Laboratório Crítico | LABORATÓRIO POP
  • Regular

    Família vende tudo

    | Alain Fresnot

     

    Embalado por nada menos que cinco prêmios na 15ª edição do CinePE Festival do Audiovisual – mas espinafrado pela crítica especializada na ocasião –, o longa Família vende tudo chega oficialmente ao circuito nesta sexta (30). A nova comédia do diretor Alain Fresnot (Desmundo, Ed Mort), trata a história de uma Cinderela golpista da periferia paulista – com tipos mais clichês que em contos de fadas – envolta em uma estética de realismos que não aproximam e de absurdos que não encantam o público. Do cortejo ao politicamente incorreto, sai uma narrativa fraca apoiada fragilmente por bons atores.


    Na trama da fita, uma família com dificuldades financeiras tem uma brilhante ideia: fazer com que a filha Lindinha (Marisol Ribeiro) engravide do famoso cantor popular Ivan Cláudio (Caco Ciocler) para tirá-la do sufoco. Assim, os pais e os irmãos da moça planejam o dia em que ela deve dormir com o “Rei do Xique-xique” e passam a acompanhar sua agenda de shows. Lima Duarte, Vera Holtz, Robson Nunes e o jovem Rafael Rodrigues compõem o núcleo de parentes/gangue de Lindinha. Luana Piovani, Aílton Graça e as participantes especiais Marisa Orth e Beatriz Segall arrematam o elenco.


    Entendido pelo diretor como uma “tragédia romântica para rir”, Família vende tudo leva para o varejo bugigangas paraguaias e moralismos caretas. Mas, ao tentar fazer um deboche de situações risíveis da atualidade – como pseudo-cantores, marias-microfones e golpes-da-barriga –, o filme fica no limite arriscado da dúvida entre a crítica e o escracho. É quase como a lógica de “humor” do Zorra total, em que você se pergunta a cada novo quadro: “é isso mesmo?”.


    Toda a diversão fica por conta dos trejeitos e caracterizações dos personagens caricatos – descontando preconceitos gastos, como a loura burra (Luana), e perigosos, como o negro com potencial de bandido (Rodrigues). Marisol interpreta com frescor a mocinha destrambelhada, Ciocler está surpreendentemente mais cafona que Latino (a fonte de inspiração) e o casal vivido por Duarte e Vera é ao mesmo tempo repugnante e carismático.


    Dessa forma, Família vende tudo, desapoiado pela pouca divulgação, vai passar praticamente em branco pelos cinemas. Rodado há cerca de dois anos, o longa terminou suas filmagens com dívidas e por isso sofreu atrasos para ser lançado. Para quem se arriscar, vale pelo encontro do elenco e pelo prestígio de Fresnot, que realizou um trabalho envolvente em Desmundo (2002), seu filme anterior.

     

    Foto: Divulgação

    POR: [Camila Lamha]

  • Bom

    Contra o tempo

    | Duncan Jones

    Contra o tempo começa com uma bela sequência de abertura que mostra cenas da vida cotidiana da cidade de Chicago embalada por uma música que faz lembrar os filmes do agente James Bond, o 007. Dentro de um trem, conhecemos o capitão Colter Stevens (Jake Gyllenhaal), atordoado por estar sendo confundido com Sean, uma pessoa que ele não faz ideia de quem seja.

     

    Aos poucos, descobrimos que Stevens está no corpo de outro homem e que ele faz parte de uma missão para salvar Chicago de um terrível acidente de trem. A tarefa faz parte de um experimento secreto do governo americano chamado Source Code, um programa que permite ao agente assumir a identidade de outra pessoa em seus últimos oito minutos de vida. É com esse tempo que Stevens conta para desvendar o que vai acontecer com o trem e evitar a tragédia.

     

    Em seu vagão, ele encontra Christina Warren (Michelle Monaghan), por quem acaba se apaixonando. Além de descobrir quem está por trás dos planos de espalhar novamente o terror pelos Estados Unidos, ele vai fazer o possível para impedir que a amada morra na explosão do trem. Mas, para salvá-la, ele vai precisar convencer a capitã Colleen Goodwin (Vera Farmiga) da necessidade dessa missão.

     

    Logo após os atentados do 11 de setembro, os americanos tiveram dificuldade para lidar com o terrorismo. Mas, passados dez anos daquela trágica terça-feira, o tema ganhou força nos cinemas e se tornou um dos maiores filões de Hollywood, explorado em gêneros diversos, do drama ao horror, mas com especial intensidade nos thrillers.

     

    À primeira vista, Contra o tempo parece um típico filme de ação, já que o protagonista tem um curto espaço de tempo para evitar uma tragédia. Mas o roteiro de Ben Ripley mostra inteligência ao apostar suas fichas no intrincado processo cerebral que propicia a experiência do código fonte, evitando repetir clichês do gênero.

     

    A direção de Duncan Jones (ele mesmo, o filho de David Bowie), que debutou no cinema em 2009 com "Lunar", também acerta no uso criterioso dos efeitos especiais. Os elementos técnicos, discretos e bem empregados, ficam a serviço do elenco capitaneado por Jake Gyllenhaal. Ainda que não apresente o mesmo vigor de O segredo de Brokeback Mountain e Zodíaco, o ator cumpre bem a proposta do filme. Ao lado dele, com desempenhos também eficientes, Michelle Monaghan e Vera Farmiga.

     

    Orçado em US$ 32 milhões, Source Code - título original - nasceu com o objetivo de ser um filme médio, daqueles que mantêm as bilheterias da indústria hollywoodiana a todo vapor enquanto os blockbusters de verão e os possíveis candidatos à temporada de prêmios estão em produção. Contra o tempo mostra que ser médio não significa ser mediano e que, mesmo dentro destas limitações, é possível fazer entretenimento de qualidade.

     

     

    Foto: Divulgação

    POR: [Pedro Rabello]

  • Regular

    Amor a toda prova

    | Glenn Ficarra, John Requa

    Saem Jennifer Aniston, Ashton Kutcher e Katherine Heigl. Entram Steve Carell, Emma Stone e Ryan Gosling. No lugar dos estonteantes espiões, policiais e agentes duplos envolvidos em romances diplomaticamente complicados, entram... Pessoas. E já está de bom tamanho. Lembrando que no universo das comédias românticas menos pode ser mais, Amor a toda prova investe em personagens pé-no-chão – e atores acima da média – para enriquecer uma trama agridoce que usa o próprio caos a seu favor.

     

    O carro-chefe do filme é o empertigado Cal (Steve Carrel), o típico homem médio (no pior sentido) que, após receber o pedido de divórcio da esposa (Julianne Moore), não sabe mais o que fazer além de se lamentar publicamente enquanto afoga as mágoas em drinks afeminados. Em um de seus desabafos etílicos, ele conhece Jacob (Ryan Gosling), um conquistador que usa sua lábia admirável – e alfaiataria de primeira – para garantir um fluxo constante de aquecedoras de travesseiro alcoolizadas.

     

    Enquanto Cal tenta usar os conselhos de Jacob para recuperar a masculinidade perdida, seu filho de 13 anos (Jonah Bobo) começa a experimentar as dores do amor não correspondido. O objeto de seu afeto, uma babá de 17 anos (Analeigh Tipton), tem interesse por outro membro da família: Cal. A ex-mulher (Juliane Moore) vive um romance desinteressado com um colega (Ethan Hawke) na tentativa de aplacar a crise de meia idade (e a saudade do ex-marido paspalho). Já o mulherengo Jacob, aparentemente imune às flechas do cupido, muda de ideia quando conhece a palhaça Hannah (Emma Stone).

     

    Parece embolado. E é. No bom sentido. Em meio às várias (e igualmente legais) narrativas pessoais, o filme parece sempre prestes a se perder – mas nunca chega exatamente lá. Momentos de deliciosa breguice são abruptamente interrompidos por estocadas de um ceticismo pungente. É mais ou menos como assistir a um julgamento no qual o réu – no caso, o amor – é defendido e acusado pelo mesmo advogado. Amor a toda prova tem sim seus momentos meigos, mas definitivamente não é tão pôneis-e-arco-íris quanto o título sugere

     

    O elenco faz um trabalho excepcional aparando as pontas soltas. Só Carell conseguiria fazer um homem tão bobo funcionar como protagonista no meio de personagens indiscutivelmente mais divertidos. Gosling consegue superar sua carinha de cãozinho-prestes-a-virar-sabonete e cria um Jacob fanfarronesco na medida. O timing cômico impecável de Emma Stone nos faz desejar que Hannah ganhe seu próprio filme. Os fofíssimos Jonah Bobo e Analeigh Timpton têm uma dinâmica tão adorável que, se não fosse tão esquisito e nojento, até torceríamos por um final feliz. É Julianne Moore que, apesar da habitual competência, acaba um pouco de lado,  em parte devido a uma personagem meia-boca.

     

    A falha mais evidente - talvez a única que chegue a incomodar - é a mudança abrupta de ritmo. Se do início à metade o filme parece uma compassada meia-maratona, no fim mais parece uma prova olímpica de 100m rasos.  Este estranhamento, que poderia ter sido evitado com uma edição mais eficiente nos minutos iniciais, é compensado por alguns momentos - como a deliciosa cena em que uma maravilhada Hannah descobre o abdômen estatuesco de Ryan Gosling. O balanço, no fim das contas, é positivo.

     

    Oscilando entre profunda fofura e choques de realidade, Amor a toda prova conquista pela sinceridade. Sem muito choro e sem muitas gargalhadas, é um filme sobre gente de verdade, com problemas de verdade e relacionamentos de verdade. Sem julgar ou infantilizar, ele nos lembra que não há fórmula mágica para o amor - embora ter uma barriguinha como a de Ryan Gosling seja uma mão na roda.

     


    POR: [Fernanda Prates]

  • Regular

    Cowboys & aliens

    | Jon Favreau

    Colocar caubóis enfrentando alienígenas soa como uma ideia fantástica. De um lado, os conhecidos vaqueiros e xerifes do Oeste, do outro, inescrupulosos seres de outras galáxias. Essa ideia frutificou uma HQ, Cowboys & aliens, que, ao fazer a transição para o cinema, acaba caindo na vala mais genérica dos filmes de ação. Se você espera um faroeste mesclado com ficção científica, o que, considerando o nome do filme não é uma previsão absurda, provavelmente vai se decepcionar. 

     


     
    O filme abre com o personagem de Daniel Craig acordando no meio do deserto, ferido, com um bracelete de ferro e desmemoriado. O clichê do personagem sem memória, por mais cansativo que seja, acaba servindo a favor do filme, ainda que mais como muleta do que como recurso. 

      


     
    Em pouco tempo, Craig descobre que é Jake Lonergan, um criminoso procurado e que um de seus últimos crimes foi roubar uma diligência de Woodrow Dollarhyde (Harrison Ford). Em torno disso, surgem os outros personagens do filme, como Elle (Olivia Wilde) e Doc (Sam Rockwell). E, subitamente, com a sutileza de um rinoceronte em uma ala hospitalar, os alienígenas são arremessados na trama, atacando a cidade e sequestrando alguns cidadãos. 

      


     
    As performances são extremamente erráticas, ainda que a direção de Jon Favreau seja sólida e renda boas cenas de ação, segurando a estrutura do filme. Craig força um sotaque americano decente e consegue parecer durão nas cenas, mas seu personagem tem a profundidade de um pires. Wilde até que segura a onda, mesmo interpretando um dos piores personagens do ano, cheio de brechas no roteiro e saídas mal-explicadas. Rockwell é um alívio cômico medíocre, com incursões desastrosas no drama. Quem rouba a cena é Ford, que consegue segurar a onda de badass mesmo detrás das rugas e, ao mesmo tempo, consegue conferir peso dramático nas cenas. 

      


     
    A grande decepção de Cowboys & aliens vem do fato do filme jamais parecer um faroeste convincente. Sim, o período está caracterizado decentemente, mas os personagens são apenas versões de arquétipos do cinema de ação em roupas do fim do século XIX. As músicas não evocam faroestes, por mais que a atmosfera visual seja competente. Ao mesmo tempo, quando o filme embarca no expresso da maionese, ele não vira uma ficção científica, mesmo com naves e alienígenas saltando para todos os lados. Mais uma vez, os elementos estão ali, mas Favreau parece não saber empregá-los em seus respectivos gêneros. E talvez essa tenha sido a intenção, mas o resultado é genérico. 

     


     
    Calcanhar de Aquiles de diversas produções que lidam com alienígenas (quem não se lembra do ridículo monstro de Cloverfield?), o design das criaturas também leva. Cowboys & aliens para o solo, especialmente pela falta de consistência. Em algumas cenas, eles parecem verdadeiramente ameaçadores, juntando diversas criaturas medonhas da Terra em um pacote infernal. Em outros, parecem monstrengos ridículos evidentemente feitos em computação gráfica. E que tipo de criatura abre um compartimento no peito com mãozinhas extras, mas com o coração exposto para a visitação pública? 

     


     
    O bracelete de Lonergan é outro elemento sofrível. Ao que tudo indica, ele é uma espécie de revólver dos aliens, mas no filme, atua como um deus ex machina. Mesmo sem saber como ativá-lo, o caubói tem uma proficiência invejável com o dispositivo, o que, se analisado de perto, é absurdo. Jake dominar os aliens usando o bracelete é o equivalente a um chimpanzé dominar um soldado armado só porque pegou uma pistola. É uma tecnologia que ele não compreende nem domina, mas ele está tentando usá-la contra seres que conhecem perfeitamente seus mecanismos. A explicação do funcionamento da arma eventualmente chega - lá pro final do filme - e acaba gerando mais questionamentos do que respondendo qualquer coisa. 


     
    Em seus melhores momentos, Cowboys & aliens é um filme de ação competente, bem editado e divertido. Em seus piores, é um pastiche incoerente, com verdadeiros cânions no roteiro e uma galeria de personagens esquecíveis, mesmo com James Bond e Han Solo na mesma cena. E provavelmente isso é o bastante para valer o ingresso.

     

     

    POR: [Gerhard Brêda]

  • Bom

    Planeta dos Macacos: A Origem

    | Rupert Wyatt

    Chimpanzés são hilariantes. Apenas olhar para estes atrapalhados e, na melhor das hipóteses, confusos proto-humanos peludos, é garantia de algumas boas gargalhadas. Exceto quando eles estão agressivamente espancando outros indivíduos de sua espécie e organizando verdadeiros exércitos assassinos. E assim funciona Planeta dos macacos: A origem, um filme que mostra bem o lado fofo e inofensivo, mas também a brutalidade destes primatas.


    Mas é claro que um bando de comedores de banana, em circunstâncias normais de temperatura e pressão, não seriam uma ameaça em escala global. Entra James Franco como o cientista Will Rodman, uma mente brilhante da gigante farmacêutica Gen Sys, que está obcecado em uma droga viral capaz de reparar danos psíquicos e, em tese, curar doenças degenerativas como Alzheimer e Parkinson. E para isso, Will testa seus efeitos em uma macaca, Bright Eyes, que um dia acorda... com a macaca, e sai por aí destruindo o laboratório durante uma reunião de acionistas. Fecham o projeto, Will é desacreditado e a pesquisa é abruptamente fechada.



    Aqui entra a primeira grande falha do filme, um erro colossal que acaba tornando todo o resto mais frágil: na sela de Bright Eyes, descobrem um filhote: aparentemente a macaca estava grávida e nenhum cientista viu e ela estava apenas querendo proteger sua cria. Não dá para saber exatamente qual o protocolo para testar drogas experimentais em chimpanzés contrabandeados da África, mas há de se imaginar que os cientistas gostariam de saber o que diabos está acontecendo com o corpo do símio antes de sair desperdiçando bilhões de dólares em pesquisas por suas veias. Uma equipe futurista como a de Will deixar passar uma coisa tão gigantesca quanto uma gravidez (que altera toda a taxa hormonal do sangue) é difícil de engolir.



    Difícil ou não de engolir, lá está o bebê macaco, que Will leva para casa e decide criar. Caesar, interpretado por Andy Serkis em uma camada de CG, é o maior trunfo do filme. Quem acha que a história do doutor está em primeiro plano vai se decepcionar profundamente: o filme todo é um arco desenvolvendo Caesar, um macaco que, desde o nascimento, apresentou um intelecto avançadíssimo, mas que não deixa de ser um macaco. E esse é o verdadeiro drama do personagem: Caesar não entende seu lugar no mundo, como mais que um mascote, mas menos que uma pessoa.



    Os 15 minutos finais, como o trailer mostra, são pura ação de macacos contra humanos, mas tudo o que acontece antes disso é fundamental para dar peso dramático. O resultado na tela é similar ao visto em filmes como O franco atirador, com um começo mais lento e psicológico, seguido de uma conclusão mais explosiva. É possível entender as motivações de Caesar e, se você se distrair, vai se pegar quase comovido com um chimpanzé de CG. É difícil compreender como os roteiristas conseguiram criar tão bem uma personalidade em um macaco, mas é possível ver a determinação e a soberba do primata em diversos momentos.



    Lá pelas tantas, o filme, que é um reboot da clássica franquia com Charlton Heston, mas, ao mesmo tempo, uma prequel, mostra que o composto viral que deixa os macacos super-inteligentes é fatal para os humanos... mas também não espere que essa trama vá muito longe. Ela é fundamental, sim, para a história, e explica a derrocada dos humanos perante os macacos, mas no filme ela vira quase um subtexto, perante a ascensão de Caesar ao posto de líder dos símios.



    Os outros humanos do filme não são particularmente interessantes. John Lithgow é Charles, o pai de Will, e sofre de Alzheimer em estágio avançado. O personagem não é mais que uma motivação para a obsessão do cientista, mas o ator até consegue injetar uma carga de doçura no papel, especialmente em sua relação com Caesar. Brian Cox é completamente desperdiçado nas parcas cenas que aparece, como supervisor de uma espécie de canil para macacos (aparentemente, eles existem). O ator entra, fala algumas coisas com intensidade e não muda muito o universo ao seu redor. Tom Felton, famoso pelo papel de Draco Malfoy, é o mais perto que o filme chega de um vilão, como o tratador sádico Dodge Landon.



    A relação de Caesar com Will é uma ponte que permite com que o filme não vilanize nem os macacos insurgentes, nem a raça humana, um erro que Distrito 9 cometeu. Claro, Caesar é o herói e o protagonista, mas em nenhum momento a humanidade parece determinada a brutalizar os símios pelo simples prazer de brutalizar.



    Planeta dos macacos: A origem tem sim suas falhas, algumas faltas de lógica colossais no roteiro e sua parcela de saídas fáceis, mas também é um filme com um ritmo quase perfeito, uma construção primorosa de personagem para Caesar e que consegue não demonizar ou santificar a humanidade.

     



    Foto: Divulgação

    POR: [Gerhard Brêda]

  • Regular

    Professora sem classe

    | Jake Kasdan

    Seu preguiçoso título original (Bad teacher) já dá uma ideia do que se deve esperar de Professora sem classe: um punhado de saídas fáceis. Resgatada da total mediocridade graças a um elenco de apoio melhor do que merecia, a comédia neopastelão estrelada por Cameron Diaz e Justin Timberlake deixa a apelação e a preguiça abafarem o potencial de uma historinha até interessante. Desleixado, desatento e constantemente no "quase", o filme é a versão cinematográfica daquele aluno até inteligente que poderia passar de ano se abrisse um livro e fizesse um esforcinho.

     

    O filme conta a história de Elizabeth Halsey (Cameron Diaz), uma mulher imoral e desbocada (além de chegada numa ervinha) que decidiu virar professora por todas as “razões certas”: expedientes curtos e férias de verão. Prestes a concretizar seu grande sonho de vida – casar com um cara rico -, Elizabeth larga seu emprego na escola John Adams (JAMS) e, num golpe do destino, toma um pé na bunda logo em seguida. Muito a contragosto, volta a “lecionar” (entende-se passar filmes enquanto tira sonecas) e conhece Scott Delacorte (Timberlake), um professor bem apessoado, puro e, convenientemente, milionário.

     

    Para conquistar seu alvo, contudo, Elizabeth precisa mudar algo a respeito de si mesma. E não, não é sua personalidade terrível, seus hábitos aditivos ou seu vocabulário de estivador. São seus peitos. A beleza, contudo, custa caro (uns US$ 10 mil, mais especificamente), e ela irá levantar os fundos para seu upgrade nem que isso envolva roubar de criancinhas, seduzir pais, enrolar mães e drogar homens inocentes. Antes, contudo, terá que se esquivar da uber neurótica Amy Squirrel (Lucy Punch), também em busca do coração idôneo de Delacorte.

     

    Novamente, Cameron atua com seu maior trunfo: o corpo. Sua performance não chega a ser propriamente ruim – até porque o papel não exige exatamente habilidades de Meryl Streep –  mas, ao mesmo tempo, não leva a personagem a lugar algum. Não que a unidimensional Elizabeth tivesse muito para onde ir, mesmo. Boba e desinteressante, parece ter sido escrita às coxas, com palavrões como primeiro e último recurso cômico. Com a ajuda da eventual jogada de cabelo. Se a ideia era criar um antiherói afável, no estilo do Papai Noel de Billy Bob Thorton em Papai Noel às avessas ou do professor de Jack Black em Escola do rock, o tiro saiu pela culatra. Elizabeth começa e termina o filme como começou: tão interessante quanto uma Kardashian.  

     

    Timberlake, apesar de substituível, tem lá seus momentos, como em uma “cena de sexo” deliciosamente embaraçosa. Os bons minutos, contudo, são eventualmente interrompidas por alguma pastelonice sem propósito. Pouco inspirada, a dupla parece simplesmente pegar carona no vácuo do elenco de apoio. Lucy Punch é perfeita no retrato de Squirrel ("esquilo" em inglês, mais uma sutil analogia), a típica controladora neurótica sempre à beira de um AVC. Jason Segal entrega a única performance verdadeiramente natural do filme, na pele de um professor de educação física tão elegante quanto a protagonista (embora muito mais encantador). Phyllis Smith poderia ter tido mais tempo em cena na pele da professora baranga eternamente com batom  nos dentes e John Michael Higgins é engraçadinho como um diretor obcecado por golfinhos.

     

    O final é coerente com o resto: puro desleixo. Se por um lado há certo mérito em não se tentar “limpar” a personalidade obviamente irrecuperável de Elizabeth, ao mesmo tempo a tentativa de “final feliz” parece um remendo de última hora numa trama mal costurada. Não há nada de errado com personagens detestáveis ou politicamente incorretos - desde que eles sejam minimamente interessantes. Elizabeth, no caso, não é. Talvez o filme ganhasse mais dando uma maltratada na protagonista do que tentando nos vender uma moral distorcida na pele de “solução sem julgamento”. Trocadilho cretino, mas as circunstâncias pedem: Professora sem classe passa raspando.

     


    POR: [Fernanda Prates]

  • Bom

    Os Smurfs

    | Raja Gosnell

    Para os mais desavisados – aqueles que provavelmente passaram a infância em um casulo –, os Smurfs são pequenas criaturas azuis, que vivem em um floresta de cogumelos e cantam em coro “La la la la la la (repete várias vezes)”. Levados ao cinema através da tecnologia de integração entre animação 3D e live-action, os miúdos do “tamanho de três maçãs” podem provocar reações diversas. 

     

    Adultos mais rabugentos vão achar irritante a felicidade estridente cor-de-anil, envolta em uma trama de matéria gorda e alto teor de açúcar – a chamada “comida lixo cinematográfica”. Já o primeiro contato da crianças vai fazê-las descobrir um mundo paralelo de horas eternas de recreio e despertar o desejo de embarcar nas peripécias dos carismáticos pseudo-duendes. Os saudosistas, por sua vez, vão ficar impressionados com a apuro do desenho, as referências bem humorados e a agilidade das figurinhas com nomes correspondentes às suas personalidades complexadas. Apesar das três respostas fazerem sentido, marco aqui a opção três.

     

    Na trama de Os Smurfs, que chega às salas brasileiras nesta sexta (4), a perseguição do malvado feiticeiro Gargamel (o ótimo Hank Azaria) e seu gato Cruel expulsa os personagens azulados da vila em que moram. Através de um portal mágico, Desastrado (Anton Yelchin), Smurfette (Katy Perry), Gênio (Fred Armisen), Arrojado (Alan Culimming), Ranzinza (George Lopez) e Papai Smurf (jonathan Winters) vêm parar em nosso mundo, mais precisamente em Nova York. Presos na Big Apple, eles conhecem o casal de humanos Patrick Winslow (Neil Patrick Harris) e Grace (Jayma Mays), que os acolhem e os ajudam na missão de volta para casa.

     

    Criados em 58 pelo cartunista belga Peyo – sim, a bélgica tem Tintim e Smurfs – as criaturas ganharam fama mundial através da série de TV produzida a partir de 81 pela Hanna-Barbera. Agora, sob o comando de Raja Gosnell (dos fracos Scooby Doo 1 e 2) e assinatura da divisão de animação da Sony Pictures, os pequeninos interagem pela primeira vez na tela grande com personagens de carne osso. Em um cenário mais sujo e com uma cartela de cores de um céu com nuvens – apesar das menções a outras célebres figuras azuis como o Blue Man Group e os confeitos M&M's – os seres em miniatura portam fantasia a um ambiente caótico.

     

    O resultado é uma aventura divertida e de alto nível técnico, com destaque para um 3D que, em algumas cenas, parece nos levar para um simulador de parque de diversão. Momentos da trilha sonora, como direito a AC/DC e uma cena no Guitar hero embalada por Aerosmith, também agradam. Os clichês de um roteiro batido – em liquidificador por dezenas de produções – passam sem incomodar tanto, já que o interesse da fita é, através de um blockbuster confesso, apresentar às novas gerações os encantadores Smurfs, homenageando, de quebra, as não tão novas assim.

     

    Dessa forma, misturando palavras do inglês (ou português, na dublagem) com o idioma Smurfs, o longa atualiza um desenho de fãs cativos para angariar novos adoradores mirins. Como uma tarde de piquenique, Os Smurfs satisfaz o público descompromissado e, assim como no hino dos personagens, “canta para a tristeza espantar”. A “Smurfranquia” está inaugurada – mais dois, pelo menos, vêm por aí.

     

     

    Foto: Divulgação

    POR: [Camila Lamha]

  • Bom

    Capitão América: O primeiro Vingador

    | Joe Johnston

    Panfletário, “certinho” e representante do imperialismo yankee, o Capitão América não faz muito sucesso pelas terras subnutridas e subdesenvolvidas na periferia do capitalismo. Mesmo assim, a Marvel, na busca de avançar com os Vingadores, tenta conquistar o mundo com os olhos de filhote (e o abdômen de halterofilista) de Chris Evans, no papel de Steve Rogers. O resultado é um filme patriótico, sim, mas não bitolado e xenófobo. A incursão de Joe Johnston pelo “bandeiroso” herói não assume riscos, mas dosa bem a diversão.


