto crime é construída de forma a despistar o espectador. O desenrolar verdadeiro dos acontecimentos, revelado apenas no final, é decepcionante, preguiçoso e praticamente inutiliza toda esta parte da história.

     

    Os momentos finais também não funcionam. Tanto por abordar um espaço de tempo extenso quanto por conter tantas linhas narrativas emocionalmente densas, o filme parece excruciantemente longo. Lá para os últimos 20 minutos, o longa perde umas três boas oportunidades de terminar sem maiores transtornos. A tentativa excessiva de resolução acaba estragando o ritmo da história, que perde a profundidade e sutileza com a qual começou e deixa um pós-gosto meio amargo. 

     

    Na pior das hipóteses, o filme é um sinal de esperança de que o amor pode florescer até nos terrenos mais inóspitos. Na melhor delas, é um retrato instigante de um homem que parece ter recebido muito mais amor do que merecia. Paul Giamatti, digno de seu Globo de Ouro, merece os louros da vitória. Não se engane: Barney não é um daqueles caras “adoravelmente ranzinzas” ou “excentricamente charmosos”. Ele é absolutamente repugnante.  Mas é a coragem de se aprofundar em um protagonista com tantas camadas de cinza que faz de Minha versão do amor particularmente envolvente.

     

     


    POR: [Fernanda Prates]

  • Regular

    Hop — Rebelde sem Páscoa

    | Tim Hill

    Se pararmos para pensar a Páscoa sempre foi uma data comemorativa renegada pela indústria do cinema. Produções sobre o Natal, o Halloween, o Dia dos Namorados (às vezes macabro) e até o super americano Thanksgiving sempre preencheram o espaço de filmes-para-toda-a-família datados em festividades. Neste ano, contudo, a festa da Páscoa fica ainda mais doce. O longa HOP – Rebelde sem Páscoa, que mistura computação gráfica e live-action, chega para divertir os miúdos, sem muitas pretensões.

     

    Na trama, Junior (voz no original de Russell Brand) está prestes a suceder seu pai na função de Coelhinho da Páscoa, mas não sente que essa seja a sua vocação. Foge da ilha de Páscoa – casa dos coelhinhos e da fábrica de gostosuras – para tentar a carreira no rock, como baterista em Hollywood. Lá ele conhece o jovem adulto Fred (James Mardsen), que tampouco quer assumir as responsabilidades da vida. Os dois se metem em confusões e aventuras e ainda tem de dar um jeito de salvar a tradição da data.

     

    Dirigido por Tim Hill (Alvin e os esquilos), o filme água com chocolate chega ao país, apenas em cópias dubladas, depois de liderar as bilheterias americanas. Com um visual agradável, mas não espetacular, a comédia não subestima a inteligência das crianças e conta com boas sacadas e cenas divertidas. A falta de um enredo mais criativo e de um desenrolar melhor explorado é que fazem do futuro de Hop um arquivo a ser lembrado pelas sessões da tarde nas próximas Páscoas – algo como o destino, quase obrigação, de Um herói de brinquedo.

     

     Dos destaques humanos, David Hasselhoff (de Baywatch), apesar de aparacer pouco, transforma qualquer fala ou trejeito em elemento de comédia. Já dos personagens animados, o pintinhos que trabalham na fabricação das guloseimas são uma reimaginação da função dos duendes ajudantes de papai Noel e ainda quebram o galho de rena, puxando o trenó estilizado do dentuço importante. O chefe do grupo é um divertido gorducho traiçoeiro, com sotaque portenho, na voz do excelente Hank Azaria – também entra na lista de pontos positivos perdidos pelo caminho da dublagem a participação de Hugh Laurie (Dr. House) como o Coelho pai.

     

     HOP – Rebelde sem Páscoa cumpre o papel dos filmes de festividades ao ser leve e divertido. Além disso, a difícil interação entre pessoas e desenho funciona bem, criando situações engraçadas para qualquer idade. Apesar de estar longe de subverter a classe, como Rango, o coelho Junior, que usa xadrez e caga jujubas (mesmo), consegue conquistar o público e entrar para o concorrido ranking dos carismáticos da animação.

     

     


    POR: [Camila Lamha]

  • Fraco

    A garota da capa vermelha

    | Catherine Hardwicke

    Era uma vez um conto infantil de fontes inesgotáveis de brincadeiras narrativas. E entre paródias e paráfrases em potencial, o sombrio sempre foi elemento de constituição básico da história da Chapeuzinho vermelho. Contudo, reimaginado em uma trama teen com atitude moderna (trilha pop e dancinhas), A garota da capa vermelha destrói qualquer encantamento de fábula dark e desinteressa o espectador. Através de incoerências de roteiro e diálogos extremamente bobos, o máximo que o filme chega é alcançar o patamar   da franquia Crepúsculo, da mesma diretora Catherine Hardwicke – deve ser essa a intenção. 


    Todos os elementos da fantasia adolescente oca estão lá. A começar pela falta de luminosidade intencional para provocar uma sombra fúnebre de mistério, mas que acaba  por tirar o sal de qualquer suspense. E centrada novamente em uma moçoila sofredora, Catherine permanece na intenção de não criar heroínas de força, mas vítimas frágeis que enfrentam a difícil decisão entre qual-dos-dois-bonitões-devo-escolher. Até o pai da protagonista é interpretado pelo mesmo Billy Burke da mega série vampiresca. 


    Bella, digo Valerie (Amanda Seyfried), é uma jovem que vive em um pequeno vilarejo da idade média atormentado por um lobisomem (não mais um lobo mau). Depois de uma trégua temporária, a criatura volta a atacar, e a primeira vítima é a sua irmã. Engajada no objetivo de combater o ser misterioso, Valerie também se divide entre sua paixão pelo lenhador Peter (Shiloh Fernandez) e seu noivado arranjado com o ferreiro Henry (Max Irons). Quando a moça encontra pela primeira vez o lobisomem, descobre que está mais ligada a ele do que imagina, passando a desconfiar de todos a sua vota. 


    Nenhuma interpretação se destaca. Gary Oldman vive um famoso padre obcecado em revelar e exterminar a forma humana do lobo, mas não convence como vilão. Julie Christie é mal aproveitada como a vovozinha maluquete da floresta com dreadlocks no cabelos. Já a encapuzada Amanda cumpre a função de parecer bonita em uma capa vermelha, mas nem suas feições de anime sustentam o caráter fraco das falas e o desenvolvimento absurdo das lacunas na história – o luto da família pela morte da filha mais velha não dura nem uma cena inteira.

     

    Assim, os olhos grandes para ver melhor a narrativa são apenas os azuis de Amanda. Devido, em parte, o sucesso de Alice no País das Maravilhas, de Tim Burton, Hollywood vem se debruçando sobre adaptações de contos de fadas para conquistar o público. Nada contra rodadas novas de histórias velhas, mas as reimaginações tem de ser criativas e honrosamente bem executadas. Esse não é o caso de A garota da capa vermelha.

     


    POR: [Camila Lamha]

  • Bom

    Pânico 4

    | Wes Craven

    “Qual é seu filme de terror preferido?”, já perguntaria o serial-killer-mascarado-cuja-identidade-não-poderíamos-revelar-nem-que-quiséssemos-por-motivos-legais.  A resposta provavelmente não será Pânico 4 - mas não por um mau motivo. Hilariante e babaca até o fim, o quarto round do eterno martírio de Sidney Prescott jamais deveria ser classificado como um filme de terror. E não faz a mínima questão. Com uma língua afiada, brincadeiras metalinguísticas e os adoráveis absurdos narrativos de sempre, o filme promete uma divertida e nostálgica viagem aos anos 90 para aqueles com o bom senso de ignorar o próprio bom senso.

     

    Na história, Sidney Prescott volta a Woodsboro para promover seu best-seller de autoajuda sobre, quem diria, superação de traumas. Lá ela reencontra o casal Dewey (David Arquette), agora xerife da cidade, e Gale (Courtney Cox), atormentada por um bloqueio criativo e insatisfeita com o casamento. Seu retorno, contudo, também significa a volta do assassino Ghostface - e de todos os telefonemas assustadores, invasões domiciliares e facadas que inevitavelmente atingem a porta (reparem). Além da tríade original, uma fornada fresquinha com seis adolescentes mal fadados chega com todo seu vigor e indispensáveis soutiens de rendinha para encorpar o abate.

     

    A dinâmica adolescente, geralmente onde produções do gênero estragam tudo, é um dos acertos de Pânico 4. Tomando o devido cuidado pra não deixar os bichinhos emocionalmente complexos demais (quem aguenta adolescentes pensantes?), o filme conseguiu criar uma coerência revigorante mesmo dentro da exploração dos estereótipos. Há todo um cuidado para que a babaquice teen esteja sob controle, sem aquela coisa meio tiozão de entupir o filme de ipods, sidekicks, "like, totally"s e referências ostensivas ao maldito Facebook. Claro que não podemos esperar um tratado sobre as tormentas da mente jovem, mas a caricatura está perfeitamente dentro dos limites do socialmente aceitável.

     

    Ousado, mas cuidadoso, Wes Craven foi certeiro em definir onde o original termina e o novo começa.  A estrutura adolescentes + ligações estranhas + ataque de psicopata" permanece, mas não existe mais toda a tensão e a seriedade dos filmes anteriores.  Uma escolha sábia considerando-se que é difícil respeitar o Ghostface depois de ver aquele tio barrigudo de 50 anos tentando assustar os sobrinhos com a máscara na cabeça e um copo de cerveja na mão. A fórmula, convenhamos, já passou da validade há alguns anos. Em vez de cair na armadilha de tentar recriar o terror em cima de algo que já foi parodiado até a morte, o diretor optou por uma autopiada espirituosa e surpreendentemente leve.

     

    É claro que não há muito como escapar de toda a tolice. Os furos narrativos são gigantescos, e a atuação de David Arquette é tão abismalmente terrível que você se pergunta o tempo inteiro se ele está falando sério ou sendo muito muito cínico. Mas a outra grande esperteza foi saber construir um filme em que os erros participam da história como todo o resto – e não deixam de homenagear os predecessores. O início é brilhante, o ritmo é bom e há muitas piadas de fazer rir alto (e não é sem querer). As referências ao universo de filmes de terror também são fartas e adoravelmente gratuitas.

     

    Uma das falhas de Pânico 4 - além do escabroso cabelo à la Betty White de Hayden Pannetiere – é a falta de pancadaria. Os assassinatos são rápidos, sem muitas fugas épicas seminuas por quintais ou chutes cinematográficos rodados. Além disso, os momentos de pretensa análise psicológica, embora breves (ufa), acabam quebrando um pouco o ritmo da história. Sidney é de longe a mais enjoadinha, limitando-se a semicerrar os olhos e lançar encaradas lânguidas a maior parte do tempo. Insossa, a protagonista é ofuscada tanto por sua relações públicas (Alison Brie, a Annie de Community), quanto pela bonitinha desbocada Kirby vivida por Panettiere.

     

    Definitivamente, Pânico 4 não é um filme de terror. Mas também não é uma comédia, um thriller ou um besteirol adolescente. E essa total bagunça, por incrível que pareça, é seu maior trunfo. Não satisfeito em simplesmente ser babaca, ele refocila em sua própria falta de senso, enriquecendo toda a metaloucura com diálogos espirituosos, boas referências e um humor veloz. Claro que é um pouco over, mas por que isso deveria ser um problema? O truque é sentar, relaxar e deixar os gritos, estripamentos e portas que nunca estão trancadas fazerem o resto do trabalho.

     

     


    POR: [Fernanda Prates]

  • MuitoRuim

    Eu sou o número quatro

    | D.J. Caruso

    Garoto conhece garota. Garoto é alto, bonito e tem ar de mistério. Garota é charmosa, tira fotos e usa boina. Garoto e garota se apaixonam. Garoto é um alienígena bioluminescente do planeta Lorien. Junte os pontinhos. Vendido (e entregue) como uma versão extraterrestre de Crepúsculo, Eu sou o número quatro consegue superar todas as expectativas de ruindade, arrombando a porta da irrelevância com os dois pés e uma shotgun. Desleixado e com protagonistas ainda menos carismáticos que os vampiros afeminados de Forks, compila tudo que há de mais desinteressante no universo teen numa amálgama de clichês sem graça, apelo emocional ou alma.

     

    O filme conta a história de "John Smith” (Alex PettyferZzzzz), um alienígena que se refugiou na Terra após ter seu planeta dizimado. Quarto exemplar de sua espécie (os três primeiros foram mortos), ele vive em anonimato, fugindo de um grupo de alienígenas malvados e esteticamente desagradáveis que querem exterminar o resto de seus conterrâneos. Após se mudar para uma pequena cidade de Ohio, ele conhece Sarah (Dianna Agron, dolorosamente OK), por quem se apaixona irrevogavelmente (em um loooongo processo de dois minutos). Acrescente ao romance instantâneo algumas explosões, rajadas de luz azul e uns toques de Roswell e Arquivo X. Estampe os nomes de Spielberg e Michael Bay e, tandam, eis o enredo blockbu$$ter.

     

    Por incrível que pareça, o problema do filme não é o conceito. Até mesmo uma fábula romântica adolescente sem qualquer fundo de verdade pode ser divertida com uma execução OK. Mas, seguindo a tradição de Crepúsculo, Eu sou o número quatro  parece tão certo de que será acriticamente digerido por garotinhas histéricas que sequer se preocupa em tentar ser bom. O desleixo começa pelo cenário, uma cópia meia-boca da já bastante genérica Forks, e termina com os aliens malvados, uns bichos humanoides com guelras na cara que não são assustadores, repugnantes ou sequer involuntariamente engraçados. A sensação – ou melhor, certeza – é de que os produtores se reuniram, jogaram um punhado de dólares na mesa e simplesmente esperaram eles se multiplicarem em cima do estrogênio alheio.

     

    Para bem ou para mal, Crepúsculo tinha ao menos uma carta na manga: o irrestível (?) Edward Cullen. Embora tenha parecido mais preocupado em sufocar seu sotaque britânico do que em rascunhar algum tipo de atuação, Robert Pattinson dá certo charme – ainda que estético – ao personagem. Seu vampiro é, na pior das hipóteses, absolutamente detestável. Já, Alex Pettyfer (Ryan Philippe + Ben McKenzie – personalidade) não causa nem esse tipo de emoção. Seja pela fraqueza do personagem ou pela fraqueza da atuação, John Smith conquistou seu lugar no Top 5 dos protagonistas mais inexpressivos da história do cinema adolescente. Freddie Prinze Jr. incluso. Bonitinho e nada mais, Pettyfer está fadado a uma vida protagonizando tragédias megalomaníacas de Michael Bay.

     

    A contraparte feminina Dianna Agron (a loiríssima cheerleader-mestra de Glee) provavelmente um dia irá acordar, levar as mãos à testa e esbravejar um sofrido “O que eu estava pensando?”. Consideravelmente bonita e até talentosa, Diana nada pôde fazer para resgatar sua personagem do fundo do abismo dos clichês adolescentes que é a nauseante Sarah. A velha fórmula de pegar uma princesinha e jogar uma boina para disfarçá-la de nerd pode ter dado certo nos anos 90, mas agora, por favor, deem-se ao trabalho de colocar um nariz falso. Onde, aliás, conseguiram encontrar uma boina para vender em pleno 2011? Os conflitos bobos da ex-garota-popular-que-cansa-da-superficialidade-dos-colegas-e-se-converte-à-fotografia fazem Bella Swan parecer o epítome da complexidade emocional.

     

    Coerentemente, o romance principal faz o casal Edward e Bella parecerem Clint e Meryl Streep em Pontes de Madison. Talvez no livro a coisa não seja tão ruim assim – como é o caso de Crepúsculo, inclusive –, mas na tela não há como fugir do ridículo da situação. Na tentativa de injetar mais ação para atrair o público masculino (e o $$), o filme acaba forçando ainda mais a barra do amor fast food. Embora sejam geneticamente capazes de produzir uma belíssima linhagem ariano-alienígena, os protagonistas não têm a química, a convicção ou tempo para nos convencer de toda sua suposta devoção intergaláctica. Em vez de faíscas, dali só saem farpas.

     

    O núcleo de apoio também não ajuda. Tanto os bullies à lá Karate kid (que John Kreese não leia isto) quanto os supostos “bonzinhos” não escapam da mesmice. O “pai” de John Smith (Timothy Oliphant) nada adiciona. A alienígena “número seis”, interpretada por Teresa Palmer, segue todo o figurino moto + jaqueta de couro + cabelo de cama que as garotinhas rebeldes chutadoras de traseiros devem obedecer, prometendo agradar às mais revoltadinhas. A garota, contudo, ao menos oferece uma boa sequência de ação (a final), e provavelmente seria uma protagonista bem menos desinteressante. Já o geek melhor amigo Sam (Callan McAuliffe) esboça quase tanta personalidade quanto... Bem, John Smith.


    Sem a leveza dos filmes adolescentes, a mística dos sobrenaturais e o apelo emocional das fábulas românticas, Eu sou o número quatro consegue ser genérico em todos os campos pelos quais se aventura. Nem mesmo os efeitos visuais e as carinhas bonitinhas nos fazer desviar da viagem sem escalas em direção à cidade de Chatolândia, Ohio. A tentativa de injetar ação na história não só falha em se comunicar com o público masculino, como provavelmente custará um naco da audiência feminina pré-púbere que se apaixonou pela melosidade de Crepúsculo. Se por um lado o romance raso entre Barbie e alien Ken deve bastar para carregar o longa pelas bilheterias, é difícil que um adulto são e sóbrio consiga fazer muito mais do que aturá-lo. Eles estão entre nós. E são muito, muito chatos.

     


     


    POR: [Fernanda Prates]

  • Fraco

    Rio

    | Carlos Saldanha

    Já estava bem claro pelos trailers, com uma arara azul voando de asa-delta pela orla carioca, ensolarada e colorida, ao som de Mas que nada, de Sergio Mendes, que o Rio de Janeiro de Rio seria um produto de exportação. Não deu outra: a Cidade Maravilhosa que Carlos Saldanha anima passa por todos os clichês possíveis, da praia ao Carnaval, tudo ao som de sambinhas de gringo. Povoando essa metrópole de cores vivas, está um dos elencos menos carismáticos já vistos em uma animação.


    O filme conta a história de Blu, uma arara azul domesticada – e bastante inteligente – que não sabe voar e mora com sua dona, Linda, em Minnesota. Após ser abordada pelo ornitólogo Túlio, a dupla descobre que a espécie de Blu está praticamente extinta e ele é o último macho. No Rio de Janeiro, em cativeiro, está a última fêmea, Jewel (traduzida como Jade). No meio do caminho, a dupla é roubada por traficantes de aves e Blu precisa sair de suas neuroses e crescer. Nossa, uma história de superação, de um peixe fora d’água tentando ultrapassar suas limitações? A trama é mais requentada que marmita de pedreiro.


    O elenco de personagens é um outro problema. Os pássaros que cruzam a tela falham em despertar algum interesse. O casal principal até tem algum charme, mas a ideia de colocar Jesse Eisenberg como dublador não foi das melhores. Nas cenas mais calmas, seu estilo esquisito de falar até brilha, mas basta o personagem se empolgar que Eisenberg passa a falar fino, como uma garota, com um timbre irritante. A dupla alívio cômico, formada pelo canário Nico e pelo “sabe Deus o que” Pedro, dublada por Jamie Foxx e Will.I.Am, consegue a proeza de não acertar uma piada sequer. Claro, existem tentativas, mas parece tudo um veículo para que Will.I.Am dispare seus raps. Indigesto, no mínimo.


    Os humanos são insossos. Linda, Túlio, o traficante Marcel e seus capangas, todos são arquétipos cansativos e sem carisma. Tudo soa derivativo e, por mais que a animação tenha estilo e qualidade, sem um elenco sólido como o trio de Era do gelo, a ação desmorona. A única pequena glória do elenco é a cacatua Nigel, dublada de forma sombria por Jermaine Clement, que entrega um vilão ameaçador, ainda que bidimensional. O papel cairia bem também na voz de Alan Rickman, mas o que está ali é suficientemente interessante.


    Algumas idiossincrasias também pipocam pelo filme e são distrativas. Até o último ato, raramente o idioma se mostra uma barreira, com os personagens habitando aquele país firmemente colocado na suspensão de descrença, com todos falando inglês naturalmente, com um ocasional: “Ah, você é americano?” sucedendo algumas palavras em português. Até os traficantes falam casualmente em inglês entre si, mas é algo coerente com o resto do filme. Subitamente, na Sapucaí (claro que teria um desfile), um coadjuvante apenas se comunica em sua língua nativa, berrando ordens para Linda como “Rebola!”, em bom português. Quem samba, no fim das contas, é a coerência.


    Com um roteiro cansado e um elenco desinteressante, Rio só vale para ver a Cidade Maravilhosa, ainda que em uma versão bem artificial, em uma animação. É colorido, tem as obrigatórias cenas de ação e segue os passos de qualquer jornada de herói de meia tigela. Parece que Rio foi fazer uma tour estilo safári pela favela e acabaram furtando o carisma do filme. Perdeu, playboy.

     

     


    POR: [Gerhard Brêda]

  • Regular

    Uma manhã gloriosa

    | Roger Mitchell

    Quão disposto está  a aguentar uma mulher workaholic, histérica, tagarela e, como se não bastasse, atrapalhada, como protagonista de uma comédia histriônica? Esta é Becky Fuller, personagem da bonitinha e aqui virginal Rachel McAdams. Produtora de destaque de um programa de TV matutino, a jovem é surpreendida com o comunicado de sua demissão. Logo depois de algumas cenas abreviadas pela edição acelerada (ainda bem), é contratada por outra emissora, para trabalhar no Daybreak, programa teoricamente concorrente, com audiência ainda mais insignificante. O motivo é aparente: repórteres, âncoras e produtores desmotivados, egocêntricos e mal-humorados. Se depender desta equipe, nada funciona. Pior é que depende. 


    Novata no ambiente desestimulante, Becky chega com o intuito de por ordem na casa. Nem que para isso precise demitir o âncora mais famoso e turrão do lugar, passe noites em claro e prejudique sua já escassa vida sexual com um jornalista investigativo de outro setor. Tudo isso numa histeria que estrategicamente te mantém acordado para acompanhar um programa televisivo de conteúdo completamente irrelevante. Todos têm a consciência de tal fracasso, mas ninguém, senão a heroína da história, tem vontade de mudar esse quadro. Com ares de hospital psiquiátrico, Uma manhã gloriosa, assim como o programa, tem alguns nomes famosos que podem representar a sobrevivência. 


    No elenco, uma Diane Keaton de cabelos brancos no papel da apresentadora principal Colleen Peck. Complementando, Harrison Ford na pele de um jornalista internacional que faz questão de relatar sua experiência em grandes coberturas políticas, e por ter um contrato milionário, fica longe da emissora para caçar pássaros. Apesar dos rostos conhecidos, as personalidades de ambos não colaboram para erguer o filme. Mesmo assim, parece fazer sentido. Com as tentativas de Becky Fuller de salvar o programa, são exatamente esses personagens os que ainda a inspiram a continuar tentando. O maior desafio é convencer Mike Pomeroy, o tal jornalista “sério”, a dividir a bancada com Colleen, para tratar de culinária, comportamento, moda e fofocas. 


    Uma cláusula no contrato convence Pomeroy, mas os gráficos de audiência detonam ainda mais depois da entrada do jornalista monossilábico. O chefe de Becky avisa: se os índices continuarem declinantes, o programa acaba para abrir espaço a novelas e games shows. Salvar o Daybreak seria assim uma missão impossível se a praga do final feliz não pintasse por aqui. Becky é tomada pela brilhante ideia de valorizar mais assuntos de entretenimento. Repórteres vão para as ruas gravar matérias que causam vergonha alheia. 


    Aí vale tudo: beijar animais, subir montanha russa, vestir fantasias, tocar instrumentos exóticos, entre tantas outras coisas que elevam a audiência, mas não tanto. A outra estratégia é aproveitar o jeito mal-humorado de Pomeroy para fazer graça. A troca de ofensas com a apresentadora rende picos no ibope. Mas tudo só dá certo mesmo quando o Daybreak, que acorda meia dúzia de espectadores todas as manhãs, valoriza furos de reportagem. 


    Com o crescente sucesso do programa, Becky Fuller é chamada para trabalhar no Today Show, da NBC, o programa de maior audiência do horário. Fórmula simples que rende instantes dramáticos rasos: a menina fica dividida entre o lugar que ajudou a revitalizar e o trabalho dos sonhos. Daí, aumentam o volume da trilha sonora açucarada, põem a jovem a correr e subir degraus em câmera lenta, ela decide ficar e os sorrisos nos rostos imperam. Parece então ter sido essa a tal manhã gloriosa do título: piegas e sonolenta. 

     

     

     

     

    POR: [Monike Mar]

  • Fraco

    Atividade paranormal em Tóquio

    | Toshikazu Nagae

    Com apenas 15 mil dólares de produção, Atividade paranormal se tornou um fenômeno de bilheteria, arrecadando mais de US$ 216 milhões em todo o mundo. Mas, mesmo com números surpreendentes e sustos escassos, menos de dois anos depois, o terror continua rendendo. Agora, da América para a Ásia, os acontecimentos sobrenaturais ganham coadjuvantes, uma trama um pouco mais elaborada e, apesar dos acréscimos na história, o título de apenas mais um. Não se trata exatamente de um remake. Atividade paranormal em Tóquio foi filmado em paralelo ao segundo filme da franquia original, sendo assim uma versão japonesa de continuação do primeiro. Desnecessário?

     

    Se os trailers chamam atenção para a reação dos espectadores em pânico — alguém se lembra dos teasers de REC? —, assistindo ao filme, vemos que tudo não passa de um exagero frente às câmeras. O longa reproduz a mesma estética caseira, de câmeras trêmulas e de vigilância, para contar a história de uma jovem perseguida por um espírito maligno. Desta vez, os ataques dos infernos se estendem à família da garota, que sofre com a possessão — no original, a casa é mal-assombrada.

     

    A perseguição justifica o sofrimento da menina até mesmo em terras orientais. Nos Estados Unidos para fazer um intercâmbio, Haruka Yamano sofre um acidente de carro e a partir de então é possuída pelo espírito que inferniza sua vida. E, para piorar, fica com as pernas engessadas — o que não a impede de andar quando está com o espírito no corpo. Com a intenção de fugir do caos maligno, ela volta para Tóquio, para morar com o irmão. Mas... adivinha? Nada adianta e o filme se arrasta com os rostos dos irmãos ora dentro, ora fora de quadro. O pai e mais três amigos fazem apenas figuração.

     

    Para desvendar o mistério das bizarrices sobrenaturais, Koichi Yamano arma a velha arapuca de esconder câmeras em dois quartos (dele e da irmã). Em alguns instantes interessantes do filme, acompanhamos as provocações do espírito em tela dividida. E, assim como no primeiro, temos o truque do contador de horas acelerado na câmera. O espírito só se manifesta por ruídos: a cadeira de rodas se mexe, um punhado de sal se espalha pelo chão, portas abrem e fecham.

     

    A maior surpresa da história, contudo, não provoca nenhum susto: a possessão da garota tem relação com o primeiro filme, já que o acidente que sofreu acontece nos Estados Unidos — onde se passa a versão original. O final é repleto de artifícios que transformam o filme em intermináveis noventa minutos. Assim, a versão oriental do terror que só espanta pelo sucesso de bilheteria se afunda em um vai-e-vem de mortos e vivos. Cansa.

     


    POR: [Monike Mar]

  • Bom

    Sem limites

    | Neil Burger

    Sabe aquele papo científico de que só usamos 20% de nossos cérebros? Eddie (Bradley Cooper), homem à frente de Sem limites, toma uma pílula mágica e nos mostra como funcionaríamos com os miolos anabolizados a pleno vapor. Apesar de algumas escolhas ironicamente estúpidas do roteiro, a injeção de adrenalina funciona bem no quinhão de tutano que nos cabe. Ou seja, não interessa nem o nome estranho do que  Eddie está tomando, você vai querer igual.


    Como os reles mortais que não sobrevivem a doses cavalares de Prozac, Eddie Morra sofre. Lateja em sua cabeça uma crise criativa, ainda choraminga a dor de um pé na bunda (a dor de cotovelo atende por Abbie Cornish). Eis que um encontro mais que casual traz às mãos de nosso protagonista a mágica pílula NZT. Basta um gole seco para que se dê a mutação: Eddie é agora uma máquina de escrever, um exímio poliglota, um pegador frenético, um lobo nas estepes de Wall street. E um viciado.


    NZT é, obviamente, ilegal. E, claro, tal atividade cerebral convulsiva não poderia passar impune às leis da… natureza? Da biologia? De Deus? De qualquer forma, enquanto dura a onda, Eddie sabe exatamente o que fazer, tem acesso a absolutamente tudo o que já viu/ouviu, é agraciado com uma percepção pulsante. Se usa demais, lapsos de memória perseguem sua consciência. Se tenta se desvencilhar, o que lhe aguarda são dores de cabeça excruciantes, vômitos em jato e uma perna manca — sério, na fita todos os drogados-em-abstinência puxam da perna esquerda.


    Para nos poupar as bad trips, Eddie coloca as mãos numa boa quantidade da escassa pílula da felicidade. Isso o torna alvo fácil no mercado negro e logo, logo o rapaz está sendo perseguido por capangas russos, policias honestos, um advogado engravatado e um serviçal psicopata. A paranoia logo se instala, enquanto o chefão do mercado financeiro Carl Van Loon (Robert De Niro, num terno caro que não esconde o sorriso mafioso) o pressiona para descobrir o truque por trás de genialidade de seu novo contratado.


    Cooper faz bem os três papéis que lhe cabem em Sem limites: o escritor fracassado e bobão, cabelos desgrenhados, irreconhecível; o poderoso agente financeiro, charmoso e sagaz; e o junkie enlameado à beira do desespero com tantos carrapatos a farejar seus passos. Nem só de sujeitos ligeiramente arrogantes e sabichões vive a persona de Cooper. E, vá lá, Sem limites seria até menos interessante sem o protótipo de macho alfa americano.


    Neil Burger faz um bom trabalho em retratar essa doideira toda. O diretor, que em O ilusionista conseguiu trasnformar um orçamento precário num filme, em tela, com lapsos de blockbuster, dispõe em Sem limites de um pouco mais de grana e a mesma imaginação. Para além dos cortes incessantes durante as cenas das viagens, Burger usa uma técnica que chama carinhosamente de fractal zoom, que ilustra bem o raciocínio e as ações céleres do admirável mundo novo de Eddie. A fotografia muda quando o Eddie-em-dopping-mental entra em cena — um banho de luzes altas e cores estouradas num filme predominantemente azul cinzento e sombrio —, enquanto vários Eddies lotam o quadro ao retratar o protagonista multitarefa.


    Sem limites, ironicamente, é bem limitado. Sustenta-se sobre uma boa premissa — e se usássemos mais do que 20% de nosso cérebro? —, uma caraminhola que certamente já germinou na sua mente, mas deixa a desejar. É um pipocão do qual se espera pouco. Pelo meio, quando convence que pode ser mais, larga o espectador num limbo, contentando-se com um final ensolarado num filme essencialmente dark. Mesmo assim, como um shot de adrenalina, Sem limites vale a viagem — com 20% ou até mesmo de seu cérebro.

     

     


    POR: [Marcella Huche]

  • Bom

    VIPs

    | Toniko Melo

    Bons roteiristas sabem que na raiz da construção de um bom personagem está sua identidade. Com isso estabelecido, é possível brincar com sua personalidade, mudar seus hábitos e gestos. A seminal série de Gene Roddenberry, Star trek, já fazia isso com orçamento de TV nos anos 60 ao ponto do clichê: vários episódios tinham um Kirk mau ou um Spock emotivo. VIPs, de Toniko Melo, que levou a Mostra Competitiva do Festival do Rio, conta a história de um protagonista que, se tem identidade, não consegue conviver com ela.



    O roteiro de VIPs, baseado na história do farsante Marcelo do Nascimento, se desenrola com mergulhos cada vez mais fundos na personalidade do protagonista, Marcelo, interpretado por Wagner Moura. O começo do filme é truncado, soa esquisito e forçado. Com um penteado que pode ser descrito como pós Jovem Guarda e pré emo, Moura parece fora de seu jogo interpretando um adolescente, até exagerando ocasionalmente. Aqui, ele tem uma identidade imposta pela sociedade: ele é Bizarro, um introvertido e estranho rejeitado social, que só se solta na presença do pai, piloto de avião. Marcelo também quer voar.



    Em um pequeno aeroclube no interior do país, Marcelo Bizarro pouco a pouco se transforma. Abandona o Bizarro, mas logo acha outro personagem: Carrera, traficante de drogas, arrogante e um piloto autoproclamado “fodão”. Com a nova personalidade, um novo visual: madeixas loiras, um boné do Porshe Carrera (que nomeou, de improviso, seu novo “eu”) e roupas surradas. À noite, junto de sua quadrilha, vira Renato Russo no palco de um bar, liderando uma banda cover. Identidades impostas, improvisadas, escolhidas e roubadas.


    O filme segue, entregando novas máscaras – como a do recluso irmão do presidente da Gol – e mergulhando cada vez mais fundo no personagem de Marcelo, investigando quem está por trás dos disfarces. É um Prenda-me se for capaz com um pé cravado na loucura genuína, e não apenas focado nas peripécias de um falsário charmoso.



    Um elemento que perpassa todo o filme é a presença das máscaras e das perspectivas. É a flecha que atinge o alvo ou o alvo que atinge a flecha? Quem está no controle, o golpista ou o golpe? Quando a ilusão e o real se chocam, quem se salva, entre mortos e feridos? Quem é, despido de todas as máscaras, Marcelo do Nascimento?



    O terceiro ato do filme, sozinho, já vale o ingresso. O ritmo se acelera, os riscos aumentam, o cerco se fecha e Wagner Moura entrega sua melhor performance.



    VIPs é um bom exemplo de cinema nacional, mostrando que não é preciso fazer cinema com favela nem comédia romântica com globais. Wagner Moura mostra mais uma vez que é um dos maiores nomes de sua geração, especialmente nos momentos mais sutis, e a direção de Toniko Melo capta bem a ação, dosa bem o simbolismo, mesmo pesando um pouco nas imagens. É, sobretudo, uma história de personagens, mesmo que sejam vários dentro de um só.

     

     


    POR: [Gerhard Brêda]

  • Bom

    Sucker punch - Mundo surreal

    | Zack Snyder

    Garotas criminalmente insanas agredindo mortos-vivos, nazistas e samurais titânicos com metralhadoras e saias ridiculamente curtas. Admita, senhor contador de meia idade com dois filhos e uma esposa amorosa: seu adolescente interior ficou curioso. Mas fique tranquilo: Zack Snyder chegou para mostrar que você não está só. Irresistivelmente extravagante, Sucker punch mistura belas garotas, sequências de ação de tirar o fôlego e cadência de HQ para dar vida às fantasias masturbatórias de japas tecnofreaks em todo lugar. Sem ofensa.    

     

    Ambientado nos anos 50, o filme conta a história de Baby Doll (a cativante Emily Browning), internada em um manicômio por seu padrasto do mal. Determinada a escapar das consequências irreversíveis de uma lobotomia, ela cria uma realidade alternativa bizarra onde todas as garotas são ninjas imortais, as paisagens têm um filtro cinza-amarronzado e as roupas ficam muito curtas e justas. Com a ajuda de suas quatro colegas de instituição e um velho sábio (sério, esse é o nome dele),  ela chuta, esfaqueia e metralha seu caminho até a liberdade.    

     

    A exemplo de diversas outras narrativas que mexem com o universo onírico, Sucker punch dilui as fronteiras entre realidade e fantasia o tempo todo. Ou seja: é pura sequela. O roteiro é esquizofrênico, cheio de pontas soltas e parece não se importar muito com a inconveniência de fazer sentido. O que não é necessariamente ruim. As inconsistências ficam para segundo plano em meio ao espetáculo e, quando você começa a fazer perguntas demais, logo aparecem mortos-vivos com máscaras de gás para lembrar que esse papo de coerência é para os fracos.    

     

    O cuidado visual do filme começou com as belas e competentes muchachas do elenco – começando com Emily Browning. Envolvente e poderosa, a loirinha surge como uma mistura de Alice (Resident evil) e Lolita que promete agradar tanto às adolescentes sedentas por grrrrl power quanto aos papais sedentos por, bem, todo um outro tipo de poder feminino. Jenna Malone injeta vivacidade e simpatia na intrépida Rocket, enquanto Abbie Cornish cria toda uma dimensão psicológica em Sweet Pea.    

     

    Blondie (uma insossa Vanessa Hudgens) talvez seja o elo mais fraco do power quinteto, encorpado pela enjoadíssima Amber (Jamie Chung, numa discreta porém poderosa contribuição). Carla Gugino não fica atrás do núcleo de garotinhas na pele de Vera Gorski, o clichê da professora imigrante com sotaque engraçado. O elenco masculino também não fica atrás. Os velhos gorduchos com inclinações à pedofilia são alarmantemente convicentes, e Oscar Isaac impressiona no papel do asqueroso Blue Jones - o vilão perfeito em sua sebosidade maligna.    

     

    Para bem ou para mal, Sucker punch é um ode à imaginação de seu diretor. Após agradar ao estúdio com sua lucrativa fábula sobre corajosos homens sarados e seminus (vulgo 300), Zack Snyder decidiu se dar de presente um filme inteiramente autoral (e, desta vez, heterossexual). O resultado são 109 minutos de filtro visual agressivo, clássicos com arranjos porradeiros muito parecidos entre si e sequências de ação megalomaníacas. Autoindulgente até o fim, Snyder imprime seu nome em cada pequeno pedaço de filme e deixa bem claro que não está lá muito preocupado com o que os outros estão sentindo.    

     

    O único compromisso do diretor é, infelizmente, com a faixa etária.  Por motivos comerciais, o filme ganhou a censura mais baixa nos Estados Unidos – ou seja, nada de saliências, palavrão ou tripas. E isso faz bastante falta em um filme espinhoso com tanta sexualidade latente. O resultado é uma inquietante sensação de se estar assistindo a uma panela de pressão prestes a explodir em sangue, gore e o ocasional peitinho.  A tentativa de se amaciar a libido acaba saindo pela culatra, e o filme ganha uma aura esquisita de coisa proibida pedófila perturbadora e meio inapropriada (embora as garotinhas sejam todas devidamente "de maior").    

     

    Entre as armas, explosões e closes de virilhas, não há muitas dúvidas de que o público-alvo de Sucker punch seja uma geração de homens de 20 a 30 anos que cresceram em meio a joysticks, HQs e pôsteres inquietantes da Lara Croft. No entanto, com uma mente mais aberta e um pouco de desapego, muitos podem apreciar a viagem alucinante de Baby Doll. Quanto aos fãs mais irredutíveis de sutilezas e narrativas bem amarradas... Bem, estes podem passar longe do cinema. E não vão fazer muita falta, também. Sem pedir desculpas, Snyder deixa bem claro que a bola é dele e ele só vai brincar se puder ser o capitão.

     

     


    POR: [Fernanda Prates]

  • Bom

    Cópia fiel

    | Abbas Kiarostami

    Apesar de ter como cenário a cidade de Toscana e ser falado em idioma de países europeus,  Cópia fiel é sim um filme em que podemos reconhecer Abbas Kiarostami. O primeiro longa do diretor filmado fora do Irã sintetiza a dúvida a partir da certeza e, claro, surpreende, assim como seus trabalhos anteriores. Com diálogos complexos que evoluem a discussões sisudas, o filme se beneficia da metalinguagem do cinema para questionar valores. A interrogação é constante: uma cópia pode ser tão verdadeira quanto seu original? 


    As respostas a esta pergunta começam a ficar suspensas a partir do primeiro encontro entre a francesa Elle (Juliette Binoche), dona de uma galeria de arte, e o escritor inglês James Miller (William Shimell). O universo da arte ambienta as discussões, mas não restringe a história, que ao longo de todo o filme compõe uma trajetória evolutiva.  


    James chega à  Toscana para lançar seu novo livro e depois da palestra conhece Elle. O debate filosófico que se trava já no lançamento funciona como epígrafe: é falando de reprodução e originalidade que a relação entre o casal se trava como tal. São dois desconhecidos que ao tratar de relacionamentos simulam uma relação entre marido e mulher. 


    Neste flerte original que se dá por meio um falso casamento é a autenticidade que está em jogo. As conversas são fluidas e em tom de comédia, assistimos a uma brincadeira madura. As atuações dão conta de nos passar uma intimidade em cena e, ao mesmo tempo, um desconforto — mas nada parecido com os close-ups de mulheres em Shirin (2008), último filme de Kiarostami, que se consagrou como um dos maiores, se não o maior, diretores do Irã, com Close-up (1990), Através das oliveiras (1994), Gosto da cereja (1997), entre outros. 


    Em Cópia fiel, Antes do pôr do sol, de Richard Linklater, pode ecoar levemente, mas as diferenças de abordagem não o tornam referência clara. Kiarostami faz lembrar, acima de tudo, famosos ensaios sobre a obra de arte e sua reprodutibilidade técnica, com uma sutileza digna de se distanciar de um pedantismo exacerbado. 


    Mais do que um filme sobre o que é ou não autêntico, Cópia fiel faz graça sobre a relação patrimonial. Por vezes, simulam um relacionamento desgastado, com problemas de comunicação, crises e tensões. No entanto, sabemos que a simulação do casal não é real; a atração entre os dois cria uma atmosfera intimista, que sem se forçar a ser definido como amor, encontra seu respectivo semelhante: a vida real. E Kiarostami parece nos dizer que ela é fascinante.

     

    Foto: Divulgação

    POR: [Monike Mar]

  • Regular

    Invasão do mundo: Batalha de Los Angeles

    | Jonathan Liebesman

    Desenvolvimento de personagem, profundidade emocional e diálogos cativantes. PFFT. Quem precisa disso tudo quando se tem explosões, metralhadoras e um exército de alienígenas mal intencionados? Eis a premissa de Invasão do mundo: Batalha de Los Angeles. Disparando clichês na mesma proporção em que arremessa lança-granadas, o filme sobrevive até certo ponto graças ao espetáculo visual, mas se afoga em uma teia de sentimentalismo barato e masturbação militarista que parece se arrastar por dias. E, a não ser que você seja um caipira texano com um rifle no quintal, uma bandeira na varanda e uma esposa espancada amarrada no porão, dificilmente ficará entretido por mais de 40 minutos.

     

    Com um orçamento visivelmente superior à renda trienal de alguns países, Invasão do mundo traz uma historinha até interessante dentro do espectro “ataque alienígena + herói de maxilar proeminente + armas abusivamente grandes”. Na história, um pelotão de fuzileiros tenta proteger Los Angeles de uma invasão de ETs armados, perigosos e pouco dispostos a resolver as desavenças na base do papo. Bem à semelhança dos invadidos. A partir daí, o esperado: alguns morrem lutando pela pátria, surge a ocasional criancinha pra dar aquela calibrada no fator apelação e, claro, coisas explodem bastante. E bem alto. Acredite: parece mais promissor por escrito.

     

    Como de praxe, por “pelotão”, entende-se “grupo de jovens multiétnicos que parece diretamente extraído de um cartaz de ação afirmativa”. O negro engraçadinho, o negro badass, o latino desbocado, o tenente amarelão e a mocinha destemida que mostra que mulheres também são iradas — um belo sistema de cotas. O grupo politicamente correto é liderado pelo Sargento Nantz (Aaron Eckhart, o homem-cepacol), um sujeito corajoso e heroico, porém assombrado pelo passado. O pelotão é enviado para o combate às cegas e, à medida que os alienígenas conseguem desmantelar o poderio militar do país, precisam se unir e utilizar a própria força e inteligência para salvar o planeta dos aliens maus. Quer dizer, o de sempre.

     

    O problema principal não é o simples fato de que é tudo tão ostensivamente clichê. Este recurso, aliás, poderia ser um trunfo se utilizado nos momentos certos — afinal, quem não ama um chavão à lá Schwarzenneger oldschool? Mas são a abundância e a falta de pudor com a qual é utilizado que deixam tudo tão nauseante. Tudo, desde as cenas de ação aos diálogos emocionados, tem aquele ranço de coisa já vista. Assistir a cenas como um Aaron Eckhart choroso abraçando um órfão e falando que “fuzileiros nunca desistem” em pleno 2011 é como comer aquele mexido com os restos da ceia de Natal pelo sétimo dia consecutivo. Depois de certo tempo, a parada não tem mais charme, sabor ou tempero e, se você observar bem, já está até com uma cor esquisita.

     

    Para qualquer um que não mastigue tabaco e use a Fox News como principal fonte de informação, é inevitável morrer de vergonha das ordens entredentes do sargento bonachão. Da mesma maneira, é difícil sofrer com a morte daquele soldado aparvalhado que qualquer espectador mais espertinho sabia que ia morrer no primeiro voo de helicóptero. E, convenhamos, estamos todos bem cientes de que as grandes entidades de Hollywood jamais permitiram que um ônibus com criancinhas dentro explodisse.


    Contudo — e Monique Evans há de concordar — não há nada em que a tecnologia moderna não possa dar pelo menos um jeitinho. E é a tecnologia que faz com que Invasão do mundo não seja um completo desperdício de tempo. Na realidade, ele começa até muito bem, trazendo umas brincadeiras de câmera bastante promissoras. A primeira batalha contra os aliens, por exemplo, é uma sequência de ação belíssima e extremamente realista, semelhante às de filmes estilo found-footage como Cloverfield.

     

    Outro grande acerto é a forma física dos alienígenas — geralmente responsáveis por destruir toda a credibilidade de filmes de extraterrestres (vide Sinais). Em Invasão do mundo, os visitantes de outro mundo finalmente recebem um tratamento visual justo, numa mistura bem coerente de orgânico, cibernético e bastante gosmento.  Os irrepreensíveis efeitos visuais e sonoros, contudo, só funcionam naquelas que transcorrem como as primeiras 18 horas de filme.

     

    No fim das contas, o maior problema é o excesso. É explosão demais, apelação demais e pieguice demais por tempo demais. Tanto o fetichismo bélico quanto a pasmaceira sentimentaloide patriótica poderiam ter sido engolidas como um incômodo menor num grandioso espetáculo visual, mas acabam extrapolando a (alta) tolerância até dos maiores fãs do gênero. Em termos de espetáculo pirotécnico, o filme ainda vale uma conferida. Mas, em qualquer outro sentido, limita-se a algo que George Bush provavelmente usaria para se divertir sozinho nas noites em que Laura decidisse negar fogo.

     


    POR: [Fernanda Prates]

  • Bom

    Jogo de poder

    | Doug Liman

    Com a agilidade da ironia e a perspicácia do deboche, Jogo de poder escancara o esquema organizado pela Casa Branca para desbancar uma agente da CIA que, junto ao seu marido, ex-diplomata, investigava a construção de armas nucleares pelo Iraque. Utilizando arquivos reais, o filme enquadra a figura errática de George W. Bush atribuindo-lhe a culpa pelo caos instaurado nos EUA nos anos 2000, ao som da sarcástica música Clint Eastwood, do Gorillaz. Assim, desde o início, o longa evidencia sua posição anti-Bush. Em clima de espionagem por entre corredores de centros burocráticos do Estado e cidades obscuras do Oriente Médio, o longa de Doug Liman (Identidade Bourne, Sr. e Sra. Smith) relembra o traumático 11 de setembro com reportagens televisivas sobre a tragédia, a disseminação do vírus Antrax e a eminência de uma nova guerra entre norte-americanos e iraquianos.


    Em 2003, as redes de televisão e os porta-vozes do governo a todo tempo reafirmam a existência de um plano terrorista nuclear de destruição massiva, mesmo sem provas contundentes. Responsável por esta investigação, Valerie Plame (Naomi Watts), apesar de trabalhar para a máquina pública, começa a desconfiar da informação que já assola o país e o mundo. Por isso, ao mesmo tempo em que lida com documentos engavetados, Valerie também viaja para diversos países atrás de fontes-chave, colocando sua vida em risco. Ela apenas não imaginava que o próprio Estado violaria o segredo de sua verdadeira identidade.


    Uma guerra interna estoura com a publicação do artigo What I did’nt find in Africa no The New York Times, escrito por seu próprio marido, Joseph Wilson. Interpretado por um Sean Penn bastante centrado, Joseph estivera no Níger para averiguar a compra de armas nucleares pelo Iraque. Lá, observou que as informações que circulavam sobre o plano terrorista eram falsas. Com o artigo negando os boatos, o homem, como se enfrentasse Golias, toca na ferida do governo e passa a ser alvo de inquéritos. Num rápido dossiê, descobrem sua relação com a agente da CIA, que se torna “presa fácil”.


    Revelada internacionalmente por denúncia da Casa Branca — o que é ilegal —, Valerie passa a sofrer com o fim do casamento, a ameaça à própria vida e a de seus filhos. Como um breve retrato, Jogo de poder aproveita para pincelar uma vida familiar ameaçada pela vida pública, ainda mais agora distante do anonimato. Mesmo centrado no caso Wilson-Plame, O longa não deixa de expor também o lado mãe e esposa de Valerie. Afinal, temos aqui uma personagem heroína.


    A imprensa, numa posição de mediadora parcial do escândalo, também se torna válvula de escape de Joseph, que recorre a entrevistas para esclarecer os fatos, expondo ainda mais sua esposa, que se mantém arredia em relação à mídia. Contudo, não lhe resta opção durante muito tempo a não ser também explicar seu próprio lado e Scooter Libby, responsável pela violação de sua identidade, é condenado e multado, embora seja liberado com a ajuda de Bush. Com declarações oficiais, Jogo de poder deixa a sensação de dever cumprido, embora a coragem de Valerie Plame e Joseph Wilson não tenham colaborado para destruir o pretexto de Bush para a guerra no Iraque. Sabemos, então, quem ganhou o jogo.

     


    POR: [Monike Mar]

  • Bom

    Não me abandone jamais

    | Mark Romanek

    Não espere por Não me abandone jamais. Se você for tomado pela ansiedade provocada já pelos segundos iniciais, respire fundo e serene. Baixe as expectativas, abrevie os entusiasmos e encurte as curiosidades. Esse é um filme para ser desfrutado em toda a sua calma e sofrimento obscuros. Sem revolta, nem debates políticos ou questionamentos da ética científica. Cavalheirosa na maneira inglesa, a história é contada por olhares azedos e pessimistas que se revelam na poesia amarga da fotografia e da trilha sonora.

     

    Sem muito contar, Kathy (Carey Mullingan), Tommy (Andrew Garfield) e Ruth (Keira Knightley) crescem juntos, em um internato, na Inglaterra. São isolados do resto da sociedade, criados com muitas normas, pulseiras de identificação e medicação no café da manhã. Quando completam 18 anos, passam a ter contato com o mundo externo e encarar seus destinos programados. Um triângulo amoroso amarra a trama, ambientada em um passado recente ficcional, que enxerga avanços na ciência da clonagem, que levam a expectativa de vida humana a 100 anos.

     

    Modelado pela direção de Mark Romanek (Retratos de uma obsessão), o roteiro é inspirado no romance do japonês radicado na Inglaterra Kazuo Ishiguro (Vestígios do dia) – e tal como o autor é um misto da quietude oriental com a elegância britânica. E é triste. Melancólico por tratar da brevidade da vida e magoado ao falar de encolhimento amoroso. É uma produção extremamente sensível, adornada por uma riqueza de detalhes que vão aos poucos mostrando os reais objetivos daquelas existências. São cacarecos encaixotados que chegam do mundo exterior, simulações de situações do dia-a-dia das pessoas normais e hábitos saudáveis quem fazem crescer fortes os ratinhos de laboratório.

     

    A nova professora (Sally Hawkins), que não corresponde ao perfil da escola, cospe meias verdades aos alunos e, quando pensamos que um sentimento de revolta vai clarear, vai embora e com ela qualquer possibilidade de desobediência. O pessimismo passivo é a maior crueldade da narrativa. E é muito bem expresso pelos atores principais. Carey experiencia no tom certo a amargura provocada por aquela vida, vencendo suas feições naturais de coitadinha. Garfield vive um algo perturbado muito diferente das qualidades de um super-herói Aranha. E Keira ensaia um vazio recalcado de uma existência projetada.

     

    A fotografia ganha e rapidamente perde suas cores, imprimindo temperamento à imagem, que oscila com as nuances dos personagens. A trilha, além de dar nome à fita com uma das canções, rege a composição dramática da trama. Não me abandone jamais foi ignorado pelo Oscar, mas venceu o prêmio de Melhor Atriz (Carey), dentre 6 indicações ao British Independent Film Awards e concorreu como Melhor Fotografia no Independent Spirit Award. É uma bonita fábula que entorta o gênero da ficção científica para o campo espiritual, além da matéria humana.

     

    Foto: Divulgação

    POR: [Camila Lamha]

  • Regular

    Restrepo

    | Tim Hetherington e Sebastian Junger

    O combate ao terrorismo da Doutrina Bush deu nova face à guerra retratada pelo cinema contemporâneo. No lugar de romances ou dramas pessoais em meio ao caos do bombardeio dos world wars movies, eclode uma estética realista, documental, que mira o instante: o tiro certeiro, a fuga ou a ameaça do inimigo. O interesse está na ação e mesmo que surjam tentativas de humanizar a caça instaurada no Oriente Médio, o contexto pós-11 de setembro fica suspenso. Nada de debates. O embate é visto de dentro e, por isso, centralizado na saída e na volta para casa de soldados norte-americanos. Ares, só ares, de um novo Vietnã.



    É exatamente assim que Restrepo, o documentário filmado pelos diretores Tim Hetherington e Sebastian Junger, justifica-se. O filme acompanha a missão do segundo pelotão da Companhia de Batalha dos EUA durante a ocupação, em 2007, no Vale Korengal. O local é considerado o ponto mais perigoso do Afeganistão, onde mais de 50 soldados “morreram lutando” — enfatizam os créditos finais —, até a retirada das tropas em 2010. Nomeiam o posto de Restrepo em homenagem ao médico do pelotão, morto em um ataque à tropa norte-americana. 



    Menos impactante que Zona verde e Guerra ao terror, por exemplo, Restrepo aparentemente tem mais álibi para chocar com a realidade do que a ficção. Mas não é bem isso que acontece e a contradição é compreensível. O documentário não segue uma cronologia ou sequer tem uma história para contar. A falta de roteiro atrapalha e gera um longa de cenas acidentais, entrecortadas por entrevistas em estúdio com meia dúzia de soldados. Distante da densa vegetação e do relevo montanhoso afegão, rostos em close se dividem entre a recordação e o estarrecimento.



    Com um sentimentalismo impelido, o testemunho da morte do melhor soldado do grupo é o ponto-alto do filme. Aos que permaneceram, o medo de não sobreviver. E uma interrogação paira por ali: “o que exatamente estamos fazendo aqui?”. Não surpreende um dos jovens soldados contar que, por conta de sua criação hippie, não tivera brinquedos violentos na infância. O rapaz, de olhares fugidios, parece buscar uma razão para a farda e não encontra.



    Para afiançar ainda mais o discurso de que são seres humanos contra monstros do Talibã, Restrepo insinua do início aos extras uma relação familiar entre os militares. A seriedade por vezes dá lugar a brincadeiras bobas, que, de qualquer forma, não amenizam o clima de tensão. O documentário só é curioso quando põe soldados frente a frente aos anciãos do Korengal, que, ao relembrarem a figura de Bin Laden, evocam o enigma do terreno ocupado pelos EUA.



    E, embora o dia a dia de conflitos dos soldados não chame tanta atenção como se espera, o longa consegue se resguardar da espantosa presença dos realizadores do documentário. Com a função de registrar os acontecimentos, a coragem prevalece como o elemento mais admirável de Restrepo. Quanto à batalha enquadrada pela câmera na mão, é estranho encarar, mas é um fato: a realidade anda perdendo para a ficção. Pois se o objetivo é demonstrar a idealizada luta do bem contra o mal, Restrepo é, portanto, uma grande falha como artifício de legitimação da guerra.

     

     


    POR: [Monike Mar]

  • Fraco

    Em um mundo melhor

    | Susanne Bier

    O extremado Em um mundo melhor se inaugura nos cinemas brasileiros, nesta sexta (11), farto de moralismos que tentam investigar os motivos da violência e relacionar situações dissemelhantes através de lacunas nos ciclos da vida. A produção abocanhou o Globo de Ouro e o Oscar 2011 de Melhor Filme Estrangeiro, mas é enfadonho e professoral ao supor que o males que assolam a amargurada classe média europeia se entrelacem com as tragédias do continente africano.

     

    O artifício de cruzar histórias distintas para estudar o preconceito e as tensões sociais já foi largamente gasto pela trilogia de Iñárritu e pelo ganhador da estatueta dourada de 2006 de Melhor Filme, Crash – no limite. Aparentemente, a Academia não está saciada o suficiente de dramas que buscam tirar o véu das doenças enraizadas e desentupir as mágoas europeias. A Dinamarca de Em um mundo melhor, retratada pela diretora Susanne Bier (Depois do casamento), é um país de gente perturbada e agressiva. Salvo pelo médico paz e amor (no caso, sueco) que passa uma temporada cuidando de doentes em um país da África.

     

    Ora, estamos mal acostumados a produções estrangeiras vitoriosas de alto nível dramático e comparar o sublime Segredos dos seus olhos, por exemplo, com o filme de Susanne é concorrência mais do que desigual, é impróprio. A narrativa não chega a ser lenta, mas a fita não passa nem um terço da complexidade pretendida ao elencar a riqueza do velho continente e o que de mais triste acontece no Terceiro Mundo. De macio, as paisagens, a fotografia e a trilha, mas de áspero, o tom quase conservador que condena até mesmo a internet pelo que acontece de ruim.

     

    O argumento é uma rede rasa de choques. Anton é um médico sem fronteiras que trabalha em um campo de refugiados na África. Divide seu tempo entre os dias que passa trabalhando e outros em casa, numa cidade pequena na Dinamarca. Logo após a sua separação, um de seus dois filhos se torna amigo de um menino órfão de mãe, que se mostra descontrolado ao espancar um rapaz da escola que pratica bullying contra os menores. A situação foge do controle quando os garotos decidem se vingar de um homem que bate em Anton por motivo algum.

     

    A vontade ideológica de estabelecer o inverso de uma realidade cor-de-rosa é o grande pecado de Em um mundo melhor. Retrata a solidão, a intolerância e o desgaste das relações, mas não convence no discurso de “vamos tratar a origem da questão” e muito menos quando propõe um final esperançoso.

     


    POR: [Camila Lamha]

  • Bom

    Rango

    | Gore Verbinski

    A velha suspeita de que as animações para cinema não são feitas para o público infantil só dilata. Em Rango grita. Repleto de referências ao western e de diálogos gaiatos, o faroeste protagonizado por um lagarto não é café com leite. Aliás, o réptil escamado só escapa de assustar os miúdos por conta da sua feiura atenuada por uma camisa vermelho-floral – caso o contrário haveria choro de criança por toda a sessão. Centrado na questão pós-moderna da crise de identidade do animal, o filme, que estreia na quarta (9), desbrava maravilhosamente o oeste americano, cantando uma saga de quase morte repleta de figuras sertanejas.

     

     O diretor Gore Verbinski (trilogia Piratas do Caribes) debuta no universo sem volta da animação, recheando Rango de motivos latinos, como na sua produção A mexicana, e carrega consigo seu parceiro Johnny Depp, na voz do personagem principal. Com uma qualidade visual espantosa, toda a parte técnica é impecável. Apesar do argumento não ser muito forte, o filme ganha vigor pela riqueza das metáforas (que não chateiam), a excentricidade das formas e o toque amargo que impregna a vida daqueles bichos. O próprio Durango Kid camaleônico tem personalidade teatral perturbada e origem de animal doméstico.

     

     Rango é um solitário lagarto de estimação que passa o tempo a produzir espetáculos de teatro com elementos do seu próprio aquário. Seu melhor amigo é um peixe de borracha e sua namorada, um resto de manequim sem cabeça da boneca Barbie. Em uma viagem pela estrada dos EUA, seus donos atropelam um tatu e deixam se perder em cacos, pelo deserto, a moradia e o próprio camaleão. Em uma jornada perigosa em busca de água, conhece uma lagarta caipira chamada Feijão e descobre a cidade interiorana Poeira. Lá, usa dos seus artifícios de interpretação para se tornar o xerife do vilarejo, que está passando por uma terrível seca e desconhece seus verdadeiros inimigos. Toda essa aventura é bem cantada por um quarteto de corujas mariachis que preveem um destino fatal para o herói atrapalhado, mas corajoso.

     

     

    O roteiro do filme não é muito criativo. Cada passo do desenvolvimento do faroeste em desenho pode ser previsto, mas, quando se trata de animação, outros elementos provam mérito. Os traços dos personagens são fabulosos. A ratinha meio deslocada (Abigail Breslin) e o prefeito tartaruga (Ned Beatty) são de uma genialidade quase obscena, além de todos os outros matutos asquerosos locais. A estética de Rango é de uma ironia que não procura retratar o belo, mas o ordinário quase barroco.

     

    As animações vêm atingindo um patamar que já não é mais da ordem da pura fantasia há algum tempo. O reino mágico ficou para traz e agora é tempo de provocação visual, calcada em alta qualidade técnica. Rango é uma homenagem cinematográfica inventiva ao gênero do faroeste e faz tributo de John Ford a Clint Eastwood – aludido pelo “espírito do oeste”. Certeiro e enérgico. E tudo isso com uma bala só.

     


    POR: [Camila Lamha]

  • MuitoRuim

    Vovó... zona 3

    | John Whitesell

    O que tem dois polegares, um nariz e não tem a mínima graça? Martin Lawrence. Mas, tal qual uma aberração de filme B que simplesmente se recusa a morrer, ele está de volta. E mais maquiavélico do que nunca. Entulhado de clichês, estereótipos raciais e piadas anacrônicas que fariam os roteiristas de Zorra total se encolherem de vergonha, Vovó...Zona 3 consegue o admirável feito de piorar ainda mais a premissa de um agente travestido de velha gorda.

     

    O que poderia ser pior que um mau ator estufado de enchimento e humor de baixa qualidade? Dois maus atores estufados de enchimento e humor de baixa qualidade. No terceiro round da agressão mental que é esta sequência, o agente Malcolm Turner (Martin Lawrence, sem comentários) e seu enteado, o “adolescente” de 30 anos Trent (o deprimente Brandon T Jackson), infiltram-se em uma escola de música para garotas em busca de um pendrive. Enquanto os dois são procurados por um vilão russo e seus dois capangas idiotas, Trent começa a compreender a importância da família e, oh que original, descobre o amor.

     

    O desenrolar deste cenário é bem previsível. Homens se passando por mulheres + escola de garotas = humor sexual da pior estirpe.  O filme não só copia uma fórmula repetida desde os primórdios, como faz uma versão requentada e borrachuda, como uma porção dormida de batatas do McDonald’s. Em vários momentos, o longa lembra uma versão menos sofisticada de As branquelas – que pelo menos se salvava nas atuações. Com direito aos clássicos momentos de constrangimento no provador feminino e de confusão na hora de urinar em pé. Pura classe.

     

    Porém, se há algo que este longa ensina, é que tudo pode piorar. Quando você acha que está se acostumando a todo o ridículo da situação, entram os embaraçosos números musicais. Haley (Jessica Lucas, 30 anos mais velha do que o papel), par romântico de Trent, consegue soar ainda mais enjoada cantando do que falando. A baladinha principal do filme – um excruciante dueto – faz a parceria entre Latino e Daddy Kall parecer o pináculo da sofisticação. 

     

    No mais, é tudo uma sucessão de clichês que vão desde os chavões usados por todos os negros de Hollywood à cena de libertação musical no almoço, passando pela vilã com transtornos alimentares e o pseudogaranhão que no fundo no fundo adora longos passeios de mãos dadas no parque e curtir o pôr-do-sol no Arpoador. Isso tudo conduzido de maneira errática por um elenco que vai de irrelevante para baixo.

     

    O maior problema é justamente o fato de que não há um problema maior. É tudo igualmente ruim. As piadas não são sutis ou sofisticadas hora nenhuma; são sempre os mesmos estereótipos raciais e sexuais abordados de maneira boçal. Em vez de acontecer naturalmente, o humor quase ofensivo nos é enfiado goela abaixo com uma escova de privada. No quesito humor, Vovó...Zona 3 é um naufrágio sem sobreviventes - com a ressalva de que navios afundados ao menos deixam destroços.

     

     


    POR: [Fernanda Prates]

  • Bom

    Bruna Surfistinha

    | Marcus Baldini

    Loira, 20 e poucos anos e disposta a fazer tudo que você quiser. O strip desengonçado da abertura é o cartão de visitas da menina com cara de surfistinha que não tem pudores. Acha o irmão postiço e o mauricinho da escola mais podres do que qualquer bordel de subúrbio. Não procura amizades nem amores, mas a independência que nenhuma garota da Zona sul conquista com diploma. Trata-se do poder sobre o próprio corpo desgovernado por qualquer moral. Bruna Surfistinha aborda a jornada da heroína torta , meio gata borralheira, que não é nenhuma novidade no cinema, mas que volta e meia fascina pela coragem.

     

     

    Raquel (verdadeiro nome de Bruna) decide se tornar prostitua sem muitos dramas. A sua individualidade forte e seus modos fora das regras fazem do longa um filme de personagem. A construção da Bruna, interpretada bravamente por Deborah Secco, é menos Bonequinha de luxo e mais Christiane F. O tom de fábula vem acompanhado do trash, mas sem baixaria. A abordagem do sexo, aliás, é curiosa. Corpos masculinos de todos os formatos parecem visitar a cama da prostituta. Feitios grotescos e engraçados ora provocam asco, ora provocam risos. Das figuras caricatas, destaque para o senhor que paga apenas pra mudar os móveis do quarto de lugar e o “cliente-polvilho”, que se enche de talco antes de um programa.

     

     

    O filme é separado em três universos que amadurecem a trama e a personagem. Primeiro situa o ambiente familiar de Raquel, que aos 17 anos decide fugir de casa. Depois ambienta o privê de médio porte que funciona como escola técnica para a vida de prostituta . Por fim, mostra a carreira solo da garota de programa e blogueira celebridade que vai do céu ao inferno rapidamente. Marcus Baldini faz um ótimo trabalho na direção. A fotografia e a montagem são bem elaboradas e a trilha sonora agrada com músicas dos anos 80 e 90 – ponto negativo apenas para o constrangedor funk tocado na cena do carro.