    A história de Steve Rogers mostra o primeiro super-herói anabolizado de todos os tempos. Magrelo e infestado de condições crônicas, Rogers colecionava rejeições do exército, mas o franzino garoto do Brooklyn se recusa a desistir. A determinação do garoto acaba chamando a atenção do Dr. Abraham Erskine (Stanley Tucci, caricato, mas afetuoso), um cientista alemão que se opõe aos nazistas e cria um super soro que amplia as características de quem recebe a dose. Nas palavras do próprio, “o bom vira ótimo e o mau vira péssimo”.


    Erskine coloca Rogers em sua divisão de pesquisas, liderada pelo Coronel Phillips (Tommy Lee Jones, interpretando Tommy Lee Jones, o que é ótimo). Lá, Rogers mostra seu valor e acaba sendo cobaia para o projeto do Super-Soldado. A inoculação do super soro e a irradiação de raios Vita funcionam e Rogers sai da máquina musculoso, mas um espião do Reich consegue matar Erskine.


    Enquanto isso, na Europa, o cientista Johann Schmidt, o Caveira Vermelha, lidera sua divisão de pesquisa dentro do Reich, a Hydra, ganhando cada vez mais poder embaixo dos bigodes do Führer. A performance de Hugo Weaving é, como sempre, confiável e em um papel exagerado como o do tresloucado Caveira Vermelha, Weaving pode mastigar cada palavra de texto com raiva e cuspir com ira afetada. O vilão está atrás do todo-poderoso Cubo Cósmico, artefato supremo do Universo Marvel, que é, no filme, relacionado a Odin, Thor e os outros deuses nórdicos. 


    Parte do sucesso de Capitão América está na performance de Evans. O ator consegue passar a imagem de um rapaz comprometido com seu país e seus companheiros do exército, mas não de uma forma panfletária. Acima de tudo, Evans transmite uma bondade e simpatia ímpar para o capitão e consegue, de alguma forma, combinar isso com uma presença imponente em cena.  É bom ver que Tony Stark, Thor e Steve Rogers foram caracterizados tão bem em seus filmes, um ótimo presságio para Os Vingadores.


    O filme é abarrotado de referências, incluindo uma citação bem discreta a Indiana Jones e os caçadores da Arca Perdida, filme que deu ao diretor Joe Johnston um Oscar, na época como diretor de efeitos especiais. O primeiro escudo do Capitão, mais triangular, também dá as caras, assim como a clássica capa de HQ na qual ele aparece entregando um belo cruzado na cara de Hitler.

    No meio do caminho, pipocam pela tela personagens clássicos como Dum Dum Dugan e Bucky Barnes, com performances breves, mas intensas. Uma pena que Dugan foi introduzido na Segunda-Guerra, o que lima suas chances de dar as caras no filme dos Vingadores, a menos que ele viva mais de 100 anos.


    O filme, infelizmente, não é perfeito. A primeira coisa que salta aos olhos é a quase desconcertante falta de ambição da película. Johnston ousa tão pouco, joga tão seguro, que chega a ser incômodo. Ainda assim, talvez seja melhor apostar no que dá certo a fazer um drama shakespeariano esquizofrênico, como acabou saindo Thor.


    Outro problema é Howard Stark, o pai de Tony. É louvável que o filme tente fazer a ponte com os outros filmes da Marvel, mas Stark é enfiado à força em todas as cenas possíveis, rompendo a barreira do ridículo. Stark constrói a máquina que transforma Rogers no Capitão América. Stark pilota o avião que leva Rogers além das linhas inimigas. Stark constrói o escudo do herói e desenvolve o tecido de sua roupa. Stark lidera as buscas pelo herói quando ele desaparece. Stark chuta. Stark agarra. Stark arremessa e, adivinhem, Stark rebate. O personagem é até carismático,  espelhando algumas características de sua prole de forma orgânica, mas foi enfiado de forma truculenta em todas as brechas do roteiro. A forma como o filme se ligou a Thor foi muito mais elegante e eficiente.


    Capitão América
    é melhor que Thor. Ousa menos, mas acerta muito mais. Não chega ao panteão de Homem de Ferro, O cavaleiro das trevas e os dois primeiros filmes do Homem-Aranha, mas é um filme de quadrinhos mais do que eficaz e, tal qual um clássico hambúrguer americano, enche e é gostoso, mas não alimenta. Os alicerces para Os Vingadores estão armados, com três filmes no mínimo sólidos sustentando os heróis principais. Agora, tranquilizado pelo patriótico Capitão, o mundo pode respirar aliviado e bradar: Avante, Vingadores!


    Foto: Divulgação

    POR: [Gerhard Brêda]

  • Regular

    Assalto ao Banco Central

    | Marcos Paulo

    Em agosto de 2005, o Banco Central sofreu o maior assalto da história da instituição. Dos cofres da unidade de Fortaleza, no Ceará, foram roubadas três toneladas de notas, totalizando a quantia de R$ 164,7 milhões. No fim de semana em que tudo ocorreu, as câmeras de segurança não mostraram qualquer atitude suspeita, os sensores de presença não apitaram e nenhum tiro foi disparado. Os bandidos entraram no cofre por um túnel de 84 metros, cavado entre o cofre e uma casa nas proximidades do banco. A ação sofisticada exigiu mais de três meses de planejamento e milhares de reais. Foi um assalto digno de cinema.

     

    Estreia de Marcos Paulo na direção cinematográfica, Assalto ao Banco Central imagina como foi realizado o roubo e ficcionaliza respostas para questões sobre o crime que ainda não foram totalmente esclarecidas: quem eram as pessoas envolvidas no esquema, como conseguiram desenvolver uma operação desse porte e o que aconteceu com elas depois.

     

    O roteiro de Renê Belmonte, que também escreveu Se eu fosse você 1 e 2, é construído com dois tempos paralelos. Em um, o espectador acompanha o planejamento da ação e, no outro, o desenrolar das investigações que levaram alguns dos criminosos à prisão. A divisão dá uma maior dinâmica ao filme, mas tira a possibilidade de qualquer suspense em relação ao final, já que se sabe de antemão o destino dos personagens.

     

    Quebrar a temporalidade também é um recurso para dar maior ritmo, antecipando respostas para questões que não são cruciais para o desfecho. O truque, muito utilizado nos filmes de ação americanos, não funciona tão bem em Assalto ao Banco Central como funcionou em Tropa de elite ou Cidade de Deus. As sequências são constantemente intercaladas com cenas dramáticas ou alívios cômicos, quebrando a velocidade necessária para garantir a adrenalina da ação.

     

    Se não acerta no ritmo, resquício de um vício televisivo do diretor, Marcos Paulo conta com um bom elenco, que só não brilha mais por causa do tempo reduzido. O roteiro se esforça para aprofundar alguns conflitos dramáticos, mas recua diante da impossibilidade de abrir histórias paralelas para mais de uma dezena de protagonistas.

     

    Mas bons atores conseguem atuar nos mínimos espaços, sobretudo quando preparados pelas técnicas pouco ortodoxas, mas muito eficientes, de Fátima Toledo. Milhem Cortaz, Hermila Guedes, Giulia Gam e Lima Duarte dão a sustentação do filme, enquanto Gero Camilo, Tonico Pereira e Vinícius Oliveira ficam responsáveis pelas intervenções cômicas. Eriberto Leão, peça-chave para dar liga à quadrilha, não têm a mesma consistência de seus pares, mas não compromete. Os demais integrantes do elenco cumprem suas funções, mas pouco podem fazer além do básico.

     

    A história intrigante do maior roubo a banco do país ganharia maior relevo nas mãos de um diretor mais acostumado à linguagem e ao ritmo cinematográficos. Ainda que não possa ser comparado aos bons filmes americanos sobre grandes crimes, gênero no qual Hollywood é especialista, ou aos dois Tropa de Elite, Assalto ao Banco Central cumpre de forma satisfatória a função de entreter.

     

     

    Foto: Divulgação

    POR: [Pedro Rabello]

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    Harry Potter e as relíquias da morte: Parte 2

    | David Yates

    Nesta sexta (15), o ritual cinéfilo-literário, que se cumpria praticamente uma vez por ano, chega ao fim com Harry Potter e as relíquias da morte: Parte 2 – assim como anunciam os dizeres do cartaz: “tudo termina aqui”. Durante uma década, uma geração de fãs devotou sua fidelidade de público, atores se tornaram mega estrelas e uma franquia, a mais bem sucedida da história do cinema, virou um acontecimento da cultura pop. Isso porque, o justo tratamento adulto de uma história nascida para crianças foi sendo sazonado, ao longo de oito fitas, chegando ao seu ápice sombrio no último volume da saga.

     

    Apesar da estratégia de mercado, a astúcia em dividir o sétimo livro da série de JK Rowling em dois consentiu uma estética de espetáculo ao longa final. Urgente e emocionante, a Parte 2 começa justamente de onde a Parte 1 entrega, mas com fôlego de ação digno de um desfecho épico. O motivo dark – que mais se aproxima de O prisioneiro de Azkaban (2004), de Alfonso Cuáron – alcança a intensidade dramática de um cenário, agora, de trevas. Feitiços, azarações e maldições se conjugam às concepções artísticas violentas e melancólicas – destaque para a trilha sonora e as direções de arte e de fotografia.

     

    Já a direção de David Yates, que também assina o comando dos três últimos filmes, é muito particular. O cineasta consegue um resultado comercialmente excitante, e respeitoso ao material original, mas sem apelar para o melodrama da despedida. Isso faz da experiência de adeus ao bruxinho menos traumática, mas acaba pecando na pressa. Se, na primeira metade do longa, momentos de silêncio e suspense preparam o espectador para a grande batalha, nas situações avançadas, remates importantes ficam caducos ou fora do encaixe – como o destino da malvada Bellatrix ou a falta do ápice emocional da relação de Harry e Gina.

     

    A verdade é que a difícil tarefa de levar o fenômeno literário aos cinemas foi sendo construída e inovada passando pelas mãos de diretores diferentes, com olhares distintos. Enquanto a visão de Chris Columbus, dos dois primeiros, era infantilmente correta e a de Cuarón, estilisticamente ousada, Yates combinou os elementos de uma saga milionária e popular, mantendo a essência de fantasia do universo das histórias. E o sucesso maior do projeto, como franquia, está nesta audácia criativa inquieta, que sempre sustentou o alto nível de produção, roteiro e elenco ao longo dos anos.

     

    Os atores, aliás, são um ponto forte e especial de Harry Potter e as relíquias da morte: Parte 2. Além da lista sempre espetacular dos veteranos britânicos, a química do trio principal experimentou o seu melhor momento. Se a espontaneidade de Rupert Grint (Rony) e o carisma fotogênico de Emma Watson (Hermione) afloraram mais cedo, a presença de Daniel Radcliffe (Harry) ganhou mais energia na fita final, quase como se amadurecesse junto com o personagem. A maravilhosa interpretação de Alan Rickman (Snape), dando vida a uma das figuras mais complexas da obra, também se espalhou pela tela.

     

    Assim, o último Harry Potter faz honra a uma série que tornou um divertimento potencialmente descompromissado em um marco da indústria e da identidade cinematográfica contemporânea. Alavancada pelos altos orçamentos e expectativas, a franquia mostrou esforço de produção e dedicação ao público. E a resposta da plateia é dada pelos olhos marejados e por uma imensa sensação de satisfação ao final do filme.

     

     

    Foto: Divulgação

    POR: [Camila Lamha]

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    Cilada.com

    | José Alvarenga Jr.

    Todo mundo já ouviu falar que, em tempos de redes sociais e de facilidade de produção e distribuição de imagens e vídeos, todo cuidado é pouco. E que acabou a época em que era preciso ser uma celebridade para ser alvo dos flashes. Para o bem ou para o mal, qualquer mortal pode ter os quinze minutos de fama proclamados por Andy Warhol.

     

    Em Cilada.com, Bruno (Bruno Mazzeo) é flagrado traindo a namorada durante uma festa de casamento. Revoltada com o vexame público, Fernanda (Fernanda Paes Leme) publica na internet um vídeo em que aparece transando com o ex-namorado, numa relação que durou menos de quinze segundos por conta da ejaculação precoce dele.

     

    A cena faz sucesso na internet e Bruno vira uma celebridade instantânea. Para se livrar da péssima fama e conquistar novamente a namorada, o publicitário vai precisar provar que é bom de cama e que é capaz de dizer “eu te amo”. Nessa tentativa, claro, ele vai se meter nas maiores ciladas.

     

    Derivado da série homônima do canal Multishow, Cilada.com escapa de ser apenas um episódio de maior duração. Ficaram de fora, por exemplo, os comentários do antropólogo e do viciado em academia, que não funcionariam no cinema. Também não está presente Renata Castro Barbosa, uma das namoradas de Bruno na sitcom, e Débora Lamm não faz mais que uma participação.

     

    O roteiro, assinado por Bruno Mazzeo e Rosana Ferrão com colaboração de Marcelo Saback e José Alvarenga Jr, tem algumas piadas eficientes e frases que trabalham bem as palavras e expressões como recursos cômicos, mas peca em referências visuais manjadas, como a peruca estranha do personagem de Fulvio Stefanini e a alusão à cena das sombras de Os Normais, também dirigido por Alvarenga Jr.

     

    Ignorar a cartilha do politicamente correto, que tem castrado muitos comediantes, também é um acerto do grupo de roteiristas. A falta de pudor ao abordar temas como homossexualidade e travestismo, ainda que brevemente, também arranca risos da plateia, mas não chega perto da anarquia completa de Se beber não case. O único risco é acabar apelando para piadas pesadas e o uso excessivo de palavrões. E é neste último item que o filme escorrega, mas não chega a cair.

     

    Além de Bruno Mazzeo e Fernanda Paes Leme, o elenco conta com nomes de força da comédia nacional, como Luís Miranda, Sérgio Loroza, Dani Calabresa, Fabíula Nascimento e Thelmo Fernandes. Este último não é muito conhecido, mas sua habilidade para o humor é latente desde a primeira aparição em cena. Marcos Caruso, Milhem Cortaz e Alexandre Nero são participações de luxo, já que seus personagens pouco acrescentam à trama.

     

    Parte de uma trilogia que começou em 2010 com o fraco Muita cama nessa hora e vai terminar ano que vem com E aí, comeu?, Cilada.com não tem qualquer pretensão de discutir a força da internet, é apenas uma comédia de costumes divertida.

     

     

    Foto: Divulgação

    POR: [Pedro Rabello]

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    Corações perdidos

    | Jake Scott

    Esqueça o vampiro e o lobisomem que disputavam o coração de Bella Swan em Crepúsculo. Os conflitos emocionais da stripper Mallory (Kristen Stewart) em Corações perdidos são menos sobrenaturais e mais duros. A adolescente, órfã de mãe, abandonou sua Flórida natal para tentar ganhar a vida em Nova Orleans, se sujeitando às humilhações de clientes alcoolizados em troca de alguns poucos dólares.

     

    É no clube que Mallory conhece Doug Riley (James Gandolfini, o Tony Soprano de A família Soprano). O empresário vive um momento familiar difícil desde a morte de sua única filha. Apesar de passados oito anos do acidente de carro que vitimou Emily, as consequências da fatalidade ainda persistem: Doug recorre a amantes para encontrar conforto, enquanto a mulher, Lois (Melissa Leo), passou a ter pânico de sair de casa.

     

    Quando encontra Mallory no clube e descobre que ela ainda é menor de idade, Doug desenvolve pela adolescente um sentimento de que deve protegê-la e livrá-la dos perigos da prostituição. Para quem fugiu de casa em busca de liberdade, não faz parte dos planos da jovem aceitar as regras que o empresário tenta impor.

     

    Histórias sobre a expiação de culpa pela perda de um filho e sobre a deteriorização da relação de um casal costumam render bons filmes, como Reencontrando a felicidade, de John Cameron Mitchell. Corações perdidos, de Jake Scott, infelizmente, não entra nesta lista.

     

    É possível perceber todas as possibilidades de conflito entre os protagonistas da trama, mas elas não se desenvolvem porque os personagens aceitam as mudanças passivamente. E um drama não é um bom drama se não tiver grandes conflitos. E, sem eles, o filme perde o ritmo e não consegue prender o espectador por muito tempo.

     

    Não fossem os atores, Corações perdidos beiraria o fracasso. James Gandolfini confere a credibilidade necessária ao empresário Doug Riley, sendo o responsável por articular os demais personagens. Melissa Leo, vencedora do Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante este ano por O vencedor, é uma camaleoa. Com pequenas mudanças na maquiagem e no cabelo, a intérprete entrega sempre personagens fisicamente diferentes.

     

    A única boa surpresa fica por conta de Kristen Stewart. Ainda que não tenha o mesmo desempenho dos seus parceiros de filme, a atriz prova que é capaz de usar recursos mais complexos do que os exigidos pela saga Crepúsculo. Diferentemente de Robert Pattinson, ela consegue sustentar cenas mais dramáticas sem cair na caricatura ou soar inexpressiva. Se não funciona como um bom drama, pelo menos Corações perdidos serve para mostrar uma melhora significativa na atuação de Kristen.

     

    Foto: Divulgação

    POR: [Pedro Rabello]

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    Os pinguins do papai

    | Mark Waters

    Produções destinadas a toda a família que envolvem animais em suas tramas normalmente geram um inconveniente educativo. Se, em 101 dálmatas, as crianças quiseram multiplicar filhotes e, em Babe, o porquinho atrapalhado, bateram o pé pra conseguir um leitão de estimação, em Os pinguins do papai, os miúdos vão sair do cinema desejando fazer uma coleção de pinguins. Ainda mais porque as aves marinhas ganham trejeitos propositalmente mais fofos por computação gráfica, dançam em fila e gostam de Chaplin.

     

    A verdade é que a nova fita de Jim Carrey, com rugas rasgadas pelos anos de caretas, chegou, no mínimo, meia década atrasada. A animações Happy feet e Tirando onda, sem esquecer a jornada documental de A marcha dos pinguins, já trataram de explorar e gastar todo o potencial do gênero “pinguins vão à loucura”. O que se destaca, contudo, no filme que estreia nesta sexta (1) é a interação de personagens em live-action com os bichinhos de plumagem alvinegra. E, quando a interação principal é com um dos maiores protagonistas da história da comédia, é difícil ficar indiferente ao que se desenrola na tela – mesmo com as previsíveis cenas de defecação animal e fuga do bando e os “momentos pastelão”, como uma corrida em câmera lenta.

     

    Os pinguins do papai é baseado em um um clássico da literatura infantil americana, de Richard e Florence Atwater, publicado em 38. Carrey interpreta o Sr Popper, um executivo nova-iorquino bem sucedido, que recebe de herança do pai ausente seis pinguins pelo correio. Sua primeira reação é querer se livrar da trupe de aves exóticas, mas ele logo se apega e aprende a gostar dos novos colegas. A novidade gera transformações radicais na sua vida, proporcionando a sua reconciliação com filhos e ex-mulher.

     

    Apesar de quase sempre simpática, a trama do pobre homem rico que redescobre valores com a chegada de um “algo” inesperado é mais do que manjada. Aqui, ao invés de um filho bastardo, um parente intrometido, ou uma viagem no tempo, a mudança se dá pelo presente com o selo postal da Antártida. No elenco, se destacam a divertida Ophelia Lovibond (como a assistente Pippi), que faz aliterações do “p” em todas as suas falas, e a veterana Angela Lansbury (como a Sra Van Gundy), que aos 85 anos mostra muita elegância e vitalidade. O trabalho na direção do especialista em água com açúcar Mark Waters (Meninas malvadas, E se fosse verdade...), por sua vez, é visualmente agradável, mas sem imprimir um ganho de personalidade.

     

    Assim, Os pinguins do papai tira de cima da geladeira um dos maiores símbolos da cultura kitsch para trazer ao cinema um bonito conto de Nova York. Carrey, que veio ao Brasil para promover o filme, cumpre o seu papal preferido de entreter a audiência, servindo de recreio, ao certo, para todas as idades.

     

      

     

    Foto: Divulgação

    POR: [Camila Lamha]

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    X-Men: Primeira classe

    | Matthew Vaughn

    Os primeiros três filmes da franquia X-Men fizeram bem em estabelecer um mundo cheio de mutantes, mas nenhum deles decolou acima da marca de “bom filme baseado em HQs”, sendo o terceiro da série massacrado pela crítica (até certa medida, injustamente). Quando a Fox anunciou que mergulharia no passado dos mutantes, com a primeira classe formada por Charles Xavier, os fãs se retorceram, esperando mais uma tragédia nos moldes de X-Men: Origins – Wolverine. Estavam errados: X-Men: Primeira classe, em certa medida, ensina à Marvel como fazer filmes Marvel.

     

    A trama se passa nos anos 60, antes da humanidade tomar conhecimento da existência dos mutantes, e mostra como Charles Xavier, então um jovem e promissor pesquisador de mutações genéticas, conheceu seu principal adversário político, Erik Lehnsherr, o Magneto. A relação entre os dois é um dos aspectos mais fascinantes do filme, com a ideologia que marcaria os personagens em suas versões mais velhas, já muito bem delineada em suas juventudes. A amizade forjada entre os dois poderosos mutantes ganha contornos dramáticos quando você sabe aonde tudo vai acabar, em uma disputa ideológica violenta e irreversível no decorrer de vários anos.

     

    Unindo esses dois personagens está Sebastian Shaw, um mutante imortal que planeja, ao lado da equipe de mutantes chamada Círculo do Inferno, acelerar a Terceira Guerra Mundial e um apocalipse nuclear entre os Estados Unidos e a União Soviética. Shaw age mais como um fio condutor da ação e, no geral, com seu poder de absorver energia, é uma ameaça bastante real para a humanidade. Para contra-atacar o Círculo do Inferno, Xavier e Erik montam um grupo de mutantes, incluindo alguns bastante famosos, como Fera e Mística e outros não tanto, como Darwin e Destrutor (o irmão mais novo de Scott Summers, o futuro Ciclope).

     

    O maior acerto de X-Men: Primeira classe é a escolha dos protagonistas. James McAvoy encaixa perfeitamente com a jovialidade de um Xavier que pode andar e está descobrindo seus poderes, constantemente maravilhado com o encontro com outros mutantes. McAvoy consegue equilibrar insegurança com a maturidade do futuro Professor X sem esforço, e casa muito bem com a performance plácida de Patrick Stewart nos outros X-Men. O Magneto de Michael Fassbender é brilhante e bota Sir Ian McKellen contra as cordas. É outro personagem: no lugar do respeitado e equilibrado ativista político/terrorista Magneto, Erik Lehnsherr é irascível, precipitado e ainda sem o controle pleno de seus poderes. Quando Erik sai em busca de vingança contra os nazistas que roubaram sua infância e mataram sua mãe – incluindo Shaw, que atuava como um médico a serviço do Reich – Fassbender encarna Hans Landa e fala alemão, francês e inglês.

     

    Ainda no elenco, os elos mais fracos estão entre os vilões, à exceção de Kevin Bacon, como Shaw. O ator entrega um personagem arrogante demais para enxergar suas próprias fraquezas, mas ainda assim inteligente demais para sempre ter um plano alinhado e poderoso o suficiente para justificar a banca que coloca.  Por outro lado, o resto do Círculo do Inferno não impressiona. A performance de January Jones (ou melhor, de seu avantajado busto) é unidimensional como Emma Frost, com a atriz tentando demais parecer cool e se vestindo como uma atriz pornô dos anos 60 (o que, a bem da verdade, faz sentido com o personagem) para se preocupar com trivialidades como atuar, por exemplo. Jason Flaming no papel de Azazel, um Noturno genérico, utiliza aproximadamente 0% das capacidades do ator, com o personagem disparando apenas umas cinco frases com sotaque russo. Maré Selvagem, ou Riptide, no original, não ganha uma fala sequer e serve apenas para... para o que mesmo?

     

    No lado dos heróis a situação é melhor. A escolha para todos os personagens funciona muito bem, do ruivo cover de Rupert Grint interpretando o gritador Banshee, à traiçoeira stripper mutante Angel, todos os novatos são sólidos em seus papeis.

     

    O ritmo do filme é à prova de críticas, com cenas de ação intercalando debates entre Erik e Xavier ou algum tipo de debate envolvendo questões como preconceito e diferenças, as temáticas clássicas da franquia X-Men. Algumas participações, como Rebecca Romjin e Hugh Jackman, mostram que a Fox quer uma espécie de “Foxverso” em seus filmes de super herói.

     

    Maduro, inteligente, bem dirigido – por Matthew Vaughn, o homem que levou Kick-Ass ao cinema – e com performances admiráveis, X-Men: Primeira classe tem grandes chances de ser o melhor filme de baseado em HQs do ano. O deus do trovão, produzido pela Marvel Studios, ficou bem para trás. Cabe ao Lanterna Verde, na noite mais sombria, tirar esse caneco das mãos dos jovens Professor X e Magneto

     

    Foto: Divulgação

    POR: [Gerhard Brêda]

  • Bom

    Se beber, não case 2

    | Todd Phillips

    Prepare aquele combinado tradicional “cura ressaca” – serve água, café e analgésico. A bebedeira que vem por aí é bem conhecida e nada de novo vai acontecer na festa. Mas, se repetir a noite mais incrível da sua vida é uma saída para os dias de tédio, tenha certeza que nada se compara à primeira vez. A dor de cabeça, aliás, vem sempre mais forte. Se beber, não case 2 (Hangover 2) é uma reprise do primeiro filme, com os mesmos personagens, a mesma estrutura e uma mesma história apenas deslocada para Bangcoc. Possivelmente tudo que acontece em Las Vegas deva realmente ficar por lá, mas, para quem gosta de rir de uma piada pela segunda vez, vale passar pelo ritual de novo.

     

    A parte 1 foi considerada original nos limites do gênero e extremamente engraçada, levando um Globo de Ouro de Melhor Comédia em 2009. Ora, a nova fita é divertida na mesma medida insana e insensível da anterior – inclusive com doses maiores de humor grotesco e do politicamente incorreto. A questão é que é simplesmente impossível recriar o impacto da primeira vez. Se a amnésia alcoólica levou às maluquices do desconhecido, no segundo momento, os lugares imprevisíveis se tornam comuns. O desaparecido da vez é irmão da noiva de Stu, o bebê perdido é substituído por um macaco traficante e o dente quebrado é trocado pela tatuagem do Mike Tyson (que também repete sua pontinha freak).

     

    Na trama, Phil (Bradley Cooper), Stu (Ed Helms), Alan (Zach Galifianakis) e Doug (Justin Bartha) viajam para a Tailândia para o casamento de Stu. Após a inesquecível despedida de solteiro do amigo em Vegas, o noivo prefere não abusar na farra e celebrar a nova fase com uma inofensiva cerveja na praia. Obviamente, as coisas não saem como o planejado e eles acordam em um quarto de hotel imundo em Bangcoc. A tarefa agora é relembrar a última noite e encontrar o jovem Teddy (Mason Lee) antes que a cidade fique com para sempre. O excêntrico Mr. Chow (Ken Jeong) também está de volta.

     

    O diretor Todd Phillips prefere brincar com as fórmulas já vistas através do jogo do “eu não acredito que esteja acontecendo de novo”. Não é uma opção carente de criatividade ou medíocre, mas uma espécie de tributo à ideia e à legião de fãs formados. O roteiro também de Phillips, juntamente com Craig Mazin e Scot Armstrong, é inegavelmente cômico em algumas partes, mas menos atraente que o do original. A perseguição de carro em alta velocidade não decepciona, a trilha é eclética como a do primeiro longa e a sequência dos créditos finais é tão chocante quanto antes. Uma determinada cena no clube de strip é de fazer tombar o queixo e um flash back de Alan, alcançado através de meditação, com crianças no lugar dos personagens marmanjos é sensacional.

     

     Dessa forma, Se beber, não case 2 não é de maneira nenhuma um mau filme. Cabe ao espectador revisitar o longa, em novo ambiente, e decidir se topa ou não encarar o jogo de reprodução das situações. E para que esperou dois anos para cair de novo numa farra inesquecível (no caso, esquecível) com Phil, Stu e Alan, provavelmente, não vai se importar.

     

     

    Foto: Divulgação

    POR: [Camila Lamha]

  • Bom

    Um novo despertar

    | Jodie Foster

    Na fase de pré-produção de Um novo despertar (The beaver), que estreia na sexta (27), os atores comediantes Jim Carrey e Steve Carell foram, em determinado momento, cogitados para o papel principal da trama. Felizmente, o escolhido para viver um homem, que dá vida, através da sua imaginação, a um castor fantoche que carrega na mão esquerda, foi Mel Gibson. E nesta história de crise familiar, amparada por interpretações comoventes de veteranos e de jovens promissores, é impossível não aproximar o deprimido personagem do problemático ator a cada fala carregada de falso sotaque do boneco de pelúcia.

     

    Walter Black (Gibson) é o presidente de uma empresa de brinquedos que, com o passar dos anos, se afunda em uma depressão e se torna cada vez mais distante dos filhos e da esposa (Jodie Foster). Depois de sair de casa e tentar o suicídio, encontra nova esperança em um fantoche de castor, achado no lixo, que passa a usar na mão e tratar como se fosse real. Incorporando a personalidade de seu amigo de pelúcia, ele reencontra o sucesso profissional e a boa relação com a esposa, mas de uma maneira frágil e doentia.

     

    Além de atuar, Jodie Foster assina a direção do longa, o terceiro na carreira – seus outros trabalhos são Mentes que brilham (91) e Feriados em família (95). Ela traz no seu recorte um olhar sensível e maduro para uma produção não apelativa, nem excessivamente dramática, que ao se fazer contida joga com as emoções e os limites da sanidade. Aquele homem triste e desesperado arrisca alto na sua loucura até um ponto que o falso equilíbrio se torna insustentável. Pitadas de comédia, como vestir o animal de mentira com um smoking sob medida, se postam como uma quebra da tensão, rebatidas com agonia.

     

    Gibson e Jodie estão perfeitos como um casal que se ama, mas que não sabe lidar com as próprias complexidades. Os jovens Anton Yelchin (Star Trek) e Jennifer Lawrence (Inverno da alma), que vêm emendando uma produção atrás da outra, fazem um par romântico que não cai nos clichês dos personagens adolescentes tanto no papel como na atuação. O roteiro, aliás, de Kyle Killen, é um exemplo de um script comercial, que não fere a inteligência do espectador. Ao propor e encerrar o seu tema, com as evidentes limitações do pouco tempo, ele não não ousa deixar questões em aberto, incomodando apenas no gosto amargo que fica no final da sessão.

     

    Assim, Um novo despertar, é talvez lugar de algumas contradições – a começar pelas incoerências carregadas na bagagem do seu protagonista. É tristemente divertido enquanto comercialmente provocativo. Jodie, que vai contracenar com Wagner Moura em Elysium, consegue uma direção tão honesta e sóbria como todo e qualquer papel que resolve encarar. E dessa vez a situação não é nada fácil.

     

    Foto: Divulgação

    POR: [Camila Lamha]

  • Regular

    Piratas do Caribe: Navegando em águas misteriosas

    | Rob Marshall

    Encerrar uma trilogia e seguir abocanhando o osso é uma decisão arriscada. Toda e qualquer franquia amadurece um ciclo depois do terceiro longa, correndo o risco alto de caducar no próximo passo. Piratas do Caribe: Navegando em águas misteriosas, que estreia na sexta (20), aponta tanto a trama quanto a sobrevivência da série em uma bandeira clara: encontrar a Fonte da Juventude. Ao renovar o diretor e retirar o casal apêndice (Orlando Bloom + Keira Knightley), sem prejuízos, o filme investe naquilo (ou naquele) que tem de melhor, mas não consegue ressurgir como roteiro.

     

    Na história de Piratas 4, o Capitão Jack Sparrow (Johnny Depp) está pronto para começar uma nova jornada quando cruza com uma bela mulher do seu passado (Penélope Cruz). Sem saber, ele vai parar a bordo do navio Queen Anne's revenge, do temido Braba Negra (Ian MacShane), pai da moça. Para continuar vivo, Sparrow tem que guiar a embarcação até a Fonte da Juventude, mas um navio inglês, comandado por Barbossa (Geoffrey Rush), e uma frota espanhola também querem encontrar a nascente rejuvenescedora. Entre sereias, zumbis, e Keith Richards (retomando o papel de pai de Sparrow), fica difícil apontar a criatura mais assustadora.

     

    O script da produção começa por fracassar na tentativa de fazer aparecer o novo. A trama é previsivelmente rala e sem substância, deslocando, como de costume, as atenções para o aspecto visual da fita. Movido por mais um encontro de corsários ambiciosos, apenas acrescido de novas figuras míticas, o roteiro não envolve completamente o espectador e deixa, inclusive, lacunas na compreensão da trama – profecias e maldições mal resolvidas pelo caminho.

     

    A decisão, contudo, de centrar a produção no capitão da fanfarra interpretado por Depp é acertada. A cada andar desleixado, trejeito de bebum ou piadinha boba o ator prova a sua capacidade de reinvenção de um personagem gasto. Dessa vez, sem precisar roubar a cena, ele assume o leme de uma nova aventura de entretenimento, bem aconchegada pelo combinado de pipoca e refrigerante. Conservando o mote dos diálogos divertidos e dos personagens caricatos, o quarto longa mostra que uma nova trilogia pode estar a caminho, encabeçada pelo pirata certo. 

     

    A direção de Rob Marshall (Chicago) não imprime grandes novidades, mas, afinal de contas, a série já se tornou uma marca consolidada da Disney – e filme que está ganhando não se mexe. Surpreendentemente, o 3D, pela primeira vez na série, tampouco chama uma atenção especial. Já as cenas de ação ganham a medida certa, sem cansativos exageros como No fim do mundo. O tom sombrio se mantém – como na extraordinária sequência do ataque das sereias vampirescas – mas o que marca é a volta a uma diversão despretensiosa, como no primeiro longa. E a moçoila ambígua vivida por Penélope ajuda a carregar em sotaque e em simpatia a fita.

     

     Assim, Piratas do Caribe 4 acaba por repetir antigas formas na tentativa de ganhar frescor. Com falhas e pouca criatividade de roteiro, esperadas em franquias de qualquer tipo, o longa se segura no seu espetáculo visual e no mesmo Jack Sparrow velho de guerra. Investe na tarefa de entreter o público, seja com falas engraçadas ou efeitos de ação, e anuncia que mais águas misteriosas, em breve, serão desbravadas.

     

     

    Foto: Divulgação

    POR: [Camila Lamha]

  • Bom

    Os agentes do destino

    | George Nolfi

    A origem, Efeito borboleta, Ultimato Bourne,  Matrix, Brilho eterno de uma mente sem lembranças, Cidade dos anjos, Sex and the city... Com um mix de sci-fi, romance, humor negro e piração existencial, Os agentes do destino recebeu tantas comparações da crítica que já entrou em cartaz com rótulo de dejá-vu. Não é bem assim. Surpreendentemente sóbrio em sua própria viagem, o longa sobre homens de chapéu que controlam o destino da humanidade ganha identidade e atitude graças a George Nolfi, seu intrépido diretor, e aos afáveis pombinhos Matt Damon e Emily Blunt. Os furos e tolices narrativas são numerosos, mas perdoáveis em uma fábula nonstop sobre vida, morte, "Deus" e, por mais brega que possa soar, amor.



    Matt Damon é David Norris, um promissor político que, a caminho de se tornar o mais jovem senador de Nova York, tem sua trajetória interrompida devido ao vazamento de infortunas fotos do passado. Prestes a fazer seu discurso de derrota, ele conhece Elise (Emily Blunt, em atuação apaixonante), uma dançarina divertida e espontânea. As faíscas são imediatas. Eles são perfeitos um para o outro. Então, como em toda boa história de amor, tudo dá terrivelmente errado. Mas, desta vez, não são infelizes coincidências que separam o casal principal - e sim um grupo de homens de estilo duvidoso conhecidos como “agentes do destino”. David, contudo, está disposto a lutar contra o “plano” para ficar com Elise.

     

    Parece um pouco absurdo, porém... OK, é bem absurdo. Mas funciona graças ao casal principal. Não é fácil construir um romance inabalável e 100% crível - do tipo que  nos convence de que uma garota aleatória no banheiro valeria enfrentar poderes cósmicos fenomenais durante anos – mas Os agentes do destino chega o mais perto possível. O mérito aí é todo de Damon, Emily e os bons genes do casalzinho, que conspiram a favor de uma química arrebatadora e uma simpatia instantânea pela causa. O envolvente romance é o carro-chefe da narrativa, abafando os efeitos visuais e todo o nhenhenhem filosófico. Frente ao carisma do casal, é difícil, até para o coração mais gelado, não torcer por um final feliz.

     

    Os tais “agentes do destino” não impõem muito respeito. Na realidade, eles não passam de uns caras meio aparvalhados que provavelmente falharam no teste para a Matrix e ficaram presos com o indigno trabalho de derramar os cafés das pessoas para as coisas não saírem de rumo. Isso, contudo, não atrapalha; pelo contrário, deixa tudo muito mais leve. Da mesma maneira, todas as questões existenciais – “Deus” existe? Temos livre arbítrio? Qual é o índice ideal de brilho em sapatos masculinos? – são abordadas de maneira surpreendentemente leviana. Se por um lado as soluções parecem meio fáceis e “largadas”, por outro evitam dar uma carga desnecessariamente filosófica a um filme despretensioso e de ritmo agradável. E nos poupa de mais uma daquelas viagens de quatro horas cheias de reviravoltas e alusões enjoadas à já super mal-frequentada caverna do Platão.

     

    É nos breves momentos em que tenta ser sério e abordar temas religiosos que o filme perde a credibilidade. A narrativa não tem a sutileza necessária para sustentar uma alegoria religiosa, e algumas das falas mais “profundas” acabam soando simplesmente bobas. Estapafúrdio em essência, o filme ganha mais brincando com o romance e com a figura carismática de David do que questionando a habilidade do ser humano de se autogovernar e tudo mais. O final também acaba sendo meio bobo, mas, em defesa do diretor, parecia simplesmente inevitável.

     

     

    Para os fãs mais ardorosos de sci-fi, a discrição dos efeitos tecnológicos em prol do romance deve ser uma decepção.  Do mesmo modo, aqueles em busca de alguma incursão incrementada à mente humana à la A origem devem diminuir as expectativas. Os agentes do destino é acima de tudo uma história de amor, breguinha que só ela, que tem como primeiro e último objetivo fazer você torcer por um final feliz. E se você conseguir questionar alguma das bases da sua existência no meio do caminho, bem, pode-se dizer que saiu no lucro.

     


    POR: [Fernanda Prates]

  • Regular

    Todo mundo tem problemas sexuais

    | Domingos de Oliveira

    Há duas maneiras de assistir Todo mundo tem problemas sexuais, que estreia nesta sexta (13). A primeira é embalada pelo discurso descabido de Pedro Cardoso – que presenciei no Festival do Rio de 2008 – em protesto à nudez artística (ou em suas palavras à “pornografia gratuita”) nos cinemas. Se no filme, de fato, todos tratam o sexo sempre bem vestidos, isso só contribui para a estética falsa, calcada em uma fotografia de baixo orçamento e em performances estilo pastelão – a praia inegável do intérprete de Agostinho Carrara. Sendo assim, o longa se torna um festival de toscarias constrangedoras.

     

    Se pensarmos, no entanto, no diálogo provocado pelo diretor Domingos de Oliveira (Todas as mulheres do mundo) entre “teatro, cinema e vida”, há de se reconhecer um valor na fita. Nesse caso, as atuações exageradas fazem sentido na liberdade da cena teatral, recortadas por planos e movimentos de câmera, e o humor grita para se dirigir ao público participante. Como definir afinal qual ficção é mais verdadeira? Ao colocar em questão os limites conceituais da representação, o longa abandona um ponto de vista único e atiça a diegese cinematográfica.

     

    O filme é a adaptação da peça de mesmo nome, que fez um enorme sucesso quando estreou em 2000. A partir de cartas recebidas pelo psicanalista Alberto Godin e publicadas na coluna Vida íntima do jornal O globo, foram selecionadas seis histórias para compor o espetáculo. Para a versão cinematográfica, Oliveira escolheu apenas cinco, realizando um corte e colagem de trechos originais das apresentações no teatro e de trechos postos em cena para o cinema. Acrescendo ao mosaico, bate-papos de bastidores entre ele e os atores em um clima de conversa de buteco. Além de Cardoso, no elenco da produção também estão Priscilla Rozenbaum, Claudia Abreu, Orã Figueiredo, Paloma Riani e Ricardo Kosovski.

     

    A trama se divide entre homens inseguros, casais enrustidos, descobertas sexuais e fantasias com desconhecidos. A intenção de Oliveira de emprestar ao cinema alguns dos poderes do teatro, que é mais velho, é alcançada menos com o humor escrachado do roteiro, e mais com a sensibilidade artística que lhe é característica. E, sendo assim, vale a experiência entre quatro paredes da sala de cinema.

     

     

    Foto: Divulgação

    POR: [Camila Lamha]

  • Regular

    Velozes e furiosos 5

    | Justin Lin

    Esqueçam as araras azuis, buldogues amigáveis e povo alegre. A imagem calorosa e meiga da Cidade Maravilhosa que Rio pintou nos cinemas foi atropelada, metralhada e espancada por Vin Diesel e companhia em Velozes & furiosos: operação Rio. Contudo, pra quem consegue superar os sotaques ridículos, biquínis de vovó e, claro, total desmoralização da imagem carioca, é um filme de ação bem aceitável. Além dos habituais carros pimpados, coisas explodindo e moçoilas seminuas, o quinto volume da franquia ainda nos presenteia, enfim, com um quebra-pau épico entre os dois carecas mais vascularizados do cinema.


     

    No filme, o ex-policial Brian O’Conner (Paul Walker) se junta a Mia Toretto (Jornada Brewter) para ajudar o ex-presidiário Dom Toretto (Vin Diesel) a escapar de um ônibus de prisão. Onde eles poderiam curtir a clandestinidade e fazer seus negócios ilegais sem muito incômodo? Rio de Janeiro, é claro. Com a descoberta da gravidez de Mia, eles decidem elaborar um último plano para roubar a bolada do megacriminoso Reyes (Joaquim de Almeida), e seguir com vidas "normais" (com identidades falsas e dinheiro roubado, mas quem se importa?). Eles têm problemas, contudo, quando descobrem que cerca de 99% da polícia carioca tem conchavo com o vilão. E ainda sofrem com o agente Luke Hobbs (The Rock) em sua cola.

     

    Não é como se estivéssemos esperando uma visão lúcida e bem embasada do Rio de Janeiro. Embora desta vez não exista nenhum grande esquema de tráfico de órgãos envolvido (Turistas, lembram?), há um certo, ahn, exagero dos problemas cariocas. Um bom exemplo é a cena em que Vin Diesel, de braços abertos, comenta que “isso é o Brasil” e toda a população – armada até os dentes, sempre – decide se virar contra o FBI. Fora isso, é o velho esquema “cidade sem lei”, na qual todo policial é corrupto, toda mulher anda por aí de biquíni (ou seriam anáguas?) e as favelas são as organizações habitacionais vigentes. Nada disso, contudo, incomoda tanto quanto os sotaques medonhos e obviamente estrangeiros. Vá lá que a gente aceita muita porcaria sobre a cidade em nome da arte e da pancada, mas não dava pra achar atores brasileiros?

     

    Além de absolutamente previsível, esta generalização é abstraível num filme que obviamente não prima pela história, e sim pelo visual. E que visual. As cenas de ação são verdadeiras obras de arte, as tomadas são estonteantes, e o Rio parece mais lindo que nunca (grande parte foi filmada em Porto Rico, mas abafa o caso). As cenas inicial e final já valem o filme. O "racha" com carros de polícia pelas ruas cariocas também é irreprensível – embora fique aquela curiosidade para saber onde eles encontram ruas vazias por aqui.

     

    Dwayne “The Rock” Johnson, a cerejinha que faltava ao bolo de testosterona, arrebenta no papel de Luke Hobbs, o típico agente do FBI disparador de frases de efeito. Uma bela escolha de personagem, afinal, quem melhor que o Rock para segurar o “Viesel”? A ideia deles brigando "mano a mano" causa certo assoberbamento – seria o princípio de uma hecatombe nuclear? -, mas não é que os bombadões têm mais química que Tom Hanks e Meg Ryan? O personagem de Hobbs, aliás, praticamente inutiliza os adoráveis olhinhos verdes de Brian, que retorna bobinho, bobinho.

     

    Falando em bobinho, o romance entre Brian e Jordana é outro papo que simplesmente não cola dessa vez. Se a ideia é nos solidarizar com o drama dos dois – que, coitados, PRECISAM roubar milhões de dólares para sustentar uma criança -, ela falha. Sem contar que Jordana, amiga, está na hora de abrir essa boquinha e comer um pretzel. A interação entre Elena (a única policial não-corrupta do Rio, aparentemente) e Hobbs, embora forçada, pelo menos é um pouco mais caliente.

     

    Tiradinha sarcástica aqui, cofre desgovernado acolá, Velozes & furiosos entrega o que promete: ação. Os "furos" com a população carioca devem passar despecerbidos lá fora, e a gente pelo menos saiu bonito na foto. Em termos de filme de ação, o único pecado mesmo é o tempo. Com 130 minutos de duração, o filme cansa os olhos e a paciência até dos maiores fãs do gênero. Furiosos eles até estão, mas podiam ser bem mais velozes.

     


    POR: [Fernanda Prates]

  • Bom

    Reencontrando a felicidade

    | John Cameron Mitchell

    Assistir a um filme com Nicole Kidman deixou, há algum de tempo, de ser um programa atraente e seguro. A atriz argamassada de botox, e abertamente criticada pelos colegas por isso, incomodava a cada nova performance pela pose dura, reforçada pelo nariz rinoplasticamente empinado. Mas em Reencontrando a felicidade é diferente. Com a sinceridade de cabelos mal cuidados e de pouca maquiagem, Nicole vive com honestidade uma mulher comum do subúrbio americano; tão imperfeita como todas as outras, mas isolada por uma perda.

     

    Oito meses se passaram desde a morte de Danny, filho de quatro anos do casal Becca (Nicole) e Howie (Aaron Eckhart). Enquanto os dois reagem de manerias diferentes à dor, eles tentam encontrar juntos ajuda em um grupo de pessoas também em luto. Mas o casal acaba seguindo caminhos opostos no labirinto da tragédia. Becca busca uma possível solução se encontrando com o adolescente envolvido no acidente que provocou todas as mudanças em sua vida. Já Howie tenta voltar a se sentir vivo através de práticas e de prazeres cotidianos.

     

    Enquanto o título jogado em português é traiçoeiro e entediante, no original a fita se chama Rabbit hole, que se refere ao buraco de Alice, mas também a uma história em quadrinhos importante em determinado momento do longa. Se a trama é essencialmente batida, aqui ela é observada de maneira sensível, indo além da tristeza, através de soluções encontradas em variadas perspectivas. E, da sala de cinema, é impossível não reagir junto dos personagens às suas respostas de dor e de conforto, como em analogia ao exercício de viver.

     

    A direção do indie John Cameron Mitchell (de Hedwig – Rock, amor e traição e de Shortbus) é menos carnal como de costume, trabalhando com situações mais delicadas, sem tocar o melodramático. Na evolução da produção, a perda do filho parece ganhar força, depois de um tempo de aparente calma, para só então começar a ser superada. A interpretação de Eckhart, no entanto, fica meio fora de lugar. Bem como um cínico em Obrigado por fumar ou um vilão meio canastra em Batman, dessa vez falta ao ator equilíbrio entre força e fragilidade.

     

    Reencontrando a felicidade não teve sucesso de público quando estreou ano passado nos EUA e tampouco vai fazer barulho no Brasil. Apesar disso, foi elogiado pela crítica internacional e rendeu a Nicole uma indicação discreta ao Oscar de Melhor Atriz – e também as pazes com a carreira. O grande mérito do filme é funcionar, através de boas ideias, em um motivo tão gasto no cinema. E em pequenas doses de frustração, a trama vai abrindo e selando, aos poucos, fissuras de uma dor viva

     

      

     

    Foto: Divulgação 

    POR: [Camila Lamha]

  • Regular

    Thor

    | Kenneth Brannagh

    Thor é uma propriedade estranha da Marvel. Criado por Stan Lee, Larry Lieber e Jack Kirby e baseado na mitologia nórdica, Thor era uma espécie de Superman da Casa das Ideias, extremamente poderoso. O texto, escrito em inglês arcaico e empolado, cortesia do sempre prolixo Stan Lee, acabou por deixar o personagem em segundo plano no escalão da editora. Kenneth Brannagh, do alto de sua sensibilidade, tentou pegar o personagem e dar a ele um drama shakesperiano, com filhos ilegítimos, rivalidade entre irmãos e o dilema da sucessão real. Ao mesmo tempo, abraçou de forma confusa clichês de blockbusters. O resultado não chega a ser profano, mas está longe de ser divino.



    A estrutura de Thor é esquisita. Enquanto histórias de origem seguem um crescendo - mero mortal consegue poder de alguma forma, tenta aprender a usá-lo e, lá pelo fim, chuta traseiros - , Thor segue uma linha completamente diferente, com o personagem começando o filme extremamente poderoso, perdendo tudo e recuperando a força no ato final. Ao mesmo tempo, a estrutura psicológica do protagonista segue uma jornada até comum, com o herói começando cheio de falhas (no caso, a arrogância desmedida) e ficando mais maduro pelo decorrer da fita. O problema é que o miolo do filme se arrasta, com o fortão Chris Hemsworth (Thor) forçando um romance com Natalie Portman (Jane Foster), Kat Dennings (Darcy Lewis) disparando cultura pop “humorística” e Stellan Skarsgård (Erik Selvig) tendo o único e exclusivo propósito de conectar alguma coisa com a cultura nórdica.




    Logo de cara, o filme estabelece as diferenças entre Thor e Loki, irmãos disputando o trono de Asgard, e aqui, Brannagh brinca de Shakespeare. As falas são berradas, cuspidas, sibiladas e a sutileza vai para Valhalla. Hemsworth desliza constantemente, mas apesar de alguns excessos na performance, Anthony Hopkins consegue viver um bom Odin, imponente e sábio na mesma medida, e Tom Hiddleston é um Loki versátil, capaz de fazer algo exagerado e sutil dentro da mesma cena. Em outra referência ao Bardo, um dos Três Guerreiros, Fandral, parece ter saído de uma peça da Inglaterra vitoriana, com direito a cavanhaque, roupa bufante e esgrima.



    Por outro lado, Brannagh mergulhou em clichês insanos, como o grito de "Por que?!" destinado aos céus - com pontos extra por ser em uma cena chuvosa e, pior, em uma cena na qual um personagem derrama uma única lágrima. Amigo, isso não cola mais.
    E não é de hoje.


    As cenas de ação, ainda que escassas, são divertidas e utilizam bem o escopo de poderes de Thor. O personagem, em consonância com o universo Marvel no cinema, teve seus poderes bastante reduzidos, deixando de ser o Superman nórdico dos quadrinhos e ficando em um nível mais próximo do Homem de Ferro. O climax do filme não é dos melhores e as batalhas parecem se resolver muito rápido, o que não permite que Thor mostre a extensão de seus poderes de forma apropriada.




    O filme também faz um esforço gigantesco para inserir a SHIELD na jogada e, até agora, o universo Marvel parece coeso, com a ciência humana virando a magia de Asgard. É conveniente, mas necessário, vá lá. Ponto para Os vingadores, de Joss Whedon.




    A direção de arte é fantástica em Thor, com Asgard apresentando cores magníficas e construções belíssimas. O design das fantasias é soberbo e a roupa de Thor está no mesmo nível que a armadura de Tony Stark nos filmes do Homem de Ferro. Os efeitos especiais são bons, mas a festança (necessária) de CGI não é tão boa.  




    Thor é um filme abarrotado de pequenos detalhes, como a sempre divertida pontinha de Stan Lee ou a inclusão sutil de Clint Barton, o Gavião Arqueiro, como um agente da Shield, ou até mesmo a menção aos raios gama (radiação que criou Hulk). Kenneth Brannagh não domina tão bem o cinema blockbuster, enfia goela abaixo um romance entre Thor e Jane e força piadas, especialmente na personagem de Dennings, mas conseguiu segurar a coesão do universo Marvel até a chegada do Capitão América.

     


    POR: [Gerhard Brêda]

  • Regular

    Água para elefantes

    | Francis Lawrence

    Lembra quando Robert Pattinson era apenas um inocente galãzinho britânico fadado a uma vida de frívolos papéis adolescentes no cinema? Bons tempos. Agora sua inexpressividade afeta diretamente aos adultos também. Embora bonitinho e visualmente bem construído, Água para elefantes é brutalmente aleijado pelo protagonista que, sem carisma ou qualquer tipo de talento, não convence hora nenhuma como par romântico de uma já não-tão-boa-assim Reese Witherspoon. Nesta fábula circense pouco deslumbrante, quem brilha mesmo é Rosie, o lânguido elefante indiano que relega a Pattinson o papel de paquiderme da história.