     

     

    Nada novo em termos de desenvolvimento do roteiro, no entanto. A história que teve acessos e que depois vendeu livros é mostrada de maneira esperada e linear. Mas como o filme não é documental e nem fiel à obra O doce veneno do escorpião, a trama poderia ser mais criativa. Elementos da internet, por exemplo, poderiam ter sido mais aproveitados, já que foi o lugar onde Bruna ganhou fama e a abóbora virou carruagem (meio troncha, é verdade). Todo o elenco está muito bem, com destaque para a cafetina vivida por Drica Moraes.

     

     

    O grande mérito de Bruna Surfistinha é a quebra dos preconceitos afinal. E de preconceitos que não necessariamente se referem ao assunto prostituição. É para quem desconfia de mais um papel sensual de Deborah Secco, para quem desconfia de um argumento retirado de um best-seller escrito por uma ex-prostituta e para quem desconfia de um cinema brasileiro mais comercial. Para tanto receio, só mesmo criando coragem. E pode confiar.

     

    POR: [Camila Lamha]

  • Fraco

    Never say never

    | Jon Chu

    A não ser que você tenha passado os últimos anos isolado em um iglu sem acesso a qualquer tipo de tecnologia, com certeza conhece Justin Bieber. Acumulando em tempo recorde alguns milhões de fãs, haters e ocasionais stalkers, a voz pegajosa por trás do hit-chiclete Baby é inegavelmente um fenômeno pop. Mas será que uma ascensão meteórica ao topo da indústria fonográfica é suficiente para sustentar um documentário inteiro sobre a vida de um garoto de 16 anos? A resposta é: não. Embora Never say never funcione como show, falha como um longa-metragem, arrastando-se por 90 minutos que poderiam  facilmente se transformar em 45. E embora prometa arrebatar ainda mais os já sofridos corações pré-púberes de suas fãs psicopatas, definitivamente não vai trazer novos adeptos à seita dos beliebers.


    Pelo lado bom, o filme atinge o público alvo: menininhas em fase de ebulição hormonal. A edição dos shows é minuciosa nesse sentido, cheia de tomadas piroténicas espetaculares que dão lugar a closes no nanogalã, criando uma experiência de show vívida, envolvente e apaixonante para as fãs. O talentosíssimo Bieber, um incontestável showman, abusa das olhadelas galanteadoras e jogadinhas de cabelo em slow motion, guiando os espectadores pelos números musicais com a competência de um profissional em miniatura. O 3D, que em muitos filmes acaba sendo uma firula que nada faz além de dar dor de cabeça, é utilizado de maneira inteligente. A produção, justa e bem encadeada, impede que a experiência seja muito ofensiva. São os inúmeros acertos técnicos que fazem com que Never say never seja, no mínimo, assistível.

     

    Mas assim como num bolo de casamento recheado de figos e ameixas secas, o invólucro suntuoso esconde um conteúdo indigesto. A tentativa de criar algum tipo de comoção em cima da vida de Bieber beira o cômico. Simplesmente por ser filho de uma mãe solteira e ter recebido alguns (pouquíssimos) “nãos” de gravadoras, o protagonista involuntário do despertar sexual de garotinhas ao redor do mundo é tratado como um pequeno mártir. A culpa do exagero, contudo, não é dele. Gentil e surpreendentemente reservado, Bieber é até gente boa. Mas tem a personalidade de um rabanete. Bom garoto por excelência, nunca foi pego em festas fumando “sálvia” (aham, Miley, senta lá) ou trancando prostitutas aterrorizadas em banheiros de hotéis. Na realidade, o auge de sua rebeldia consistiu em comer um donut que havia abandonado em uma caixa no lixo. Tudo muito lindo para o menino de ouro e sua adorável família, mas não é exatamente material de Oscar.

     

    A doutrinação pró-Bieber é quase um bullying emocional. Na falta de coisa mais cinematográfica para inventar, a produção faz uma inflamação de garganta ganhar as proporções um câncer inoperável. As cordas vocais inchadas do menino, na voz lúgubre do médico, parecem ameaçar o próprio destino da raça humana. Os sacrifícios do popstar para manter sua voz angelical em meio à  oh tão tenebrosa inflamação, embalados por uma trilha sonora digna de Hitchcock, mais parecem o suplício de um órfão da AIDS fugindo de mercenários armados com machetes. Nos relatos, sempre emocionados, reverentes e elogiosos, Justin Bieber ganha contornos messiânicos, como um salvador enviado à Terra para nos salvar com sua disciplina, amor ao próprio e cabelos perfeitamente lisos.

     

    Até aí, fora um virar de olhos ou outro, nada chega a doer. O que dói mesmo são as fãs - e seus altíssimos decibéis. Incontáveis, incansáveis e invariavelmente histéricas, ela surgem na tela assim como flanelinhas, de todos os cantos, quando menos se espera. Do nada, lá estão, no auge de seus aparelhos dentários e tentativas frustradas de cobrir a acne com pó compacto, unidas em um denominador comum: a adoração ensurdecedora. A infinidade de gritinhos e declarações de amor chorosas em tons de voz que só os cachorros escutam é provavelmente o que vai fazer aquele pai menos voluntarioso a sair para ir ao banheiro e nunca mais voltar.  Se por um lado é quase comovente ver esse tipo de amor incondicional, por outro é  quase inquietante ver garotinhas de seis anos fazendo planos matrimoniais. E pior ainda ver mulheres de 25 fazendo o mesmo.

     

    Mas, vergonha alheia à parte, foi visando a estas meninas histriônicas e ocasionalmente embaraçosas que o filme foi feito. E são elas que devem fazer de Never say never um sucesso de bilheteria. Para os pais, é meio como uma queimadura de terceiro grau: se você consegue superar os primeiros 15 minutos de gritos histéricos, suas terminações nervosas estarão tão destruídas que o resto da experiência é quase indolor.  No mais, resta a tranquilidade de ver que o príncipe encantado de suas filhas respeita a mamãe, reza antes de dormir e come os legumes direitinho.  Podia ser bem pior.

    POR: [Fernanda Prates]

  • Bom

    Poesia

    | Lee Chang-dong

    Uma história trágica se torna inspiração para a criação poética de Lee Chang-Dong (Sol secreto, Oasis), neste filme que testemunha a dor em duas circunstâncias na vida de Mija, uma sexagenária com poucas condições de vida: o desgosto provocado pelo filho envolvido na morte de uma colega de classe; e o expoente artístico, que surge a partir de um interesse em olhar o mundo com a sensibilidade necessária para se fazer poesia. Com atuações comedidas, um tanto típicas da nova safra sul coreana, o filme toca em pontos de conflito interior da personagem. O enredo de Chang-Dong lembra o longa mais recente do compatriota Bong Joon-ho, Mother – a busca pela verdade, que também centraliza a história de uma senhora mãe solteira com um filho envolvido num assassinato.

     

    Mija vive em um ambiente de perturbações constantes e, mesmo assim, as enfrenta com serenidade. Por isso, o tom do filme por vezes se torna irregular. Em alguns momentos, as cenas provocam riso, estranhamento, comoção ou simplesmente indiferença, já que o diretor segue uma linha muito mais próxima da contemplação, do que da ação em si. A mulher vive apenas com o filho, apático, mal-educado. E o descontentamento da mãe com o comportamento do garoto prevê a trama desde o início: junto a outros amigos, ele violenta uma jovem do colégio até a morte e joga seu corpo no rio que corta a cidade. Os parentes da menina exigem uma indenização para os pais dos garotos e Mija é a única que não pode contribuir com sua parte. Para reverter essa situação, tenta superar as dificuldades da sua idade e passa a trabalhar na casa de um velho aposentado, com quem acaba tendo, forçosamente, uma esdrúxula relação sexual.

     

    Em paralelo às desgraças, Mija faz um curso de poesia. Poderia se pensar que nas aulas ela extravasaria todos os sentimentos que lhe afligem. Contudo, acontece exatamente o contrário. Mija tem uma enorme dificuldade em se expressar em versos e, durante quase todo o filme, ela tenta disfarçar sua função de apenas ouvinte. Mas as tardes no curso são agradáveis, na companhia de quase-poetas. Diante da habilidade dos outros, Mija passa a se dedicar mais aos exercícios propostos. Seu professor lhe sugere que atente mais para a beleza das coisas, dos acontecimentos, que enxergue além da casca e da cor de uma maçã por exemplo.

     

    Mas é olhando para a própria vida, que a personagem consegue a inspiração para escrever o primeiro poema. Antes de tudo, busca vivenciar com intensidade, experimentar, e evolui para um entusiasmo criador que permite um nascente estado da arte. Essa experiência se resume a visitar a ponte de onde a jovem foi lançada, conhecer sua família, ir atrás de pistas que desvendem sua morada no mundo. Assim, elabora versos comoventes recitados no último dia de aula em celebração à vida, como uma reza sobre a existência. Chang-Dong parece nos dar uma fórmula para os problemas: a redenção aos encantos que sobrevivem na dor e sugerir que poesia tem sobrenome melancolia.

     


    POR: [Monike Mar]

  • Desconhecido

    | Jaume Collet-Serra

    Seria de se imaginar que, um ano depois de ser cúmplice da imbecilidade que é Fúria de Titãs, Liam Neeson teria parado para avaliar os erros de seus caminhos. Quem sabe tirar um tempinho, aprender a pescar, adotar a cabala, fazer umas aulinhas de dança de salão... Enfim, espairecer um pouco. Qualquer coisa teria sido mais produtiva e digna do que protagonizar o dolorosamente banal Desconhecido. Rocambolesco, entediante e mais clichê que Eduardo e Mônica em rodas de violão, o filme já seria considerado fraco se fosse inédito, mas é levado a toda uma nova dimensão do ridículo ao mimetizar a mesma fórmula que vemos há 20 anos em thrillers de ação.

     

    Os problemas começam na sinopse. Martin Harris (Liam Neeson), um renomado cientista, viaja para um congresso em Berlim com sua adorável esposa, Liz (January Jones, tão dinâmica quanto um bloco de concreto). Lá, ele sofre um terrível acidente de carro, é salvo do afogamento pela motorista do táxi em que estava (Diane Kruger, desperdiçada) e passa quatro dias em coma no hospital. Quando acorda e retorna ao hotel, vê que alguém tomou seu lugar e sequer sua outrora amorosa esposa parece reconhecê-lo. Perdido, confuso e sem documentos em uma cidade hostil, ele parte em busca da verdade sobre sua própria identidade. Aos poucos, ele percebe que há uma conspiração, que está sendo caçado por um stalker estranho, que há todo um esquema por trás disso e Zzzzzz...

     

    A performance de Liam Neeson faz o espectador começar a pensar se realmente viu A Lista de Schindler ou se aquilo não passou de uma alucinação. Como um belo e distante oásis num deserto de performances completamente dispensáveis. Se em Busca implacável Neeson chega a convencer como herói de ação, em Desconhecido não passa de um paspalho de sobretudo perdido na neve. E, ao contrário de suas duas belíssimas coadjuvantes, não tem mais sequer a beleza da juventude para justificar seu cachê (que deve ter sido milionário). Talvez realmente seja a hora de Neeson reconsiderar a carreira. Antes que ele acabe em Dancing with the stars, o que parece apenas uma próxima etapa inevitável em seu acelerado processo de involução.

     

    A trama, que nos bons momentos é apenas macarrônica, parece ter sido improvisada por um garoto de 12 anos viciado em filmes de ação dos anos 90. É uma maçaroca de explosões, perseguições de carro e batalhas mano a mano com facas que provavelmente levariam Stallone, Seagal e Schwarzenegger a pensarem “oh, céus, criamos um monstro”! Quando você pensa que está começando a entender mais ou menos o que está acontecendo, lá vem outra reviravolta mirabolante para garantir que seus olhos estejam constantemente revirados. Talvez a ideia seja essa, mesmo. Afinal, com a enrolação correta, é capaz do espectador ficar desorientado demais para sequer se dar conta da infinidade de baboseiras amontoadas que está vendo.

     

    O visual do filme é tão tenebroso quanto a história. Aliás, está para vir algum filme que retrate Berlim como um lugar remotamente agradável porque, convenhamos, sua reputação não tem sido exatamente ajudada por Hollywood. A ideia é criar uma aura de suspense, mas a atmosfera cinzenta e gelada é simplesmente deprimente e meio sonolenta. Há ainda algumas tentativas de câmeras interessantes (como quando Neeson acorda do coma), mas são apenas alguns breves minutos de alívio em meio ao bolo de clichês de ação.

     

    A falta de inovação, na realidade, é um problema menor em meio à total ausência de sentido, coerência e relevância. Há espaço para todo tipo de filme no mundo, sejam eles artísticos, complexos, sagazes, divertidos, empolgantes ou até involuntariamente cômicos. Mas Desconhecido, além de não possuir nenhuma dessas características, ainda consegue ser chato, burro e estranhamente deprimente. Considerando-se que há serial killers, ditadores e trios elétricos no mundo, é difícil falar que ninguém vai gostar do filme. Mas, de maneira geral, é melhor que ele honre o título e permaneça assim mesmo: desconhecido.

     


    POR: [Fernanda Prates]

  • Regular

    Besouro Verde

    | Michel Gondry

    O Besouro Verde é um herói esquisito. Ao contrário dos medalhões que agora são o xodó de Hollywood, como Lanterna Verde, Superman e Batman, esse vigilante tem sua origem no rádio e, depois, tomou de assalto as páginas dos gibis. A adaptação para os cinemas, dirigida por Michel Gondry, segue de perto o e estilo da série de TV que catapultou o Besouro para a fama, mas com um roteiro manjado, atuações instáveis e escolhas bizarras de elenco, o filme acaba se sustentando na linha da mediocridade.


    No papel de Britt Reid, o playboy e herdeiro de um importante jornal de Los Angeles, está um estranhamente magro Seth Rogen. E aqui já começam os problemas do elenco: por que Rogen está neste papel? Tudo bem, ele é o roteirista, mas na série original, Van Williams usava o manto do Besouro Verde e era um ator sério,  em forma. O ator está surpreendentemente atlético para seu habitual formato gorducho, mas seu delivery ainda é cômico, sua cara ainda é bobalhona. Se a intenção era fazer uma comédia, que deixassem Rogen gorducho: a inaptidão dele em Segurando as pontas era grande parte da graça nas cenas de ação. Com essa manobra, o filme acaba sentando em cima do muro: arranca algumas risadas, mas não é uma comédia, nem um filme sério de ação.



    Ao seu lado, o fiel escudeiro, Kato, vivido aqui por Jay Chou, que tem a difícil missão de preencher o papel de Bruce Lee, o Kato da série de TV. Ainda que a performance de Chou seja meio dura, ele entrega alguns dos melhores filmes nas bem pensadas cenas de ação (provavelmente os únicos momentos da gravação nos quais Gondry pisou no estúdio, desconsiderando as vezes que ele passou para pegar os cheques), que utilizam efeitos visuais, distorções temporais e espaciais em uma espécie de “Kato-vision”. A amizade entre o carateca e Reid é meio forçada de vez em quando, mas, no geral, o relacionamento da dupla dinâmica passa por todos os clichês: se conhecem, passam a gostar um do outro, brigam no meio do caminho, se reconciliam. Nada original.



    O vilão, Benjamin Chudnofsky, é quase incompreensível. O papel foi entregue ao brilhante Christoph Waltz, que, sem nada para se apoiar, acaba virando uma caricatura mal desenhada de Hans Landa, de Bastardos inglórios. O vilão roda com duas piadas recorrentes, uma envolvendo a pronúncia de seu nome, outra envolvendo sua habilidade de instilar medo em seus adversários. Nenhuma das duas é particularmente engraçada e a pistola de dois canos que ele usa é provavelmente uma das armas mais idiotas já inventadas por Hollywood.



    A trama é manjada: Reid é um irresponsável que tem problemas com o pai, herda todo o império e vai, passo a passo, se tornando um homem maduro. É a história mais clichê de crescimento possível e a mudança é tão súbita que se torna inconsistente. Em um dia, Britt é um beberrão que arremessa uma TV pela janela em uma festa. Alguns dias depois, está lutando pelo jornalismo-verdade, arriscando a própria vida em prol de uma história, usando uma escuta e lutando para publicar tudo a tempo. Não cola.


    O filme tem três pontas muito peculiares também. Um que dá as caras é o mestre Bruce Lee, que aparece de relance em uma das ilustrações de Kato, em uma simpática homenagem. Outro que faz uma pequena participação é James Franco, provavelmente o melhor personagem do filme, como o traficante de meta-anfetaminas Crystal Clear. Por fim, um bizarro e transtornado Edward Furlong enterra de vez as memórias do moleque "rebelde" que importunava Arnold Schwazenegger ao som de Guns'n'Roses anos atrás em Exterminador do futuro II.


    Um herói B aliado a um roteiro clichê, mesmo que costeado pelo talento de Gondry e Waltz, está fadado ao fracasso. Rogen não conseguiu encaixar seu tom de comédia na ação, que acaba sendo um dos poucos pilares a sustentar o filme na média. Mediano, medíocre, mais ou menos. Besouro verde é mais um zumbido incômodo do que uma picada, mas isso não é necessariamente uma coisa boa.

    POR: [Gerhard Brêda]

  • Excelente

    127 horas

    | Danny Boyle

    Esqueçam Rambo, Tony Montana ou Han Solo. O cara mais macho da história do cinema é Aaron Ralston, protagonista  do angustiante 127 horas. Denso, emocionante e com uma fotografia de tirar o fôlego, o filme baseado em fatos reais sobre o explorador de canyons preso pelo braço embaixo de uma pedra é bem mais empolgante do que pode parecer. Graças à criatividade de Danny Boyle, aliada à atuação impecável de James Franco, a luta de Ralston pela sobrevivência ganha nuances e detalhes que levam a obra para muito além de um filme em que um cara tem que amputar o próprio braço. 


    Primeiro, tiremos o elefante da sala. Sim, Aaron Ralston é forçado a amputar o próprio braço com uma mini faquinha sem corte made in China. Sim, a cena é gráfica, sangrenta, angustiante e tem todo tipo de “crocks” e “plshhs” esquisitos. E, sim, é provável que você sinta o impulso instantâneo de colocar cabeça ao colo e tampar os ouvidos. Mas são apenas breves minutos que, para os mais sensíveis, podem ser ignorados sem prejudicar a experiência do filme. E, para os mais sádicos, são curiosos minutos de angústia que dão um nó no estômago de fazer O albergue parecer uma apresentação acústica do Luan Santana.


    O grande problema da fatídica cena, na verdade, é o risco de ofuscar a história de superação de Ralston, conduzida com destreza por Danny Boyle e James Franco. 127 horas é a história de um cara comum, um jovem engenheiro/aventureiro/sem-noção que se vê confrontado com uma situação tão desagradável que um roteirista provavelmente não teria conseguido inventar. Mas, com inteligência, racionalidade e um senhor par de colhões, ele consegue utilizar seus conhecimentos mecânicos para bolar todo tipo de engenhoca à la MacGyver (que perdem um pouco a graça já que sabemos que não vão funcionar) e manter alguma sanidade mental durante as piores 127 horas que uma pessoa poderia passar. Salvo o apocalipse. Ou um levante de mortos-vivos, talvez.


    É impossível não admirar a sobriedade e sangue frio de Ralston. Embora seu complexo de super-homem tenha sido o principal responsável pela situação desagradável, ele mesmo reconhece, em comoventes momentos de autocrítica, sua parcela de “culpa”. É esse dilema existencial, cheio de arrependimentos e reflexões, que dá ao filme uma dimensão psicológica mais profunda que o “F*&¨%, tô preso num buraco”. Isso e os delírios envolvendo bonecos infláveis do Scooby doo, claro.  


    Em vez de simplesmente se encolher em posição fetal e chorar até sentir o gélido abraço da morte, Ralston raciona água, grava filmes engraçados e cria maneiras de aproveitar ao máximo as poucas regalias – como alguns minutinhos de sol e as visitas matinais de um simpático corvo. Não é uma questão de instinto puro; trata-se de um aguçado senso de sobrevivência aliado a muita inteligência e uma força de vontade fora do comum. Mais que um engraçadinho que inventou de brincar em canyons, Aaron surge como um personagem esperto, perseverante e heróico. Um pouco demente, é verdade. Mas heróico.


    Toda a riqueza do protagonista talvez nunca tivesse atingido todo seu potencial sem a atuação sensível e aparentemente sem esforço que rendeu a James Franco a merecida indicação ao Oscar 2011. Franco flutua entre os momentos de absoluta coragem e de mais profundo pânico como um veterano, desenvolvendo o martírio do mochileiro com graça, sobriedade e, surpreendentemente, uma boa dose de bom humor. A performance é tão verossímil e fiel que não seria de se espantar que Franco tivesse feito laboratório dentro de uma gigantesca fenda na terra por algumas semanas.


    Do mesmo modo, a atuação não teria sido nada não fosse a direção dinâmica de Danny Boyle. Aqui, o diretor retoma alguns de seus traços anteriores ao premiado Quem quer ser um milionário? — como as inconfundíveis tomadas maníacas do subestimado Extermínio (must-see para fãs de filmes de zumbis). Os ângulos bizarros, entremeados por planos amplos e megalomaníacos, retornam em 127 horas, mas, desta vez, com sobriedade na medida para enaltecer o relato sem ficcionalizá-lo demais. As perspectivas surgem de onde menos esperamos, seja de dentro da garrafa de água quase vazia ou da corrente sanguínea do protagonista, criando um dinamismo que permite que as 127 horas não se transformem em 94 minutos de tédio.


    127 horas comove quando menos se espera. A plateia dificilmente vai se debulhar em lágrimas quando Franco começa seu excruciante processo de autoamputação, mas é bem capaz de fazê-lo em outros momentos, seja durante alguma confissão chorosa ou quando Aaron consegue a liberdade. Como em qualquer outra história de superação boa o bastante para virar filme, o final é infinitamente brega. Mas... Quem se importa? Vez ou outra, é bom curtir um final feliz. Ainda mais um de verdade.

     


    POR: [Fernanda Prates]

  • Excelente

    O discurso do rei

    | Tom Hooper

    Às vezes, um filme faz um ator. Em outras, é o ator que faz o filme. O discurso do rei é mais o segundo caso. Apesar de competente e correto, o drama de Tom Hooper é resgatado da apatia iminente por um surpreendentemente desenvolto Colin Firth, que, com uma mãozinha de Geoffrey Rush, dá ao longa a graça e a compostura responsáveis por suas 12 indicações ao Oscar deste ano. 

     

    O filme narra o martírio de Bertie, um Duque aparvalhado e gago que, após a morte do pai George V e a abdicação de seu irmão, Rei Eduardo VIII, assume o trono da Inglaterra. Após várias tentativas infrutíferas de consertar seu problema crônico de fala, Bertie começa a ver o peculiar especialista em fala Lionel Logue (Geoffrey Rush, irrepreensível), com quem cria uma relação de confiança e amizade. Com a ajuda de Logue e de sua esposa Elizabeth (a adoravelmente esquisita Helena Bonham Carter), ele aprende a impor  sua voz como rei, guiando (ou o que quer que a família real efetivamente faça em situações de crise) a Inglaterra pela Segunda Guerra Mundial.

     

    Para um filme sobre um britânico gago ambientado na década de 30, O discurso do rei é surpreendentemente não-entediante. Muito graças à atuação sutil e sensível de Colin Firth. O abestalhado Bertie poderia facilmente ter se tornado um personagem antipático e irritante, mas, graças ao talento de Firth para interpretar paspalhos ingleses (anos de experiência), torna-se simpático e digno de pena. Com seus lábios trêmulos e olhar de pug na chuva, ele dá vida ao papel de um rei que luta para caber no molde que lhe foi imposto desde a infância. Helena Bonham Carter também não deixa a dever como a esposa amorosa e levemente esnobe.

     

    Assim como Zé Colmeia nada seria sem seu fiel escudeiro Catatau, Firth tem a seu lado o infalível Geoffrey Rush, genial no papel do "fonoaudiólogo" (?) excêntrico. Sua presença calorosa e espontânea funciona como um belo contraponto à angustiante retração do rei, que parece estar sempre a um passo do surto psicótico. Mesmo na condição de "terapeuta", Logue não é uma figura idônea ou de caráter irrepreensível, e sim um homem cheio de frustrações que acabam sendo transferidas para o próprio paciente. Mais que amigo, médico e conselheiro, Logue funciona como um alter ego de Bertie, criando uma dinâmica acreditável e envolvente.

     

    O pano de fundo histórico é construído para contextualizar sem ofuscar. Além do fato mais gritante – a ascensão do nazismo e a consequente Segunda Guerra –, o filme toca em questões como o verdadeiro papel da família real no cenário inglês (Bertie, por exemplo, questiona sua autoridade enquanto rei), a participação (ou não) da Igreja e até a visão da época sobre a mulher. Tudo é tratado de maneira discreta e cuidadosa, de maneira a simplesmente enriquecer o drama pessoal do rei George VI. Mais um acerto de uma obra que deixa poucos espaços para críticas.   

     

    Desde as câmeras criativas e trilha sonora impecável aos diálogos simples e de humor sutil,  o filme tem muitos acertos. Mas o problema é que não arrebata. Além da retidão e elegância, O discurso do rei também herda dos britânicos certa dureza quase burocrática que, apesar de não prejudicar o julgamento racional do espectador, fica no "quase lá" no quesito emoção. O drama do rei -- à sombra do irmão, internamente ressentido com a frieza do pai e traumatizado após uma opressiva infância real – poderia ser muito envolvente, mas, por motivos inexplicáveis, não chega a comover.

     

    É difícil prever se O discurso do rei teria se saído tão bem não fosse o brilho de seu elenco. Contudo, exercícios de imaginação à parte, ele funciona como está. Se não vai levar ninguém às lágrimas, a narrativa bem encadeada e os raros e oportunos momentos de humor inteligente criam uma experiência de cinema digna de nota – e de um prêmio ou dois. Principalmente para Colin Firth, que, ao que tudo indica, tem tudo para ser coroado com um famoso homenzinho dourado.

     

     


    POR: [Fernanda Prates]

  • Regular

    Burlesque

    | Steve Antin

    Burlesque é exatamente aquilo que, preconceituosamente, se espera do filme.Talvez com um algo a mais chamado Cher – diva é diva... – que, sem dúvida,é a persona mais burlesca que o cinema já viu. Uma produção bem feita,cenários de luxo e uma Christina Aguilera que até se sai bem como a cantoraque vira atriz no papel da moça que quer ser cantora – confuso se já nãotivéssemos visto nas também pop Mariah e Britney. O longa é um passatempoque não chega a irritar com seus números musicais, mas que não tem cacifepara ousar como nos grandes shows de cabaré. 
     
    Estreante no mundo cinematográfico, assim como a estrela principal deBurlesque, o diretor Steve Antin até então só havia realizado vídeo clipes.Na verdade, o filme parece um longo clipe musical de 2 horas. Com makescarregados, figurinos provocantes e uma grande performance, como decostume, Christina solta a voz e até convence na interpretação, mas deixaum tanto de carisma a desejar. Antin assina também o roteiro da fita que temforte apelo comercial e tom marcado por plumas e paetês. Aqui, as mulheresrepresentam as figuras fortes e protagonistas em uma trama fraca, mas desensualidade despretensiosa. 
     
    Ali (Christina Aguilera) é uma menina órfã que deixa o interior dos EstadosUnidos para batalhar pelo sonho de virar uma estrela da música. Ela se mudapara Los Angeles e rapidamente se depara com as dificuldades do showbiz.Logo, fica encantada por uma casa de espetáculos chamada "The burlesquelounge", comandada por uma diva meio decadente de nome Tess (Cher). Amoça começa a trabalhar como garçonete, aguardando a oportunidade de sejuntar às belas dançarinas e cantoras de playback nos palcos. Mas Ali temum algo a mais que só uma cantora do potencial de Aguilera pode assegurar.Ela ainda vive um triângulo amoroso, se dividindo entre Cam Gigandet, deCrepúsculo, e Eric Dane, o médico garanhão de Grey’s anatomy.
     
    Pela sinopse temos a certeza de uma história batida que apenas se mantémpela sua qualidade musical. Canções das antigas como Something's got ahold on me e Tough lover e inéditas como You haven't seen the last of me eShow me how you burlesque são recursos que não fazem do filme uma grandeexperiência de atração e divertimento – como nos grandes e performáticosCabaret e Moulin Rouge – mas que o tornam objeto de leve entretenimento quenão chega a incomodar – como no recente e chato Nine. É que, na verdade,nada em Burlesque é original. O longa está repleto de referências a quase
    todos os musicais que marcaram o cinema e nem mesmo a voz e o corpinhoda cantora pop trazem frescor à produção.  
     
    Argumento e Aguilera à parte, Cher está cômica e monstruosamente divina.A musa, reconhecida no passado por boas atuações cinematográficas, setransformou numa caricatura de si mesma e faz valer o ingresso pago nasessão no papel de tiazona. Ela é a personificação do cômico, do grotesco edo satírico que podem se resumir no termo que dá nome ao título. Cher é afinaldeliciosamente burlesca. A atuação de Stanly Tucci é também sempre bem-vinda e agradável, apesar de o homossexual e fiel escudeiro de Tess ser umaquase repetição de seu papel em O diabo veste Prada. 
     
    Assim, a qualidade musical do filme não ganha suporte da narrativa. É ummusical de consumo rápido, embalado com purpurina e com ingredientescômicos por natureza – a cantora-agora-atriz e a diva decadente no papelde... diva decadente. É visualmente bonito, perfeito nas cenas de palco quepodiam ser clipes, mas pouco criativo. Christina Aguilera não passa vergonha,mas não é fantástica e muito menos marcante. Burlesque é daqueles musicaisque vendem bilheteria, fazem alguns poucos fãs fanáticos que vão decorartodas as letras, mas que são facilmente deletados. Afinal, alguém se lembraremotamente de Mamma mia?

    POR: [Camila Lamha]

  • Excelente

    Cisne negro

    | Darren Aronofsky

    Quem vê a exaltação da crítica em cima de Cisne negro provavelmente imagina um daqueles filmes intelectuais, cheios de silêncios eloquentes, questionamentos existenciais e lenços esvoaçantes simbolizando a fugacidade da vida. Esqueçam isso tudo.  Tão discreto quanto os hábitos sexuais de Tiger Woods, Cisne negro é extravagante, perturbador e de uma ousadia que chega a flertar com o trash. Em outras palavras: genial.

     

    Desde os personagens sociopatas à fotografia lisérgica, nada na obra de Darren Aronofsky (O lutador e Réquiem para um sonho) é sutil ou remotamente próximo da normalidade. A começar pela protagonista. Nina — lindamente representada por uma esquálida Natalie Portman — é uma bailarina neurótica, retraída e sexualmente ingênua que dorme, respira e come (e depois vomita) dança. Quando finalmente recebe o grande papel de sua carreira – a Cisne Rainha em Lago dos cisnes –, Nina precisa provar que não é perfeita apenas para o papel da bela e plácida cisne branca, mas que também é capaz de interpretar a sensual cisne negra. Cada vez mais frustrada e paranoica, convence-se de que Lily (Mila Kunis, em seu melhor momento), uma bailarina ousada e sexy, está atrás de seu papel dos sonhos. E então começa a ver coisas e a se unhar compulsivamente. Tudo muito saudável.

     

    Infantiloide e aparentemente constipada, Nina ganhou seu lugar no rol de personagens mais irritantes do cinema, logo abaixo de Glenn Close em Atração fatal.  Ao que tudo indica, a razão por trás de seu aparente retardo mental e emocional é sua mãe (Barbara Hershey, que parece atuar bem por trás de todo o botox), uma ex-bailarina que desconta na filha a frustração da carreira interrompida pela maternidade. Além da megera controladora, Nina também sofre com o bullying sexual do professor Thomas (Vincent Cassel, um convincente canalha), que faz de tudo para despertar o cisne interior da moça.

     

    A produção tem um apelo libidinoso nada implícito. Embora o ápice sexual realmente seja o já famoso encontro carnal entre Mila e Natalie (o que por si só já deve levar uma boa galera ao cinema), a sensualidade rege a narrativa e conecta os personagens. A procura de Nina por seu cisne adormecido (sem maldade) passa justamente por essa busca. Nina é o cisne branco, puro, idôneo, que não se entrega aos prazeres da carne (nem do frango, do macarrão, do sorvete...). Já Lily é descontraída, sexy, espontânea, flerta, bebe e come hambúrgueres como se não houvesse amanhã. É tudo muito óbvio. Enquanto O lutador trazia nuances e sutilezas, Cisne negro é quase grosseiro em sua clareza.

     

    As cenas de ballet são esquisitas, vívidas e lindas. As câmeras rodopiantes, músicas deprimentes e expressões faciais de Natalie criam um efeito magnético. O contraste entre a delicadeza das bailarinas e a crueza das cenas mais escatológicas (como as da mocinha perturbada se automutilando e outras coisas bonitas do tipo) é parte da experiência toda. Até o som é vídido, destacando cada respiração, unhada e gemido. As cenas mais macabras, como as dos membros da bailarina se partindo bizarramente, parecem uma mistura de David Lynch com Quentin Tarantino. Às vezes, o filme ganha aquele quê de acidente de carro: você não está muito confortável assistindo, mas simplesmente não consegue parar.

     

    A incursão à apavorante mente de Nina é assustadora, angustiante e doentia, mas no bom sentido. Vez ou outra, é revigorante sair do cinema com aquela leve dor de cabeça de quem ainda não absorveu muito bem o que acaba de acontecer. E, ao contrário do que os mais céticos podem imaginar, Cisne negro é muito mais que sexo lésbico. É sexo lésbico com automutilação, crises de identidade, boa música e uma dose generosa de insanidade mental. Não fica muito mais interessante que isso.

     

     


    POR: [Fernanda Prates]

  • Excelente

    O vencedor

    | David O. Russell

    Um lutador de bom coração e passado modesto luta contra demônios pessoais e, com o apoio de uma mulher obstinada, supera as vicissitudes da vida para viver seu momento de redenção. OK, talvez a premissa de O vencedor não seja exatamente original. Mas, já diria a namorada enjoada ao cônjuge insensível, "não é o que você fala, é o JEITO que você fala". Graças a atuações impecáveis (sim, Mark Wahlberg incluso), personagens complexos e multifacetados e clichês oportunos, O vencedor acerta em cheio.

     

    O filme, baseado numa história real, conta a trajetória de Micky (Wahlberg), um lutador de boxe sem muita expressão (e zero personalidade), rumo ao título mundial dos pesos meio-médios. Em sua ascensão, Micky tem que lidar com os infinitos problemas do técnico e meio-irmão Dicky (Cristian Bale, espetacular), um ex-lutador viciado em crack, sua mãe Alice (a irrepreensível Melissa Leo), que sempre coloca o bem-estar de Dicky em primeiro plano, e uma corja de irmãs broacas que parecem ter saído da cena final de Convenção das bruxas.  Nesse ínterim, conhece Charlene (Amy Adams), uma garçonete desbocada e beberrona que, com os cojones que faltam ao boxeador, assume as rédeas da situação e o inspira a mudar de vida.

     

    Whalberg (cuja carreira até agora poderia ter nascido e morrido em Boogie nights) foi feito para Micky. Embora pareça uma escolha questionável para o papel de um lutador de boxe, o ex-Marky Mark (jamais serás perdoado, Marky) capta Micky em sua essência: um bundão. O boxeador abestalhado que precisa da namorada para tomar vergonha na cara e dar um jeito na vida é adequado para Wahlberg, que aparece em belíssima forma -- seus bíceps que o digam.

     

    Embora Amy (do auge de sua elegante tatuagem no cofrinho e culotinhos proeminentes) também mereça uma menção por mais uma atuação estelar, Bale e Melissa dão um show à parte. Bale vai além do habitual "carão", trazendo uma profundidade emocional impressionante ao adoravelmente detestável Dicky. Dos  cacoetes e trejeitos ao gingado malandro, Bale flutua entre o irmão zeloso e o junkie trambiqueiro com uma destreza louvável. Melissa é tão convincente no papel da mãe amorosa e bipolar que o espectador se vê constantemente dividido entre a vontade de abraçá-la e a de esmurrá-la repetidamente. A de esmurrá-la repetidamente prevalece, contudo.

     

    Comparações a outros filmes de boxe e seus respectivos underdogs (Rocky, O lutador, Touro indomável, O campeão), apesar de inevitáveis, devem ser relativizadas. De fato, não há muito como fugir dos chavões motivacionais, dos closes em slow motion ou da historinha cheia de altos e baixos.  David O. Russell, porém, acrescenta atuações estelares, um jogo de câmeras dinâmico, uma trilha sonora adequada e vibrante e personagens muito mais complexos que os undimensionais mocinhos e vilões. Na realidade, em vez de requentar, O vencedor reinventa.

     

    O filme também não ofende aos fãs de boxe, que não terão muitos motivos para implicar com as cenas de luta. Sem muitas firulas, elas são verossímeis e ainda assim envolventes para quem não aprecia o esporte. O realismo dos golpes (com direito a esguichos sanguinolentos) é capaz de fazer um estômago mais fraco dar uma revirada básica. Ao mesmo tempo, o jogo de câmeras cria uma ilusão de realidade de levar aquele mais empolgado a torcer secretamente na cadeira.

     

    O final brega, na realidade, é um trunfo. Em vez de cair na tentação do já manjado fim agridoce, que parece ter medo de se definir como "triste" ou "feliz", Russel se joga na pieguice, presenteando-nos com aquele calorzinho no coração que só desfechos favoráveis são capazes de oferecer. Engraçado e emocionante, o filme é belíssimo em sua simplicidade. Sim, o lugar-comum dá as caras de vez em quando. Mas, bem, certos clichês se tornaram clichês por um motivo, certo?!

     

     


    POR: [Fernanda Prates]

  • Fraco

    Deixe-me entrar

    | Matt Reeves

    Um remake americano quase homônimo, se não fosse pelos pronomes, do longa sueco de 2008, que por sua vez é inspirado num livro. Este é Deixe-me entrar, que reconta bem ao seu modo a história que Tomas Alfredson levou aos cinemas em Deixe ela entrar. Para quem viu o original, a comparação é inevitável. Filme de segunda mão, a refilmagem de Matt Reeves põe de lado todo o encantamento e sutileza vistos no primeiro, ao priorizar no remake suas interpretações sobre as respostas que haviam ficado às escuras.

     

    Deixe-me entrar se passa num desértico Novo México coberto de neve, onde mora Owen, um garotinho que sofre bullying no colégio e, ainda, com a separação de seus pais. Aos poucos, se aproxima da esquisita Abby, uma menina que acaba de se tornar sua vizinha junto a um velho que aparenta ser seu pai.  A aproximação entre os dois evolui a um sentimento que ganha ares de "amor impossível", sugerido pela leitura obrigatória de Owen: Romeu e Julieta, de Shakespeare — eis alguns dos elementos supérfluos.

     

    Na tentativa de esclarecer, o longa subverte a cronologia, investe em flashbacks, explica o que ficou no ar, mostra o que não foi mostrado. Assim, o drama melancólico que se tornou sucesso de crítica em todo mundo se transforma em um terror de baixa categoria, capaz de gerar alguns sustos. A trilha sonora, composta por crescendo de tensão e ruídos repentinos contribuem para o clima de espanto.

     

    Os sobressaltos, porém, não param por aí. Os ataques da menina vampira Abby são intensamente violentos, causada por uma metamorfose que transforma a doce criança numa criatura infernal, que range os dentes afiados e deixa o pescoço de suas vítimas em carne viva. Se aqui a abordagem ganha ares de exorcismo — figuras religiosas são constantes —, no filme sueco o vampirismo é um pretexto para a crise existencial baseada em uma sexualidade quase proibida. Aos fãs da sutil produção sueca, fica a decepção de se ver um embate claro entre os longas: o encanto do original versus o mau gosto do remake.

     

     


    POR: [Monike Mar]

  • Regular

    Um lugar qualquer

    | Sofia Coppola

    Sofia Coppola já tem uma carreira sólida, que se sustenta para além do nome de seu pai. Um lugar qualquer, seu filme mais recente, é uma história de um pai amadurecendo ao lado da filha e, ao mesmo tempo, satiriza o ridículo da indústria cinematográfica. No meio disso, um esqueleto de trama que é quase uma reprodução de Encontros e desencontros, provavelmente o ponto alto da carreira da diretora.


    O grande problema de
    Um lugar qualquer é que em vários dos pontos que ele encosta, Encontros e desencontros já chafurdou – e muito melhor. O filme conta a história de Johnny Marco (em performance muito boa de Stephen Dorff), um ator vivendo o ápice de sua fama como astro de blockbusters, que vive uma existência imatura e anestesiada, regada a bebidas, remédios e mulheres. Marco mora em um hotel e atende a compromissos publicitários de sua carreira, além de receber visitas constantes de seu amigo, Sammy (Chris Pontius, o eterno “Party Boy”, de Jackass). Quando sua filha de 11 anos Cleo (Elle Fanning, irmã de Dakota, em boa performance) reaparece subitamente em sua vida, Marco começa a reavaliar suas prioridades e a amadurecer.


    Em determinado momento, ele precisa viajar para a Itália a negócios e o filme passa a ser Encontros e desencontros na Europa. Quando Marco participa de diversas atividades publicitárias humilhantes, tudo o que vem à mente é Bill Murray com o terno cheio de pregadores nas costas fazendo uma propaganda de uísque em Tóquio. Quando Sofia se utiliza das diferenças da cultura italiana para a americana para criar humor, o Japão de seu filme anterior parece muito mais alienígena e hilariante. E enquanto Murray tinha seu pilar em Scarlett Johanssen, Marco encontra sua âncora e seu rumo em sua filha. É similar e, mais inquietante, é pior.



    Outro problema é que a estrutura do filme é dura, dá para quase ver as engrenagens funcionando no cenário. A transformação de Marco não é súbita, mas isso não quer dizer que seja sutil. O amadurecimento do personagem não chega a soar forçado, mas soa farsesco. E o contraste disso é brutal com a performance realista de Dorff e a artificialidade forçada das relações hollywoodianas. Alguns símbolos da vida desregrada e desapegada de Marco, como o hotel onde vive e o carro esporte que dirige, são conduzidas com uma mão muito firme e caem no ridículo no desfecho da trama.



    Como diretora, é possível ver que Sofia amadureceu. A fotografia ilustra bem o estupor entediante que é a vida de fama de Marco e os takes são seguros. A diretora tem um talento nato para equilibrar estilo e substância, incluindo cenas que parecem videoclipes em meio a planos arrastados. A trilha sonora inclui uma belíssima faixa obscura dos Strokes, uma versão demo, baseada voz e tecladinho, de You only live once, batizada de I’ll try anything once.



    Somewhere não é um filme ruim. Tecnicamente, é bem filmado e as performances são interessantes. Mesmo assim, é um filme mediano, com um roteiro duro e, em determinados momentos, similar demais a Encontros e desencontros. Se a carreira de Sofia Coppola for um livro, Virgens suicidas é a capa, Maria Antonieta está nos agradecimentos e  
    Um lugar qualquer  é uma breve e superficial introdução.

     

     


    POR: [Gerhard Brêda]

  • Regular

    O turista

    | Florian Henckel Von Donnersmarck

    Angelina Jolie está para o público masculino assim como Johnny Depp está para o feminino. Os dois atores são as figuras mais cools do cinema atual, além de marcarem presença em 10 entre 10 listas dos mais sexys do mundo. O inédito encontro cinematográfico dos astros acontece no aguardado longa O turista (The tourist, no original), que estreia nesta sexta (21), iluminando a tela com os rostos sedutores de seus protagonistas e as incríveis paisagens de Veneza, mas apresentando atuações preguiçosas e canastronas. O roteiro é pouco criativo e se desenvolve de maneira previsível, deixando uma frustrante sensação, ao final da sessão, de blockbuster mal digerido.

     

    Elise (Angelina Jolie) é uma misteriosa mulher que recebe ordens para abordar um turista, numa viagem de trem Paris-Veneza, e fazer a polícia acreditar que ele seja Alexander  Pearce, um homem procurado pela Interpol e pelo crime organizado. Frank (Johnny Depp) é o turista escolhido, que evidentemente acaba se encantando pela moça e seguindo os seus passos na famosa cidade italiana. Em meio a um cenário sofisticado, os dois acabam se envolvendo e tendo que lidar com bandidos e policiais em uma trama repleta de manipulações.

     

    A direção de O turista é do cineasta alemão Florian Henckel Von Donnersmarck – o mesmo que realizou um excelente trabalho em A vida dos outros. A superprodução não é das mais explosivas/saltitantes/violentas, o que poderia abrir espaço para um filme de ação com boas pitadas de suspense sustentadas por performances inteligentes. Mas, infelizmente, não é o que acontece. Talvez uma combinação de direção e de argumento fracos e da falta surpreendente de química entre os atores seja o que prejudique o filme.

     

    Angelina parece que incorporou a persona dúbia e misteriosa permanentemente. A bela, que chegou a ganhar um Oscar por Garota interrompida, vem representando papéis muito semelhantes em seguidos thrillers policiais. Mas, diferentemente do ótimo resultado de Salt, em O turista a atriz tem uma atuação morna e pouco cativante — apesar de estar bem amparada por um figurino glamouroso. Já Depp deixa ainda mais a desejar. Depois de sucessivos personagens caricaturais nos estilos pirata alcoólatra, barbeiro sanguinário e chapeleiro amalucado, esperava-se uma performance de cara limpa marcante, mas o galã não ultrapassa o regular — o que é inaceitável para o talentoso ator.

     

    O filme, que foi indicado a três Globos de Ouro, é, na verdade, o remake da produção francesa de título Anthony Zimmer: A caçada, de 2005, que teve sucesso e logo atraiu a atenção de Hollywood. Sob a direção de Von Donnersmarck, porém, a versão americana não evolui e nem mesmo cumpre o papel de 90 minutos de distração. As belas locações e o trabalho bem feito da equipe de arte agradam os olhos, mas não garantem o passatempo. Isso porque, quando o casal principal é composto por Angelina e Deep, a brincadeira fica mais séria.

     

     


    POR: [Camila Lamha]

  • Bom

    Lixo extraordinário

    | Lucy Walker, João Jardim e Karen Harley

    O premiado documentário Lixo extraordinário (Waste land, no original) é daqueles filmes que crescem radicalmente na tela e transformam princípios de bocejos em soluços de lágrimas. O artista plástico Vik Muniz acredita numa ideia e se entrega lentamente a ela, assim como, também aos poucos, o filme avança para entrar na vida de personagens reais com histórias incríveis. E é do Aterro sanitário de Gramacho, no município de Duque de Caxias, no Rio, que catadores de lixo são resgatados de suas próprias vidas para se doarem a novas possibilidades. Estéticas de lixo e arte se confundem para dar sentido a um projeto que pode mudar a realidade de gente que trabalha com aquilo que nós tentamos varrer com a vassoura e esconder para baixo do tapete.

     

    Vik Muniz é um dos artistas plásticos brasileiros mais reconhecidos no exterior. É famoso por trabalhar com novas mídias e inusitados materiais como geleia, manteiga de amendoim e xarope de chocolate. Seguindo sua vocação experimental, Vik, que é radicado nos Estados Unidos, decide se dedicar a um desafiador projeto: se mudar para o Jardim Gramacho, bairro pobre do Rio que abriga o maior aterro sanitário da América Latina, e fazer um registro de seus moradores. E dessa experiência, criar, pelas mãos dos próprios catadores, fotografias gigantes de obras feitas com o material que vem do lixo. O dinheiro da venda de um dos trabalhos seria ainda destinado a melhorar a vida da comunidade.

     

    Um certo desconforto é causado pela esquisita cena inicial do documentário em que a ação se passa no programa de entrevistas de Jô Soares. O desconforto se transforma em desconfiança quando percebemos que a língua de narração do filme é o inglês — já que esta é uma coprodução Brasil/Reino Unido — e que diálogos entre Vik, sua mulher e seu assessor são forçados para a língua não materna. Mas da desconfiança passamos a nos encantar pelos relatos que se seguem. Da postura de começo travada do artista plástico, que parece cair de paraquedas em Gramacho, Vik, aos poucos, se transforma em um agente que entra na vida de um grupo, cativando-os através da arte, com ouvidos para serem escutados e com rosto e voz para contarem suas histórias.

     

    E é através dos personagens secundários que o documentário ganha força. Das montanhas de lixo encontramos pessoas fortes, que vivem de catar aquilo que pode ser reciclado e não lamentam a vida que têm. O líder Tião, que luta pelos direitos dos catadores, e o aprendiz de bibliotecário Zumbi, que guarda todos os livros que encontra no Lixão, sonhando em um dia montar uma biblioteca comunitária. E, nas moças, descobrimos mulheres guerreiras, como Isis e Suelem, que tentam manter a vaidade em meio a sobras de comida, urubus famintos e até corpos em decomposição. O experimento de Vik Muniz faz retirar temporariamente um grupo de catadores da rotina do aterro para dar novo sentido àquilo que chamam de lixo. Sempre com bom humor, o grupo ganha asas. Do aterro, para o Museu de Arte Moderna do Rio (MAM), passando por um leilão em Londres.

     

    Lixo extraordinário demorou três anos para ser realizado e foi feito em parceria entre três diretores: a britânica Lucy Walker e os brasileiros João Jardim e Karen Harley. O acompanhamento criativo do trabalho de um artista se transformou em uma obra de forte cunho social que toca em questões ambientais e econômicas. O documentário provocou em seus personagens mudanças profundas de posturas com demonstrações sensíveis – como manifestado nos créditos finais. Vik e os catadores nunca mais serão os mesmos. Já para o público, o filme é um purgatório necessário de sentimentos e de culpas.

     

     


    POR: [Camila Lamha]

  • Regular

    Zé Colmeia

    | Eric Brevig

    Um urso fanfarrão que come demais e seu pequeno amigo de gravata borboleta tentam ajudar um guarda florestal afetado e sua namorada debiloide a salvarem um parque. Não parece exatamente material de Oscar. E não é. Seguindo uma linha narrativa unidimensional e pouco elaborada, a estreia de Zé Colmeia nos cinemas não impressiona. Mas, sinceramente, o que mais se esperar de um filme que gira em volta de um par de ursos falantes?

     

    Classificada como insípida e irrelevante, a estreia de Ze Colmeia – O filme não foi exatamente bem recebida pela crítica internacional. Contudo, em toda justiça, a história meio boba é coerente com a proposta do filme, que parece mais focado em brincar com a tecnologia 3D do que em fincar sua bandeira na história do cinema de animação. Zé Colmeia não transgride, não subverte e não surpreende. Mas não ofende. E, embora pareça tedioso para adultos, promete atrair a quem deveria: as crianças.

     

    Os personagens de Zé Colmeia e Catatau acabaram ficando bem simpáticos no fim das contas. A computação gráfica, fofa e não assustadora (ao contrário de O expresso polar), garante boas expressões faciais e corporais aos bichinhos, que ganharam nova vida com as dublagens de Dan Aykroyd e Justin Timberlake. Justin, aliás, leva o mérito por um dos pequenos sucessos do filme: o fator fofura de Catatau (que, convenhamos, sempre foi o mais querido da dupla).

     

    O humor do filme é adequado. Embora raso, não apela a escatologias e deve arrancar algumas boas risadas dos pequenos. As piadas não são muito elaboradas, mas são acessíveis tanto aos pais quanto às crianças – algo louvável em meio a animações com humor cada vez mais "de gente grande". Embora seja fácil exaltar obras inteligentes como o cômico Monstros S.A, a realidade é que boa parte da graça desse tipo de filme passa batida pelo seu real público-alvo, que parece mais atraído por bichos esféricos azuis e felpudos do que por críticas espirituosas à sociedade de consumo.

     

    O núcleo de atores "de verdade" não empolga. O guarda é representado por um insosso Tom Cavanagh (que já mostrou mais charme em séries de TV como Ed, Eli Stone e Scrubs), enquanto a mocinha Rachel é a onipresente Anna Farris, conhecida por seu vasto currículo de comédias absolutamente tenebrosas (Todo mundo em pânico, A casa das coelhinhas, Apenas amigos, Garota veneno, Alvin e os esquilos 2...) Os vilões (Nathan Corddry e Andrew Daly), dois políticos sedentos por poder que não se importam com a natureza, são gigantescos clichês, mas fazem sentido numa época em que derrubar árvores é quase tão reprovável quanto cometer genocídio. 

     

    Se falha em agradar aos pais, o filme de Zé Colmeia não deve fracassar com as crianças. Apesar de bobo, segue uma linha clássica, com narração simples, enredo de fácil compreensão e humor acessível. Se não encanta (como o hype Toy story 3), também não irrita (como o enjoado Alvin e os esquilos). A "moral da história" é interessante e contemporânea, e, embora não proponha reviravoltas geniais, também não emburrece. Como filme infantil, atinge seu propósito. E os pais que superem alguns minutinhos de tédio.

     

     


    POR: [Fernanda Prates]

  • Regular

    Desenrola

    | Rosane Svartman

    Desde que os anos 80 migraram para o cinema mullets, surfe, rock emergente, captando o espírito da molecada da época, toda aquela onda que nunca mais morreu, a coisa mais difícil para cineastas brasileiros foi repor essa turma nas poltronas. A internet, os games, a globalização, Hollywood e toda aquela tecnologia, e um-monte-de-coisa-pra-fazer-ao-mesmo-tempo, tragaram a juventude dos anos 90 para qualquer lugar, menos o cinema teen brasileiro.

     

    Combinemos também que as produções não ajudaram. Nos anos 2000, tentaram "gozar outra vez" com Cazuza – O tempo não para (Walter Carvalho e Sandra Werneck, 2004), Podecrer (Arthur Fontes, 2007), a safra gaúcha de Jorge Furtado (Houve uma vez dois verões, O homem que copiava e Meu tio matou um cara), As melhores coisas do mundo (Laís Bodanzki), entre outros, também meia-boca, esteticamente falando. Tudo muito formatadinho, no estilo "eu preciso falar com esse cara". Desenrola, de Rosane Svartman, em cartaz nesta sexta (14), nasce desenrolado dessa obrigação. É um filme naturalmente jovem, que conserta engrenagens tortas de todas as maquinações ordinárias pós "Valente/Menino do Rio".


    O filme de Rosane tem muito mais méritos do que defeitos. Entre eles, está o de soltar mais a direção, abrir o rigor artístico e peneirar os melhores diálogos. Decerto sua fagulha maior está em fermentar a conexão música-internet-surfe-balada-celular-colégio sem cauterizar, amenizando as rotineiras caricaturas desse tipo de filme.


    A trama-boba de Priscila (Olivia Torres), que sonha deixar de ser virgem com Rafa (Kayky Brito, em estado tão bruto e tão irregular que é irrelevante), é sublinhada por mais-do-mesmo: encontros, desencontros, ocasos e acasos. O que puxa o filme para cima é sua capacidade natural de se entender com os moleques sentados à frente.


    Tem o melhor amigo da moça frágil (Caco, por Daniel Passi); o parceiro bobalhão (Amaral, por Vitor Thiré) do sujeito abobalhado e apaixonado (Boca, por Luca Sales) pela moça; e o entorno: o Pedro Bial, que faz um professor, mas parece estar regendo os BBBs; o filho da Sandra de Sá, Jorge de Sá, que como ator é um bom jogador de basquete; Claudia Ohana (mãe de Olivia, soando como ela mesma); Juliana Paes (graças a Deus, em aparição rápida como a tia devoradora de Amaral); Marcelo Novaes, como o pai de Olivia, careta e paralisado; e participações constrangedoras (de Smigol, Leticia Spiller, Ernesto Picollo e Heitor Martinez).


    O longa avança numa misturada de sonoridades, que concebe a coexistência de Simple Minds, Agnela (?!) e Maria Gadú, e recortam momentos-chave do filme. É com esse fundo que a menina Olivia passeia pelo colégio, pela praia e pela noite em busca de respostas para seus questionamentos existenciais. Assim como parte de seu grupo, envolto em pequenas piadas e médias trapalhadas.


    Ainda que navegando em clichês sugados de matrizes americanas, o longa de Rosane pontua bem, exatamente nas transposições locais. Os registros no acampamento à beira-mar, no colégio hiperconectado e no busão-zona são tipicamente brasileiros, reforçando a intimidade do roteiro com a realidade retratada.


    Desenrola, que trafega na internet já há um tempo com boa estratégia de marketing, fez o que os especialistas de redes sociais estão cantando pedra: rola no boca a boca offline e cresce regularmente entre os garotos. O filme tem tudo para ultrapassar a marca de 1 milhão de espectadores, surfando neste verão ainda sem tanto sol e de enxurradas, tragédia e tristeza. E consertando o que por muito tempo foi uma patética tentativa de falar com a juventude.

     

     


    POR: [Mario Marques]

  • MuitoRuim

    As viagens de Gulliver

    | Rob Letterman

    Talvez o mais reconhecível neste filme de Rob Letterman (Monstros versus Alienígenas) seja mesmo o rosto de Black Jack, já que a infidelidade ao clássico do século XVIII é evidente dos pés à cabeça. Por entre miniaturas e um gigante alegre e performático, As viagens de Gulliver deste século está bem longe de ser uma sátira social e tratar de metáforas da humanidade — como bem fizera o irlandês Jonathan Swift no original. Aos cinemas, chega uma história ligeiramente inspirada nas aventuras do brutamonte. 


    Lemuel Gulliver trabalha na redação de um grande e povoado jornal de Nova York — por sinal, nem um pouco afetado pela crise dos impressos. Sua paixão platônica pela bonitona editora de turismo, interpretada por Amanda Peet, é o suficiente para convencê-lo a aceitar a proposta de escrever uma matéria sobre o enigmático Triângulo das Bermudas.  

    Na viagem, sua rota é desviada e o personagem vai parar na terra mítica dos diminutos liliputianos, que em figurinos medievalescos nos remete à paisagem de um povo que parou no tempo. Ainda assim, possuem engenhosas armas de defesa. Uma família com príncipes e reis complementa o roteiro, que faz questão de se render à mistura torpe do clássico com o pop.  


    Afirmando a trama como uma paródia, Gulliver na condição de um gigante amedrontador de criaturas minúsculas, nomeia-se presidente da ilha de Manhattan e, para distrai-los, embrenha-se numa descrição de histórias campeãs de bilheterias: Guerra nas Estrelas, Avatar e Titanic, por exemplo. Mas a fórmula para arrancar o riso de seus espectadores não cessa por aí: mais e mais as referências "contemporâneas" saltam a todo momento para lembrar que As viagens de Gulliver foi feito para rir. Não convence. 


    E não é só o 3D que consegue passar quase imperceptível. Para completar a falta de graça, a atuação das outras figuras interpretadas por Emily Blunt e Jason Segel também entram na lista dos itens insossos. Bom, o filme todo é assim.

    POR: [Monike Mar]

  • Excelente

    O mágico

    | Sylvain Chomet

    Já era de se esperar que o mais novo filme do diretor francês Sylvain Chomet representasse um lugar de melancolia. De estética comparável apenas ao seu longa anterior, o inesquecível As bicicletas de Belleville, a animação O mágico (L´illusionniste) atiça o estado do que é triste até mesmo nos sorrisos provocados pelas cenas mais cômicas. Ora, quando o ventríloquo vira alcoólatra e o palhaço, suicida, alguma coisa sabotou a tenda do circo e contaminou o céu de brigadeiro. Nem mesmo o coelho rebelde na cartola, a taça que se enche ou a moeda que compra sonhos são capazes de evitar a perda de espaço e de público de um velho mágico.


    A combinação da criatividade de Chomet e do roteiro original do ícone do humor francês Jacques Tati desperta um cinema lúdico, de traços artesanais e cores de lápis de cor. Aliás, o longa é uma grande homenagem a Tati e ao cinema mudo. O filme se desenrola perfeitamente mesmo sem quase não possuir diálogos. É sonoro ao ser apoiado pela bela trilha que suporta a narrativa e pelo falar entre dentes dos personagens em algumas poucas cenas. E é silencioso ao tratar da solidão e da decadência de um ilusionista à beira do desemprego em tempos de modernização dos gostos. 


    Ambientado no início dos anos 60, O mágico trata do período de transição de uma época. Artistas tradicionais vão aos poucos caindo no esquecimento e sendo substituídos pelo som elétrico das bandas de rock e pelo poder de atração dos aparelhos de televisão. O personagem principal é um mágico chamado Tatischeff - sobrenome de nascimento de Jacques Tati - que viaja a Europa realizando espetáculos de ilusão. A sua carreira está em crise e ele se vê obrigado a se apresentar em festas e em bares para públicos não muito interessados.  


    Em uma viagem a um vilarejo na Escócia, Tatischeff (na voz de Jean-Claude Donda) encontra uma menina humilde, Alice, que se encanta pelos seus truques, acreditando que esses sejam magia de verdade. Ao sair da cidade, Alice o segue e o convence a ir para Edimburgo. Lá, ele acaba "adotando" a menina e fazendo de tudo para atender às suas vontades. Nasce aqui uma relação de ternura e de amizade. Eles se hospedam em um hotel repleto de artistas decadentes. Para poder ganhar dinheiro, já que suas performances não fazem mais sucesso, o mágico, secretamente, passa a se desdobrar em diferentes empregos, inclusive como manequim vivo em um loja de roupas femininas. 


    A genialidade do realizador e ator Jacques Tati contamina todo o filme, do roteiro aos trejeitos do personagem principal - esguio, desengonçado, mas muito elegante, como nas atuações do saudoso humorista. São, aliás, a mesma pessoa. Em uma singela cena, o mágico entra por acaso em uma sala de cinema onde um filme de Tati é projetado. O encontro do personagem de animação com o personagem de carne e osso provoca um encantamento perturbador. No final do longa, é revelado que a foto que Tatischeff carrega consigo é a imagem de sua filha e que o filme é dedicado a filha de Jacques Tati.  


    Através de uma narrativa relativamente simples, o visual é a base para o desencadeamento de uma história de sonhos triste e comovente, como já virou marca de Chomet. Assim como em As bicicletas de Belleville, o traço caricatural está presente tanto em corpos femininos bem delineados como em rockstars espevitados. O filme, que trata da decadência dos artistas tradicionais, traz de volta um conceito de animação mais artesanal e rústica. A arte é irretocável e a evolução da história, brilhante.  

     


    POR: [Camila Lamha]

  • Fraco

    A vida e morte de Charlie

    | Burr Steers

    Você sabe que está em apuros quando agradece aos céus pela existência de Zac Efron. E esta provavelmente é a sua principal reação ao ver o dolorosamente brega A morte e vida de Charlie. No híbrido bizarro entre O sexto sentido e Nosso lar dirigido por Burr Steers são os expressivos olhinhos verdes do ex-Disney que salvam o espectador de uma viagem sem escalas para o sombrio poço de fósseis da sessão da tarde.

     

    Em defesa da produção, não é como se a sinopse desse falsas esperanças a ninguém. Incapaz de lidar com a morte de seu irmão mais novo, Charlie St. Cloud (Efron) começa a trabalhar no cemitério onde o falecido está enterrado. Lá, tem encontros diários com a alma de Sam (o fofíssimo Charlie Tahan), com quem conversa, joga baseball e combate gansos invasores (?). O outrora promissor Charlie (antes um velejador destinado à faculdade de Stanford) parece fadado a uma vida deprimente e solitária, até que reencontra Tess (a gostável Amanda Crew), uma garota de seu passado. Ele se vê, então, obrigado a escolher entre o irmão morto e seu novo amor. Quer dizer, tudo tão envolvente quanto um talo de aipo cru.

     

    Acrescente ao enredo pouco inspirador alguns chavões que fariam Danielle Steel enrubescer, uma fotografia reminiscente àqueles filmes da Tela quente envolvendo vidas egressas e cachorros reencarnados e sucessivas escolhas duvidosas de trilha sonora. Pronto, eis a ideia geral de A morte e vida de Charlie. Até Kim Basinger e Ray Liotta, que geralmente dão pelo menos uma engrossada no caldo, são completamente inúteis. A  exemplo de quase tudo neste desperdício de película.

     

    O quase tudo fica por conta de Efron, que merece o devido reconhecimento. Se no engraçadinho 17 anos outra vez (a prova de que Steers não é um completo desastre) o colírio teen já havia mostrado que é capaz de não ofender, torna-se uma surpresa realmente agradável na pele de Charlie. Ele é um pouquinho brega? Talvez. Afetadinho? Sem dúvida. Nada disso, porém, compromete o desempenho sem esforço e emocional de Efron, que pode vir a fazer boas coisas no cinema. Isto é, quando criar um mínimo de senso crítico na hora de escolher filmes, claro.

     

    No mais, A morte e vida de Charlie é tedioso, apelativo e aparentemente infinito. Em vez de envolver o espectador, o enredo parece perdê-lo um pouquinho mais a cada aparição lacrimejante de Sam. Transcorridos 40 dos quase cem minutos de filme, é inevitável torcer para que o moleque finalmente vá para a luz, permitindo que tanto Charlie como todos nós possamos finalmente seguir em frente com nossas vidas.

     

     


    POR: [Fernanda Prates]

  • Bom

    Além da vida

    | Clint Eastwood

    Não é  condenável que se tenha uma má impressão de Além da vida, que somente pelo título em português e até mesmo pelos minutos iniciais pode provocar um equívoco durável até o happy end. Clint Eastwood acaba tocando em um tema atual, pois é inegável o hype de 2010 sobre o assunto da vida após a morte, com o cinema nacional levando à tela histórias de dons mediúnicos e suas possíveis descobertas. Mas, para o bem do cinema, Clint conduz Além da vida na direção de vias contrárias. Centraliza o longa na aflição de quem fica na Terra depois da morte de familiares: o hereafter — título original do filme. Sem clamar por um tom de “o inferno é aqui”, atribui uma leve uma pegada emocional. Clint, diretor que nas últimas décadas fez quase um filme por ano, mais uma vez investe bem no gênero drama. Para o astro de Por um punhado de dólares (1964), equilíbrio é a palavra de ordem. 

     

    O que pode provocar o equívoco de achar que é apenas mais um filme espírita é o fato de que Clint nos apresenta o lugar para onde vão as pessoas quando deixam a vida: por meio de visões de seus personagens, assume-se a existência desse local, e é em volta dele que as histórias são encaminhadas. Mas este espaço, definido durante o filme como atemporal, é justamente o que menos aparece. Assim, Clint parece dizer que isto é o que menos importa. Faz questão de representá-lo com cuidado. Não é o céu, tampouco o paraíso, dá  até para se pensar que talvez seja um limbo, mas é um cenário cinzento e borrado, por onde a câmera passeia em travellings e alterna rostos entre primeiro e segundo planos. Também não se ouve nada. Ao espectador, Clint dispõe o silêncio. 