    Inspirado no livro de Sara Gruen, o filme conta a história de Jacob (Pattinson), um jovem que, em vias de se formar em Cornell, recebe a notícia da morte de seus pais. Falido, ele desiste da faculdade e vaga sem rumo até se infiltrar no trem do circo dos irmãos Benzini, onde é contratado como veterinário. Lá, ele se apaixona por Marlena (Witherspoon), com quem divide o amor pelos animais e, aparentemente, a profunda falta de graça. A amada, contudo, é mulher do dono do circo (Christoph Waltz, segundo ponto alto do filme), o emocionalmente instável August. O líder, que a princípio parece dócil e protetor, logo mostra sua face cruel, possessiva e nada ecoamigável.


    A história, bonitinha por si só, apoia-se sobre uma estrutura narrativa conservadora: um Jacb idoso (Hal Holbrook) conta a história do Jacob novo. Sabiamente, o filme mantém o velhinho apenas no início e no fim – poupando-nos dos excruciantes falatórios corta-clima estilo Benjamin Button. Tudo é bastante meigo, colorido e absolutamente previsível, como uma versão de Moulin Rouge para o público infantil. Quer dizer, sem toda a prostituição, esbórnia, tuberculose e afins. Anões, acrobacias e cachorrinhos inteligentes completam toda a aura circense – um pouco nostálgica em tempos de Cirque du soleil e homens barulhentos pintados de azul. Em linhas gerais, o filme fica em cima do muro; encanta de leve, mas não arrebata. Enternece, mas não apaixona.


    O que derruba Água para elefantes para a linha da mediocridade é Robert Pattinson. Se a ideia era provar talento verdadeiro após o apático Edward Cullen, o britânico falhou miseravelmente. Sim, todos nós já entendemos que ele tem olhos amendoados e maxilar proeminente, mas nem todos os olhares sedutores do mundo conseguem salvá-lo da apatia atroz. O papel de Jacob exigia uma profundidade emocional mínima – ainda que para chorar a morte dos pais ou morrer de amores pela mulher do chefe -, mas o mínimo parece ser exigir demais do limitadíssimo ator. Não há desculpas desta vez. Pattinson simplesmente não sabe atuar. E quanto mais cedo superarmos isso, melhor para todos. Vejam como Keanu Reeves está se saindo bem.


    Em defesa do galã baunilha, Pattinson não foi o único elo fraco. Reese Witherspoon, esquálida na atuação e na silhueta, já viveu dias melhores. Marlena, uma daquelas personagens fortes-porém-sensíveis que se veem divididas entre a estabilidade e o amor verdadeiro (*cof cof* SATINE *cof cof*), não se sustenta como protagonista feminina. Em boa parte devido à palpável falta de química com Pattinson, que, dizem as más línguas, chorou e tudo na filmagens das cenas mais "calientes" (bem morninhas, na verdade). Não fosse por Christoph Waltz e seu inegável talento para interpretar sádicos narcisistas com personalidade limítrofe, toda interação humana teria sido perdida.

     

    Todos, no entanto, enpalidecem perante a magnitude de Rosie, o glorioso paquiderme. Seus olhares de dor e desolação transmitem muito mais do que os cansativos carões de Pattinson. Sua presença é muito mais marcante e dinâmica que a de Reese.  O protagonista, diga-se de passagem, parece muito mais inclinado a se aninhar no abdome cilíndrico de Rosie do que nos braços raquíticos de seu affair. Além disso, é esta estrela não-declarada que protagoniza o momento de maior comoção do filme, quando é agredida por Augustus com um fustigador. O objeto afiado, aliás, provavelmente teria sido melhor utilizado para espremer algum tipo de reação de Pattinson.


    Em toda justiça, a obra tem uma solução visual belíssima, enaltecida pela trilha sonora impecável de James Newton Howard (O cavaleiro das trevas). Estes cuidados, aliados à graciosidade de Rosie e ao talento de Waltz, o salvam de ser – com o perdão do trocadilho – um desastre de trem. Mas seu engessado casal principal acaba com qualquer chance de arrebatamento.  Carente de paixão e carisma, Água para elefantes faz jus ao título: é insípido, inodoro e emocionalmente incolor.

     


    POR: [Fernanda Prates]

  • Regular

    A minha versão do amor

    | Richard J. Lewis

    O amor é cego, surdo e, aparentemente, tem altíssima tolerância ao álcool. Esta é a principal lição que tiramos de Minha versão do amor, uma comédia (?) incrivelmente sombria sobre um homem feio, gordo, beberrão e egoísta que, por motivos que a própria razão desconhece, conseguiu ser casado três vezes. Propelido por mais uma atuação impecável (e pouco autoelogiosa) de Paul Giamatti, o filme equilibra muito bem seu cinismo pungente com momentos de profunda ternura, mas, muito ansioso por resoluções, acaba perdendo a mão.

     

    A história, contada em flashbacks, concentra-se em três relacionamentos amorosos de Barney Panofsky – e num quarto, possivelmente homicida, com o “frienemy” (algo como um “amigo/inimigo”) Boogie (Scott Speedman).  Todos fracassados. Sua primeira esposa (Rachel Lefevre) é um espírito livre sem muito tato, amor ao próximo e, a julgar por seu desfecho, pouco amor a si mesma. A segunda (Minnie Driver) é uma socialite afetada e embaraçosamente apegada aos pais, de quem Barney se cansa ainda na cerimônia de casamento. O algoz do segundo matrimônio é o vestido azul de Miriam - seu futuro verdadeiro amor. Obstinado (vulgo stalker), ele a persegue de todos os modos imagináveis até que, após seu divórcio, consegue o que quer. Encantada com a persistência (ou vencida pelo cansaço), Miriam se apaixona por Barney, que, coerentemente, estraga tudo.

     

    Barney é um dos personagens mais absolutamente detestáveis já vistos. Sem compaixão ou qualquer tipo de inclinação ao bem, ele nada tem de mocinho. Ao mesmo tempo, falta-lhe a astúcia diabólica que poderia qualificá-lo como vilão, ou ainda o carisma despretensioso dos adoráveis “caras normais”. Barney não é um cara normal. Permanentemente enganchado a uma garrafa de whiskey e mais feio que briga de foice no escuro, ele é excepcionalmente babaca. Sua total falta de apelo é tão angustiante que poderia facilmente subtrair do filme. Mas Paul Giamatti não deixa isso acontecer. Contido e consciente, ele entrega uma daquelas performances tão convincentes que você poderia jurar que, no fundo no fundo, ele também não deve prestar.

     

    O relacionamento entre Miriam e Barney é um dos aspectos mais inquietantes (e envolventes). Como uma mulher linda, composta, engraçada e agradável poderia se apaixonar pelo bagaço pós-apocalíptico que é seu marido? Mais que isso: sabe-se lá como, ela tolera anos de bebedeiras e displicência de um cônjuge grosseiro, desleixado e deselegante, e é ele que, no fim das contas, dá um jeitinho de destruir tudo em uma noite. “O que esta mulher viu nesse homem?” é uma das milhões de perguntas – não respondidas – que assombram o espectador.  E, por isso mesmo, é o ponto mais interessante do longa. Graças em grande parte a Rosamund Pike, que, muito charmosa, brilha como uma personagem que nos alivia da visão pitoresca de Barney Panofksy.

     

    Outra valiosa adição é Dustin Hoffman, encantador como o corrupto e fanfarrão Izzy Panofsky. Mais que seu pai, Izzy surge como uma versão mais carismática, envolvente e gostável de Barney. A evolução de seu pokemón, por que não? Seu personagem rende a cena mais bela do filme, quando Giamatti, chorando e rindo, sintetiza o tom agridoce da história. Scott Speedman também é uma grata surpresa no papel de Boogie, o bon-vivant inescrupuloso e bonachão que abusa da boa-vontade de Barney e consegue, com muito esforço, tirá-lo do sério.

     

    Por outro lado, Boogie também é foco do maior buraco narrativo de Minha versão para o amor. O fator mistério, que deveria acrescentar sabor, acaba parecendo um pouco gratuito e dissonante. Logo no começo, sabe-se apenas que Barney foi suspeito do homicídio do amigo, mas teria sido inocentado em circunstâncias suspeitas. A cena do suposto crime é construída de forma a despistar o espectador. O desenrolar verdadeiro dos acontecimentos, revelado apenas no final, é decepcionante, preguiçoso e praticamente inutiliza toda esta parte da história.

     

    Os momentos finais também não funcionam. Tanto por abordar um espaço de tempo extenso quanto por conter tantas linhas narrativas emocionalmente densas, o filme parece excruciantemente longo. Lá para os últimos 20 minutos, o longa perde umas três boas oportunidades de terminar sem maiores transtornos. A tentativa excessiva de resolução acaba estragando o ritmo da história, que perde a profundidade e sutileza com a qual começou e deixa um pós-gosto meio amargo. 

     

    Na pior das hipóteses, o filme é um sinal de esperança de que o amor pode florescer até nos terrenos mais inóspitos. Na melhor delas, é um retrato instigante de um homem que parece ter recebido muito mais amor do que merecia. Paul Giamatti, digno de seu Globo de Ouro, merece os louros da vitória. Não se engane: Barney não é um daqueles caras “adoravelmente ranzinzas” ou “excentricamente charmosos”. Ele é absolutamente repugnante.  Mas é a coragem de se aprofundar em um protagonista com tantas camadas de cinza que faz de Minha versão do amor particularmente envolvente.

     

     


    POR: [Fernanda Prates]

  • Regular

    Hop — Rebelde sem Páscoa

    | Tim Hill

    Se pararmos para pensar a Páscoa sempre foi uma data comemorativa renegada pela indústria do cinema. Produções sobre o Natal, o Halloween, o Dia dos Namorados (às vezes macabro) e até o super americano Thanksgiving sempre preencheram o espaço de filmes-para-toda-a-família datados em festividades. Neste ano, contudo, a festa da Páscoa fica ainda mais doce. O longa HOP – Rebelde sem Páscoa, que mistura computação gráfica e live-action, chega para divertir os miúdos, sem muitas pretensões.

     

    Na trama, Junior (voz no original de Russell Brand) está prestes a suceder seu pai na função de Coelhinho da Páscoa, mas não sente que essa seja a sua vocação. Foge da ilha de Páscoa – casa dos coelhinhos e da fábrica de gostosuras – para tentar a carreira no rock, como baterista em Hollywood. Lá ele conhece o jovem adulto Fred (James Mardsen), que tampouco quer assumir as responsabilidades da vida. Os dois se metem em confusões e aventuras e ainda tem de dar um jeito de salvar a tradição da data.

     

    Dirigido por Tim Hill (Alvin e os esquilos), o filme água com chocolate chega ao país, apenas em cópias dubladas, depois de liderar as bilheterias americanas. Com um visual agradável, mas não espetacular, a comédia não subestima a inteligência das crianças e conta com boas sacadas e cenas divertidas. A falta de um enredo mais criativo e de um desenrolar melhor explorado é que fazem do futuro de Hop um arquivo a ser lembrado pelas sessões da tarde nas próximas Páscoas – algo como o destino, quase obrigação, de Um herói de brinquedo.

     

     Dos destaques humanos, David Hasselhoff (de Baywatch), apesar de aparacer pouco, transforma qualquer fala ou trejeito em elemento de comédia. Já dos personagens animados, o pintinhos que trabalham na fabricação das guloseimas são uma reimaginação da função dos duendes ajudantes de papai Noel e ainda quebram o galho de rena, puxando o trenó estilizado do dentuço importante. O chefe do grupo é um divertido gorducho traiçoeiro, com sotaque portenho, na voz do excelente Hank Azaria – também entra na lista de pontos positivos perdidos pelo caminho da dublagem a participação de Hugh Laurie (Dr. House) como o Coelho pai.

     

     HOP – Rebelde sem Páscoa cumpre o papel dos filmes de festividades ao ser leve e divertido. Além disso, a difícil interação entre pessoas e desenho funciona bem, criando situações engraçadas para qualquer idade. Apesar de estar longe de subverter a classe, como Rango, o coelho Junior, que usa xadrez e caga jujubas (mesmo), consegue conquistar o público e entrar para o concorrido ranking dos carismáticos da animação.

     

     


    POR: [Camila Lamha]

  • Fraco

    A garota da capa vermelha

    | Catherine Hardwicke

    Era uma vez um conto infantil de fontes inesgotáveis de brincadeiras narrativas. E entre paródias e paráfrases em potencial, o sombrio sempre foi elemento de constituição básico da história da Chapeuzinho vermelho. Contudo, reimaginado em uma trama teen com atitude moderna (trilha pop e dancinhas), A garota da capa vermelha destrói qualquer encantamento de fábula dark e desinteressa o espectador. Através de incoerências de roteiro e diálogos extremamente bobos, o máximo que o filme chega é alcançar o patamar   da franquia Crepúsculo, da mesma diretora Catherine Hardwicke – deve ser essa a intenção. 


    Todos os elementos da fantasia adolescente oca estão lá. A começar pela falta de luminosidade intencional para provocar uma sombra fúnebre de mistério, mas que acaba  por tirar o sal de qualquer suspense. E centrada novamente em uma moçoila sofredora, Catherine permanece na intenção de não criar heroínas de força, mas vítimas frágeis que enfrentam a difícil decisão entre qual-dos-dois-bonitões-devo-escolher. Até o pai da protagonista é interpretado pelo mesmo Billy Burke da mega série vampiresca. 


    Bella, digo Valerie (Amanda Seyfried), é uma jovem que vive em um pequeno vilarejo da idade média atormentado por um lobisomem (não mais um lobo mau). Depois de uma trégua temporária, a criatura volta a atacar, e a primeira vítima é a sua irmã. Engajada no objetivo de combater o ser misterioso, Valerie também se divide entre sua paixão pelo lenhador Peter (Shiloh Fernandez) e seu noivado arranjado com o ferreiro Henry (Max Irons). Quando a moça encontra pela primeira vez o lobisomem, descobre que está mais ligada a ele do que imagina, passando a desconfiar de todos a sua vota. 


    Nenhuma interpretação se destaca. Gary Oldman vive um famoso padre obcecado em revelar e exterminar a forma humana do lobo, mas não convence como vilão. Julie Christie é mal aproveitada como a vovozinha maluquete da floresta com dreadlocks no cabelos. Já a encapuzada Amanda cumpre a função de parecer bonita em uma capa vermelha, mas nem suas feições de anime sustentam o caráter fraco das falas e o desenvolvimento absurdo das lacunas na história – o luto da família pela morte da filha mais velha não dura nem uma cena inteira.

     

    Assim, os olhos grandes para ver melhor a narrativa são apenas os azuis de Amanda. Devido, em parte, o sucesso de Alice no País das Maravilhas, de Tim Burton, Hollywood vem se debruçando sobre adaptações de contos de fadas para conquistar o público. Nada contra rodadas novas de histórias velhas, mas as reimaginações tem de ser criativas e honrosamente bem executadas. Esse não é o caso de A garota da capa vermelha.

     


    POR: [Camila Lamha]

  • Bom

    Pânico 4

    | Wes Craven

    “Qual é seu filme de terror preferido?”, já perguntaria o serial-killer-mascarado-cuja-identidade-não-poderíamos-revelar-nem-que-quiséssemos-por-motivos-legais.  A resposta provavelmente não será Pânico 4 - mas não por um mau motivo. Hilariante e babaca até o fim, o quarto round do eterno martírio de Sidney Prescott jamais deveria ser classificado como um filme de terror. E não faz a mínima questão. Com uma língua afiada, brincadeiras metalinguísticas e os adoráveis absurdos narrativos de sempre, o filme promete uma divertida e nostálgica viagem aos anos 90 para aqueles com o bom senso de ignorar o próprio bom senso.

     

    Na história, Sidney Prescott volta a Woodsboro para promover seu best-seller de autoajuda sobre, quem diria, superação de traumas. Lá ela reencontra o casal Dewey (David Arquette), agora xerife da cidade, e Gale (Courtney Cox), atormentada por um bloqueio criativo e insatisfeita com o casamento. Seu retorno, contudo, também significa a volta do assassino Ghostface - e de todos os telefonemas assustadores, invasões domiciliares e facadas que inevitavelmente atingem a porta (reparem). Além da tríade original, uma fornada fresquinha com seis adolescentes mal fadados chega com todo seu vigor e indispensáveis soutiens de rendinha para encorpar o abate.

     

    A dinâmica adolescente, geralmente onde produções do gênero estragam tudo, é um dos acertos de Pânico 4. Tomando o devido cuidado pra não deixar os bichinhos emocionalmente complexos demais (quem aguenta adolescentes pensantes?), o filme conseguiu criar uma coerência revigorante mesmo dentro da exploração dos estereótipos. Há todo um cuidado para que a babaquice teen esteja sob controle, sem aquela coisa meio tiozão de entupir o filme de ipods, sidekicks, "like, totally"s e referências ostensivas ao maldito Facebook. Claro que não podemos esperar um tratado sobre as tormentas da mente jovem, mas a caricatura está perfeitamente dentro dos limites do socialmente aceitável.

     

    Ousado, mas cuidadoso, Wes Craven foi certeiro em definir onde o original termina e o novo começa.  A estrutura adolescentes + ligações estranhas + ataque de psicopata" permanece, mas não existe mais toda a tensão e a seriedade dos filmes anteriores.  Uma escolha sábia considerando-se que é difícil respeitar o Ghostface depois de ver aquele tio barrigudo de 50 anos tentando assustar os sobrinhos com a máscara na cabeça e um copo de cerveja na mão. A fórmula, convenhamos, já passou da validade há alguns anos. Em vez de cair na armadilha de tentar recriar o terror em cima de algo que já foi parodiado até a morte, o diretor optou por uma autopiada espirituosa e surpreendentemente leve.

     

    É claro que não há muito como escapar de toda a tolice. Os furos narrativos são gigantescos, e a atuação de David Arquette é tão abismalmente terrível que você se pergunta o tempo inteiro se ele está falando sério ou sendo muito muito cínico. Mas a outra grande esperteza foi saber construir um filme em que os erros participam da história como todo o resto – e não deixam de homenagear os predecessores. O início é brilhante, o ritmo é bom e há muitas piadas de fazer rir alto (e não é sem querer). As referências ao universo de filmes de terror também são fartas e adoravelmente gratuitas.

     

    Uma das falhas de Pânico 4 - além do escabroso cabelo à la Betty White de Hayden Pannetiere – é a falta de pancadaria. Os assassinatos são rápidos, sem muitas fugas épicas seminuas por quintais ou chutes cinematográficos rodados. Além disso, os momentos de pretensa análise psicológica, embora breves (ufa), acabam quebrando um pouco o ritmo da história. Sidney é de longe a mais enjoadinha, limitando-se a semicerrar os olhos e lançar encaradas lânguidas a maior parte do tempo. Insossa, a protagonista é ofuscada tanto por sua relações públicas (Alison Brie, a Annie de Community), quanto pela bonitinha desbocada Kirby vivida por Panettiere.

     

    Definitivamente, Pânico 4 não é um filme de terror. Mas também não é uma comédia, um thriller ou um besteirol adolescente. E essa total bagunça, por incrível que pareça, é seu maior trunfo. Não satisfeito em simplesmente ser babaca, ele refocila em sua própria falta de senso, enriquecendo toda a metaloucura com diálogos espirituosos, boas referências e um humor veloz. Claro que é um pouco over, mas por que isso deveria ser um problema? O truque é sentar, relaxar e deixar os gritos, estripamentos e portas que nunca estão trancadas fazerem o resto do trabalho.

     

     


    POR: [Fernanda Prates]

  • MuitoRuim

    Eu sou o número quatro

    | D.J. Caruso

    Garoto conhece garota. Garoto é alto, bonito e tem ar de mistério. Garota é charmosa, tira fotos e usa boina. Garoto e garota se apaixonam. Garoto é um alienígena bioluminescente do planeta Lorien. Junte os pontinhos. Vendido (e entregue) como uma versão extraterrestre de Crepúsculo, Eu sou o número quatro consegue superar todas as expectativas de ruindade, arrombando a porta da irrelevância com os dois pés e uma shotgun. Desleixado e com protagonistas ainda menos carismáticos que os vampiros afeminados de Forks, compila tudo que há de mais desinteressante no universo teen numa amálgama de clichês sem graça, apelo emocional ou alma.

     

    O filme conta a história de "John Smith” (Alex PettyferZzzzz), um alienígena que se refugiou na Terra após ter seu planeta dizimado. Quarto exemplar de sua espécie (os três primeiros foram mortos), ele vive em anonimato, fugindo de um grupo de alienígenas malvados e esteticamente desagradáveis que querem exterminar o resto de seus conterrâneos. Após se mudar para uma pequena cidade de Ohio, ele conhece Sarah (Dianna Agron, dolorosamente OK), por quem se apaixona irrevogavelmente (em um loooongo processo de dois minutos). Acrescente ao romance instantâneo algumas explosões, rajadas de luz azul e uns toques de Roswell e Arquivo X. Estampe os nomes de Spielberg e Michael Bay e, tandam, eis o enredo blockbu$$ter.

     

    Por incrível que pareça, o problema do filme não é o conceito. Até mesmo uma fábula romântica adolescente sem qualquer fundo de verdade pode ser divertida com uma execução OK. Mas, seguindo a tradição de Crepúsculo, Eu sou o número quatro  parece tão certo de que será acriticamente digerido por garotinhas histéricas que sequer se preocupa em tentar ser bom. O desleixo começa pelo cenário, uma cópia meia-boca da já bastante genérica Forks, e termina com os aliens malvados, uns bichos humanoides com guelras na cara que não são assustadores, repugnantes ou sequer involuntariamente engraçados. A sensação – ou melhor, certeza – é de que os produtores se reuniram, jogaram um punhado de dólares na mesa e simplesmente esperaram eles se multiplicarem em cima do estrogênio alheio.

     

    Para bem ou para mal, Crepúsculo tinha ao menos uma carta na manga: o irrestível (?) Edward Cullen. Embora tenha parecido mais preocupado em sufocar seu sotaque britânico do que em rascunhar algum tipo de atuação, Robert Pattinson dá certo charme – ainda que estético – ao personagem. Seu vampiro é, na pior das hipóteses, absolutamente detestável. Já, Alex Pettyfer (Ryan Philippe + Ben McKenzie – personalidade) não causa nem esse tipo de emoção. Seja pela fraqueza do personagem ou pela fraqueza da atuação, John Smith conquistou seu lugar no Top 5 dos protagonistas mais inexpressivos da história do cinema adolescente. Freddie Prinze Jr. incluso. Bonitinho e nada mais, Pettyfer está fadado a uma vida protagonizando tragédias megalomaníacas de Michael Bay.

     

    A contraparte feminina Dianna Agron (a loiríssima cheerleader-mestra de Glee) provavelmente um dia irá acordar, levar as mãos à testa e esbravejar um sofrido “O que eu estava pensando?”. Consideravelmente bonita e até talentosa, Diana nada pôde fazer para resgatar sua personagem do fundo do abismo dos clichês adolescentes que é a nauseante Sarah. A velha fórmula de pegar uma princesinha e jogar uma boina para disfarçá-la de nerd pode ter dado certo nos anos 90, mas agora, por favor, deem-se ao trabalho de colocar um nariz falso. Onde, aliás, conseguiram encontrar uma boina para vender em pleno 2011? Os conflitos bobos da ex-garota-popular-que-cansa-da-superficialidade-dos-colegas-e-se-converte-à-fotografia fazem Bella Swan parecer o epítome da complexidade emocional.

     

    Coerentemente, o romance principal faz o casal Edward e Bella parecerem Clint e Meryl Streep em Pontes de Madison. Talvez no livro a coisa não seja tão ruim assim – como é o caso de Crepúsculo, inclusive –, mas na tela não há como fugir do ridículo da situação. Na tentativa de injetar mais ação para atrair o público masculino (e o $$), o filme acaba forçando ainda mais a barra do amor fast food. Embora sejam geneticamente capazes de produzir uma belíssima linhagem ariano-alienígena, os protagonistas não têm a química, a convicção ou tempo para nos convencer de toda sua suposta devoção intergaláctica. Em vez de faíscas, dali só saem farpas.

     

    O núcleo de apoio também não ajuda. Tanto os bullies à lá Karate kid (que John Kreese não leia isto) quanto os supostos “bonzinhos” não escapam da mesmice. O “pai” de John Smith (Timothy Oliphant) nada adiciona. A alienígena “número seis”, interpretada por Teresa Palmer, segue todo o figurino moto + jaqueta de couro + cabelo de cama que as garotinhas rebeldes chutadoras de traseiros devem obedecer, prometendo agradar às mais revoltadinhas. A garota, contudo, ao menos oferece uma boa sequência de ação (a final), e provavelmente seria uma protagonista bem menos desinteressante. Já o geek melhor amigo Sam (Callan McAuliffe) esboça quase tanta personalidade quanto... Bem, John Smith.


    Sem a leveza dos filmes adolescentes, a mística dos sobrenaturais e o apelo emocional das fábulas românticas, Eu sou o número quatro consegue ser genérico em todos os campos pelos quais se aventura. Nem mesmo os efeitos visuais e as carinhas bonitinhas nos fazer desviar da viagem sem escalas em direção à cidade de Chatolândia, Ohio. A tentativa de injetar ação na história não só falha em se comunicar com o público masculino, como provavelmente custará um naco da audiência feminina pré-púbere que se apaixonou pela melosidade de Crepúsculo. Se por um lado o romance raso entre Barbie e alien Ken deve bastar para carregar o longa pelas bilheterias, é difícil que um adulto são e sóbrio consiga fazer muito mais do que aturá-lo. Eles estão entre nós. E são muito, muito chatos.

     


     


    POR: [Fernanda Prates]

  • Fraco

    Rio

    | Carlos Saldanha

    Já estava bem claro pelos trailers, com uma arara azul voando de asa-delta pela orla carioca, ensolarada e colorida, ao som de Mas que nada, de Sergio Mendes, que o Rio de Janeiro de Rio seria um produto de exportação. Não deu outra: a Cidade Maravilhosa que Carlos Saldanha anima passa por todos os clichês possíveis, da praia ao Carnaval, tudo ao som de sambinhas de gringo. Povoando essa metrópole de cores vivas, está um dos elencos menos carismáticos já vistos em uma animação.


    O filme conta a história de Blu, uma arara azul domesticada – e bastante inteligente – que não sabe voar e mora com sua dona, Linda, em Minnesota. Após ser abordada pelo ornitólogo Túlio, a dupla descobre que a espécie de Blu está praticamente extinta e ele é o último macho. No Rio de Janeiro, em cativeiro, está a última fêmea, Jewel (traduzida como Jade). No meio do caminho, a dupla é roubada por traficantes de aves e Blu precisa sair de suas neuroses e crescer. Nossa, uma história de superação, de um peixe fora d’água tentando ultrapassar suas limitações? A trama é mais requentada que marmita de pedreiro.


    O elenco de personagens é um outro problema. Os pássaros que cruzam a tela falham em despertar algum interesse. O casal principal até tem algum charme, mas a ideia de colocar Jesse Eisenberg como dublador não foi das melhores. Nas cenas mais calmas, seu estilo esquisito de falar até brilha, mas basta o personagem se empolgar que Eisenberg passa a falar fino, como uma garota, com um timbre irritante. A dupla alívio cômico, formada pelo canário Nico e pelo “sabe Deus o que” Pedro, dublada por Jamie Foxx e Will.I.Am, consegue a proeza de não acertar uma piada sequer. Claro, existem tentativas, mas parece tudo um veículo para que Will.I.Am dispare seus raps. Indigesto, no mínimo.


    Os humanos são insossos. Linda, Túlio, o traficante Marcel e seus capangas, todos são arquétipos cansativos e sem carisma. Tudo soa derivativo e, por mais que a animação tenha estilo e qualidade, sem um elenco sólido como o trio de Era do gelo, a ação desmorona. A única pequena glória do elenco é a cacatua Nigel, dublada de forma sombria por Jermaine Clement, que entrega um vilão ameaçador, ainda que bidimensional. O papel cairia bem também na voz de Alan Rickman, mas o que está ali é suficientemente interessante.


    Algumas idiossincrasias também pipocam pelo filme e são distrativas. Até o último ato, raramente o idioma se mostra uma barreira, com os personagens habitando aquele país firmemente colocado na suspensão de descrença, com todos falando inglês naturalmente, com um ocasional: “Ah, você é americano?” sucedendo algumas palavras em português. Até os traficantes falam casualmente em inglês entre si, mas é algo coerente com o resto do filme. Subitamente, na Sapucaí (claro que teria um desfile), um coadjuvante apenas se comunica em sua língua nativa, berrando ordens para Linda como “Rebola!”, em bom português. Quem samba, no fim das contas, é a coerência.


    Com um roteiro cansado e um elenco desinteressante, Rio só vale para ver a Cidade Maravilhosa, ainda que em uma versão bem artificial, em uma animação. É colorido, tem as obrigatórias cenas de ação e segue os passos de qualquer jornada de herói de meia tigela. Parece que Rio foi fazer uma tour estilo safári pela favela e acabaram furtando o carisma do filme. Perdeu, playboy.

     

     


    POR: [Gerhard Brêda]

  • Regular

    Uma manhã gloriosa

    | Roger Mitchell

    Quão disposto está  a aguentar uma mulher workaholic, histérica, tagarela e, como se não bastasse, atrapalhada, como protagonista de uma comédia histriônica? Esta é Becky Fuller, personagem da bonitinha e aqui virginal Rachel McAdams. Produtora de destaque de um programa de TV matutino, a jovem é surpreendida com o comunicado de sua demissão. Logo depois de algumas cenas abreviadas pela edição acelerada (ainda bem), é contratada por outra emissora, para trabalhar no Daybreak, programa teoricamente concorrente, com audiência ainda mais insignificante. O motivo é aparente: repórteres, âncoras e produtores desmotivados, egocêntricos e mal-humorados. Se depender desta equipe, nada funciona. Pior é que depende. 


    Novata no ambiente desestimulante, Becky chega com o intuito de por ordem na casa. Nem que para isso precise demitir o âncora mais famoso e turrão do lugar, passe noites em claro e prejudique sua já escassa vida sexual com um jornalista investigativo de outro setor. Tudo isso numa histeria que estrategicamente te mantém acordado para acompanhar um programa televisivo de conteúdo completamente irrelevante. Todos têm a consciência de tal fracasso, mas ninguém, senão a heroína da história, tem vontade de mudar esse quadro. Com ares de hospital psiquiátrico, Uma manhã gloriosa, assim como o programa, tem alguns nomes famosos que podem representar a sobrevivência. 


    No elenco, uma Diane Keaton de cabelos brancos no papel da apresentadora principal Colleen Peck. Complementando, Harrison Ford na pele de um jornalista internacional que faz questão de relatar sua experiência em grandes coberturas políticas, e por ter um contrato milionário, fica longe da emissora para caçar pássaros. Apesar dos rostos conhecidos, as personalidades de ambos não colaboram para erguer o filme. Mesmo assim, parece fazer sentido. Com as tentativas de Becky Fuller de salvar o programa, são exatamente esses personagens os que ainda a inspiram a continuar tentando. O maior desafio é convencer Mike Pomeroy, o tal jornalista “sério”, a dividir a bancada com Colleen, para tratar de culinária, comportamento, moda e fofocas. 


    Uma cláusula no contrato convence Pomeroy, mas os gráficos de audiência detonam ainda mais depois da entrada do jornalista monossilábico. O chefe de Becky avisa: se os índices continuarem declinantes, o programa acaba para abrir espaço a novelas e games shows. Salvar o Daybreak seria assim uma missão impossível se a praga do final feliz não pintasse por aqui. Becky é tomada pela brilhante ideia de valorizar mais assuntos de entretenimento. Repórteres vão para as ruas gravar matérias que causam vergonha alheia. 


    Aí vale tudo: beijar animais, subir montanha russa, vestir fantasias, tocar instrumentos exóticos, entre tantas outras coisas que elevam a audiência, mas não tanto. A outra estratégia é aproveitar o jeito mal-humorado de Pomeroy para fazer graça. A troca de ofensas com a apresentadora rende picos no ibope. Mas tudo só dá certo mesmo quando o Daybreak, que acorda meia dúzia de espectadores todas as manhãs, valoriza furos de reportagem. 


    Com o crescente sucesso do programa, Becky Fuller é chamada para trabalhar no Today Show, da NBC, o programa de maior audiência do horário. Fórmula simples que rende instantes dramáticos rasos: a menina fica dividida entre o lugar que ajudou a revitalizar e o trabalho dos sonhos. Daí, aumentam o volume da trilha sonora açucarada, põem a jovem a correr e subir degraus em câmera lenta, ela decide ficar e os sorrisos nos rostos imperam. Parece então ter sido essa a tal manhã gloriosa do título: piegas e sonolenta. 

     

     

     

     

    POR: [Monike Mar]

  • Fraco

    Atividade paranormal em Tóquio

    | Toshikazu Nagae

    Com apenas 15 mil dólares de produção, Atividade paranormal se tornou um fenômeno de bilheteria, arrecadando mais de US$ 216 milhões em todo o mundo. Mas, mesmo com números surpreendentes e sustos escassos, menos de dois anos depois, o terror continua rendendo. Agora, da América para a Ásia, os acontecimentos sobrenaturais ganham coadjuvantes, uma trama um pouco mais elaborada e, apesar dos acréscimos na história, o título de apenas mais um. Não se trata exatamente de um remake. Atividade paranormal em Tóquio foi filmado em paralelo ao segundo filme da franquia original, sendo assim uma versão japonesa de continuação do primeiro. Desnecessário?

     

    Se os trailers chamam atenção para a reação dos espectadores em pânico — alguém se lembra dos teasers de REC? —, assistindo ao filme, vemos que tudo não passa de um exagero frente às câmeras. O longa reproduz a mesma estética caseira, de câmeras trêmulas e de vigilância, para contar a história de uma jovem perseguida por um espírito maligno. Desta vez, os ataques dos infernos se estendem à família da garota, que sofre com a possessão — no original, a casa é mal-assombrada.

     

    A perseguição justifica o sofrimento da menina até mesmo em terras orientais. Nos Estados Unidos para fazer um intercâmbio, Haruka Yamano sofre um acidente de carro e a partir de então é possuída pelo espírito que inferniza sua vida. E, para piorar, fica com as pernas engessadas — o que não a impede de andar quando está com o espírito no corpo. Com a intenção de fugir do caos maligno, ela volta para Tóquio, para morar com o irmão. Mas... adivinha? Nada adianta e o filme se arrasta com os rostos dos irmãos ora dentro, ora fora de quadro. O pai e mais três amigos fazem apenas figuração.

     

    Para desvendar o mistério das bizarrices sobrenaturais, Koichi Yamano arma a velha arapuca de esconder câmeras em dois quartos (dele e da irmã). Em alguns instantes interessantes do filme, acompanhamos as provocações do espírito em tela dividida. E, assim como no primeiro, temos o truque do contador de horas acelerado na câmera. O espírito só se manifesta por ruídos: a cadeira de rodas se mexe, um punhado de sal se espalha pelo chão, portas abrem e fecham.

     

    A maior surpresa da história, contudo, não provoca nenhum susto: a possessão da garota tem relação com o primeiro filme, já que o acidente que sofreu acontece nos Estados Unidos — onde se passa a versão original. O final é repleto de artifícios que transformam o filme em intermináveis noventa minutos. Assim, a versão oriental do terror que só espanta pelo sucesso de bilheteria se afunda em um vai-e-vem de mortos e vivos. Cansa.

     


    POR: [Monike Mar]

  • Bom

    Sem limites

    | Neil Burger

    Sabe aquele papo científico de que só usamos 20% de nossos cérebros? Eddie (Bradley Cooper), homem à frente de Sem limites, toma uma pílula mágica e nos mostra como funcionaríamos com os miolos anabolizados a pleno vapor. Apesar de algumas escolhas ironicamente estúpidas do roteiro, a injeção de adrenalina funciona bem no quinhão de tutano que nos cabe. Ou seja, não interessa nem o nome estranho do que  Eddie está tomando, você vai querer igual.


    Como os reles mortais que não sobrevivem a doses cavalares de Prozac, Eddie Morra sofre. Lateja em sua cabeça uma crise criativa, ainda choraminga a dor de um pé na bunda (a dor de cotovelo atende por Abbie Cornish). Eis que um encontro mais que casual traz às mãos de nosso protagonista a mágica pílula NZT. Basta um gole seco para que se dê a mutação: Eddie é agora uma máquina de escrever, um exímio poliglota, um pegador frenético, um lobo nas estepes de Wall street. E um viciado.


    NZT é, obviamente, ilegal. E, claro, tal atividade cerebral convulsiva não poderia passar impune às leis da… natureza? Da biologia? De Deus? De qualquer forma, enquanto dura a onda, Eddie sabe exatamente o que fazer, tem acesso a absolutamente tudo o que já viu/ouviu, é agraciado com uma percepção pulsante. Se usa demais, lapsos de memória perseguem sua consciência. Se tenta se desvencilhar, o que lhe aguarda são dores de cabeça excruciantes, vômitos em jato e uma perna manca — sério, na fita todos os drogados-em-abstinência puxam da perna esquerda.


    Para nos poupar as bad trips, Eddie coloca as mãos numa boa quantidade da escassa pílula da felicidade. Isso o torna alvo fácil no mercado negro e logo, logo o rapaz está sendo perseguido por capangas russos, policias honestos, um advogado engravatado e um serviçal psicopata. A paranoia logo se instala, enquanto o chefão do mercado financeiro Carl Van Loon (Robert De Niro, num terno caro que não esconde o sorriso mafioso) o pressiona para descobrir o truque por trás de genialidade de seu novo contratado.


    Cooper faz bem os três papéis que lhe cabem em Sem limites: o escritor fracassado e bobão, cabelos desgrenhados, irreconhecível; o poderoso agente financeiro, charmoso e sagaz; e o junkie enlameado à beira do desespero com tantos carrapatos a farejar seus passos. Nem só de sujeitos ligeiramente arrogantes e sabichões vive a persona de Cooper. E, vá lá, Sem limites seria até menos interessante sem o protótipo de macho alfa americano.


    Neil Burger faz um bom trabalho em retratar essa doideira toda. O diretor, que em O ilusionista conseguiu trasnformar um orçamento precário num filme, em tela, com lapsos de blockbuster, dispõe em Sem limites de um pouco mais de grana e a mesma imaginação. Para além dos cortes incessantes durante as cenas das viagens, Burger usa uma técnica que chama carinhosamente de fractal zoom, que ilustra bem o raciocínio e as ações céleres do admirável mundo novo de Eddie. A fotografia muda quando o Eddie-em-dopping-mental entra em cena — um banho de luzes altas e cores estouradas num filme predominantemente azul cinzento e sombrio —, enquanto vários Eddies lotam o quadro ao retratar o protagonista multitarefa.


    Sem limites, ironicamente, é bem limitado. Sustenta-se sobre uma boa premissa — e se usássemos mais do que 20% de nosso cérebro? —, uma caraminhola que certamente já germinou na sua mente, mas deixa a desejar. É um pipocão do qual se espera pouco. Pelo meio, quando convence que pode ser mais, larga o espectador num limbo, contentando-se com um final ensolarado num filme essencialmente dark. Mesmo assim, como um shot de adrenalina, Sem limites vale a viagem — com 20% ou até mesmo de seu cérebro.

     

     


    POR: [Marcella Huche]

  • Bom

    VIPs

    | Toniko Melo

    Bons roteiristas sabem que na raiz da construção de um bom personagem está sua identidade. Com isso estabelecido, é possível brincar com sua personalidade, mudar seus hábitos e gestos. A seminal série de Gene Roddenberry, Star trek, já fazia isso com orçamento de TV nos anos 60 ao ponto do clichê: vários episódios tinham um Kirk mau ou um Spock emotivo. VIPs, de Toniko Melo, que levou a Mostra Competitiva do Festival do Rio, conta a história de um protagonista que, se tem identidade, não consegue conviver com ela.



    O roteiro de VIPs, baseado na história do farsante Marcelo do Nascimento, se desenrola com mergulhos cada vez mais fundos na personalidade do protagonista, Marcelo, interpretado por Wagner Moura. O começo do filme é truncado, soa esquisito e forçado. Com um penteado que pode ser descrito como pós Jovem Guarda e pré emo, Moura parece fora de seu jogo interpretando um adolescente, até exagerando ocasionalmente. Aqui, ele tem uma identidade imposta pela sociedade: ele é Bizarro, um introvertido e estranho rejeitado social, que só se solta na presença do pai, piloto de avião. Marcelo também quer voar.



    Em um pequeno aeroclube no interior do país, Marcelo Bizarro pouco a pouco se transforma. Abandona o Bizarro, mas logo acha outro personagem: Carrera, traficante de drogas, arrogante e um piloto autoproclamado “fodão”. Com a nova personalidade, um novo visual: madeixas loiras, um boné do Porshe Carrera (que nomeou, de improviso, seu novo “eu”) e roupas surradas. À noite, junto de sua quadrilha, vira Renato Russo no palco de um bar, liderando uma banda cover. Identidades impostas, improvisadas, escolhidas e roubadas.


    O filme segue, entregando novas máscaras – como a do recluso irmão do presidente da Gol – e mergulhando cada vez mais fundo no personagem de Marcelo, investigando quem está por trás dos disfarces. É um Prenda-me se for capaz com um pé cravado na loucura genuína, e não apenas focado nas peripécias de um falsário charmoso.



    Um elemento que perpassa todo o filme é a presença das máscaras e das perspectivas. É a flecha que atinge o alvo ou o alvo que atinge a flecha? Quem está no controle, o golpista ou o golpe? Quando a ilusão e o real se chocam, quem se salva, entre mortos e feridos? Quem é, despido de todas as máscaras, Marcelo do Nascimento?



    O terceiro ato do filme, sozinho, já vale o ingresso. O ritmo se acelera, os riscos aumentam, o cerco se fecha e Wagner Moura entrega sua melhor performance.



    VIPs é um bom exemplo de cinema nacional, mostrando que não é preciso fazer cinema com favela nem comédia romântica com globais. Wagner Moura mostra mais uma vez que é um dos maiores nomes de sua geração, especialmente nos momentos mais sutis, e a direção de Toniko Melo capta bem a ação, dosa bem o simbolismo, mesmo pesando um pouco nas imagens. É, sobretudo, uma história de personagens, mesmo que sejam vários dentro de um só.

     

     


    POR: [Gerhard Brêda]

  • Bom

    Sucker punch - Mundo surreal

    | Zack Snyder

    Garotas criminalmente insanas agredindo mortos-vivos, nazistas e samurais titânicos com metralhadoras e saias ridiculamente curtas. Admita, senhor contador de meia idade com dois filhos e uma esposa amorosa: seu adolescente interior ficou curioso. Mas fique tranquilo: Zack Snyder chegou para mostrar que você não está só. Irresistivelmente extravagante, Sucker punch mistura belas garotas, sequências de ação de tirar o fôlego e cadência de HQ para dar vida às fantasias masturbatórias de japas tecnofreaks em todo lugar. Sem ofensa.    

     

    Ambientado nos anos 50, o filme conta a história de Baby Doll (a cativante Emily Browning), internada em um manicômio por seu padrasto do mal. Determinada a escapar das consequências irreversíveis de uma lobotomia, ela cria uma realidade alternativa bizarra onde todas as garotas são ninjas imortais, as paisagens têm um filtro cinza-amarronzado e as roupas ficam muito curtas e justas. Com a ajuda de suas quatro colegas de instituição e um velho sábio (sério, esse é o nome dele),  ela chuta, esfaqueia e metralha seu caminho até a liberdade.    

     

    A exemplo de diversas outras narrativas que mexem com o universo onírico, Sucker punch dilui as fronteiras entre realidade e fantasia o tempo todo. Ou seja: é pura sequela. O roteiro é esquizofrênico, cheio de pontas soltas e parece não se importar muito com a inconveniência de fazer sentido. O que não é necessariamente ruim. As inconsistências ficam para segundo plano em meio ao espetáculo e, quando você começa a fazer perguntas demais, logo aparecem mortos-vivos com máscaras de gás para lembrar que esse papo de coerência é para os fracos.    

     

    O cuidado visual do filme começou com as belas e competentes muchachas do elenco – começando com Emily Browning. Envolvente e poderosa, a loirinha surge como uma mistura de Alice (Resident evil) e Lolita que promete agradar tanto às adolescentes sedentas por grrrrl power quanto aos papais sedentos por, bem, todo um outro tipo de poder feminino. Jenna Malone injeta vivacidade e simpatia na intrépida Rocket, enquanto Abbie Cornish cria toda uma dimensão psicológica em Sweet Pea.    

     

    Blondie (uma insossa Vanessa Hudgens) talvez seja o elo mais fraco do power quinteto, encorpado pela enjoadíssima Amber (Jamie Chung, numa discreta porém poderosa contribuição). Carla Gugino não fica atrás do núcleo de garotinhas na pele de Vera Gorski, o clichê da professora imigrante com sotaque engraçado. O elenco masculino também não fica atrás. Os velhos gorduchos com inclinações à pedofilia são alarmantemente convicentes, e Oscar Isaac impressiona no papel do asqueroso Blue Jones - o vilão perfeito em sua sebosidade maligna.    

     

    Para bem ou para mal, Sucker punch é um ode à imaginação de seu diretor. Após agradar ao estúdio com sua lucrativa fábula sobre corajosos homens sarados e seminus (vulgo 300), Zack Snyder decidiu se dar de presente um filme inteiramente autoral (e, desta vez, heterossexual). O resultado são 109 minutos de filtro visual agressivo, clássicos com arranjos porradeiros muito parecidos entre si e sequências de ação megalomaníacas. Autoindulgente até o fim, Snyder imprime seu nome em cada pequeno pedaço de filme e deixa bem claro que não está lá muito preocupado com o que os outros estão sentindo.    

     

    O único compromisso do diretor é, infelizmente, com a faixa etária.  Por motivos comerciais, o filme ganhou a censura mais baixa nos Estados Unidos – ou seja, nada de saliências, palavrão ou tripas. E isso faz bastante falta em um filme espinhoso com tanta sexualidade latente. O resultado é uma inquietante sensação de se estar assistindo a uma panela de pressão prestes a explodir em sangue, gore e o ocasional peitinho.  A tentativa de se amaciar a libido acaba saindo pela culatra, e o filme ganha uma aura esquisita de coisa proibida pedófila perturbadora e meio inapropriada (embora as garotinhas sejam todas devidamente "de maior").    

     

    Entre as armas, explosões e closes de virilhas, não há muitas dúvidas de que o público-alvo de Sucker punch seja uma geração de homens de 20 a 30 anos que cresceram em meio a joysticks, HQs e pôsteres inquietantes da Lara Croft. No entanto, com uma mente mais aberta e um pouco de desapego, muitos podem apreciar a viagem alucinante de Baby Doll. Quanto aos fãs mais irredutíveis de sutilezas e narrativas bem amarradas... Bem, estes podem passar longe do cinema. E não vão fazer muita falta, também. Sem pedir desculpas, Snyder deixa bem claro que a bola é dele e ele só vai brincar se puder ser o capitão.

     

     


    POR: [Fernanda Prates]

  • Bom

    Cópia fiel

    | Abbas Kiarostami

    Apesar de ter como cenário a cidade de Toscana e ser falado em idioma de países europeus,  Cópia fiel é sim um filme em que podemos reconhecer Abbas Kiarostami. O primeiro longa do diretor filmado fora do Irã sintetiza a dúvida a partir da certeza e, claro, surpreende, assim como seus trabalhos anteriores. Com diálogos complexos que evoluem a discussões sisudas, o filme se beneficia da metalinguagem do cinema para questionar valores. A interrogação é constante: uma cópia pode ser tão verdadeira quanto seu original? 


    As respostas a esta pergunta começam a ficar suspensas a partir do primeiro encontro entre a francesa Elle (Juliette Binoche), dona de uma galeria de arte, e o escritor inglês James Miller (William Shimell). O universo da arte ambienta as discussões, mas não restringe a história, que ao longo de todo o filme compõe uma trajetória evolutiva.  


    James chega à  Toscana para lançar seu novo livro e depois da palestra conhece Elle. O debate filosófico que se trava já no lançamento funciona como epígrafe: é falando de reprodução e originalidade que a relação entre o casal se trava como tal. São dois desconhecidos que ao tratar de relacionamentos simulam uma relação entre marido e mulher. 


    Neste flerte original que se dá por meio um falso casamento é a autenticidade que está em jogo. As conversas são fluidas e em tom de comédia, assistimos a uma brincadeira madura. As atuações dão conta de nos passar uma intimidade em cena e, ao mesmo tempo, um desconforto — mas nada parecido com os close-ups de mulheres em Shirin (2008), último filme de Kiarostami, que se consagrou como um dos maiores, se não o maior, diretores do Irã, com Close-up (1990), Através das oliveiras (1994), Gosto da cereja (1997), entre outros. 


    Em Cópia fiel, Antes do pôr do sol, de Richard Linklater, pode ecoar levemente, mas as diferenças de abordagem não o tornam referência clara. Kiarostami faz lembrar, acima de tudo, famosos ensaios sobre a obra de arte e sua reprodutibilidade técnica, com uma sutileza digna de se distanciar de um pedantismo exacerbado. 


    Mais do que um filme sobre o que é ou não autêntico, Cópia fiel faz graça sobre a relação patrimonial. Por vezes, simulam um relacionamento desgastado, com problemas de comunicação, crises e tensões. No entanto, sabemos que a simulação do casal não é real; a atração entre os dois cria uma atmosfera intimista, que sem se forçar a ser definido como amor, encontra seu respectivo semelhante: a vida real. E Kiarostami parece nos dizer que ela é fascinante.

     

    Foto: Divulgação

    POR: [Monike Mar]

  • Regular

    Invasão do mundo: Batalha de Los Angeles

    | Jonathan Liebesman

    Desenvolvimento de personagem, profundidade emocional e diálogos cativantes. PFFT. Quem precisa disso tudo quando se tem explosões, metralhadoras e um exército de alienígenas mal intencionados? Eis a premissa de Invasão do mundo: Batalha de Los Angeles. Disparando clichês na mesma proporção em que arremessa lança-granadas, o filme sobrevive até certo ponto graças ao espetáculo visual, mas se afoga em uma teia de sentimentalismo barato e masturbação militarista que parece se arrastar por dias. E, a não ser que você seja um caipira texano com um rifle no quintal, uma bandeira na varanda e uma esposa espancada amarrada no porão, dificilmente ficará entretido por mais de 40 minutos.

     

    Com um orçamento visivelmente superior à renda trienal de alguns países, Invasão do mundo traz uma historinha até interessante dentro do espectro “ataque alienígena + herói de maxilar proeminente + armas abusivamente grandes”. Na história, um pelotão de fuzileiros tenta proteger Los Angeles de uma invasão de ETs armados, perigosos e pouco dispostos a resolver as desavenças na base do papo. Bem à semelhança dos invadidos. A partir daí, o esperado: alguns morrem lutando pela pátria, surge a ocasional criancinha pra dar aquela calibrada no fator apelação e, claro, coisas explodem bastante. E bem alto. Acredite: parece mais promissor por escrito.

     

    Como de praxe, por “pelotão”, entende-se “grupo de jovens multiétnicos que parece diretamente extraído de um cartaz de ação afirmativa”. O negro engraçadinho, o negro badass, o latino desbocado, o tenente amarelão e a mocinha destemida que mostra que mulheres também são iradas — um belo sistema de cotas. O grupo politicamente correto é liderado pelo Sargento Nantz (Aaron Eckhart, o homem-cepacol), um sujeito corajoso e heroico, porém assombrado pelo passado. O pelotão é enviado para o combate às cegas e, à medida que os alienígenas conseguem desmantelar o poderio militar do país, precisam se unir e utilizar a própria força e inteligência para salvar o planeta dos aliens maus. Quer dizer, o de sempre.

     

    O problema principal não é o simples fato de que é tudo tão ostensivamente clichê. Este recurso, aliás, poderia ser um trunfo se utilizado nos momentos certos — afinal, quem não ama um chavão à lá Schwarzenneger oldschool? Mas são a abundância e a falta de pudor com a qual é utilizado que deixam tudo tão nauseante. Tudo, desde as cenas de ação aos diálogos emocionados, tem aquele ranço de coisa já vista. Assistir a cenas como um Aaron Eckhart choroso abraçando um órfão e falando que “fuzileiros nunca desistem” em pleno 2011 é como comer aquele mexido com os restos da ceia de Natal pelo sétimo dia consecutivo. Depois de certo tempo, a parada não tem mais charme, sabor ou tempero e, se você observar bem, já está até com uma cor esquisita.