     

    Além da vida volta sua atenção à família. E embora as histórias centrais girem em torno de três núcleos de pessoas de diferentes países, temos a todo tempo pessoas com problemas mal resolvidos entre parentes que já se foram. Coincidentemente, o protagonista George Lonegan, americano interpretado por Matt Damon, possui a capacidade de se comunicar com os mortos e mediar conversas que não ocorreram em vida. E se muitos enxergam sua habilidade — descoberta depois de uma suspeita de esquizofrenia na infância — como um dom, para o próprio George, isso acaba sendo uma maldição, como ele mesmo enfatiza constantemente em bravejos. Pois, imagine: basta que o personagem toque na mão de alguém para estabelecer a comunicação. Além de ser bem prático, é uma habilidade financeiramente bastante rentável, não? Pois era assim que no passado ele ganhava a vida. Agora, arrependido, pretendia viver como uma pessoa comum. O filme mostra que isso não foi nada fácil. 

     

    Já para a jornalista francesa Marie Lelay, personagem de Cécile de France, a experiência de quase morte enfrentada na tragédia do tsunami no sudeste asiático abre caminhos tanto em sua vida pessoal, quanto profissional — se, num primeiro momento, temos uma famosa apresentadora de telejornal que vive os impasses da profissão depois do abalo emocional (provocado inclusive pela perda da filha na catástrofe), pelo fim, vemos que a experiência lhe encaminha para o autoconhecimento, à  pesquisa de novos temas e, principalmente, à permanência das incertezas que de certa forma a encantam, diferentemente de George. 

     

    De modo terno também acompanhamos um pouco a vida de dois irmãos ingleses (Frankie McLaren), gêmeos, que, mesmo com uma mãe (Lyndsey Marshal) viciada em drogas, tentam protegê-la para não serem enviados por assistentes sociais à tutela de outra família. No meio dessa tentativa, Jason morre. Marcus é adotado por um casal e, insatisfeito, foge. Depois de conhecer diversos “falsos” videntes, encontra George. Nesta trajetória, o roteiro de Peter Morgan, mesmo de Frost/Nixon (2008) e A rainha (2006), sintetiza o manancial de pessoas que lucram com a mentira. 

     

    Com leveza, Além da vida consegue abordar, ainda, diversos temas, e dessacraliza outros detalhes que diante do tema central se caracterizam como pormenores. Mas nem por isso desprezíveis. Ao final, Clint eleva um desses assuntos a status de clímax. A revelação mediúnica se consagra a favor do amor e é então que seu "poder" se anula. Não parece piegas, é. No entanto, Clint Eastwood não se propôs a fazer um filme sobre o afterlife, não é mesmo? Ainda bem.

     

     


    POR: [Monike Mar]

  • MuitoRuim

    Entrando numa fria maior ainda com as crianças

    | Paul Weitz

    Sabe quando você vai assistir a um filme com expectativas tão baixas que acaba nem sendo tão ruim assim afinal? Bem, este definitivamente não é o caso de Entrando numa fria maior ainda com a família. Repetitivo, cheio de clichês e quase tão bem escrito quanto uma redação de primeira série sobre férias na fazenda, o filme dirigido por Paul Weitz é tão embaraçosamente ruim que faz os dois títulos anteriores da franquia parecerem Poderoso chefão I e II em comparação.

     

    Aqui, Jack (a maior desonra artística de Robert de Niro) começa a se preocupar com seus problemas cardíacos, e sente que é hora de passar o bastão da família para o genro Gaylord "Greg" Focker (crime cometido por Ben Stiller). Ele desconfia, contudo, que Greg esteja tendo um caso com sua colega gostosona (a consistentemente tosca Jessica Alba), chamada Andi Garcia. É, como o ator Andy Garcia. Sim, isso era pra ser uma piada, o que é bem representativo da ideia de "humor" a que se é submetido. Greg, por sua vez, quer provar ao sogrão até o aniversário de seus filhos gêmeos que tem os cojones para se tornar o "Godfocker" (yupe, isso mesmo) da família.


    Para quem se lembra de De Niro como o imortal Jake LaMotta de Touro indomável, o filme machuca quase  fisicamente. O mesmo vale em relação a Dustin Hoffman e Harvey Keitel, completamente jugulados pelos diálogos dolorosamente forçados e infantis. Sem nenhum tipo de engajamento, todo o elenco – desde o questionável Stiller à geralmente competente Barbra Streisand (vovó Focker) – parece estar mais preocupado em superar cada dolorosa cena do que com atuações minimamente dignas de nota.     

     

    Stiller, que já teve seus momentos aceitáveis no cinema (Trovão tropical é um exemplo) leva apatia a um novo nível com sua performance boba e sem inspiração. Jessica novamente incita níveis sem precedentes de vergonha alheia em sua tentativa desesperada de parecer minimamente engraçada. E Owen Wilson continua perdendo apenas para Dane Cook no quesito "piores moléstias que já assolaram o cinema cômico".

     

    Logo nos primeiros 20 minutos, vê-se que o filme segue à risca as instruções da grande bíblia da comédia pastelão. De cara, assistimos a uma pobre alma recebendo um tubo no ânus, uma criancinha vomitando em jato (oh, a sutileza...), Stiller sofrendo um acidente sangrento num jantar de família e outros lugares-comuns que fazem Débi e Lóide parecerem uma dupla bastante sofisticada. Noventa por cento das piadas são repetidas e previsíveis. As restantes, mesmo inéditas, são intelectualmente ofensivas.

     

    Como Jay Roach, diretor dos dois primeiros filmes, foi esperto o suficiente para pular do barco antes dele afundar, é Paul Weitz que responde por esta tentativa infeliz de comédia que, durante 90 minutos – daqueles que parecem se converter em 900 –, esbanja escatologias e atuações que podem ser consideradas, na melhor das hipóteses, burocráticas e insossas. Por outro lado, é quase admirável como alguém consegue a proeza de pegar alguns dos maiores nomes de Hollywood e ainda assim criar algo tão trágico.

     

    Se Entrando numa fria maior ainda com a família pudesse ser definido em duas palavras, "vergonha alheia" seria o termo.  Mais do que causar bocejos – e uma vontade irrefreável de esconder a cara em um balde de pipoca e sumir para sempre –, o filme ainda cicatriza emocionalmente os pobres espectadores, obrigados a assistir impotentes enquanto ícones do cinema envelhecem sem manter a dignidade. Melhor pensar nisso como um teste: se você conseguir superar estes 90 minutos incólume, provavelmente está pronto para quase tudo nesta vida. Boa sorte.

     

     


    POR: [Fernanda Prates]

  • Bom

    Enrolados

    | Nathan Greno e Byron Howard

    Com perdão da palavra aos ávidos fãs, mas Ariel, Branca de Neve, Cinderela, Aurora e Bela são agora umas senhoras sentadas em suas cadeiras de balanço a assistir à princesa mais cool de todos os reinos: Rapunzel, na divertida e modernizada história de Enrolados. O conto dos Irmãos Grimm é apenas uma inspiração para a 50ª animação da Disney, que tem mesmo tudo para deixar a marca ainda mais histórica.

     

    A jovem dos longos cabelos dourados presa no alto de sua torre é a décima princesa Disney e chega para deixar alguns clichês de lado. A subversão aos tradicionais contos de fadas — e, aqui, estamos livres de fadas, bruxas e duendes — começa desde já pelos personagens: anti-heróis que, apesar das fugas e lutas, animam e muito o  tal reino, que de encantado tem só um pouco.

     

    A vilã é  a anciã Mãe Gothel. Obcecada pela juventude, desfruta da mágica da flor dourada, capaz de curar doenças e rejuvenescer. Bom, óbvio que a vilã da história não iria avisar da tal flor à sua majestade, a rainha, que se encontrava à beira da morte. Como bem lembra o narrador do filme, porém, logo no início, tudo parecia correr muito bem: a rainha encontrou a flor, foi curada e gerou uma linda criancinha. Mas, todos sabem, a história começa mesmo com o que vêm depois disso: sua filha é sequestrada e trancafiada numa torre escura, longe de tudo e todos, por 18 anos. Na prisão, a rotina do dia a dia da Mãe Gothel se fazendo de boazinha até que não é das piores.

     

    Em vez do príncipe, o maior ladrão do pedaço: esse é Flynn Ryder, nosso anti-herói, que conhece a bela moça por acaso, após um roubo. Com o personagem, o cômico ganha mais espaço no longa, a princesa passa a viver de verdade  — para ela, isso só aconteceria quando pusesse os pés para fora da masmorra —, mas só consegue isso depois de desobedecer e dar um golpe na Mãe Gothel. Contudo, o filme não prega a desordem, mesmo quando a menina, por um momento, se angustia com a própria atitude e seu novo companheiro a aconselha que “um pouco de rebeldia e aventura faz parte do crescimento”. A desobediência, aqui, representa um reparo ao cárcere.

     

    A partir daí, só  surpreende um conto de fadas com referências pop, ironias, humor e muita ação. Utilizando como arma de defesa suas próprias madeixas, Rapunzel faz tudo isso acontecer na companhia ora boa, ora má, de grandalhões e desajeitados vikings, um mímico boa praça, cavaleiros reais e um cavalo que no fim das contas também acaba sendo um bom amigo.

     

    A Disney, apesar de subverter alguns preceitos por aqui, não descarta o que tem de melhor. Faz rir e encanta com diálogos ágeis, canções e beleza. Nesse quesito, a primeira princesa computadorizada do estúdio também não sai perdendo muito para nenhuma outra das antigas.

     

     


    POR: [Monike Mar]

  • Bom

    Trabalho sujo

    | Christine Jeffs

    Personagens desequilibrados, diálogos espirituosos, um enredo insólito e uma família adoravelmente disfuncional. Parece familiar? Não, não é Pequena Misschr Sunshine. Mas não foi por falta de tentativa. Dos mesmos produtores, Trabalho sujo é o tipo de filme meigo e sutilmente deprimente que, embora tropece em clichês e não chegue aos pés do predecessor, pode até fazer você derramar uma lágrima solitária do olho esquerdo quando o cara da poltrona ao lado sair para ir ao banheiro.

     

    No filme, Rose Norkowski (brilhantemente interpretada por Amy Adams) é uma ex-cheerleader que, após viver o auge no colégio, acaba se tornando diarista para sustentar seu filho, o esquisitinho Oscar (Jason Spevack, uma versão menos creepy de Haley Joel Osment). Deprimida e solitária, Rose tem um caso com Mac, seu namorado de escola (Steve Zahn, que não chega a ofender no papel) e sonha em se tornar corretora de imóveis. Sua pouco glamourosa ambição, contudo, é deixada para trás quando ela percebe que pode ganhar uma graninha honesta limpando cenas de crime. Nada muito diferente do que já fazia antes – exceto pelos pequenos detalhes do sangue, fluídos corporais e tecidos putrefatos, claro.

     

    Para ajudá-la em sua nova ocupação, Rose convida sua irmã Norah (resgatada do profundo abismo dos clichês hollywoodianos graças ao talento de Emily Blunt), a típica “garota perdida que usa cinto de tachinhas e fuma maconha, mas que, no fundo no fundo, só quer ser amada”. Juntas, as irmãs formam a empresa “Sunshine Cleaning”, na qual aprendem os truques do ofício, graças à ajuda de Winston, o simpático vendedor de produtos de limpeza com um coração enorme e um único braço. Obviamente, as coisas dão terrivelmente errado em certo ponto. E a relação das irmãs é colocada à prova.

     

    Apesar de flertar perigosamente com o lugar-comum, a dinâmica entre as duas acaba sendo o grande trunfo do filme. Tudo graças ao talento de Adams e Blunt, que transformam duas personagens com tendências perigosas à “detestabilidade” em mulheres críveis e dignas de compaixão. A premissa de duas irmãs totalmente opostas que se uniram pela dor da perda precoce da mãe pode até parecer piegas. E é. Mas acaba sendo salva pela força das atrizes. Se o filme tropeça – como na breguíssima cena em que Norah atinge algum tipo de redenção espiritual muito profunda por causa do barulho de um trem --, é a solidez das atuações que o impede de cair de cara no chão.

     

    No meio desta zona toda está o pai de Rose e Norah, Joe, interpretado por Alan Arkin. Embora seja simplesmente incapaz de entregar uma atuação não-impecável, Arkin parece ter reprisado, em Trabalho sujo, seu papel em Pequena Miss Sunshine. Novamente, é o pai de família que, apesar de todo errado, só tem boas intenções.  Assim como fez com a gorducha Olive, Arkin surge para Oscar como um grande companheiro/má influência. Com a diferença que, desta vez, não temos nenhuma simulação constrangedora de strip-tease mirim ao som de “Superfreak”. Uma pena. Mas o hábito de lamber compulsivamente objetos inanimados, por outro lado, coloca Oscar como grande candidato a personagem com maiores tendências ao desajuste social na vida adulta.

     

    A metáfora do filme é bem óbvia: a limpeza de vísceras (e outros fluídos pouco sanitários) representa, na verdade, uma tentativa das irmãs colocarem suas próprias vidas nos eixos. Meigo, porém um pouco bobo. Mesmo que seja muito difícil não associar Trabalho sujo ao fofíssimo Pequena Miss Sunshine, o longa de Christine Jeffs falha em reproduzir o maior trunfo do longa anterior: a sinceridade. Os dramas das personagens, embora bem conduzidos, não parecem naturais. A saga da família Hoover flui sem esforço, enquanto a família Norkowski parece simplesmente tentar demais. 

     

    A verdade é que Trabalho sujo não vai entrar no Top 5 de ninguém tão cedo. Mas, embora não tenha abalado as estruturas da indústria cinematográfica, conquista pelas minúcias. E, pieguices e morbidez à parte, acaba sendo muito fofo.  O longa pode não ser exatamente material para Oscar – e provavelmente nunca terá vez em nenhuma edição dos “501 filmes que você deve ver antes de morrer”. Mas, se você estiver em um dia um pouquinho mais molenga, ele pode até te inspirar um soluço ou dois. Ou, com um pouco de boa vontade, fazer você pensar sobre a bagunça que é sua própria vida.

    POR: [Fernanda Prates]

  • Bom

    Amor por contrato

    | Derrick Borte

    Dar de cara com David Duchovny logo nos primeiros minutos de um filme geralmente é sinal de que coisas terríveis estão prestes a acontecer. E não coisas terríveis no bom sentido, como zumbis devorando cérebros ou Van Damme chutando coqueiros. E sim do tipo "melhor mastigar meu antebraço a continuar nesta sala de cinema".  Amor por contrato, contudo, é uma agradável surpresa. Explorando de maneira divertida a já batida premissa de que as coisas que você possui acabam te possuindo, o filme se qualifica, na pior das hipóteses, como entretenimento honesto para a família.


    Steve (Duchovny) e Kate (Demi Moore) são um casal perfeito que se muda com seus filhos perfeitos para um subúrbio perfeito. Logo, eles conhecem seus vizinhos perfeitos, que, por sua vez, encantam-se com os recém-chegados perfeitos. Porém, como perfeição não sustenta um filme inteiro, é óbvio que as coisas não são bem o que parecem. A família Jones, na verdade, é uma estratégia de marketing para convencer famílias fúteis e consumistas a preencherem o vazio de suas vidas com produtos. E funciona.


    Não é como se a crítica ao consumismo desenfreado fosse um tema inédito, mas a abordagem leve e engraçada de Amor por contrato funciona.  Utilizando-se de referências pop e um humor atual e sensível, o filme vai muito bem até a metade. Mas se perde quando tenta tecer uma crítica mais profunda. As reviravoltas acabam parecendo simplesmente jogadas ali para efeito de choque. E o final, artificial e desconexo, parece ter sido simplesmente anexado ao resto do filme de qualquer jeito.


    O casal principal surpreende. Duchovny parece ter sido feito para o papel.  Sem dúvidas, o eterno Mulder convence bem mais como um bestalhão que cai de quatro por uma quarentona ambiciosa e sedenta por poder do que como o garanhão conquistador de Californication. Já Moore apresenta sua melhor atuação desde... Ahn... Ghost? Talvez seja outro caso de papel feito sob medida, mas Demi incorpora de maneira exemplar a epítome do sonho de consumo norte-americano.


    Já os filhos, Amber Heard (reeditando seu eterno papel de combustível de fantasias eróticas adolescentes) e Ben Hollingsworth (uma versão menos afeminada de Adam Brody), passam despercebidos. Fora a sensação bastante perceptível de que são uns 50 anos velhos demais para interpretarem adolescentes. Já Larry (Gary Cole) e Summer (Glenne Headly), os vizinhos invejosos, protagonizam bons momentos.


    Amor por contrato pode não trazer uma premissa inovadora, mas triunfa por seu bom humor e sua abordagem despretensiosa. Para quem não está indo ao cinema em busca de questionamentos existenciais, deve ser mais que suficiente.

     

     


    POR: [Fernanda Prates]

  • Bom

    Tron - O legado

    | Joseph Kosinski

    Honestamente, quem aí viu Tron – Uma odisseia eletrônica em 1982? Ou em algum momento depois disso? Por essas bandas, o filme não pegou muito e embora não tenha sido um grande sucesso nos EUA, acabou caindo nas graças de um público nerd, por se tratar de um filme sobre computação. Tron – O legado entra no cinema meio como a sequência de um filme que ninguém viu, mas a história se segura o bastante para ser interessante, por mais que o esqueleto da trama seja bem batido. É o blockbuster família da estação, com méritos.



    Na trama, o herói é Sam Flynn (Garrett Hedlund, em performance honesta), um rapaz adepto de parkour que é um sócio majoritário não atuante da empresa que seu pai, Kevin Flynn (Jeff Bridges, excepcional no papel), protagonista do filme original, construiu e monetizou. Kevin desapareceu sem deixar rastros há 20 anos e eventualmente Sam descobre que ele estava vivendo num mundo de computadores, que descobriu como acessar de seu laboratório.



    Lá, os programas vivem oprimidos por Clu, um programa cópia de Flynn (um Jeff Bridges digital, com a cara que tinha 20 anos atrás, por vezes, assustadoramente real, por vezes, similar a um personagem de Beowulf, de Robert Zemeckis). Por causa de Clu, Kevin acabou ficando preso no mundo digital por 20 anos, ao lado de Quorra (Olivia Wilde, apropriadamente esquisita e sexy). Sam acaba entrando nesse mundo e parte em uma jornada para salvar seu pai e completar seus sonhos.



    A história é meio batida, tocando em vários pontos da clássica jornada do herói, com o vilão tirânico com uma conexão com sua família, o mestre sábio (que acaba sendo Kevin), as cenas de captura, as fugas milimétricas. Seria tudo chato não fosse o design brilhante. Literalmente. Tudo em Tron é banhado em neon, geralmente laranja ou azul claro, gerando um mundo muito tecnológico e, ainda assim, muito retrô. Os efeitos especiais também são fantásticos, com programas se estilhaçando como vidro quando destruídos e veículos deixando rastros sólidos de luz. A trilha sonora, composta pelo Daft Punk, complementa perfeitamente o filme, com orquestrações grandiloquentes misturadas com sintetizadores oitentistas.



    No comando deste belo bólido de US$ 320 milhões de dólares, está o diretor iniciante Joseph Kosinski, que construiu sua carreira na direção de comerciais. E Kosinski tem sucesso em guiar o filme. Os ângulos de câmera são competentes e a implementação do 3D é a melhor já feita em qualquer filme até hoje. Tecnicamente, talvez seja menos deslumbrante que Avatar, mas conceitualmente, é um passo na direção certa. O 3D em Tron – O legado aparece tal qual as cores em O mágico de Oz, ou seja, as três dimensões apenas surgem quando os personagens estão dentro do mundo de computador. O efeito é brilhante, causa estranhamento e é um uso fantástico da tecnologia.



    Uma comparação óbvia que Tron – O legado gera é com Matrix, mas é, na verdade, o inverso do filme dos irmãos Wachowsky. Na aventura da Disney, quem tem valor é o programador, quem cria programas. Em Matrix, o herói é o hacker, quem destrói, quem perturba a ordem natural das coisas. Tron é uma visão de que a tecnologia pode nos salvar, que é a última fronteira e que traz esperança para nossa sociedade. Já em Matrix, a tecnologia é o fim da humanidade e da realidade, é a inimiga número um da humanidade. Interessante ver posições tão diferentes de filmes separados por cerca de 10 anos.



    Tron – O legado é um blockbuster cheio de cores e cenas de ação, perfeito para crianças e quem se quer desligar o cérebro. Por trás disso, é um argumento sofisticado pró tecnologia e um passo na direção certa no uso do 3D no cinema. Completamente imperdível, ainda que o núcleo do filme seja batido.

     

     


    POR: [Gerhard Brêda]

  • Excelente

    Machete

    | Robert Rodriguez

    Antes de o relógio contar cinco minutos de filme, Machete (Danny Trejo) se irrita com uma chamada em vídeo de seu chefe e esmaga um celular com as próprias mãos. Isso dá o tom: se algo está no caminho de Machete, está em vias de ser esmagado, destruído, explodido ou decapitado. Com Machete, o diretor Robert Rodriguez mergulhou no trash e na mexploitation para entregar um de seus melhores filmes.



    A história segue o ex-federale (agente federal mexicano) Machete, que é traído por seu governo, perde sua família e é deixado para morrer. Por trás das maquinações, está Torrez (Steven Seagal , em versão gorducha e hilariante), um traficante que colocou aparentemente todos em sua folha de pagamento, do faxineiro de boteco em Guadalajara ao senador do Texas, John McLaughlin (Robert DeNiro). Machete, é claro, não morre e vai para os EUA como imigrante ilegal, onde é contratado por Michael Booth (Jeff Fahey) para matar McLaughlin. Traído e deixado para morrer novamente, Machete agora busca vingança.



    Paralelamente a isso, McLaughlin quer se reeleger com a plataforma linha dura contra a imigração. O senador montou um esquadrão de extermínio na fronteira chefiado por Von Jackson (Don Johnson, o Sonny Crockett de Miami vice) e ainda defende a criação de uma cerca elétrica para proteger o Texas dos imigrantes.



    A trama simples sustenta um argumento político completamente exagerado de Rodriguez em prol da imigração. O diretor mexeu em um assunto delicado para os yankees com a sensibilidade de um rinoceronte em uma loja de porcelanas, mas a atmosfera do filme o faz funcionar. O ar panfletário simplório complementa os diálogos artificiais e a violência exagerada. Em Machete, as falhas funcionam em prol do filme, como é o caso do discurso motivador que Jessica Alba arremessa em determinado momento com a frase “Não cruzamos a fronteira, a fronteira é que nos cruzou”, uma fala tão ruim que tem chance de se tornar um fenômeno da internet.



    A escolha do elenco foi fantástica. Danny Trejo reprisa seu papel como Danny Trejo, como em todos os filmes de Rodriguez, um mexicano durão e de poucas palavras. Fahey, Seagal estão excelentes em seus papéis, nunca levando tudo muito a sério, mas mantendo a coerência em um mundo no qual um homem usa o intestino de outro para fazer rapel. Um dos destaques do elenco vai para Cheech Marin, que interpreta o irmão de Machete, um padre que é um ex-federale. Quando Marin saca duas escopetas em um tiroteio com Tom Savini em uma igreja ao som de Ave Maria, o espectador sabe que está diante de um momento especial do cinema.



    A trilha sonora é apropriada: beats chicanos se encontram com lamentos de viola texanos em algo que parece Ennio Morricone comendo um burrito e alguns nachos. A música executada quando Machete subitamente conquista uma garota e a leva para cama é brilhante, uma guitarra massacrada por um pedal de wah-wah que parece ter saído de um obscuro blaxploitation dos anos 70.



    O filme também conta com efeitos especiais satisfatórios. Machete tem uma predileção por facas e, por isso, fatia, decepa e decapita qualquer coisa em seu caminho, e a resposta no vídeo é satisfatória, com esguichos de sangue e membros voando para todos os lados. Os tiros também são bem executados, com sensação de impacto e sempre um jato vermelho pintando a parede.



    O maior crime contra Machete é levar alguma coisa na tela a sério. Robert Rodriguez, que sempre carregou a bandeira mexicana em suas produções, pode considerar o filme um manifesto pró imigração, mas é evidente que o que está na tela é farsesco, insano e exagerado. E mais: é possível penalizar um filme que bota Robert DeNiro vestido como um cucaracho ilegal – com direito a poncho e chapéu surrado – atirando para todos os lados? Não, não é.

     

     

    POR: [Gerhard Brêda]

  • Bom

    Enterrado vivo

    | Rodrigo Cortés

    Diante do título é possível supor que Enterrado vivo já nasça entregando o ouro, e o que nos resta é descobrir o que Rodrigo Cortés fará com este material. No filme, Ryan Reynolds interpreta Paul Conroy, um motorista de caminhão que surge em cena já encarcerado num cubículo de madeira, seu único espaço de ação durante todo o filme.

     

    Nada sabemos a respeito de como o motorista foi parar ali e logo de cara somos arrastados para aquela sufocante situação. Tendo como interlocutor apenas um aparelho celular deixado propositalmente dentro do caixão, Conroy consegue lidar com várias questões: ligações para a família, para empresa que o contratou e para o FBI, além de negociar em várias etapas a própria vida.

     

    Esta relação do protagonista com a tecnologia faz lembrar Grave danger, episódio de CSI escrito e dirigido por Quentin Tarantino, em que a equipe de investigadores precisa correr para livrar um companheiro que foi sequestrado e — também — enterrado vivo. Neste caso, o sequestrador fixa uma câmera dentro do caixão e transmite toda a agonia da vítima diretamente para o escritório de Grissom e sua turma, aumentando ainda mais a tensão. Já Cortés reforça os momentos tensos com closes e cortes rápidos, privilegiando planos muito fechados dentro da já estreita perspectiva que temos de Conroy, caprichando assim no efeito claustrofóbico.

     

    Apesar da gama de ação parecer bastante restrita, a perspectiva de contato com o exterior através do celular promove não apenas a distensão virtual da presença de Conroy como único agente na luta por sua sobrevivência, mas também garante a alternância dos momentos de tristeza-alegria, dependendo de quem está do outro lado da linha. Além disso, o personagem solitário tem que lidar com a bateria descarregando, duas ligações ao mesmo tempo e até vídeos postados no YouTube.

     

    Aqui vale dizer que o roteiro de Chris Sparling é bem redondo, sabendo dosar as repetições, pontuar as viradas e até supreendendo quando se acredita que a história vá emperrar. Mesmo com as horas contadas, o motorista tem tempo suficente para dialogar com a burocracia governamental e refletir sobre o papel solitário e ineficaz do indivíduo diante desta máquina que se diz democrática. A presença dos EUA no Afeganistão e o terrorismo também estão na sua pauta.

     

    Ryan Reynolds poderia muito bem escorregar na baba da canastrice diante de uma tal limitação cênica, mas, ao contrário, nada de afetação — o Conroy composto por ele enlouquece na medida e vai aumentando o grau de sobriedade a cada nova decepção ou desafio.

     

    E é isso que agrada no projeto de Cortés, a correção com que a coisa toda é feita. Entre nos enterrar junto com seu personagem e nos fazer viajar por questões políticas, filosóficas ou triviais, o diretor escolhe os melhores caminhos e entrega um filme enxuto e com o final mais angustiante da temporada.

     

    POR: [Georgiane Euzebio]

  • Regular

    Tetro

    | Francis Ford Coppola

    Com Tetro, Francis Ford Coppola demonstra que o auge de sua carreira passou. Não é possível reconhecer seu passado filmográfico, pelo simples fato de que Tetro não é um filme grandioso, e parece já ter nascido sem tal pretensão. O cineasta oscarizado por Poderoso Chefão leva às telas um longa independente de grandes estúdios de Hollywood. Feito na Argentina, é marcado por um tom de cinema alternativo, filmado quase todo em preto e branco, com exceção de flashbacks ironicamente coloridos.


    Pelo início, tem-se a impressão de ser um filme de um jovem diretor e, de fato, não é uma coincidência. Coppola o escreveu aos 22 anos. Porém, isso não significa que lhe falta maturidade. Pelo contrário, Coppola conduz uma narrativa que evolui lentamente e alcança seu clímax harmonizado por óperas e síncopes teatrais. A mistura é bem-vinda, mas ainda assim é provocativa, pois, em Tetro, o estranho tem seu lugar.


    Mariposas sobrevoando em volta de lâmpadas epigrafam o filme que se constitui basicamente de memórias e revelações, que vão e vêm da mesma forma: perturbadoras. A metáfora está construída para abrir caminho às descobertas feitas dentro de uma família, cujo relacionamento é fervilhado por rivalidades e segredos. Angelo é o personagem principal, interpretado pelo ótimo Vincent Gallo. Ele fora um escritor que teve seu sucesso declinado, rejeita o nome da família e parece ter desistido de viver. Mantém um caso conjugal com Miranda (Maribel Verdú), uma médica psiquiatra que conheceu quando passou pelo hospício.


    O passado se apresenta aos poucos, e assim vamos conhecendo os conflitos da família de Tetro, que já havia jurado não manter mais contato com os parentes. De repente, se depara com a chegada de Bennie (Alden Ehrenreich), seu irmão mais novo. O garoto começa a descobrir textos do irmão e se vê mergulhado em um tempo que encobriu diversos segredos. Nem ele mesmo escapa.


    Coppola traça um drama que cresce ao longo da narrativa e chega a ganhar ares de suspense. Para o final, cenas magistrais são compostas na diegese de sessões cinema, peças de teatro, orquestras e corais. Pompa digna de um dos maiores cineastas do mundo, porém, até certo ponto, comedida. Tetro- personagem é estranho, um tanto psicótico, torto, atormentado. Por isso, Tetro-filme assume essa carga negativa e deixa o espectador em uma constante expectativa, para ver no que vai dar. Pode se decepcionar, mas Coppola, longe dos grandes estúdios, não precisa se preocupar muito com isso.

     


    POR: [Monike Mar]

  • Fraco

    As crônicas de Nárnia: A viagem do peregrino da alvorada

    | Michael Apted

    Quando um leão gigante com poderes messiânicos dá um ultimato, é preciso prestar atenção: gente crescida não pode retornar a Nárnia. E mais uma vez Aslam se mostrou certo. A viagem do peregrino da alvorada, terceiro filme da franquia baseada na obra de C.S. Lewis, até pode ser divertido se for assistido com a inocência e a falta de compromisso de uma criança. Porém, se você busca um pouco mais coerência que pilhas de efeitos especiais, pode se considerar grandinho demais.


    Após a baixa bilheteria conseguida com seu antecessor, Príncipe Caspian, o diretor Michael Apted resolveu retomar as origens da franquia e apostar no público infantil. Ironicamente, isso acontece justamente na adaptação de um livro que mostra os personagens um pouco mais crescidos e começando a levantar todos aqueles questionamentos característicos da adolescência.  O resultado não poderia ser diferente: conflitos pessoais superficiais e recheados de clichês.


    Fazer uma pequena sinopse da produção já é tarefa difícil. A história começa quando Lúcia e Edmundo, acompanhados pelo seu excêntrico e contrariado primo Eustáquio, são sugados para Nárnia enquanto contemplavam um velho quadro na parede de seu quarto. Lá eles reencontram o Rei Caspian, protagonista do filme anterior, que está à procura dos sete fidalgos de Telmar, desaparecidos.


    É deste tipo de esbarrões ao acaso que o longa é feito. Óbvio que tamanhas forçadas de barra aliadas a um roteiro pobre não conseguem dar suporte a quase duas horas de filme. Apesar de ter uma abundância de efeitos visuais, belos cenários e um ritmo frenético, a trama não instiga o espectador a acompanhar a jornada dos personagens. Além do mais, uma fumaça verde — mal feita, diga-se — no papel de vilão definitivamente não convence.


    Mais do que tudo, Nárnia sofre do que se pode chamar de “síndrome da varinha mágica”. O roteiro o tempo todo utiliza o fato de se tratar de um filme de fantasia, onde em tese tudo é possível, para interligar e justificar fatos sem ter que dar grandes explicações. Não é raro ver personagens poderosos que aparecem e desaparecem do nada, mas mesmo assim nunca têm sua importância e confiabilidade questionada; heróis que simplesmente topam com artefatos importantes; ou uma luz-guia que aparece quando tudo parece perdido.


    Grande parte dessas brechas na trama tem sua origem no fato de o filme não seguir a ordem cronológica do livro. É perceptível que a adaptação do roteiro trouxe um ritmo mais envolvente e progressivo, mas também levou a atalhos bem incômodos.


    Um dos pontos corretos de A viagem do peregrino da alvorada é sua capacidade em adaptar a mensagem cristã que prepondera nas obras de C.S. Lewis. Desta vez, o foco está na questão do pecado, evidente quando Lúcia é tentada a realizar um feitiço para ser mais bonita e parecer com sua irmã Susana, ou quando Eustáquio é instigado a roubar um grande tesouro que não lhe pertence. Além disso, mais do que nunca as aparições de Aslam estão abarrotadas de um ar messiânico e mensagens bíblicas camufladas.


    O elenco em geral é fraco e conta com atuações inexpressivas na maior na parte do tempo. O destaque negativo é Skandar Keynes (Edmundo), que usa caretas para expressar alegria, tristeza e surpresa. Quem salva o cast é Will Poulter, que se sai bem no papel do caricato, porém verdadeiro, Eustáquio.


    A viagem do peregrino da alvorada mostra mais do que nunca que, ao contrário de Harry Potter, Nárnia fracassou terrivelmente em sua tentativa de formar um público que pudesse acompanhar a franquia desde a infância até o final da adolescência. Este último capítulo da história de Aslam, os Filhos de Adão e os animais falantes levanta sérios questionamentos sobre a probabilidade de A última batalha de Nárnia ser retratada nos cinemas.

     


    POR: [Jéssica Barreiros]

  • Bom

    O garoto de Liverpool

    | Sam Taylor-Wood

    Quando sobem os créditos finais de O garoto de Liverpool, fica claro que o filme não conseguiu explicar direito quem é John Lennon. Fica mais claro ainda que o filme sabia muito bem disso. Pegando os primeiros anos da vida do lendário Beatle, o filme foge do óbvio e traz algumas performances estupendas.

    Lennon aqui é Aaron Johnson, o Kick-Ass. A performance de Johnson é assustadora. No começo do filme, quando a câmera registra um garoto reprimido pela rígida tia, Mimi (Kristin Scott Thomas), que dobra funções como madrasta, Johnson parece não acertar o tom. Quando Lennon conhece o rock’n’roll e começa a criar sua persona arrogante, sua armadura para o mundo, o jogo vira e tudo passa a fazer sentido. Johnson desaparece embaixo de um Lennon em construção.

    O foco do filme é na relação do jovem Lennon com Mimi e sua mãe biológica, a instável Julia (Anne-Marie Duff), ao mesmo tempo que o rapaz descobre seu amor pela música. A personalidade de Lennon já adquire seu caráter complexo: por vezes, sua casca arrogante parece mais sincera que sua fragilidade submissa, por vezes, ela se mostra rachada e farsesca. A ideia que o filme passa é que o próprio Lennon, por vezes, não sabia quem ele era e Johnson consegue passar perfeitamente esse conflito.

    Dos Beatles, apenas Paul McCartney (Thomas Brodie Sangster) ganha algum espaço na tela. A gênese da relação entre Lennon e McCartney poderia ser mais abordada, mas Sangster mostra um Paul tímido, amável e polido, um contraste interessante com o turbilhão emocional que era John. Esse contraste veio a se pronunciar definitivamente na produção musical da banda, com Lennon amplificando críticas ácidas e visões cínicas, enquanto Paul sempre tentava trilhar o lado menos sombrio.

    Não seria um filme de John Lennon sem música e o filme tem algumas boas cenas com a banda de skiffle que John montou antes dos Beatles, os Quarrymen. Fora isso, a diretora Sam Taylor-Wood soube encaixar algumas referências interessantes ao futuro dos Beatles nos detalhes de algumas cenas, como John correndo desesperadamente ao som de acordes de A hard day’s night ou um caderno de anotações com referências à música I am the walrus.

    O garoto de Liverpool, no fim das contas, acerta mais em não demonizar Mimi ou Julia, as duas mulheres fundamentais para John. Quando parece que o filme vai descambar para o maniqueísmo, alguma coisa surge e mostra que as duas mulheres tentaram dar o melhor para John, ainda que errando muito no caminho. Explorar a infância e adolescência não é o bastante para radiografar Lennon. Que venha “O homem de Liverpool” e que trate com o mesmo respeito seus anos mais criativos e relevantes. Não custa sonhar.

    POR: [Gerhard Brêda]

  • Bom

    A rede social

    | David Fincher

    Em 2003, o gênio precoce Mark Zuckerberg pensou em levar a experiência social da universidade para o ambiente online. Para construir sua rede social, então chamada de TheFacebook, o rapaz passou por cima de algumas regras, supostamente roubou algumas ideias e esfaqueou algumas pessoas nas costas. Em algum momento, essa história pareceu fascinante para ser contada em Hollywood. O resultado é um filme desigual e com roteiro meio mambembe, que começa bem e, lá pela metade, perde totalmente o gás.

    Quem vê o trailer de A rede social, dirigido por David Fincher, espera uma radiografia da geração que amalgamou 5 mil semi-desconhecidos pelos rincões da internet, chamou de amigos e os colocou para dentro de seu perfil em redes como Facebook e Orkut (que, curiosamente, foi ao ar menos de 15 dias antes do Facebook). Ao som de uma versão mais lenta e melancólica de Creep, o filme se vende como um drama interno, que parte da inabilidade social de Zuckerberg para o mundo. Não é isso que se desenrola na trama.

    A agenda do filme é claríssima, pegando carona no livro Bilionários por acaso, escrito por Ben Mezrich e que tem em uma das principais fontes o brasileiro supostamente traído por Zuckerberg, Eduardo Saverin. O filme quer passar, por vezes mais, por vezes menos, que Zuckerman é um monstro e que Saverin é um santo. E o maniqueísmo vai do sutil ao ridículo nas longas e arrastadas duas horas de duração do filme.

    Para começo de conversa, a interpretação de Jesse Eisenberg com Zuckerberg é, à primeira vista, sensacional. A primeira cena do filme coloca o rapaz conversando com sua namorada, Erica Albright, em um bar em Harvard. Mark mostra não ter nenhuma aptidão social e encavala três assuntos na ordem que acha conveniente. Também demonstra sua arrogância ao desmerecer a faculdade que Erica cursa e imaturidade ao xingá-la, posteriormente, em seu LiveJournal. A performance cai um pouco por terra quando você vê entrevistas de Eisenberg e Zuckerberg. O ator acabou emprestando muito de si, com um delivery extremamente veloz, à inteligência arrogante e inapropriada de Zuckerberg, o que criou um personagem novo, ainda que fascinante.

    Garfield brilha menos como Saverin, em uma interpretação que carece de direcionamento, especialmente com um desenvolvimento tão fraco de personagem. Eternamente o coitado, Saverin sai, para os espectadores mais desatentos, como um grande coitado e o defensor de tudo o que é bom e puro, mas nada exclui o fato de que o rapaz levava 30% do faturamento do Facebook na cadeira de CFO e, durante o filme, não trouxe um centavo em verbas, não desenvolveu uma linha de programação, apenas emprestou US$ 19 mil, que, a bem da verdade, foram fundamentais nos primórdios da rede social.

    Justin Timberlake surge como um dos personagens mais equivocados do filme, o bon vivant e empresário falido Sean Parker, que acaba de perder sua criação, o Napster, em sucessivas batalhas jurídicas com a indústria fonográfica. Não há nada de errado com a performance de Timberlake, mas sim com o papel claríssimo de seu personagem no roteiro. Mais do que um elemento orgânico do filme, Parker surge como um deus ex machina que libera o cretino adormecido em Zuckerberg e entra em uma posição polarizadora com Saverin. De um lado, o amigo bondoso e justo passado para trás, do outro, o gênio descolado, inconsequente e malvado. Quando é possível ver as maquinações do roteiro, o filme desaba.

    É dificil acreditar que Saverin e Parker tenham sido pessoas tão bidimensionais em suas vidas ao lado de Zuckerberg, mas se foram, não deveriam aparecer em um filme. Nem tudo é interessante. É por isso que não fazem um filme adaptando sua jornada hercúlea para comprar pão de manhã, estrelando Brad Pitt e grande elenco. Nem tudo funciona na tela.

    O filme se sustenta em uma série de depoimentos que Mark deu em dois processos: o primeiro, contra Saverin, e o outro contra dois irmãos gêmeos que alegam terem inventado a ideia do Facebook, supostamente roubada por Zuckerberg. Este arco, aliás, se arrasta em uma das piores – se não a pior – cenas do filme, que mostra uma competição de remo protagonizada pelos gêmeos, com acordes triunfantes e câmera lenta. Quando acaba a ação, o espectador percebe que não se importa. É o inverso da catarse. É a burocracia visual. É zapear entre os canais e parar para assistir alguém vendendo um tapete persa às 5 da manhã.

    A primeira metade do filme é interessante e claramente superior à segunda. Neste segmento, é possível vislumbrar a relação de Mark com o mundo e com Eduardo, especialmente. Também sai daqui a melhor interpretação de Eisenberg, antes de virar um fantoche pálido ao lado do Parker de Timberlake.

    A rede social sucumbiu diante do hype. Não é a obra prima vendida pelo trailer, não é um mergulho nessa geração, que não sabe por que chora de solidão com 20 janelas do MSN abertas. Em vez disso, uma narrativa quase maniqueísta, que endeusa Saverin, demoniza Parker e aliena Zuckerberg. Quando a assistente do advogado dispara, ao fim do filme, a frase de efeito: “Você não é um babaca, Mark. Apenas se esforça muito para ser um”, uma parcela do público vai suspirar, admirando a profundidade da fala. Outra parcela, talvez bem menor, vai questionar que isso não faz sentido com o que se desenrolou nas últimas duas horas. Mark, em A rede social, é um babaca porque o roteiro quis assim. E isso não devia ser tão transparente.

     

     


    POR: [Gerhard Brêda]

  • Bom

    Megamente

    | Tom McGrath

    O mundo prestes a ser destruído. Uma criança com habilidades extraordinárias é jogada para a Terra para ser salva da catástrofe iminente de seu planeta natal. Não, não estamos falando de um dos mais queridos super heróis de todos os tempos, o Superman. Pelo contrário. A quase história trágica inicialmente retratada é do mais novo e terrível vilão das animações (pelo menos, ele tenta ser): Megamente. O ser azul de cabeça proeminente e muitos planos teoricamente infalíveis se mostra como mais um personagem carismático e adoravelmente construído pela DreamWorks.

     

    Convenhamos: a vez é dos vilões. Personagens tão meticulosamente desenvolvidos e idealizados para causar repulsa aos espectadores e justificar – além de glorificar – a existência dos mocinhos, os vilões são capítulos à parte das produções atuais. Muitas vezes, formam um séquito de admiradores por sua genialidade, ou até mesmo – e mais comumente – por sua capacidade de se redimir de maneira heróica. Meu malvado favorito, estreia da Universal nas animações, deixou as portas escancaradas para o novo tipo de anti-herói-amável cinematográfico, que cumpre muito bem o seu papel em Megamente, numa trama não tão original, mas certamente agradável e recheada de referências pop aos quadrinhos e clássicos, que deixam o público adulto nostálgico e entretido.

     

    Quando os pais de Megamente o colocaram numa cápsula rumo à Terra, numa tentativa desesperada para salvá-lo do caos, o pequeno bebê azul nunca poderia imaginar que outra família teria a mesma ideia. Um outro bebê entra em seu caminho e tem início a épica rivalidade entre Metro Man, o super herói charmoso, habilidoso e amado pelos cidadãos de Metro City, e Megamente, a criança renegada, o adolescente excluído e, posteriormente, o adulto traumatizado que utiliza sua inteligência para fazer o mal e tentar derrubar seu arquiinimigo.  Por um momento, Megamente acredita ter finalmente conseguido atingir seu objetivo, eliminando qualquer rastro de Metro Man. Mas como o mal pode sobreviver sem o bem para confrontá-lo? Não pode. Chegando a essa conclusão, Megamente decide criar um novo super herói para voltar aos dias de glória de super vilão com uma perspectiva de vida. O que Megamente esperava ser uma lição à população de Metro City, acabou levando-o a uma descoberta pessoal e libertadora.

     

    Quantas vezes a personalidade “humana” dos vilões é exposta quase no fim do filme, sucumbindo ao clichê da ovelha negra arrependida? Pois em Megamente acontece justamente o contrário. Logo no início da produção somos apresentados ao perfil derrotado e frustrado do vilão – e grande parte da sua graça e da empatia que se desenvolve pelo personagem se dá por esse fator.  Com sacadas e timing impecáveis, Megamente surpreende com roteiro leve, sem grandes pretensões, porém, longe de ser arrastado, com alusões a grandes obras cinematográficas, como a famosa cena de Marlon Brando em Superman, de Richard Donner (com certeza, um dos melhores momentos da animação).  Liderada pelo renomado compositor Hans Zimmer, em parceria com Lorne Balfe, equipe de A origem, a trilha sonora de Megamente é simplesmente arrebatadora – o que é pouco comum no gênero -, partindo de AC/DC, Guns N’Roses até a catarse de Michael Jackson. É impressionante como as canções conduzem de maneira irretocável a trama, representando a essência da ideia do diretor Tom McGrath.

     

    Com elenco de vozes estelar na versão original – incluindo Brad Pitt, Tina Fey e Will Ferrell -, Megamente traz também um time de primeira em sua equipe de produção, podendo esbanjar nomes como Guillermo Del Toro (O labirinto do fauno) e Justin Theroux (Homem de ferro 2) na lista de consultores criativos. Na cópia brasileira, ainda que Thiago Lacerda seja o principal atrativo da dublagem (qualquer um que tenha visto Simbad tem motivos de sobra para questionar o “talento” de Lacerda no ramo, apesar de ter apresentado melhora significativa nesta produção), o excelente dublador – esse sim profissional - Cláudio Galvan rouba todas as cenas, conferindo sensibilidade e personalidade forte a Megamente.

     

    O contexto pode ser batido, mas Megamente tem, sim, o seu valor. Desconstruindo as ideias pré concebidas de vilões e heróis, a animação utiliza um toque leve e despretensioso para conquistar as crianças e divertir os adultos. Não é isso o que se espera de uma animação? Pois, então, e talvez pela primeira vez, o cabeçudo de cor primária finalmente tenha conseguido atingir o seu objetivo.

     


    POR: [Juliana d'Arêde]

  • Excelente

    Filme socialismo

    | Jean-Luc Godard

    Aos 80 anos, Jean-Luc Godard, um dos grandes gênios da Nouvelle Vague, nos oferece a experiência de mais uma bela obra. Seus fragmentos — que tencionam o próprio cinema e, o tempo todo, a nós mesmos, espectadores — são partes desligadas de seu todo. Cada imagem, palavra, gesto, cena, ato, som, diálogo, abre um campo infinito de possibilidades. Uma ode à multiplicidade de interpretações (!), sempre ligadas a ironias, críticas, pessimismos e uma paixão pela História, pela política, pelo cinema, pela arte em geral e, principalmente, pela negação de tudo isto a favor de uma “questão”.


    O diretor exclama um bravo não a cada passagem — embora tudo em Filme socialismo pareça ser bem mais do que algo que simplesmente passe. Godard nega o tema, a unidade, a abordagem clara, a comodidade da compreensão, o raciocínio lógico. Somos postos ao desafio da abertura, ao embate consciente e ao mesmo tempo inconsciente entre pensar e entender. Por vezes é impossível distinguir uma ação da outra, pois o que buscamos e, raras vezes, encontramos são vestígios do que se costura na tela. Com este novo Godard nos sentimos ainda mais vivos dentro do cinema. Godard agarra-nos pelo pensamento e seu método eficaz é de nos tornar ativos — do contrário, durma — diante de três movimentações distintas das imagens.


    Na primeira parte, temos um filósofo e uma cantora a bordo de um cruzeiro pelo mar Mediterrâneo discorrendo sobre assuntos sobrevindos por geração espontânea. Comentam-se sobre dinheiro, geometria e História em uma conversa desprovida de fluidez. O som é interrompido, a imagem é intercalada com resoluções caseiras e a linearidade é insustentável.


    Do mesmo jeito é na peça seguinte, quando Godard se aproxima de uma família que recebe uma jornalista e uma cinegrafista. Elas, à espera de uma conversa com os pais, acabam se rendendo a uma sabedoria questionadora das crianças da casa. Neste capítulo de Filme socialismo, há a cena magistral de um menino que, em contraponto à infantilidade natural à idade, nos remete a uma vivência adulta. O menino nos mostra o quanto é preciso abrir-se ao olhar quando trava um diálogo provocativo com a cinegrafista. “Isto é um Renoir”, ela diz enquanto o observa pintar um quadro. “Não. Há muitas coisas que Renoir não enxergou”, retruca o garoto.


    Já no último ato, Godard monta, em voice over, uma espécie de colagem e caminha por entre imagens de Odessa, Egito, Palestina, Grécia, Barcelona e Nápoles. Aqui, é possível compreender mais claramente o que disse em uma edição da década de 50, na Cahiers du Cinéma: “Se dirigir é um olhar, montar é um bater do coração”.


    É impossível assumir um papel de crítica, que tanto necessita de uma iluminação sobre o filme, diante de um Godard que a rejeita. Atente: aqui, nada se esgota. O diretor demonstra que não está entre a imagem e sua visibilidade, mas sim numa posição que o coloca entre linguagem e visão. Pois é deste modo que o diretor consegue estabelecer uma relação com o social, a sociedade, o socialismo. Mas nada disso no sentido que estamos habituados a ver, ouvir ou falar. Colocando-se como sujeito que observa o mundo e toma como instrumento o pensamento, é a imagem — e o vídeo — que nos fará partilhar de uma sociedade aberta para as ideias e para os ideais. É assim que Godard prega a liberdade.

     

     


    POR: [Monike Mar]

  • Fraco

    Você vai conhecer o homem dos seus sonhos

    | Woody Allen

    Woody Allen não é um diretor para todos os gostos, mas o baixinho neurótico apaixonado por Nova York ocasionalmente dispara alguns bons argumentos sobre a sociedade. Seu penúltimo filme, Tudo pode dar certo (uma péssima tradução do original Whatever works) tinha um excelente argumento e observações pertinentes sobre a vida moderna. O que aconteceu, então, entre esse filme e Você vai conhecer o homem de seus sonhos?



    Não é que o filme seja ruim, é apenas terrivelmente chato. A trama segue a vida de dois casais, Alfie (Anthony Hopkins) e Helena (Gemma Jones) e Sally (Naomi Watts) e Roy (Josh Brolin). Logo de cara, dá para ver que vai ser um daqueles filmes de crises matrimoniais e, ao fim dos pouco mais de 90 minutos, o filme faz questão de comprovar o palpite. Alfie está passando pela crise da meia idade (mesmo Hopkins já contemplando, com toda a franqueza, o fim de sua existência), Helena está perdida na vida e busca conselhos de uma cartomante, Roy vive um bloqueio criativo e não consegue emplacar um segundo romance de sucesso e Sally precisa segurar as pontas em seu casamento, ao mesmo tempo que começa a se interessar por seu chefe, Greg (Antonio Banderas). No meio do caminho, todos se separam e tentam mudar de vida, com graus diferentes de realização pessoal, no fim das contas.



    Alfie decide engatar um romance com Charmaine, uma mulher bem mais nova e, digamos, liberal (Lucy Punch), Roy se encanta pela vizinha, a exótica Dia (Freida Pinto). Nenhuma novidade aqui, tudo se desenrola de maneira formulaica. Charmaine se apaixona pelo dinheiro de Alfie, Roy pela aventura em Dia. Chato.



    Você vai conhecer o homem de seus sonhos não tem pontos interessantes sobre a modernidade nem boas piadas. O roteiro se arrasta, os personagens são desinteressantes. Não há um fiapo de simpatia para que o espectador se agarre e, com isso, tudo parece não ter importância. Quando as coisas acabam mal para algum personagem, quem assiste não tem como ter uma reação emotiva nem intelectual, pois nada de fascinante se desenrola na tela. É o equivalente a filmar uma fila de banco durante uma tarde inteira.



    As performances são cansadas também. Hopkins, apesar de divertido, não está fazendo particularmente nenhum esforço. Banderas é o caso mais gritante: o ator passou no estúdio, leu as falas, pegou o cheque e nunca olhou para trás. Watts está um pouco histérica, mas é a que consegue melhor passar algum senso de urgência ou drama, especialmente ao lado do anestesiado Brolin. A Charmaine de Punch é o estereótipo mais baixo da loira burra, uma ofensa à inteligência do espectador.



    O maior problema de Você vai conhecer o homem de seus sonhos é ser um filme do Woody Allen. Se fosse de um qualquer, seria vendido como comédia romântica, faria seu sucessinho e seria massacrado da mesma forma, mas o baixinho nervoso e neurótico evoca uma certa expectativa. Espera-se bons personagens, comentários ácidos e perspicazes sobre as relações humanas, cenas divertidas, interessantes. Não dá pra achar nada disso aqui.

     


    POR: [Gerhard Brêda]

  • Excelente

    Harry Potter e as relíquias da morte - 1

    | David Yates

    A câmera penetra numa familiar névoa cinzenta, enquanto soam em tons menores acordes bastante característicos: o fim está realmente próximo. Harry Potter e as relíquias da morte - Parte 1 divide ao meio o capítulo final da franquia escrita por J.K Rowlling e pavimenta, com sucesso e arrepios de tensão, o caminho para o que se desenha ser o melhor filme da série. É o início e o meio do fim, cisão sustentada muito mais pelo respeito à carga dramática deste último segmento que por outro bom punhado de bilhões de dólares nos cofres da Warner Bros.

     

    A trama segue Harry Potter (Daniel Radcliffe), Ron Weasley (Rupert Grint) e Hermione Granger (Emma Watson) numa jornada Reino Unido afora para caçar e destruir Horcruxes. Se você não sabe o que são elas e por que são importantes, melhor não embarcar nessa. Relíquias da morte é um filme para iniciados, que trata com respeito a horda de fãs dos livros de J.K. Rowlling sem remoer informações previamente dadas. Mas vá lá: as Horcruxes são objetos que guardam pedaços da alma de Voldemort, vilão supremo desta série, e que, portanto, lhe conferem imortalidade. São sete e devem ser destruídas a qualquer custo.

     

    Os bruxinhos mirins de outrora cresceram. Já faz algum tempo, é verdade. Em Relíquias da morte nosso power trio de heróis demonstra maturidade como nunca, munido de bons artifícios de interpretação diante de assuntos cabeludos. Rupert Grint entrega as piadas sem sal de Ron Weasley com bom tempero, beneficiado pelo roteiro de Steve Kloves, além de levar nos ombros o conflito emocional com O Escolhido — o próprio melhor amigo, Harry Potter.

     

    Emma Watson, extremamente irritante em outros segmentos, é capaz de sustentar bem algumas das cenas mais tocantes da fita, como a em que apaga a memória dos próprios pais. Já Daniel Radcliffe consegue colocar rédeas de naturalidade nos aspectos azucrinantes da personalidade de Harry Potter, inclusa aí a mania de tentar resolver tudo sozinho e de se considerar um sofredor nato. O roteiro equilibra tensão e algumas boas cenas de ação com pitadas honestas de humor. Bom exemplo disso é a hilária sequência em que uma trupe de sete amigos encarna Harry Potters para confundir o bando que os espera numa emboscada fatal.

     

    Para além do amadurecimento dos intérpretes e personagens, Relíquias da morte alcança ainda uma satisfatória maturidade temática. Saem as peripécias dos três infantes que aprendiam poções, feitiços e o primeiro amor nos filmes iniciais; entra um pesada atmosfera de filme de guerra, com os três em fuga pelo “mundo real”, longe da proteção de Hogwarts. Confiança e segurança são questões frágeis em tempos em que o inimigo, Voldemort, está no poder, no próprio Ministério de Magia. Uma longa lista de bruxos desaparecidos, tortura pesada e até um radinho (de pilha?) com estações pirata adensam a atmosfera perigosa que envolve Relíquias da morte.

     

    A guerra que se instala é maior que a escola que os fãs cultuavam. Assim, David Yates — diretor do últimos dois filmes da franquia — leva a saga para paisagens externas embasbacantes, que retratam o trio pequenino entre montanhas, lagos e imensidões desertas. Para reforçar a tensão, takes das costas dos personagens se fazem insistentemente presentes para relembrar aquilo que nunca esquecemos: Voldemort está atrás de vocês, ele vigia, se prepara, toma força; o confronto final se aproxima. A belíssima fotografia é assinada por Eduardo Serra, indicado ao Oscar pelo trabalho em Moça com brinco de pérola. Outro ponto de destaque é a linda animação que ilustra o conto sobre as Relíquias da morte, coordenada por Ben Hibon.

     

    Harry Potter e as relíquias da morte é uma boa recompensa de tensão e emoção para aqueles que cresceram com a série. Um prato de entrada bastante respeitável — são 2h30! — para o fechamento da maior franquia cinematográfica contemporânea. Trata-se de um ótimo episódio, de fato um dos melhores da série, que abre o apetite para o confronto final entre Harry e Voldemort. Arrancada à força a etiqueta de filme infantil, Relíquias da morte anuncia uma sombria, sanguinolenta e satisfatória sessão final para a fantasia.

     

    POR: [Marcella Huche]

  • Fraco

    A vida durante a guerra

    | Todd Solondz

    Todd Solondz continua o mesmo. Não é preciso nenhum adjetivo. Quem conhece o diretor sabe que ele dispensa algumas palavrinhas mágicas, tal como "ácido", "esquisito" ou, para os céticos sobre sua honestidade, "alucinado". Isso porque sua fórmula é bem desmascarável: te culpar por rir. Simples assim. Dos trejeitos de seus insólitos personagens à anti-ética presente nas falas e atitudes de gente nada normal.

     

    A vida durante a guerra pode parecer, mas não é uma crônica ou um retrato de uma família norte-americana contemporânea. É preciso esquecer os comodismos de definição e partir para algo mais próximo do modo Todd Solondz de ver o outro. É que a realidade é uma parca insígnia para o seu fechado universo carregado de pessimismo e ainda em maior proporção, de cinismo.

     

    Seu poder manipulatório é explícito e a razão final é até perdoável: interagir com o que há de pior no espectador, a culpa. Se, por hora, é possível pensar ser um filme que conta a história de famílias com seus problemas de temas baqueantes – suicídio, pedofilia, terrorismo –, no fim, também é permitido reconhecer que Solondz apenas mantém essa carta escondida na manga para lançá-la como trunfo final.

     

    É saudável se perguntar por quê. Lançando mão de um universo amoral, Solondz concentra a história no mundinho fechado de cada um de seus personagens. Não é possível enxergar nenhuma crítica histórica contundente com tipos previsíveis: uma criança hipocondríaca que precisa de remédios para dormir; um nerd; uma senhora que só quer sexo; uma mãe de família que namora um cara mais velho, gordo e baixinho e conversa abertamente com o filho sobre excitação sexual; uma jovem esquizóide. E, sim, o diretor de Bem-vindo à casa de bonecas ainda aposta numa comédia das aparências.

     

    Aqui, Solondz ressuscita personagens e até mesmo cenas de Felicidade, mas com um elenco menor do que o do filme de 98. Bill (Ciarán Hinds), preso por cometer crimes de pedofilia, é solto e quer retomar o contato com a família. Mas só a primeira tentativa de reaproximação é um desastre.

     

    O conflito no relacionamento também é um problema para a esquisitinha Joy (Shirley Henderson). A mocinha com uma auréola virginal conversa com fantasmas de ex-namorados, que a atormentam e solidificam mais um trauma em sua vida — mais um assombro do passado presente no longa.

     

    É só para o fim que o título vai ficando mais claro. Solondz faz ecoar um clima moralmente belicista com diálogos que põem em voga o tema do perdão. Para ele, é impossível perdoar enquanto o crime ainda causa dor. Por uma espécie de ética invertida, Solondz discursa em nome do sentimento norte-americano pós 11 de setembro com um aforismo perverso: "Só otários perdoam". Mas como se quisesse se redimir, logo se adianta em uma fala controversa: "Perdoar e esquecer são como liberdade e democracia".

     

    Todd Solondz continua o mesmo cínico de sempre.

     

     

    Foto: Divulgação

    POR: [Monike Mar]

  • Regular

    A rede social

    | David Fincher

    Em 2003, o gênio precoce Mark Zuckerberg pensou em levar a experiência social da universidade para o ambiente online. Para construir sua rede social, então chamada de TheFacebook, o rapaz passou por cima de algumas regras, supostamente roubou algumas ideias e esfaqueou algumas pessoas nas costas. Em algum momento, essa história pareceu fascinante para ser contada em Hollywood. O resultado é um filme desigual, A rede social, com roteiro meio mambembe, que começa bem e, lá pela metade, perde totalmente o gás.

    Quem vê o trailer de A rede social, dirigido por David Fincher, espera uma radiografia da geração que amalgamou 5 mil semi-desconhecidos pelos rincões da internet, chamou de amigos e os colocou para dentro de seu perfil em redes como Facebook e Orkut (que, curiosamente, foi ao ar menos de 15 dias antes do Facebook). Ao som de uma versão mais lenta e melancólica de Creep, do Radiohead, o filme se vende como um drama interno, que parte da inabilidade social de Zuckerberg para o mundo. Não é isso que se desenrola na trama.

    A agenda do filme é claríssima, pegando carona no livro Bilionários por acaso, escrito por Ben Mezrich e que tem em uma das principais fontes o brasileiro supostamente traído por Zuckerberg, Eduardo Saverin. O filme quer passar, por vezes mais, por vezes menos, que Zuckerman é um monstro e que Saverin é um santo. E o maniqueísmo vai do sutil ao ridículo nas longas e arrastadas duas horas de duração do filme.

    Para começo de conversa, a interpretação de Jesse Eisenberg com Zuckerberg é, à primeira vista, sensacional. A primeira cena do filme coloca o rapaz conversando com sua namorada, Erica Albright, em um bar em Harvard. Mark mostra não ter nenhuma aptidão social e encavala três assuntos na ordem que acha conveniente. Também demonstra sua arrogância ao desmerecer a faculdade que Erica cursa e imaturidade ao xingá-la, posteriormente, em seu LiveJournal. A performance cai um pouco por terra quando você vê entrevistas de Eisenberg e Zuckerberg. O ator acabou emprestando muito de si, com um delivery extremamente veloz, à inteligência arrogante e inapropriada de Zuckerberg, o que criou um personagem novo, ainda que fascinante.

    Garfield brilha menos como Saverin, em uma interpretação que carece de direcionamento, especialmente com um desenvolvimento tão fraco de personagem. Eternamente o coitado, Saverin sai, para os espectadores mais desatentos, como um grande coitado e o defensor de tudo o que é bom e puro, mas nada exclui o fato de que o rapaz levava 30% do faturamento do Facebook na cadeira de CFO e, durante o filme, não trouxe um centavo em verbas, não desenvolveu uma linha de programação, apenas emprestou US$ 19 mil, que, a bem da verdade, foram fundamentais nos primórdios da rede social.

    Justin Timberlake surge como um dos personagens mais equivocados do filme, o bon vivant e empresário falido Sean Parker, que acaba de perder sua criação, o Napster, em sucessivas batalhas jurídicas com a indústria fonográfica. Não há nada de errado com a performance de Timberlake, mas sim com o papel claríssimo de seu personagem no roteiro. Mais do que um elemento orgânico do filme, Parker surge como um deus ex machina que libera o cretino adormecido em Zuckerberg e entra em uma posição polarizadora com Saverin. De um lado, o amigo bondoso e justo passado para trás, do outro, o gênio descolado, inconsequente e malvado. Quando é possível ver as maquinações do roteiro, o filme desaba.

    É dificil acreditar que Saverin e Parker tenham sido pessoas tão bidimensionais em suas vidas ao lado de Zuckerberg, mas se foram, não deveriam aparecer em um filme. Nem tudo é interessante. É por isso que não fazem um filme adaptando sua jornada hercúlea para comprar pão de manhã, estrelando Brad Pitt e grande elenco. Nem tudo funciona na tela.

    O filme se sustenta em uma série de depoimentos que Mark deu em dois processos: o primeiro, contra Saverin, e o outro contra dois irmãos gêmeos que alegam terem inventado a ideia do Facebook, supostamente roubada por Zuckerberg. Este arco, aliás, se arrasta em uma das piores – se não a pior – cenas do filme, que mostra uma competição de remo protagonizada pelos gêmeos, com acordes triunfantes e câmera lenta. Quando acaba a ação, o espectador percebe que não se importa. É o inverso da catarse. É a burocracia visual. É zapear entre os canais e parar para assistir alguém vendendo um tapete persa às 5 da manhã.

    A primeira metade do filme é interessante e claramente superior à segunda. Neste segmento, é possível vislumbrar a relação de Mark com o mundo e com Eduardo, especialmente. Também sai daqui a melhor interpretação de Eisenberg, antes de virar um fantoche pálido ao lado do Parker de Timberlake.

    A rede social sucumbiu diante do hype. Não é a obra prima vendida pelo trailer, não é um mergulho nessa geração, que não sabe por que chora de solidão com 20 janelas do MSN abertas. Em vez disso, uma narrativa quase maniqueísta, que endeusa Saverin, demoniza Parker e aliena Zuckerberg. Quando a assistente do advogado dispara, ao fim do filme, a frase de efeito: “Você não é um babaca, Mark. Apenas se esforça muito para ser um”, uma parcela do público vai suspirar, admirando a profundidade da fala. Outra parcela, talvez bem menor, vai questionar que isso não faz sentido com o que se desenrolou nas últimas duas horas. Mark, em A rede social, é um babaca porque o roteiro quis assim. E isso não devia ser tão transparente.

    POR: [Gerhard Brêda]

  • Bom

    Minhas mães e meu pai

    | Lisa Chodolenko

    Que situação, hein? Minhas mães e meu pai se chama, no título original, The kids are all right, nome pouco diferente daquela música do The Who (no caso, com um “alright”). Mas está mais para o The kids aren t alright, lado-B punk do Offspring. E mostra que até mesmo dentro de universos que combatem a discriminação e a opressão pode haver preconceito. Ou demônios escondidos.

    Dirigido por Lisa Chodolenko (responsável por episódios de séries como The L world), o filme parte de um argumento sui generis – duas lésbicas, Nic (Anette Benning) e Jules (Julianne Moore), que têm um casamento duradouro e dois filhos, Joni (Mia Wasikowska) e Laser (Josh Hutcherson), concebidos por inseminação artificial. Laser, adolescente, só quer saber de fazer esportes e andar para lá e para cá com um amigo meio inconsequente – e, por conta disso, suas duas mães se preocupam, achando que ele se tornou gay. Joni, que prepara suas coisas para ir para a universidade, deseja saber, afinal de contas, quem foi seu “pai” - ou seja, o doador de esperma que gerou os dois irmãos. Acaba descobrindo tudo por intermédio de um telefonema à clínica médica onde foi realizada a doação, e chega a Paul (Mark Ruffalo), um dono de restaurante, que trabalha com comida orgânica, e que acaba se tornando amigo de Jules, Joni e Laser. E não de Nic, que não o aceita de jeito algum.

    Os problemas começam a surgir a partir daí, e culminam num relacionamento entre Jules e Paul. Ocorrem mudanças em vários status – Joni passa a contestar mais as mães, Laser se decepciona com seu melhor amigo. Apesar de a família formada por Nic e Jules, aparentemente, ser algo fora do normal, Minhas mães e meu pai retrata que até mesmo num caso desses, podem haver aquelas regras e valores imutáveis de uma casa comum – afinal, antes mesmo de Paul  surgir na história, já havia até um “pai” severo (Nic) e uma “mãe” oprimida (Jules) ali. A nada disfarçada hipocrisia da situação chega ao ápice quando, ao aceitar jantar na casa de Paul, Nic resolve mexer em sua coleção de discos e descobre álbuns de David Bowie e Joni Mitchell – e por causa disso, acaba por insinuar, na mesa do jantar, que ele pode ser homossexual. O indisfarçável orgulho do casal por Joni e seu sucesso como estudante acaba mostrando que, mesmo numa família incomum, há preocupações que partem do comum e chegam ao conservadorismo.

    O tema não é tratado com didatismo nem com uma linguagem que só interessa a gays, lésbicas e simpatizantes – piadas até bastante politicamente incorretas aparecem vez por outra. Minhas mães e meu pai trata de um tema atual, rico em conteúdo (visto mais de uma vez, permite várias leituras) e sério. Mas, por mais incrível que possa parecer, é uma comédia da vida real, e das boas.

    POR: [Ricardo Schott]

  • Fraco

    Muita calma nessa hora

    | Felipe Joffily

    O canal Viva, da Globo, passa uma série de reprises de programas de humor que já fizeram muita gente dar risada – entre eles, a clássica Escolinha do Professor Raimundo, capitaneada por Chico Anysio, em seu período dos anos 90, e outros programas de humor mais “adulto”, como Garotas do programa, Chico Total (outro do veterano humorista) e Comédia da vida privada. E igualmente passa episódios de antigas fases da mininovela Malhação. Junte tudo isso, bata no liquidificador e, ao comparar com este Muita calma nessa hora – filme que tem um monte de humoristas fazendo praticamente nada no elenco – perceba que o longa roteirizado por Bruno Mazzeo, João Avelino e Rosana Ferrão não chega nem a 10% da graça das antigas investidas globais no humor. Pior: peca por investir num humor (quando é o caso) ultrapassado e com pouco apelo.

    O maior atrativo do longa é o belo trio de protagonistas. Andréia Horta, Gianne Albertoni e Fernanda Souza interpretam Tita, Mari e Aninha, três amigas infelizes no amor que vão a Búzios se divertir e cair na pegação. Cenas de praia, com as atrizes principais de biquíni, aparecem a rodo no filme. E ainda tem Debora Lamm, carismática e excelente como sempre (basta ver séries como Cilada), fazendo a hippie Estrella, com quem as três fazem amizade – e que vai a Búzios em busca do pai, sumido. Vão para a personagem dela algumas das boas gags do roteiro, incluindo trechos de músicas (Faroeste caboclo, da Legião Urbana, aparece lá pelas tantas). E ela é responsável pelas melhores atuações. Infelizmente, não é a regra no filme.

    A direção bacana de Felipe Joffily (Ódique?)  ajuda um pouco a fazer engolir um roteiro que, em sua maior parte, é cheio de buracos e cria poucas situações engraçadas. E, incrível, isso mesmo lançando mão de  nomes como Sergio Mallandro, Leandro Hassum, Nelson Freitas, Maria Clara Gueiros e muitos outros. Só Lucio Mauro Filho, interpretando um engraçadíssimo fã de axé music, não parece subaproveitado. Muita calma nessa hora perde a chance de cair num humor rasgado e muito bem feito – coisa que o Pânico faz todo fim de semana e que até os (criticados, diga-se) dois filmes do Casseta & Planeta fizeram melhor – e parte para uma tentativa de sitcom com tema batido e personagens rasos, com um fio condutor que se perdeu lá pelos anos 90. Até a Malhação em épocas recentes era mais profunda e mais bacanuda que isso.

    POR: [Ricardo Schott]

  • Fraco

    Jogos mortais - O final

    | Kevin Greutert

    George Lucas aprendeu – ou, pelo menos, seus fãs aprenderam – que sustentar seis filmes em um mesmo universo não é fácil. A primeira trilogia de Star wars é clássica e a segunda mina quase todos os bons elementos. A franquia Jogos mortais chega no sétimo episódio já rançosa, pútrida. O torture porn que ajudou a criar, ao lado de O albergue, já parece ridículo e a trama rocambolesca já deixou de ser interessante há muito.

    Mais uma vez, pessoas acordam presas em alguma forma elaborada de armadilha, que de alguma forma reflete o que fizeram de errado na vida. Para se salvarem, os capturados precisam enfrentar a dor ou tomar decisões difíceis, como escolher salvar uma pessoa em detrimento de outra. É um formato que parecia fresco nos primeiros filmes, com as pessoas punidas fisicamente por suas pequenas transgressões de caráter, tudo concentrado na magnética figura de John Kramer (Tobin Bell), o serial killer Jigsaw. Em Jogos mortais – O final, Kramer apenas aparece em flashbacks, um coadjuvante em sua própria franquia. Quando Bell surge em cena, brilha, mas não o bastante para resgatar o filme.

    O filme segue a história de Bobby Dagen (Sean Patrick Flanery), um guru de auto ajuda que fez um best-seller, no qual conta uma supostamente verdadeira história de como escapou de uma armadilha de Jigsaw. Dagen é capturado pelo detetive Mark Hoffman (Costas Mandylor), agindo como Jigsaw. A jornada de Dagen é para salvar seu staff (advogada, empresário, assessora de imprensa) e sua esposa, a única da entourage que não sabia que ele tinha mentido a respeito de seu encontro com Jigsaw.

    Paralelamente a isso, a ex-mulher de Kramer, Jill Tuck (Betsy Russell) tenta matar Hoffman, mas ele sobrevive, ainda que com o rosto desfigurado. Tuck então decide procurar a polícia e incriminar Hoffman, que parte em uma caçada para eliminar a única testemunha que pode incriminá-lo.

    As desinteressantes tramas não se encostam muito, o que torna o filme uma jornada com duas narrativas fracas. Cada cena parece desconectada da anterior por alguma razão, como se fosse um programa de esquetes, com brutalidade gratuita em vez de risadas. O ápice disso é o elaborado assassinato de quatro supostos racistas, jamais explorados no filme. No meio do grupo, está Chester Benningham, vocalista do Linkin Park. Se não é uma cena interessante por seus próprios méritos, é curioso ver o cantor sendo torturado.

    Os efeitos especiais são uma piada de mau gosto. O 3D é ausente grande parte do tempo, entrando em ação quando ocasionalmente vísceras voam na direção da tela ou quando algum plano mais aberto exige alguma profundidade de campo. Mesmo assim, não é algo fundamental à narrativa. O sangue é claro demais e as vísceras não parecem realistas. Em um filme que se orgulha de mostrar a violência de perto, esses problemas são inaceitáveis.

    As armadilhas elaboradas por Hoffman são, em sua maioria, expressões megalomaníacas e completamente exageradas. Não há sutileza, virou rococó. Está ridículo. Um vilão de 007, em plena era Moore, olharia para algumas destas ferramentas e diria: “Até eu acho isso exagerado demais”, pouco antes de exigir 1 milhão de libras esterlinas da rainha usando um laser montado na lua.

    O filme é todo capenga, com muitos diálogos duros demais. Sem entregar surpresas ou a reviravolta final, basta dizer que o fim destinado pelos roteiristas à série nega ao espectador a catarse. Então o que resta nessa franquia? A violência farsesca pela violência farsesca? Não dá mais. Já vai tarde.

    POR: [Gerhard Brêda]

  • Regular

    Um parto de viagem

    | Todd Phillips

    Outro Se beber, não case era esperar demais de Todd Phillips, diretor que hoje senta no posto de "um dos melhores comediantes de Hollywood" por, honestamente, muito pouco. Além da comédia mais lucrativa de 2009, assina outros quatro filmes do gênero, estacionados no limite da mesmice: Escola de idiotas, Dias incríveis, Caindo na estrada e o remake de Starsky & Hutch - Justiça em dobro. Seu mais recente trabalho é o road movie másculo Um parto de viagem, sustentado por Robert Downey Jr. e Zach Galifianakis, esses sim, merecidamente, dois dos maiores da comédia contemporânea.

     

    Due date, no original, segue a jornada hercúlea de Peter Highman (Downey Jr.), um sujeito rico, estressado e caretão, que deve voltar a Los Angeles a tempo da cesárea de sua mulher. Seu problema atende pelo nome de Ethan Tremblay (Galifianakis), um gordinho maconheiro e over-simpático, que usa permanente no cabelo e quer ganhar a vida como ator em Hollywood. Atrás de seu andar pomposo pé ante pé, Tremblay deixa um rastro de destruição. A começar por arruinar sua viagem e a do papai to-be, que, sem lenço ou documento ou carteira, é obrigado a engolir o desprezo por Tremblay e aceitar uma carona em seu carro alugado. A bagagem extra na viagem — certamente a "metade" na referência à série Two and a half men — é um bulldog masturbador que atende a ordens pelo nome de Sonny.

     

    Entre o ponto de partida e o de chegada, explicitamente óbvios, Phillips recheia uma série de acontecimentos bizarros, desastres de proporções internacionais e explosões de veículos que deixariam Jason Statham com inveja. A comparação com Antes só do que mal acompanhado, de John Hughes, é imediata, mas aqui o veterano por certo plana milhas acima. É verdade que falta certa densidade na história, mesmo para uma comédia pastelona, mas Phillips consegue entregar honestamente algumas piadas. Do meio dos Estados Unidos para lá é que ficam faltando algumas. O fato é estranhamente compensado por certo envolvimento afetivo com os personagens do filme. Tremblay é tão pé no saco que, em certo momento, Um parto de viagem quase nos perde desde o início. Com o tempo, porém, o cafajeste barbudo consegue conquistar a todos — inclusa aí a plateia.

     

    A principal falha de Um parto de viagem é também seu maior trunfo — o elenco. Downey Jr. e Galifianakis trabalham muito bem, mas sozinhos. Os dois têm ótimo timing e espremem de seus personagens o que é possível, o que compensa, em parte, a total falta de química em cena, sobretudo no final espalhafatosamente feliz. Quando analisados fora da dupla, o personagem de Galafinakis se sustenta melhor, mesmo a comparação sendo com amado e idolatrado, salve, salve, Downey Jr. Tremblay, mais sensível que irritante, no fim das contas, é simplesmente excêntrico na medida perfeita para Galafinakis, que aqui fala (e bem) e mostra que é mais do que uma barba espessa hilariante. No fim, são duas horas divertidas, em certo nível nojentas, mas que valem a viagem.

     

     


    POR: [Marcella Huche]

  • Excelente

    Scott Pilgrim contra o mundo

    | Edar Wright

    A história é simples: um garoto conhece uma garota e se apaixona perdidamente. Sobre esse esqueleto, o canadense Brian Lee O’Malley criou a HQ Scott Pilgrim contra o mundo. Para dar substância à sua obra, O’Malley filtrou toda uma geração de cultura pop em suas páginas, temperando tudo com excelente timing de comédia. Em 2010, Edgar Wright, (infelizmente pouco) conhecido pela série de TV Spaced e pelos filmes Todo mundo quase morto e Chumbo grosso, adaptou a obra de O’Malley e, de certa forma, expandiu a homenagem à geração videogame. Scott Pilgrim contra o mundo é um filme visualmente espetacular, uma verdadeira carta de amor a quem cresceu nos anos 90.



    O filme conta a história de Scott Pilgrim (Michael Cera), um jovem adulto canadense vagabundo, que ocupa suas tardes tocando baixo na banda barulhenta Sex Bob-Omb com o amigo Stephen Stills e a ex-namorada Kim. Tudo muda para Scott quando conhece Ramona Flowers (Mary Elizabeth Winstead), uma estilosa americana que trabalha como entregadora da Amazon canadense. Para ficar com Ramona, Scott precisa enfrentar a temida Liga dos Ex-Namorados do Mal em confrontos épicos mano a mano.



    No começo do filme, Scott está namorando Knives Chau (Ellen Wong), uma colegial chinesa de 17 anos. A reação de outros personagens ao anúncio do namoro é hilariante: todos agem como se Pilgrim fosse a escória da sociedade, um canalha sem coração que usa e descarta as mulheres. Scott Pilgrim é um modelo novo de herói e Michael Cera conseguiu captar perfeitamente esse charme bobalhão, que vacila e falha, geralmente por preguiça e incompetência, não por mau-caratismo.



    Kieran Culkin vale uma menção honrosa no papel de Wallace, o colega de quarto gay de Scott. Sempre sarcástico e levemente lascivo, Wallace é um dos retratos menos estereotipado e mais sensível de um homem gay médio: sem afetações exageradas, levando uma performance construída em nuances.



    Se você leu a HQ, sabe o que esperar: Wright conseguiu equilibrar fidelidade visual com saídas rápidas de roteiro, algo similar ao que Zack Snyder fez em Watchmen. É possível discernir várias piadas tiradas diretamente das HQs – algumas intervenções estéticas até usam os traços de O’Malley. Wright, por outro lado, complementou a obra com referências inéditas, algumas impossíveis de serem traduzidas para o formato de quadrinhos. O trecho que simula um episódio de Seinfeld é uma das gags mais engraçadas do cinema recente, uma piada legitimamente americana com timing notavelmente britânico.



    As homenagens mais evidentes de Scott Pilgrim contra ao mundo são ao mundo dos videogames. Wright chegou a comentar em entrevistas que Shigeru Miyamoto, lendário criador de The legend of Zelda e Mario, viu alguns trechos do filme para aprovar músicas de Zelda. E aprovou. Alguns temas clássicos em gloriosos 8 ou 16 bits surgem nas caixas de som ocasionalmente, pontuando a ação, cheia de referências a games de luta. O visual do filme é único, com intervenções gráficas de onomatopeias, barras de vida, pontuações e boxes informativos. Parece confuso, mas a equipe do filme segurou tudo com clareza.



    A música é outro elemento fundamental de Scott Pilgrim contra o mundo. Uma referência clara é o Smashing Pumpkins (Scott usa a famosa camisa “ZERO”, de Billy Corgan e um dos atos do filme se chama Infinite sadness, referência clara ao disco Mellon Collie & Infinite Sadness), mas a trilha original para o filme é fantástica, composta por Nigel Godrich, produtor famoso por trabalhar com o Radiohead. Além da Sex Bob-Omb, na qual Scott toca baixo, outras bandas aparecem pelo filme, como Crash and the Boys e The Clash at Demonhead, cada uma com estilos próprios de composição. A batalha de Stephen Stills pelo sucesso da Sex Bob-Omb é o momento mais inspirador para aprendizes de rockstar desde a famosa cena com Tiny dancer no ônibus de turnê em Quase famosos.



    O público americano não entendeu Scott Pilgrim contra o mundo. Os homens acharam que era um romance de mulherzinha e as mulheres acharam que era um filme bobo de ação para homens-meninos e, por isso, o filme afundou nas bilheterias, destinado a virar cult, e chega no Brasil somente nos cinemas de São Paulo, depois de uma rápida temporada no Festival do Rio. Se você cresceu nos anos 90, seja com um joystick na mão ou não, assista ao filme. É o melhor retrato já feito sobre essa geração que abraçou a cultura pop como mantra, rock alternativo como música erudita e os videogames como esporte.

     

     


    POR: [Gerhard Brêda]

  • Regular

    Atração perigosa

    | Ben Affleck

    O título brasileiro do novo filme dirigido e protagonizado por Ben Affleck é difícil de engolir, até porque não se sustenta na tela. The town (A cidade), no original, descreve muito melhor o longa, que, tal qual um Sin city da vida, é muito mais sobre o cenário que sobre os personagens.



    Na trama, Affleck interpreta, de forma confiante - mas a anos luz da qualidade inquietante de seu irmão, Casey - Doug McRay, um descendente de irlandeses que mora em Boston e lidera uma gangue especializada em assaltos a bancos e carros fortes. Na gangue também está seu amigo de infância, James "Jem" Coughlin (Jeremy Renner, em sua habitual boa interpretação) e outros garotos do bairro. Depois de um assalto a banco que quase deu errado, obrigando os criminosos a levarem uma refém por algum tempo, a gerente Claire Keesey (Rebecca Hall, com um excelente visual inocente para o papel, com uma beleza não óbvia), os criminosos ficam cada vez mais na mira da polícia, o que acaba se agravando quando Doug engata um romance com Claire, que não sabe que ele era um dos assaltantes.



    O caso de síndrome de Estocolmo reverso que acontece no roteiro não é ruim, mas não é o foco do filme. Affleck filma os personagens, mas sempre deixa ao fundo o bairro de Charlestown, em Boston, sempre passeando, quando pode, pelo lugar. Os personagens têm seus dramas e é tudo adequado, mas o foco é a relação de aprisionamento que todos têm com a cidade, que produz criminosos geração após geração e tem até uma omertà (lei do silêncio) implícita. Quando McRay tenta sair, não faltam pessoas o ameaçando: toda vez que você tenta sair, eles te puxam de volta, já diria, de forma mais eloquente, Al Pacino como Michael Corleone.



    Enquanto o romance de Doug e Claire se desenvolve sem muitos percalços ou destaques, o filme apresenta algumas inconsistências gritantes. Os planos para os assaltos geralmente são fiascos, como uma versão descerebrada de Onze homens e um segredo e, mesmo quando a polícia deixa claro que está bufando nos cangotes de McRay e sua trupe, eles ignoram os rapazes de azul e marcham para mais crimes, cada vez mais ousados. Parece uma imprudência burra de um grupo que, como o filme deixa claro, é extremamente eficiente no que faz. 



    As cenas de ação de Atração perigosa são muito bem pensadas e filmadas. Affleck parece saber em qual ângulo dos becos colocar a câmera para passar uma sensação de urgência, mas não confusão, durante as perseguições. As armas têm impacto e berram furiosas ao terem os gatilhos apertados. O tiroteio final é simplesmente brilhante. Tudo parece bastante com o game Grand theft auto IV e, por vezes, falta o joystick na mão.



    Com personagens razoáveis, mas trama previsível, Atração perigosa passa longe de ser brilhante. Em seus melhores momentos, é impressionante, tem boas performances e faz pensar. Em seus piores, mostra uma galeria de personagens desinteressantes vagando por uma cidade que parece moldá-los em um exército de mafiosos sem o glamour dos carcamanos, a eficiência dos russos ou a disciplina dos japoneses. Pelo contrário, são apenas uns moleques irlandeses em um bairro imundo de Boston. O curioso é que isso ilustra tanto os pontos mais altos quanto os mais baixos do filme.

     


    POR: [Gerhard Brêda]

  • Muito Ruim

    Federal

    | Erik de Castro

    Pare tudo o que você está fazendo e vá assistir Federal. O filme é um dos mais relevantes para a compreensão do cinema nacional a ser lançado em 2010. Agindo como uma espécie de anti-manual de instruções, Federal bate em todas as teclas erradas e fracassa em todos os níveis possíveis, em uma experiência sofrível que mostra seus erros como insígnias.



    A história segue um destacamento misto da polícia (incluindo civil, militar e federal) em Brasília, fechando o cerco no traficante Beque, interpretado de forma ridícula pelo desconhecido Eduardo Dussek. Do lado da polícia, estão o delegado Vital (Carlos Alberto Riccelli), Lua (Cesário Augusto), Rocha (Christovam Neto) e Dani (papel de um anêmico Selton Mello). O filme até toca em alguns pontos como a truculência policial, a conciliação da família com o trabalho e as questões morais na aplicação da tortura. É um clone genérico de Tropa de elite que chegou atrasado para a festa. Roteiro de fanfarrão, não de caveira.



    As performances são péssimas, no geral.  Selton Mello até tenta segurar o fiapo de coerência de Dani, mas tudo implode em farsa com as atitudes incoerentes do personagem, que vai em uma festinha da alta roda em um dia, lamenta a violência no outro e, em um terceiro, incorpora o Rambo e não pensa duas vezes antes de largar o aço. Rocha consegue até arrancar uma gargalhada ou outra – a maior parte delas não intencionais – com a performance pífia de Neto. Lua desenvolve uma subtrama com a esposa e o fantasma do alcoolismo, mas o filme faz o favor de não mergulhar nisso. Parece que sabe que seria constrangedor. Vital deveria ser o norte de sabedoria na produção, mas tem menos carisma que uma pêra. Riccelli pode parecer um Marlon Brando modificado, mas sua atuação está quilômetros abaixo do eterno Don Corleone.



    Sobra até para Michael Madsen, que já trabalhou com Tarantino em dois filmes – sendo um deles no papel do emblemático Mr. Blonde, em Cães de aluguel. Aqui, interpreta um agente corrupto do departamento de narcóticos americano que vem investigar, por alguma razão completamente forçada, o tráfico brasiliense. A performance de Madsen é um show à parte, com cada fala vociferada com um tom surreal quase pastelão.  Beque, o outro vilão do longa, em determinado momento, dispara um monólogo dramático que arrancou gargalhadas da plateia. É muito amadorismo.



    Amadorismo, aliás, é a palavra chave em todos os aspectos de Federal. A cinematografia é péssima, com cortes entre plano e contra plano tirados da mais safada novela das seis, e a fotografia é sem vida. Até a sonoplastia é irritante, com socos que registram pouco impacto sonoro, gerando na tela um efeito que, ainda que seja realista, é constrangedor.



    O roteiro tem suas principais ideias roubadas de Tropa de elite – a sequência final é uma cópia quase quadro a quadro, mas em vez da catarse causada pela metamorfose de Mathias, temos dois personagens sem carisma se degladiando na tela. Mesmo assim, o roteiro tenta ser, muito mal, duas coisas completamente diferentes: por um lado, se aprofunda de forma torta no drama humano e pessoal e, por outro, falha em dar uma noção de que a operação de Beque é grande e ameaçadora. A única apreensão feita é em um velhote que tem alguns papelotes em seu boteco, mas os personagens parecem tratar aquilo como se fosse uma manancial de drogas. Com um bom advogado, o matusalém escapa como usuário.



    Federal é um passo errado para o cinema brasileiro. Mas não é um discreto passo torto. O filme do semi desconhecido Erik de Castro sai dos trilhos com estilo, errando tudo com honras, ainda que dúbias. É difícil dizer se é mais triste a existência, a nível artístico, de um filme barato, derivativo, sem graça e mal ajambrado como este ou o fato do longa ter sido feito usando, em alguma medida, patrocínio da Ancine.

     

     


    POR: [Gerhard Brêda]

  • MuitoRuim

    Garfield 3D

    | Mark A.Z. Dippé

    Papais e mamães, preparem-se para uma tortura infantil cinematográfica. Visivelmente direcionado para os pequeninos (bem pequeninos, digamos assim), Garfield 3D, talvez, não seja um atrativo nem para o seu público-alvo. A única esperança de Jim Davis, roteirista e criador dos quadrinhos do personagem, é que essas crianças não devem conhecer bem o gato gordo e preguiçoso, que não dispensa uma lasanha e que continua sendo uma das criaturas animadas mais adoradas por gerações passadas. É de se questionar o estado emocional de Davis no momento em que pensou em desconstruir a sua criação carismática, transformando-a numa animação sem graça, monótona e completamente desnecessária.

     

    Garfield tem uma vida pacata e tranquila ao lado de seus companheiros e de seu carinhoso e atrapalhado dono, John, e nem desconfia que, enquanto segue devorando cachorros-quentes durante todo o dia, há um universo alternativo dos quadrinhos (das revistas que seus amigos felinos gostam de ler) correndo perigo. Tudo porque esse outro “mundo” é atacado pela vilã de outra galáxia (sim, é por aí o nível), que rouba uma arma capaz de transformar as pessoas em zumbis. Então, os super-heróis dos quadrinhos (as versões evoluídas e “marombadas” de Garfield e seus amigos) precisam recuperar o objeto, e contam, claro, com a ajuda do gato e sua turma para salvar os dois mundos. Por aí já dá para ver o que não se pode esperar da – será que podemos chamar assim? – trama.

     

    Com um roteiro confuso e aleatório, Garfield 3D é a “ovelha negra” das animações, em tempos em que o público teve o deleite de assistir a obras-primas como Up – Altas aventuras e Toy story 3. Chega a ser uma afronta, até mesmo para as crianças menores, a forma como a história é arrastada exaustivamente até o último clichê, através de personagens que pouco funcionam para criar uma identificação com o público, incluindo – e, principalmente – o próprio Garfield. Chega a impressionar a forma como Davis desvirtuou o seu personagem tão querido. Sabe aquele Garfield sarcástico, debochado, preguiçoso e adorado? Pois em Garfield 3D ele parece não existir, e o que se leva da produção é o retrato de uma tentativa frustrada e lastimável de atualizar um personagem que não precisa ser complementado ou modernizado para agradar.

     

    Nem mesmo o fato de a animação ter apenas 78 minutos pode ser comemorado, já que a história apresenta um desenvolvimento tão desconexo e arrastado que nos dá a impressão de termos passado longas e maçantes horas dentro do cinema. Vale até a brincadeira entre os pais para ver quem dorme primeiro. E nem se preocupem em gastar dinheiro pelo 3D. Tirando uma ou duas sequências, esses efeitos são inexistentes. É uma pena que o próprio responsável não foi capaz de criar algo atrativo de sua obra original, mas o resultado de Garfield 3D é bem decepcionante. Para todos os gostos, públicos e faixas etárias. Tanto que, nos Estados Unidos, a animação foi lançada apenas em DVD.  Que Davis se retrate com as crianças e, também, com os adultos. Ah, sim. E com Garfield. De preferência com lasanhas, não com filmes.

     

     

    Foto: Divulgação

    POR: [Juliana d'Arêde]

  • Fraco

    A suprema felicidade

    | Arnaldo Jabor

    O hiato cinematográfico que abateu Arnaldo Jabor não lhe fez bem. Vinte e cinco anos é tempo demais em qualquer cinema, sobretudo no brasileiro, entre reveses econômicos e ascensão obstinada nas últimas décadas. Nesse sentido, A suprema felicidade nasce anacrônico. Não só porque olha para o passado do Rio com lentes embaçadas por uma nostalgia rançosa, mas porque embaralha no mesmo saco referências da pornochanchada, do Cinema Novo e de musicais baratos para entregar um discurso pronto, fechado em si mesmo.

     

    O longa percorre a vida do menino Paulinho (Jayme Matarazzo), mas faz questão de dar pitacos nas dores da mãe (Mariana Lima), nos devaneios do avô (Marco Nanini), nos sonhos de menino do pai (Dan Stulbach), na pureza das putas, nas fofocas do pipoqueiro (João Miguel), nos dilemas do amigo gay. Se esse amplo arco ressoa como Amacord, de Federico Fellini, como o próprio Jabor, com a pretensão de sempre, afirmou na abertura do Festival do Rio, esqueça. Falta ritmo e força no roteiro para compensar, no mínimo, o olhar viciado e saudosista de Jabor, que encerra seu filme em clichês.

     

    Começamos em 1945, fim da Segunda Guerra Mundial — a mãe de Paulinho grita "vivas", estouram fogos, a vizinhança ostenta bandeiras americanas. Suprema felicidade. Logo nos são apresentados os ciúmes do pai e as dores da mãe, que os reclamam na frente do filho pequeno, além de todo o imaginário do garoto — uma colagem entre a pornografia pueril e a penitência debochada dos padres do colégio. A tábua de salvação do menino — e do filme — é o avô Noel (Marcos Nanini), que lha dá conselhos sobre a vida. Com uma atuação praticamente irretocável — vale deletar as cenas do trombone ou os sambas malandros na gafieira —, Nanini é a alma do filme, mesmo que caiba a ele também o papel sujo de entregar a ideia colona de que a felicidade mora é na gafieira, nas curvas da mulata, naquela cachacinha, na alegria de bem saber viver a vida.

     

    São muitos os tons a fazer aflorar aqui. Volta e meia um personagem começa a cantarolar mecanicamente, logo desponta num sapateado coreografado, para constrangimento geral. De repente, uma prostitua é esfaqueada num bordel, e sangra pelada na sacada. Se até os créditos subirem o espectador se contorce na cadeira a cada melodia melosa ou neorrealismo fake, alguns outros estranhamentos diluem-se durante o filme. A verdade é que ao começar, A suprema felicidade anuncia um filme bem pior do que é — o que nos traz certo alívio ao final. Com o tempo, criamos afeição por certos tipos repetidos, aceitamos seus defeitos, nos acostumamos à sua personalidade tosca. É o caso do pipoqueiro à Nelson Rodrigues, a repetir trocadalhos como um papagaio; ou do pai ainda deslumbrando com os aviões que pilota, como um menino de 10 anos. Os estereótipos, em duas horas de filme, conseguem se aprofundar um tantinho.

     

    Indo e voltando no tempo, apresentando novos personagens e os largando quando bem entende, a trama segue a jornada de Paulo. Do colégio de padre à bebedeira à beira mar, sobram clichês e diálogos verborrágicos — os personagens, em cena, falam demais, falam mais do que vivem, do que sentem. A intenção parece ser mostrar um Rio com a nostalgia de que o vê pela primeira vez — um estrangeiro, talvez? Mas Jabor faz cinema como um comentarista: arma um discurso afiado para convencer sem contradições; para emocionar pelo óbvio; estruturado em argumentos caducados.

     


    POR: [Marcella Huche]

  • Bom

    Eu matei minha mãe

    | Xavier Dolan

    Hubert Minel é um adolescente insolente, mimado, altamente irritável e respondão. Gay moderninho, só se comunica com a mãe, Chantale (Anne Dorval), através de frases metralhadas aos berros. Dividido entre o ódio e o amor da progenitora, repara mais em suas pequenas falhas, seja na forma despreocupada com que come, seja no seu gosto brega para roupas e decoração. É com contentamento que aponta sua velhice e seus defeitos, da mesma forma com que Chantale se satisfaz em o irritar propositalmente em várias situações. O descompasso infindável entre pais e filhos é batido, no cinema e na vida, mas o roteiro de Eu matei minha mãe, estreia do jovem canadense Xavier Dolan, segura com energia e realismo os desencontros que propõe.

     

    Hubert é vivido com excelência pelo próprio Dolan, o prodígio que escreveu tal roteiro aos 17 anos e aos 20 o dirigiu e colheu seus louros em Cannes. A força do filme está nos diálogos e nas boas atuações, desconcertantes pela forma tão gritante e realista que retrata a imaturidade dos envolvidos. As picuinhas entre pais e filhos — que com certeza marcam, já marcaram ou marcarão sua vida em algum momento — causam identificação imediata. E mesmo que Eu matei minha mãe degringole para situações-limite, mergulhando numa espiral sem fim de manipulações e indução de culpa, é a carga emocional a grande qualidade do filme, muito mais do que qualquer virtude técnica.

     

    É justamente nesse ponto que Dolan extrapola. Tocado sem cuidados apurados com direção de arte, o filme é repleto de tiques nervosos para demarcar o estilo, o território do jovem prodígio diretor. Entram nessa sua manjada câmera-lenta — que, é verdade, funciona bem em alguns momentos, para acalmar a fúria rebelde que se instala pesadamente — e os closes rápidos para descrever o caráter dos personagens (anjinho barroco, flor de plástico) ou demarcar ações (compra no supermercado, faxina, suco). É uma manjada técnica para se afirmar como um cineasta, com estilo próprio e tudo o mais que o título requer, e Cannes adora — e premia.

     

    O estilo forçado que Dolan injeta nas quase 2h de Eu matei minha mãe — que seu segundo filme, Amores imaginários, leva ao extremo — é sinal de imaturidade para alguns, extrema maturidade para outros. Essa questão, aliás, vai sempre cercar um cineasta de 20 anos. E nesse quesito, apesar dos “deslizes” formais, Eu matei minha mãe é uma estreia madura, com roteiro forte, atuações irritantemente realista (o conto é semiautobiográfico, o que ajuda) e forte impacto emocional, que pega pela mão mesmo o espectador mais desavisado — afinal, não há cadáver algum.

     


    POR: [Marcella Huche]

  • Regular

    Homens em fúria

    | John Curran

    Não julgarás é o mandamento imposto por John Curran (Tentação – 2004, e O despertar de uma paixão - 2006,) em Homens em fúria. No thriller de suspense psicológico e, de certa maneira, espiritual, o diretor obriga os espectadores a encarar a dualidade do ser humano da maneira mais perturbadora e seca. Infelizmente, as atuações primorosas dos protagonistas não são suficientes para segurar uma trama introduzida de maneira brilhante, mas perdida no final pela insegurança do cineasta que optou por não explorá-la em suas mais profundas e complexas reflexões.

     

    Não fosse pela quebra de ritmo do roteiro na metade para o fim da trama, o filme poderia ser a redenção de Robert De Niro, no papel de Jack, um agente de condicional prestes a se aposentar e que enfrenta o seu maior desafio pessoal e profissional com o último paciente, Stone, vivido por Edward Norton. Ambos fazem uma das duplas mais brilhantes das telas, com performances simplesmente arrebatadoras. Enquanto o primeiro surge com rompantes daquele bom e “velho” De Niro dos tempos de Poderoso chefão e Homens de honra, Norton prova que é um dos atores mais completos de sua geração, equilibrando a genialidade com a psicose de seu personagem.

     

    A entrada de Stone na vida de Jack é a reviravolta do personagem ranzinza e, aparentemente, indiferente ao mundo em que vive (incluindo a sua própria família). Nas conversas iniciais com o penitenciário, Jack começa a estudá-lo para decidir se antecipa ou não a saída do indivíduo da prisão. É por esse caminho que a trama se desenrola e, até certo momento, consegue hipnotizar quem assiste, por vezes dando alguns socos na boca do estômago ao mostrar como o ser humano é completamente vulnerável a ele mesmo. E, quando as nossas falhas são representadas por um De Niro e um Norton totalmente inspirados, aí é caso de se pensar mesmo em terapia.  O que Jack não esperava, no entanto, era ter que enfrentar não só Stone, como também sua noiva, Lucetta – disparado o melhor trabalho da carreira de Milla Jovovich, que provou, com louvor, saber fazer muito mais do que correr e combater uma população infectada por um vírus mortal. No melhor estilo “bonitinha, mas ordinária”, Jovovich dá vida a uma Lucetta dissimulada e psicótica, que é o trunfo psicológico de Stone para jogar Jack contra ele próprio e sair da cadeia.

     

    A carga dramática e pesada de Homens em fúria é conduzida pela trilha sonora, que funciona de maneira espetacular como o alicerce de Curran. Com zumbidos e sons ambientes, ele orienta os espectadores a detectar o momento de “luz” de cada personagem. Sim, pois é desse jeito que o cineasta resolve jogar com a dicotomia pessoal de seus protagonistas, quase de maneira bíblica. A religião é o centro, o pilar que sustenta as características e o caráter dos personagens, até o momento em que, seja por meio da palavra de Deus ou por atitudes contrárias a ela, eles tomam rumos inesperados. A partir daí, temos os duelos psicológicos e as reflexões sociais, que poderiam conduzir a trama ao seu ápice. O que não ocorre.

     

    Ainda que os valores humanos representados por cidadãos em lados opostos da sociedade seja um tema mais do que batido, a maneira pensada por Curran de projetar novamente a questão nas telas é promissora. As ações de seus personagens são ditadas por passagens da Bíblia, ora como justificativa, ora como uma espécie de penitência. O problema é que o cineasta se acomoda nas idas e vindas dessas reflexões e questionamentos, transformando o roteiro numa trama obtusa e arrastada, que parece duvidar de si mesma para seguir em frente.

     

    Quando esperamos por algo além da exploração da epifania de Stone e da agonia de Jack, Curran limita-se à preguiçosa técnica de “deixe que o espectador tire suas próprias conclusões”. Em pouquíssimos filmes a prática realmente funciona sem deixar o público frustrado pela falta de respostas. É, de fato, uma pena que Homens em fúria seja, por isso, apenas mais um dentre tantos thrillers psicológicos que estudam as diversas e contraditórias nuances introspectivas do ser humano, quando poderia ser o clímax cinematográfico da realidade temida por muitos, a de que estamos todos sujeitos às viradas da vida. Mas fica o aplauso a De Niro, Norton e Jovovich por tentarem.

     

     


    POR: [Juliana d'Arêde]

  • Excelente

    Tropa de elite 2

    | José Padilha

    Toda continuação de um grande sucesso tem três problemas para enfrentar quando chega aos cinemas. O primeiro é superar a expectativa de quem gostou do primeiro, o segundo é crescer como obra cinematográfica e o terceiro é satisfazer o bolso dos investidores pra justificar o aumento no custo de produção. Pois Tropa de elite 2 atingirá 100% de seus objetivos.

     

    Dentre os que gostaram do primeiro filme, existem dois tipos de público. Aquele que gostou mais das cenas de ação e aquele que apreciou muito mais a faca enfiada na ferida na PM. Este segundo filme tem menos ação, mas é por um bem muito maior. Tropa de elite precisaria apontar  a faca mais pra cima e, quando se fala de política, a ação tende a se prender entre quatro paredes. Mesmo assim, essa comparação quase desaparece em cena quando você entra de cabeça na luta dramática do Capitão Nascimento.

     

    Nascimento não passou muito tempo fora do BOPE quando deixou o comando nas mãos do André (Ramiro). A encrenca era muito grande e precisou voltar para enfrentar almofadinhas que lutam pelos direitos humanos. Até que uma operação no presídio de segurança máxima Bangu 1 coloca nosso grande herói dentro da Secretaria de Segurança do Rio de Janeiro. O primeiro caveira entre os engravatados. Quando pensou que estando lá poderia lutar contra o tráfico conhecendo o sistema, percebeu que o tráfico era apenas a ponta do Sistema. E claro, sua vida familiar continuava indo ralo abaixo.

     

    A produção é excelente. Talvez seja o melhor áudio cinematográfico já produzido em terra brasileira. E as metralhadoras cospem fogo. Mantendo a ideologia de explicitação nas cenas de violência para dar maior realidade à sua causa, o diretor José Padilha sabe como comandar um filme de ação como poucos. E nenhum tiro é desperdiçado. O roteiro dá sentido a cada ação que durante todo o filme se encaixa perfeitamente a narração clássica do personagem de Wagner Moura. Cenas de duplo sentido vazam pelo ladrão e o humor aqui é nervoso. Você ri o tempo todo do personagem de André Mattos, uma caricatura de apresentador de programa de denúncia social que, é claro, entra para a política e não deveríamos rir  de palhaços que estão lá para nos representar.

     

    A política. É nesse tema que Tropa de elite 2 supera o primeiro como filme. É na denúncia. Enquanto a ideologia do BOPE é limpar a rua dos traficantes e deixar a PM corrupta sem "clientes", os políticos só querem votos (sim, Tropa de elite 2 é urgente) e a PM sempre arruma uma nova forma de corrupção.

     

    Nunca um filme nacional de "ficção" deflagrou de forma tão explícita o quanto estamos  (eu, você e seus filhos) nas mãos de quem elegemos. E se Tropa de elite 2 está estreando nos cinemas uma semana após as eleições é porque o sistema é poderoso. Deputados são atingidos no peito e até o Ficha Limpa é questionado. Em certo momento do filme, Capitão Nascimento afirma não saber pra quem e por quem mata, e é neste exato momento, há pouco menos de um mês de uma eleição para president, que refletimos: pra quem e por quem votamos? E se no meio de tanto tiro e sangue, um filme nos faz pensar em nossa vida real é porque já valeu sua existência, algo raríssimo em continuações.

     

     

    POR: [Reginaldo Zaglia]

  • Regular

    Comer, Rezar, Amar

    | Ryan Murphy

    Seguindo a fórmula dos best sellers adaptados para o cinema, Comer, rezar e amar, romance de Elizabeth Gilbert, foi adaptado para os cinemas por Ryan Murphy. Uma comédia romântica, com tiradas que até fazem graça, estrelada por Julia Roberts. Os clichês, porém, não param por aí. A protagonista Liz, a própria autora do livro, é uma jornalista bem sucedida, com problemas no casamento. Confusa depois de se divorciar, encontra a solução para resolver sua vida: comer, rezar e amar, necessariamente nesta mesma ordem. Tudo isso, claro, bem longe de Nova York. A “pretty woman” narra sua viagem em busca de autoconhecimento, mergulhada nos estereótipos entre Europa e Ásia.


    Para comer, Liz foi à Italia. Em uma Roma romântica, cheia de restaurantes com mesas espalhadas pelas calçadas, esteve rodeada de pessoas felizes, que falam com as mãos e sabem aproveitar a vida. Lá, aprendeu a falar italiano, fez amigos e se empanturrou de espaguete e pizza, sem medo de ganhar uns quilinhos.


    Para rezar, o lugar escolhido foi a Índia. Na cidade confusa, que mistura a pobreza do povo com a presença de elefantes, a personagem foi buscar Deus em um retiro hare krishna. Por ela, passam um americano arrependido à procura de redenção e uma adolescente indiana prestes a se casar.


    A última parada foi Bali, o lugar paradisíaco onde tinha estado um ano atrás, para se consultar com um xamã. E, é claro, foi lá que encontrou Felipe (Javier Bardem). O amante latino é brasileiro nato, mas tem um sotaque espanhol curioso.


    Das atuações, não há do que reclamar. Veteranos de Hollywood e (bons) atores desconhecidos, cada um com o sotaque de seu país de origem, preenchem o elenco. Julia Roberts é radiante entre os risos, os choros e as bebedeiras de sua personagem. Já o papel de Javier Bardem seria mais justo se fosse um espanhol, enquanto Richard Jenkins (o Richard do Texas) merece atenção em sua passagem pela história.


    O roteiro amarra bem os personagens que cruzam a vida de Liz durante suas viagens e a evolução da própria no desenrolar do filme. Ainda que existam momentos divertidos, trata-se de uma trama rasa, que não justifica os longos 131 minutos de duração. Dificilmente uma trama tão previsível precisaria de tanto tempo para chegar ao final feliz.


     


    POR: [Louise Palma]

  • Regular

    Gente grande

    | Dennis Dugan

    Ser amigo de Adam Sandler compensa muito se você for um ator. Sandler, que já está longe de seus dias de glória como Happy Gilmore (Um maluco no golfe) e Billy Madison (Billy Madison, um herdeiro bobalhão), se aventura em comédias medianas ou familiares, sempre empregando seus amigos da época Saturday night life que não conseguiram a mesma projeção hollywoodiana. Gente grande é mais do mesmo, mas para quem gosta do estilo do ator, é decente.



    E amigos abundam no elenco, que é uma espécie de Os mercenários da comédia americana da década de 90. Ao lado de Sandler, estão David Spade, Rob Schneider, Chris Rock e Kevin James como os protagonistas, cinco amigos que venceram um campeonato de basquete na escola quando crianças e depois acabaram separados pela vida. O reencontro acontece quando o antigo treinador do time, Bobby “Buzzer” Ferdinando, morre. O grupo se reencontra e decide passar um fim de semana em um chalé, onde comemoraram, anos atrás, o campeonato de basquete.



    Para quem assistia o SNL nessa época (ou reprises), o elenco é um prato cheio: Spade, Rock e Sandler eram considerados os bad boys do programa e tinham uma química incrível. Por todos os cantos, participações de ex-integrantes do programa, como Colin Quinn, Tim Meadows, Maya Rudolph e Norm MacDonald. No filme, também um velho parceiro de Sandler, infelizmente meio sumido: Steve Buscemi.



    Sandler interpreta Lenny Feder. Casado com a belíssima Roxanne Chase-Feder (Salma Hayek), é o único que conseguiu sucesso material, fama e fortuna. Desde sempre o líder da equipe, Lenny parece ser uma alegoria para a liderança de Sandler para com esse grupo de atores. O sucesso de Lenny sai pela culatra quando percebe que seus filhos estão mimados ao extremo e sua mulher está se distanciando, mergulhada na carreira de estilista.



    James interpreta o rechonchudo Eric Lamonsoff. Cheio de filhos e atualmente desempregado, Eric decide fingir para os amigos que é sócio de uma empresa de móveis e ostenta um dinheiro que não possui. Spade é o solteirão alcóolatra e meio hippie Marcus Higgins. Escalar o ator, baixinho e visivelmente envelhecido, como um sedutor canalha foi uma escolha bastante cômica e o jeito cafajeste como Spade entrega todas as falas desde o começo de sua carreira encaixa como uma luva no personagem.



    Rob Schneider (famoso por gritar “You can do it!” em diversos filmes de Adam Sandler), assume o papel de Rob Hilliard, um homem fracassado, um vegan metido a monge new age, cheio de pomadas e cremes feitos de ervas, casado com uma anciã e com um histórico de casamentos falidos. Por fim, Chris Rock tenta reproduzir mais uma vez no cinema o sucesso que fazia no SNL e em sua carreira de stand-up comedy, mas acaba como Kurt McKenzie, um homem que assumiu o papel de mulher no relacionamento com Deanne (Maya Rudolph). Atormentado pela sogra, Kurt assiste a programas de culinária e tenta reproduzir as receitas sem sucesso.



    Com todos os personagens quebrados de alguma forma pela vida, Gente grande se estabelece logo de cara como um filme para levantar estes homens retorcidos por seu sucesso ou fracasso e aproximá-los. O problema é que isso nem sempre acontece – basta ver o desenvolvimento nulo do personagem de Spade – e, quando acontece, acaba sendo de uma forma pouco crível – tudo o que acontece com a família de Sandler. Mas o problema maior  é que, para um filme de comédia, Gente grande não é particularmente engraçado.



    Claro, há aqui e ali a comédia física, cortesia de James e Schneider, o sarcasmo vintage – e hilariamente desatualizado – da performance de Spade e uma pequena sombra do humor gerado por conflitos raciais nos poucos momentos nos quais Rock brilha. Mas as situações verdadeiramente engraçadas estão distantes umas das outras.



    Gente grande vale como um catálogo de uma geração de comediantes recente, mas já quase esquecida. Vale também como um testemunho sincero em prol da amizade, tanto no roteiro quanto fora dele. Fica a certeza, para quem sai do cinema, que se Phil Hartman e Chris Farley estivessem vivos, estariam ali, em uma cena ou outra, fazendo uma pontinha.

     


     

    Foto: Divulgação

    POR: [Gerhard Brêda]

  • Regular

    Resident evil: Recomeço

    | Paul WS Anderson

    Se analisado seriamente, Resident evil 4: Recomeço é um dos piores filmes já feitos. O roteiro não faz sentido, as performances são completamente exageradas, e os efeitos especiais são ridículos. Mas o filme brilha de alguma forma, evocando a diversão escapista do melhor – e pior – cinema B aliada a uma carga genuína de nonsense diretamente extraída dos videogames e uma diversão sincera com a tecnologia 3D. Recomeço é tão ruim que chega a ser decente.



    O filme abre com Alice (Milla Jovovich) invadindo a sede da maligna corporação Umbrella, no Japão, ao lado de vários de seus clones. Cada Alice tem poderes telecinéticos, super agilidade, super força e fator de cura avançado. Depois de demolir o prédio, só resta uma Alice, que acaba perdendo os poderes em um confronto com o CEO da empresa, Albert Wesker (Shawn Roberts). A partir daí, Alice vaga pelos EUA buscando a cidade de Arcadia, que transmite mensagens de esperança em frequências de emergência. A busca por Arcadia leva Alice para Los Angeles, onde ela encontra um grupo de sobreviventes escondidos em uma prisão.



    O formato de Resident evil 4 é uma óbvia homenagem a George Romero, papa dos filmes de zumbi, o que é uma das escolhas mais apropriadas do roteiro. Colocar um grupo estereotipado em uma situação de confinamento aonde, pouco a pouco, os zumbis começam a entrar é um formato clássico e funcional. O filme até traz um ator assustadoramente parecido com Tom Savini, que estrelou Madrugada dos mortos, de Romero, em 1978.



    Os personagens são estereótipos e as atuações são completamente exageradas, como em um bom filme B. Shawn Roberts em especial cospe todas as falas com uma palpável qualidade trash como Wesker. O ator desconhece a sutileza, o que se encaixa perfeitamente com a canastrice do material de origem, que jamais foi conhecido pelas atuações marcantes.



    O roteiro é outro que tem mais buracos que um queijo suíço. A pergunta principal é: o que a Umbrella quer, de fato? Não há resposta. Eles são malignos apenas pelo simples prazer de ser. Se analisado fora de contexto, isso é completamente imperdoável, mas é outra coisa tirada diretamente dos games. A Umbrella sempre foi uma incógnita, dado que ela prefere aniquilar a humanidade a perseguir lucros.



    Todas essas falhas deveriam minar o filme, como fizeram em Resident evil 3: Extinção, mas a diferença é que o ritmo de Recomeço é invejável: o espectador sempre está testemunhando ou prestes a testemunhar uma cena de ação que desrespeita as leis da física de formas inimagináveis. As coisas explodem e o slow motion é usado sem vergonha. É uma glorificação do cinema mais descartável e divertido possível.



    Os efeitos 3D são surpreendentes. Tecnicamente, não superam a clareza de Avatar, mas são melhores que qualquer filme que tentou socar mais uma dimensão na pós-produção. O que é possível dizer é que o 3D em Resident evil 4 é mais divertido que em Avatar. O diretor, Paul W.S. Anderson parece reconhecer que a tecnologia está em sua infância e brinca como uma criança com os efeitos. Cada tiroteio mambembe é justificativa para usar livremente o slow-motion, com partículas voando na cara do espectador, coisas entrando e saindo da tela, explosões vazando pelos cantos e tudo o mais. É ridículo, mas é um espetáculo que faz valer o ingresso. O filme não faz sentido em 2D grande parte do tempo.



    Se você for um purista de zumbis, vai ficar ofendido com algumas liberdades poéticas que o filme adotou. Além do já clássico zumbi velocista, que parece ter eliminado seu irmão, o zumbi lento de Hollywood, o filme traz zumbis nadando, uma ideia que não soa bem nem no papel. Recomeço também adota a mandíbula fragmentada para os zumbis, similar aos vampiros de Blade 2. Essa variante de zumbi apareceu em Resident evil 5, game que empresta alguns outros elementos para o filme, como um monstro gigante que carrega um machado e todo o confronto final com Albert Wesker.



    Mas algumas coisas são imperdoáveis, mesmo em um filme trash. A forma como uma sequência foi garantida é ofensiva, apresentando uma nova personagem durante os créditos finais. Foi uma saída barata para os produtores continuarem ordenhando a franquia, que, tal qual seus zumbis, se recusa a morrer.



    Se você espera um desastre em Resident evil 4: Recomeço, pode acabar encontrando um filme trash divertido, completamente ridículo, exagerado e tosco. É o filme mais descartável do ano, mas não quer ser nada mais que isso.

    POR: [Gerhard Brêda]

  • Bom

    Antes que o mundo acabe

    | Ana Luiza Azevedo

    Ao escrever sua primeira crônica sobre o então jovem Pelé, em 1958, Nelson Rodrigues disse custar a crer que alguém possa ter dezessete anos. “Aberrante e inverossímil”, sentenciou o dramaturgo, ao classificar a idade daquele que um dia seria Rei. Tomando emprestado o sofisma, não é difícil adaptar para a temática do cinema brasileiro o significado da frase de Nelson. Salvo raras e esporádicas exceções, o jovem dessa faixa etária enfrentava uma insistente onda de esquecimento que finalmente parece ter estourado na praia.


    Com Os famosos e os duendes da morte e principalmente As melhores coisas do mundo, descortinou-se para nossos cineastas contemporâneos uma paleta de cores juvenis rica em potencialidades e pronta a ser explorada em suas diversas possibilidades. Não que tais filmes sejam representativos de um movimento, nem que tencionem estabelecer um parâmetro de abordagem ou uma posição como força propulsora. São filmes que se norteiam pelo desejo de registrar convulsões internas características de um tempo e contexto. O adolescente e seu universo de dúvidas e inquietações, injustamente marginalizado no cenário audiovisual nacional, ganha mais um representante com Antes que o mundo acabe, primeiro filme da diretora Ana Luiza Azevedo.


    Injustamente porque se trata de um período extremamente experimental e excitante da idade de qualquer pessoa, e basta lembrar de Paranoid Park e Os Incompreendidos para saber que desse gênero já saíram grandes filmes do cinema moderno. E não, não é necessário ser um Truffaut da vida para alcançar tal feito: Sandra Kogut é um exemplo que se adequa a essa colocação com seu Mutum, uma pequena grande obra de qualidades bem aproveitadas dentro desse círculo de filmes.


    Antes que o mundo acabe gira em torno de Daniel, um jovem que vive numa cidade do interior do Rio Grande do Sul e cujas indecisões e turbulências são divididas entre seus amigos e sua família. O roteiro, concebido a oito mãos por Paulo Halm, Ana Luiza Azevedo, Jorge Furtado e Giba Assis Brasil, explora as ambigüidades dos jovens através da ênfase que assegura às situações típicas vividas nessa fase. Daniel se apaixona por uma garota que o troca por seu melhor amigo, a questão da formação ética aparece através de uma história de roubo mal contada, o conflito de gerações com os adultos envolve toda a trama e a chegada de um pai que sempre esteve distante e de repente se anuncia presente servem de fio condutor para o mergulho nas particularidades de um ciclo social de transição.


    Ana Luiza lida de forma bastante satisfatória com as arestas do roteiro e encontra soluções visuais interessantes para retratar o mundo vibrante e colorido dos jovens, e a direção de arte é fundamental em seu objetivo de nos tornar íntimos daquele ambiente de charme convidativo e contagiante. Pena que o roteiro se mostre desinteressado no desassossego interior dos personagens, estando mais preocupado em radiografar as dificuldades de tônica universal pelas quais todo jovem é submetido do que desenvolver uma relação direta de afeto e compreensão com os meninos que aparecem na tela. É como se, lá no fundo, a voz estridente de Nelson Rodrigues ainda encontrasse ressonância e tentasse nos convencer de sua veracidade opaca.


    Muitos passamos por aqueles momentos, sabemos como é dilacerante não ser correspondido no amor aos 16 anos e a pequenez das tragédias gregas diante de um fracasso sentimental. Mas há uma incômoda gota de superficialidade na construção dos jovens, como se apenas o arquétipo bastasse, que acaba por extrair da narrativa a força que um mergulho mais fundo poderia possibilitar. Em compensação, há uma pulsação na forma como Ana Luiza se volta para o olhar subjetivo do jovem Daniel, perdido entre o presente insatisfatório e o futuro indefinido, borrado pelos primeiros contatos com o pai e com a descoberta de novas sensações, que sustentam o interesse na história. Dos erros e acertos vem o amadurecimento, e é só através da experiência - e aqui entram tanto Daniel e o cinema sobre jovens feito no Brasil -, que se alcança o respeito e a integridade. 

    POR: [Samuel Lobo]

  • Fraco

    Solomon Kane - O caçador de demônios

    | Michael J. Bassett

    Quando um filme de ação e fantasia aciona todos os clichês possíveis, você sabe que está diante de um produto descartável e feito para ser consumido junto do balde de pipoca e copo de refrigerante. Solomon Kane: O caçador de demônios não consegue atingir nem essa dúbia classificação: o roteiro é cheio de furos, as performances são risíveis e a trama não tem peso.



    Na trama, o espectador é logo apresentado a Solomon Kane (James Purefoy), um exímio guerreiro que atua como um mercenário/pirata impiedoso e ganancioso. Em uma missão no norte da África, Kane descobre que o Diabo veio coletar sua alma devido a um pacto. Kane não se lembra de ter feito acordo algum com o Tinhoso e, por isso, pretende manter a alma por mais alguns anos. Ele consegue fugir e se refugia em um mosteiro, buscando a redenção. A explicação de tal pacto demoníaco surge lá para o fim da história, mas é uma das piores saídas de roteiro da história do cinema.



    O filme então segue os passos de Kane que busca redenção por seu passado de crimes. Ele conhece a família Crowthorn, que busca começar uma nova vida na América e acaba viajando com eles e se apegando a todos. A família é atacada pelo exército do feiticeiro Malachi, que sequestra a jovem Meredith. Kane parte em uma jornada para resgatá-la.



    Uma história de redenção já é um clichê em si mesma, mas seria mais interessante se Kane fosse um personagem carismático ou cativante em algum nível. James Purefoy mostra que não tem o vigor necessário para segurar um protagonista. Quando a cena pede alguma intensidade, o ator embarca em uma artificialidade cômica, nunca achando o tom certo. Kane, por outro lado, não ajuda: é um personagem arrogante, descuidado e, por vezes, incompetente, mas que nunca é humano e profundo.



    O roteiro é cheio de incongruências, furos e situações implausíveis ou não estabelecidas e ainda traz de brinde uma reviravolta extremamente previsível. Um exemplo constrangedor é quando Kane é atacado por um grupo de bandidos que acham papiros contendo feitiços e magias. No resto do filme, nunca mais é mencionada a ideia de Kane ter algum poder mágico. Todo o aspecto sobrenatural do filme é estabelecido de uma forma desajeitada e confusa e, por isso, a mitologia nunca fica particularmente clara. Não é possível saber o que é absurdo ou não dentro do universo do filme e, por isso, tudo o que acontece parece absurdo.



    O filme falha em ter um senso de urgência. O exército demoníaco de Malachi não é ameaçador. O filme nunca dá o senso de escala que Peter Jackson trouxe em Senhor dos anéis, que mostrava planícies cobertas por orcs. Em Solomon Kane, os vilões parecem um bando mediano, mal armado e mal treinado.



    O departamento de vilões como um todo é ridículo. Jason Flemyng interpreta Malachi, em uma atuação exagerada, mas, mesmo assim, sem brilho. Outro malvadão do filme é o comandante das tropas de Malachi, um híbrido risível de Leatherface (Massacre da serra elétrica) e Darth Vader (Star wars). Nenhum dos dois consegue ser devidamente ameaçador e, com isso, tudo descamba para o ridículo em um piscar de olhos.



    A fotografia de Solomon Kane também é enjoativa, explorando fortemente o marrom e o preto. Com um herói sem graça, vilão ridículo e roteiro sem vida, os tons pouco saturados só servem para arrastar o espectador ainda mais para o tédio.



    Solomon Kane poderia ser um filme decente. Baseada na obra de Robert E. Howard, que também criou Conan, o bárbaro, a trama poderia mostrar uma batalha interessante do bem contra o mal, algum conto de redenção com algum impacto, nem que este durasse apenas até o fim da sessão. As atuações abaixo da crítica minam um roteiro desinteressante e equivocado, enquanto a fotografia morta coroa Solomon Kane, o caçador de demônios, como um dos piores blockbusters do ano, batendo de frente com O último mestre do ar.

    POR: [Gerhard Brêda]

  • Regular

    A ressaca

    | Steve Pink

    A comédia dirigida por Steve Pink (em inglês, Hot tube time machine) recebeu tradução para o português idêntica ao título original de um dos maiores sucessos do cinema de 2009 (The hangover, Se beber, não case) e já começa, portanto, com o pé esquerdo. A escolha peca não somente pela falta de criatividade, mas pelas inevitáveis comparações com o engraçadíssimo longa de Todd Phillips que, de longe, bate o filme deste ano na maioria absoluta dos quesitos.



    A história traz três grandes amigos da juventude que – frustrados, em crise de meia idade e entediados com a própria vida – se encontram muitos anos depois e, após uma noitada de bebedeira, acordam em 1986, transportados no tempo por uma banheira de hidromassagem. Os fracassados tem então uma chance para reviverem o passado e , sobretudo, tentar mudar o futuro: um bom ponto de partida para o longa. A boa premissa, entretanto, rapidamente desmorona nos primeiros minutos do filme, que não consegue convencer com o roteiro fraco.



    A história se desenrola com pouca ousadia e não é difícil prever onde cada cena desemboca. O ápice cômico está em Rob Corddry, muito bem no papel do Lou, um alcólatra descontrolado e festeiro que se empenha em se auto destruir. John Cusack (interpretando o ressentido Adam, deixado pela namorada), Craig Robinson (caricato na pele de Nick, marido fiel) e o jovem Clark Duke (Jacob, seu sobrinho nerd, fã de videogames) estão apenas convincentes em seus papéis, mas não surpreendem.



    Algumas sequências (a maioria delas protagonizadas por Corddry) arrancam gargalhadas, mas no geral o filme não empolga pela comédia e muito menos pela história. Fica nítida, por exemplo, uma certa falta de coragem de se levar algumas ideias ousadas adiante e não é difícil se sentir frustado ao final das cenas. Possivelmente erro de um diretor principiante.



    Apesar de este ser apenas o segundo filme dirigido por Steve Pink (é dele a comédia Aprovados, de 2006), sua parceria com John Cusack é longa. Eles atuaram juntos, por exemplo, nas comédias Garota sinal verde (um dos primeiros filmes de Cusack, de 1985), Matador em conflito (1997) e Os queridinhos da América (2001), tendo roteirizado os dois últimos. Pink também adaptou e coproduziu a adaptação da obra-prima de Nick Hornby, Alta fidelidade (2000), protagonizada por Cusack.

     


    POR: [Philippe Noguchi]

  • Bom

    Não, minha filha, você não irá dançar

    | Christophe Honoré

    Não dá para dizer que a família presente em Não, minha filha, você não irá dançar seja disfuncional. Pelo contrário. Na história escrita e dirigida por Christophe Honoré vemos a protagonista Lena (Chiara Mastroiani) e o papel que ela desempenha dentro de uma família bastante comum e cheia de conflitos mal resolvidos.




    Seguindo um artifício semelhante ao usado por Jonathan Demme em O Casamento de Rachel, assistimos ao reencontro da filha problemática com sua família. Lena acaba de se divorciar e resolve largar o emprego para cuidar dos dois filhos. Na casa dos pais, ela se depara com as novidades na vida dos irmãos e com uma armadilha preparada pela própria mãe, que, do alto de seu direito materno de interferência, faz o que julga mais acertado para que a filha não ponha seu casamento a perder.

     


    Quando Christophe Honoré abre espaço na narrativa para contar uma história paralela sobre uma moça no interior da França que, obrigada pelo pai a escolher um marido, decide se casar com o homem que for capaz de dançar com ela por 12 horas seguidas, é para explicar ao espectador a natureza frágil e ao mesmo tempo desafiadora de Lena. Que, mesmo embaralhada entre as funções de mãe, filha e esposa, luta para não se imobilizar em nenhum desses papéis e assim resguardar  seu direito de escolher o ritmo de sua própria vida.

     


    Parecendo uma Gena Rowlands mais contida, é fácil ligar a atormentada personagem de Chiara Mastroiani à protagonista de Uma mulher sob influência. Tudo bem, Honoré não é Cassavetes, mas esta também não é a questão. As respectivas protagonistas, Mabel e Lena, também não são as mesmas, mas guardam entre si a luta por manterem-se sãs diante de todas as expectativas que os outros alimentam por elas, mas não conseguem suportar a pressão.



    Lidando com as sutilezas de uma mulher que está em busca de seu caminho, não espere do filme um ritmo de aventura. A narrativa segue lenta para se apressar em cortes que suprimem momentos óbvios, poupando o espectador das explicações massacrantes e alguns diálogos podem ser bastante emocionantes se você conseguir se conectar com a história de Lena.

    POR: [Georgiane Euzebio]

  • Fraco

    Nosso lar

    | Wagner de Assis

    O centenário de nascimento do médium Chico Xavier mobilizou estratos da comunidade espírita que reverberaram de forma intensa no cenário cultural brasileiro neste ano de 2010. Foram dezenas de livros publicados, documentários produzidos para a televisão, programas revivendo casos famosos atribuídos ao espiritismo, uma cinebiografia que até a presente data angaria o posto de filme nacional mais visto do ano e agora a adaptação para as telas do livro mais famoso psicografado por Chico Xavier, Nosso lar.



    A massificação da religião no Brasil e a expressividade de sua influência sobre a sociedade são dois dos principais fatores capazes de explicar o sucesso de obras ligadas à fé, já que o nível de qualidade destas é quase sempre muito baixo. O que importa é a mensagem, e não o meio. Basta lembrar que o disco mais vendido na história da música brasileira ainda é o do padre Marcelo Rossi.



    Nosso lar conta a história de André Luiz, um médico que, após morrer, padece durante certo período em uma espécie de purgatório até ser conduzido à comunidade que dá nome ao filme. É um jogo de contrastes brutal, como manda o figurino da ingenuidade infantil. O inferno é sujo, escuro, com zumbis desesperados e animais selvagens; ao passo que o Nosso Lar surge como a ante-sala do céu, recheado de planícies floridas, casas rosas e azuis, pessoas de roupas brancas, clima de eterna primavera e até mesmo laptops conectados com médiuns terrestres! O cenário materializa com ares modernosos as suposições de um plano que sintetiza grande parte dos desejos que acumulamos ao longo da vida. Se hoje somos induzidos a pensar que a tecnologia está ligada à elevação do homem, porque na vida após a morte, como nos sugere o filme, não poderíamos andar em naves voadoras e frequentar hospitais com camas flutuantes?



    Após passar por tormentos no sítio da expiação dos pecados, André tem a oportunidade de se redimir e passar por uma transformação espiritual ao adentrar as portas da nova comunidade. Do contato com uma nova percepção de mundo é que se desenrola a narrativa. André é incitado a rever seus conceitos, a repensar suas noções de humanidade e a equilibrar suas ações buscando sempre contribuir para o bem.



    A despeito das inclinações religiosas de cada um, que não cabem ser questionadas aqui, o que mais incomoda em Nosso lar é o didatismo que beira o amador utilizado para compor a narrativa. Nada é íntegro o suficiente para nos convencer das verdades ali dispostas. A começar pelo mais básico, os atores, que parecem robôs em suas falas mecânicas e desprovidas de emoção, atingindo frontalmente a veracidade dos conflitos cuja composição é intrínseca, alcançando assim níveis constrangedores de superficialidade e não raro debandando para um discurso demagógico, esvaziado de suas qualidades.



    Há um investimento muito pesado no tratamento visual do filme, que emula fitas como O senhor dos anéis (os momentos no purgatório, com montanhas enevoadas e cenários grandiosos) e Amor além da vida, vide a vasta palheta agridoce de cores que preenchem o espaço da comunidade extraterrena.