     

    Para qualquer um que não mastigue tabaco e use a Fox News como principal fonte de informação, é inevitável morrer de vergonha das ordens entredentes do sargento bonachão. Da mesma maneira, é difícil sofrer com a morte daquele soldado aparvalhado que qualquer espectador mais espertinho sabia que ia morrer no primeiro voo de helicóptero. E, convenhamos, estamos todos bem cientes de que as grandes entidades de Hollywood jamais permitiram que um ônibus com criancinhas dentro explodisse.


    Contudo — e Monique Evans há de concordar — não há nada em que a tecnologia moderna não possa dar pelo menos um jeitinho. E é a tecnologia que faz com que Invasão do mundo não seja um completo desperdício de tempo. Na realidade, ele começa até muito bem, trazendo umas brincadeiras de câmera bastante promissoras. A primeira batalha contra os aliens, por exemplo, é uma sequência de ação belíssima e extremamente realista, semelhante às de filmes estilo found-footage como Cloverfield.

     

    Outro grande acerto é a forma física dos alienígenas — geralmente responsáveis por destruir toda a credibilidade de filmes de extraterrestres (vide Sinais). Em Invasão do mundo, os visitantes de outro mundo finalmente recebem um tratamento visual justo, numa mistura bem coerente de orgânico, cibernético e bastante gosmento.  Os irrepreensíveis efeitos visuais e sonoros, contudo, só funcionam naquelas que transcorrem como as primeiras 18 horas de filme.

     

    No fim das contas, o maior problema é o excesso. É explosão demais, apelação demais e pieguice demais por tempo demais. Tanto o fetichismo bélico quanto a pasmaceira sentimentaloide patriótica poderiam ter sido engolidas como um incômodo menor num grandioso espetáculo visual, mas acabam extrapolando a (alta) tolerância até dos maiores fãs do gênero. Em termos de espetáculo pirotécnico, o filme ainda vale uma conferida. Mas, em qualquer outro sentido, limita-se a algo que George Bush provavelmente usaria para se divertir sozinho nas noites em que Laura decidisse negar fogo.

     


    POR: [Fernanda Prates]

  • Bom

    Jogo de poder

    | Doug Liman

    Com a agilidade da ironia e a perspicácia do deboche, Jogo de poder escancara o esquema organizado pela Casa Branca para desbancar uma agente da CIA que, junto ao seu marido, ex-diplomata, investigava a construção de armas nucleares pelo Iraque. Utilizando arquivos reais, o filme enquadra a figura errática de George W. Bush atribuindo-lhe a culpa pelo caos instaurado nos EUA nos anos 2000, ao som da sarcástica música Clint Eastwood, do Gorillaz. Assim, desde o início, o longa evidencia sua posição anti-Bush. Em clima de espionagem por entre corredores de centros burocráticos do Estado e cidades obscuras do Oriente Médio, o longa de Doug Liman (Identidade Bourne, Sr. e Sra. Smith) relembra o traumático 11 de setembro com reportagens televisivas sobre a tragédia, a disseminação do vírus Antrax e a eminência de uma nova guerra entre norte-americanos e iraquianos.


    Em 2003, as redes de televisão e os porta-vozes do governo a todo tempo reafirmam a existência de um plano terrorista nuclear de destruição massiva, mesmo sem provas contundentes. Responsável por esta investigação, Valerie Plame (Naomi Watts), apesar de trabalhar para a máquina pública, começa a desconfiar da informação que já assola o país e o mundo. Por isso, ao mesmo tempo em que lida com documentos engavetados, Valerie também viaja para diversos países atrás de fontes-chave, colocando sua vida em risco. Ela apenas não imaginava que o próprio Estado violaria o segredo de sua verdadeira identidade.


    Uma guerra interna estoura com a publicação do artigo What I did’nt find in Africa no The New York Times, escrito por seu próprio marido, Joseph Wilson. Interpretado por um Sean Penn bastante centrado, Joseph estivera no Níger para averiguar a compra de armas nucleares pelo Iraque. Lá, observou que as informações que circulavam sobre o plano terrorista eram falsas. Com o artigo negando os boatos, o homem, como se enfrentasse Golias, toca na ferida do governo e passa a ser alvo de inquéritos. Num rápido dossiê, descobrem sua relação com a agente da CIA, que se torna “presa fácil”.


    Revelada internacionalmente por denúncia da Casa Branca — o que é ilegal —, Valerie passa a sofrer com o fim do casamento, a ameaça à própria vida e a de seus filhos. Como um breve retrato, Jogo de poder aproveita para pincelar uma vida familiar ameaçada pela vida pública, ainda mais agora distante do anonimato. Mesmo centrado no caso Wilson-Plame, O longa não deixa de expor também o lado mãe e esposa de Valerie. Afinal, temos aqui uma personagem heroína.


    A imprensa, numa posição de mediadora parcial do escândalo, também se torna válvula de escape de Joseph, que recorre a entrevistas para esclarecer os fatos, expondo ainda mais sua esposa, que se mantém arredia em relação à mídia. Contudo, não lhe resta opção durante muito tempo a não ser também explicar seu próprio lado e Scooter Libby, responsável pela violação de sua identidade, é condenado e multado, embora seja liberado com a ajuda de Bush. Com declarações oficiais, Jogo de poder deixa a sensação de dever cumprido, embora a coragem de Valerie Plame e Joseph Wilson não tenham colaborado para destruir o pretexto de Bush para a guerra no Iraque. Sabemos, então, quem ganhou o jogo.

     


    POR: [Monike Mar]

  • Bom

    Não me abandone jamais

    | Mark Romanek

    Não espere por Não me abandone jamais. Se você for tomado pela ansiedade provocada já pelos segundos iniciais, respire fundo e serene. Baixe as expectativas, abrevie os entusiasmos e encurte as curiosidades. Esse é um filme para ser desfrutado em toda a sua calma e sofrimento obscuros. Sem revolta, nem debates políticos ou questionamentos da ética científica. Cavalheirosa na maneira inglesa, a história é contada por olhares azedos e pessimistas que se revelam na poesia amarga da fotografia e da trilha sonora.

     

    Sem muito contar, Kathy (Carey Mullingan), Tommy (Andrew Garfield) e Ruth (Keira Knightley) crescem juntos, em um internato, na Inglaterra. São isolados do resto da sociedade, criados com muitas normas, pulseiras de identificação e medicação no café da manhã. Quando completam 18 anos, passam a ter contato com o mundo externo e encarar seus destinos programados. Um triângulo amoroso amarra a trama, ambientada em um passado recente ficcional, que enxerga avanços na ciência da clonagem, que levam a expectativa de vida humana a 100 anos.

     

    Modelado pela direção de Mark Romanek (Retratos de uma obsessão), o roteiro é inspirado no romance do japonês radicado na Inglaterra Kazuo Ishiguro (Vestígios do dia) – e tal como o autor é um misto da quietude oriental com a elegância britânica. E é triste. Melancólico por tratar da brevidade da vida e magoado ao falar de encolhimento amoroso. É uma produção extremamente sensível, adornada por uma riqueza de detalhes que vão aos poucos mostrando os reais objetivos daquelas existências. São cacarecos encaixotados que chegam do mundo exterior, simulações de situações do dia-a-dia das pessoas normais e hábitos saudáveis quem fazem crescer fortes os ratinhos de laboratório.

     

    A nova professora (Sally Hawkins), que não corresponde ao perfil da escola, cospe meias verdades aos alunos e, quando pensamos que um sentimento de revolta vai clarear, vai embora e com ela qualquer possibilidade de desobediência. O pessimismo passivo é a maior crueldade da narrativa. E é muito bem expresso pelos atores principais. Carey experiencia no tom certo a amargura provocada por aquela vida, vencendo suas feições naturais de coitadinha. Garfield vive um algo perturbado muito diferente das qualidades de um super-herói Aranha. E Keira ensaia um vazio recalcado de uma existência projetada.

     

    A fotografia ganha e rapidamente perde suas cores, imprimindo temperamento à imagem, que oscila com as nuances dos personagens. A trilha, além de dar nome à fita com uma das canções, rege a composição dramática da trama. Não me abandone jamais foi ignorado pelo Oscar, mas venceu o prêmio de Melhor Atriz (Carey), dentre 6 indicações ao British Independent Film Awards e concorreu como Melhor Fotografia no Independent Spirit Award. É uma bonita fábula que entorta o gênero da ficção científica para o campo espiritual, além da matéria humana.

     

    Foto: Divulgação

    POR: [Camila Lamha]

  • Regular

    Restrepo

    | Tim Hetherington e Sebastian Junger

    O combate ao terrorismo da Doutrina Bush deu nova face à guerra retratada pelo cinema contemporâneo. No lugar de romances ou dramas pessoais em meio ao caos do bombardeio dos world wars movies, eclode uma estética realista, documental, que mira o instante: o tiro certeiro, a fuga ou a ameaça do inimigo. O interesse está na ação e mesmo que surjam tentativas de humanizar a caça instaurada no Oriente Médio, o contexto pós-11 de setembro fica suspenso. Nada de debates. O embate é visto de dentro e, por isso, centralizado na saída e na volta para casa de soldados norte-americanos. Ares, só ares, de um novo Vietnã.



    É exatamente assim que Restrepo, o documentário filmado pelos diretores Tim Hetherington e Sebastian Junger, justifica-se. O filme acompanha a missão do segundo pelotão da Companhia de Batalha dos EUA durante a ocupação, em 2007, no Vale Korengal. O local é considerado o ponto mais perigoso do Afeganistão, onde mais de 50 soldados “morreram lutando” — enfatizam os créditos finais —, até a retirada das tropas em 2010. Nomeiam o posto de Restrepo em homenagem ao médico do pelotão, morto em um ataque à tropa norte-americana. 



    Menos impactante que Zona verde e Guerra ao terror, por exemplo, Restrepo aparentemente tem mais álibi para chocar com a realidade do que a ficção. Mas não é bem isso que acontece e a contradição é compreensível. O documentário não segue uma cronologia ou sequer tem uma história para contar. A falta de roteiro atrapalha e gera um longa de cenas acidentais, entrecortadas por entrevistas em estúdio com meia dúzia de soldados. Distante da densa vegetação e do relevo montanhoso afegão, rostos em close se dividem entre a recordação e o estarrecimento.



    Com um sentimentalismo impelido, o testemunho da morte do melhor soldado do grupo é o ponto-alto do filme. Aos que permaneceram, o medo de não sobreviver. E uma interrogação paira por ali: “o que exatamente estamos fazendo aqui?”. Não surpreende um dos jovens soldados contar que, por conta de sua criação hippie, não tivera brinquedos violentos na infância. O rapaz, de olhares fugidios, parece buscar uma razão para a farda e não encontra.



    Para afiançar ainda mais o discurso de que são seres humanos contra monstros do Talibã, Restrepo insinua do início aos extras uma relação familiar entre os militares. A seriedade por vezes dá lugar a brincadeiras bobas, que, de qualquer forma, não amenizam o clima de tensão. O documentário só é curioso quando põe soldados frente a frente aos anciãos do Korengal, que, ao relembrarem a figura de Bin Laden, evocam o enigma do terreno ocupado pelos EUA.



    E, embora o dia a dia de conflitos dos soldados não chame tanta atenção como se espera, o longa consegue se resguardar da espantosa presença dos realizadores do documentário. Com a função de registrar os acontecimentos, a coragem prevalece como o elemento mais admirável de Restrepo. Quanto à batalha enquadrada pela câmera na mão, é estranho encarar, mas é um fato: a realidade anda perdendo para a ficção. Pois se o objetivo é demonstrar a idealizada luta do bem contra o mal, Restrepo é, portanto, uma grande falha como artifício de legitimação da guerra.

     

     


    POR: [Monike Mar]

  • Fraco

    Em um mundo melhor

    | Susanne Bier

    O extremado Em um mundo melhor se inaugura nos cinemas brasileiros, nesta sexta (11), farto de moralismos que tentam investigar os motivos da violência e relacionar situações dissemelhantes através de lacunas nos ciclos da vida. A produção abocanhou o Globo de Ouro e o Oscar 2011 de Melhor Filme Estrangeiro, mas é enfadonho e professoral ao supor que o males que assolam a amargurada classe média europeia se entrelacem com as tragédias do continente africano.

     

    O artifício de cruzar histórias distintas para estudar o preconceito e as tensões sociais já foi largamente gasto pela trilogia de Iñárritu e pelo ganhador da estatueta dourada de 2006 de Melhor Filme, Crash – no limite. Aparentemente, a Academia não está saciada o suficiente de dramas que buscam tirar o véu das doenças enraizadas e desentupir as mágoas europeias. A Dinamarca de Em um mundo melhor, retratada pela diretora Susanne Bier (Depois do casamento), é um país de gente perturbada e agressiva. Salvo pelo médico paz e amor (no caso, sueco) que passa uma temporada cuidando de doentes em um país da África.

     

    Ora, estamos mal acostumados a produções estrangeiras vitoriosas de alto nível dramático e comparar o sublime Segredos dos seus olhos, por exemplo, com o filme de Susanne é concorrência mais do que desigual, é impróprio. A narrativa não chega a ser lenta, mas a fita não passa nem um terço da complexidade pretendida ao elencar a riqueza do velho continente e o que de mais triste acontece no Terceiro Mundo. De macio, as paisagens, a fotografia e a trilha, mas de áspero, o tom quase conservador que condena até mesmo a internet pelo que acontece de ruim.

     

    O argumento é uma rede rasa de choques. Anton é um médico sem fronteiras que trabalha em um campo de refugiados na África. Divide seu tempo entre os dias que passa trabalhando e outros em casa, numa cidade pequena na Dinamarca. Logo após a sua separação, um de seus dois filhos se torna amigo de um menino órfão de mãe, que se mostra descontrolado ao espancar um rapaz da escola que pratica bullying contra os menores. A situação foge do controle quando os garotos decidem se vingar de um homem que bate em Anton por motivo algum.

     

    A vontade ideológica de estabelecer o inverso de uma realidade cor-de-rosa é o grande pecado de Em um mundo melhor. Retrata a solidão, a intolerância e o desgaste das relações, mas não convence no discurso de “vamos tratar a origem da questão” e muito menos quando propõe um final esperançoso.

     


    POR: [Camila Lamha]

  • Bom

    Rango

    | Gore Verbinski

    A velha suspeita de que as animações para cinema não são feitas para o público infantil só dilata. Em Rango grita. Repleto de referências ao western e de diálogos gaiatos, o faroeste protagonizado por um lagarto não é café com leite. Aliás, o réptil escamado só escapa de assustar os miúdos por conta da sua feiura atenuada por uma camisa vermelho-floral – caso o contrário haveria choro de criança por toda a sessão. Centrado na questão pós-moderna da crise de identidade do animal, o filme, que estreia na quarta (9), desbrava maravilhosamente o oeste americano, cantando uma saga de quase morte repleta de figuras sertanejas.

     

     O diretor Gore Verbinski (trilogia Piratas do Caribes) debuta no universo sem volta da animação, recheando Rango de motivos latinos, como na sua produção A mexicana, e carrega consigo seu parceiro Johnny Depp, na voz do personagem principal. Com uma qualidade visual espantosa, toda a parte técnica é impecável. Apesar do argumento não ser muito forte, o filme ganha vigor pela riqueza das metáforas (que não chateiam), a excentricidade das formas e o toque amargo que impregna a vida daqueles bichos. O próprio Durango Kid camaleônico tem personalidade teatral perturbada e origem de animal doméstico.

     

     Rango é um solitário lagarto de estimação que passa o tempo a produzir espetáculos de teatro com elementos do seu próprio aquário. Seu melhor amigo é um peixe de borracha e sua namorada, um resto de manequim sem cabeça da boneca Barbie. Em uma viagem pela estrada dos EUA, seus donos atropelam um tatu e deixam se perder em cacos, pelo deserto, a moradia e o próprio camaleão. Em uma jornada perigosa em busca de água, conhece uma lagarta caipira chamada Feijão e descobre a cidade interiorana Poeira. Lá, usa dos seus artifícios de interpretação para se tornar o xerife do vilarejo, que está passando por uma terrível seca e desconhece seus verdadeiros inimigos. Toda essa aventura é bem cantada por um quarteto de corujas mariachis que preveem um destino fatal para o herói atrapalhado, mas corajoso.

     

     

    O roteiro do filme não é muito criativo. Cada passo do desenvolvimento do faroeste em desenho pode ser previsto, mas, quando se trata de animação, outros elementos provam mérito. Os traços dos personagens são fabulosos. A ratinha meio deslocada (Abigail Breslin) e o prefeito tartaruga (Ned Beatty) são de uma genialidade quase obscena, além de todos os outros matutos asquerosos locais. A estética de Rango é de uma ironia que não procura retratar o belo, mas o ordinário quase barroco.

     

    As animações vêm atingindo um patamar que já não é mais da ordem da pura fantasia há algum tempo. O reino mágico ficou para traz e agora é tempo de provocação visual, calcada em alta qualidade técnica. Rango é uma homenagem cinematográfica inventiva ao gênero do faroeste e faz tributo de John Ford a Clint Eastwood – aludido pelo “espírito do oeste”. Certeiro e enérgico. E tudo isso com uma bala só.

     


    POR: [Camila Lamha]

  • MuitoRuim

    Vovó... zona 3

    | John Whitesell

    O que tem dois polegares, um nariz e não tem a mínima graça? Martin Lawrence. Mas, tal qual uma aberração de filme B que simplesmente se recusa a morrer, ele está de volta. E mais maquiavélico do que nunca. Entulhado de clichês, estereótipos raciais e piadas anacrônicas que fariam os roteiristas de Zorra total se encolherem de vergonha, Vovó...Zona 3 consegue o admirável feito de piorar ainda mais a premissa de um agente travestido de velha gorda.

     

    O que poderia ser pior que um mau ator estufado de enchimento e humor de baixa qualidade? Dois maus atores estufados de enchimento e humor de baixa qualidade. No terceiro round da agressão mental que é esta sequência, o agente Malcolm Turner (Martin Lawrence, sem comentários) e seu enteado, o “adolescente” de 30 anos Trent (o deprimente Brandon T Jackson), infiltram-se em uma escola de música para garotas em busca de um pendrive. Enquanto os dois são procurados por um vilão russo e seus dois capangas idiotas, Trent começa a compreender a importância da família e, oh que original, descobre o amor.

     

    O desenrolar deste cenário é bem previsível. Homens se passando por mulheres + escola de garotas = humor sexual da pior estirpe.  O filme não só copia uma fórmula repetida desde os primórdios, como faz uma versão requentada e borrachuda, como uma porção dormida de batatas do McDonald’s. Em vários momentos, o longa lembra uma versão menos sofisticada de As branquelas – que pelo menos se salvava nas atuações. Com direito aos clássicos momentos de constrangimento no provador feminino e de confusão na hora de urinar em pé. Pura classe.

     

    Porém, se há algo que este longa ensina, é que tudo pode piorar. Quando você acha que está se acostumando a todo o ridículo da situação, entram os embaraçosos números musicais. Haley (Jessica Lucas, 30 anos mais velha do que o papel), par romântico de Trent, consegue soar ainda mais enjoada cantando do que falando. A baladinha principal do filme – um excruciante dueto – faz a parceria entre Latino e Daddy Kall parecer o pináculo da sofisticação. 

     

    No mais, é tudo uma sucessão de clichês que vão desde os chavões usados por todos os negros de Hollywood à cena de libertação musical no almoço, passando pela vilã com transtornos alimentares e o pseudogaranhão que no fundo no fundo adora longos passeios de mãos dadas no parque e curtir o pôr-do-sol no Arpoador. Isso tudo conduzido de maneira errática por um elenco que vai de irrelevante para baixo.

     

    O maior problema é justamente o fato de que não há um problema maior. É tudo igualmente ruim. As piadas não são sutis ou sofisticadas hora nenhuma; são sempre os mesmos estereótipos raciais e sexuais abordados de maneira boçal. Em vez de acontecer naturalmente, o humor quase ofensivo nos é enfiado goela abaixo com uma escova de privada. No quesito humor, Vovó...Zona 3 é um naufrágio sem sobreviventes - com a ressalva de que navios afundados ao menos deixam destroços.

     

     


    POR: [Fernanda Prates]

  • Bom

    Bruna Surfistinha

    | Marcus Baldini

    Loira, 20 e poucos anos e disposta a fazer tudo que você quiser. O strip desengonçado da abertura é o cartão de visitas da menina com cara de surfistinha que não tem pudores. Acha o irmão postiço e o mauricinho da escola mais podres do que qualquer bordel de subúrbio. Não procura amizades nem amores, mas a independência que nenhuma garota da Zona sul conquista com diploma. Trata-se do poder sobre o próprio corpo desgovernado por qualquer moral. Bruna Surfistinha aborda a jornada da heroína torta , meio gata borralheira, que não é nenhuma novidade no cinema, mas que volta e meia fascina pela coragem.

     

     

    Raquel (verdadeiro nome de Bruna) decide se tornar prostitua sem muitos dramas. A sua individualidade forte e seus modos fora das regras fazem do longa um filme de personagem. A construção da Bruna, interpretada bravamente por Deborah Secco, é menos Bonequinha de luxo e mais Christiane F. O tom de fábula vem acompanhado do trash, mas sem baixaria. A abordagem do sexo, aliás, é curiosa. Corpos masculinos de todos os formatos parecem visitar a cama da prostituta. Feitios grotescos e engraçados ora provocam asco, ora provocam risos. Das figuras caricatas, destaque para o senhor que paga apenas pra mudar os móveis do quarto de lugar e o “cliente-polvilho”, que se enche de talco antes de um programa.

     

     

    O filme é separado em três universos que amadurecem a trama e a personagem. Primeiro situa o ambiente familiar de Raquel, que aos 17 anos decide fugir de casa. Depois ambienta o privê de médio porte que funciona como escola técnica para a vida de prostituta . Por fim, mostra a carreira solo da garota de programa e blogueira celebridade que vai do céu ao inferno rapidamente. Marcus Baldini faz um ótimo trabalho na direção. A fotografia e a montagem são bem elaboradas e a trilha sonora agrada com músicas dos anos 80 e 90 – ponto negativo apenas para o constrangedor funk tocado na cena do carro.

     

     

    Nada novo em termos de desenvolvimento do roteiro, no entanto. A história que teve acessos e que depois vendeu livros é mostrada de maneira esperada e linear. Mas como o filme não é documental e nem fiel à obra O doce veneno do escorpião, a trama poderia ser mais criativa. Elementos da internet, por exemplo, poderiam ter sido mais aproveitados, já que foi o lugar onde Bruna ganhou fama e a abóbora virou carruagem (meio troncha, é verdade). Todo o elenco está muito bem, com destaque para a cafetina vivida por Drica Moraes.

     

     

    O grande mérito de Bruna Surfistinha é a quebra dos preconceitos afinal. E de preconceitos que não necessariamente se referem ao assunto prostituição. É para quem desconfia de mais um papel sensual de Deborah Secco, para quem desconfia de um argumento retirado de um best-seller escrito por uma ex-prostituta e para quem desconfia de um cinema brasileiro mais comercial. Para tanto receio, só mesmo criando coragem. E pode confiar.

     

    POR: [Camila Lamha]

  • Fraco

    Never say never

    | Jon Chu

    A não ser que você tenha passado os últimos anos isolado em um iglu sem acesso a qualquer tipo de tecnologia, com certeza conhece Justin Bieber. Acumulando em tempo recorde alguns milhões de fãs, haters e ocasionais stalkers, a voz pegajosa por trás do hit-chiclete Baby é inegavelmente um fenômeno pop. Mas será que uma ascensão meteórica ao topo da indústria fonográfica é suficiente para sustentar um documentário inteiro sobre a vida de um garoto de 16 anos? A resposta é: não. Embora Never say never funcione como show, falha como um longa-metragem, arrastando-se por 90 minutos que poderiam  facilmente se transformar em 45. E embora prometa arrebatar ainda mais os já sofridos corações pré-púberes de suas fãs psicopatas, definitivamente não vai trazer novos adeptos à seita dos beliebers.


    Pelo lado bom, o filme atinge o público alvo: menininhas em fase de ebulição hormonal. A edição dos shows é minuciosa nesse sentido, cheia de tomadas piroténicas espetaculares que dão lugar a closes no nanogalã, criando uma experiência de show vívida, envolvente e apaixonante para as fãs. O talentosíssimo Bieber, um incontestável showman, abusa das olhadelas galanteadoras e jogadinhas de cabelo em slow motion, guiando os espectadores pelos números musicais com a competência de um profissional em miniatura. O 3D, que em muitos filmes acaba sendo uma firula que nada faz além de dar dor de cabeça, é utilizado de maneira inteligente. A produção, justa e bem encadeada, impede que a experiência seja muito ofensiva. São os inúmeros acertos técnicos que fazem com que Never say never seja, no mínimo, assistível.

     

    Mas assim como num bolo de casamento recheado de figos e ameixas secas, o invólucro suntuoso esconde um conteúdo indigesto. A tentativa de criar algum tipo de comoção em cima da vida de Bieber beira o cômico. Simplesmente por ser filho de uma mãe solteira e ter recebido alguns (pouquíssimos) “nãos” de gravadoras, o protagonista involuntário do despertar sexual de garotinhas ao redor do mundo é tratado como um pequeno mártir. A culpa do exagero, contudo, não é dele. Gentil e surpreendentemente reservado, Bieber é até gente boa. Mas tem a personalidade de um rabanete. Bom garoto por excelência, nunca foi pego em festas fumando “sálvia” (aham, Miley, senta lá) ou trancando prostitutas aterrorizadas em banheiros de hotéis. Na realidade, o auge de sua rebeldia consistiu em comer um donut que havia abandonado em uma caixa no lixo. Tudo muito lindo para o menino de ouro e sua adorável família, mas não é exatamente material de Oscar.

     

    A doutrinação pró-Bieber é quase um bullying emocional. Na falta de coisa mais cinematográfica para inventar, a produção faz uma inflamação de garganta ganhar as proporções um câncer inoperável. As cordas vocais inchadas do menino, na voz lúgubre do médico, parecem ameaçar o próprio destino da raça humana. Os sacrifícios do popstar para manter sua voz angelical em meio à  oh tão tenebrosa inflamação, embalados por uma trilha sonora digna de Hitchcock, mais parecem o suplício de um órfão da AIDS fugindo de mercenários armados com machetes. Nos relatos, sempre emocionados, reverentes e elogiosos, Justin Bieber ganha contornos messiânicos, como um salvador enviado à Terra para nos salvar com sua disciplina, amor ao próprio e cabelos perfeitamente lisos.