    O objetivo é  atrair o público jovem aos preceitos doutrinários do espiritismo, e talvez o diretor Wagner de Assis tenha em mente que a associação entre religião e modernidade é um gancho eficiente para a recriação do livro de Chico Xavier e a concomitante propagação dos ideais espíritas a um novo nicho de espectadores. Pode ser que ele esteja certo. Em outro planeta, onde não existisse cultura cinematográfica, talvez estivesse. Por enquanto, o que resta em Nosso lar é um extenso manual de intenções que tropeçam umas nas outras e se concretizam de forma lamentável. E de intenções, bem, todos nós sabemos que logo ali há um lugar quentinho cheio delas.

     

     


    POR: [Samuel Lobo]

  • Fraco

    Par perfeito

    | Robert Luketic

    Se antes o glamour dos filmes de espião, cuja mitologia deve muito ao esquema galante e aventureiro imposto por Sean Connery e seu James Bond, a onda agora é humanizar esses heróis cujo único super-poder costuma ser excesso de charme.



    Aliado a isso, os criadores de comédias românticas parecem ter encontrado uma nova fórmula para desestabilizar casais e assim colocá-los em conflito: basta fazer um agente secreto se apaixonar por uma garota de fora do ramo e metade das confusões do roteiro estarão garantidas.



    Se Sr.e Sra Smith abriu as portas das comédias românticas with lasers & explosões e ainda rendeu de bônus a criação do casal mais pop dos últimos tempos, o verão norte-americano 2010 promoveu o Encontro explosivo entre Tom Cruise e Cameron Diaz, o que equivale a dizer que Ashton Kutcher e Katherine Heigl ainda precisam comer muito blockbuster para bater essa concorrência.



    A história começa dentro de um avião. Nele, Jen vai de férias para a França acompanhada dos pais (interpretados pelos sempre incríveis Tom Selleck e Catherine O’Hara) depois de levar um pé na bunda. Logo na chegada ao hotel é recebida com uma dádiva e dá de cara com o misterioso Spencer Aimes (Ashton Kutcher) em traje de banho. E aqui cabe uma reclamadinha ao diretor que pecou pela falta de malícia ao desperdiçar a oportunidade de transformar esta numa das já clássicas cenas de filmes de espião, em que a entrada de um personagem na trama vem embalada em biquínis e slow motion, artifício tão manjado quanto bacana.



    Aliás, desperdiçar boas oportunidades de fazer rir é uma das coisas mais intrigantes em Par perfeito. Todos os envolvidos parecem conscientes em estar fazendo mais do mesmo e ainda assim ninguém se diverte, muito menos o espectador.



    Interessante se perguntar como Robert Luketic conseguiu tirar Katherine Heigl do que parecia uma trajetória interessante, depois de sua ótima atuação em Ligeiramente grávidos. Desde A verdade nua e crua a atriz vem desperdiçando tempo e beleza nas mãos de um diretor que não sabe como aproveitá-la em cena. E isto não é apenas "privilégio" dela: se Ashton Kutcher não chega a ser um grande ator, pelo menos não costuma decepcionar quando aparece em seu nicho natural, a comédia. Mas desta vez Kutcher assume um ar sério e desconcertante que engessa nele o que há de melhor: a facilidade em fazer humor bobo.



    Sem sal e com menos explosões do que o recomendado, Par perfeito não emplaca nem como comédia, nem como romance e tampouco como aventura, deixando o fiel espectador de comédias românticas na mão. De repente deu até saudades da Meg Ryan.

    POR: [Georgiane Euzebio]

  • Excelente

    5x favela, agora por nós mesmos

    | Coletivo

    Filmes em episódios carregam a sina de estarem eternamente em desnível. Pendendo para um lado ou para outro, é fácil - e infeliz - apontar dedos, defeitos e delícias, super-expostos pela comparação imediata da sequência de exibição. 5x favela, agora por nós mesmos, filme montado a sete cabeças e cinco episódios, absolutamente não leva esse peso. Com alegria notável, os cinco filmetos passeiam pelas vielas cariocas com tal delicadeza que só poderia mesmo provir de um olhar interior.



    A década que abriu com Cidade de Deus - o bisbilhote de Fernando Meirelles sobre uma das principais favelas do Rio - é arrematada agora por 5x favela, agora por nós mesmos, dirigido por jovens crias das tais comunidades. O funk, o tráfico, as pipas, a impunidade, o arroz com feijão - tudo está lá em seu devido lugar, entre becos, barracos e moleques de pé no chão, mas sem os clichês negativos que costumeiramente os acompanham. Esses aqui sabem, realmente, sobre o que estão falando, quem estão representando - eles mesmos. Onde pesa essa responsabilidade, sobra a leveza de culpas e precauções a menos, sobra o bom humor que marca a pobreza brasileira.



    O humor, marcante em quatro dos cinco episódios, é uma opção consciente. Não é o estereestótipo do pobre feliz que rege as tramas, mas a certeza de que, como disse o ator Gregório Duvivier, "a pobreza brasileira é trágica ou cômica, nunca melancólica". O roteiro, criado a partir de oficinas audiovisuais nas favelas, já nasceu com o tom cômico, nunca escrachado, assinalado visualmente - está nos olhares, nos planos, nas incongruências, na desconstrução.



    Cabem aqui algumas linhas sobre cada episódio, embora 5x favela se sustente muito bem como uma unidade (as histórias não se repetem, são complementares), universal (questões como amizade, solidariedade, superação, ambientadas na favela).



    Em Fonte de renda, de Manaíra Carneiro e Wagner Novais, Maicon (Silvio Guindane) se vira como pode para se formar em Direito numa universidade pública - inclusos aí alguns meios pouco legais. O fim é feliz, os diretores o apresentam logo no início. A história é comum, e sobretudo as questões sobre diferenças sociais fluem com naturalidade, sustentadas na ótima atuação de Gregório Duvivier e Guindane. A força de Fonte de renda recai sobre os ombros de Hugo Carvana, no papel de padrinho e referência - embora já gasta - do rapaz.



    Arroz com feijão, de Rodrigo Felha e Cacau Amaral, é o mais bem humorado dos episódios. O humor é fruto de um roteiro firme, desenvolvido na Cufa, que passeia por gêneros e traz um arremate surpreendente. Ancorado no drama de sua família pobre, o pequeno Wesley (Juan Paiva), com a ajuda de seu melhor amigo, Orelha (Pablo Vinicius) , tenta descolar uma carne para o cotidiano feijão com arroz da sua casa, em ocasião do aniversário do pai (Flávio Bauraqui).



    Um respiro mais dramático e sombrio permeia Concerto para violino, de Luciano Vidigal. Único com desfecho implacavelmente trágico, traz a história de três amigos de infância cujas vidas tomaram rumos opostos. O tráfico é encarado de frente, encarnado na truncada e impressionante figura de Feijão, ex-chefe do tráfico de Acari, hoje líder do AfroReggae.



    Em Deixa voar, de Cadu Barcelos, a violência também aparece, mas fica na espreita, sem nunca invadir a ação. A pipa de um amigo cai numa área da favela dominada por uma facção rival e Flávio (Vitor Carvalho) é o único que se atreve a ir buscá-la. Aqui, o tempo cinematográfico é muito bem explorado, levantando a tensão pelas suspensões reflexivas do protagonista. A cada passo leve do garoto, o coração palpita, a tragédia parece iminente.



    O último episódio de 5x favela, agora por nós mesmos é Acende a luz, de Luciana Bezerra, uma das mais experientes do grupo. O humor é mais escrachado, remete às comédias italianas e joga com estereótipos debochados, que beiram o incômodo. É Natal, e parte do morro, justo lá em cima, está sem luz. Um técnico deixa os problemas pessoais no asfalto e se dispõe a subir para resolver o problema que parece insolúvel. A revolta atrapalhada dos moradores opera num crescente, intercalada por momentos de solidariedade luminosa, para voltar a descender numa desorganização felliniana.



    5x favela, agora por nós mesmos passou fora de competição em Cannes e levou sete prêmios no Festival de Paulínia, onde foi exibido pela primeira vez no país. A conexão com o público é imediata. Sobretudo para o carioca, que se vê na tela em vários momentos, de um lado ou de outro dessa "cidade partida", aqui colada aos pedaços mais uma vez.

    POR: [Marcella Huche]

  • Bom

    Karate kid

    | Harald Zwart

    Um garoto fracote oprimido por valentões e sem uma figura paterna encontra um mestre em artes marciais disposto a passar lições, geralmente de uma forma pouco convencional. Em 1984, essa fórmula gerou Karate kid, um dos maiores clássicos de Sessão da Tarde. Em 2010, a fórmula foi reutilizada, com o reboot da franquia. E ainda funciona. Karate kid é um filme leve e divertido que acerta as mesmas notas do original, mesmo trocando o caratê pelo kung-fu.



    No reboot, Dre Parker (Jaden Smith) sai dos Estados Unidos diretamente para a China por causa do trabalho da mãe. Lá, imediatamente se interessa por uma garota, Mei Ying, e se indispõe com os valentões de plantão. Ao tentar defender a menina, Dre leva uma surra, pois os garotos são praticantes de kung-fu. Após uma mal pensada tentativa de vingança, Dre é encurralado e, quando se prepara para ser massacrado, é salvo pelo zelador de seu prédio, Sr. Han (Jackie Chan), que decide treinar o garoto no verdadeiro kung-fu. É possível ver as semelhanças com o original, trocando apenas a arte marcial e os nomes. Os personagens, em geral, são bem similares.



    Smith segura bem as coreografias – o garoto é até assustadoramente musculoso para 12 anos – e consegue convencer nas cenas dramáticas. O mais fascinante é que seu timing cômico, especialmente quando está constrangido, é muito similar ao que seu pai, Will Smith, usa. Chan é a melhor escolha possível para substituir o lendário Pat Morita como o mestre. Mesmo sendo mais trágico e amargo que o mestre Myagi, o Sr. Han de Chan consegue passar docilidade e uma sincera afeição pelo garoto. Chan é, sem dúvidas, o artista marcial mais relevante de sua geração.



    O kung-fu acaba sendo uma boa troca. Ao contrário do caratê, estilo japonês muito mais contido, essa arte chinesa abusa de cambalhotas, golpes estranhos, voadoras e rasteiras. Na tela, o resultado é, por vezes, assustador: é estranho e inquietante ver uma criança de 12 anos levando uma voadora na cara.



    Falta em Karate kid um vilão como foi John Kreese no original. Ele, com sua atitude arrogante e cartunesca, era um rosto odiável, que encaixava perfeitamente com seu dojo de pequenos psicopatas, o Cobra Kai. No reboot, há o insosso Li, que não é realista, nem exagerado, e fica no limbo. Talvez a arte dos bons vilões ridículos tenha morrido nos anos 80. Alguns momentos da trama também são meio deslocados, como a viagem de Han e Dre para um mosteiro de kung fu em uma montanha. Parece até um outro filme dentro do filme, de tão descartável a cena, que coloca Dre e Han em meio ao elenco de O tigre e o dragão.



    Com o tom certo de referências ao original, mas mudando o que ficou datado, Karate kid apresenta a fórmula a uma nova geração e diverte, ainda que tenha lá suas falhas. O formato do azarão que, com alguma dedicação e o mentor adequado, consegue superar seus adversários é imortal. Lá pelas tantas, a mãe de Dre dispara: “Caratê, kung-fu, tanto faz”. Realmente. Pode ser um carateca ítalo-americano lutando contra valentões, um negro lutando kung-fu na China ou um nórdico aprendendo capoeira no Pelourinho, tanto faz.

    POR: [Gerhard Brêda]

  • Fraco

    O último mestre do ar

    | M. Night Shyamalan

    M. Night Shyamalan teve a chance de conferir novo fôlego à carreira surrada de fórmulas repetidas (O sexto sentido, A vila, Sinais), mas errou mais uma vez em O último mestre do ar. E errou feio. Errou muito. O resultado é perda de tempo e dinheiro, a incomodar até os mais otimistas e pacientes cinéfilos. Se gostou do trailer, que à primeira vista é até promissor, melhor ficar com esses dois minutos e meio bem editados de O último mestre do ar. O roteiro é disfuncional, com atores que travam uma disputa acirrada para ver quem passa a maior parte do tempo sem emitir qualquer expressão e/ou emoção. Os efeitos 3D são praticamente inexistentes. Na verdade até estão ali, só para atrapalhar a leitura das legendas.

    Adaptado do desenho animado, o filme começou perdendo uma batalha em Hollywood: não pôde utilizar seu nome original, Avatar: the last airbender, pois James Cameron e a Fox chegaram primeiro e registraram o título para o blockbuster de Pandora. Não que faça muita diferença, mas só para exemplificar que as coisas definitivamente não começaram bem — e ficariam ainda piores.

    Há 100 anos, as nações Ar, Água, Terra e Fogo conviviam em harmonia, num mundo tomado pela plenitude resultante da paz e do equilíbrio, gerados pela presença do Avatar, o indivíduo que dominava os quatro elementos e se comunicava com o mundo espiritual. Quando o Avatar desaparece, o mundo entra num período decadente, marcado por conflitos territoriais e gananciosos, liderados pela nação do Fogo. Até o momento em que Katara e seu irmão, Sokka, encontram Aang, a nova reencarnação do Avatar. Juntos, iniciam uma jornada para deter o mal e restaurar a ordem do planeta.

    De longe, a premissa até desperta algum interesse, principalmente nos saudosos do desenho — esse sim de alguma qualidade. De perto, não há traço dos truques do cineasta indiano, que normalmente espalha pela trama armadilhas a serem desmentidas no final. Pelo contrário. Primeiro, o roteiro passa longe da ideia original concebida para a animação, mas, para maquiar a fuga do contexto, Shyamalan utiliza a arte e as locações da série original. Segundo, a trama que segue é uma combinação desastrosa de elementos desnecessários, diálogos obtusos e direção incompreensível devido a um roteiro superficial. E terceiro, porque o filme se resume a algumas cenas de lutas bem coreografadas — nem todas, já que em alguns momentos mais parecem oompa loompas evoluídos —, aos efeitos visuais e à trilha sonora.

    O último mestre do ar faz uso também de um péssimo e azucrinante artifício, que, verdade seja dita, não é exclusivo de M. Night Shyamalan: a narração explicativa. Desde o início da trama, os personagens direcionam linearmente o espectador numa irritante tentativa de fixar mentalmente o que já é transmitido em cena. Subestimar o público é um erro, além de refletir insegurança na capacidade de comunicação do próprio roteiro.

    Quanto ao elenco, falta carisma dos próprios personagens, e as atuações beiram o pastelão — se bem que até mesmo um bom pastelão consegue cativar a audiência. Talvez, a única exceção (ainda assim não chega perto de uma boa atuação) seja a jovem Nicola Peltz, intérprete de Katara. Percebe-se que houve um esforço por parte da atriz para passar a integridade e humanidade da única dominadora de um elemento da nação da Água.  Já Noah Ringer, o Avatar, por ser um ator estreante, não chega a prejudicar o andamento da produção, até porque se destaca no que sabe fazer melhor — que, por sinal, é a principal característica do personagem: lutar. O jovem, campeão de taekwondo, realmente impressiona com suas habilidades marciais. O mesmo não se pode dizer Jackson Rathbone, o Sokka. “O Jasper de Crepúsculo” — como faz questão de anunciar o cartaz do filme —finalmente tirou uma dúvida que assolava os seguidores do vampiro. Sim, aquela cara de quem viu a luz do sol, ou um crucifixo, ou um lobisomem, não é exclusiva de seu personagem morto-vivo. As expressões faciais do ator resumem-se àqueles olhos esbugalhados.

    Como já dito anteriormente, não gaste dinheiro pelo 3D. Alguém da equipe de pós-produção deixou passar batido — num estilo meio Fúria de titãs — e, ops, o 3D não está lá. Para as crianças, talvez, os efeitos visuais e as características físicas singulares de alguns personagens possam ser um atrativo. Mas, no geral, O último mestre do ar destoa — negativamente, para deixar claro —, de outros épicos. E M. Night Shyamalan já garantiu as outras duas continuações.  Respire fundo.

    POR: [Juliana D'Arêde]

  • Regular

    A epidemia

    | Breck Eisner

    Numa época em que os gêneros se reciclam com criatividade — para citar alguns, a ficção científica com Distrito 9; o western com O assassinato de Jesse James pelo covarde Robert Ford; os desenhos com as produções pós-Shrek e a animação digital; e até mesmo o próprio formato de cinema com lançamentos em 3D — Epidemia (The crazies, no original) não deixa de ser em certa parte uma decepção. Trata-se do remake do clássico escrito e dirigido por George Romero em 1973, que no Brasil levou o nome de O exército do extermínio.

     

    O início do filme é promissor. Uma linda imagem de uma clássica rua do meio oeste rural americano — com seus bem comportados prédios de um andar, pequenas lojas e bandeiras — deserta e completamente em chamas, seguida pela genial sacada de executar We’ll meet again’ (música da antológica cena final de Dr. Fantástico, agora na voz de Johnny Cash) por cima de imagens desta mesma cidade num dia comum. A expectativa começa lá no alto, mas não se concretiza. Desde cedo fica claro se tratar de um filme low budget com ares de telefilme — saem os grandes centros urbanos, entra a pequena e fictícia cidade de Ogden Marsh, com cerca de 100 mil habitantes.

     

    A premissa é até interessante: um avião militar carregando uma arma química que, através de um potente vírus, transforma pacatos cidadãos em assassinos sedentos por sangue, cai num lago, contaminando a água de uma pequena cidade rural. Com o cruel exército americano acionado para uma operação de quarentena, a vida do xerife local e de sua mulher grávida (rostos desconhecidos, mas surpreendentemente bons) transforma-se num verdadeiro inferno.

     

    Com Extermínio e Madrugada dos mortos na memória recente cinéfila, as obviedades encontradas aqui incomodam mais que o aceitável. É óbvio que há mais alguém no quarto mal iluminado, assim como é óbvia a absurda imunidade do casal protagonista — e por aí vai. Mesmo que desta vez não se trate de zumbis propriamente ditos, há absolutamente tudo o que já se viu antes num filme do rei dos mortos vivos George Romero. Todos os sustos esperados, toda a luta pela sobrevivência, toda a perversidade nauseante de filme de terror — que, no entanto, não chega ao alto (ou baixo) nível visto nas telas como em O albergue —fazem deste filme um thriller com forte senso de déjà vu.

     

    Mesmo com uma boa carreira nas bilheterias americanas e internacionais (faturou quase o dobro do seu custo de produção), com seu excesso de 'american way of life' — seja na crença que só armas de fogo resolvam qualquer situação, seja na ambientação — é difícil não se perguntar por que este filme não permaneceu para consumo interno estadunidense. Embora não traga quase nada de novo, é uma boa opção para fãs de terror que encontram em Epidemia a única opção do gênero atualmente em cartaz.

    POR: [Daniel Passi]

  • Bom

    Cabeça a prêmio

    | Marco Ricca

    Uma das principais coqueluches entre os roteiristas da atualidade é retratar as diversas variáveis sociais contemporâneas através de um roteiro fragmentado. Lançam-se várias peças aparentemente desconexas ao longo da narrativa para ao final compor um só quebra-cabeça, que pretende se revelar, por meio de suas camadas, como um recorte específico de um mesmo contexto temporal. É uma tentativa arriscada, e poucos são os que driblam as dificuldades de conexão e conseguem sair vitoriosos da empreitada. Para o talento artesão de cada Robert Altman, temos os remendos malfeitos de vinte Alejandro González Iñarritu, uma equação nociva à saúde de qualquer espectador.

     

    Estreando na direção de longas-metragens, o ator Marco Ricca resolveu adaptar para o cinema o romance do escritor Marçal Aquino intitulado Cabeça a prêmio, que possui uma estrutura recortada, numa mesma linha narrativa sobre a qual convergem histórias distintas. Um projeto ousado? Do ponto de vista do roteiro, sim. Até pela inexperiência de Ricca por trás das câmeras, as chances de esbarrar na superficialidade forçada amarrando situações de forma genérica eram grandes, mas, surpreendentemente, o agora cineasta contorna os desafios da montagem e fortalece seu filme através da coesão com a qual ele é engendrado.

     

    A trama gira em torno de uma família de fazendeiros do Mato Grosso do Sul que se envolve com atividades ilícitas na fronteira com o Paraguai, desencadeando uma série de acontecimentos que mudarão o curso da vida dos envolvidos. É um drama de desilusões em uma região onde quase tudo é permitido, em que o trânsito de pessoas e mercadorias revela a instabilidade de um microcosmo e a incapacidade de lidar com o equilíbrio emocional. Todos os personagens possuem um rompante de fúria ou desespero, e a edição organiza os sucessivos descontroles que ali acontecem de forma a respeitar tanto a construção do próprio personagem como a posição do espectador diante deles.

     

    O cenário é de uma beleza desoladora, a câmera explora as vastas planícies inabitadas e silenciosas do Pantanal sem apelar para imediatismos, construindo uma linha de tempo que passa ao largo do julgamento moral e se estabelece por meio de contrastes, tanto psicológicos quanto geográficos, mas sempre de maneira sóbria, sem os tiques histriônicos e deslumbrados que marcaram as estreias na direção dos também atores Selton Mello e Matheus Nachtergaele. É um filme essencialmente de personagens, e a ponderação no desenvolvimento das particularidades de cada núcleo, alheia a arroubos estéticos e invencionices desnecessárias, garante um tom solene à narrativa que permite a evidência de suas principais qualidades.


    Através de uma aproximação sutil, mérito tanto do roteiro de Ricca, escrito em parceria com Felipe Braga, quanto da engenhosa montagem de Manga Campion, a desintegração lenta e gradual de uma família se enlaça ao cotidiano de dois matadores de aluguel e de um ambicioso jovem piloto paraguaio. Há um esmero muito particular na elaboração dos personagens, sem pressa, respeitando as nuances de comportamento próprias a cada um e criando personalidades verossímeis, sem passar perto de fantoches humanos a serviço de um discurso sociológico. A Marco Ricca não interessa divagar sobre questões inerentes à modernidade, cuja estrutura fragmentada do texto possibilita; sua pretensão termina na composição de um ambiente onde a harmonia é desatada por uma onda de violência, consequência direta das ações dos envolvidos no jogo.

     

    Dotado de uma segurança que impressiona em se tratando de um cineasta estreante, Cabeça a prêmio, o filme, é a carta de intenções de uma direção pulsante, que se ampara tanto na força do texto e na consistência da montagem para compor um mosaico de personalidades que se chocam a todo instante, desencontradas e insatisfeitas, buscando na fronteira do Brasil uma afirmação para suas identidades. Com este filme, Marco Ricca entra na galeria de cineastas brasileiros pela porta da frente. Que seja bem-vindo.

    POR: [Samuel Lobo]

  • Excelente

    Um doce olhar

    | Semih Kaplanoglu

    A máxima 'o cinema é pintura em movimento' encontra em Um doce olhar (o título original Bal sendo a palavra turca para mel) uma ótima definição. Retrato poético de uma beleza impossível sobre a perda, a incomunicabilidade e a solidão infantil, o filme — vencedor do Urso de Ouro em Berlim —, assim como seu protagonista, comunica grandes coisas em pequenos sussurros.

     

    Yusuf é uma criança de uma família que reside nas montanhas da Turquia e que tem na apicultura e plantação de chá seu principal sustento. Tem dificuldades, em parte por sua excessiva timidez, em ler e se expressar, tendo como único canal com o mundo seu pai, com quem se comunica através de sussurros. O filme é a última parte da trilogia semi-autobiográfica do diretor Semih Kaplanoglu que consiste ainda de Ovo (2007), que retrata a vida adulta do personagem, agora um poeta, e Leite (2009), o fim da adolescência. Ambos inéditos comercialmente no Brasil.

     

    Mesmo tendo algo que o une aos outros filmes — como o primeiro contato do menino Yusuf com a poesia, fascinado ao ouvir uma menina recitar Minha boêmia, de Rimbaud — Um doce olhar pode ser apreciado de forma independente. Sem o uso de trilha sonora, com exceção de certos momentos chaves, e dando a impressão de muitas vezes usar a luz natural, a lenta vida no campo é traduzida com um ritmo narrativo que por vezes chega à fronteira do tédio. Assim, alcança enorme efeito dramático no desenrolar da história, mas corre o risco de ser taxado por muitos como simplesmente chato — pouco de fato acontece e quase nada é dito.

     

    Totalmente construído em cima de sutilezas, o filme tem nos olhares e pequenas expressões – especialmente as das crianças, todas de no máximo seis anos — toda a sua força. O pequeno protagonista Bora Altas é daqueles raros achados do cinema que dão sentido à produção. Sem o talento bruto e insuspeito do menino, dificilmente o resultado da obra alcançaria o status de arte que o filme alça.

     

    Embora todo o filme seja sólido, é a última sequência que merece atenção especial. Um poema visual embasbacante, de uma pureza difícil de descrever, ficará na memória de quem assistir durante um bom tempo. Um doce olhar é a verdadeira pérola do cinema turco.

    POR: [Daniel Passi]

  • Bom

    Os mercenários

    | Sylvester Stallone

    ão existe nada como Os mercenários em cartaz agora. Um filme como esses só poderia ser concebido, escrito e dirigido por um homem que viveu, nos anos 80 e 90, a crista da onda do cinema de ação. Sylvester Stallone entrega, em 2010, um dinossauro estranhamente familiar, um filme que junta a brutalidade que explorou em Rambo IV com diversos excessos típicos de filmes como Cobra e Comando para matar. Se você acha o herói moderno – o sujeito mirrado e cheio de problemas existenciais – uma doença, Os mercenários é a cura.



    Na trama, Stallone é Barney Ross, líder de um grupo de mercenários que conta com Lee Christmas (Jason Statham, principal coadjuvante do filme e divertido como sempre), Ying Yang (Jet Li), Hale Caesar (Terry Crews), Toll Road (Randy Couture) e Gunnar Jensen (Dolph Lundgren). A base do grupo é na oficina de Tool (Mickey Rourke), um mercenário que se aposentou e agora arranja emprego para a equipe. A missão da vez é invadir a ilha de Vilena, na América do Sul, e eliminar o sanguinário General Garza (David Zayas).



    Quando vão explorar a ilha, Ross e Christmas encontram Sandra (Giselle Itié), que acaba sendo detida pelo governo. Também descobrem que quem dá as cartas é James Monroe (Eric Roberts), um engravatado americano que comanda o gorila anabolizado Paine (Steve Austin) e o fluxo de dólares que alimenta a ditadura.



    O mais incrível é como Stallone seguiu de perto os filmes de ação dos anos 80 na criação de Os mercenários. O emblema máximo é Monroe, um vilão caricato que parece que viajou no tempo. Se até James Bond abandonou os grandes inimigos exagerados em prol de terroristas burocratas e baseados na realidade, cabe a Stallone trazer uma relíquia de volta. Roberts se diverte no papel, cospe todas as falas sem nenhuma sutileza e usa o crachá de malvadão com orgulho.



    Uma das metas de Stallone parece ter sido desvincular os atores de seus lendários personagens. O Christmas de Statham é muito diferente de Chev Chelios (de Adrenalina), o Gunnar de Lundgren em nada lembra o sisudo Ivan Drago (de Rocky IV) e o Sr. Church de Bruce Willis é o mais longe que se pode chegar de John McLane (de Duro de matar). Evidentemente, os personagens criados por Stallone não superam estes icônicos heróis, mas isso não se torna um problema pelo status já quase lendário de grande parte dos atores. 



    A trama pode ser risível e, em alguns momentos, até um pouco equivocada (todo o arco romântico de Christmas é um mergulho esquisito no drama, mas que acaba valendo por uma boa sequência de luta), mas a ação compensa. Ninguém em Hollywood faz ação como Sylvester Stallone. Em Rambo IV, o ator/diretor mostrou ao mundo os tiros mais brutais da história do cinema e em Os mercenários ele leva a técnica adiante. As balas parecem ter impacto, rasgando, furando e até dilacerando de forma cartunesca os capangas inimigos. Como o elenco varia entre lutadores de vale tudo, luta livre, kung fu e todo o resto, as cenas de luta são bastante diversificadas. Há o estilo de luta cheio de firulas e levezas de Li, contrastando com a agilidade eficiente de Statham. De um lado os agarrões e arremessos de Steve Austin, de outro, os golpes de MMA de Couture.



    Mesmo assim, o filme tem uma falha grave: pouca ação. Ou melhor, menos ação do que se esperava. Com o elenco que tinha, Stallone podia ter elaborado mais embates memoráveis, mais tiroteios absurdos, mais coisas impressionantes. Falta em Os mercenários uma cena memorável, lendária. Falta um tiro de arco e flecha explosivo contra um helicóptero (Rambo 3), falta um carro sendo arremessado em um helicóptero (Duro de matar IV). A sequência final é excepcional e é uma das melhores do ano, mas faltou algo lendário. A edição, por vezes, também é um pouco frenética demais, obscurecendo a pancadaria com cortes alucinados.



    Se não existe uma cena de ação digna de nota, a já famosa cena da igreja eleva Os mercenários ao status de lenda. Willis media o encontro entre Stallone e Schwarzenegger, que interpreta Trench, um mercenário rival. Os diálogos estão entre os mais brilhantes da carreira de Sylvester Stallone e conseguem unir a realidade com o universo do filme de uma forma hilariante. É uma pena que o encontro destes gigantes não tenha acontecido quando estavam no auge, mas é bom ver o Governator sair da geladeira e disparar seu inconfundível sotaque austríaco mais uma vez. É o sonho de uma geração, que cresceu vendo a Sessão da Tarde, se concretizando, ainda que de uma forma muito mais plácida do que se esperava.



    Os mercenários não está no mesmo nível que filmes como Rocky – Um lutador e Rambo: Programado para matar, mas está bem longe de ser um fracasso como Alta velocidade ou Tango e Cash. Stallone faz uma homenagem aos anos 80, com um filme de ação inflado, insano e divertido, que acerta quando não se leva muito a sério. Ao mesmo tempo, ao colocar Jason Statham como seu principal parceiro, Sly parece ter escolhido alguém para passar o bastão e faz a ponte entre o ontem e o hoje, mas sem se esquecer de chutar uns traseiros no caminho.

     


    POR: [Gerhard Brêda]

  • Bom

    Almas à venda

    | Sophie Barthes

    Almas à venda é o novo filme de Charlie Kaufman — o roteirista it que ficou famoso por escrever historias kafkianas em que o amor, o absurdo e o surreal se misturam — em todos os sentidos exceto um: este não é um filme seu. É curioso ver como o homem responsável pelas histórias de Adaptação, Brilho eterno de uma mente sem lembranças e Quero ser John Malkovich conseguiu fundar uma verdadeira escola de roteiro moderno — ou modernoso — para o cinema tornando-se ídolo imediato de 11 entre 10 jovens aspirantes a roteiristas.

     

    Almas à venda na verdade é escrito e dirigido pela estreante Sophie Barthes, que, para um primeiro longa-metragem, faz um belo trabalho. A estrela é Paul Giamatti — o eterno coadjuvante de filmes como O resgate do soldado Ryan e O ilusionista e herói indie de filmes como Sideways e Um herói americano — interpretando ele mesmo. Ou melhor, uma versão dele mesmo como um ator atormentado pela montagem teatral de Tio Vânia, de Anton Tchekhov. Trata-se de um homem de meia idade em crise (papel em que Giamatti parece ter se especializado) que aproveita sua obscuridade, mas almeja uma realização profissional — para, logo em seguida, experimentar um alívio pessoal, pois, a seu ver, é algo impossível de ser alcançado.

     

    Sophie usa aqui um jogo de autorreferência mista de realidade e ficção que faz ecoar  Quero ser John Malkovich. Giamatti vê num anúncio de revista a possibilidade de exterminar suas inquietações: uma clínica que promete aliviar o sofrimento ao extrair, congelar e guardar a alma das pessoas. Ao perceber que sua alma foi extraviada para a Rússia — detalhe para a boa escolha dos cenários russos —, Giamatti embrenha-se no mercado negro de almas: compra, venda e tráfico internacional.

     

    Embora Almas à venda seja um bom filme, curiosamente sofre da mesma mazela dos feitos de Kaufman. Após a curiosidade inicial com a premissa se esvaecer, o filme não consegue se sustentar com o mesmo vigor. Mesmo tendo uma ideia original, o que faz o longa se garantir é a força de seu elenco — que conta ainda com Emily Watson e com David Straithairn, indicado ao Oscar por Boa noite e boa sorte. Embora em Almas à venda o tom seja um tanto mais soturno e menos bem humorado — destaque para as cenas de humor negro envolvendo Giamatti e o doutor responsável pela clínica de extração de almas, vivido por Straithairn — que nas produções de Kaufman, o filme consegue alcançar momentos de um lirismo mais profundo e tocante. Fora isso, Almas à venda é uma boa opção para aprender como se escreve um filme contemporâneo alternativo.

     

     


    POR: [Daniel Passi]

  • Fraco

    O aprendiz de feiticeiro

    | Jon Turteltaub

    O aprendiz de feiticeiro - FRACO

     

    O aprendiz de feiticeiro é o típico filme de Sessão da Tarde, daqueles restritos ao período de férias.  Só assim dá para resumir um filme totalmente desenvolvido sob clichês, sem qualquer traço — ou tentativa — de originalidade que possa realmente encantar o espectador — que, se espera, esteja ávido para ver o que Nicholas Cage consegue fazer com um pouco de mágica, um casaco desbotado e um cabelo que não sabe o que é xampu há alguns séculos. A única coisa que remete à qualidade Hollywood em O aprendiz de feiticeiro são os efeitos especiais, coerentes com a Disney. E só.

     

    Esqueça tudo o que já ouviu falar e sabe sobre Merlin.  O filme não faz questão nenhuma de seguir o mito à risca, a não ser pela presença de Morgana. A descaracterização de ambos os personagens é até aceitável ao se tratar de um filme infantil, no qual os dois são apenas referências cansativas para o desenvolvimento de uma trama preguiçosa. Na história, Cage é Balthazar Blake, um feiticeiro ex-aprendiz de Merlin, que mora em Manhattan e precisa defender a cidade de um bruxo traidor — também ex-aluno do maior mago da história, que original — que deseja libertar o mal, personificado em Morgana, na Terra. Para cumprir sua missão, Balthazar nomeia um jovem com habilidades extraordinárias como seu pupilo.

     

    Para manter o foco em alguma cena ou diálogo do filme, haja determinação. Mas se esse atributo lhe falta, não se preocupe. Nada muda ou acontece entre a primeira meia-hora e o final, dentro do esquema herói íntegro/vilão mau caráter/herói nerd e desengonçado que salva o mundo e fica com a mocinha. O produtor Jerry Bruckheimer certamente ficou orgulhoso do sucesso de sua franquia A lenda do tesouro perdido. Tanto que resolveu repetir a fórmula em outras produções como O vidente e o ainda inédito Caças às bruxas — acredite, outro filme com Nicolas Cage descabelado e magos à solta.  Em O aprendiz de feiticeiro proliferam essas referências esgotadas, abandonando o espectador num limbo de desestímulo e tédio.  Detalhe para a óbvia alusão ao clássico desenho Fantasia (1940), com direito, inclusive, a vassouras dançando. Não, não foi divertido, e ainda deixou um amargo constrangimento.

     

    Cage, por sua vez, insiste em escolher papéis que subestimam seu talento, enquanto o bom Alfred Molina tenta salvar um vilão insosso. Destaque para Jay Baruchel e seu Dave, o pupilo de Balthazar, que possui as melhores (e raras) tiradas cômicas do filme.  Dentro de uma caricatura (de nerd), consegue passar a sensibilidade e timidez do garoto rejeitado e sem perspectiva (pelo menos até se deparar com o protótipo de Merlin).

     

    Sem qualquer tipo de pretensão (nem se quisesse), O aprendiz de feiticeiro é apenas mais um dentre tantos filmes do gênero, que não soube aproveitar os seus próprios recursos. Em época de três dimensões, apenas efeitos especiais não garantem a diversão. Falta magia.

     


    POR: [Juliana d'Arêde]

  • Regular

    Meu malvado favorito

    | Pierre Coffin e Chris Renaud

    Gru passeia por uma praça e subitamente repara num garoto. Lágrimas escorrem pelo rosto do menino, que segura uma casquinha de sorvete vazia e olha desolado para o sabor vermelho derretendo no chão. Gru pede que espere, sopra um balão, o contorce algumas vezes e entrega um poodle radiante para o moleque, ainda mais radiante. Gru fecha a cara, cata um alfinete e estoura a felicidade do garoto, que deixa para trás com passos firmes. Aí está o protótipo de Meu malvado favorito, o tal vilão anunciado, Gru.


    A primeira cena do filme é o resumo dramático que permeia a animação de Pierre Coffin e Chris Renaud. Está ali condensado o conflito do protagonista, a visão doce e infantil de um vilão de alma boa, estragado por uma mãe rabugenta. No clímax final e sacarinado do filme, ainda surge a dúvida, será, mas será? Não é. Meu malvado favorito é pueril, previsível, com parcas tintas irônicas. Mas isso não o faz menos divertido, em especial para as crianças.


    Voltado para a família, o filme  pega emprestado o visual da Pixar e as piadas dos cartoons infantis. O resultado é um razoável filme de estreia do departamento de animação da Universal, o Illumination Entertainment. Comandado por Chris Meledandri, antigo colaborador da Fox (Era do gelo, Horton e o mundo dos quem), não deixa a perder para os gigantes consolidados da Pixar e da Dreamworks, tendo efeitos tridimensionais muito bem trabalhados.


    No Brasil, o filme chega apenas em cópias dubladas, tanto em 2D como em 3D. Nos papéis principais, a dupla cômica Leandro Hassum e Marcius Melhem seguram as piadas com um ótimo trabalho autoral. Gru leva um sotaque portenho (um vilão argentino?) divertidíssimo criado por Hassum, enquando o chato Vetor, o verdadeiro vilão aqui, tem seus momentos divertidos com os tiques de Melhem.


    Gru é o tipo rabugento trapalhão, que concretiza nossos pequenos momentos utópicos vis, como amassar sem piedade os carros vizinhos em vagas apertadas ou furar uma fila inteira só disparando um raio congelante nas pessoas à sua frente. A apresentação do protagonista é genial, ao som do ótimo rap de tons graves Despicable me, título original do filme. A trilha é assinada por Pharrell Williams e Hector Pereira, produzidos por Hans Zimmer, e pontua muito bem a animação.
     


    A vida de um supervilão, mesmo equipado de geringonças de todos os tipos e mantendo a pose de mau, não é tão fácil assim. A concorrência pesa nos ombros caídos de Gru e ela atende pelo nome de Vetor, um jovem herói nerd, pleno de disposição e novas rebibocas futurísticas. Se Gru rouba o telão da Times Square e a Torre Eiffel e a Estátua da Liberdade de Los Angeles, Vetor ousa afanar uma pirâmide do Egito! Para manter seu posto, nosso vilão concatena então um plano mirabolante - roubar a lua!


    Para isso, precisa de um super-raio-encolhedor e de um empréstimo no banco... dos vilões. Gru rouba a parafuseta encolhedora de uma base secreta na Ásia, mas Vetor a toma para si e a tranca em seu covil tecnológico. Obstinado, Gru adota três órfãs, Margo, Edith e Agnes, as únicas criaturas capazes de penetrar no recôndito de Vetor. O problema é que as três veem em Gru um pai em potencial e fazem despertar no malévolo um lado desconcertante para o vilão que clama ser.


    Com o coração no lugar certo e referências à animação europeia, Meu malvado favorito conquista por seus personagens excêntricos. O roteiro é de Cinco Paul e Ken Daurio, adaptado da história de Sergio Pablos. As três garotas são tão estranhamente cativantes quanto o vilão que tomaram para pai.


    Vale sublinhar a participação dos minions, pequenos seres amorfos e amarelos que adoram e ajudam Gru em suas façanhas diabólicas. Estão ali somente para divertir, atrapalhados, falando uma língua ininteligível, e desempenham honestamente seu papel. Entre ingenuidade emocional açucarada e raras pitadas de humor negro, Meu malvado favorito não é de todo mal, e bem diverte.

    POR: [Marcella Huche]

  • Bom

    Uma noite em 67

    | Renato Terra e Ricardo Calil

    "O público virou personagem". É assim que um dos personagens mais destacados da finalíssima do festival da TV Record de 1967, o cantor e compositor Sérgio Ricardo, define o que você vai assistir em Uma noite em 67, que traz os bastidores, os relatos históricos e as imagens raríssimas da final do evento, em 21 de outubro daquele ano. Não são poucas as pessoas, atualmente, fazendo comparações dos shows musicais competitivos dos anos 60 - que faziam sucesso a ponto de canções como a lírica O cantador, de Dori Caymmi e Nelson Motta, virarem discussão de mesa de bar - com os reality shows.

    Talvez as músicas fossem melhores, mas o produto final era um programa, uma atração, movida pelo Ibope do público, que vaiava (muito) e aplaudia (pouco). Talvez o público tenha piorado com o passar dos tempos, embora não dê para julgar. Mas a cada artista, cabia representar um personagem - manipulado pelos produtores e pelo chefão do canal. Não eram propósitos muito diferentes de uma luta televisiva entre Marcelo Dourado e Dicesar. Só trazia música - e da boa, como se pode comprovar no próprio filme. E todo um contexto político e artístico, causado pela ditadura e pela polarização entre MPB e guitarras elétricas, nacionalistas e pré-pops. Personagens do festival, como Caetano Veloso (que defendeu Alegria alegria, com os Beat boys), Gilberto Gil (idem com Domingo no parque, com Os Mutantes), Roberto Carlos (idem com o samba Maria, carnaval e cinzas, de Luiz Carlos Paraná), Edu Lobo (ganhador com Ponteio, defendida por ele, Marilia Medalha e Momento Quatro), Chico Buarque (mostrou sua Roda viva, com o MPB 4), Sérgio Ricardo (defendeu-não defendeu sua Beto bom de bola e, vaiado, quebrou o violão ao fim da música), Sérgio Cabral (jurado), Solano Ribeiro (criador do evento), dão seus depoimentos, intercalados com imagens de época.

    Para quem nunca leu livros como Noites tropicais (Nelson Motta), Roberto Carlos em detalhes (Paulo Cesar Araújo), Quem quebrou meu violão (Sérgio Ricardo) e A era dos festivais (escrito pelo técnico de som do festival da Record, Zuza Homem de Mello), as informações de  Uma noite em 67 podem servir para derrubar mitos. Para quem conhece a extensa literatura sobre o período já feita no país, há muito documento e pouca novidade. É engraçado ver artistas hoje vetustos como Edu, Caetano e Chico com caras de pirralhos e pensar "quem diria, esse pessoal já foi jovem um dia..." Ou verificar que o início de carreira deles também foi marcado por uma certa manipulação. A ponto de caber ao aplaudidíssimo Chico Buarque fazer o papel de "mocinho" no evento. Ou a um reverente Gil, pressionado por amigos e pela direção do canal, participar de uma estranha manifestação hoje conhecida como a "marcha contra a guitarra elétrica", cuja ingenuidade envergonharia até mesmo alguns de seus mais ferrenhos participantes (como o pesquisador Sérgio Cabral, que admite a mancada aos diretores do filme). Os criadores do evento mal sabiam que aquilo tudo iria virar história - dependiam do Ibope, assim como os próprios concorrentes.


    Os depoimentos atuais apontam para a tensão e as amarras do festival - e que já estranhavam. Edu preferiu sair do Brasil após ganhar a competição. Chico pouco caberia no papel de bom moço com o passar dos anos, e diz nem nem lembrar mais como se toca Roda viva. Caetano reclama até hoje "não ter se livrado de Alegria, alegria como Chico se livrou de A banda", mas tenta ensinar o espectador como tocá-la no violão. Sérgio, caso à parte, reconhece: quebrar seu instrumento e atirá-lo à plateia do evento foi "coisa de garoto", mas assume seu susto com o esquema por trás dos festivais e com a proto-interatividade que já reinava nos musicais televisivos. Estigmatizado pela atitude que tomou na finalíssima, tem os sete minutos (incluindo o antes, durante e depois) de sua Beto bom de bola expostos no filme. Roberto Carlos, páraquedista em festivais da canção, canta com total segurança Maria, carnaval e cinzas, numa fase na qual necessitava de um pulo da Jovem Guarda para o público adulto - e, em entrevista feita para o longa, diz nem saber que um grupo estava preparado para vaiá-lo no festival.


    O trabalho de pesquisa de Uma noite em 67 é impressionante e merece palmas. Além de mostrar as principais finalistas na íntegra, recuperadas das imagens do festival, recuperam a cobertura feita por Randall Juliano e Cidinha Campos - o primeiro, grande nome do radialismo e da TV, morto em 2006, causa risos ao aparecer fumando durante as entrevistas que faz. E servem como os verdadeiros motivos pelos quais muita gente vai se apaixonar pelo longa.

    POR: [Ricardo Schott]

  • Excelente

    A origem

    | Christopher Nolan

    Bem perto de um espasmo cerebral, A origem é dos filmes de ação mais inteligentes que você há de assistir. Daqueles que finalmente dão fim original a um orçamento milionário (US$ 160 milhões). Consagrado por outros arrasa-quateirões de qualidades inegáveis, Christopher Nolan agora invade a aventura solitária mais maravilhosa que desde sempre existiu — o sonho. Cria e manipula a vida onírica, fazendo dos sonhos inevitáveis momentos de solidão, uma experiência compartilhada. É um blockbuster, entretenimento puro. Mas apresenta uma pegada tão intensa e nervosa que, depois de A origem, a trivialidade de encostar a cabeça no travesseiro e dormir já instala o crivo da dúvida. Trata-se do expoente do filme para se ver no cinema, que abusa do seu próprio diapositivo e da experiência compartilhada numa grande ode à sua própria arte.

     

     

    O hype que cerca A origem desde seu anúncio, com pouquíssimas informações vazadas desde então, é simples e se resume a duas palavras — Christopher Nolan. O homem pensou no magnífico roteiro de A origem ainda bem novo e há oito anos o pôs no papel. Nesse meio tempo, conquistou o coração dos nerds ao fazer de Batman um herói novamente rico e respeitado, primeiro em Batman begins, depois, e ainda melhor, em O cavaleiro das trevas. Antes disso, arrebatou a crítica com Amnésia (2000) e Insônia (2002), ensaios, já em múltiplas camadas, sobre amor, sono, sonho e subconsciente. Era o que precisava para recolher a confiança suficiente para violar derradeiramente tais temas em A origem.

     

    Não satisfeito com o ambicioso roteiro intrincado que criou, o estado de sonho se reproduz também na estética do filme. As imagens, captadas em seis países, não são esfumaçadas ou os sons distorcidos, como os sonhos geral e pobremente são reproduzidos no cinema. A origem aproxima dois universos que desde sempre caminharam juntos — a experiência cinematográfica e a onírica. No escuro, visualizamos imagens cuja completa apreensão perpassa uma montagem em boa parte também inconsciente; o tempo respeita códigos muito específicos da filmografia; enquanto também equilibramos o ver e o não-ver, assistindo projetada na tela a uma história que não sabemos exatamente como controlar, embora passemos boa parte tentando.

     

    Em A origem, o rumo é bastante esse — caímos no meio de uma trama louca. Explicá-la formalmente é muito mais complexo do que entendê-la, senti-la durante as mais de duas horas do filme. O entendimento às vezes está realmente fora do nosso alcance. Os diálogos são rápidos, as cenas ainda mais, a tensão é crescente, mas intuitivamente entende-se o que se passa ali, embora nunca se consiga desvendar a próxima cena.

     

    Para além da ficção científica, de um homem que adentra e manipula sonhos de outras pessoas, outras linhas fortes enlaçam a trama de A origem. O romance, a paranoia e até uma ou duas linhas de comédia são honestamente entregues, embebidas em gêneros consagrados e muito bem realizados. O protagonista é Dom Cobb, um magnificamente atormentado Leonardo DiCaprio, que encara seu destino fatal sem tanto desespero ao rumar numa última missão. O especialista em roubar segredos a mando de grandes industriais é um homem comum: rendido às tentações de escape de sua realidade (que nada tem de tão afugentadora assim), nosso herói desaprendeu a sonhar. Precisa se reconectar com o mundo real, suas falhas e perdas reais; precisa voltar a seu lar.

     

    É exatamente o que lhe oferece o poderoso japonês Saito (Ken Watanabe). A derradeira tarefa de Cobb é, em vez de extrair, plantar uma ideia, sua semente, sua forma mais simplória, para que cresça naturalmente no subconsciente de sua vítima. Nessa última missão, uma manobra arriscada, e considerada por muitos até impossível, Cobb percorre o mundo (e que locações!) atrás da equipe perfeita (como bem fez Nolan ao montar este elenco impecável). Arthur (Joseph Gordon-Levitt) é seu comparsa de confiança, que aqui faz um tipo bobinho ao cuidar da proteção da equipe. Ariadne (Ellen Page) é a arquiteta, que constrói os labirintos surreais dos sonhos e serve também como alicerce contra os devaneios de Cobb.  O inglês Eames é o falsificador (Tom Hardy), simplesmente genial ao incorporar pessoas no ambiente dos sonhos, de carisma e deboche encantadores.  Yusuf (Dileep Rao) é o químico, responsável pela dopagem da gangue. No elenco há ainda Marion Cotillard, que interpreta Mal, a ambígua mulher de Cobb; Michael Caine, a figura patriarcal Miles; e Cillian Murphy, o herdeiro Richard Fischer — e isso é só o que se pode dizer sem estragar esta experiência surreal.

     

    Nolan manda nesses personagens. Mapeia e prevê cada movimento, gesto e defeito, governa seus subconscientes. Um dos motivos para o sucesso absoluto de A origem é justamente a atenção aos detalhes, que faz com que toda a extravagância surrealista pareça simplesmente... real. Nolan coloca frente a frente o melhor da cinematografia clássica e moderna. Os movimentos de câmera são precisos, e muitas vezes são eles que originam as loucuras a que assistimos. Os efeitos espetaculares ajudam — e, de fato, transbordam os olhos.

     

    Pequeno exemplo desse encontro, além das reverências a gêneros consagrados, como a própria ficção científica e o thriller noir, é a trilha de Hans Zimmer, parceiro de outros filmes de Nolan (Batman begins e O cavaleiro das trevas) — outros colaboradores frequentes participam, como o diretor de fotografia Wally Pfister e o editor Lee Smith. A trilha original foi toda composta em cima do clássico Non, je ne regrette de rien, de Edith Piaf, inclusos aí graves ensurdecedores e outros ruídos um tanto excessivamente perturbadores. O coração desse labirinto é uma história amarga de amor, arrependimento e culpa. Outras repressões psicológicas perambulam a trama e sempre foram questões centrais na cinematografia do diretor. Nolan plantou a ideia, metafísica, brilhante. Mergulhe. Enlouqueça. Sonhe.

     

     

     

     

     

     

     

     

     

     

     

     

     

     

     

     

     

     

    Foto: Warner Bros./Divulgação

     


    POR: [Marcella Huche]

  • Fraco

    O bem-amado

    | Guel Arraes

    Em ano de eleições, o reaquecimento de O bem amado, texto escrito pelo dramaturgo Dias Gomes em 1962, soa como um lembrete necessário e oportuno. Levada às telas da Rede Globo no início dos anos 70, por meio de uma novela homônima de sucesso - e reprocessada como minissérie uma década depois, já no ocaso da ditadura militar -a sátira política que eternizou o personagem Odorico Paraguaçu chega aos cinemas pela primeira vez em uma adaptação dirigida por Guel Arraes, responsável por transposições de sucesso como O auto da compadecida e Caramuru – a invenção do Brasil.

    O sucesso comercial, porém, atesta a influência que a propagação de uma linguagem própria da televisão exerce sobre o público brasileiro. A qualidade dos seriados comandados por Guel, como os supracitados e também TV Pirata eArmação ilimitada, são suficientes para que as versões cinematográficas do mesmo alcancem uma expressiva bilheteria e lhe garantam carta branca dentro do núcleo de projetos da emissora. Desta vez, O bem amado, que ganha ares de franquia, sofre da mesma debilidade que marca os outros filmes do diretor: é cinema feito para a televisão.

    Os cortes rápidos, o ritmo acelerado, os planos fechados realçando o rosto de atores conhecidos do público - e símbolos da Rede Globo - corroboram a sensação de que estamos diante de uma minissérie dilatada. E feita para o público que assiste filmes buscando o comodismo e a facilidade que só uma narrativa domesticada é capaz de oferecer. Não há espaço para invenção, a imaginação fica presa por uma fórmula que cerceia as possibilidades de abordagem. Em função disso, a paródia política acaba sufocada por tiques de estilo cuja salvação imediata seria o controle remoto, caso estivéssemos no aconchego de nossas poltronas. Mas não. E o desconforto diante de tal situação vem da dissonância entre um discurso cinicamente burlesco limitado por uma forma careta, quadrada, oposta à acidez do texto. Como diria o grande Rogério Sganzerla, “o cinema brasileiro precisa sair do quarto de brinquedos”. É mais ou menos por aí. 

    A trama gira em torno das condições sedutoras proporcionadas pela sugestão do poder. Em uma cidade fictícia chamada Sucupira, o farsante político Odorico Paraguaçu elege-se prefeito, ancorado em uma promessa de campanha de finalmente construir o primeiro cemitério da cidade. Entre notas sujas e volumosos desvios de verba, a obra sai do papel e fica dependente de um elemento essencial para ser inaugurada: um defunto que se preste a fazer as honras da casa. De uma hora para outra, as mortes deixam de acontecer em Sucupira. E a promessa de campanha vira um enorme elefante branco no centro da cidade, enquanto a população se revolta contra seu principal regente. O engenhoso texto de Dias Gomes cria sub-tramas onde delineia diversos tipos (como as irmãs Cajazeiras e o matador Zeca Diabo) e a influência que o dinheiro e o poder exercem sobre eles, realçando a complexidade das relações e das personalidades em jogo. A excelência da peça original e seu trato com a ironia e a metáfora estão a anos-luz das intenções do filme.

    Nem mesmo o elenco, formado por atores de calibre, consegue dar um sopro de vida à direção apática e televisiva de Guel. Marco Nanini sobrecarrega seu ótimo timing cômico e beira a caricatura em várias cenas, assim como José Wilker, que já foi o homem da capa preta, mas hoje não assusta mais ninguém. Até Andréa Beltrão, a melhor atriz brasileira da atualidade, tateia mas não acerta o tom de sua personagem. Uma pena. É o preço que pagamos por acreditar em um diretor que insiste em fazer cinema utilizando técnicas da televisão, sem demonstrar conhecimento que o tempo, o ritmo, a preparação e até mesmo a recepção do público exigem tratamentos distintos.

    Esquemático e equivocado, O bem amado só acerta num único ponto: sua data de lançamento. Ao encerrar-se com uma provocativa questão sobre a escolha de nossos futuros políticos, a metáfora de uma Sucupira que na verdade é o Brasil mostra-se pontual e oportuna ao alertar os brasileiros quanto à responsabilidade que o voto possui na pavimentação de caminhos dignos para nosso país. É preciso estar atento e forte para saber identificar os Odoricos falsários que se escondem sob peles de inocentes cordeiros. Mas isso já é sociologia, e não cinema.


     

    POR: [Samuel Lobo]

  • Bom

    Predadores

    | Nimrod Antal

    Alguns monstros do cinema são tão explorados em sequências caça-níqueis que acabam se tornando piadas. Aconteceu isso com Jason Vorhees e suas desventuras espaciais em Jason X, aconteceu com Michael Myers e as infindáveis e terríveis – pelos motivos errados – continuações de Halloween. Aconteceu com o Predador que se perdeu em meio a batalhas sem graça com o Alien. Finalmente, o caçador espacial está de volta à boa forma. O filme de Nimród Antal não é brilhante, mas tem ação sólida, personagens carismáticos e devolve a dignidade do monstrengo.

    O filme já abre com adrenalina. Adrien Brody, que interpreta o mercenário Royce, acorda caindo de um avião em direção a uma selva. Em determinado momento, um pára-quedas abre e ele cai no chão. Pouco tempo depois, encontra o traficante Cuchillo, interpretado pelo sempre carismático Danny Trejo (em um papel tipicamente Danny Trejo) e começa a construir o colorido elenco de aliados. Na trama, os Predadores organizam temporadas de caça. As presas são humanos, geralmente predadores em seu mundo. A equipe do filme conta com Isabelle (Alice Braga), uma atiradora de elite do exército de Israel; Nikolai (Oleg Taktarov), um membro do exército russo; Stans (Walton Goggins), um assassino prestes a ser executado; Hanzo (Louis Ozawa Changchien), um membro da Yakuza; Mombasa (Mahershalalhashbaz Ali), membro de uma tropa de um exército revolucionário de Serra Leoa e, perdido no filme, Topher Grace, que parece ainda interpretar Eric, do seriado That 70’s show, no papel do médico Edwin.

    Grace é o elo mais fraco de um elenco sólido. Mesmo com uma reviravolta no fim, seu personagem não é muito necessário e não acrescenta nada à trama. Ele serve de alívio cômico, mas acaba perdendo espaço para Stans, que rouba a cena sempre que aparece, armado apenas com uma faca improvisada na cadeia.

    Adrian Brody, imortalizado na figura do esquálido refugiado judeu de O pianista está em forma e consegue sustentar a ação. Pensar nele como o novo Schwarzenegger é risível, a princípio, mas com o passar do tempo, o ator consegue convencer. O uso da voz rouca, reservada para estóicos heróis de ação – e ridicularizada por Christian Bale em sua versão do Batman – cai bem e acaba servindo a favor de Brody.

    Laurence Fishburne dá as caras e rouba a cena. Seu personagem, Noland, é um sobrevivente que acabou enlouquecendo no planeta alienígena, constantemente perseguido pelos Predadores. Ele vive entocado em uma nave abandonada, roubando água, comida e armas quando pode. Sua participação é perturbadora e muito estranha, mas é impossível desgrudar os olhos da tela.

    O filme também apresenta uma nova camada da sociedade dos Predadores. No primeiro filme, o clássico com Schwarzenegger, há apenas um monstrengo. Na sequencia, com Danny Glover (injustamente ignorada em Predadores), aparecem vários outros monstrengos e um pouco da sociedade. Agora, é revelado que os Predadores se dividem em castas. Os maiores caçam os menores (e os menores eram os astros de todos os filmes).

    Uma coisa que Predadores sabe fazer é manter o ritmo alto. Sempre há tensão ou ação na tela e é fácil se importar com o destino dos personagens. A direção é segura e as cenas de ação nunca ficam um borrão confuso de corpos se debatendo. Os planos são abertos e a câmera não se chacoalha. O duelo entre o membro da Yakuza e um predador é uma cena belíssima, fortemente inspirada em filmes e animês de samurais. A veia pop do produtor Robert Rodriguez aparece no decorrer do filme, citando outras referências cinematográficas. Quando Royce fala “Say goodbye to your little friend/ Diga adeus ao seu amiguinho”, fazendo referência a Scarface, é impossível não soltar um sorriso.

    Mesmo seguindo à risca alguns clichês, como os diálogos carregados de frases de efeito e as armas que nunca acabam a munição (exceto nos momentos mais dramáticos), Predadores faz isso muito bem e diverte. Muito. Brody se segura como um herói moderno e o filme acerta ao pegar os elementos que deram certo no primeiro filme e elevar tudo à máxima potência. Não é melhor que o clássico de 1987, mas coloca o Predador de volta no jogo.

    POR: [Gerhard Brêda]

  • Bom

    Encontro explosivo

    | James Mangold (diretor)

    Falar de Encontro explosivo, inevitavelmente, é deixá-lo em segundo plano e tratar principalmente de Tom Cruise e Cameron Diaz. Causadores de grande comoção numa visita recente ao Brasil em julho para divulgação, a dupla – que já se reunira em Vanilla sky - foi o foco de grande parte da imprensa ao tratar do longa (cujo título nacional é tradução genérica e pouco empolgante para o original Knight and day, como ocorre com 9 entre 10 filmes de ação lançados no país).

    Tom Cruise, claro, esteve no centro, bem mais que sua partner. É o ator pertencente ao “A-list” hollywoodiano; o excêntrico seguidor de uma igreja que prega a existência da vida na terra graças aos aliens; o multimilionário astro de filmes idem que dispensa dublês em cenas de ação...  Ele parece ter chegado a um ponto de sua carreira em que há o tipo Tom Cruise, modelo este que o ator parece mais do que satisfeito e seguro em seguir, após a aclamação em filmes como Magnólia e Jerry Maguire. Cameron, em um processo que já acontece há alguns anos, em filmes como Sorte e amor em Las Vegas, mostra - mesmo com todo o aparatos do culto à beleza de Hollywood  - que não vem envelhecendo bem. Numa indústria cruel como a do cinema americano, ela provavelmente não vai ter mais muitas chances de fazer o papel da loira gostosa, usando um mínimo da atuação dramática (o tipo Cameron Diaz).

    Como os dois são a razão do filme, pouco importa então que a trama soe esquizofrênica. Que vá, em questão de minutos, de Nova York para os Alpes, ou de uma escondida ilha nos trópicos para as estreitas ruas (e telhados) da Áustria e finalmente para a impagável corrida de touros em Sevilha na Espanha (e, curiosamente, não na cidade de Pamplona onde ocorre na realidade). Que trate de espionagem e também contra ela própria, falando de um magnético e bem humorado agente secreto em busca de uma bateria geradora de energia eterna, criada por um adolescente. E que também fale de amor perigoso e traição. Encontro Explosivo tinha todos os requisitos para ser um filme ruim. Para ser mais um veículo para seus protagonistas. Mas é bom. Graças à inovação alcançada através da inteligência de seu roteirista, cria algo consideravelmente novo dentro dos padrões já gastos do filme de ação e se torna um dos melhores filmes em cartaz. 

    Embora não seja nenhuma revolução, Encontro Explosivo reafirma uma grande habilidade do cinema americano de ação: criar cenas e situações de completo arrebatamento, que embora completamente absurdas (quem procura plausibilidade em um filme de ação?), parecem excitantes. Enfim, carros em chama voam de uma highway, enquanto uma pessoa armada se penduram no topo de um outro veículo em alta velocidade - ao mesmo tempo que mantém uma conversa pelo parabrisa com o motorista. O que dá também a inexplicável sensação de segurança, ainda dentro desta lógica e num filme deste orçamento. Sabe-se, pois, que,  não importa o tamanho do pepino, sempre há um jeito, digno de Houdini, de escapar da situação(ou como os personagens do filme dizem: “usar Houdini hands”). Aconteça o que acontecer, Tom Cruise não morrerá antes do final.

    É nesse humor charmosamente surreal que o filme ganha. Embora inove em alguns aspectos, outros são bastante bem definidas. Sugere uma figura de anti-herói, mas tem o esquema “bandidos (estrangeiros, óbvio) e mocinhos” bem demarcado. A concepção clássica americana do macho alfa violento, que  vem desde os tempos de Steve McQueen, também marca presença. 

    Usando e abusando do vertiginoso duo calmaria/confusão, o diretor James Mangold demonstra versatilidade ao atacar - com segurança - a área dos filmes de ação, depois de passar com sucesso pela biografia musical, com o premiado Johnny and June, e pelo western, em Os imperdoáveis. O filme conta ainda com uma curiosa participação de Paul Dano (Sangue negro e Little Miss Sunshine). Capaz de impressionar mesmo sem a assistência do 3D, Encontro Explosivo é um bom filme com dois atores, que pareciam estar se divertindo muito nas filmagens . É a sensação que todo mundo vai ter ao ver o filme. Que é para se ver nas primeiras fileiras do cinema.

    POR: [Daniel Passi]

  • Bom

    Shrek para sempre

    | Mike Mitchell

    Com a propagação em escala mundial do cinema em 3D, os grandes estúdios travam uma verdadeira batalha entre si a fim de explorar diferentes possibilidades de formato e também buscando maneiras de reinventar antigos personagens no embalo dessa recente onda digital. A Fox criou um mundo completamente novo em Avatar, a Disney mergulhou em Lewis Carroll para buscar Alice no País das Maravilhas, enquanto a Pixar tirou novamente os brinquedos do baú em Toy story 3, os maiores êxitos do cinema tridimensional até o momento. Para acirrar ainda mais a disputa, a DreamWorks volta aos pântanos do reino de Tão Tão Distante para contar aquela que parece ser a derradeira história do carismático ogro verde em Shrek para sempre

     

    Quando foi lançado, em 2001, Shrek surgia como uma versão mal comportada de um conto de fadas, completamente às avessas de qualquer convenção. Era desbocado, sarcástico, não perdoava nem mesmo as histórias que nossos avós ouviam antes de dormir. Chapeuzinho Vermelho, os Três Porquinhos, o Gato de Botas, Pinóquio e até mesmo Matrix entraram na mira de fogo do monstro, que era então o ser mais temido de seu universo. Seu charme vinha dessa constante iconoclastia, um destemor que não conhecia fronteiras e cujo humor era fruto da inteligência com a qual lidava com a paródia. De modos rupestres, ríspido e sujo, Shrek estava para a Pixar, estúdio até então dominante do mercado das animações, assim como os Rolling Stones estão para os Beatles — um contraponto venenoso, de resposta atrevida.

     

    Passados dois filmes e nove anos, onde os roteiristas destrincharam diversos cânones da literatura infantil e consolidaram a figura grotesca do ogro mundo afora, Shrek rende-se aos efeitos do 3D em um filme acomodado, bem diferente de sua dinâmica original e mais próximo dos manuais próprios ao gênero infantil. Domesticado, casado e pai de família, Shrek vê-se entediado com seu cotidiano banal e resolve fazer um acordo perigoso com o charlatão Rumplestiltskin, moleiro pobre das histórias dos Irmãos Grimm. Em troca de um dia de liberdade, com o direito de voltar a ser o instintivo e temido monstro do pântano que sempre foi, Shrek terá de abrir mão de um momento significante de seu passado, cujo resultado pode ser irreversível. Mais Sympathy for the devil impossível, não? Como não poderia deixar de ser, as consequências de tal aliança não são nada gratificantes para nosso herói. 

     

    Preservando o ritmo ágil e o humor sustentado por bons coadjuvantes, como o Burro Falante e os Três Porquinhos, Shrek para sempre flui agradavelmente e conjuga boas cenas de ação a um roteiro que consegue conciliar a crise existencial do protagonista com a fantasia de uma realidade inventada e repleta de figuras interessantes. As bruxas, por exemplo, carregam o mal em sua expressão e realçam a opção oportunista pelo 3D, que, a despeito das cenas de movimento incessante, não acrescenta praticamente nenhum elemento de vital importância para a narrativa, reduzindo-se simplesmente a um mero adorno. Mas não chega a ser um problema, já que o grande trunfo da franquia está mesmo no roteiro e na reconfiguração levemente subversiva que faz dos personagens principais.  

     

    Shrek para sempre, mesmo se distanciando do tom satírico que lhe fez fama e pendendo para a desgastada fábula moral, é um epitáfio digno da simpatia com a qual seus personagens nos fisgam já nas primeiras cenas, muito em função dos contornos com os quais são elaborados e também a partir de uma preocupação certeira com pequenos detalhes, como o simples levantar de uma sobrancelha ou a trava de segurança de uma carroça, que, no fim das contas, fazem toda a diferença.  

     

     

    POR: [Samuel Lobo]

  • Bom

    Almas à venda

    | Sophie Barthes

    Almas à venda é o novo filme de Charlie Kaufman — o roteirista it que ficou famoso por escrever historias kafkianas em que o amor, o absurdo e o surreal se misturam — em todos os sentidos exceto um: este não é um filme seu. É curioso ver como o homem responsável pelas histórias de Adaptação, Brilho eterno de uma mente sem lembranças e Quero ser John Malkovich conseguiu fundar uma verdadeira escola de roteiro moderno — ou modernoso — para o cinema tornando-se ídolo imediato de 11 entre 10 jovens aspirantes a roteiristas.

     

    Almas à venda na verdade é escrito e dirigido pela estreante Sophie Barthes, que, para um primeiro longa-metragem, faz um belo trabalho. A estrela é Paul Giamatti — o eterno coadjuvante de filmes como O resgate do soldado Ryan e O ilusionista e herói indie de filmes como Sideways e Um herói americano — interpretando ele mesmo. Ou melhor, uma versão dele mesmo como um ator atormentado pela montagem teatral de Tio Vânia, de Anton Tchekhov. Trata-se de um homem de meia idade em crise (papel em que Giamatti parece ter se especializado) que aproveita sua obscuridade, mas almeja uma realização profissional — para, logo em seguida, experimentar um alívio pessoal, pois, a seu ver, é algo impossível de ser alcançado.

     

    Sophie usa aqui um jogo de autorreferência mista de realidade e ficção que faz ecoar  Quero ser John Malkovich. Giamatti vê num anúncio de revista a possibilidade de exterminar suas inquietações: uma clínica que promete aliviar o sofrimento ao extrair, congelar e guardar a alma das pessoas. Ao perceber que sua alma foi extraviada para a Rússia — detalhe para a boa escolha dos cenários russos —, Giamatti embrenha-se no mercado negro de almas: compra, venda e tráfico internacional.

     

    Embora Almas à venda seja um bom filme, curiosamente sofre da mesma mazela dos feitos de Kaufman. Após a curiosidade inicial com a premissa se esvaecer, o filme não consegue se sustentar com o mesmo vigor. Mesmo tendo uma ideia original, o que faz o longa se garantir é a força de seu elenco — que conta ainda com Emily Watson e com David Straithairn, indicado ao Oscar por Boa noite e boa sorte. Embora em Almas à venda o tom seja um tanto mais soturno e menos bem humorado — destaque para as cenas de humor negro envolvendo Giamatti e o doutor responsável pela clínica de extração de almas, vivido por Straithairn — que nas produções de Kaufman, o filme consegue alcançar momentos de um lirismo mais profundo e tocante. Fora isso, Almas à venda é uma boa opção para aprender como se escreve um filme contemporâneo alternativo.

     

    POR: [Daniel Passi]

  • Excelente

    Vittorio de Sica - Minha vida, meus amores

    | Mario Canale, Annarosa Morri

    A vida de uma das figuras essenciais da história do cinema ganha um leve e delicioso registro (quase) a sua altura. Baseado principalmente em imagens de arquivo de especiais para a televisão italiana, Vittorio de Sica - Minha vida, meus amores traça um perfil do ator, diretor e homem quintessencialmente italiano Vittorio de Sica, um dos responsáveis pela renovação do cinema pós-guerra e ganhador do prêmio especialmente criado pela Academia para coroar a excelência de seu Ladrões de bicicleta, precursor do atual prêmio de Melhor Filme Estrangeiro.

     

    Usando o tradicional esquema depoimento/imagem de arquivo, o documentário poderia muito bem se encaixar como um extra de um DVD de algum de seus filmes. Através de testemunhos de familiares e colegas de trabalho, o clima geral é de merecida celebração. Mesmo ao expor suas fraquezas — como, via depoimentos dos próprios filhos, o fato de ter sido um pai negligente com duas famílias — o tom é leve e reverente. É abordado ainda o nada leve vício do diretor em jogatinas, mazela que o fez levar adiante projetos em que não acreditava totalmente, com resultados muitas vezes desastrosos, apenas para pagar as enormes dívidas contraídas nas mesas dos cassinos. Conta, em depoimentos do próprio de Sica, pérolas impagáveis — como quando foi parando estrategicamente em cassinos do litoral italiano e francês quando viajava com seu roteirista para a Espanha, onde apresentaria o projeto de um filme. Terminam sem o carro e esmolando para atravessar a fronteira.

     

    O filme serve também para mostrar o inusitado começo de carreira do diretor de filmes densos, como Umberto D. — um homem de modos teatrais, que começou como um ator de comédia popular, ídolo das matinês. Este fato transparece em alguns momentos de sua filmografia, sobretudo no início e nas produções menores.

     

    Recomendado até para quem nunca teve contato com a obra de de Sica, Minha vida, meus amores narra os pontos altos da carreira de um dos mestres do neo-realismo e é altamente ilustrado com cenas antológicas que se tornaram símbolo de toda uma geração do cinema. Dividido em pequenos capítulos, um é especialmente dedicado ao inesquecível duo Loren/Mastroianni, responsável por gravar o nome de de Sica na memória coletiva cinematográfica, com Girassóis da Rússia e Ontem, hoje e amanhã (Loren, no seu auge, é de uma beleza de tirar o fôlego). Há ainda curiosidades, como a participação de de Sica num bizarro filme de Andy Warhol sobre vampiros, rodado na Itália.

     

    Chama a atenção a participação inusitada de atores que tiveram a chance de serem dirigidos por ele, como Shirley Maclaine e Clint Eastwood, convencido a fazer comédia pelo respeito que tinha pelo diretor e, segundo o produtor, por conta de seu pagamento: uma ferrari. Woody Allen, embora não tendo trabalhado com de Sica, aparece confessando sua admiração e incredulidade ao saber que de Sica assistiu a mais de uma vez seu segundo filme, Bananas.

     

    Típico documentário que abre em poucas salas e sai rápido de cartaz, Minha vida, meus amores, porém, deve ser assistido nos cinemas, para se ver as cenas clássicas em toda a sua magnitude, mesmo que curtas de duração. Afinal, Vittorio de Sica - Minha vida, meus amores é mais que o retrato de um diretor. É uma verdadeira celebração da arte cinematográfica.

    POR: [Daniel Passi]

  • Regular

    Eclipse

    | David Slade

    Em termos diretos, Eclipse é o melhor filme da saga Crepúsculo. Isso não quer dizer que seja bom, mas quer dizer que a cada versão, a equipe por trás das adaptações aprende um pouco. Com ocasionais boas performances e cenas de ação, direção mais segura e tentativas de fazer humor, o filme se sustenta como um blockbuster decente.

    Após os eventos que não mudaram muita coisa de Lua nova, o relacionamento de Bella (Kristen Stewart) e Edward (Robert Pattinson) está na mesma. O vampiro quer se casar e a moçoila quer virar vampira, mesmo a contragosto de seu pálido namorado. Por outro lado, o relacionamento de Bella com Jacob (Taylor Lautner), está deteriorado. O lobisomem está apaixonado e não aceita que a garota queira se vampirizar. É um triangulo amoroso melodramático, aonde tudo é exagerado. Todos os sentimentos são amplificados, o amor é grande, a dor é imensa e a saudade alucinante. Hormônios, pelo visto, também afetam os monstros.

    A grande vilã do filme é a vampira Victoria (Bryce Dallas Howard), que deseja se vingar de Edward, matando Bella. No primeiro filme, o vampiro assassinou James, o amor de sua vida. Para isso, a ruivinha convoca um exército de vampiros para atacar a cidade de Forks. Por trás dos panos, os Volturi – aqui, liderados por Jane (Dakota Fanning) – podem intervir a qualquer momento.

    Eclipse acerta em tentar se aventurar pelo humor. Uma pena que a direção não tenha, por vezes, o timing cômico correto. Em uma cena, Edward caçoa do fato de Jacob nunca usar uma camisa, mas a edição corta rápido e sufoca a chance de qualquer risada com o abdômen definido do rapaz.

    O elenco é instável. Kristen Stewart entrega sua melhor performance como Bella e, no geral, faz um bom trabalho. Não é tão fácil detectar a garota abobalhada de Crepúsculo em Eclipse. Até mesmo o infame hábito de morder o lábio foi contido no filme. A cena na qual a garota tem uma conversa sobre sexo com o pai, Charlie (Billy Burke), é um dos pontos altos do filme e consegue arrancar genuíno constrangimento, mas pelos motivos certos.

    Billy Burke, aliás, é o melhor ator do filme. Como Charlie, ele tem timing cômico e consegue se mostrar um pai protetor, mas não obsessivo. Em meio a tantos sentimentos fabricados e descabidos, Burke se destaca com sua atuação correta de um pai que ama a filha, mas entende as transformações da adolescência.

    Já Pattinson e Lautner raramente conseguem arrancar boas cenas. Pattinson, quando suspende sua cara de cão abandonado, consegue trazer alguma simpatia para seu personagem. Lautner mostra sua limitação constantemente e é possível ver as engrenagens se movendo em sua performance, passando de feliz para irritado, circunspecto para irritado, irritado para enfurecido.

    O dúbio troféu de pior papel, no entanto, vai para Dakota Fanning. A participação dos Volturi no filme é similar à sexualidade da franquia: ameaça decolar, mas, na hora da verdade, não vai a lugar nenhum. Ela e seus dois asseclas andam vagarosamente, com semblantes sérios, de um lado para o outro e não cumprem função alguma na história. Fanning foi longe demais em sua interpretação de vilã e simplesmente se transformou em um andróide sem sal.

    A sexualidade, grande questão da série, se mantém nebulosa. Bella, ainda virgem, deseja se entregar para Edward, que recusa. O bom rapaz quer, antes de tudo o matrimônio. Só depois de colocar o anel no dedo e assinar a papelada, Edward quer fincar os dentes e outras coisas em Bella.  


    A estrela do filme, para aqueles que não suspiram quando Edward e Bella trocam palavras piegas de amor eterno, são as cenas de ação. E são muito boas. Pela primeira vez na tela, vampiros são atingidos com violência e é interessante ver que o papo de “pele de diamante” não ficava só nos poros brilhantes. Em vez de sangrarem, os sanguessugas trincam, racham e se despedaçam, como se fossem estátuas. Os lobos também receberam uma maquiagem e estão mais realistas do que em Lua nova. A batalha principal entre os Cullen e os novos vampiros é, infelizmente, breve, mas é um dos pontos altos do longa.

    Socialmente, pode-se dizer que Eclipse faz um desserviço à modernidade, explicitamente colocando o sexo após o casamento em um pedestal, mas como filme, entretém. O romance é exageradamente teen, mas o arco final é genuinamente tenso e, no geral, arranca as melhores performances dos atores. Mesmo com o ritmo se arrastando lá pelo meio do longa e o melodrama nas alturas, não é insultante como Crepúsculo nem abarrotado de falhas como Lua nova. Eclipse não é sensacional, mas a série está crescendo, assim como os fãs.

    POR: [Gerhard Brêda]

  • Excelente

    Brilho de uma paixão

    | Jane Campion

    A cineasta neozelandesa Jane Campion tem o costume de filmar mulheres fortes, obstinadas. Em Um anjo em minha mesa, seu primeiro filme, retrata a história de uma mulher considerada esquizofrênica que supera obstáculos para se tornar uma escritora de sucesso; em O piano, o mais premiado e conhecido de seus trabalhos, Holly Hunter interpreta uma pianista que desafia o silêncio para se impor diante de um ambiente hostil e faz da arte seu único elo de ligação com o mundo exterior. Já Brilho de uma paixão, o primeiro longa-metragem que Campion dirige desde 2003, apresenta uma personagem feminina que enfrenta diferenças econômicas e sociais para ficar ao lado de sua grande paixão, o poeta inglês John Keats.

     

    São as turbulências envolvendo o romance entre os amantes que dão o tom em Brilho de uma paixão, um filme adulto, repleto de sutilezas, que exige uma imersão por parte do espectador devido ao seu ritmo lento e contemplativo, empenhado em descortinar a nuvem sentimental que fomentou a produção literária do poeta, morto precocemente aos 25 anos. Os compassos de sua rebuscada poesia surgem em diversos momentos, cadenciando as rimas das estações interiores do casal e intensificando os dilemas que cercam um amor impossível, impedido de se consumar.

     

    Alheia a arroubos estéticos e invenções de linguagem, Campion compõe um painel delicado para recriar o cenário da Inglaterra em que o Romantismo conhecia seu auge, e confere à narrativa elementos específicos à escola literária da qual seu protagonista fazia parte. A ligação com a natureza, por exemplo, marca várias cenas em que a expressão bucólica do ambiente é pintada como se fosse um quadro de pinceladas leves, onde os personagens contracenam com planícies floridas e espaços abertos que a belíssima fotografia elabora de forma a revelar o estado de espírito dos jovens amantes. 

     

    Acompanhamos, então, o encontro entre Fanny Brawne e John Keats — interpretados com naturalidade por Abbie Cornish e Ben Whishaw, ambos totalmente entregues às tormentas de seus personagens —; o florescer da paixão entre os dois (com um esmero particularmente especial no que tange aos diálogos desse momento, simplesmente saborosos); o surgimento de um amor que provoca os conceitos morais de uma sociedade rígida e o fim trágico, catalisado pela tuberculose que castigou uma existência errática marcada pelos excessos de uma passagem desregrada. Em uma época em que o amor era a mais libertária das formas de expressão, entregar-se a ele abertamente era a única maneira de acreditar que se pode criar poesia através da existência, simplesmente vivendo.

     

    Nesse sentido, Brilho de uma paixão se aproxima de outro grande filme sobre a tristeza que o amor em excesso carrega consigo: Adele H, de François Truffaut, em que a filha do escritor Victor Hugo se vê condenada a vagar eternamente por caminhos errantes por não ter sido correspondida pelo homem que ama. Exaltando a sensibilidade dos pequenos momentos através de imagens líricas inseridas em uma atmosfera suave, Brilho de uma paixão faz uma elegia ao amor para revelar que nem os que amam demais escapam ao destino de ser tristes.

     


    POR: [Samuel Lobo]

  • Excelente

    O profeta

    | Jacques Audiard

    Finalmente eis um filme capaz de impressionar o espectador através de suas tintas pesadas e sua vibração ininterrupta e pulsante. O profeta é um exercício de complexa elaboração realizado pelo cineasta francês Jacques Audiard, que se apropria da máxima literária para confirmar o êxito de sua proposta — quanto mais difícil de escrever, mais fácil de ler. Em meio a um circuito exibidor que respira com dificuldade, carente de obras de expressão, O profeta surge como uma alternativa vigorosa cuja força depõe diversas pré-concepções consolidadas e constrói um personagem brilhante através da interseção entre máfia e polícia.

     

    No início do filme, acompanhamos o árabe Malik El Djebena, um jovem arredio e amedrontado, em seus primeiros passos após ser confinado numa penitenciária. A intimidação do lugar, reforçada pelas manifestações de agressividade e intolerância por parte de seus companheiros, corroboram a noção que se tem acerca do sistema prisional como um lugar cruel e desumano. Mas bastam poucos minutos para que Audiard subverta nossas concepções e trace um painel diferenciado para seu protagonista. Analfabeto, Malik tem na cadeia a possibilidade de aprender a ler e escrever; solitário, encontra proteção e instrução para lidar com os perigos do ambiente que o cerca; subserviente, vai aos poucos adquirindo confiança até destituir hierarquias e se impor diante do seu universo, cercado de grades e muros com arame farpado.

     

    Durante esse processo de fortalecimento individual, Audiard parece derrubar uma ideia viciada cuja solução para alguns se aproxima de uma utopia — a de que um preso é incapaz de se regenerar na cadeia. Em vez de afundar na ruína que o espaço que ocupa lhe reserva, Malik passa por uma metamorfose impressionante, responsável não só por regenerá-lo, mas por adaptá-lo a uma sociedade que desconhece fronteiras no que diz respeito ao cumprimento de leis. Da violência inerente ao cárcere, Malik subtrai forças para se reinventar, lentamente, com o ímpeto e a grandeza de uma personalidade no esplendor de sua formação.

     

    A Audiard não interessa como julgamento de valor a conotação das atitudes tomadas por seu protagonista para concretizar seu processo de reconstrução — os fins justificam os meios. Para isso, a penitenciária, geralmente associada a um lugar claustrofóbico e opressor, ganha dimensões abrangentes e esparsas, em poucos momentos parecendo de fato uma prisão, com a intenção de contribuir espacialmente para a transformação de Malik (a maioria dos planos são abertos, criando uma sensação maior de mobilidade). O retrato desse microcosmo é apresentado através de uma narrativa vigorosa, que as divisões do roteiro encaixam de forma a enriquecer a intricada teia de personagens, todos eles pairando ao redor de questões ligadas ao crime, à vingança e às turbulências sócio-raciais existentes na Europa contemporânea.

     

    Imprimindo um ritmo ágil e necessário para suas 2h30 de duração, privilegiado por cortes rápidos e secos, como das impactantes cenas de assassinato, O profeta solidifica a carreira de Jacques Audiard, conhecido do público brasileiro por meio de longas como De tanto bater, meu coração parou e Sobre meus lábios, como um dos mais notáveis realizadores franceses em atividade, e, de quebra, é desde já um dos grandes filmes do ano.

     


    POR: [Samuel Lobo]

  • Bom

    A jovem Rainha Victoria

    | Jean-Marc Vallée

    Excelente recriação da vida na corte num dos períodos mais importantes da história da Inglaterra — e do mundo — A jovem Rainha Victoria é um ótimo filme. De amor sem ser piegas, de época sem ser pedante e grandioso ou perder a face humana, o filme consegue achar um bom equilíbrio entre suas partes. Escrito pelo roteirista de Assassinato em Gosford Park, Julian Fellowes, a história narra a passagem do fim da adolescência para os primeiros anos de reinado da rainha Victoria. Usando artifícios técnicos como edição rápida e inovadores truques de câmera que não soam forçados — destoa, talvez, o uso desnecessário de um truque recorrente nos filmes de Spike Lee, de fazer o personagem parecer flanar em vez de andar — o diretor Jean-Marc Vallée consegue trazer frescor a uma estrutura clássica. A rainha aqui é Emily Blunt, e a estranheza de ver uma figura real diferente das imagens clássicas — a mais famosa uma fotografia tirada em 1887 onde se vê uma mulher austera, velha e acima do peso — é logo dissipada pela boa e sutil atuação da atriz.



    No que diz respeito ao que mais ganha destaque numa produção de época, os figurinos, A jovem Rainha Victoria acerta em cheio ao não imobilizar os personagens em seus trajes. As roupas têm o seu lugar, não roubam toda a atenção, mas convenceram a Academia em 2010, levando o Oscar na categoria. Em parte isto se deve à trama ser ambientada na segunda metade do século 19, uma época já com um tanto menos de pompa e exuberância.

    A história pode ser resumida a um conceito básico: não é fácil ser rainha. Em A jovem Rainha Victoria, encontramos paralelos claros com o filme de 2007 A rainha. Embora trate de dois períodos diferentes, ambos servem para mostrar como, devido à rígida criação e o distanciamento atrás dos portões do palácio, a figura da rainha da Inglaterra é a de um dos seres humanos mais isolados da Terra — tendo, além de tudo, uma nação inteira pronta para crucificá-la ao menor passo em falso.



    Embora dê ênfase a acontecimentos um tanto supérfluos para aumentar a carga dramática, A jovem Rainha Victoria é uma arrebatadora história de amor. Contando os pormenores da união entre a rainha e o Príncipe Albert, fica bem claro também que monarquia e matrimônio não é a melhor combinação para um casal recém-casado. O filme talvez peque ao não mostrar inteiramente o cinismo e as picuinhas existentes na sociedade vitoriana da época, mas, por outro lado, não deixa estes elementos envenenarem a celebração do amor de um dos casais mais célebres da História.

     

     

     

    POR: [Daniel Passi]

  • Bom

    Toy story 3

    | Lee Unkrich

    Depois de mais de uma década de saudades, Woody, Buzz Lightyear e trupe, aqui acrescida de dezenas de novos personagens, fazem um retorno tridimensional emocionante. Toy story 3 não causa exatamente a mesma excitação que colocou a Pixar no mapa, lá em 1995, mas onde falta inovação, sobra uma boa história, recheada da nostalgia, leveza e simplicidade características da franquia.

     

    Nesta continuação Andy tem 17 anos e se prepara para ir à faculdade — fato que tormenta as cabecinhas de plástico dos brinquedos. Tudo o que eles querem é entreter a imaginação de uma criança amável, mas um sótão sombrio e úmido — uma opção triste, mas palatável — é seu destino mais provável. Por engano, contudo, a mãe de Andy leva o saco preto recheado com nossos heróis de borracha para a creche Sunnyside (pelo menos não foi o lixo!). Chegando no ensolarado local, eles conhecem uma dezena de novos brinquedos e o ser estofado cuja voz fala mais alto por ali. O urso Lotso, aromatizado de, argh, morangos silvestres, explica que agora eles serão genuinamente felizes, servindo eternamente de brinquedos para crianças ávidas por diversão.

     

    É por aí que o questionamento existencial começa a fervilhar os miolos siliconados de Woody, Buzz, Rex, sr. e sra. Cabeça de Batata, Porquinho e tantos outros. Eles não são mais os brinquedos de Andy. Sempre souberam, em suas juntas sintéticas, que em algum momento isso aconteceria, e então devem lutar por dignidade e sobrevivência. E é na creche, onde crianças sempre vêm e vão sem nunca envelhecer,  que os bonecos de plástico podem encontrar algum carinho. Mas não é exatamente isso que Lotso, com um passado de perda traumático, tem a lhes oferecer, alocando a trupe na sala para pré-escolares — sinônimo de mordidas, babadas, membros perdidos e todo o tipo de tortura inocente.

     

    Numa reviravolta, porém — sra. Cabeça de Batata esqueceu um olho em casa e consegue ver o que se passa por lá... — os brinquedos descobrem que Andy os procura avidamente em casa e decidem escapar da prisão comandada por Lotso e seus comparsas. Toy story 3 vira um filme de fuga de prisão, com todas as referências possíveis ao gênero. O 3D não faz nenhum peça pular no seu colo ou causa incômodo algum. Mas, como na maioria das vezes dos que aderiram à febre do verão americano, é completamente dispensável.

     

    Toy story 3, porém, não é. O motivo que sustenta a animação, além dos milhares de dólares que certamente retornarão aos estúdios, é a forte ligação emotiva dos personagens, tão bem trabalhados. Trata-se aqui da história de um ciclo de vida, que tocou crianças e adultos em 1995, e sobrevive em sua segunda continuação, um tanto mais sombrio, por ser um fecho depois de tantos anos. O entretenimento, a leveza da distração, alcança os 90 minutos do longa, e não se propõe a enveredar em clichês heróicos ou tensões em ápices, comuns aos blockbusters. As risadas continuam lá e vêm naturalmente, seja de um Ken canastrão ou das peripécias de um Buzz mal configurado.

     

    Entre conquistar nova audiência e não decepcionar os antigos fãs, hoje crescidos, Toy story 3 apela aos dois lados, sem desequilíbrio. Tanto os mais novos como os mais velhos tiveram seus brinquedos preferidos e já encararam algum tipo de perda ou escolha difícil. A mensagem fica bastante óbvia no final, o que poderia ser um tanto menos explícito, mas causa emoções genuínas por um monte de plástico. Sobretudo se o amontoado evocar o que descartamos em nossas vidas, com tanta facilidade, ou o que escolhemos deixar para trás, a contragosto. Isso faz parte do ciclo, inevitável como o dia e a noite, complementares, como o estúdio apresenta no espetacular curta Dia & noite, exibido praticamente como prólogo do que vem a seguir. 

     


    POR: [Marcella Huche]

  • Regular

    A ressaca

    | Steve Pink

    A comédia dirigida por Steve Pink (em inglês, Hot Tube Time Machine) recebeu tradução para o português idêntica a um dos maiores sucessos do cinema de 2009 e já começa, portanto, com o pé esquerdo. A escolha peca não somente pela falta de criatividade, mas pelas inevitáveis comparações com o engraçadíssimo longa de Todd Phillips que, de longe, bate o filme deste ano na maioria absoluta dos quesitos.

    A história traz três grandes amigos da juventude que – frustrados, em crise de meia idade e entediados com a própria vida – se encontram muitos anos depois e, após uma noitada de bebedeira, acordam em 1986, transportados no tempo por uma banheira de hidromassagem. Os fracassados tem então uma chance para reviverem o passado e , sobretudo, tentar mudar o futuro: um bom ponto de partida para o longa. A boa premissa, entretanto, rapidamente desmorona nos primeiros minutos do filme, que não consegue convencer com o roteiro fraco.

    A história se desenrola com pouca ousadia e não é difícil prever onde cada cena desemboca. O ápice cômico está em Rob Corddry, muito bem no papel do Lou, um alcólatra descontrolado e festeiro que empenha-se em auto destruir-se. John Cusack (interpretando o ressentido Adam, deixado pela namorada), Craig Robinson (caricato na pele de Nick, marido fiel) e o jovem Clark Duke (Jacob, seu sobrinho nerd, fã de videogames) estão apenas convincentes em seus papéis, mas não surpreendem.

    Algumas sequências (a maioria delas protagonizadas por Corddry) arrancam gargalhadas, mas no geral o filme não empolga pela comédia e muito menos pela história. Fica nítida, por exemplo, uma certa falta de coragem de se levar algumas ideias ousadas adiante e não é difícil sentir-se frustado ao final das cenas com o que elas poderiam ter sido: um possível erro de principiante do diretor.

    Apesar de este ser apenas o segundo filme dirigido por Steve Pink (é dele a comédia Aprovados, de 2006), sua parceria com John Cusack é longa. Eles atuaram juntos, por exemplo, nas comédias Garota Sinal Verde (um dos primeiros filmes de Cusack, de 1985), Matador em Conflito (1997) e Os Queridinhos da América (2001): roteirizou os dois últimos. Pink também adaptou e co-produziu a adaptação da obra-prima de Nick Hornby, Alta Fidelidade (2000), protagonizada por Cusack.



    POR: [Philippe Noguchi]

  • Excelente

    Kick-ass: Quebrando tudo

    | Matthew Vaughn

    Kick-ass: Quebrando tudo abre com um questionamento interessante. Como é possível que em um mundo com 6 bilhões de habitantes, nenhum decida se tornar um super herói? Dave Lizewski (Aaron Johnson) não está satisfeito com isso. Com uma roupa de ski comprada da internet e dois bastões, o rapaz adota a alcunha de Kick-Ass e decide fazer justiça com as próprias mãos. Sua primeira missão, contra dois assaltantes, acaba mal quando o garoto é esfaqueado e atropelado. Dave se recupera, mas perde parte da sensibilidade. Origem mal explicada e implausível para uma vantagem contra os heróis? Parece uma história de super heróis se formando no horizonte.

    Bem, não é. Mesmo com a alta tolerância à dor, Kick-Ass continua sendo um nerd que não tem perícia alguma de combate. O verdadeiro trabalho de fazer justiça com as próprias mãos (e facas, armas e granadas) está a cargo de Big Daddy (Nicolas Cage) e Hit Girl (Chloe Moretz), pai e filha, que buscam derrubar o império criminoso de Frank D’Amico (Mark Strong).

    Kick ass: Quebrando tudo nada mais é que uma versão videoclíptica, geração MTV e punk rock de Watchmen, a obra prima de Alan Moore e Dave Gibbons (adaptada ao cinema por Zack Snyder). O que está na tela é: “Quão insano, incrível e hilário seria se existissem super heróis?”. Enquanto Watchmen encara a situação de forma dramática, sisuda e profunda, Kick ass mira na comédia e no choque, mas tem tanto sucesso quanto. Ver a garotinha Hit Girl, de 11 anos (13 na vida real) levar tiros, ser espancada, atirar e matar de forma brutal e acrobática é uma experiência que pode ofender os mais conservadores, mas é, no fim das contas, sensacional e divertidíssimo. A garota, que dispara alguns palavrões, rouba a cena quando aparece.

    Outro que rouba a cena é Nicolas Cage. Finalmente. O ator, preso em papéis terríveis e atuações burocráticas nos últimos anos, já começava a caminhar para virar um clichê de si mesmo, mas em Kick ass brilha. No papel do vingativo (e certamente psicótico) ex-policial Damon McReary (e o vigilante vestido como o Batman, Big Daddy), o ator mostra doçura no tratamento com a filha, que treinou para se tornar a Hit Girl, e brutalidade com os criminosos. A cena na qual Damon atira na garota para mostrar como um colete a prova de balas funciona é impagável. A ação na tela é de violência extrema (um pai atirando quase a queima roupa na filha de 11 anos), mas os diálogos são mais doces que um torrão de açúcar. Brilhante.

    Mark Strong também está convincente como o vilão Frank D’Amico, embora seja um papel sem muitas surpresas. É um gangster default, sem muitas firulas, feito como de acordo com o manual. O ator tem potencial para ser um excelente Sinestro em Lanterna verde.

    O elo fraco do filme é Christopher Mintz-Plasse, que interpreta o filho de Frank, Chris D’Amico e o herói Red Mist. Plasse arranca gargalhadas da plateia, mais pelo lendário McLovin, de Superbad, do que por qualquer relevância na trama ou piada na tela. O personagem de Chris, especialmente no alter-ego Red Mist, nada mais é que um deus ex machina que move adiante o roteiro. Plasse é engraçado, mas infelizmente, não tem muito alcance de performance. O garoto vai ser, pra sempre, o McLovin.

    Com bom ritmo, excelente edição e bons personagens, Kick ass é um dos filmes de super herói mais divertidos já feitos. Se o filme não ficar conhecido pelo herói principal ou pela garotinha com a boca suja e armada até os dentes, vai ser lembrado por ter o papel que trouxe a carreira de Nicolas Cage de volta à vida.

    POR: [Gerhard Brêda]

  • Regular

    Cartas para Julieta

    | Gary Winick

    A comédia romântica, uma das instituições-mór do cinema norte-americano, ganha mais um reforço para as suas fileiras. Quem procura os pilares básicos deste gênero em Cartas para Julieta sairá mais do que satisfeito. O espectador encontrará, óbvio, cenas de Nova Iorque (com a onipresente tomada inicial de Manhattan vista por cima), mal entendidos, trilha sonora bonitinha e pessoas mais ainda, olhares apaixonados, panorâmicas do interior de um país da Europa ocidental vista por olhos americanos e choque de culturas — ou melhor, coleção de estereótipos.  

     

    Se não encontramos o Hugh Grant propriamente dito, há aqui um forte candidato a sucessor do galã britânico — embora australiano de nascença, Christopher Egan apresenta todos os tiques necessários para se tornar uma estrela do gênero. Definição do clichê "filme de mulherzinha", Cartas para Julieta é, no geral, uma superdose de feromônio em todos os aspectos possíveis.   

     

    Sophie, a atriz/bonitinha Amanda Seyfried de Mamma mia e Meninas malvadas, é uma pesquisadora do New Yorker que sonha com a chance de se tornar escritora. Ela é fiancée de Victor, um latino freneticamente entusiasmado que se esforça ao máximo para parecer um italiano com seus trejeitos ora charmosos, ora uma espécie vulgar de Borat. Interpretado por um Gael Garcia Bernal completamente fora de seu elemento, Victor é um chef de cozinha ocupado em abrir um  restaurante. Para tal, faz uma visita aos seus fornecedores em Verona, na Itália. Sophie acompanha-o no intuito de passar uma pré-lua de mel.

     

    Uma vez lá, negligenciada pelo namorado e com tempo de sobra para turismo, conhece um grupo de senhoras que se ocupam de responder as cartas com dilemas amorosos deixadas sob a varanda da Julieta de Shakespeare. Sophie vê nesta atividade uma boa maneira de passar o tempo e resolve participar respondendo uma carta de Claire, datada de 1951. Alguns dias depois, Claire, agora uma avó e entusiasmada por ter recebido uma resposta mais de cinquenta anos depois, parte para a Itália acompanhada pelo neto (Egan) em busca de Lorenzo, por quem fora apaixonada na juventude. Sophie vê na situação uma ótima matéria para a revista: logo, todos saem Toscana afora, à procura de Lorenzo.

     

    Já  temos uma ideia bastante clara de tudo o que vai acontecer desde o começo da trama. Escrito pelo roteirista indicado ao Oscar por Diários de motocicleta José Rivera, não espere — com exceção de Gael Garcia Bernal e de grande parte do filme se passar numa estrada — absolutamente nada semelhante: este é mais uma produção saída das linhas de montagem dos grandes estúdios para agradar quase que exclusivamente as mulheres.  

     

    Se há  um elemento que valerá, se não todo, parte do preço do ingresso, ele se chama Vanessa Redgrave. Com uma elegância atemporal, a atriz britância parece flanar sobre o resto do elenco, interpretando a senhora Claire. Cartas também ganha pontos ao reforçar a velha noção do cinema-entretenimento como uma das melhores formas de escapismo existentes: serve quase como uma viagem de 90 minutos por belíssimas paisagens do sul da Itália, para as quais a história nos transporta. 

     

    Com cenas "fofinhas", algumas emocionantes, como aquela em que Claire penteia o cabelo de Sophie — linda cena que parece se desprender do filme — e outras dolorosamente constrangedoras, como a chegada de Lorenzo, Cartas é quase um guia de como fazer uma comédia romântica. Se encarado no estado de espírito certo, que mal tem?

     


    POR: [Daniel Passi]

  • Regular

    A última música

    | Julie Anne Robinson

    Se faz muito tempo que você deixou de ser adolescente talvez desconheça a boa fama de Miley Cyrus. Filha do cantor country Billie Ray Cyrus, Miley é conhecida por seu papel como Hannah Montana, a menina que se dividia entre ser uma garota comum e também uma famosa cantora teen. Nada mais apropriado. 

     

    Da atual safra de estrelinhas da Disney, Miley é uma das mais bem sucedidas. Tanto que chegou a hora de ingressar em outro mercado, o dos romances adolescentes. Acompanhando as mudanças de seu público, a atriz-cantora encara agora conflitos mais adultos, ou talvez menos abobalhados.  

     

    Aliás, conflito é o que não falta na trama roteirizada por Nicholas Sparks — curiosamente roteirista de outro filme em cartaz: Querido John. Na história de Ronnie (vivida por Miley) aquilo que não é problema, é clichê: desde a ideia toscamente desenrolada sobre a preservação de uma ninhada de tartarugas marinhas até uma doença terminal, a mocinha ainda terá que lidar com preconceitos de classe, conquistar novos amigos e viver a dores e delícias de sua primeira paixão. O saldo disso tudo é a constatação da fragilidade do talento dramático de Miley.

     

    Mesmo chamando Greg Kinner para representar a ponta forte do drama entre pai e filha, nem de longe dá para emular a simpatia da carismática família de Pequena Miss Sunshine. Pouca comédia e muito drama fazem de Ronnie uma garotinha blasé na maior parte do tempo. E quando o bicho pega, ela até tenta chorar, mas não convence. Fora isso, o ritmo condensado do filme deixa o roteiro com  um jeitão robótico, e o projeto transparece toda sua natureza de comida congelada: compacto, industrializado e pouco temperado. 

     

    No entanto, nada disso é páreo para a arrecadação polpuda que o filme conseguiu em seu primeiro final de semana em cartaz nos EUA, o que leva a pensar que talvez os adolescentes criados à base de tanto fast-food e conservantes não tenham o paladar treinado para reconhecer as pequenas delicadezas que podem estragar o sabor de um filme. Ou, quem sabe, nada disso realmente importe e Miley Cyrus seja um símbolo do futuro do cinema. 

     


    POR: [Georgiane Euzebio]

  • Bom

    Esquadrão classe A

    | Joe Carnahan

    A adaptação para o cinema de Joe Carnahan para a clássica série de TV americana da década de 80 é ação pop em toda a sua glória. O remake é um excelente presente para os fãs de B.A. Baracus, seu furgão e companhia; e uma grata surpresa para os mais novos que não conhecem esses excelentes personagens da cultura pop americana. São eles o ponto alto deste filme que desconhece a palavra "verossimilhança", mas tem compromisso com o gênero de ação e o apresenta em sua melhor forma.

    O remake traz os mesmos personagens, com algumas mudanças. O esquadrão que era de veteranos da Guerra do Vietnã na série é transformado num grupo especial de combatentes da Guerra do Iraque e o furgão de B.A., numa caminhonete esportiva, por exemplo. Mas a história é praticamente a mesma da série, com uma pegada contemporânea: o Esquadrão, sabotado por um comandante do exército, é condenado à prisão por uma corte militar por um crime que não cometeu. Mas os homens escapam rapidamente da cadeia de segurança máxima e procuram provar que são inocentes.


    Seguindo o padrão dos grandes blockbusters americanos, não encontramos em Esquadrão classe A um grande roteiro — todos (ou quase todos) os acontecimentos se desenrolam sem grandes explicações, em favor das sequências de ação de tirar o fôlego. O experiente Liam Neeson (que interpreta o líder do grupo, Hannibal Smith) comanda o quarteto entrosado de atores: Bradley Cooper é o galã fanfarrão Cara-de-Pau; o excelente Sharlto Copley encarna o piloto enlouquecido Murdock; e o lutador Quinton "Rampage" Jackson faz B.A., talvez o personagem mais popular entre os fãs da série. Todos, sem exceção, estão muito bem em seus papéis, com destaque para Copley. Jessica Biel também não deixa a desejar como a comandante Charisa Sosa.

    A comédia, aliás, é outro trunfo deste blockbuster. A insanidade do grupo contrasta o tempo todo com as figuras dos personagens. Cara-de-Pau é um grande playboy que consegue sempre o que quer pela inteligência, enquanto B.A. é bruto e meigo ao mesmo tempo. Murdock rouba a cena (e gargalhadas) agindo no limiar entre o genial e o lunático. As cenas de ação são tecnicamente muito bem executadas e com bons efeitos especiais, ofuscando a trama que, embora seja interessante, acaba em segundo plano.

    POR: [Philippe Noguchi]

  • MuitoRuim

    Plano B

    | Alan Poul

    Bem fraquinha esta comédia romântica dirigida por Alan Poul e estrelada por Jennifer Lopez e o australiano Alex O’Loughlin. A trama do filme (se assim pode-se chamar) já não é das mais empolgantes. Gira em torno de Zoe (J. Lo), uma mulher de trinta e poucos anos encalhada que resolve começar uma família por si mesma e faz inseminação articial. No mesmo dia (claro) conhece apaixona-se pelo bonitão dos seus sonhos (O’Loughlin), que pouco tempo depois resolve manter o namoro mesmo descobrindo o “brinde” inesperado. Ok até aí.

    Talvez o filme fosse somente mais uma comédia bobinha e divertida se não fosse o roteiro constrangedoramente ruim que lhe foi dado. Trata-se de um desastre completo. A primeira sequência do filme já anuncia o amadorismo. Na cena, Jennifer Lopez aparece deitada em uma cama de hospital com um terrível pensamento em off, na qual expõe o seu dilema com os homens e a vontade de engravidar. Golpe dos mais baixos. Entre tantas outras maneiras de se introduzir a história, o roteirista apela para a mais fácil.

    Como toda comédia romântica padrão que se preze, não há trabalho para quem assiste, está tudo ali, mastigado. Resta, oras, a comédia, a salvação do gênero. O problema é que nela, justamente, Plano B falha miseravelmente. O longa se arrasta por 1h40min de piadas sem graça e chega a constranger com a falta de criatividade do roteiro, que não somente usa e abusa das velhas fórmulas como consegue piorá-las, tornando-as indigestas.

    Apesar da total falta de química com Alex O’Loughlin, a atuação de Jennifer Lopez é quase o ponto alto (seria médio?) do filme, o que já é um indício de que algo está muito errado. No fim das contas, Plano B é um filme para contribuir negativamente com a carreira já um tanto infeliz de J.Lo no cinema e para afundar de vez a moral do diretor Alan Poul, que entrega a bomba como sua primeira incursão no cinema depois de uma carreira na TV.



    POR: [Philippe Noguchi]

  • Regular

    O golpista do ano

    | Glenn Ficarra e John Requa

    O golpista do ano é uma história sobre segredos. É deles que o protagonista da trama, Steven Russell (Jim Carrey), tira sustento, proteção e amor; é sobre eles que se equilibra a trama verídica amarrada por Glenn Ficarra e John Requa, também diretores, a partir do livro de Steven McVicker. Trata-se de uma comédia independente americana, sobre a vida real de um trambiqueiro gay, disposta a arregalar olhos e rasgar sorrisos irônicos, sem pesar o humor negro. Dispa-se de expectativas. Esse filme, como seu protagonista, se delicia em esconder segredos, trapacear, mentir e desafiar perspectivas. 


    As primeiras cenas do filme se desenrolam num ritmo frenético, capaz de fisgar o mais sonolento dos espectadores. Deitadas num campo verdejante do Texas, crianças investigam as formas inusitadas das nuvens no céu. Esse mesmo céu pueril, de nuvens castas e azul intenso, aparece como lembrete em diversas situações nos próximos 90 minutos — é ali que se esboça o paraíso e se delineia o limite de nosso carismático protagonista subversivo.  


    Do céu ao inferno. Numa das melhores cenas de O golpista do ano, o primeiro e mais cáustico segredo dos muito que perseguirão a vida do homem — Russell é adotado. Ali o jovem faz o juramento de ser a melhor pessoa do mundo. Entenda-se: um bom pai, um bom cristão, um bom policial e um ótimo marido para Debbie (Leslie Mann) — ser aceito, ser amado. Mas Russell é gay, e isso complica bastante as coisas para viver a novela da vida perfeita que armou para si mesmo. É esse o segredo que guardava em quartos escuros e viagens suspeitas, e que compartilha conosco, além de toda sua família, depois de um acidente de carro. 


    Russell vai então para Flórida viver a vida dos felizes e desimpedidos. Desfila um namorado bronzeado — no caso, Rodrigo Santoro, num papel que pouco aparece, mas tem grande importância para a trama — e todos os itens dourados de seu guarda-roupa em hotéis, restaurantes e tudo o mais que o dinheiro lhe permitisse. Ser gay é caro, logo pondera Russell, que passa a fazer alguns milhares aplicando golpes escusos em companhias de seguro. Numa dessas, o homem desliza e acaba preso, e o filme finalmente começa.  


    É na prisão que Russell cruza olhares com Phillip Morris (Ewan McGregor), um tipo loirinho, branquinho e sensível que dá nome, sensatamente, ao título do filme em inglês, I love you Phillip Morris. É sobre ele que gravita o resto da vida de Russell e do filme. Começam então alguns trambiques fortes, para ganhar a vida e manter Morris firme a seu lado. É praticamente inevitável conter a atração por um tipo tão cafajeste como Russell, que, da mesma forma que Frank Abagnale Jr., vivido por Leonardo DiCaprio em Prenda-me se for capaz, de Steven Spielberg, abusa da inteligência sem derramar um pingo de sangue — ok, uma só vez, e o ferido foi o próprio Russell — para escapar da prisão nada menos que quatro vezes.  


    Há o drama da sobreposição de segredos e mentiras de um sociopata; há o amor sincero entre dois gays presidiários; e há também comédia. Física, ao estilo de Carrey, ame-o ou odeie-o, e que não se sustenta sozinha, como acontece em alguns momentos pelo meio do filme. É justamente de frente a McGregor que as caretas caricatas de Carrey perdem a graça. McGregor tem uma atuação contida, brilhante, cuja força cresce a cada cena, fazendo a pretensa fragilidade e ingenuidade de Morris derreter-se filme abaixo, sobretudo num eletrizante tapa na cara lá perto dos créditos finais.  


    O golpista do ano — fica a dúvida de onde essa referência anual vem... — é muito mais um filme sobre amor e aceitação do que sobre gays. Há aqui rompantes de criatividade, sobretudo na montagem, que retalha a vida de segredos de Russell num constante movimento de passado e futuro; e nas referências estéticas, seja na bela fotografia de Xavier Perez Grobet, seja em signos cuidadosamente alocados pela trama, como o céu texano mencionado. Uma história surreal, bem dirigida e interpretada, faz de O golpista do ano um bom entretenimento, mas não trilha caminho além disso.

     

     


    POR: [Marcella Huche]

  • Fraco

    Ao sul da fronteira

    | Oliver Stone

    Oliver Stone talvez seja o mais político dos cineastas norte-americanos ainda vivos. A grande maioria de seus filmes denota uma linha de pensamento que se aproxima de uma tese, firmando uma posição fundamentada em conceitos que não raro analisam a condição dos Estados Unidos através de um ponto de vista crítico e feroz. Foi assim com Platoon, JFK, Nascido em 4 de julho e W., que reconstrói a vida e a carreira do presidente George W. Bush valendo-se de ironia e deboche para demonstrar insatisfação diante dos resultados de seu atrapalhado governo.

     

    Em Ao sul da fronteira, seu mais recente filme, Stone se coloca diante das câmeras e dá continuidade à sua jornada questionadora através de um interlocutor adverso à política externa norte-americana, a Venezuela de Hugo Chávez. A partir deste ponto específico, o filme investiga os desdobramentos que a consolidação de governos de caráter esquerdistas ocasionaram na América Latina, intercalando entrevistas com Cristina Kirchner, Rafael Correa, Evo Morales e com o mais pop dos governantes do sul, Luiz Inácio Lula da Silva.

     

    Adotando a usual parcialidade que marca o tom de sua cinematografia, Stone propõe uma visão simplista a fim de compor o retrato de seu personagem principal — Hugo Chávez é tratado como um visionário, a própria reencarnação de Simon Bolívar, e todo o esforço para corroborar essa ideia é propagado por meio de depoimentos auto-afirmativos do próprio presidente, de colocações lisonjeiras vindas de seus aliados e de cenas favoráveis à sua figura, como passeios públicos por Caracas e uma visita à casa onde passou sua infância. Interpostas entre tais elogios surgem cenas de noticiários americanos que atacam frontalmente a imagem de Chávez, taxando-o de tirano, ditador e assassino, adjetivos que a montagem faz questão de diminuir diante da postura de não-alinhamento do governante venezuelano.

     

    Em seu caráter sociológico, Ao sul da fronteira comete o mesmo equívoco que critica em seus divergentes ideológicos — lança luz sobre apenas um lado da moeda. Enquanto vozes ressonantes vindas de estúdios de televisão configuram Hugo Chávez como uma ameaça global e são questionadas a todo instante, suas aspirações democráticas e socialmente comprometidas saltam aos nossos olhos diante da negação de seu governo à subserviência imposta pelo sistema capitalista. Chávez vira um herói da resistência. Tudo o que depõe contra seus princípios é definido como perseguição ou tentativa de golpe da oposição. E basta uma dose mínima de senso crítico para saber que não é por aí que a banda toca. Ciente das acusações que cercam o presidente, envolvendo violência, cerceamento da imprensa, prisões e autoritarismo exacerbado, o discurso de Stone logo se fragiliza e expõe a falta de intimidade que o diretor possui para lidar com o tema.

     

    O filme evidencia a tal reinvenção da esquerda capitaneada pelo governo de Hugo Chávez, inspirado nos ideais bolivaristas, através do qual a Venezuela diminuiu índices de analfabetismo, pobreza, desnutrição e outras deficiências sociais, mas passa ao largo e faz questão de ignorar, numa ótica suspeita, o controle do Banco Central e da Assembléia Nacional por um mandato que se afirma democrático, e que também exerce a centralização do poder e mantém o domínio da indústria petrolífera venezuelana, a terceira maior potência em escala mundial. Tal desnível de informação faz com que o documentário chegue aos cinemas envelhecido antes mesmo de estrear, e certamente o aprisionará numa cápsula que o desatualiza a cada medida extrema adotada pelo ex-militar presidente, estas cada vez mais recorrentes.

     

    Mas, e aos que esperam ver algo além de um tratado político na tela, sobra alguma coisa? Bem, o cinema de Oliver Stone sobrevive até hoje mais graças às suas concepções do que às suas qualidades enquanto cineasta, artífice de imagens. Não é difícil associar Ao sul da fronteira a um Globo Repórter achatado, limitado em seu padrão convencional e maniqueísta de abordagem rasteira e imediata. Orson Welles já dizia: "Um filme deixa de existir quando passa a ser veículo de uma mensagem". Para bom entendedor, as palavras de um autêntico mestre bastam.

     

     


    POR: [Samuel Lobo]

  • Bom

    Príncipe da Pérsia: As areias do tempo

    | Mike Newell

    Príncipe da Pérsia é um marco divisor na história do cinema pop. Longe de ser um grande clássico ou um cult incompreendido, a produção tem o mérito de ser o primeiro bom filme baseado num videogame, ainda que com sua cota respeitável de falhas.



    Jake Gyllenhaal, com um físico bastante diferente do franzino Donnie Darko que o lançou, vive o príncipe Dastan, que nasceu plebeu, mas foi admitido na corte da Pérsia por sua coragem. Dastan tem dois outros irmãos, Tus (Richard Coyle), o primeiro na linha de sucessão, e Garsiv (Toby Kebell). A trama é uma das partes mais fracas e é o batido conto de um herói que precisa provar sua inocência diante de provas esmagadoras. No caso, Dastan é acusado de matar o rei Sharaman, precisa fugir dos irmãos e descobrir a identidade do verdadeiro assassino.



    O elenco conta também com Gemma Arterton vivendo a princesa Tamina, numa performance que quase fica irritante, mas estaciona confortavelmente no “charmosa”. Ben Kingsley vive o enigmático irmão de Sharaman, Nizam, num papel óbvio e sem muitas camadas. Outro que faz uma ponta é o Doutor Octopus em pessoa, Alfred Molina, que age como alívio cômico no papel de um sheik trambiqueiro e ganancioso.



    O maior mérito de Príncipe da Pérsia: As areias do tempo é capturar admiravelmente o espírito do game e traduzir a experiência interativa para a tela. Numa cena, quando o príncipe está invadindo o reino de Alamut, seu fiel amigo Bis passa os objetivos da missão. A câmera, tal qual faria em um game, viaja pelos alvos do príncipe (ou o jogador, caso o joystick esteja na mão), que precisa descobrir uma forma de cumpri-los. Esta mecânica, descobrir uma forma de chegar do ponto A ao ponto B com acrobacias, define a jogabilidade dos recentes jogos da franquia Prince of Persia, como Sands of time, Warrior within e The two thrones. O filme, aliás, parece pegar deixas no design de todos estes games, mas toma a correta decisão de não seguir fielmente nenhum deles. A história é coerente com o mundo do príncipe, mas não segue nenhuma de suas aventuras anteriores. Provavelmente a atenção à questão da atmosfera foi garantida pela presença de Jordan Mechner, o pioneiro designer da franquia, na produção do longa.



    O príncipe de Gyllenhaal tem alguns problemas. O ator exala carisma e tem a aparência certa para o papel (ainda que a Pérsia do filme seja estranhamente caucasiana), com um sorriso nobre e humilde na mesma medida. Os problemas surgem quando Gylenhaal dispara um estranho — a princípio — sotaque britânico forçado e, mais grave, nas próprias falas. Está estabelecido no mundo dos games que o príncipe é sarcástico, com respostas tão afiadas quanto suas cimitarras, mas a escrita do filme precisa ser amolada. O esqueleto de boas frases de efeito está ali, mas raramente o príncipe dispara algo fora do comum ou genuinamente engraçado.



    As cenas de ação são bem coreografadas, com muita ênfase em acrobacias. A edição é ligeiramente esquizofrênica e a câmera um pouco tremida, mas os personagens costumam ser distintos o bastante para que o espectador saiba quem é quem. No geral, os efeitos especiais não comprometem e só chegam a um nível constrangedor quando surgem as cobras controladas pelos Hassanssin, feitas em CG datado. Todo o mecanismo das Areias do tempo é interessante, ainda que pouco explorado, e se inspira apropriadamente em Prince of persia: The two thrones.



    O primeiro passo está dado. Uma empresa gigantesca como a Disney colocou uma franquia de peso dos games como Prince of Persia sob suas asas e disparou um dos mais sólidos blockbusters da temporada. Os filmes baseados em quadrinhos já estão amadurecidos. Quem vai dar o próximo passo?

     

     


    POR: [Gerhard Brêda]

  • Fraco

    Marmaduke

    | Tom Dey

    Quem nunca viu (e pouco riu) de filmes infantis com animais fofinhos no meio, como Beethoven, Scooby-Doo, ou, até mesmo, Como cães e gatos? Marmaduke é  um genérico de todas essas histórias juntas. E como se a carência de originalidade não fosse o bastante, o roteiro ainda mistura os piores clichês cinematográficos do gênero Sessão da tarde. Sim, quando se fala de clichê, pode incluir na lista o célebre Marvin Gaye e seu hit manjado de comédias românticas, Let’s get it on. Nem Gaye escapou de uma ponta nesta fraca produção canina.


    Marmaduke é um personagem conhecido do público americano, criado pelos cartunistas Brad Anderson e Phil Lemming e publicado em tiras cômicas nos jornais desde 1954. Em sua estreia cinematográfica, o desengonçado Dog Alemão — alguém aí também pensou em Scooby-Doo? — vai com a família para a Califórnia após promoção de seu dono. A mudança faz com que ele precise se adaptar aos novos costumes da agitada cidade, além de tentar se encaixar em algum grupo social.


    Paremos um instante. É esse um filme de cachorro ou um episódio estendido da extinta The O.C.? Quase. Principalmente porque o diretor Tom Dey (Bater ou correr e Showtime) colocou Marmaduke para assistir a um episódio do seriado para ter ideia de como funciona a vida californiana. Parece mesmo que Joss Schwartz resgatar sua antiga produção televisiva — há uma tomada externa de sol-praia-surfistas bronzeados ao som de California, interpretada por Phantom Planet. Nem o tema ficou de fora.


    Marmaduke é  para o público infantil, mas tenta usar uma linguagem mais "despojada". Não dá certo. No começo, temos o cachorro falando diretamente ao público, mostrando coisas óbvias e apontando de maneira precoce a falta de criatividade da produção. Por que não aceitar que as crianças realmente conseguem absorver as coisas? Fazer com que o personagem tenha que apresentar os demais e dar o gancho para o resto da trama já é batido e completamente desnecessário.


    Até que o filme não se compromete (mais) ao tentar expor a questão da adaptação dos adolescentes sob a ótica canina (apesar de tudo, ainda é um filme de cachorros), e é possível esboçar algumas risadas em determinadas cenas. As representações sociais americanas, incansáveis em praticamente todas as produções, são bem exemplificadas. Nunca é fácil ser o novato numa cidade agitada e já dividida em grupinhos em plena puberdade. Marmaduke é o novato da vez e precisa conviver com os atletas (cães que jogam frisbee), os nerds (aqueles que aprendem truques), os vira-latas (excluídos), além dos "doidões" (talvez uma das melhores sacadas do filme) e, claro, os cães com pedigree, aqueles que reinam absolutos e representam a alta sociedade.


    Quanto aos (de)efeitos especiais, alguns nem devem passar despercebidos pelas crianças, tamanha superficialidade. O ponto positivo, talvez, seja o fato de a "atuação" dos cachorros conseguir ser superior à falsa naturalidade dos "humanos". Sem esquecer as mensagens familiares, essas não podem faltar, Marmaduke é mais um, entre tantos, daqueles que valem pela reunião familiar e a pipoca. Mas Beethoven e Scooby-Doo não precisam se preocupar com a concorrência. 

     


    POR: [Juliana d’Arêde]

  • Fraco

    Pânico na neve

    | Adam Green

    Desde que Alfred Hitchcock reinventou o conceito de suspense no cinema, em 1960, fazendo da trilha sonora elemento vital para a composição de uma atmosfera, nossos banhos nunca mais foram os mesmos. O assassinato no chuveiro em Psicose, emoldurado pelos acordes estridentes da música de Bernard Herrmann, mostrou a força que o aparato sonoro possui na sugestão de um ambiente aterrorizante, rodeado pelo perigo. Fechar os olhos no chuveiro passou a ser arriscado, muito em função da memória daquela famosa cena, em que violinos cortantes como lâminas afiadas agem como catalisadores de uma sensação permanente de terror.

     

    Hitchcock pensou o som sendo um recurso para a narrativa, uma forma de contribuição às suas intenções. É um atributo potente, capaz de explorar níveis sensoriais que a imagem por si só não consegue alcançar. Pânico na neve também utiliza o aparelho sonoro como principal mecanismo para atingir o desconforto e incomodar o espectador, porém, opta pelo caminho fácil do susto simples e fugaz. É uma debilidade do cinema de terror atual, que sucumbe às possibilidades de invenção e praticamente outorga uma carta de sensações através do som. O truque é baixo: após o silêncio, um estrondo. Quantos filmes de terror você já viu assim?

     

    A trama gira em torno de três jovens, que, após subornarem o funcionário responsável pela estação de esqui por uma última descida, ficam presos no teleférico em meio a uma montanha de gelo e precisam tomar atitudes extremas para salvar suas vidas. Diante de tempestades de neve e riscos de hipotermia, têm de conviver ainda com lobos selvagens e com as próprias diferenças sobre como lidar com a situação. É uma premissa que possui diversas formas interessantes de abordagem, mas o diretor Adam Green optou por conduzi-la pelos trilhos por onde passaram Jogos mortais e bastardos do tipo, filmes fundamentados na crença da causa e consequência, que realçam a preferência pelo sadismo e pela crueldade que os personagens merecem após um ato de corrupção social — neste caso, o suborno. É o velho aqui se faz, aqui se paga.

     

    Através de resoluções que desvalorizam o ambiente hostil e se prendem à  necessidade de chocar o espectador, expondo feridas e escoriações corporais a troco de nada, Pânico na neve coleciona uma sucessão de clichês de gênero que banalizam o suspense e não causam impacto algum. A trilha sonora, em certos momentos, sufoca o desenvolvimento do filme de tal forma que subjuga os outros elementos de cena à sua existência, tomando a narrativa para si e não correspondendo com o que é mostrado na tela. Um equívoco completamente saturado. Em Psicose, o som é construído através da densidade psicológica da obra. É um adendo, não o protagonista. E Pânico na neve faz o contrário: não importa o significado da imagem, desde que a sonoridade cumpra seu objetivo de causar espanto.

     

    Não que a comparação seja justa, muito menos necessária, mas serve como forma de ilustrar um problema crônico em filmes recentes do gênero, prejudicados pela fragilidade com que os diferentes componentes da linguagem cinematográfica são organizados na narrativa, de forma a criar um clima de suspense — um suspense autêntico, impresso em tensão permanente, não esse frenesi passageiro que sentimos e que vai embora assim que as luzes se acendem. Mais vantajoso que assistir Pânico na neve é lembrar dos gritos de Janet Leigh durante o banho, ou então simplesmente arriscar fechar os olhos debaixo da água quente do chuveiro.

     

     


    POR: [Samuel Lobo]

  • Fraco

    Sex and the city 2

    | Michael Patrick King

    Carrie (Sarah Jessica Parker), Samantha (Kim Cattrall), Charlotte (Kristin Davis) e Miranda (Cynthia Nixon) alocaram os melhores modelitos na bagagem, subiram na garupa de um camelo e levaram o sexo a outra cidade — Abu Dhabi, no caso — mas as tiradas inteligentes, a diversão e até mesmo o bom senso ficaram perdidos em alguma esquina de Manhattan. Na segunda sequência cinematográfica, o quarteto fantástico apela para o feminismo descarado, a que nunca teve de se ajoelhar em seus seis anos de série para servir de algum tipo de voz, rouca, vá lá, para mulheres contemporâneas. Algo tristemente parecido com um musical de mau gosto, Sex and the city 2 se perde no meio do deserto do Oriente Médio, soterrado por excessos, clichês e estereótipos maldosos.

     

    O início do filme pincelava tons promissores, voltando a 1986 para mostrar as meninas garbosas em jaquetas de couro e cabelos excessivamente volumosos. Mas já se poderia se suspeitar do que viria à frente quando Liza Minnelli coloca as pernas sexagenárias de fora — devidamente contidas numa grossa meia-calça preta, graças a Dior — para cantar All the single ladies, num casamento gay, com direito a cisnes e coro de cartola branca.

     

    Os anos passam, mesmo para as quatro mulheres ricaças que deveriam ser tudo, menos ordinárias. A começar por Samantha, a melhor das quatro nesta segunda empreitada, que passa duas horas e meia sentindo os calores da menopausa e tomando 48 comprimidos para tentar voltar ao normal. Charlotte é agora mãe de duas filhas e, mesmo com uma babá em tempo integral, chora escondida no armário as dificuldades da vida do lar — inclusa aí a desconfiança sobre a linda babá irlandesa avessa a sutiãs. Carrie matuta sobre os votos matrimoniais, reclamando que o zilionário Mr. Big (Chris Noth) coloca os pés no sofá, assiste demais à TV e não vai mais para nenhuma festa. Miranda é uma workaholic, coagida por seu chefe sexista.

     

    Entenda-se: é difícil a tarefa de segurar o interesse na vida completamente normal dessas mulheres quarentonas — ou de Samantha, cinquentona acalorada. Assim, só levando a trupe para Abu Dhabi, com custos pagos por um sheik bondoso chegado a Samantha, onde se abraçar em público é quase crime, para que as moças pareçam chocar alguém. A ostentação árabe beira o esdrúxulo (uma limo, um mordomo e uma suíte de US$ 22 milhões para cada uma) e é lá que começam as crises existenciais — Charlotte se descabela com um celular sem cobertura; Carrie reencontra o fantasma de Aidan (John Corbett); Samantha tem seus comprimidos mágicos confiscados; Miranda escora esse navio mambembe e está pronto o drama. Afinal, em Abu Dhabi é realmente crime se agarrar em público.

     

    É nessa Abu Dhabi, em que aparentemente habitam nazistas da areia escaldante, que o quarteto sobe num palco para cantar I am a woman, momento mais constrangedor do filme. “O véu diminui a conta do botox!”, dispara Samantha.  Carrie perde o passaporte e quase perdemos Charlotte em meio a contrabandistas. E a lista de preconceitos clichês pode crescer infinitamente aqui, citando burcas malvadas. Os melhores momentos ficam justamente nas cenas mais esposa-mediana-americana. Desde quando Sex and the city ficou tão longo e tão pouco divertido? É hora de trocar de loja.

     


    POR: [Marcella Huche]

  • Bom

    O escritor fantasma

    | Roman Polanski

    A obra de Roman Polanski é largamente vista como um exorcismo para os demônios que o afligem. É quase que impossível analisar a filmografia do genial polonês sem fazermos menção à sua atormentada vida. O que dizer, por exemplo, de MacBeth, de 1971, uma das mais sangrentas adaptações de Shakespeare para o cinema apenas dois anos depois da trágica morte de sua então esposa Sharon Tate, brutalmente assassinada por uma seita de fanáticos? Ou então de O pianista, uma de suas melhores obras, sobre um músico judeu nos guetos de Varsóvia durante a Segunda Guerra Mundial, tendo o próprio Polanski perdido a mãe no campo de concentração e, ainda criança, virar fugitivo dos guetos poloneses? Quão conveniente é então que O escritor fantasma (The ghost writer, no original), o 29º filme de sua carreira, trate do tema de um escândalo e suas repercussões, no ano em que seu nome — mais uma vez — volta a surgir com frequência nos noticiários mundiais por conta do caso, exaustivamente divulgado, com as acusações de que teria estuprado uma menor de idade nos anos 70.

     

    Autoral, do time de diretores mundiais cujo nome virou grife, Polanski nos apresenta possivelmente o filme mais contido e correto de sua carreira. Neste suspense com fortíssimos tons hitchcockianos, Ewan McGregor faz o papel de um escritor fantasma —  profissional contratado para escrever algo creditado a outra pessoa, prática muito comum no caso de autobiografias — cujo nome, com artimanha, não é mencionado em nenhum momento do filme. O escritor é escalado para completar as memórias do ex-primeiro ministro britânico Adam Lang (Pierce Brosnan), após seu antecessor no projeto ter morrido num obscuro suicídio. Agora vivendo numa luxuosa casa numa ilha ao norte dos Estados Unidos com sua esposa Ruth (a bela atriz britânica Olivia Williams) e sua equipe de secretários (incluindo uma participação da ex-Sex and the city Kim Catrall), Lang se vê envolvido num imenso escândalo político no qual ele é o principal acusado de crimes de guerra. Jogado no meio do furacão antes mesmo de começar o projeto, o escritor fantasma aos poucos faz importantes descobertas que põem sua vida em risco.

     

    Embora elementos clássicos de sua obra estejam presentes aqui — como o isolamento claustrofóbico e a constatação de que ninguém é realmente confiável — a direção de Polanski é excessivamente distante e fria. Parece seguir à risca a cartilha clássica; tirando a linda cena final não há quase nenhuma inovação no uso dos planos e sequências. A trama peca por não se aprofundar de fato em nada do que se propõe. Como thriller político, envolve-se pouco na questão principal, que é até onde o governo americano vai para conseguir apoio para suas guerras — mais especificamente a guerra ao terror no Oriente Médio. Questão que, aliás, é um tema recorrente na Hollywood contemporânea, abordada no excelente Intrigas de Estado, filme de 2009 que guarda muitas semelhanças com O escritor fantasma, investigando os meandros sujos da vida política.

    O filme também toca só superficialmente nos bastidores do que é o trabalho de um escritor fantasma. Como filme de ação, há pouca ação. Ou seja, embora a primeira metade do filme prenda a atenção do espectador com um crescendo de suspense, esta atenção é perdida num desenrolar arrastado pela falta de um foco definido.

     

    Pierce Brosnan brilha no papel do ex-político com ecos de Tony Blair. Ainda destilando quilos do seu usual charme canastrão, porém sem se render ao pastiche de James Bond a que estamos tão acostumados, somos imediatamente atraídos por este personagem com uma atuação madura, irresistível. Ewan McGregor tem pouco trabalho em simplesmente ser Ewan McGregor — em cartaz também com o hilário Os homens que encaravam cabras. Embora utilize todo o seu usual arsenal de expressões, o ator consegue sustentar o papel principal. Além de Pierce, merece destaque Olivia Williams, que, interpretando o papel possivelmente mais complexo do filme, consegue expor um toque humano de fragilidade a uma personagem impenetrável num primeiro momento. Fique atento à participação do excelente ator britânico Tom Wilkinson — seu nome não é tão famoso quanto seu rosto — como um misterioso professor em uma clara referência ao clima dos filmes de Hitchcock.