     

    Até aí, fora um virar de olhos ou outro, nada chega a doer. O que dói mesmo são as fãs - e seus altíssimos decibéis. Incontáveis, incansáveis e invariavelmente histéricas, ela surgem na tela assim como flanelinhas, de todos os cantos, quando menos se espera. Do nada, lá estão, no auge de seus aparelhos dentários e tentativas frustradas de cobrir a acne com pó compacto, unidas em um denominador comum: a adoração ensurdecedora. A infinidade de gritinhos e declarações de amor chorosas em tons de voz que só os cachorros escutam é provavelmente o que vai fazer aquele pai menos voluntarioso a sair para ir ao banheiro e nunca mais voltar.  Se por um lado é quase comovente ver esse tipo de amor incondicional, por outro é  quase inquietante ver garotinhas de seis anos fazendo planos matrimoniais. E pior ainda ver mulheres de 25 fazendo o mesmo.

     

    Mas, vergonha alheia à parte, foi visando a estas meninas histriônicas e ocasionalmente embaraçosas que o filme foi feito. E são elas que devem fazer de Never say never um sucesso de bilheteria. Para os pais, é meio como uma queimadura de terceiro grau: se você consegue superar os primeiros 15 minutos de gritos histéricos, suas terminações nervosas estarão tão destruídas que o resto da experiência é quase indolor.  No mais, resta a tranquilidade de ver que o príncipe encantado de suas filhas respeita a mamãe, reza antes de dormir e come os legumes direitinho.  Podia ser bem pior.

    POR: [Fernanda Prates]

  • Bom

    Poesia

    | Lee Chang-dong

    Uma história trágica se torna inspiração para a criação poética de Lee Chang-Dong (Sol secreto, Oasis), neste filme que testemunha a dor em duas circunstâncias na vida de Mija, uma sexagenária com poucas condições de vida: o desgosto provocado pelo filho envolvido na morte de uma colega de classe; e o expoente artístico, que surge a partir de um interesse em olhar o mundo com a sensibilidade necessária para se fazer poesia. Com atuações comedidas, um tanto típicas da nova safra sul coreana, o filme toca em pontos de conflito interior da personagem. O enredo de Chang-Dong lembra o longa mais recente do compatriota Bong Joon-ho, Mother – a busca pela verdade, que também centraliza a história de uma senhora mãe solteira com um filho envolvido num assassinato.

     

    Mija vive em um ambiente de perturbações constantes e, mesmo assim, as enfrenta com serenidade. Por isso, o tom do filme por vezes se torna irregular. Em alguns momentos, as cenas provocam riso, estranhamento, comoção ou simplesmente indiferença, já que o diretor segue uma linha muito mais próxima da contemplação, do que da ação em si. A mulher vive apenas com o filho, apático, mal-educado. E o descontentamento da mãe com o comportamento do garoto prevê a trama desde o início: junto a outros amigos, ele violenta uma jovem do colégio até a morte e joga seu corpo no rio que corta a cidade. Os parentes da menina exigem uma indenização para os pais dos garotos e Mija é a única que não pode contribuir com sua parte. Para reverter essa situação, tenta superar as dificuldades da sua idade e passa a trabalhar na casa de um velho aposentado, com quem acaba tendo, forçosamente, uma esdrúxula relação sexual.

     

    Em paralelo às desgraças, Mija faz um curso de poesia. Poderia se pensar que nas aulas ela extravasaria todos os sentimentos que lhe afligem. Contudo, acontece exatamente o contrário. Mija tem uma enorme dificuldade em se expressar em versos e, durante quase todo o filme, ela tenta disfarçar sua função de apenas ouvinte. Mas as tardes no curso são agradáveis, na companhia de quase-poetas. Diante da habilidade dos outros, Mija passa a se dedicar mais aos exercícios propostos. Seu professor lhe sugere que atente mais para a beleza das coisas, dos acontecimentos, que enxergue além da casca e da cor de uma maçã por exemplo.

     

    Mas é olhando para a própria vida, que a personagem consegue a inspiração para escrever o primeiro poema. Antes de tudo, busca vivenciar com intensidade, experimentar, e evolui para um entusiasmo criador que permite um nascente estado da arte. Essa experiência se resume a visitar a ponte de onde a jovem foi lançada, conhecer sua família, ir atrás de pistas que desvendem sua morada no mundo. Assim, elabora versos comoventes recitados no último dia de aula em celebração à vida, como uma reza sobre a existência. Chang-Dong parece nos dar uma fórmula para os problemas: a redenção aos encantos que sobrevivem na dor e sugerir que poesia tem sobrenome melancolia.

     


    POR: [Monike Mar]

  • Desconhecido

    | Jaume Collet-Serra

    Seria de se imaginar que, um ano depois de ser cúmplice da imbecilidade que é Fúria de Titãs, Liam Neeson teria parado para avaliar os erros de seus caminhos. Quem sabe tirar um tempinho, aprender a pescar, adotar a cabala, fazer umas aulinhas de dança de salão... Enfim, espairecer um pouco. Qualquer coisa teria sido mais produtiva e digna do que protagonizar o dolorosamente banal Desconhecido. Rocambolesco, entediante e mais clichê que Eduardo e Mônica em rodas de violão, o filme já seria considerado fraco se fosse inédito, mas é levado a toda uma nova dimensão do ridículo ao mimetizar a mesma fórmula que vemos há 20 anos em thrillers de ação.

     

    Os problemas começam na sinopse. Martin Harris (Liam Neeson), um renomado cientista, viaja para um congresso em Berlim com sua adorável esposa, Liz (January Jones, tão dinâmica quanto um bloco de concreto). Lá, ele sofre um terrível acidente de carro, é salvo do afogamento pela motorista do táxi em que estava (Diane Kruger, desperdiçada) e passa quatro dias em coma no hospital. Quando acorda e retorna ao hotel, vê que alguém tomou seu lugar e sequer sua outrora amorosa esposa parece reconhecê-lo. Perdido, confuso e sem documentos em uma cidade hostil, ele parte em busca da verdade sobre sua própria identidade. Aos poucos, ele percebe que há uma conspiração, que está sendo caçado por um stalker estranho, que há todo um esquema por trás disso e Zzzzzz...

     

    A performance de Liam Neeson faz o espectador começar a pensar se realmente viu A Lista de Schindler ou se aquilo não passou de uma alucinação. Como um belo e distante oásis num deserto de performances completamente dispensáveis. Se em Busca implacável Neeson chega a convencer como herói de ação, em Desconhecido não passa de um paspalho de sobretudo perdido na neve. E, ao contrário de suas duas belíssimas coadjuvantes, não tem mais sequer a beleza da juventude para justificar seu cachê (que deve ter sido milionário). Talvez realmente seja a hora de Neeson reconsiderar a carreira. Antes que ele acabe em Dancing with the stars, o que parece apenas uma próxima etapa inevitável em seu acelerado processo de involução.

     

    A trama, que nos bons momentos é apenas macarrônica, parece ter sido improvisada por um garoto de 12 anos viciado em filmes de ação dos anos 90. É uma maçaroca de explosões, perseguições de carro e batalhas mano a mano com facas que provavelmente levariam Stallone, Seagal e Schwarzenegger a pensarem “oh, céus, criamos um monstro”! Quando você pensa que está começando a entender mais ou menos o que está acontecendo, lá vem outra reviravolta mirabolante para garantir que seus olhos estejam constantemente revirados. Talvez a ideia seja essa, mesmo. Afinal, com a enrolação correta, é capaz do espectador ficar desorientado demais para sequer se dar conta da infinidade de baboseiras amontoadas que está vendo.

     

    O visual do filme é tão tenebroso quanto a história. Aliás, está para vir algum filme que retrate Berlim como um lugar remotamente agradável porque, convenhamos, sua reputação não tem sido exatamente ajudada por Hollywood. A ideia é criar uma aura de suspense, mas a atmosfera cinzenta e gelada é simplesmente deprimente e meio sonolenta. Há ainda algumas tentativas de câmeras interessantes (como quando Neeson acorda do coma), mas são apenas alguns breves minutos de alívio em meio ao bolo de clichês de ação.

     

    A falta de inovação, na realidade, é um problema menor em meio à total ausência de sentido, coerência e relevância. Há espaço para todo tipo de filme no mundo, sejam eles artísticos, complexos, sagazes, divertidos, empolgantes ou até involuntariamente cômicos. Mas Desconhecido, além de não possuir nenhuma dessas características, ainda consegue ser chato, burro e estranhamente deprimente. Considerando-se que há serial killers, ditadores e trios elétricos no mundo, é difícil falar que ninguém vai gostar do filme. Mas, de maneira geral, é melhor que ele honre o título e permaneça assim mesmo: desconhecido.

     


    POR: [Fernanda Prates]

  • Regular

    Besouro Verde

    | Michel Gondry

    O Besouro Verde é um herói esquisito. Ao contrário dos medalhões que agora são o xodó de Hollywood, como Lanterna Verde, Superman e Batman, esse vigilante tem sua origem no rádio e, depois, tomou de assalto as páginas dos gibis. A adaptação para os cinemas, dirigida por Michel Gondry, segue de perto o e estilo da série de TV que catapultou o Besouro para a fama, mas com um roteiro manjado, atuações instáveis e escolhas bizarras de elenco, o filme acaba se sustentando na linha da mediocridade.


    No papel de Britt Reid, o playboy e herdeiro de um importante jornal de Los Angeles, está um estranhamente magro Seth Rogen. E aqui já começam os problemas do elenco: por que Rogen está neste papel? Tudo bem, ele é o roteirista, mas na série original, Van Williams usava o manto do Besouro Verde e era um ator sério,  em forma. O ator está surpreendentemente atlético para seu habitual formato gorducho, mas seu delivery ainda é cômico, sua cara ainda é bobalhona. Se a intenção era fazer uma comédia, que deixassem Rogen gorducho: a inaptidão dele em Segurando as pontas era grande parte da graça nas cenas de ação. Com essa manobra, o filme acaba sentando em cima do muro: arranca algumas risadas, mas não é uma comédia, nem um filme sério de ação.



    Ao seu lado, o fiel escudeiro, Kato, vivido aqui por Jay Chou, que tem a difícil missão de preencher o papel de Bruce Lee, o Kato da série de TV. Ainda que a performance de Chou seja meio dura, ele entrega alguns dos melhores filmes nas bem pensadas cenas de ação (provavelmente os únicos momentos da gravação nos quais Gondry pisou no estúdio, desconsiderando as vezes que ele passou para pegar os cheques), que utilizam efeitos visuais, distorções temporais e espaciais em uma espécie de “Kato-vision”. A amizade entre o carateca e Reid é meio forçada de vez em quando, mas, no geral, o relacionamento da dupla dinâmica passa por todos os clichês: se conhecem, passam a gostar um do outro, brigam no meio do caminho, se reconciliam. Nada original.



    O vilão, Benjamin Chudnofsky, é quase incompreensível. O papel foi entregue ao brilhante Christoph Waltz, que, sem nada para se apoiar, acaba virando uma caricatura mal desenhada de Hans Landa, de Bastardos inglórios. O vilão roda com duas piadas recorrentes, uma envolvendo a pronúncia de seu nome, outra envolvendo sua habilidade de instilar medo em seus adversários. Nenhuma das duas é particularmente engraçada e a pistola de dois canos que ele usa é provavelmente uma das armas mais idiotas já inventadas por Hollywood.



    A trama é manjada: Reid é um irresponsável que tem problemas com o pai, herda todo o império e vai, passo a passo, se tornando um homem maduro. É a história mais clichê de crescimento possível e a mudança é tão súbita que se torna inconsistente. Em um dia, Britt é um beberrão que arremessa uma TV pela janela em uma festa. Alguns dias depois, está lutando pelo jornalismo-verdade, arriscando a própria vida em prol de uma história, usando uma escuta e lutando para publicar tudo a tempo. Não cola.


    O filme tem três pontas muito peculiares também. Um que dá as caras é o mestre Bruce Lee, que aparece de relance em uma das ilustrações de Kato, em uma simpática homenagem. Outro que faz uma pequena participação é James Franco, provavelmente o melhor personagem do filme, como o traficante de meta-anfetaminas Crystal Clear. Por fim, um bizarro e transtornado Edward Furlong enterra de vez as memórias do moleque "rebelde" que importunava Arnold Schwazenegger ao som de Guns'n'Roses anos atrás em Exterminador do futuro II.


    Um herói B aliado a um roteiro clichê, mesmo que costeado pelo talento de Gondry e Waltz, está fadado ao fracasso. Rogen não conseguiu encaixar seu tom de comédia na ação, que acaba sendo um dos poucos pilares a sustentar o filme na média. Mediano, medíocre, mais ou menos. Besouro verde é mais um zumbido incômodo do que uma picada, mas isso não é necessariamente uma coisa boa.

    POR: [Gerhard Brêda]

  • Excelente

    127 horas

    | Danny Boyle

    Esqueçam Rambo, Tony Montana ou Han Solo. O cara mais macho da história do cinema é Aaron Ralston, protagonista  do angustiante 127 horas. Denso, emocionante e com uma fotografia de tirar o fôlego, o filme baseado em fatos reais sobre o explorador de canyons preso pelo braço embaixo de uma pedra é bem mais empolgante do que pode parecer. Graças à criatividade de Danny Boyle, aliada à atuação impecável de James Franco, a luta de Ralston pela sobrevivência ganha nuances e detalhes que levam a obra para muito além de um filme em que um cara tem que amputar o próprio braço. 


    Primeiro, tiremos o elefante da sala. Sim, Aaron Ralston é forçado a amputar o próprio braço com uma mini faquinha sem corte made in China. Sim, a cena é gráfica, sangrenta, angustiante e tem todo tipo de “crocks” e “plshhs” esquisitos. E, sim, é provável que você sinta o impulso instantâneo de colocar cabeça ao colo e tampar os ouvidos. Mas são apenas breves minutos que, para os mais sensíveis, podem ser ignorados sem prejudicar a experiência do filme. E, para os mais sádicos, são curiosos minutos de angústia que dão um nó no estômago de fazer O albergue parecer uma apresentação acústica do Luan Santana.


    O grande problema da fatídica cena, na verdade, é o risco de ofuscar a história de superação de Ralston, conduzida com destreza por Danny Boyle e James Franco. 127 horas é a história de um cara comum, um jovem engenheiro/aventureiro/sem-noção que se vê confrontado com uma situação tão desagradável que um roteirista provavelmente não teria conseguido inventar. Mas, com inteligência, racionalidade e um senhor par de colhões, ele consegue utilizar seus conhecimentos mecânicos para bolar todo tipo de engenhoca à la MacGyver (que perdem um pouco a graça já que sabemos que não vão funcionar) e manter alguma sanidade mental durante as piores 127 horas que uma pessoa poderia passar. Salvo o apocalipse. Ou um levante de mortos-vivos, talvez.


    É impossível não admirar a sobriedade e sangue frio de Ralston. Embora seu complexo de super-homem tenha sido o principal responsável pela situação desagradável, ele mesmo reconhece, em comoventes momentos de autocrítica, sua parcela de “culpa”. É esse dilema existencial, cheio de arrependimentos e reflexões, que dá ao filme uma dimensão psicológica mais profunda que o “F*&¨%, tô preso num buraco”. Isso e os delírios envolvendo bonecos infláveis do Scooby doo, claro.  


    Em vez de simplesmente se encolher em posição fetal e chorar até sentir o gélido abraço da morte, Ralston raciona água, grava filmes engraçados e cria maneiras de aproveitar ao máximo as poucas regalias – como alguns minutinhos de sol e as visitas matinais de um simpático corvo. Não é uma questão de instinto puro; trata-se de um aguçado senso de sobrevivência aliado a muita inteligência e uma força de vontade fora do comum. Mais que um engraçadinho que inventou de brincar em canyons, Aaron surge como um personagem esperto, perseverante e heróico. Um pouco demente, é verdade. Mas heróico.


    Toda a riqueza do protagonista talvez nunca tivesse atingido todo seu potencial sem a atuação sensível e aparentemente sem esforço que rendeu a James Franco a merecida indicação ao Oscar 2011. Franco flutua entre os momentos de absoluta coragem e de mais profundo pânico como um veterano, desenvolvendo o martírio do mochileiro com graça, sobriedade e, surpreendentemente, uma boa dose de bom humor. A performance é tão verossímil e fiel que não seria de se espantar que Franco tivesse feito laboratório dentro de uma gigantesca fenda na terra por algumas semanas.


    Do mesmo modo, a atuação não teria sido nada não fosse a direção dinâmica de Danny Boyle. Aqui, o diretor retoma alguns de seus traços anteriores ao premiado Quem quer ser um milionário? — como as inconfundíveis tomadas maníacas do subestimado Extermínio (must-see para fãs de filmes de zumbis). Os ângulos bizarros, entremeados por planos amplos e megalomaníacos, retornam em 127 horas, mas, desta vez, com sobriedade na medida para enaltecer o relato sem ficcionalizá-lo demais. As perspectivas surgem de onde menos esperamos, seja de dentro da garrafa de água quase vazia ou da corrente sanguínea do protagonista, criando um dinamismo que permite que as 127 horas não se transformem em 94 minutos de tédio.


    127 horas comove quando menos se espera. A plateia dificilmente vai se debulhar em lágrimas quando Franco começa seu excruciante processo de autoamputação, mas é bem capaz de fazê-lo em outros momentos, seja durante alguma confissão chorosa ou quando Aaron consegue a liberdade. Como em qualquer outra história de superação boa o bastante para virar filme, o final é infinitamente brega. Mas... Quem se importa? Vez ou outra, é bom curtir um final feliz. Ainda mais um de verdade.

     


    POR: [Fernanda Prates]

  • Excelente

    O discurso do rei

    | Tom Hooper

    Às vezes, um filme faz um ator. Em outras, é o ator que faz o filme. O discurso do rei é mais o segundo caso. Apesar de competente e correto, o drama de Tom Hooper é resgatado da apatia iminente por um surpreendentemente desenvolto Colin Firth, que, com uma mãozinha de Geoffrey Rush, dá ao longa a graça e a compostura responsáveis por suas 12 indicações ao Oscar deste ano. 

     

    O filme narra o martírio de Bertie, um Duque aparvalhado e gago que, após a morte do pai George V e a abdicação de seu irmão, Rei Eduardo VIII, assume o trono da Inglaterra. Após várias tentativas infrutíferas de consertar seu problema crônico de fala, Bertie começa a ver o peculiar especialista em fala Lionel Logue (Geoffrey Rush, irrepreensível), com quem cria uma relação de confiança e amizade. Com a ajuda de Logue e de sua esposa Elizabeth (a adoravelmente esquisita Helena Bonham Carter), ele aprende a impor  sua voz como rei, guiando (ou o que quer que a família real efetivamente faça em situações de crise) a Inglaterra pela Segunda Guerra Mundial.

     

    Para um filme sobre um britânico gago ambientado na década de 30, O discurso do rei é surpreendentemente não-entediante. Muito graças à atuação sutil e sensível de Colin Firth. O abestalhado Bertie poderia facilmente ter se tornado um personagem antipático e irritante, mas, graças ao talento de Firth para interpretar paspalhos ingleses (anos de experiência), torna-se simpático e digno de pena. Com seus lábios trêmulos e olhar de pug na chuva, ele dá vida ao papel de um rei que luta para caber no molde que lhe foi imposto desde a infância. Helena Bonham Carter também não deixa a dever como a esposa amorosa e levemente esnobe.

     

    Assim como Zé Colmeia nada seria sem seu fiel escudeiro Catatau, Firth tem a seu lado o infalível Geoffrey Rush, genial no papel do "fonoaudiólogo" (?) excêntrico. Sua presença calorosa e espontânea funciona como um belo contraponto à angustiante retração do rei, que parece estar sempre a um passo do surto psicótico. Mesmo na condição de "terapeuta", Logue não é uma figura idônea ou de caráter irrepreensível, e sim um homem cheio de frustrações que acabam sendo transferidas para o próprio paciente. Mais que amigo, médico e conselheiro, Logue funciona como um alter ego de Bertie, criando uma dinâmica acreditável e envolvente.

     

    O pano de fundo histórico é construído para contextualizar sem ofuscar. Além do fato mais gritante – a ascensão do nazismo e a consequente Segunda Guerra –, o filme toca em questões como o verdadeiro papel da família real no cenário inglês (Bertie, por exemplo, questiona sua autoridade enquanto rei), a participação (ou não) da Igreja e até a visão da época sobre a mulher. Tudo é tratado de maneira discreta e cuidadosa, de maneira a simplesmente enriquecer o drama pessoal do rei George VI. Mais um acerto de uma obra que deixa poucos espaços para críticas.   

     

    Desde as câmeras criativas e trilha sonora impecável aos diálogos simples e de humor sutil,  o filme tem muitos acertos. Mas o problema é que não arrebata. Além da retidão e elegância, O discurso do rei também herda dos britânicos certa dureza quase burocrática que, apesar de não prejudicar o julgamento racional do espectador, fica no "quase lá" no quesito emoção. O drama do rei -- à sombra do irmão, internamente ressentido com a frieza do pai e traumatizado após uma opressiva infância real – poderia ser muito envolvente, mas, por motivos inexplicáveis, não chega a comover.

     

    É difícil prever se O discurso do rei teria se saído tão bem não fosse o brilho de seu elenco. Contudo, exercícios de imaginação à parte, ele funciona como está. Se não vai levar ninguém às lágrimas, a narrativa bem encadeada e os raros e oportunos momentos de humor inteligente criam uma experiência de cinema digna de nota – e de um prêmio ou dois. Principalmente para Colin Firth, que, ao que tudo indica, tem tudo para ser coroado com um famoso homenzinho dourado.

     

     


    POR: [Fernanda Prates]

  • Regular

    Burlesque

    | Steve Antin

    Burlesque é exatamente aquilo que, preconceituosamente, se espera do filme.Talvez com um algo a mais chamado Cher – diva é diva... – que, sem dúvida,é a persona mais burlesca que o cinema já viu. Uma produção bem feita,cenários de luxo e uma Christina Aguilera que até se sai bem como a cantoraque vira atriz no papel da moça que quer ser cantora – confuso se já nãotivéssemos visto nas também pop Mariah e Britney. O longa é um passatempoque não chega a irritar com seus números musicais, mas que não tem cacifepara ousar como nos grandes shows de cabaré. 
     
    Estreante no mundo cinematográfico, assim como a estrela principal deBurlesque, o diretor Steve Antin até então só havia realizado vídeo clipes.Na verdade, o filme parece um longo clipe musical de 2 horas. Com makescarregados, figurinos provocantes e uma grande performance, como decostume, Christina solta a voz e até convence na interpretação, mas deixaum tanto de carisma a desejar. Antin assina também o roteiro da fita que temforte apelo comercial e tom marcado por plumas e paetês. Aqui, as mulheresrepresentam as figuras fortes e protagonistas em uma trama fraca, mas desensualidade despretensiosa. 
     
    Ali (Christina Aguilera) é uma menina órfã que deixa o interior dos EstadosUnidos para batalhar pelo sonho de virar uma estrela da música. Ela se mudapara Los Angeles e rapidamente se depara com as dificuldades do showbiz.Logo, fica encantada por uma casa de espetáculos chamada "The burlesquelounge", comandada por uma diva meio decadente de nome Tess (Cher). Amoça começa a trabalhar como garçonete, aguardando a oportunidade de sejuntar às belas dançarinas e cantoras de playback nos palcos. Mas Ali temum algo a mais que só uma cantora do potencial de Aguilera pode assegurar.Ela ainda vive um triângulo amoroso, se dividindo entre Cam Gigandet, deCrepúsculo, e Eric Dane, o médico garanhão de Grey’s anatomy.
     
    Pela sinopse temos a certeza de uma história batida que apenas se mantémpela sua qualidade musical. Canções das antigas como Something's got ahold on me e Tough lover e inéditas como You haven't seen the last of me eShow me how you burlesque são recursos que não fazem do filme uma grandeexperiência de atração e divertimento – como nos grandes e performáticosCabaret e Moulin Rouge – mas que o tornam objeto de leve entretenimento quenão chega a incomodar – como no recente e chato Nine. É que, na verdade,nada em Burlesque é original. O longa está repleto de referências a quase
    todos os musicais que marcaram o cinema e nem mesmo a voz e o corpinhoda cantora pop trazem frescor à produção.  
     
    Argumento e Aguilera à parte, Cher está cômica e monstruosamente divina.A musa, reconhecida no passado por boas atuações cinematográficas, setransformou numa caricatura de si mesma e faz valer o ingresso pago nasessão no papel de tiazona. Ela é a personificação do cômico, do grotesco edo satírico que podem se resumir no termo que dá nome ao título. Cher é afinaldeliciosamente burlesca. A atuação de Stanly Tucci é também sempre bem-vinda e agradável, apesar de o homossexual e fiel escudeiro de Tess ser umaquase repetição de seu papel em O diabo veste Prada. 
     
    Assim, a qualidade musical do filme não ganha suporte da narrativa. É ummusical de consumo rápido, embalado com purpurina e com ingredientescômicos por natureza – a cantora-agora-atriz e a diva decadente no papelde... diva decadente. É visualmente bonito, perfeito nas cenas de palco quepodiam ser clipes, mas pouco criativo. Christina Aguilera não passa vergonha,mas não é fantástica e muito menos marcante. Burlesque é daqueles musicaisque vendem bilheteria, fazem alguns poucos fãs fanáticos que vão decorartodas as letras, mas que são facilmente deletados. Afinal, alguém se lembraremotamente de Mamma mia?

    POR: [Camila Lamha]

  • Excelente

    Cisne negro

    | Darren Aronofsky

    Quem vê a exaltação da crítica em cima de Cisne negro provavelmente imagina um daqueles filmes intelectuais, cheios de silêncios eloquentes, questionamentos existenciais e lenços esvoaçantes simbolizando a fugacidade da vida. Esqueçam isso tudo.  Tão discreto quanto os hábitos sexuais de Tiger Woods, Cisne negro é extravagante, perturbador e de uma ousadia que chega a flertar com o trash. Em outras palavras: genial.

     

    Desde os personagens sociopatas à fotografia lisérgica, nada na obra de Darren Aronofsky (O lutador e Réquiem para um sonho) é sutil ou remotamente próximo da normalidade. A começar pela protagonista. Nina — lindamente representada por uma esquálida Natalie Portman — é uma bailarina neurótica, retraída e sexualmente ingênua que dorme, respira e come (e depois vomita) dança. Quando finalmente recebe o grande papel de sua carreira – a Cisne Rainha em Lago dos cisnes –, Nina precisa provar que não é perfeita apenas para o papel da bela e plácida cisne branca, mas que também é capaz de interpretar a sensual cisne negra. Cada vez mais frustrada e paranoica, convence-se de que Lily (Mila Kunis, em seu melhor momento), uma bailarina ousada e sexy, está atrás de seu papel dos sonhos. E então começa a ver coisas e a se unhar compulsivamente. Tudo muito saudável.