     

    O bom aproveitamento de O escritor fantasma é inversamente proporcional às expectativas de quem entra na sala de cinema. Como filme do Polanski, trata-se de uma obra menor, quase decepcionante. Como boa opção para uma ida à tarde ao cinema, um ótimo filme. Finalizando, uma curiosidade: como o diretor seria imediatamente preso se pisasse em solo americano, O escritor fantasma se passa inteiramente numa Alemanha que imita incrivelmente bem a paisagem do nordeste americano. O espectador não duvida em momento algum de que o que vê é de fato Massachusetts.

     

     


    POR: [Daniel Passi]

  • Excelente

    Olhos azuis

    | José Joffily

    Olhos azuis conta a história de Marshall (David Rasche), chefe do departamento de imigração americano, que no último dia antes da aposentadoria resolve se divertir à sua maneira, detendo um grupo de latino-americanos e expondo-os a situações humilhantes. Alcoólatra, com seus atos Marshall faz a noite tomar um rumo inesperado. Anos depois, usando como referência um vídeo dentro de uma câmera portátil, ele sai à procura de uma pequena menina por Pernambuco, contando com a ajuda da prostituta Bia.  Este é um filme sobre palavras. Aqui elas agem como bombas e parecem ter o mesmo peso dos galopantes tambores de maracatu que abrem os letreiros iniciais.


    Como uma grande lavação de roupa suja sem restrições morais, Olhos azuis nos mostra o ódio e o rancor ocultos de uma nação traumatizada pós 11 de setembro, representada pela figura de Marshall. Dirigido por José Joffily (Dois perdidos numa noite suja), ganhador do Festival de Paulínia de Cinema 2009, trata-se também de um filme sobre contrastes. Dicotomizam rico e pobre; claro e escuro; espaços claustrofóbicos e abertos. Não há hesitação em jogar o espectador de um lado para o outro, criando com essa agilidade uma intensa carga dramática. 


    Duas histórias acontecem paralelamente. Uma, em flashback, se passa inteiramente dentro do sufocante espaço do departamento de imigração de um grande aeroporto americano. Com uma iluminação fria e sons de vertigem ao fundo, a realidade é exposta de maneira crua. Para tal, Joffily lança mão de um tom documental, alcançando, porém, um nível de veracidade maior do que qualquer documentário conseguiria atingir. Talvez este seja o aspecto mais perturbador da obra — isto pode estar acontecendo neste momento, em qualquer aeroporto americano, e não há nada que possamos fazer. 


    Todos os personagens presos neste limbo são uma síntese, uma unidade representando um drama coletivo. Embora postos no mesmo saco latino pelos oficiais, fica clara cada particularidade. Temos o mestiço brasileiro que, saído de uma pequena cidade do interior, tenta a vida em outro país (impossível não vir à cabeça a imagem de Jean Charles); a dançarina cubana morena que mesmo conseguindo um visto cultural ainda assim é importunada por conta de Fidel; a equipe esportiva com traços andinos.


    O casal de poetas argentinos é a inteligente escolha que o filme faz de não vitimizar ninguém: embora estejam saindo de Buenos Aires por não conseguirem grande aceitação de seus trabalhos, financiam sua ida traficando cocaína para os "viciados americanos", escondendo a carga dentro de seus livros (detalhe para o hilário título: Poesias y algo más).

     

    Na situação de fragilidade em que todos se encontram, os viajantes são submetidos por Marshall - cada vez mais alterado pela garrafa de Jack Daniels que consome desde o começo do expediente - e sua equipe (uma negra e um descendente de mexicanos) a tormentos desnecessários. Em especial o brasileiro Nonato (interpretado com vigor por Irandhir Santos em cartaz com Quincas Berro D’água e como a voz do protagonista itinerante de Viajo porque preciso, volto porque te amo). Na escalada de acontecimentos que se seguem, o que vemos é a reação natural de qualquer ser humano exposto a abusos físicos e psicológicos, seja ele latino, americano ou árabe — a razão é deixada de lado, torna-se então uma bomba relógio ambulante.  


    Corta para os grandes espaços abertos de Petrolina. Da excessiva organização burocrática do aeroporto somos jogados para Recife durante o carnaval. Da iluminação fria e artificial, para a brutal luminosidade do sertão pernambucano. Agora com todo o lirismo de um road movie, vemos Marshall, doente e alcoólatra, buscar anos depois sua redenção, como em todo filme do gênero que se preze. Para isto conta com a ajuda de Beatriz (Cristina Lago), perfeitamente a imagem estadunidense de um país latino-americano — uma prostituta com um vocabulário importado do lixo cultural estrangeiro, abundância de shits e fucks. No emocionante desfecho da história, mais uma vez a força das palavras é celebrada, mesmo que aqui sejam as que não são ditas. 


    Embora todos os atores estejam no tom, é David Rasche quem mostra sem dúvida uma das melhores atuações de sua carreira. Pouco conhecido do público brasileiro, foi definitivamente uma escolha acertada. Destaque também para Frank Grillo que interpreta Bob, o outro oficial de imigração. Grillo e Rashe, ao pesquisarem para o papel em aeroportos americanos, alcançaram um realismo embasbacante. 


    Simbólico, Olhos azuis é um dedo na ferida ainda bastante aberta do preconceito que o fará ficar sentado na poltrona depois que aparecerem os letreiros finais. Um dos poucos filmes atuais que faz o que uma boa obra de arte tem de melhor. Isto é, ser um fomentador de discussões. Olhos azuis é um filme obrigatório.

     

     


    POR: [Daniel Passi]

  • MuitoRuim

    Deu a louca nos bichos

    | Roger Klumbe

    Houve um tempo em que os filmes que passavam na Sessão da tarde exerciam papel fundamental na formação das pessoas. Ligava-se a televisão após o almoço e lá estavam Jerry Lewis, Charlie Chaplin, John Carpenter, John Hughes e o infalível Tubarão, de Steven Spielberg, para inundar de delírio e fantasia o recheio cotidiano dos nossos dias. Muitos desses filmes eram ingênuos, inocentes e felizes até demais, mas correspondiam às necessidades do imaginário infanto-juvenil de dialogarem de igual para igual com o espectador, sem subestimar sua capacidade crítica ou diminuí-lo diante do que é narrado. O desrespeito a essa equivalência é a grande diferença entre Deu a louca nos bichos e os filmes que nos acostumamos a assistir nas longínquas tardes de verão.

     

    Movido pelo desejo de alcançar um cargo de prestígio, um alto e sedutor salário e proporcionar o melhor para sua família, um ambicioso empreendedor (Brendan Fraser) muda-se com esposa e filho para uma distante área florestal — o objetivo é construir um pólo comercial naquele perímetro. Para isso, há de se desmatar uma imensa área verde e acarretar a extinção de milhares de animais nativos do local. Quando um guaxinim fica sabendo das intenções ali circunscritas, arquiteta, junto aos outros companheiros de selva, um plano para expulsar os líderes humanos que atentam contra a natureza e a preservação do lugar. Uma espécie de A revolução dos bichos em tempos contemporâneos.

     

    O filme se constrói sobre a clara intenção de transmitir uma mensagem, como se fosse um divertido aviso de alerta, realçando a importância que a função social da moral pode ter ao final de uma fábula. Reflexo de dias politicamente corretos? Não haveria tantos problemas caso a crença nesse ideal de conservação fosse verdadeira, autêntica — e não é. Nem para uma criança de 5 anos, público alvo que Deu a louca nos bichos tenciona atingir. O humor não decola, as situações são caricatas, óbvias, desprezam a inteligência das crianças, e tal postura é equivocada em sua essência diante de uma geração que encontrou na suntuosidade de Avatar um interlocutor acerca de questões ambientais e ecológicas. 

     

    Rodado numa parceria entre estúdios norte-americanos e o Imagenation Abu Dhabi FZ, dos Emirados Árabes, pelo diretor Roger Klumbe (o mesmo de Segundas intenções), Deu a louca nos bichos soa como o resultado de investimentos de uma grande empresa no setor cultural como forma de atenuar sua parcela de emissão de gases na camada de ozônio — parece feito sob encomenda, da forma mais simplista possível. Óbvio e rasteiro, como que realizado para a desatenção da televisão, não honra seus antecessores de Sessão da tarde e tem a difícil tarefa de manter abertos os olhos das crianças diante de uma história mal e preguiçosamente contada.  

     

     


    POR: [Samuel Lobo]

  • Regular

    Quincas Berro D’água

    | Sérgio Machado

    O cinema nacional sempre se entendeu bem com a literatura do escritor baiano Jorge Amado. Nosso maior trunfo em bilheteria pertence a Dona Flor e seus dois maridos, que, adaptado por Bruno Barreto em 76, permanece até hoje sendo o filme brasileiro que mais levou espectadores às salas de cinema — foram cerca de 12 milhões de ingressos vendidos. A escrita de Jorge Amado foi ainda determinante para a criação artística de Nelson Pereira dos Santos, Marcel Camus, Cacá Diegues e do também baiano Sérgio Machado, que se aventurou pelos becos estreitos de Salvador a fim de reconstruir o último dia de vida de Quincas Berro D’água, figura boêmia e irresistível cujo nome serve de título para seu mais recente filme. 


    Inspirado em A morte e a morte de Quincas Berro D’água, novela escrita em 61, a o filme transcorre após o falecimento de Joaquim Soares da Cunha, brilhante funcionário do Estado, cidadão exemplar e honesto pai de família, que, num rompante de insatisfação, abriu mão do conforto de uma vida programada e abraçou os prazeres de uma existência desavergonhada, entre vielas e doses de cachaça, para se tornar Quincas Berro D’água. Daí o duplo substantivo que intitula o livro. Uma morte simbólica para uma vida pacata; outra, física, para uma vida errante. 


    Enquanto a família burguesa luta para preservar em memória a honra e a altivez do cidadão Joaquim, os três mosqueteiros amigos de Quincas tencionam para o "campeão do falecimento" uma despedida festeira, esculhambada, que fizesse jus aos dias de glória e luxúria que passaram juntos nas ruas de Salvador. O tom solene e melancólico que Jorge Amado conferiu à história, ressaltando a nostalgia de tempos que se foram e selando uma ode à amizade, foi substituído no filme de Sérgio Machado por tintas bem humoradas, que se esforçam para reproduzir a riqueza da fauna urbana e a tipologia própria da Bahia, um lugar onde a literatura de seu mais popular autor fez cintilar o brilho de tudo o que ali vive.  


    O domínio com que o diretor configura visualmente personagens tão distintos e caracteres próprios de um local, de meretrizes e arruaceiros até mães-de-santo e suas celebrações religiosas, designa uma intimidade com aquele panorama social que já existia em Cidade baixa, seu filme anterior, e que se mostra mais nítida e bem trabalhada aqui. É compreensível. Tendo como protagonista um cadáver que se mantém passivo durante toda a narrativa — cuja voz e sorriso irônico pertencem a Paulo José —, praticamente um anti-personagem, situado no centro da ação sem nunca acioná-la, era necessário um investimento naqueles que o cercam para trazer cores e movimento ao mundo de Quincas Berro D’água. E é através desse entorno, recheado de piadas, tipos estranhos, humor popular, palavrões e sotaques pesados que o filme encontra seus melhores momentos e atinge a mesma força que o livro — ao compor o retrato de uma sociedade que poderia facilmente ser inventada, mas que a própria realidade tratou de construir.

     

    Levando-se em conta o potencial contido nas armações da trama, tal qualidade, infelizmente, não é suficiente. Pautada por uma narrativa que dá pouco espaço à criatividade e que evita os riscos que a fantasia poderia lhe emprestar — apesar da sugestão que os animados créditos iniciais prefiguram — em muitos momentos temos a impressão de que estamos diante de uma minissérie compactada, bonitinha e ordinária, seguindo o manual formatado em Ó pai, ó, que se preocupa além do necessário com determinadas questões (os destinos de personagens secundários, por exemplo, que ainda arriscam uma singela lição de moral) e sofre revezes que interrompem o ritmo em função da decupagem relaxada de determinadas cenas. Tais vícios de linguagem passam bem longe da precisão literária com que Jorge Amado engendrou o texto original.  


    Entre tantas mortes e poucos feridos, banhado à cachaça e guardado entre seus erros e acertos, Quincas Berro D’água pavimenta o caminho para Capitães de areia, próxima obra do escritor a ser transposta para as telas, e mostra que, no que diz respeito ao diálogo entre cinema e literatura, a Bahia de Jorge Amado continua sendo a estação primeira do Brasil.

     

     


    POR: [Samuel Lobo]

  • Fraco

    Fúria de titãs

    | Louis Leterrier

    Fúria de titãs é uma grande aventura que não sabe ser uma grande aventura. A salada mitológica, que joga mitos árabes e nórdicos em uma carcaça grega, tem seu charme, mas no fim das contas, o filme faz mais coisas erradas do que certas.

    O filme conta a história de Perseu, vivido por Sam Worthington, que segue sua carreira de papéis pouco marcantes em filmes de ação. O herói começa o filme como um pescador, que tem a família assassinada por Hades (Ralph Fiennes) e busca se vingar. Sem carisma algum, Perseu é uma folha em branco que nunca é preenchida, tem pouquíssimas falas e não tem destaque. Sua motivação perde força lá pela metade do filme e fica impossível de se importar com os sorrisos amarelos e rosnados de Worthington.

    Hades, o deus do submundo, planeja soltar sua maior fera, o Kraken, na cidade de Argos se eles não sacrificarem a princesa Andrômeda. Fiennes entrega, em Fúria de titãs, a pior performance de sua carreira. Seu Hades é ridículo, caricato e nada ameaçador. A barba lhe caiu mal e tudo parece uma fantasia elaborada de Halloween. As falas são uma atrocidade à parte, com quase todas as baboseiras disparadas pela divindade sendo uma frase de efeito.

    Soberano, no alto do Olimpo, Zeus observa seu irmão (Hades) punir a humanidade por sua insolência. O design da armadura de Zeus é um dos dez piores da história de Hollywood. Uma massa branca, brilhante e completamente ridícula adorna o corpo de Zeus, o que o deixa perigosamente parecido com um personagem do anime Cavaleiros do zodíaco. A ponta que o personagem faz como mentor de Perseu também é fraquíssima e patética.

    Mas nem tudo é guerra. Lá pelas tantas, Perseu conhece Io (Gemma Arterton, em performance sem sal) e engata um anêmico romance, nunca consumado.

    Os personagens são fracos, mas e a jornada? Mediana. Perseu sai de Argos ao lado de uma equipe de soldados, que vão morrendo como moscas no caminho. O destaque vai para Draco (Mads Mikkelsen, o Le Chifre de Cassino royale), que consegue brilhar mesmo em um papel tão bidimensional. Lá pelas tantas, em um verdadeiro deus ex machina, o grupo encontra os Djins, ex-humanos que se corromperam com magia e agora parecem feitos de madeira queimada. O único propósito dos Djin é mover a trama em determinados momentos, pois eles não adicionam peso algum na narrativa, simplesmente surgem do nada para resolver tudo.

    As cenas de ação são medíocres, com cortes rápidos e muitos movimentos visivelmente coordenados por meio de cabos. A batalha final é a definição perfeita de anti-clímax. Ainda assim, é divertido ver o que a equipe de produção fez com os seres mitológicos. Enquanto o Pégaso e a Medusa são basicamente o que se espera, o Kraken assume uma peculiar forma humanóide com tentáculos.

    O efeito 3D também não se segura. Ao contrário de Avatar, concebido e filmado em 3D, Fúria de titãs recebeu a tecnologia depois. Em decorrência disso, poucas cenas usam o efeito bem e ele geralmente piora a experiência, tornando cenas de ação confusas demais.

    Fúria de titãs mostra que uma aventura não se sustenta sem bons personagens, arcos e trilha sonora. Fiennes e Neeson estão fracos em seus papéis e o filme não se esforça para conceber um roteiro interessante. No papel, a jornada de um homem para matar um deus é lendária. Na tela, nem tanto. 

    POR: [Gerhard Brêda]

  • Regular

    Os homens que não amavam as mulheres

    | Niels Arden Oplev

    Não é  todo dia que nosso circuito comercial recebe a estreia de um filme sueco, então, é fato que qualquer bom coração cinéfilo nutre  (boas) expectativas a seu respeito. Acontece que — e é bem complicado estragar a surpresa assim, logo no primeiro parágrafo — Os homens que não amavam as mulheres é até correto, mas quase não surpreende. 


    A melhor chance que o filme tem para conquistar algum mérito no seu, no meu, no nosso coração, é assisti-lo sem conhecimento de causa, totalmente no escuro de todas as suas reverberações. Assim é possível se envolver com a trama e curtir as reviravoltas e descobertas que o casal de investigadores vai destrinchando durante o filme.  


    Aliás, a duração é outro ponto interessante sobre Os homens que não amavam. Prepare-se para duas horas e meia de mergulho no aquário da sala de cinema, atracado a uma história diretamente saída de um best-seller escrito pelo sueco Stieg Larsson, cuja trajetória pessoal pode ser confundida com a do protagonista deste filme, Mikael Blomkvist (interpretado por Michael Nyqvist) — um jornalista investigativo que expõe várias canalhices sobre industriais corruptos e pouco confiáveis. A revista Expo na qual trabalhou Larsson se transforma aqui na polêmica Millenium, única capaz de dar espaço ao que Blomkvist tem a dizer. 


    Antes de qualquer julgamento estético-cinematográfico sobre o filme, vale dar uma conferida na questão comercial: Larsson, o autor do livro, escreveu esta história dentro do que chamou de Trilogia Millenium. A temática dos três livros é a mesma, podridões escondidas nos porões da burguesia decadente e muita lavagem de dinheiro. Com faro fino para a equação trilogia + polêmica = grana, Hollywood já comprou os direitos de refilmagem de Os homens que amavam as mulheres e convocou David Fincher (pra quem não lembra, diretor de Zodíaco) para a função de dar forma a esta versão, na mesma perspectiva do que aconteceu com outro filme sueco bastante comentado, Deixe ela entrar, cujas refilmagens já começaram nos EUA. E — para o bem ou para o mal —este é o motivo pelo qual uma produção dinamarquesa-sueca-alemã tenha chegado até nós, gente bronzeada e latino-americana. 


    Para não estragar tudo falando da sinopse, basta dizer que este é um filme sobre os segredos e preconceitos que todos escondem, sendo que uns escondem melhor que os outros. Lisbeth (Noomi Rapace) é uma hacker contratada para devassar a vida de Blomkvist, o jornalista envolvido num baita quiproquó com um industrial peso-pesado. A partir de sua investigação descobrimos que o jornalista é o único na trama que não tem nada a esconder, fato que deve ser a projeção do autor sobre seu protagonista. Seguindo em frente, apesar de ter sido derrotado pelo industrial nos tribunais, Blomkvist é contratado para investigar o desaparecimento da sobrinha de outro ricaço sueco. Enquanto isso, na outra ponta da trama, Lisbeth tenta se livrar do oficial que cuida de sua tutela enquanto mantém certa obsessão por Blomkvist mesmo após o fim de seu trabalho sobre ele.  


    O diretor Niels Arden Oplev não deixa nenhuma trama paralela para trás, respondendo a todos os conflitos e causos mesmo que de maneira torta. Isso ajuda a entender a duração do filme, mas não a sua apatia, já que mesmo com a mistura de muitas questões polêmicas como racismo religioso, assassinatos, estupros e corrupção, Os homens que não amavam não consegue sair da bolha de tédio para explodir nossa cabeça. 


     

     

    POR: [Georgiane Euzebio]

  • Fraco

    Robin Hood

    | Ridley Scott

    O fora da lei mais badalado da Inglaterra já rondou Hollywood muitas vezes, desde 1938, na pele de Errol Flynn, até 1991, quando foi vivido por Kevin Costner. Nesse, Ridley Scott tenta inovar, explicando o homem por trás do mito arqueiro, que rouba dos ricos para dar aos pobres.  A saga de Robin Longstride termina, portanto, onde a maioria dos filmes de Robin Hood — sensatamente, descobrimos depois — começa. No meio disso tudo, 2h20 preenchidas por pouco carisma, muitos diálogos e excessivas explicações históricas sobre a Inglaterra do século 12, além de boas sequências de ação. Robin Hood, escolhido para abrir o Festival de Cannes, é uma história banhada em honra e lealdade, que, contudo, erra o alvo.

    Robin é um dos arqueiros de maior destreza do exército de Ricardo Coração de Leão (Danny Huston), na época em que o rei morre na batalha que abre o filme — para o deleite de quase todos — repleta de flechas lancinantes, espadas rangentes e fogo, muito fogo (sobretudo aquele que vem de galões de óleo fervente). Por sorte do acaso, ou destino inevitável do herói, Robin e seus comparsas cruzam com uma emboscada feita à tropa que levava a coroa do rei morto de volta à Inglaterra, liderada por Sir Robert Loxley. Agora moribundo, o cavaleiro clama a Robin que entregue sua espada a seu pai Sir Walter Loxley, em Nottingham. Imbuído da honra e lealdade que lhe são inatas, Robin toma o fardo para si e segue com seus Merry Men para a cidade, onde conhece a destemida e bela viúva Lady Marion (Cate Blanchett). E, mais uma vez oportunamente, deve se passar pelo marido morto da moça — o que ele já vinha fazendo no caminho para evitar punição militar. Nessa trama, o vilão monotemático é Sir Godfrey (Mark Strong), que, embora aconselhe o jovem e inconsequente Rei João (Oscar Isaac), pretende mesmo é entregar a Inglaterra para a França. Essa extensa sinopse, já cheia de detalhes pouco empolgantes, é entregue no primeiro quarto do filme — e é a partir dela que a pré-sequência começa a ser mal delineada, com soluções de “puro acaso” do roteiro.

     

    O Robin de Crowe é um homem sombrio, de pouquíssimas palavras, que carrega nos ombros um passado emocionalmente pesado com o pai e um sentido utópico de justiça. Crowe segue o tom do filme, desprovido de carisma e emoção — o que nos deixa pensando que Robin Longstride só virou Hood por mera sorte do acaso. Ao seu lado, Crowe tem a gloriosa Cate Blanchett, natural e encantadora na pele da viúva independente que carrega sempre uma adaga nas coxas. Em sua companhia, Crowe cresce e parece realmente passar por mais do que sua cara fechada gostaria de transparecer. Seria o coração do filme, mas bate tão fraco que mal pode empolgar a audiência, que deve se contentar com as duas grandes batalhas do filme, na abertura e na conclusão, um tanto atrapalhadas pela câmera trepidante e cortes excessivamente rápidos.

     

    O elenco secundário é sub-aproveitado, talvez por tentar abraçar tantos personagens de uma só vez. Temos William Hurt como Sir William Marshal, conselheiro do antigo rei, homem de ética e lealdade, que usa até mesmo de um pombo-correio para ser um contraponto ao jovem e inconsequente Rei João. Mark Addy na batina do Frei Tuck é um alívio cômico nas arrastadas horas do filme, ao lado de João Pequeno (Kevin Durand), Will Scarlet (Scott Grimes) e Allan A’dayle (Alan Doyle). Quem mais brilha é o clássico Max von Sydow na pele de Sir Walter Loxley, sogro de Marion, cego e com uma queda por um bom vinho e boas palavras. É dele o personagem mais carismático desse frio Robin Hood.

     

    A comparação com Gladiador, mais um filme em que Scott e Crowe selam parceria, é inevitável. O épico romano fatalmente sai na frente, com cenas frenéticas de (boa) ação e bons personagens que carregam tensão à trama. É exatamente este conflito que falta a Robin Hood, estático, frio e até mesmo entediante no meio de tantos, tantos acontecimentos. Scott tem um bom olho para filmes épicos e batalhas sangrentas, o que fica óbvio na bela fotografia de Robin Hood, onde o interior da Inglaterra e do País de Gales parecem mais belos que nunca. Mas, no fim, o que conta é uma boa história. E Robin Hood parece só uma longa aula de história.

     

     

     

    POR: [Marcella Huche]

  • Regular

    O preço da traição

    | Atom Egoyan

    Mentira tem perna curta, principalmente quando vem em dobro. A sinopse você já conhece muito bem — o marido é um professor universitário bonitão e a mulher desconfia que está sendo traída. Como resolver o mistério? Contratar uma prostituta para testar a fidelidade de seu conjugue.  Sim, você já viu situação parecida. O preço da traição é uma refilmagem do original francês, de 2003, coescrito e dirigido por Anne Fontaine e estrelado por Fanny Ardant, Gérard Depardieu e Emmanuell Béart. A nova versão, comandada pelo cineasta egípcio radicado no Canadá Atom Egoyan (O doce amanhã e O fio da inocência), exibe o ar introspectivo e questionador usual do diretor, apesar da previsibilidade da trama, sob o roteiro de Erin Cressida Wilson.

     

    Desta vez, Liam Neeson é David, um carismático professor que vive um momento conturbado em seu casamento com a ginecologista Catherine (Juliane Moore). A partir do momento em que a médica desconfia da fidelidade de seu marido, vê em Chloe (Amanda Seyfried), uma prostituta, a oportunidade para colocar as cartas de sua relação na mesa. Essa decisão suspeitamente esperta, contudo, pode modificar completamente a vida de sua família.

     

    Mesmo com uma trama pouco diversificada, o filme consegue levantar boas reflexões, principalmente no que diz respeito à personalidade feminina. Os questionamentos da mulher madura, sua insegurança atrelada à cuidados com a estética são colocados para o público de maneira humana, porém pesada e arrebatadora. Tudo do ponto de vista de Catherine, médica bem-sucedida que vê a vida pessoal estagnada e sem perspectiva, presa a um marido possivelmente infiel e um filho adolescente rebelde, que se deixa levar por Chloe, uma garota misteriosa, excitante e de boa lábia.

     

    O trio protagonista leva a trama com consistência e Seyfried mostra versatilidade para papéis mais fortes e maduros. Neeson é o retratado do homem cinquentão que construiu uma bela família e carreira, mas deixou o trabalho tomar conta de sua vida. Ao mesmo tempo, segue com seus conflitos internos, principalmente os do gênero masculino. Mas o grande destaque, sem surpresas, é a excelente Julianne Moore, que soube defender um personagem difícil e exigente com verdade e pura emoção. 

     

     

     

    POR: [Juliana d’Arêde ]

  • Excelente

    Viajo porque preciso, volto porque te amo

    | Marcelo Gomes e Karim Aïnouz

    Experimentalismo e diário de viagem com tons quase antropológicos. Falando assim, muita gente vai torcer o nariz. Mas é só deixar de lado a preguiça para que a viagem de Marcelo Gomes e Karim Aïnouz se transforme numa experiência afetiva sobre as pessoas e as cores do sertão nordestino. 

     

    Através da utilização de diversos suportes para captação de imagens (16mm, 35mm, Super-8, câmera digital, máquina fotográfica) o filme propõe acompanhar a viagem de trabalho de um geólogo, cujo diário, além das anotações técnicas sobre as condições rochosas dos lugares onde passa, registra também a saudade aguda que José Renato trouxe na mala a respeito de uma certa galega. Como numa bonita — e sobretudo, brega — canção romântica, José externaliza as mais belas juras de amor e ódio por esta mulher que parece apenas uma ilusão, uma invenção da distância.

     

    Depois de cair em si e negar o amor, o filme concede ao protagonista uma pequena bad trip, um tempo para desanuviar o coração e poder seguir em frente. À medida em que se afasta da amada, se aproxima do sertão. Logo o veremos transformado de viajante apaixonado em cientista descrente, que deixa de olhar só para dentro e passa a adotar uma atitude curiosa sobre o mundo lá fora. Atravessado por uma procissão em Caruaru, José é fisgado por uma nova paixão que é justamente esse produto afetivo que Marcelo Gomes e Karim Aïnouz gostariam, e talvez mais que isso, precisavam entregar ao público sobre esse pedaço de nordeste que esta na raiz do cinema (e da vida) dos dois, o primeiro, pernambucano, o segundo, cearense.

     

    Em entrevista, Gomes relata que a viagem que deu origem ao material usado no filme foi fundamental para que ele pudesse contar a história de Cinema, aspirinas e urubus; já Aïnouz saiu daí para filmar O céu de Suely, e a sensação de semelhança e continuidade entre os projetos estéticos destes três filmes é claro. Dá até pra ir mais longe e propor que a prostituta entrevistada por José em Viajo porque preciso foi o start para o que viria a ser a Suely interpretada por Hermila Guedes logo depois.

     

    Mas o grande barato deste filme é justo o fato de ter sido criado a partir do arranjo de um material totalmente fragmentado que só posteriormente ganhou um roteiro e se transformou nessa história sobre paixão, que é tanto digna de uma canção do Peninha quanto de um discurso antropológico. Das coisas mais inventivas do cinema nacional neste ano, vale a pena.

    POR: [Georgiane Euzebio]

  • Bom

    O mundo imaginário do doutor Parnassus

    | Terry Gilliam

    O mundo imaginário do doutor Parnassus é o último circo fantástico a emergir da mente atormentada de Terry Gilliam. Fatalmente um dos mais azarados e talentosos diretores da indústria, Gilliam se usa de alguns abracadabras, outros negócios escusos, paetês de todas as cores, sopros de fumaça e até mesmo um anão para nos brindar com seus mais deliciosos delírios. Trata-se da história de um homem imortal, profundamente humano, meio tolo e muito turrão, que ganha a vida oferecendo a seu distinto público uma viagem nas veias de sua imaginação. É também, e infelizmente, a última atuação de Heath Ledger, mas vai brilhantemente além disso.

     

    Ledger morreu de overdose acidental em 28 de janeiro de 2008, no meio da produção de Parnassus. Desesperado ou inventivo, Gilliam não desistiu do filme e trouxe outros três grandes atores para preencher o papel vazio de Tony Shepard — Johnny Depp, Jude Law e Colin Farrell — entrando justamente atrás do espelho mágico de Parnassus, onde cada um é o que tudo pode ser, seguindo seus devaneios. Os três estão bem, mas o papel era mesmo de Ledger, que assombra todo o filme, impregnando-o com sua presença e energia. É um experimento, releva-se. Afinal, onde mais os quatro galãs dividiriam a mesma tela?

     

    Parnassus (Christopher Plummer, deliciosamente irreconhecível) é um jovem monge, que, num encontro infortuito com o diabo — providencialmente chamado de Mr. Nick (Tom Waits, absoluto em cada fio de seu bigodinho) — aposta, e ganha, sua imortalidade. Dezenas, centenas de anos depois, Parnassus ainda carrega nos ombros os pecados de outra escolha — em nova aposta, daria sua filha a Nick quando ela completasse 16 anos, em troca de seu corpo jovem mais uma vez, para conquistar uma mulher. Parnassus está então fadado ao castigo que cavou para si, preso a uma espécie de teatro itinerante, onde oferece, vestido em trapos quase circenses, o tráfico das fantasias — e almas — de seus clientes. É pelas escolhas que tomam no mundo de devaneio que Parnassus ganha ou perde para Nick a alma do viajante. Ao seu lado estão sempre sua bela filha Valentina (Lily Cole), o baixinho Percy (Verne Troyer) e o jovem Anton (Andrew Garfield), que persegue cegamente o coração da moça até encontrar a concorrência de Tony. Pendurado pelo pescoço embaixo de uma ponte, esta é a primeira aparição de Ledger. Os três intrépidos não temem e salvam o desconhecido, de passado ambíguo, mas doces palavras.

     

    Se Ledger pendurado pelo pescoço pode parecer contrastante com o restante do belo imaginário do doutor Parnassus, não se engane. Todo o mundo exterior ao espelho mágico do ancião é sujo, frio, úmido e escuro. O dinheiro é a força motora deste mundo real e a crítica de Gilliam está lá, pendurada diante dos olhos dos que perderam o tempo para sonhar. E, mesmo dentro do incrível mundo de Parnassus (ou Gilliam, vá saber), a ameaça de perder almas para Nick sempre ronda a áurea lúdica dos fantásticos cenários mentais.

     

    O mundo imaginário do doutor Parnassus é absolutamente o mais estético dos filmes de Gilliam, o único membro americano do Monty Phyton. A mágica do diretor fisga o público pelos olhos, até porque o roteiro de Gilliam and Charles McKeown em dado momento começa a mancar (ou sentir saudades de Ledger, como seria o resto do filme com ele?) e não chega a fazer roer as unhas nos minutos derradeiros. Mas salvam as loucuras de um vale de sapatos de saltos altos, um mar de nuvens de algodão, escadas gigantes que logo se tornam pernas de pau, cabeças colossais e robóticas; é o novo mundo fantástico de Alice no País das Maravilhas que queríamos que Tim Burton tivesse recriado com propriedade.

     

    Ledger à parte, a grande estrela de O mundo imaginário do doutor Parnassus é a própria imaginação incomparável de Gilliam. Desde já o filme avisa, "não se preocupe se não entender tudo de início", flutue na viagem fantástica e surreal do diretor. Doses de humor inglês, poucas explicações explícitas e uma estética desafiadora para quem se aventurar a atravessar o tal espelho.

     

     

     


    POR: [Marcella Huche]

  • Regular

    Querido John

    | Lasse Hallström

    Quem conhece as obras do escritor Nicholas Sparks sabe que ele é um dos mestres em fazer os leitores se afogar em lágrimas. Ilustrando em seus livros dramas da vida real com uma boa pitada de romance, Sparks se consagrou no gênero e também no cinema. Muitos de seus clássicos já foram adaptados, como Um amor para recordar, Diário de uma paixão, Noites de Tormenta e, agora, Querido John. E, se Sparks é um dos melhores para fazer os leitores chorarem com palavras, coube ao cineasta sueco Lasse Hallström a mesma responsabilidade. Para quem gosta do estilo do diretor de Chocolate (2000) e Um lugar para recomeçar (2005), pode preparar o lencinho.

     

    Querido John conta a história de John Tyree (Channing Tatum), um soldado americano que se apaixona pela jovem estudante Savannah Curtir (Amanda Seyfried), durante uma licença de seu serviço. Juntos passam duas semanas de puro amor e companheirismo até que ocorrem os atentados de 11 de setembro e o rapaz é convocado novamente. A partir daí, cartaz vão e vem enquanto os pombinhos aprendem a lidar com um sentimento que cresce frente aos obstáculos. Mesmo sacando que o caminho certo era apostar nessa correspondência transatlântica, falta consistência na fluência do filme.

     

    Como em toda a obra de Sparks, Querido John fala sobre amores quase impossíveis, embora arrebatadores. Quase sempre, pura ternura inunda e transborda até a temível hora do sofrimento. Mas, apesar de abordar uma questão ainda bastante delicada — os atentados de 11 de setembro — misturando a relação de dois jovens completamente diferentes que se completam, Querido John peca pela falta de ritmo e pela falta de expressão do mocinho. Enxugadas as lágrimas, a sensação é que algumas cenas poderiam simplesmente ser menores, quando são puxadas do poço pela força de Amanda, simplesmente maravilhosa. Mas só ela não basta.

     

    Quem brilha mais, contudo, é  o excelente Richard Jenkins, responsável por um dos momentos mais emocionantes do filme. Mesmo com poucas falas, sua expressão consegue passar tudo o que precisa para o personagem. A trilha sonora de Deborah Lurie e a fotografia de Terry Stacey conseguem passar a delicadeza e a sensibilidade das obras de Sparks com propriedade, angariando pontos técnicos para o filme.

     

    Como uma adaptação de Sparks, Querido John deve agradar aos leitores e aos amantes do gênero. Para os demais, a produção pode vir a ser um pouco monótona, açucarada demais. Faltou o sal. 

     

     


    POR: [Juliana d'Arêde]

  • Regular

    A hora do pesadelo

    | Samuel Bayer

    O sub-gênero de terror conhecido como slasher ganhou força nos anos 80, especialmente com três grandes nomes: Jason Vorhees, da série Sexta feira 13, Michael Myers, de Halloween e Freddy Kruger, de A hora do pesadelo. Nestes filmes, um grupo de adolescentes era dizimado, um a um, por um psicopata monstruoso e praticamente imortal. O remake de A hora do pesadelo, com o mesmo título, segue bem a cartilha do slasher. Uma pena que o gênero de terror avançou e o filme, visto hoje, soa datado.

    Na trama, jovens começam a morrer misteriosamente enquanto dormem. Os que sobrevivem, descrevem um estranho homem, desfigurado por queimaduras, em seus sonhos, chamado Freddy. O mistério do filme é descobrir quem são os alvos de Kruger e o motivo por trás das mortes. O gancho é que os protagonistas precisam evitar cochilos, pois o psicopata habita apenas o mundo dos sonhos.

    A premissa de A hora do pesadelo era criativa quando o primeiro filme foi lançado e envelheceu bem. É estranho, no entanto, perceber a gama de poderes que Kruger tem no filme. A primeira morte dá a entender que ele apenas tem o poder de controlar o corpo da vítima e fazer com que ela se mate no mundo real, mas, pouco tempo depois, o psicopata arremessa o corpo de uma garota nas paredes, antes de fatiá-la, do mundo dos sonhos para o mundo real, em um piscar de olhos.

    Outra coisa que flutua em Freddy é sua personalidade. Nos primeiros filmes, Kruger era um psicopata ameaçador, mas, com o passar do tempo, se tornou um piadista, disparando trocadilhos e sarcasmo antes de eliminar as vítimas. No remake, o roteiro tenta equilibrar os dois, mas as piadas parecem forçadas e deslocadas, ainda que algumas tenham uma carga inegável de humor negro.

    Jackie Earle Haley, o Rorschach, de Watchmen, encarna Kruger no remake, mas não é perfeito. A cena com Freddy antes de se tornar um monstro é sensacional e exibe muito do talento do ator, que, caracterizado em uma maquiagem excessivamente pesada, não consegue se expressar e apenas rosna frases de efeito antes de fatiar os pobres dorminhocos. Kruger é um dos ícones de maior carisma do cinema de horror, mas em A hora do pesadelo versão 2010, ele é apagado e inexpressivo.

    Os protagonistas, por outro lado, são competentes, ainda que sigam fielmente a cartilha de vítimas em slashers. Eles seguem garotinhas assustadoras por corredores estreitos, se aventuram em quartos escuros e se recusam a admitir que algo estranho está acontecendo até que alguém exploda em uma bola de sangue diante de seus olhos.

    Kruger está de volta. Com seu chapéu estiloso, suéter rubro negro e luva com garras, o ícone consegue sobreviver do carisma que conquistou em seus outros filmes. A performance de Haley é instável, especialmente quando está imobilizado pela maquiagem. Os sustos estão espalhados pelo filme, mas o gênero de terror já caminhou muito desde os slashers. De comédias românticas com zumbis (Todo mundo quase morto) a filmes que não mostram nada (Atividade paranormal), o terror acordou e deixou este pesadelo para trás.

    POR: [Gerhard Brêda]

  • Bom

    Tudo pode dar certo

    | Woody Allen

    Pop aos quase 50, Woody Allen transita em diferentes estilos, mas não tem jeito. Sempre revisita o que lhe reservou a marca na calçada da fama. Logicamente não é destaque, aqui, sua idade, mesmo com toda sua experiência. O profílico diretor estreia no Brasil mais um filme que já o leva rumo ao número cinquenta de obras feitas, mas sem o desgaste compreensível para tamanho fôlego. Tudo pode dar certo chega animando fãs nostálgicos do frescor característico de muitas de suas comédias com profundidade tangível, ágeis e verborrágicas.

     

    O longa traz o comediante Larry David, criador de Curb your enthusiasm e coautor de Seinfeld, no papel do personagem central Boris Yellnikoff, um senhor culto e inteligente que absorve o mau humor contemporâneo. Lembrando trejeitos de Allen ator, Larry encarna um pessimista morador de Nova York, que expressa a todo momento suas opiniões sobre religião, relacionamentos amorosos, crises existenciais e frustrações, apresentadas por sua arrogância e impaciência. Alterego de Woody Allen, ou dos personagens de filmes do diretor — como muito bem cabe dizer —,  Boris tem  personalidade facilmente encontrada em longas como Noivo neurótico, noiva nervosa e Manhattan, por exemplo.

     

    A vida do nova-iorquino ganha movimento com a chegada de Melody, uma jovem que fugiu de sua casa no Mississipi. Alojada por intromissão na casa do senhor que poderia ser seu avô, a personagem de Evan Rachel Wood é o oposto de Boris. Sem a instrução que muitas vezes a deixa fora de conversas intelectuais, a menina simpatiza com o homem que lhe dá abrigo e passa a aprender com ele (ou pelo menos se esforça muito). Melody é bem interpretada pela atriz que lhe dá ar ingênuo e doce, em contraponto ao estilo espevitado. A sagacidade entra em cena com a mãe da jovem, personagem de Patricia Clarkson. A mulher causa uma reviravolta no filme quando chega à cidade, mudando o rumo da sua vida e a do casal. Impressionante como Nova York é também personagem dos filmes do diretor. Aqui, as caricaturas, os estereótipos e os clichês são temas, objetos de risos.

     

    Woody Allen provoca mais uma vez com temas nem tão chocantes, mas nem por isso, incapazes de chamar a atenção. A vida a três é uma delas — enredo que já foi visto em Vicky Cristina Barcelona. Mas não é assunto explorado a fundo, a ponto de causar polêmica. Em Tudo pode dar certo, só aparece como elemento de humor. Assim é todo o filme. Ao trazer personagens em cena dialogando com o espectador na sala de cinema, Allen brinca com um universo metalinguístico sem burocracias, sem intelectualismos. A inteligibilidade é ponto forte na comédia não superficial do diretor. Deixando de lado o tom dramático de Match point, O sonho de Cassandra e Vicky, Allen volta às origens. Tudo pode dar certo é previsível nesse sentido, embora surpreenda pela forma como o diretor consegue se manter com genialidade.


     

     


    POR: [Monike Mar]

  • Excelente

    Homem de ferro 2

    | Jon Favreau

    Robert Downey Jr. funde-se mais uma vez com o bilionário playboy Tony Stark para dar vida a Homem de Ferro. O segundo filme do herói da Marvel, dirigido por Jon Favreau, joga na lata os mesmo ingredientes que tornaram o primeiro filme um cult — tecnologia requintada, humor perfurante e ação explosiva — em doses consideravelmente mais prazerosas. Não tema, Homem de Ferro 2 é tudo aquilo que se espera dele, tão bom ou até melhor que o original que emplacou nos cinemas há dois anos, apontando para o amadurecimento do gênero.  

    Tirando proveito do fato de ser uma continuação, Homem de Ferro 2 pula as apresentações desnecessárias e começa do exato ponto em que o primeiro filme parou. Tony Stark é tudo, menos um herói convencional e, por isso mesmo, não se esconde sob uma identidade secreta. Downey Jr, mais uma vez, empresta as aflições que viveu há uma década ao personagem, cativante, leve, descontraído e muito humano, com falhas de caráter e vícios (alcoolismo, alfinetado nos dois filmes).  Ao sair da sombra de sua armadura hiper high-tech, o playboy narcisista desfruta do melhor da vida, mas está sendo envenenado por sua fama, seu passado e até mesmo pelo disco brilhante que pulsa em seu peito, fazendo seu coração bater à base de paládio, algo nada saudável. No seu encalço, a pressão para entregar seu traje rubro e dourado aos militares e um desafeto do passado da Stark Industries, Ivan Vanko / Whiplash (Mickey Rourke), um físico que manda, da Rússia, seu ódio enegrecido por duas gerações. Doente e descontente, o bilionário entrega o comando de sua empresa a Virginia Pepper Pots (Gwyneth Paltrow).  

    Entre diálogos espetaculares e explosões em alta velocidade, Favreau não esquece de alinhavar uma boa trama, sob o comando de Justin Theroux. Além de Stark, Pepper e o coronel Rhodey (agora vivido por Don Cheadle, em boa substituição a Terrence Howard), somos apresentados a uma outra penca de personagens, todos meticulosamente delineados e em atuações encantadoras. Há Scarlett Johansson desfilando sex appeal num justíssimo macacão preto de couro, como Natalie Rushman (Viúva Negra), e um durão Samuel L. Jackson com um tapa-olho de respeito no papel de Nick Fury, líder da S.H.I.E.L.D. Os vilões arregalam mais os olhos. Mickey Rourke empresta a cara feia a Vanko, o único a deter a mesma tecnologia que Stark, que ora brada chicotes incandescentes, ora acaricia uma cacatua. Sam Rockwell encarna com perfeição o carismático Justin Hammer, um empresário que busca espaço na indústria bélica no vácuo deixando pela Stark Industries. Irônico, trava os melhores diálogos com Stark, soprando um quê do coronel Hans Landa, vivido por Christoph Waltz, em Bastardos inglórios. 

    Se o primeiro filme pecou nas cenas de ação, Homem de Ferro 2 se redime. Três grandes batalhas pontuam o filme, muito bem posicionadas e explicadas, sem gratuidade. Homem de Ferro 2 aquece em Mônaco, quando encontra pela primeira vez Vanko, mostra a batalha de armaduras, entre o herói e Rhodey, e o clímax final, na feira Expo Stark. A sequência traz ainda a esperada fusão do universo dos heróis da Marvel. Há referências a Capitão América, Thor, e Os Vingadores, segurem-se. A cena pós-crédito é hilária, mas não será exibida nos cinemas brasileiros, pois o filme só estreia uma semana depois nos Estados Unidos.  

    A qualidade de Homem de Ferro 2, além das explosões, ângulos abundantes e inusitados e as armaduras reluzentes, sustenta-se sobre os diálogos e interpretações afiados, orquestrados majestosamente por Favreau. Cresce Downey Jr., cresce Favreau e amadurecem os filmes de heróis, que contam com um roteiro quebra-tudo que qualifica os personagens e a ação. 

    POR: [Marcella Huche]

  • Fraco

    Sonhos roubados

    | Sandra Werneck

    Sonhos roubados, de Sandra Werneck, é o típico filme brasileiro aclamado pela crítica. Pobreza, violência, prostituição, favelas, estupros e funk são o background de mais um longa brazuca que apela para fórmulas desgastadas pelo uso em excesso. É um filme baseado no livro jornalístico As meninas da esquina, de Eliane Trindade, sobre garotas que precisam se prostituir para garantir a sobrevivência.

    O enredo traz três amigas pobres da periferia que se envolvem com a protutuição de maneiras diferentes, mas que convivem com a mesma realidade: famílias disfuncionais, gravidez precoce e falta de dinheiro. Jéssica (Nanda Costa) se divide entre o avô doente (Nelson Xavier), a filha pequena e os programas que tem de fazer para pagar as contas. Sabrina (Kika Farias) é sonhadora e se apaixona por um traficante da comunidade, com a ilusão de alcançar uma vida mais digna. Já Daiane (Amanda Diniz) é uma menina traumatizada com os estupros do tio (Daniel Dantas), que corre atrás da atenção do pai ausente (Ângelo Antônio).

    A trama (genérica, mas com potencial) é apresentada de maneira superficial, um tanto gratuita. Embora o filme esteja sendo vendido como poético, não é bem o que se vê nas telas. Se há poesia em Sonhos roubados, ela é uma poesia ruim, que passa desapercebida. O enredo é fraco em essência: desenvolve-se a passos de formiga, ignora o conceito básico de clímax e não consegue escapar dos clichês mais previsíveis. É como se assistíssemos a uma eterna apresentação da vida ruim das meninas, com fatos que vão desencadeando ações, que por sua vez não levam a lugar nenhum. O final reticente do filme contribui ainda negativamente nesse sentido.

    No elenco vemos, entretanto, algumas boas interpretações. Marieta Severo está bem no papel da cabelereira Dolores, que ajuda a pequena Daiane dando-lhe abrigo, ensinando-lhe a profissão e incentivando-a a denunciar o tio pedófilo. Tio interpretado por Daniel Dantas, que incorporou o personagem com sinceridade. MV Bill está convincente na pele de um presidiário que pede Jéssica em casamento após alguns programas da menina na cadeia e supera as (baixas) expectativas. Quanto ao trio de protagonistas, duas decepções e uma boa surpresa com Amanda Diniz, quase impecável para uma estreante no papel da traumatizada Daine. A dupla Sabrina e Jéssica não faz feio, mas fica aquém do que pode se esperar de um papel principal.



    POR: [Philippe Noguchi]

  • Bom

    A estrada

    | John Hillcoat

    Nos últimos anos dois filmes impactantes invadiram os cinemas com mais força de reflexão que os já costumeiros filmes-catástrofe: O nevoeiro, de Frank Darabont e Distrito 9 de Neill Blomkamp. Ambos lidam com o medo do desconhecido apoiados ainda pela construção de novos modelos de (co) existência e reorganização social pós-catástrofe, levando a pensar sobre os conceitos de moralidade e a fragilidade da presença humana sob a Terra. Agora é chegada a hora de A estrada levantar essa mesma bola. 

     

    Com roteiro baseado no livro de Comarc McCarthy — autor cujo livro homônimo deu origem ao classudo Onde os fracos não tem vez, dos Irmãos Coen — que foi aclamado pela crítica literária norte-americana e lhe rendeu até um Pulitzer, A estrada já chega exibindo seu pedigree dramático. 

     

    Através da saga de um pai buscando proteger seu filho, esbarramos em diversos limites e convenções que precisam ser descartadas para que a dupla permaneça viva num mundo devastado — e por que não dizer — morto! Após um cataclisma — que o roteiro não se interessa muito em explicar — poucas foram as formas de vida restantes e a sobrevivência daquele garoto (Kodi Smit-McPhee) ganha contornos messiânicos aos olhos do pai (Viggo Mortensen), cuja responsabilidade em mantê-lo vivo lhe dilacera lentamente. O garoto foi concebido antes da tragédia, e sua mãe (Charlize Theron) representou por um tempo o grande enclave da dúvida entre eles: vale a pena resistir a esta condição miserável? A possibilidade do suicídio é tema que vai e volta na trama, tornando o ar sempre mais pesado. 

     

    Canibalismo, tortura, assassinatos, roubos, abandono. São questões com as quais eles precisam lidar em sua jornada rumo ao sul do que um dia foi os Estados Unidos, já que o pai certamente não sobreviverá a mais um inverno. É um longo caminho para escapar da desumanização: a falta de banho, comida ou contato humano torna o pai cada vez mais endurecido, enquanto a bondade do filho apenas cresce.

     

    Viggo Mortesen une sua capacidade para filmes de ação com uma atuação bastante emocionante. Já o roteiro deixa a desejar em vários momentos, como a má inserção de um merchan da Coca-cola que quebra a corrente de emoção que o filme constrói ou nas indiretas mal amarradas sobre o caráter de divindade que o garoto adquire ao longo do filme e são diretamente importantes para seu desfecho. Felizmente não são estas coisinhas miúdas que diminuem o recado que a história tem a passar. 

     

     

    POR: [Georgiane Euzebio]

  • Regular

    Alice no País das Maravilhas

    | Tim Burton

    Se há um diretor em Hollywood aparelhado para uma viagem à toca do Coelho abaixo, é o imaginativo Tim Burton, extremamente aplaudido por contos fantásticos como Edward Mãos de Tesoura (1990), Ed Wood (1994) e Peixe grande (2003). Novamente em dupla com  Johnny Depp e sua mulher Helena Bonham Carter, o diretor remexe nas histórias de Lewis Carroll e traz uma versão febril — em cores, mil deslumbramentos e três dimensões — mas fraca, com poucos espasmos de emoção, tensão ou suspense. Entre xícaras de esquisitices, colheres de tiques nervosos e grandes cubos de surrealismo, Burton traz Alice, 13 anos depois, de volta ao seu mundo encantado para um chá de poucas maravilhas.

     

    Alice (Mia Wasikowska), a menina loira do vestido inflado e anil, cresceu numa mulher pouco convencional e muito avoada para o século 19, avessa a espartilhos e meias-calça, para apontar os menores dos delitos. A bela toma uma carruagem para uma chique festa aristocrata, que, ela desconhece, é onde será pedida em casamento por um pedante lorde ruivo, Hamish. É ali que volta a se encontrar, providencialmente, com o tradicional Coelho Branco, quem ela acreditou fazer parte de um sonho que a persegue desde a infância, e se enfia, mais uma vez, buraco abaixo.

     

    A trilha de Alice no País das Maravilhas dessa vez, vale apontar, é outra. Quase todos os personagens antigos estão ali, é verdade, mas as peripécias da garota apontam muito mais para um filme de fantasia com requintes de ação, como Nárnia, que para um sonho onírico e experimental como o original da Disney. Na cabeça de Burton, Alice volta e se vê predestinada a salvar o reino da fantasia do domínio da Rainha Vermelha (Helena Bohnam Carter) — a louca de cabeça consideravelmente avantajada, entusiasta da decapitação — sem decepcionar seus amigos (?), os personagens excêntricos e, dessa vez, mais humanos, como o Chapeleiro Louco (Johnny Depp), o gato Cheshire (Stephen Fry) ou os gêmeos Tweedledee e Tweedledum (Matt Lucas).

     

    O grande problema de Alice..., justiça seja feita, não é tanto de Burton, que entrega esteticamente o que bem se esperava dele, mas do fraco e antiquado roteiro de Linda Woolverton. A roteirista é queridinha da Disney, tendo assinado A bela e fera (1991), O rei leão (1994) e Mulan (1998), mas desta vez passeia pelos personagens extraordinários de Carroll ou as cenas meticulosas de Burton sem muita atenção ou profundidade. A heroína imaginativa pretensamente trava uma jornada pessoal, à cata de sua “muchness”. No início do filme, ela é uma menina obstinada, de gênio forte. Ao fim de 1h40, ela é a mesma menina obstinada, de gênio forte. Pouco é mostrado nos vários encontros de Alice, friamente calculados para entregar minutos de ação, para arregalar os olhos, ou de humor excêntrico, para relaxar a barriga.

     

    Mesmo com a história girl power de Linda, magra para desenvolver o apelo dramático que o filme requer, os atores brilham. Destaque absoluto para a Rainha Vermelha de Helena Bonham Carter, simplesmente perfeita a cada grito estridente e/ou ordem esdrúxula. Ela vive entre a supremacia do poder e do amor, desamparada numa corte em que todos fingem ter uma anomalia para chamar de sua e transitar a compaixão nos privilégios da corte de copas. Do outro lado, a estranha Rainha Branca (Anne Hathaway) chega a assustar mais (num mau sentido) que sua irmã cabeçuda, com uma bondade irreparável entre gestos exagerados e dedos nervosos. Com pouco sucesso, Mia se esforça para encontrar uma nuance envolvente em sua Alice de uma nota só, mas parece ser a que menos satisfaz. Depp faz um Chapeleiro mucho louco, cheio de tiques e parecendo sofrer de algum tipo de distúrbio psicológico sério — os fãs, como sempre, provavelmente cairão de amores.  

     

    Não bastassem as falhas que carrega sozinho, Alice... também teve o infortúnio de ser o primeiro grande lançamento no encalço de Avatar. Burton escolheu filmar em 2D e converter seu material final para três dimensões, o que realmente soa como o último suspiro da “moda antiga” de se fazer cinema. O 3D aumenta o deslumbramento com o filme, que realmente se sustenta no visual, mas não é efetivamente indispensável neste Alice no País das Maravilhas.

     

    Felizmente, o drama, ou a falta dele, não é tão comprometedor quanto parece. Esse deserto de tensão se mostra terreno fértil para a criatividade ímpar de Burton criar o mundo de loucuras (macabras ou fantásticas) que assolam o País das Maravilhas. Para levar seu espectador por seu enredo pouco imaginativo, Burton festeja um parque de diversões alucinante, numa viagem de visual impressionante, pontuada pela maravilhosa música de Danny Elfman. No fim, Alice... é um corpinho bonito — e em 3D!


     


    POR: [Marcella Huche]

  • Regular

    Rita Cadillac - A lady do povo

    | Toni Venturi

    Em mais de 30 anos de carreira, Rita Cadillac fez pouco mais que empinar o derrière tonificado. Arranhou cantar, interpretar. Mas sempre foi o rebolado seu ganha-pão. Em Rita Cadillac - A lady do povo, Toni Venturi encara a chacrete mais famosa de frente, derrete o mito, mas não explica o sucesso assombroso por trás do Cadillac. Exercício simples de linguagem documental, centrado nas lembranças da dançarina, o filme cresce pela força da personagem, cuja vida simples hoje interessa mais que o exotismo dos tempos áureos, sobretudo quando temperado pela lucidez gritante de Rita de Cássia.

     

    O diretor de Cabra-cega e O velho encontrou o compasso perfeito para dosar as ambiguidades de Rita, ora Cadillac, ora de Cássia. Logo nos primeiros minutos do doc, uma senhora loira, com as raízes dos fios escuras expostas, de cabelos presos, vestindo moletom e calça de ginástica, prepara uma feijoada para a neta. É Rita, sem a fantasia que a consagrou e que vestiria mais tarde, frente às câmeras. Decote profundo e boas camadas de maquiagem depois, está montada a sensual Rita Cadillac — mas o mito dos anos 80 ficou perdido em algum lugar no meio do estica-puxa-e-pula da meia calça.

     

    Mas a imagem de Rita, novinha, maiô de paetês colado corpo, dedinho a fazer o "roda, roda e avisa" não sumiria tão cedo. Venturi explora o sucesso da moça, nos shows internacionais, no programa do Chacrinha ou na peregrinação por prisões e garimpos do Brasil. O festejo da Lady do povo, entretanto, logo divide espaço com lembranças menos felizes da dançarina. Franca, absolutamente consciente de seu espaço na mídia, Rita disseca as portas que seu corpo lhe abriu — e as outras tantas que se fecharam por conta disso. É aqui que, pela primeira vez, fala publicamente sobre o ano em que se prostituiu para sustentar o filho, antes de qualquer fama.

     

    Se até aí algumas lágrimas rolam, é com ainda mais lucidez que Rita analisa a declínio da carreira, que veio junto com a decadência (que forte!) do corpo. Para falar dos filmes pornôs, enxuga o choro e brada, "fiz por dinheiro mesmo, por que mais?". No vai e vem das perguntas, Rita fala dos anos enfurnada num colégio de freira e da menina criada pela avó esquerdista. A honestidade e a cumplicidade estão lá, assim como certas máscaras, evidentes nas cenas do casamento surpresa encenado para o então noivo, ponto alto do constrangimento cinematográfico (o noivo, vendado, pensa que é uma festa das Brasileirinhas, selo que fez os filmes pornôs de Rita).

     

    O maior trunfo do documentário de Venturi é sua personagem, muito mais do que a construção de linguagem do diretor. É exatamente o formato tradicional, quase enfadonho, que ceifa voos mais altos da produção. O respeito com que Venturi retrata sua personagem invade as salas, mas é ainda mais forte o próprio respeito que Rita se impõe do alto dos seus 56 anos. O mérito do diretor é explorar, na edição, as contradições, profundamente humanas, da dançarina que povoou sonhos quentes nos anos 80 e hoje curte o sossego da vida de avó —mas ainda tasca beijos na boca de homens mais novos. Venturi despe a chacrete e retrata: nem alto clero, nem meretriz; nem rainha, nem plebeia. Rita é lady, do povo.

     

     

    POR: [Marcella Huche]

  • Bom

    As melhores coisas do mundo

    | Laís Bodanzky

    O cinema nacional rejuvenesce alguns anos. Se até então nossa safra era acusada de se apoiar unicamente sobre o tripé de comédias globais, documentários e dramalhões de miséria, As melhores coisas do mundo sopra o frescor da juventude. A ficção de Laís Bodanzky fervilha como os hormônios dos jovens retratados, ágil e moderno, abraçando os superlativos da idade com delicadeza e muito respeito. Trata-se da história de Mano (Francisco Miguez), um adolescente de 15 anos, que tenta se equilibrar nas próprias ideias em meio ao divórcio dos pais, a uma paixonite platônica e ao ciberbullying que o espreita nos corredores do colégio.



    Para o roteiro de As melhores coisas do mundo, Luiz Bolognesi mescla as descobertas da série de livros Mano, de Heloísa Prieto e Gilberto Dimenstein, e cria uma história exclusiva. O adolescente que, ao lado do irmão (Fiuk), vê seu mundo ruir com a separação dos pais em termos, hum, estranhos, é comum — atormentado porque a primeira transa ainda não rolou, agarra-se ao violão (sua os dedos e contorce a cara para aprender a dedilhar Something para a garota mais bonita da escola) e esgueira-se pelo organismo vivo onde estuda. O colégio é um “BBB do mal”, define o rapaz, onde todos olham desconfiados por cima dos ombros, vigiando, controlando e, sobretudo, punindo os desalinhados — que têm seus deslizes cruelmente panfletados em blogs ou mensagens de celular.



    Implicações éticas e exercício da cidadania — afinal, até onde vai a relação aluno-professor? Como lidar com as diferenças? — perpassam a trama com fluidez e leveza, destilados com sarcasmo por Mano. Além do roteiro consistente, As melhores coisas do mundo reluz pelo respeito cuidadoso com que trata o universo dos jovens, mergulhando nas aflições, gírias, códigos e ponderações púberes. Os flagrantes de realidade, por vezes, beiram o (bom) constrangimento de tão verossímeis. A culpa, de um lado, recai sobre o ótimo trabalho dos próprios jovens atores, Gabriela Rocha e Gabriel Illanes, que vivem Carol e Deco, os melhores amigos de Mano, todos rostos desconhecidos à exceção do galã Fiuk, filho de Fabio Jr. Por outro, sobre as dezenas de jovens que meteram a colher no roteiro, incentivados pela equipe do filme em rondas pelos colégios paulistas.



    Laís faz um retrato colorido dos jovens de classe média, a ponto de, finalmente, ferver um filme nacional de amadurecimento – gênero já consolidado em outros países, os dramas de coming of age. As melhores coisas do mundo, sem estereótipos, maniqueísmos ou mesmo superlativos, conversa facilmente com seu público-alvo – até por e-mail, sms, redes sociais...

     

     


    POR: [Marcella Huche]

  • Regular

    Zona verde

    | Paul Greengrass

    O ator principal é o mesmo de Identidade Bourne. O diretor é o mesmo dos últimos capítulos da trilogia do agente desmemoriado. Até mesmo o pôster lembra os cartazes da trilogia Bourne. Zona verde, no entanto, não é um ágil e inovador thriller de ação, mas um atrasado filme panfletário anti-Bush, que sofre ao tentar equilibrar realismo, revelações bombásticas e ação desenfreada.

     

    Matt Damon aqui é Roy Miller, um militar de alta patente na guerra do Iraque, caçando as armas de destruição em massa que Sadam Hussein teria escondido pelo país. Após algumas incursões frustradas em lugares apontados pela inteligência — que pega as informações de uma fonte conhecida como Magellan — Miller começa a desconfiar que existe uma conspiração. No meio do caminho, conhece o iraquiano Freddy, interpretado por Khalid Abdalla, e o veterano agente da CIA Martin Brown, papel de Brendan Gleeson. Freddy passa a ser o tradutor da equipe de Miller, enquanto Brown age como força opositora a Clark Poundstone, vivido por Greg Kinnear, que trabalha diretamente com o Pentágono. Brown quer trabalhar com o exército iraquiano e Poundstone quer desmantelar as Forças Armadas para colocar no poder um exilado iraquiano fantoche dos americanos. No meio da salada de personagens, surge uma jornalista do Wall Street Journal chamada Lawrie Dane, papel de Amy Ryan, interessada em descobrir a verdade por trás de Magellan.

     

    Começa aí o primeiro problema do filme — trata-se de uma crítica direta ao governo Bush e às políticas que deram início aos conflitos no Iraque. Zona verde é, de certa forma, uma pequena síntese de tudo o que já foi abordado em relação ao conflito, tanto às armas inexistentes quanto a política americana de democracia forçosa. Zona verde seria um filme atual alguns anos atrás; agora, simplesmente soa datado.

     

    Outro problema do filme é que os personagens não são particularmente interessantes ou carismáticos. A intenção de mostrar personagens mais realistas conflita diretamente com o tom conspiratório do filme, que aponta para algo à margem da realidade. Clark Poundstone é um vilão que necessita apenas de uma cartola e um bigode fino para cair no clichê máximo. O burocrata malvado que ignora as boas sugestões de Martin Brown e que, em vez de soltar uma gargalhada maquiavélica, dispara sorrisos amarelos pelos corredores da chamada zona verde — o lugar onde ficam as tropas e o alto comando da operação de guerra.

     

    Miller é um dos papéis mais apagados de Damon, um personagem raso e desprovido de carisma. Não herdou nem mesmo alguns movimentos de luta de Jason Bourne. O destaque vai para Freddy, que por vezes se aventura na interpretação estereotipada e tropeça no roteiro panfletário, mas, no geral, é um bom trabalho de atuação de Khalid Abdalla.

     

    O último elemento de Zona verde é a ação, que pode salvar ou matar o filme. Nem um nem outro. Apesar de ser bastante realista na primeira metade da produção, a sequência final é um tiroteio que faz jogos de videogame se constranger. Helicópteros explodem, AK-47s disparam rajadas e granadas estouram enquanto Damon corre pelos escombros urbanos devastados. O grande problema aqui é a filmagem e a edição. O estilo epiléptico da câmera somado aos cortes videoclípticos abala algumas cenas que, nas mãos de um diretor mais calmo, permitiriam que o espectador presenciasse melhor os tiroteios.

     

    Zona verde é um filme mediano de ação. Não inova, não ousa, não impressiona, nem é uma sequência espiritual dos filmes de Jason Bourne. Personagens fracos e desinteressantes arrastam a produção, que suga seu tema das manchetes de cinco anos atrás. A zona pode ser verde, mas o tema já está mais que maduro.

     

     


    POR: [Gerhard Brêda]

  • Fraco

    O caçador de recompensas

    | Andy Tennant

    Depois de acertar (e bem) a mão com a ótima comédia romântica Hitch -  conselheiro amoroso (2005), estrelada por Will Smith, Andy Tennant tenta repetir o feito com O caçador de recompensas. Mas falha retumbantemente. Ao contrário do ótimo timing apresentado em Hitch, com sintonia perfeita entre o trio Smith, Kevin James e Eva Mendes, O caçador de recompensas apresenta uma trama que mescla ação e romance, o que funciona até certo ponto, quando os clichês e a previsibilidade tomam conta do roteiro. O caçador mira, atira, mas erra feio.

     

    Milo Boyd (Gerard Butler) é um ex-policial que se tornou caçador de recompensas e não consegue superar o fim de seu casamento. Até o dia em que descobre que a sua próxima missão é prender a repórter Nicole Hurly (Jennifer Aniston), ninguém menos do que sua ex-mulher. Mal sabia não ser o único a mirar na jornalista, que investigava uma matéria de um suposto suicídio, com suspeitas de envolvimento de policiais. Para conseguirem se livrar da barbada, precisam unir forças para sobreviver.

     

    De fato o filme poderia ser mais uma ótima tirada de Tennant, não fosse pela extensão desnecessária da trama, tornando-a por vezes cansativa. A produção ainda consegue lascas dinâmicas e bonitinhas em determinados momentos, mas nada que prenda de forma consistente e original o espectador. Butler e Aniston têm uma excelente química, o que parcialmente salva esse dia de caça. Destaque também para a cômica Christine Baranski, como Kitty, a mãe da personagem de Aniston. Sem dúvidas, a melhor coadjuvante do filme, que roubou a cena em suas breves entradas.

     

    Muitas indiretas e confusões por parte do casal protagonista aqui, algumas perseguições de carros — para variar — ali, personagens e atuações caricatas para complementar e O caçador de recompensas acaba como um filme leve e bobinho, um ótimo passatempo a quem precisa de ajuda para se entediar. Para quem se entusiasmou com o trailer, fica a dica que aqueles dois minutos e meio são mais atrativos do que as quase duas horas do longa.

     

     


    POR: [Juliana d'Arêde]

  • Bom

    Vidas que se cruzam

    | Guillermo Arriaga

    Para quem conhece Guillermo Arriaga de sua parceria com Alejandro González Iñárritu (Amores brutos, Babel, 21 gramas), este título, preguiçosamente traduzido como Vidas que se cruzam, serve como etiqueta ou atestado de que em seu primeiro trabalho como diretor Arriaga continua seguindo pela mesma linha narrativa que o tornou conhecido. O que não deixa de ser uma verdade, mas também impede que os espectadores mais atentos sejam surpreendidos pela trama de The burning plain, no original. 

     

     

    Se você  é daqueles que conhece bem os códigos narrativos do diretor, pode tentar desvendar os pequenos mistérios que vão surgindo, em doses reguladas e espalhados ao longo da história, de modo que em determinado momento da trama estejamos diante de apenas um único e grande ponto de conflito. Desta vez, contudo, Arriaga introduz uma novidade na organização do roteiro — se antes sua marca era a de mostrar várias histórias individuais que entram em choque; agora, ao contrário, vemos uma única história contada a partir de um corte no tempo, aquele que separa a história vivida por Mariana (Jenniffer Lawrence) da vida de Sylvia (Charlize Theron).

     

     

    Existe um dado simpático no trabalho de Arriaga — a presença constante de seu México natal, seja como palco para a trama, seja com um coajunvante perdido no deserto. O que inicialmente pode ter sido encarado como charme e força exótica, hoje se enquadra naturalmente nas histórias contadas pelo diretor. Aliás, é possível até fazer um paralelo entre a linha de comoção latina, suada e sangrenta explorada em Amores brutos — seu primeiro trabalho — com a atmosfera mais enxuta e menos marcada por elementos visualmente reconhecíveis como melodramáticos de Vidas que se cruzam.  

     

     

    Para quem andava saudoso de ver Kim Bassiger nos cinemas, agradáveis são as surpresas. E, para não usar a velha piada da panela velha com comida boa, dá para dizer que além de ainda muito bela lá do alto de sua loirice platinada, Kim tem ótimos momentos como uma dona de casa que vive um amor proibido.  

     

     

    E esse blá blá blá todo, que disse muito sem contar nada sobre o que de fato acontece por lá, serve só para manter o suspense, já que o filme guarda surpresas que uma resenha como esta não merece estragar.

     

     

     

    POR: [Georgiane Euzebio]

  • Bom

    Uma noite fora de série

    | Shawn Levy

    Shawn Levy pode ter encontrado o caminho para a sua (quase) redenção na comédia. Após algumas fracas tentativas, como A pantera cor-de-rosa (2006) e os dois filmes da série Uma noite no museu (2006 e 2009), parecia que o timing cômico do cineasta, que agradou muito com Recém-casados (2003), estava longe de nos dar o ar de sua graça (com o perdão da expressão). Mas eis que Levy tem a brilhante ideia de juntar dois dos maiores comediantes do momento nas telas de cinema, com muitos carros, tiros e questões conjugais. A química entre Tina Fey (30 rock) e Steve Carrell (The office) em Uma noite fora de série é absoluta, resultando numa explosão de entretenimento e algumas gargalhadas.


    Phil (Carrell) e Claire (Tina) Foster são, como eles mesmos se denominam, um casal insosso da classe média de Nova Jersey.  Dominados pela rotina de dois filhos, trabalho e tarefas domésticas, eles não se permitem mais aqueles momentos carinhosos de início de relacionamento, penetrando numa total inércia e comodidade. Até o dia em que, impressionados com a separação de um casal de amigos, Phil e Claire resolvem dar uma esquentada na relação e decidem sair para jantar fora. Mas o que era para ser uma noite romântica se transformou num verdadeiro pesadelo quando Phil resolve pegar a reserva do restaurante em nome de outro casal. Quem poderia imaginar que os Tripplehorns estavam envolvidos numa chantagem e sendo perseguidos por bandidos?


    A partir daí, o que segue é uma trama divertida e despretensiosa, liderada pelo talento cômico inegável de Tina e Steve. A dupla de atores nos proporciona momentos simplesmente impagáveis, como a perseguição de carros e a dança erótica, por exemplo.  Junto a isso, as participações de outros personagens no desenrolar da história são adições muito bem-vindas.  Destaque para Mark Wahlberg, como um ex-agente bonitão que ajuda a dupla em sua jornada para se livrar dos bandidos, e para James Franco e Mila Kunis, que interpretam o verdadeiro casal Tripplehorns, alheio a tudo o que está acontecendo. O encontro entre os Fosters e os Tripplehorns rende boas gargalhadas, principalmente quando se percebe a força dos atores para não rir em cena.


    Além do intuito de divertir, Uma noite fora de série consegue mesclar momentos e diálogos leves e românticos, que, mesmo previsíveis, não afetam negativamente o roteiro. Pelo contrário, chegam a ser até agradáveis, muito por conta das atuações de Fey e Carrell, que fazem questão de não se levar a sério. Deixando de lado os clichês, esses nunca podem faltar, o filme cumpre com o objetivo de entreter o público (apesar de correr o risco de não superar as expectativas dos mais críticos) e reforça o bom momento de Tina Fey e Steve Carrell como dois dos melhores representantes do gênero.

     

     


     

    POR: [Juliana d'Arêde]

  • Regular

    Dupla implacável

    | Pierre Morel

    A fascinação que a raça humana tem com duplas é fantástica. Batman e Robin, Riggs e Murtaugh, Zezé di Camargo e Luciano, todos são adições ao panteão de pares da cultura pop. Talvez seja a ideia de que um complementa o outro. Em Dupla implacável (uma inexplicável tradução do bom título From Paris with love), John Travolta e Jonathan Rhys Meyers sem dúvida são uma dessas parcerias que se complementam, em um filme recheado de clichês mas que, no fim das contas, diverte.

    Na trama, Rhys Meyers, em uma performance melhor que sua média, é James Reece, o assistente do embaixador americano na França que quer entrar para o time de agentes secretos do governo e botar as mãos na massa. Sua contrapartida é Charlie Wax, um John Travolta careca, com um delineado cavanhaque e alguns quilos acima do peso. Wax é uma bomba relógio ambulante, sempre matando o prestes a matar algum terrorista. Viciado em armas, Wax é exagerado, mas divertido. Os dois precisam desarmar os planos de terroristas que querem explodir uma delegação americana que visita Paris. À exceção de uma interessante reviravolta no fim, o longa passa cuidadosamente pelos clichês estabelecidos pelos filmes de ação. Alguns tiroteios surgem quase do nada e a história, escrita por Luc Besson, transparece o amor por balas voando do cineasta francês, que ainda tenta superar a insanidade que criou com Carga explosiva 2.

    O que separa, ainda que não muito, o filme de outros do gênero é a presença de Travolta. Como de costume, o ator está excelente e há algo de fascinante em ver um levemente gorducho Travolta espancando alguns terroristas com um taco de beisebol. As tiradas do personagem são ágeis e a relação como Reece, ainda que um pouco forçada, não descamba (tanto) para o bromance declarado. Algumas citações inteligentes espalhadas pelo roteiro também são dignas de nota, como a discussão sobre Star trek que os dois têm e uma clara referência ao personagem Vincent Vega, de Pulp fiction, vivido por Travolta alguns quilos mais jovem e alguns anos mais leve.

    É um filme de ação com uma trama fraca e a contagem de corpos e explosões não é particularmente notável. Nem mesmo a cidade de Paris concede algum charme à produção, que busca apenas a segurança confortável de ser um filme medíocre. E, nesse aspecto, tem muito sucesso.

    POR: [Gerhard Brêda]

  • Regular

    Chico Xavier

    | Daniel Filho

    No dia em que completaria 100 anos, e justo em meio ao feriado de Páscoa, Chico Xavier ganha um retrato correto, mesmo que populista, do (ateu) Daniel Filho. O diretor de Se eu fosse você 1 e 2 e Tempos de paz segue sua cartilha démodé — mais é sempre melhor. A estratégia de não restringir Chico Xavier à fé e fazer de um filme de nicho um espetáculo para as massas, contudo, atropela sutilezas e atocha uma biografia pouco contraditória e bem mediana — na mais cretina linha do politicamente correto.

     

    A vida de um homem não cabe num filme, apressa-se a explicar o letreiro no início da projeção. Mesmo assim, Chico Xavier tenta passar gordas e desajeitadas pinceladas sobre um panorama da vida do médium, alinhavados por depoimentos do retratado no programa Pinga-fogo, na extinta TV Tupi.  Matheus Souza, Ângelo Antônio e Nelson Xavier dividem a responsabilidade de encarnar (o trocadilho não é nada proposital) o ícone espírita em seus devidos tempos — infância, maturidade e velhice — baseados no livro As vidas de Chico Xavier, de Marcel Souto Maior.

     

    Somos apresentados a um órfão, obediente, religioso e deslocado, que conversa com o espírito da mãe (Letícia Sabatella) sob uma frondosa árvore no quintal de casa. O pequeno Chico apanha da madrinha (Guilia Gam) e sofre da desconfiança geral dos que o cercam. O sofrimento não diminui com o passar do tempo, mas é acalentado nos braços da madrasta (Giovanna Antonelli) ou nos conselhos de Emmanuel (André Dias), seu guia espiritual.  De anedota em anedota, Daniel Filho, verdade seja dita, consegue um apanhado dos principais acontecimentos da vida de Chico Xavier. Mas, é exatamente por transbordar exatidão onde deveriam sobrar contradições, sutilezas e organicidade que Daniel Filho faz um retrato em preto e branco do médium, atochando a grandeza humana do personagem que tem em mãos numa narrativa pobre.

     

    Não é bem por drenar o aspecto religioso do longa — escolha da produção para ampliar o público-alvo — que Chico Xavier fica no escuro. Seria incorreto afirmar que assistimos a um filme panfletário do espiritismo ou sustentado pela fé. A mensagem e a “missão de vida” do maior ícone espírita brasileiro se agigantam a isso. Mas, no longa,  a essência de Chico Xavier é condensada em pílulas de epígrafe, frases impactantes e frias que, mesmo com as ótimas interpretações dos Chicos, não ganham a dimensão do personagem, ora caricato, ora pacato, ora santo.  Muito se fala sobre Nelson Xavier, que já era parecido com o médium, e em Chico Xavier sua caracterização é espetacular, mas pouco aproveitada. O tempo dedicado a essa fase do personagem é relativamente curto e, por isso, brilha mais o trabalho de Ângelo Antônio.

     

    Para agradar seu grande público, Daniel Filho passeia por alguns gêneros. O drama da vida sofrida de Chico Xavier abre espaço também para cenas cômicas, como a que explica o porquê da peruca usada pelo médium, as em que Emmanuel dispara conselhos um tanto arrogantes ou a esquete em que Chico pensa que vai morrer num acidente de avião. A inserção do humor folhetinesco, porém, é totalmente deslocada da esfera dramática que cerca o filme e pode esvaziar a clamada emoção nos desavisados. A emoção encontra seu espaço na boa dupla de Tony Ramos e Christiane Torloni. Ele, um produtor de TV ateu que edita as cenas ao vivo do Pinga fogo, ela, sua esposa que conta com a ajuda do médium para superar a morte do filho. E está montado o ponto alto de Chico Xavier.

     

     

    Num retrato esteticamente muito bem apanhado, mas frio, Chico Xavier tem bons ganchos para atingir o grande público.  A história de um personagem que sempre enfileirou fiéis por onde passou, atores globais em boas interpretações, personagens diversificados e um roteiro que não se compromete com nenhum dos lados da disputa religiosa — além das 370 cópias distribuídas pelo país — garantem o apelo politicamente correto de Chico Xavier. Se em Pinga fogo a fé de Chico era televisionada para as massas e nascia ali um ícone nacional, Daniel Filho faz favor de a trazer para os cinemas.

     

     


    POR: [Marcella Huche]

  • MuitoRuim

    Surpresa em dobro

    | Walt Becker

    Coloque dois atores de carreira instável,  adicione outro igualmente irrelevante e faça eles repetirem as mesmas caretas e expressões de outros trabalhos. Pronto. Você acaba de descobrir a receita para Surpresa em dobro. Dirigido por Walt Becker (Motoqueiros selvagens), o longa consegue ser menos do que uma daquelas sessões da tarde. É enfadonho, totalmente previsível e consegue ser até irritante.


    Na trama, que tem seu desenrolar logo no início (sim, porque o que vem depois é quase um bônus negativo de uma história que não precisa de uma hora e meia para ser contada), temos os dois melhores amigos Charlie (John Travolta, com um penteado a la Drácula de Bram Stoker) e Dan (Robin Williams). Ambos são dois lobos solitários bem-sucedidos no mercado esportivo de vendas. Até o dia em que um antigo caso de Dan, Vicki (Kelly Preston), reaparece e o informa que os dois tiveram gêmeos e pede para que ele cuide das crianças enquanto ela passa duas semanas na cadeia (e aí? Já dormiu?). Não se preocupe se você não agüentou tanta falta de originalidade de um roteiro extremamente pobre e chegou a cochilar em determinados momentos. Não perdeu absolutamente nada. Os dois solteirões convictos não têm jeito com crianças. Estas, por sua vez, é claro que não são anjinhos obedientes, mas, no final, todos se amam e vivem felizes para sempre. Ponto.


    As crianças podem até se divertir nas horas em que Dan e Charlie criam milhares de confusões num acampamento – momento completamente desnecessário do filme -, liderado por um Matt Dillon dos mais canastrões. Ou até mesmo no final, quando eles invadem um zoológico (esta, talvez, atentem para o “talvez”, possa vir a ser a parte menos entediante de Surpresa em dobro). Tudo para que, mais uma vez, nos emocionemos com as mensagens sobre amizade e laços familiares que só a Disney consegue passar sem que a produção fique quase didática. Mas, desta vez, o estúdio errou na mão. E feio.


    Alguma coisa está errada quando as melhores atuações são de duas crianças e um cachorro, e não de veteranos já conhecidos e, até mesmo, premiados. Travolta e Williams estão irreconhecíveis, de maneira negativa, com atuações forçadas e superficiais, quase patéticos. Seth Green é aquele personagem meio aleatório na trama, mas que consegue salvar os raros momentos em que o filme tentava ser engraçado e não conseguiu.


    Totalmente merecidas as cinco indicações ao Framboesa de Ouro (algo como o Oscar dos piores), pois, para um filme que promete dupla diversão, a surpresa é extremamente desagradável.


    POR: [Juliana d'Arêde]

  • Regular

    Sede de sangue

    | Park Chan-wook

    Se alguém disser que o novo filme de Park Chan-wook poderia ser dividido em quatro histórias diferentes, não se espante. E, se por algum motivo você  for sensível a imagens sangrentas, repense a ida ao cinema. Sede de sangue é um nome até simpático para a quantidade de corante vermelho que escorre, espirra e esguicha em pouco mais de duas horas de uma história bastante inusitada. 

     

    De cara somos apresentados a um padre católico e oriental envolvido com questões missionárias de cura, resolvendo dedicar-se ao estudo sobre uma rara epidemia da qual apenas os negros estariam livres. Um vírus tão poderoso que a intenção do religioso em ajudar é investigada como possível tentativa de suicídio, já que, por melhores que sejam suas preces, nada lhe fará escapar da doença. Aliás, há um tom moralista sorrateiramente escondido por baixo da batina de Sang-hyeon — temas como o suicídio e a culpa, que na doutrina cristã possuem grande importância, são trabalhados exaustivamente durante a história.  

     

    Mas, deixemos isto de lado por ora. O que importa é que, de repente, uma historinha sobre fé e cura vai se transformando aos poucos num... conto vampiresco! Isto mesmo, vampiros ao melhor estilo oriental, sem os pudores de produções crepusculares adolescentes. A Sede de sangue que passa a dominar Sang-hyeon tem nuances bastante orgânicas que relacionam a dependência do vampiro com questões como a sexualidade, por exemplo. Se quisermos, é possível até comparar Sede de sangue e Crepúsculo, no que diz respeito a cenas que indicam a fortíssima tensão sexual entre seus protagonistas. Aqui, o pobre padreco, além de lidar com a transformação em vampiro, precisa também rever seus conceitos sobre voto de castidade ao reencontrar Tae-joo, uma conhecida de infância que toca (oops!) diretamente sua libido.  

     

    Diferente do translúcido casal formado por Bella e Edward, Sang-hyeon e Tae-joo não reprimem seus desejos sexuais, ainda que a moral cristã complique um pouquinho as coisas para o padre. Até a questão do irrefreável desejo por sangue é transformada no filme de Chan-wook num joguinho para apimentar a relação entre o vampiro e a mocinha. Eis que neste momento o espectador se encontra então em meio à segunda trama dentro do mesmo filme — o amor entre um (padre) vampiro e uma humana. Te lembra alguma coisa?

     

    Chan-wook parece não ter pressa e conduz a narrativa sem eclipsar nenhum detalhe. Há na verdade um fluxo anormal de pequenas reviravoltas na trama que a fazem saltar de um gênero a outro, alternando basicamente entre a comédia e o terror, maneirismo que cansa em dado momento. Quando o amor entre vampiro e mocinha ganha tonalidades de obsessão, um plano imperfeito dos dois nos coloca dentro da terceira parte desta história — aquela em que a culpa fará a relação entre eles balançar mais que Titanic em dia de tsunami.  

     

    Mesmo que durante todo o filme sejamos apresentados a cenas de terror escrachado, a quarta e última parte reserva os momentos mais grotescos e sangrentos deste conto vampiresco contemporâneo. De gata borralheira e amante espevitada, Tae-joo se transforma numa assassina frívola e deslumbrada, fato que levará Sang-hyeon a uma atitude extrema.  

     

    O grande problema é que, neste momento, mesmo o espectador mais empolgado já  terá perdido boa parte do fôlego, e as várias piruetas do diretor Chan-wook deixarão um gosto de pretensão não alcançada, ainda que a sequência final tenha lá sua boa dose de poesia e ironia. 

     


    POR: [Georgiane Euzebio]

  • Fraco

    Cadê os Morgan?

    | Marc Lawrence

    Em poucas palavras, Cadê os Morgan? é uma comédia romântica medíocre. É o mínimo denominador comum, o ponto mais mediano possível em um gênero que já não é conhecido pela inovação ou originalidade. As piadas não têm graça e o romance é previsível. A única coisa que pode arrastar algum desavisado para o cinema é o charme de Hugh Grant ou a elegância de Sarah Jessica Parker. E mesmo os dois não seguram o filme. 

     

    Na trama, Parker e Grant são Meryl e Paul Grant, um casal em crise que está vivendo separado. Em um encontro para discutir a desmoronante relação, os dois testemunham um assassinato. Para escapar do assassino, que quer eliminar as testemunhas, o casal se vê forçado a entrar no programa de proteção de testemunhas e são enviados para a cidadezinha de Ray, Wyoming. Lá, eles ficam sob a custódia do xerife Clay Wheeler e sua esposa, Emma. Isolados de seu mundinho civilizado e tecnológico, os dois redescobrem o amor. Que novidade. 

     

    O ponto positivo do filme é Sam Elliot, no papel do xerife Wheeler. Ostentando um frondoso bigode grisalho e uma voz grave de trovão, além de uma coleção de DVDs de John Wayne e Clint Eastwood, Elliot é um carismático caubói. 

     

    O roteiro, por outro lado, faz o filme desabar mais rápido que a relação dos Morgan. Além das piadas óbvias e sem graça, típicas de qualquer comédia romântica, o filme insiste em longas piadas que se repetem durante o filme, mas nunca chegam perto da comédia. Todo o arco que envolve os assistentes é completamente desprovido de graça, assim como a garota bonita e burra que é enfermeira, garçonete e assistente do corpo de bombeiros. Outro aspecto que beira o ridículo é que os Morgan parecem não fazer falta alguma para o mundo que abandonaram em sua fuga. Meryl era uma famosa corretora de imóveis da cidade de Nova York, que aparecia em capas de revistas e era requisitada o tempo todo, enquanto Paul era chefe de uma firma gigantesca de advocacia. Ninguém, além dos patéticos assistentes, parece dar falta dos dois membros chaves desta firma. 

     

    Hugh Grant é carismático, mas não tanto. Até a metade do filme, seu repertório habitual de poses e caras até convence, mas ele é abatido pelas péssimas falas e cenas que o filme arremessa nele. É doloroso ver Grant, claramente um homem britânico, dançando quadrilha com os caipiras mais estereotipados possíveis, em um rincão do interior dos EUA, usando um chapéu e camisa xadrez. 

     

    Sarah mostra no filme toda a sua limitação como atriz. Em uma versão aguada da célebre Carrie Bradshaw, de Sex and the city, a atriz não tem nem a aparência nem o talento para segurar o filme acima da lama da mediocridade. Pelo contrário, Meryl Morgan consegue ser completamente irritante em diversos momentos do filme. 

     

    No geral, Cadê os Morgan? é uma história sem graça ou atrativos sobre um casal apaixonado em uma situação "peixe fora da água". Se você for fã de Hugh Grant ou Sarah Jessica Parker, vai dar uma chance, mas não espere o carisma de Letra e música nem a inteligência de Sex and the city. Eles, assim como os Morgan, estão perdidos por aí.

    POR: [Gerhard Brêda]

  • Bom

    Os homens que encaravam cabras

    | Grant Heslov

    Os homens que encaravam cabras é uma adaptação do romance homônimo de John Ronson. Narra a história de Bob Wilton (Ewan McGregor), um jornalista em crise em busca da história de sua vida, que é enviado por seu editor para uma entrevista com um suposto paranormal: Gus Lacey, que afirma poder viajar para qualquer lugar que quiser somente através da força da mente. Gus também diz ter feito parte de um projeto secreto do governo americano durante a Guerra Fria, o “Projeto Jedi” , que pretendia criar um exército de monges psíquicos.  Duvidando da sanidade do entrevistado, Bob simplesmente ignora a história.

    Pouco tempo depois, numa viagem ao Kwait, conhece por acaso Lyn Cassady (George Clooney), citado por Gus como o psíquico mais poderoso que já existiu. Lyn está partindo para o Iraque em busca de Bill Django (Jeff Bridges), militar que teria fundado o tal “Exército da Nova Era”. Lyn explica a Bob que os membros da unidade eram dotados de incríveis poderes paranormais: conseguiam ler a mente do inimigo, atravessar paredes e até mesmo matar uma cabra simplesmente com um olhar. Hesitante e duvidando da sua própria sanidade, o jornalista resolve acompanhar Lyn em sua viagem, a fim de escrever sua grande história.

    Como a trama apresentada já pôde indicar, o filme se desloca em dois eixos: a comédia e nonsense, onde estão o seu lado positivo e negativo, respectivamente. Flutuando do humor fino ao negro deslavado, consegue arrancar boas gargalhadas de quem assiste. Ponto para o excelente elenco. Mas a história desconexa do filme vai se mostrando menos suportável conforme correm seus minutos. A insanidade dos acontecimentos é, digamos, “cool” numa primeira análise. Depois, torna-se gratuita, denunciando falta de habilidade em amarrar a trama de maneira atraente.


    Esse não me parece, entretanto, um problema de direção, mas sim do roteiro que, em defesa do roteirista, é adaptado. Não há brilhantismo no nonsense criado por John Ronson. Há humor: seja ao observar um George Clooney bigodudo encarar uma cabra até matá-la, um Ewan McGregor oxigenado (que já foi Obi Wan Kenobi) perguntar inocente o que é um “jedi”, ou um Jeff Bridges de tranças e hippie a colocar seu batalhão para dançar e usar LSD como táticas de guerra. Humor. Cabe a quem assiste julgar se isso basta.

    POR: [Philippe Noguchi]

  • Bom

    Como treinar o seu dragão

    | Dean DeBlois e Chris Sanders

    Quando a Pixar parece planar metros acima da concorrência, a DreamWorks mostra que também pode subir às alturas e descer com uma animação encantadora como Como treinar o seu dragão. Os diretores Dean DeBlois e Chris Sanders (Lilo & Stich) tiveram 12 meses para encorparem um rascunho da adaptação do livro infantil de Cressida Cowell num filme mais maduro. Pois Como treinar o seu dragão, que retrata um adolescente viking tentando se equilibrar nas próprias e magricelas pernas, fascina as crianças e mantém até os adultos ocupados. 

     

    Na Ilha de Berk, matar dragões é um estilo de vida. Os vikings são robustos e destemidos e passam a vida a proteger seu pequeno povoado dessa peste que os sobrevoa a cuspir fogo e roubar ovelhas. É aí que vive o franzino e desajeitado Soluço, que sonha em matar um dragão e assim mostrar seu méstrar seu mepor respeito go, filho do l a proteger seu pequeno povoado dessa peste que os sobrevoa a cuspir fogo e roubar suas rito ao pai (Stoico, líder do povoado, que pressiona o filho a honrar seu sangue viking), aos amigos e, sobretudo, à sua paquera (a loirinha e aguerrida Astrid). Aprendiz de ferreiro (o carismático Perna-de-peixe), ele monta uma geringonça e consegue abater um temível Dragão da Noite. Cara a cara com o bicho ferido e acuado, de faca na mão, o garoto não consegue dar fim à vida do dragão que ele apelida de Banguela, por ter dentes retráteis. No olho verde e ágil do monstro, Soluço reconhece o medo que sente no peito raquítico, e tomba de compaixão pela fera.

     

    Em volta da relação perigosa de amizade entre o dragão e o menino, o filme cresce e tem suas cenas mais cativantes. Soluço se torna um exímio conhecedor de dragões e usa toda sua sabedoria no Treino de Dragões, aulinhas que os adolescentes vikings frequentam para se tornar matadores de feras aladas e incendiárias. Entre mensagens de tolerância e confiança, voos rasantes de Banguela e Soluço preenchem a tela tridimensional, numa aventura que vale contar mais para não estragar o final. Em queda livre, entre nuvens e pedras ou planando sobre as lindas paisagens medievais, o formato é explorado ao máximo, proporcionando um espetáculo saboroso aos olhos. A fotografia, vale ressaltar, é de filme de gente grande: Roger Deakins (A vila, Onde os fracos não têm vez) assina o trabalho minucioso de luz, textura e composição.

     

    A história do improvável herói Soluço empolga, voa alto e desce como um bonito retrato sobre amizade e relação pai e filho. A DreamWorks tem uma produção vacilante, que oscila entre o fraco Kung fu panda e o genial ShrekComo treinar o seu dragão pousa mais perto do ogro. Algumas piadas ácidas fazem falta onde sobram lições de moral, mas nada que comprometa a história singela ou a aventura tridimensional de Soluço e Banguela pelos ares de Berk.

     


    POR: [Marcella Huche]

  • Regular

    Amelia

    | Mira Nair

    Só mesmo uma mulher para entender a essência e a verdadeira personalidade de outra, podem afirmar as mais feministas. Deixando um pouco para trás seu lado social mais introspectivo, como em Feira das vaidades (2004), e sua cultura indiana, a premiada Mira Nair apresenta em sua mais nova produção, Amelia, toda a glória, os sonhos e a luta de um dos ícones americanos do fim da década de 20.

     

    Baseado na história real de Amelia Earhart, a primeira mulher a atravessar o Oceano Atlântico pilotando um avião, o longa é um retrato histórico bem construído da vida batalhada da queridinha da América na época — apesar de não poder ser considerado um grande drama épico. Apesar de alguns pontos positivos, a produção não empolga e, de fato, percebe-se o porquê de o filme não ter agradado tanto o público internacional.

     

    A falta de ritmo de Amelia é um de seus maiores problemas, e, a não ser que você seja realmente um grande admirador da aviadora e tenha contado as horas para ver o resultado cinematográfico, é bem capaz de se sentir um pouco sonolento (a) em determinados momentos, tanto em terra quanto no ar. A ideia de intercalar imagens reais da época com as do filme é uma boa premissa para fugir da monotonia, mas esbarra no velho esquema de flashbacks x tempo real, que, em certas produções, como é o caso, limita em determinados períodos a fluência do roteiro.

     

    Por outro lado, a fotografia de Stuart Dryburgh é belíssima, um alento para os espectadores, e algumas tomadas áreas nos permitem voar junto com Amelia.  Hilary Swank, atriz vencedora de dois Oscar — por Meninos não choram, em 2000, e Menina de ouro, em 2004 — nos apresenta uma Amelia delicada e tímida, porém segura de seus ideais e muito determinada, em mais uma atuação consistente. Mas, vale destacar que não se aproxima de suas melhores performances.

     

    Richard Gere, no papel de George Putnam, editor e futuro marido de Amelia, tem uma atuação razoável, compatível com os pré-requisitos de seu personagem, enquanto Ewan McGregor, que interpreta Gene Vidal, grande amigo e amante da aviadora, também cumpre sua obrigação, apesar de soar meio forçado em determinadas cenas. Destaque para Fred Noonan, como Christopher Eccleston, o navegador que acompanhou Amelia e desapareceu junto com ela em sua última aventura. O elenco conta ainda com a jovem Mia Wasikowska (a Alice de Tim Burton).

     

    Longe de ser um marco das cinebiografias, Amelia também não é um fracasso absoluto. Os últimos momentos de vida da aviadora, incluindo o seu desaparecimento, foram construídos de maneira muito singela e, de fato, o final talvez seja a parte mais tocante do filme. A voz leve de Hilary sobrepondo-se às delicadas imagens da verdadeira Amelia dão o tom certo à representação de um dos modelos femininos mais influentes e apaixonados da história.

     


    POR: [Juliana d'Arêde]

  • Fraco

    Criação

    | Jon Amiel

    Duas cenas são capazes de resumir o filme. Charles Darwin senta à mesa com a família e põe-se a comer antes que todos comecem a prece de agradecimento. No subtexto, o ateísmo em conflito aos dogmas religiosos da esposa, que não disfarça olhares de reprovação. A mensagem fica ainda mais completa quando um primata toca o dedo do Darwin de Paul Bettany, em referência à pintura de Michelangelo.

     

    Com atmosfera clássica intensificada pela trilha, Criação é linear; a dramaticidade é ininterrupta. A todo o tempo o naturalista inglês sofre entre quatro paredes a dor de pensar opostamente aos preceitos religiosos da época. É um conflito interno que vaza para o semblante – é possível contar quantos sorrisos o personagem dá ao longo de todo o filme, e o ator, aqui, por vezes, o interpreta como um abobalhado. Por isso, também não é difícil se incomodar com essa constante enternecedora. Em alguns instantes, cenas ganham tamanho efeito dramático a ponto de dar ao problema de Darwin o status de tragédia. E a plástica e pasteurizada fotografia colabora para tornar ainda mais frio o que poderia ser sutilmente comovente. Assim, distante, Criação não deixa de ter momentos exagerados.

     

    A opção do diretor Jon Amiel em humanizar a figura do teórico revolucionário se perde na tentativa de entregar a perturbação do personagem por meio de delírios desprovidos de beleza onírica. E embora o epílogo alerte o espectador que a história a ser contada é referente ao processo de escrita da obra A origem das espécies, o longa não se aprofunda em motivações científicas que levaram Darwin a elaborar suas teorias. Fica tudo en passant. Não compromete o entendimento e tampouco se força com didatismos, mas peca pela falta. 

     

    Poderia ser um bom filme sobre a figura que gera polêmicas há dois séculos por todo o mundo, mas se conforma em (re)apresentar aquilo que há de mais óbvio em relação à vida do estudioso. Traz Darwin-pai, Darwin-marido e o deixa com ar patético, no melhor sentido da palavra, de gênio incompreendido. Tem, sim, experimentos em laboratório, imagens que remetem à lei de seleção natural bem ao estilo “discovery” e cenas em que se debruça sobre a pena para escrever o livro, mas também não passa disso. Enquanto se desprende da ideia de  lidar com o Darwin de livros didáticos, Criação se fixa no dilema sem gerar polêmicas para o lado de cá. E sabemos que internalizar, da tela para lá, transtornos psicológicos de um personagem só cria barreiras. 

     

    O trabalho de direção, do ponto de vista formal, é praticamente impecável. Planos bem feitos, sequências bem elaboradas. Mas se o ponto de referência passa a ser o enfoque, Criação se define como um filme que corta caminhos para chegar a lugares comuns.

    POR: [Monike Mar]

  • Fraco

    Um sonho possível

    | John Lee Hancock

    Há de se perdoar a tradução em português para este filme, que soa piegas do início ao fim. The blind side, no original, se apega ao drama baseado numa história real e, pretensiosamente, quase se lança ao limbo dos filmes que fazem de tudo para emocionar o espectador. Quase. Sem sal, o longa de John Lee Hancock (O álamo) se limita a apostar entre duas margens: a do drama carregado por traumas e deficiências do protagonista e a da comédia das entrelinhas, boba e desnecessária. Quantos filmes já se viu assim, com o mesmo enredo? É uma formula para agradar a todos, ser leve. O risco principal é cair no "mais ou menos". Por isso, Um sonho possível fica à beira do precipício.



    Sandra Bullock entra pra endossar a campanha do sem graça. Faz seu trabalho, com uma atuação nada de mais, nada de menos. Apenas interpreta um papel como há muito deveria fazer — talvez seja uma pena ficar resignada a atriz de comédia. O Oscar de Melhor Atriz não se justifica, mas demonstra o que fez por merecer: atuou. Bullock convence da maneira que o filme se propõe a convencer. É que Um sonho possível é mais do que previsível, a se julgar pelo nome que já antevê, acima de tudo, um final passível de frases feitas a favor da esperança.

     

    A história de Michael Oher, personagem de Quinton Aaron, lembra facilmente a de Preciosa, não somente por ser um ator negro no papel principal, mas pelos fatos inspirados na vida do jogador. Obeso, Michael chama a atenção de todos em qualquer lugar pelo seu jeito desengonçado e tímido. Parece ser mais agressivo do que aparenta ser. Possui traumas de infância, revelados por flashbacks, e ganha a simpatia de Anne Leigh e, aos poucos, de sua família. Com ares de socialite, a personagem de Bullock adota Michael e passa a integrá-lo à "vida social". O clima é de filantropia por boa parte do filme, até os treinos e partidas de Michael romper esses momentos — além da amizade contrastante com o filhinho de Anne. Cenas do tipo fazem o espectador sair um pouco da inércia, embora qualquer filme com competições, minimamente bem dirigido, é capaz de entreter — eis, então, mais uma fórmula de Um sonho possível. Ter uma professora particular democrata — personagem de Kathy Bates — vai ser só mais um elemento de pieguice ao drama insosso.



    Apesar de se vender como um filme sobre superação, Um sonho possível deixa claro que a mediação de Anne, rica e instruída, a favor de Michael é o único meio de o jovem se tornar o que é hoje, vulgo "vencer". Compreensível até certo ponto. O longa extrapola nessa intenção e mostra que até mesmo o dom para o esporte só foi despertado pela pseudo socialite. É perceptível a alteração da biografia que dá base ao filme. Coisa de cinema. Coisa de indústria. A ordem é funcionar.

     


    POR: [Monike Mar]

  • Regular

    O livro de Eli

    | Albert e Allen Hughes

    Sem rodeios e firulas, O livro de Eli é um filme cuja premissa é melhor que o resultado. A atmosfera desoladora, a fotografia estourada, a performance de Denzel Washington, boas cenas de ação e uma homenagem ao faroeste escondem um filme panfletário do cristianismo e com personagens, diálogos e elenco questionável.


    O personagem de Denzel, durante mais da metade do filme sem nome, é um andarilho que vaga pelos escombros dos Estados Unidos após a terceira guerra mundial, em uma missão para o oeste. O andarilho carrega consigo uma Bíblia, que ele lê todos os dias. A atualização (ou homenagem) do faroeste é clara. Washington é o estranho ameaçador que chega na pequena cidade comandada por um xerife com mão de ferro. Até cena de duelo na rua central da cidade acontece. Faltou apenas o chapéu de caubói.


    O xerife em questão é Carnegie, interpretado por Gary Oldman. A performance do ator é apropriada para o personagem ridículo que ele interpreta. Carnegie é simplesmente mal e os diretores, em uma das cenas mais didáticas de todos os tempos, fazem questão de mostrar o personagem lendo a biografia de Mussolini. De qualquer forma, Carnegie quer a Bíblia para poder dominar os corações e mentes dos oprimidos e ampliar seus domínios (os excessos da performance de Oldman o colocavam a um passo de "tentar conquistar o mundo"). E aí o filme começa a deslizar.


    Primeiro ponto: a guerra que destruiu a civilização ocorreu 30 anos antes dos eventos do filme. Nestes 30 anos, a cultura humana praticamente desapareceu e quase nenhum dos habitantes sabe ler, à exceção de Carnegie, do andarilho e de um dos capangas do vilão, ninguém sabe ler. Isso soa exagerado, considerando o pequeno intervalo entre a guerra e o filme. O segundo ponto é todo o interesse de Carnegie pela Bíblia. Se ninguém sabe ler, porque ele não pega qualquer livro (incluindo a biografia de Mussolini que ele estava lendo) e inventava alguma história mítica que favorecesse o poder dele. Ele poderia apontar para o livro e ninguém saberia de sua mentira. E por que a Bíblia traria poderes a Carnegie? Nada disso é explicado e tudo fica solto no ar.


    No elenco, além de Oldman e Washington, está a fraquíssima Mila Kunis. A personagem alterna entre ser fugitiva, amiga, amante, confidente e aluna de Denzel e convence muito pouco em todos estes papéis. Uma participação simpática, no entanto, é a de Malcom McDowell, o lendário Alex DeLarge, de Laranja mecânica. Washington não vai levar um Oscar por sua atuação, mas mantém seu alto padrão e reafirma sua posição como um dos maiores atores de sua geração.


    O final do filme vai dividir opiniões, assim como o tom religioso do filme. Alguns podem achar panfletário demais e até mesmo barato. Outros, vão achar o uso da fé um ponto positivo. O livro de Eli não vai pro céu, nem pro inferno. Esse fica no purgatório mesmo.

     

    POR: [Gerhard Brêda]

  • Bom

    Ilha do medo

    | Martin Scorsese

    Leonardo DiCaprio desafiando os limites entre realidade e loucura numa ilha? Não é a primeira vez que vemos isso. Ele deixa o ensolarado A praia, de Danny Boyle, para embarcar num claustrofóbico e tortuoso thriller noir assinado por Martin Scorsese. Trata-se da adaptação de Laeta Kalogridis do romance homônimo de Dennis Lehane — cuja obra já inspirou Sobre meninos e lobos (Clint Eastwood, 2003) e Medo da verdade (Ben Affleck, 2007). Perfeito em sua estética, Shutter island (no original) treme na trama, que especula, duvida e desorienta-se demais somente para polir o óbvio.

     

    De Niro em 70, DiCaprio nos anos 2000. Em seu quarto trabalho com Scorsese — antes, Gangues de Nova York (2002), O aviador (2004) e Os infiltrados (2006) — o ex-galã encarna Teddy Daniels, um agente federal que ruma a Shutter Island, com seu parceiro Chuck Alue (Mark Ruffalo) na bagagem, para desvendar a fuga de uma mulher de um manicômio para criminosos. A procurada é Rachel Solando, que afogou os três filhos no lago de sua casa e sumiu, descalça, de uma cela trancada por fora. Entre um interrogatório e outro, Teddy é atormentado por enxaquecas, pesadelos e paranoias. Tudo parece encobrir um mistério, todos sabem de algo mais, nada é tão aquilo que é. É 1954, coração da Guerra Fria, e boatos de conspirações pululam a cada esquina.

     

    Mas Scorsese tem mais em mente do que um interno insano à solta. Nas penumbras do hospital penitenciário, há o temor de bomba atômica, memórias dos campos de concentração nazistas e rumores de experimentos científicos questionáveis. O drama que ganha força, porém, é a sombria fronteira entre realidade e percepção, loucura e sanidade. Pouco a pouco, Scorsese larga tudo nos já pesados ombros de Teddy, que aprendemos, sofre com a morte da mulher (Michelle Williams), cujo assassino é um paciente do sanatório. Nenhum problema é pouco para DiCaprio, contudo, que aqui encarna tão bem Teddy que sua ansiedade arrepia nossa própria pele, enquanto Scorsese ocupa-se em despir a vulnerabilidade e o olhar preocupante — e preocupado — do policial.

     

    O problema é que, aos 40 minutos do filme, Teddy é um homem nu de quase todos os mistérios, e o principal eixo dramático de Ilha do medo perde gradativamente o interesse do espectador. Exatamente quando deveria acelerar, a trama prende Teddy, fazendo-o encontrar atores excelentes (Emily Mortimer, Jackie Earle Haley e Patricia Clarkson), que expõem cuidadosamente assuntos que enlouqueceriam qualquer um. Resta ainda os admiráveis acenos de Scorsese ao noir, as sombras meticulosas nos chapéus de feltro, os cigarros queimando sinuosamente, um denso e estreito corredor de celas de onde surgem mãos agonizantes.

     

    O filme de Scorsese mais próximo do que se pode considerar terror foi Cabo do medo, com Robert De Niro psicopata e tatuado. O trailer de Ilha do medo o vende assim — o que talvez explique os recordes de bilheteria na estreia americana — mas nada ali assusta, nem mesmo seu final invertido. Scorsese merece o poder da dúvida, contudo, e muitos dizem ser uma adaptação perfeita do livro de Lehane — o próprio diretor já saiu em defesa da obra. A fronteira realista em debate no filme, utilizada por Scorsese como veículo de estudo psicológico ou crítica social em outras ocasiões, aqui não extrapola o sistema claustrofóbico da ilha, mesmo que iluminado por fachos de virtuosidade.

     


    POR: [Marcella Huche]

  • Bom

    Direito de amar

    | Tom Ford

    Adaptar um livro de tom intimista e psicológico, onde o personagem aparece sem um sentido na vida e sofrido poderia resultar num  melodrama repleto de clichês não fosse a elegância na direção estreante do estilista Tom Ford, nas interpretações de Colin Firth e  Julianne Moore e na fotografia de Eduard Grau.  Firth faz o papel principal como George numa atuação intrigante que mistura o mórbido e o irônico de forma caricata, trazendo certo humor às cenas de um homem que não consegue assimilar a perda do companheiro com quem vivia há anos, Jim, e começa a ensaiar a forma mais interessante de se matar. A interpretação rendeu a Colin Firth o prêmio de Melhor Ator no Festival de Veneza e no BAFTA, além da indicação ao Oscar e ao Globo de Ouro.

      

    O longa-metragem Direito de amar  é inspirado no livro de Christopher Isherwood A single man, que costuma ser listado entre os melhores filmes de temática gay do século 20, mas é bem mais que isso. A narrativa que se passa nos anos 1960 – o livro foi escrito em 1964 – tem seu valor psicológico ao adentrar na angústia do personagem, que é um professor universitário,  e trazer uma dor universal – a da perda - às telas. Um enredo que abrange idas e vindas, relacionamentos e solidão, existência e dor numa espécie de dança da vida – aliás, bem ritmada pela trilha sonora de Abel Korzeniowski, que traz força e impacto às cenas e confere certo reforço no aspecto caricato e dolorido do personagem.

      

    Apesar de encontrar-se num estado apatia e inclinamento ao suicídio, George também reencontra pessoas e até se diverte. Uma delas é Charley,  personagem interpretada por Julianne Moore, uma antiga namorada, que passou a ser uma amiga depois de o perder, embora ainda demonstre um desejo por ele. Agora, é um aluno que desperta no personagem alguma vivacidade escondida. Nesse momento, lidando com o inesperado encontro, com delicadas sensualidades,  George descobre que na vida há coisas que não se planeja, elas simplesmente acontecem, entre elas, a morte.

     

    O filme opta por focar na história de George e Jim e para voltar ao passado utiliza flashbacks um tanto forçados e dramáticos demais. As imagens que variam do cinza ao colorido vívido, entre as memórias do passado do personagem e a vivência do presente. Por se passar nos anos 1960, o  filme ganha um aspecto antigo, que é retratado também nos figurinos e aparência dos personagens. De maneira geral, a fotografia ganha uma aparência antiga e elegante. Pode-se dizer, em se tratando de um diretor que é um dos grandes nomes da moda, que o filme tem é estilo.

     

    Na verdade, a maior elegância da adaptação é trazer a característica do livro de tratar o universo gay de maneira muito natural e delicada. Mostrar que uma história de amor bonita, que deixa um forte sofrimento de perda por ter sido intensa, também acontece entre pessoas do mesmo sexo livremente. Por ter esse cunho de uma narrativa homossexual com naturalidade – não cheia de debates - e tratar de angústias que são universais, o título Direito de amar em português foi uma barbeiragem na escolha para a transmissão da ideia do filme chamado A single man no original. É uma história humana e mostra que humanidade e afetos, assim como angústias e perdas, são das coisas incontidas, que independem da orientação sexual.

     

     

    POR: [Carolina Leal]

  • Regular

    Entre irmãos

    | Jim Sheridan

    Nos primeiros 20 minutos de Entre irmãos, o diretor Jim Sheridan fornece todas as informações necessárias para recriar em nossas cabeças, quase completamente, a trama a se desenrolar nos longos 105 minutos que temos pela frente. O filme, de fato previsível, não consegue escapar da história rasa do produto do qual foi adaptado — afinal, é quase um remake do dinamarquês Brothers, de 2004 — por mais que uma boa direção pudesse contornar isso.

     

    Estamos diante de dois irmãos quase opostos. Sam (Tobey Maguire) é um fuzileiro naval prestes a embarcar numa nova missão no Afeganistão, um homem de família firme, casado com Grace (Natalie Portman), sua namorada da adolescência, com quem tem duas filhas. Já Tommy (Jake Gyllenhaal) é um homem solitário que acaba de ser libertado da prisão por assalto à mão armada, não muito tempo antes da partida do seu irmão para o Oriente Médio.

     

    A jovem Grace recebe a notícia de que o helicóptero onde Sam viajava fora atacado, matando os soldados a bordo. Na verdade, ele e o companheiro de marinha Joe Willis (Patrick Flueger) sobreviveram e acabaram aprisionados e torturados por dias por terroristas no deserto. Sua mulher, desgostosa, carente e, sobretudo, desavisada acaba se envolvendo com Tommy, que desde a "morte" do irmão tenta se redimir aos olhos de sua família.

     

    A narração desta trama certamente não acarretaria em grandes spoilers. Prefiro, contudo, deixar a surpresa” no ar e provar que possivelmente você foi capaz de imaginar quase perfeitamente o desenrolar dessa história, quando finalmente a assistir numa sala de cinema.

     

    Entre irmãos é um dos filmes mais previsíveis dos últimos anos, o que não seria um problema tão grande caso este não fosse um filme centrado na trama e nas atuações, que não falham, mas não brilham em momento algum. O filme é esteticamente genérico e não constrói nenhuma espécie de personalidade sobre a fotografia, o que poderia ser um bônus diante da trama superficial. Por último, o final reticente da história contribui para uma frustração ainda maior.

     

    É preciso, entretanto, valorizar a preocupação detalhista do diretor Jim Sheridan. O principal e mais visível deles é a mudança física que sofre Sam desde que sai de casa até quando volta do Afeganistão após dias de tortura. Tobey Maguire, tal qual fez na transição de sua atuação em Homem-Aranha para Sea Biscuit, teve de emagrecer muitos quilos e parecia assustadoramente frágil na tela, como se fosse quebrar a qualquer instante.

     

    POR: [Philippe Noguchi]

  • Bom

    Coração louco

    | Scott Cooper

    Ao ver Coração louco, de Scott Cooper, a comparação com O lutador, de Darren Aronofsky, é inevitável. Mickey Rourke e Jeff Bridges, Randy "The Ram" Robinson e Bad Blake, vivem personalidades decadentes, entregues aos vícios de carreiras capengas, quando conhecem mães solteiras redentoras. É mais fácil envelhecer cantor que lutador, contudo, e essa história já foi contada várias vezes. O que faz de Coração louco um filme honesto e emocionante, que trepida, mas não cai nos clichês de sua trama, é a atuação de Jeff Bridges. Ano passado esse era o filme de Rourke, também favorito ao Oscar. Em 2010, porém, Bridges parece não ter concorrência.

     

    Coração louco é a estreia de Cooper, preparador de personagens, na direção. Não é exagero dizer que reside aí o trunfo da produção, que nos brinda com um personagem ao mesmo tempo decepcionado e desesperado, ressentido e prazeroso. Com quase 40 anos de carreira e quatro indicações ao Oscar (Uma sessão de cinema, O último golpe, O homem das estrelas e A conspiração) Bridges chega a Coração louco no auge de sua forma — embora a barrigona branca esteja lá, entre uma camisa aberta e outra, e incomode nos primeiros minutos do filme.

     

    Aqui, ele é Bad Blake, calejado do country, de cabelo grisalho desgrenhado e alguns quilos a mais, que equilibra na cabeça um chapéu; na boca, um cigarro; no nariz, um Ray Ban caramelo; e, às vezes, um copo de uísque na barriga. Veterano de quatro casamentos, toca seu country em buracos de cidadezinhas americanas, para seu público e suas groupies de terceira idade. A eles bastam os antigos sucessos e o charme cambaleante do alto das botas de vaqueiro de Blake. É essa figura que encontra a jornalista Jean — Maggie Gyllenhaal, em boa performance num personagem pouco crível, ponto fraco do roteiro — a quem o cantor entrega seu coração louco em frangalhos.

     

    O primeiro terço do filme, que apresenta o incrível Blake & sua rotina maldita são encantadores. Lá para o fim Coração louco perde o ritmo porque você já conhece essa história muito bem. O cantor alcoólatra faz burrada, quebra o coração da mocinha e sua dor de cotovelo lhe proporciona o retorno da inspiração, adormecida pelo uísque e pelos anos. Mas é aí que Bridges toma as rédeas do filme, que mesmo equilibrado em clichês, consegue ser extremamente emocionante.

     

    Em dueto com a interpretação de Bridges e sendo condição vital para o êxito de Coração louco é a excelente música que Blake canta, que também concorre a Melhor Canção Original no Oscar. O produtor musical T Bone Burnett e o guitarrista Stephen Bruton escreveram The weary kind, que compõe a melancolia de Blake tanto quanto as palavras e os gestos de Bridges.

     

    Como bônus, há ainda os azuis do céu do Texas, captados com maestria pela fotografia de Barry Markowitz, assim como o brilho apaixonado dos olhos de Maggie.  Mas, surpresa mais grata é Tommy Sweet, o aprendiz supostamente ingrato de Blake, que hoje balança as botas num country moderno, cantando os hits escritos pelo mentor. Quando entra em cena, entretanto, o que vemos é um Colin Farrell tímido, retraído ao extremo de não encarar nos olhos, tão grato que quase arrependido. A ponta de Farrell comprova que, como fez em Na mira do chefe, é mais descontraído e eficaz como protagonista cult, alternativo, que nos papéis de herói clássico. Coração louco é memorável, por — e para — Bidges e Farrell.  

     

     

     


    POR: [Marcella Huche]

  • Excelente

    O segredo dos seus olhos

    | Juan José Campanella

    O segredo dos seus olhos, de Juan José Campanella, é um filme angustiante. E impactante. Tem como personagem central Benjamin Espósito (Ricardo Darín), oficial de um Tribunal Penal de Buenos Aires, que ao se aposentar, decide escrever, embora hesitante, sobre um caso específico que investigou em 1974, e que marcou sua vida: o assassinato e estupro de uma jovem em casa.

     

    O filme prende o espectador, aliando humor e um subnúcleo romântico ao suspense que fundamenta a trama. E é capaz de levantar um bom número de questões relevantes sem se perder ou parecer pretensioso. Traz, por exemplo, o vício na figura de um melhor amigo alcoólatra do protagonista; e a política, na figura do estado ditatorial da Argentina da década de 70 e personificada em um agente corrupto do Tribunal. Todas essas referências surgem entrelaçadas pelas memórias de Benjamin, que começa a questionar sua própria visão dos fatos ao relembrá-los para o romance.

     

    O segredo dos seus olhos se passa, portanto, em dois momentos, simultaneamente. Um, no período do crime, quando um Benjamin jovem começa a investigar o caso da moça estuprada e torna-se amigo de seu viúvo, que admira por sua devoção à esposa morta. Em meio à trama policial, desenrolam-se dois eixos paralelos: as relações conturbadas com o amigo alcoólatra do Tribunal (interpretado por Guillermo Francella) e com Irene (Soledad Villamil), sua chefe, por quem alimenta uma paixão secreta.

     

    O segundo eixo do filme apresenta Benjamin 35 anos depois do caso, ao procurar Irene (neste momento já casada e com filhos) para ajudá-lo a escrever o romance. Benjamin parte para uma investigação posterior do caso, a fim de esclarecer partes da história que nunca ficaram resolvidas, e se vê diante de equívocos que poderiam o ter poupado dos traumas que tanto o marcaram. Essa reviravolta desemboca numa enorme revelação sobre os personagens envolvidos na história.

     

    Embora a trama seja tensa, o roteiro não deixa de oferecer como bônus boas tiradas de humor, que tornam o filme mais leve e fácil de digerir. Impossível não considerar também as atuações, que contribuem nesse sentido. Ricardo Darin, um verdadeiro ícone da Argentina, e Soledad Villamil não brilham, mas dão conta do recado, com destaque para a cena em que interrogam o suspeito do crime, deixando o jogo psicológico à flor da pele. Quem realmente se destaca, entretanto, é Guillermo Francella, o comediante argentino que executa esplendidamente tanto o papel dramático de alcoólatra, quanto as cenas cômicas ao lado de Benjamin durante as investigações.

     

    Se a força do filme encontra-se na trama, inspirada na novela de Eduardo Sacheri, A pergunta de seus olhos, seria uma injustiça creditar suas virtudes somente ao texto. Juan José Campanella faz realmente um trabalho brilhante e captura as cenas com poética, em quadros muitos bem feitos. As escolhas estéticas, como o desfoque de personagens em certas cenas, ajudam a manter o clima de suspense. Também vemos planos sequências belíssimos, que não deixam nada a dever às megaproduções de Hollywood, e uma reconstrução de época impecável.

     

    O filme exibe com um desfecho surpreendente, que já vale o ingresso — e talvez a própria indicação ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro. Novamente, ponto para Juan José Campanella, que dirige a sequência sem erros. Um fechamento para classificar o longa argentino como obra de arte. Um filme impactante que fica (literalmente) em você depois de deixar a sala de cinema, com um torcicolo de tensão e um sentimento indecifrável, como um nó na garganta.

     

    POR: [Philippe Noguchi]

  • Regular

    Simplesmente complicado

    | Nancy Meyers

    Nos anos 80 e 90, era muito lucrativo fazer filmes de ação. Foi a era dos grandes action-heroes americanos, fortões como Arnold Schwarzenegger e Sylvester Stallone. De uns tempos para cá, o paradigma vem mudando. As mulheres estão indo mais ao cinema e as comédias românticas são o porto seguro de Hollywood. Antes, para cada Rocky IV e Exterminador do futuro, pequenos clássicos do gênero, você enfrentava dezenas de genéricos com Steven Seagal e companhia. Nas comédias românticas, a situação é similar: em um mar de Matthew McConaugheys e Meg Ryans, você encontra apenas alguns filmes como Simplesmente complicado.

     

    Na trama, Jane (Meryl Streep) tem um caso com seu ex-marido, Jake (Alec Baldwin). Enquanto isso, começa um pequeno romance com Adam (Steve Martin), o arquiteto que trabalha na reforma de sua casa. O segredo de Simplesmente complicado não está em quebrar as correntes do formato com uma trama inovadora. Pelo contrário, todos os clichês do estilo estão ali — o trunfo é uma trinca de performances que seguram todo o espetáculo. De um lado, a sempre excelente Meryl Streep, cuja interpretação se faz nos detalhes, nos olhares e nas expressões faciais. Os diálogos não fogem muito do esperado de uma mulher insegura, traumatizada pelo divórcio, mas, ao mesmo tempo, mãe carinhosa e carismática. Segurando a outra ponta está o ótimo John Krasinski, o Jim Halpert da série The office. Com um timing cômico impecável, Krasinski, interpetando o genro de Jane, Harley, tem as falas mais engraçadas do filme. A sequência no restaurante do hotel é toda construída em cima do ator, que traz muito do clima de "comédia de constrangimento" de The office na bagagem.

     

    O outro pilar que faz com que Simplesmente complicado flutue acima da comédia romântica padrão é Alec Baldwin. Baldwin chegou a um estágio de sua carreira em que não interpreta mais personagens. Ele interpreta Alec Baldwin, apenas rebatizado por algo genérico como Jack ou Bill. Neste caso, é Jake, o ex-marido de Jane, que engatou um casamento com uma mulher muito mais nova, Agness (Lake Bell).

     

    No geral, Simplesmente complicado é um filme mediano. Simples assim. Para cada brilhantismo do roteiro (por exemplo, Agness não é demonizada por ser mais atraente que Jane. Em uma cena na qual Jane dança afetivamente com Jack, vemos a tristeza sincera no olhar de Agness), temos algumas saídas mal explicadas, algumas performances medianas (Steve Martin, estou olhando para você) e algumas piadas deslocadas (humor com maconha é golpe baixo). Mesmo assim, se quer uma distração para desligar o cérebro no fim de semana, Simplesmente complicado é a pedida. Alec Baldwin já vale o ingresso.  

     

    POR: [Gerhard Brêda]

  • Bom

    Educação

    | Lone Scherfig

    Condenar moralismos não pode ser o tipo de crítica suficiente para julgar um filme cuja narrativa, a partir de começo e meio, acaba com uma lição de moral. O feito desconsideraria espontaneamente gêneros que se popularizaram há séculos por essa característica, tais como contos de fada, e que seguiu como pano de fundo para obras primordiais do cinema, a exemplo de D. W. Griffith. Antes de se chegar a afirmar que um filme é moralista, é necessário reconhecer a gratuidade dos elementos que o fazem como tal. Caso contrário, o melhor que se tem a fazer é assistir a uma história que, por algum motivo, mereceu ser contada. E Educação se enquadra nessa última sentença.

     

    Num primeiro momento, o que mais chama atenção — sem falar nas três indicações ao Oscar deste ano — é a assinatura do roteiro pelo escritor pop Nick Hornby. Depois, basta render-se ao enredo baseado nos relatos autobiográficos da jornalista Lynn Barber, publicados numa revista inglesa. E não, isso não aparece no filme. Em Educação, a diretora Lone Scherfig faz um recorte, que foca um acontecimento principal e nele se desdobra para não se perder. Lynn recebe o nome de Jenny, personagem carismática interpretada por Carey Mulligan. O rosto foi feito para encantar, mas a fragilidade nele expressa se confirma depois que a jovem também se encanta. Assim, faz-se justificável o apelo ao ato inconsequente de uma adolescente que se inicia na vida social para além de sua conservadora escola.

     

    A bossa de Hornby nos diálogos e a direção da dinamarquesa colaboram para a empatia aos personagens, mesmo alguns deles estando em pecados capitais. O filme não é pretensiosamente reflexivo. Leve e sem ambições, a aposta é na sutileza e no realismo, embora algumas caricaturas sejam inevitáveis.

     

    A inocência perdida, o amadurecimento, o despertar para o mundo. Típico de incontáveis obras que se centraram no universo feminino na flor da idade. Na pele de Carey Mulligan, Jenny se torna um arquétipo. O trabalho de Lone Scherfig e Hornby entram em congruência quando disfarçam acontecimentos históricos — estamos numa Londres em plena década de 60! — e tornam o filme contemporâneo e universal, com tintas frescas e um tom retrô para quem quiser sentir certa nostalgia nos leves cenário e figurino. Educação não explicita o período — assim como a própria Lynn Barber em seu livro — mas o mantém como base para consolidar os personagens.

     

    Jenny não vai assustar ninguém com uma flor e uma fita no cabelo, tampouco ouvir Janis Joplin. A menina transmite um ar angelical, escuta música francesa e planeja a data para perder sua virgindade. Uma garota como poucas, mas que poderia ser qualquer uma que apenas segue seus impulsos, ou melhor, até onde os pais a deixam ir. Transgredir a ditadura familiar ela só consegue com o mais velho e experiente David, personagem de Peter Sarsgaad. Sedutor à filha e aos pais, o homem passa a deslumbrá-la pelos passeios a lugares sofisticados e ambientes culturais. A menina, que tem uma pré-disposição ao gosto clássico, não se faz de rogada e encabeça no novo mundo de David e o inseparável casal de amigos.

     

    A figura paternal deixa de representar a rigidez instaurada em ambiente familiar para conceber a maleabilidade das exigências diante do deslumbre, que tomou conta de todos que, pelo horizonte de oportunidades e a bem da felicidade, se conformam em se contradizer. Para a menina, felicidade amorosa e sexual. Para os pais, uma filha bem encaminhada ao casamento, sem dificuldades. A questão toda é ter se dedicado à vida inteira para passar para a universidade e, no último ano, ficar num impasse entre a profissão e a vida que não imaginara ter. Um tom feminista ecoa.

     

    Por fim, tem-se aqui um conto sobre o recomeço. Não à toa, o filme ganha um título passível de ambiguidade. Educação não é o que recebemos quando pequenos como forma de preparação para a vida adulta? Pois bem, se a paternal se esfacela, a de um estranho no ninho se manifesta, mesmo com um gosto amargo. Alguns justificariam pela idade. Outros, que errando é que se aprende.

     

    POR: [Monike Mar]

  • Fraco

    Um olhar do paraíso

    | Peter Jackson

    Tal qual os filmes de grindhouse dos anos 70, Um olhar do paraíso apresenta dois filmes numa sessão. Nenhum deles é particularmente bom. O primeiro, uma comédia familiar açucarada digna da Sessão da Tarde. O outro, um thriller sobre um assassinato com um dos psicopatas mais caricatos dos últimos anos. Amarrando estes dois filmes, uma série de sequências sobrenaturais com bons efeitos especiais e boas ideias arremessadas, literalmente, no limbo. Peter Jackson dirige um filme de cerca de 2h30 de duração e nenhum personagem cativante.

     

    Um olhar do paraíso conta a história dos Salmon, uma família caricata e feliz dos anos 70. Eles se amam incondicionalmente, são trabalhadores, vivem com o orçamento apertado, mas tem uns aos outros. A primeira parte do filme tenta estabelecer o carisma da família, mas falha. Miseravelmente. Cada fala dos Salmon soa falsa, como se estivessem num comercial de margarina. Susie (Saoirse Roman, com performance irregular) estuda num típico high school americano e tem até mesmo um amor platônico por Ray, poeta da escola. A garota, num dos raros momentos honestos do filme, se queixa para a avó, Lynn (Susan Sarandon, em bom desempenho, mas num papel equivocado) de que o garoto nem nota que ela existe. O filme, dedicado em arruinar qualquer rastro de credibilidade, anula este momento quando, cenas depois, coloca Ray se declarando para Susie no corredor da escola. "Você é linda, Susie Salmon", diz o rapaz, do nada, para uma abobalhada Susie.

     

    Esta parte açucarada é cortada pelo assassinato de Susie (que já estava explícito pela narração da própria garota, do além). Aqui começa praticamente outro filme, que é ainda pior que a comédia-família de antes. O assassino, George Harvey (Stanley Tucci, quase irreconhecível) bate em todos os clichês estabelecidos pelo cinema nos últimos 50 anos. A interpretação de Tucci não é ruim, na verdade, é uma das melhores do filme, mas o estereótipo de homem solitário, com um hábito ridículo e obsessivo (no caso, construir casas de boneca), frustrado e "acima de qualquer suspeita" não cola mais. Se existe um modelo de psicopata guardado nos arquivos de Hollywood, este modelo é George Harvey. O modo como Harvey atrai Susie também desafia o bom senso do espectador. Quanto à cena do assassinato em si, Jackson tentou ser tão sutil que o espectador é levado a crer, ainda que por apenas alguns segundos, que Susie escapou das garras do assassino. O problema é que cinco segundos depois o filme já mostra que não foi bem assim, tirando o propósito da cena que acabou de exibir.

     

    O problema maior é que Jackson não abandona um filme pelo outro. Enquanto os pais de Susie, Jack (Mark Wahlberg, em performance mediana) e Abigail (Rachel Weisz, também mediana) estão lutando para lidar com a morte da filha — Jack perseguindo incessantemente o assassino sem rosto e Abigail se alienando cada vez mais da família — a avó Lynn se infiltra na casa e o tom fica animado e carregado de piadinhas. Jackson tentou mostrar como as famílias lidam com o luto de formas diferentes, mas a mão do diretor foi pesada demais e a transição das emoções densas para as leves é brutal.

     

    Amarrando os dois filmes, está a melhor parte de Um olhar do paraíso. Susie, no limbo, observa e, de certa forma, influencia todos os acontecimentos. Ali, Jackson tem um belo playground visual, pois esta dimensão intermediária entre a vida e a morte é um reflexo das emoções da garota. Uma chuva torrencial ou uma nevasca pontuam a raiva e tristeza da menina, enquanto um clima ensolarado e florido ilustra a felicidade que ela consegue encontrar neste momento tão difícil.

     

    Com falas forçadas e personagens idealizados, Jackson não faz o espectador se importar muito com o caso da menina Salmon. Com o caricato psicopata, não aborda a questão do maníaco infiltrado na sociedade. E com a mão pesada, não leva a narrativa com a finesse que o tema exige. Um olhar do paraíso é, no final das contas, infernal.

    POR: [Gerhard Brêda]