     

    Infantiloide e aparentemente constipada, Nina ganhou seu lugar no rol de personagens mais irritantes do cinema, logo abaixo de Glenn Close em Atração fatal.  Ao que tudo indica, a razão por trás de seu aparente retardo mental e emocional é sua mãe (Barbara Hershey, que parece atuar bem por trás de todo o botox), uma ex-bailarina que desconta na filha a frustração da carreira interrompida pela maternidade. Além da megera controladora, Nina também sofre com o bullying sexual do professor Thomas (Vincent Cassel, um convincente canalha), que faz de tudo para despertar o cisne interior da moça.

     

    A produção tem um apelo libidinoso nada implícito. Embora o ápice sexual realmente seja o já famoso encontro carnal entre Mila e Natalie (o que por si só já deve levar uma boa galera ao cinema), a sensualidade rege a narrativa e conecta os personagens. A procura de Nina por seu cisne adormecido (sem maldade) passa justamente por essa busca. Nina é o cisne branco, puro, idôneo, que não se entrega aos prazeres da carne (nem do frango, do macarrão, do sorvete...). Já Lily é descontraída, sexy, espontânea, flerta, bebe e come hambúrgueres como se não houvesse amanhã. É tudo muito óbvio. Enquanto O lutador trazia nuances e sutilezas, Cisne negro é quase grosseiro em sua clareza.

     

    As cenas de ballet são esquisitas, vívidas e lindas. As câmeras rodopiantes, músicas deprimentes e expressões faciais de Natalie criam um efeito magnético. O contraste entre a delicadeza das bailarinas e a crueza das cenas mais escatológicas (como as da mocinha perturbada se automutilando e outras coisas bonitas do tipo) é parte da experiência toda. Até o som é vídido, destacando cada respiração, unhada e gemido. As cenas mais macabras, como as dos membros da bailarina se partindo bizarramente, parecem uma mistura de David Lynch com Quentin Tarantino. Às vezes, o filme ganha aquele quê de acidente de carro: você não está muito confortável assistindo, mas simplesmente não consegue parar.

     

    A incursão à apavorante mente de Nina é assustadora, angustiante e doentia, mas no bom sentido. Vez ou outra, é revigorante sair do cinema com aquela leve dor de cabeça de quem ainda não absorveu muito bem o que acaba de acontecer. E, ao contrário do que os mais céticos podem imaginar, Cisne negro é muito mais que sexo lésbico. É sexo lésbico com automutilação, crises de identidade, boa música e uma dose generosa de insanidade mental. Não fica muito mais interessante que isso.

     

     


    POR: [Fernanda Prates]

  • Excelente

    O vencedor

    | David O. Russell

    Um lutador de bom coração e passado modesto luta contra demônios pessoais e, com o apoio de uma mulher obstinada, supera as vicissitudes da vida para viver seu momento de redenção. OK, talvez a premissa de O vencedor não seja exatamente original. Mas, já diria a namorada enjoada ao cônjuge insensível, "não é o que você fala, é o JEITO que você fala". Graças a atuações impecáveis (sim, Mark Wahlberg incluso), personagens complexos e multifacetados e clichês oportunos, O vencedor acerta em cheio.

     

    O filme, baseado numa história real, conta a trajetória de Micky (Wahlberg), um lutador de boxe sem muita expressão (e zero personalidade), rumo ao título mundial dos pesos meio-médios. Em sua ascensão, Micky tem que lidar com os infinitos problemas do técnico e meio-irmão Dicky (Cristian Bale, espetacular), um ex-lutador viciado em crack, sua mãe Alice (a irrepreensível Melissa Leo), que sempre coloca o bem-estar de Dicky em primeiro plano, e uma corja de irmãs broacas que parecem ter saído da cena final de Convenção das bruxas.  Nesse ínterim, conhece Charlene (Amy Adams), uma garçonete desbocada e beberrona que, com os cojones que faltam ao boxeador, assume as rédeas da situação e o inspira a mudar de vida.

     

    Whalberg (cuja carreira até agora poderia ter nascido e morrido em Boogie nights) foi feito para Micky. Embora pareça uma escolha questionável para o papel de um lutador de boxe, o ex-Marky Mark (jamais serás perdoado, Marky) capta Micky em sua essência: um bundão. O boxeador abestalhado que precisa da namorada para tomar vergonha na cara e dar um jeito na vida é adequado para Wahlberg, que aparece em belíssima forma -- seus bíceps que o digam.

     

    Embora Amy (do auge de sua elegante tatuagem no cofrinho e culotinhos proeminentes) também mereça uma menção por mais uma atuação estelar, Bale e Melissa dão um show à parte. Bale vai além do habitual "carão", trazendo uma profundidade emocional impressionante ao adoravelmente detestável Dicky. Dos  cacoetes e trejeitos ao gingado malandro, Bale flutua entre o irmão zeloso e o junkie trambiqueiro com uma destreza louvável. Melissa é tão convincente no papel da mãe amorosa e bipolar que o espectador se vê constantemente dividido entre a vontade de abraçá-la e a de esmurrá-la repetidamente. A de esmurrá-la repetidamente prevalece, contudo.

     

    Comparações a outros filmes de boxe e seus respectivos underdogs (Rocky, O lutador, Touro indomável, O campeão), apesar de inevitáveis, devem ser relativizadas. De fato, não há muito como fugir dos chavões motivacionais, dos closes em slow motion ou da historinha cheia de altos e baixos.  David O. Russell, porém, acrescenta atuações estelares, um jogo de câmeras dinâmico, uma trilha sonora adequada e vibrante e personagens muito mais complexos que os undimensionais mocinhos e vilões. Na realidade, em vez de requentar, O vencedor reinventa.

     

    O filme também não ofende aos fãs de boxe, que não terão muitos motivos para implicar com as cenas de luta. Sem muitas firulas, elas são verossímeis e ainda assim envolventes para quem não aprecia o esporte. O realismo dos golpes (com direito a esguichos sanguinolentos) é capaz de fazer um estômago mais fraco dar uma revirada básica. Ao mesmo tempo, o jogo de câmeras cria uma ilusão de realidade de levar aquele mais empolgado a torcer secretamente na cadeira.

     

    O final brega, na realidade, é um trunfo. Em vez de cair na tentação do já manjado fim agridoce, que parece ter medo de se definir como "triste" ou "feliz", Russel se joga na pieguice, presenteando-nos com aquele calorzinho no coração que só desfechos favoráveis são capazes de oferecer. Engraçado e emocionante, o filme é belíssimo em sua simplicidade. Sim, o lugar-comum dá as caras de vez em quando. Mas, bem, certos clichês se tornaram clichês por um motivo, certo?!

     

     


    POR: [Fernanda Prates]

  • Fraco

    Deixe-me entrar

    | Matt Reeves

    Um remake americano quase homônimo, se não fosse pelos pronomes, do longa sueco de 2008, que por sua vez é inspirado num livro. Este é Deixe-me entrar, que reconta bem ao seu modo a história que Tomas Alfredson levou aos cinemas em Deixe ela entrar. Para quem viu o original, a comparação é inevitável. Filme de segunda mão, a refilmagem de Matt Reeves põe de lado todo o encantamento e sutileza vistos no primeiro, ao priorizar no remake suas interpretações sobre as respostas que haviam ficado às escuras.

     

    Deixe-me entrar se passa num desértico Novo México coberto de neve, onde mora Owen, um garotinho que sofre bullying no colégio e, ainda, com a separação de seus pais. Aos poucos, se aproxima da esquisita Abby, uma menina que acaba de se tornar sua vizinha junto a um velho que aparenta ser seu pai.  A aproximação entre os dois evolui a um sentimento que ganha ares de "amor impossível", sugerido pela leitura obrigatória de Owen: Romeu e Julieta, de Shakespeare — eis alguns dos elementos supérfluos.

     

    Na tentativa de esclarecer, o longa subverte a cronologia, investe em flashbacks, explica o que ficou no ar, mostra o que não foi mostrado. Assim, o drama melancólico que se tornou sucesso de crítica em todo mundo se transforma em um terror de baixa categoria, capaz de gerar alguns sustos. A trilha sonora, composta por crescendo de tensão e ruídos repentinos contribuem para o clima de espanto.

     

    Os sobressaltos, porém, não param por aí. Os ataques da menina vampira Abby são intensamente violentos, causada por uma metamorfose que transforma a doce criança numa criatura infernal, que range os dentes afiados e deixa o pescoço de suas vítimas em carne viva. Se aqui a abordagem ganha ares de exorcismo — figuras religiosas são constantes —, no filme sueco o vampirismo é um pretexto para a crise existencial baseada em uma sexualidade quase proibida. Aos fãs da sutil produção sueca, fica a decepção de se ver um embate claro entre os longas: o encanto do original versus o mau gosto do remake.

     

     


    POR: [Monike Mar]

  • Regular

    Um lugar qualquer

    | Sofia Coppola

    Sofia Coppola já tem uma carreira sólida, que se sustenta para além do nome de seu pai. Um lugar qualquer, seu filme mais recente, é uma história de um pai amadurecendo ao lado da filha e, ao mesmo tempo, satiriza o ridículo da indústria cinematográfica. No meio disso, um esqueleto de trama que é quase uma reprodução de Encontros e desencontros, provavelmente o ponto alto da carreira da diretora.


    O grande problema de
    Um lugar qualquer é que em vários dos pontos que ele encosta, Encontros e desencontros já chafurdou – e muito melhor. O filme conta a história de Johnny Marco (em performance muito boa de Stephen Dorff), um ator vivendo o ápice de sua fama como astro de blockbusters, que vive uma existência imatura e anestesiada, regada a bebidas, remédios e mulheres. Marco mora em um hotel e atende a compromissos publicitários de sua carreira, além de receber visitas constantes de seu amigo, Sammy (Chris Pontius, o eterno “Party Boy”, de Jackass). Quando sua filha de 11 anos Cleo (Elle Fanning, irmã de Dakota, em boa performance) reaparece subitamente em sua vida, Marco começa a reavaliar suas prioridades e a amadurecer.


    Em determinado momento, ele precisa viajar para a Itália a negócios e o filme passa a ser Encontros e desencontros na Europa. Quando Marco participa de diversas atividades publicitárias humilhantes, tudo o que vem à mente é Bill Murray com o terno cheio de pregadores nas costas fazendo uma propaganda de uísque em Tóquio. Quando Sofia se utiliza das diferenças da cultura italiana para a americana para criar humor, o Japão de seu filme anterior parece muito mais alienígena e hilariante. E enquanto Murray tinha seu pilar em Scarlett Johanssen, Marco encontra sua âncora e seu rumo em sua filha. É similar e, mais inquietante, é pior.



    Outro problema é que a estrutura do filme é dura, dá para quase ver as engrenagens funcionando no cenário. A transformação de Marco não é súbita, mas isso não quer dizer que seja sutil. O amadurecimento do personagem não chega a soar forçado, mas soa farsesco. E o contraste disso é brutal com a performance realista de Dorff e a artificialidade forçada das relações hollywoodianas. Alguns símbolos da vida desregrada e desapegada de Marco, como o hotel onde vive e o carro esporte que dirige, são conduzidas com uma mão muito firme e caem no ridículo no desfecho da trama.



    Como diretora, é possível ver que Sofia amadureceu. A fotografia ilustra bem o estupor entediante que é a vida de fama de Marco e os takes são seguros. A diretora tem um talento nato para equilibrar estilo e substância, incluindo cenas que parecem videoclipes em meio a planos arrastados. A trilha sonora inclui uma belíssima faixa obscura dos Strokes, uma versão demo, baseada voz e tecladinho, de You only live once, batizada de I’ll try anything once.



    Somewhere não é um filme ruim. Tecnicamente, é bem filmado e as performances são interessantes. Mesmo assim, é um filme mediano, com um roteiro duro e, em determinados momentos, similar demais a Encontros e desencontros. Se a carreira de Sofia Coppola for um livro, Virgens suicidas é a capa, Maria Antonieta está nos agradecimentos e  
    Um lugar qualquer  é uma breve e superficial introdução.

     

     


    POR: [Gerhard Brêda]

  • Regular

    O turista

    | Florian Henckel Von Donnersmarck

    Angelina Jolie está para o público masculino assim como Johnny Depp está para o feminino. Os dois atores são as figuras mais cools do cinema atual, além de marcarem presença em 10 entre 10 listas dos mais sexys do mundo. O inédito encontro cinematográfico dos astros acontece no aguardado longa O turista (The tourist, no original), que estreia nesta sexta (21), iluminando a tela com os rostos sedutores de seus protagonistas e as incríveis paisagens de Veneza, mas apresentando atuações preguiçosas e canastronas. O roteiro é pouco criativo e se desenvolve de maneira previsível, deixando uma frustrante sensação, ao final da sessão, de blockbuster mal digerido.

     

    Elise (Angelina Jolie) é uma misteriosa mulher que recebe ordens para abordar um turista, numa viagem de trem Paris-Veneza, e fazer a polícia acreditar que ele seja Alexander  Pearce, um homem procurado pela Interpol e pelo crime organizado. Frank (Johnny Depp) é o turista escolhido, que evidentemente acaba se encantando pela moça e seguindo os seus passos na famosa cidade italiana. Em meio a um cenário sofisticado, os dois acabam se envolvendo e tendo que lidar com bandidos e policiais em uma trama repleta de manipulações.

     

    A direção de O turista é do cineasta alemão Florian Henckel Von Donnersmarck – o mesmo que realizou um excelente trabalho em A vida dos outros. A superprodução não é das mais explosivas/saltitantes/violentas, o que poderia abrir espaço para um filme de ação com boas pitadas de suspense sustentadas por performances inteligentes. Mas, infelizmente, não é o que acontece. Talvez uma combinação de direção e de argumento fracos e da falta surpreendente de química entre os atores seja o que prejudique o filme.

     

    Angelina parece que incorporou a persona dúbia e misteriosa permanentemente. A bela, que chegou a ganhar um Oscar por Garota interrompida, vem representando papéis muito semelhantes em seguidos thrillers policiais. Mas, diferentemente do ótimo resultado de Salt, em O turista a atriz tem uma atuação morna e pouco cativante — apesar de estar bem amparada por um figurino glamouroso. Já Depp deixa ainda mais a desejar. Depois de sucessivos personagens caricaturais nos estilos pirata alcoólatra, barbeiro sanguinário e chapeleiro amalucado, esperava-se uma performance de cara limpa marcante, mas o galã não ultrapassa o regular — o que é inaceitável para o talentoso ator.

     

    O filme, que foi indicado a três Globos de Ouro, é, na verdade, o remake da produção francesa de título Anthony Zimmer: A caçada, de 2005, que teve sucesso e logo atraiu a atenção de Hollywood. Sob a direção de Von Donnersmarck, porém, a versão americana não evolui e nem mesmo cumpre o papel de 90 minutos de distração. As belas locações e o trabalho bem feito da equipe de arte agradam os olhos, mas não garantem o passatempo. Isso porque, quando o casal principal é composto por Angelina e Deep, a brincadeira fica mais séria.

     

     


    POR: [Camila Lamha]

  • Bom

    Lixo extraordinário

    | Lucy Walker, João Jardim e Karen Harley

    O premiado documentário Lixo extraordinário (Waste land, no original) é daqueles filmes que crescem radicalmente na tela e transformam princípios de bocejos em soluços de lágrimas. O artista plástico Vik Muniz acredita numa ideia e se entrega lentamente a ela, assim como, também aos poucos, o filme avança para entrar na vida de personagens reais com histórias incríveis. E é do Aterro sanitário de Gramacho, no município de Duque de Caxias, no Rio, que catadores de lixo são resgatados de suas próprias vidas para se doarem a novas possibilidades. Estéticas de lixo e arte se confundem para dar sentido a um projeto que pode mudar a realidade de gente que trabalha com aquilo que nós tentamos varrer com a vassoura e esconder para baixo do tapete.

     

    Vik Muniz é um dos artistas plásticos brasileiros mais reconhecidos no exterior. É famoso por trabalhar com novas mídias e inusitados materiais como geleia, manteiga de amendoim e xarope de chocolate. Seguindo sua vocação experimental, Vik, que é radicado nos Estados Unidos, decide se dedicar a um desafiador projeto: se mudar para o Jardim Gramacho, bairro pobre do Rio que abriga o maior aterro sanitário da América Latina, e fazer um registro de seus moradores. E dessa experiência, criar, pelas mãos dos próprios catadores, fotografias gigantes de obras feitas com o material que vem do lixo. O dinheiro da venda de um dos trabalhos seria ainda destinado a melhorar a vida da comunidade.

     

    Um certo desconforto é causado pela esquisita cena inicial do documentário em que a ação se passa no programa de entrevistas de Jô Soares. O desconforto se transforma em desconfiança quando percebemos que a língua de narração do filme é o inglês — já que esta é uma coprodução Brasil/Reino Unido — e que diálogos entre Vik, sua mulher e seu assessor são forçados para a língua não materna. Mas da desconfiança passamos a nos encantar pelos relatos que se seguem. Da postura de começo travada do artista plástico, que parece cair de paraquedas em Gramacho, Vik, aos poucos, se transforma em um agente que entra na vida de um grupo, cativando-os através da arte, com ouvidos para serem escutados e com rosto e voz para contarem suas histórias.

     

    E é através dos personagens secundários que o documentário ganha força. Das montanhas de lixo encontramos pessoas fortes, que vivem de catar aquilo que pode ser reciclado e não lamentam a vida que têm. O líder Tião, que luta pelos direitos dos catadores, e o aprendiz de bibliotecário Zumbi, que guarda todos os livros que encontra no Lixão, sonhando em um dia montar uma biblioteca comunitária. E, nas moças, descobrimos mulheres guerreiras, como Isis e Suelem, que tentam manter a vaidade em meio a sobras de comida, urubus famintos e até corpos em decomposição. O experimento de Vik Muniz faz retirar temporariamente um grupo de catadores da rotina do aterro para dar novo sentido àquilo que chamam de lixo. Sempre com bom humor, o grupo ganha asas. Do aterro, para o Museu de Arte Moderna do Rio (MAM), passando por um leilão em Londres.

     

    Lixo extraordinário demorou três anos para ser realizado e foi feito em parceria entre três diretores: a britânica Lucy Walker e os brasileiros João Jardim e Karen Harley. O acompanhamento criativo do trabalho de um artista se transformou em uma obra de forte cunho social que toca em questões ambientais e econômicas. O documentário provocou em seus personagens mudanças profundas de posturas com demonstrações sensíveis – como manifestado nos créditos finais. Vik e os catadores nunca mais serão os mesmos. Já para o público, o filme é um purgatório necessário de sentimentos e de culpas.

     

     


    POR: [Camila Lamha]

  • Regular

    Zé Colmeia

    | Eric Brevig

    Um urso fanfarrão que come demais e seu pequeno amigo de gravata borboleta tentam ajudar um guarda florestal afetado e sua namorada debiloide a salvarem um parque. Não parece exatamente material de Oscar. E não é. Seguindo uma linha narrativa unidimensional e pouco elaborada, a estreia de Zé Colmeia nos cinemas não impressiona. Mas, sinceramente, o que mais se esperar de um filme que gira em volta de um par de ursos falantes?

     

    Classificada como insípida e irrelevante, a estreia de Ze Colmeia – O filme não foi exatamente bem recebida pela crítica internacional. Contudo, em toda justiça, a história meio boba é coerente com a proposta do filme, que parece mais focado em brincar com a tecnologia 3D do que em fincar sua bandeira na história do cinema de animação. Zé Colmeia não transgride, não subverte e não surpreende. Mas não ofende. E, embora pareça tedioso para adultos, promete atrair a quem deveria: as crianças.

     

    Os personagens de Zé Colmeia e Catatau acabaram ficando bem simpáticos no fim das contas. A computação gráfica, fofa e não assustadora (ao contrário de O expresso polar), garante boas expressões faciais e corporais aos bichinhos, que ganharam nova vida com as dublagens de Dan Aykroyd e Justin Timberlake. Justin, aliás, leva o mérito por um dos pequenos sucessos do filme: o fator fofura de Catatau (que, convenhamos, sempre foi o mais querido da dupla).

     

    O humor do filme é adequado. Embora raso, não apela a escatologias e deve arrancar algumas boas risadas dos pequenos. As piadas não são muito elaboradas, mas são acessíveis tanto aos pais quanto às crianças – algo louvável em meio a animações com humor cada vez mais "de gente grande". Embora seja fácil exaltar obras inteligentes como o cômico Monstros S.A, a realidade é que boa parte da graça desse tipo de filme passa batida pelo seu real público-alvo, que parece mais atraído por bichos esféricos azuis e felpudos do que por críticas espirituosas à sociedade de consumo.

     

    O núcleo de atores "de verdade" não empolga. O guarda é representado por um insosso Tom Cavanagh (que já mostrou mais charme em séries de TV como Ed, Eli Stone e Scrubs), enquanto a mocinha Rachel é a onipresente Anna Farris, conhecida por seu vasto currículo de comédias absolutamente tenebrosas (Todo mundo em pânico, A casa das coelhinhas, Apenas amigos, Garota veneno, Alvin e os esquilos 2...) Os vilões (Nathan Corddry e Andrew Daly), dois políticos sedentos por poder que não se importam com a natureza, são gigantescos clichês, mas fazem sentido numa época em que derrubar árvores é quase tão reprovável quanto cometer genocídio. 

     

    Se falha em agradar aos pais, o filme de Zé Colmeia não deve fracassar com as crianças. Apesar de bobo, segue uma linha clássica, com narração simples, enredo de fácil compreensão e humor acessível. Se não encanta (como o hype Toy story 3), também não irrita (como o enjoado Alvin e os esquilos). A "moral da história" é interessante e contemporânea, e, embora não proponha reviravoltas geniais, também não emburrece. Como filme infantil, atinge seu propósito. E os pais que superem alguns minutinhos de tédio.

     

     


    POR: [Fernanda Prates]

  • Regular

    Desenrola

    | Rosane Svartman

    Desde que os anos 80 migraram para o cinema mullets, surfe, rock emergente, captando o espírito da molecada da época, toda aquela onda que nunca mais morreu, a coisa mais difícil para cineastas brasileiros foi repor essa turma nas poltronas. A internet, os games, a globalização, Hollywood e toda aquela tecnologia, e um-monte-de-coisa-pra-fazer-ao-mesmo-tempo, tragaram a juventude dos anos 90 para qualquer lugar, menos o cinema teen brasileiro.

     

    Combinemos também que as produções não ajudaram. Nos anos 2000, tentaram "gozar outra vez" com Cazuza – O tempo não para (Walter Carvalho e Sandra Werneck, 2004), Podecrer (Arthur Fontes, 2007), a safra gaúcha de Jorge Furtado (Houve uma vez dois verões, O homem que copiava e Meu tio matou um cara), As melhores coisas do mundo (Laís Bodanzki), entre outros, também meia-boca, esteticamente falando. Tudo muito formatadinho, no estilo "eu preciso falar com esse cara". Desenrola, de Rosane Svartman, em cartaz nesta sexta (14), nasce desenrolado dessa obrigação. É um filme naturalmente jovem, que conserta engrenagens tortas de todas as maquinações ordinárias pós "Valente/Menino do Rio".


    O filme de Rosane tem muito mais méritos do que defeitos. Entre eles, está o de soltar mais a direção, abrir o rigor artístico e peneirar os melhores diálogos. Decerto sua fagulha maior está em fermentar a conexão música-internet-surfe-balada-celular-colégio sem cauterizar, amenizando as rotineiras caricaturas desse tipo de filme.


    A trama-boba de Priscila (Olivia Torres), que sonha deixar de ser virgem com Rafa (Kayky Brito, em estado tão bruto e tão irregular que é irrelevante), é sublinhada por mais-do-mesmo: encontros, desencontros, ocasos e acasos. O que puxa o filme para cima é sua capacidade natural de se entender com os moleques sentados à frente.


    Tem o melhor amigo da moça frágil (Caco, por Daniel Passi); o parceiro bobalhão (Amaral, por Vitor Thiré) do sujeito abobalhado e apaixonado (Boca, por Luca Sales) pela moça; e o entorno: o Pedro Bial, que faz um professor, mas parece estar regendo os BBBs; o filho da Sandra de Sá, Jorge de Sá, que como ator é um bom jogador de basquete; Claudia Ohana (mãe de Olivia, soando como ela mesma); Juliana Paes (graças a Deus, em aparição rápida como a tia devoradora de Amaral); Marcelo Novaes, como o pai de Olivia, careta e paralisado; e participações constrangedoras (de Smigol, Leticia Spiller, Ernesto Picollo e Heitor Martinez).


    O longa avança numa misturada de sonoridades, que concebe a coexistência de Simple Minds, Agnela (?!) e Maria Gadú, e recortam momentos-chave do filme. É com esse fundo que a menina Olivia passeia pelo colégio, pela praia e pela noite em busca de respostas para seus questionamentos existenciais. Assim como parte de seu grupo, envolto em pequenas piadas e médias trapalhadas.


    Ainda que navegando em clichês sugados de matrizes americanas, o longa de Rosane pontua bem, exatamente nas transposições locais. Os registros no acampamento à beira-mar, no colégio hiperconectado e no busão-zona são tipicamente brasileiros, reforçando a intimidade do roteiro com a realidade retratada.


    Desenrola, que trafega na internet já há um tempo com boa estratégia de marketing, fez o que os especialistas de redes sociais estão cantando pedra: rola no boca a boca offline e cresce regularmente entre os garotos. O filme tem tudo para ultrapassar a marca de 1 milhão de espectadores, surfando neste verão ainda sem tanto sol e de enxurradas, tragédia e tristeza. E consertando o que por muito tempo foi uma patética tentativa de falar com a juventude.

     

     


    POR: [Mario Marques]

  • MuitoRuim

    As viagens de Gulliver

    | Rob Letterman

    Talvez o mais reconhecível neste filme de Rob Letterman (Monstros versus Alienígenas) seja mesmo o rosto de Black Jack, já que a infidelidade ao clássico do século XVIII é evidente dos pés à cabeça. Por entre miniaturas e um gigante alegre e performático, As viagens de Gulliver deste século está bem longe de ser uma sátira social e tratar de metáforas da humanidade — como bem fizera o irlandês Jonathan Swift no original. Aos cinemas, chega uma história ligeiramente inspirada nas aventuras do brutamonte. 


    Lemuel Gulliver trabalha na redação de um grande e povoado jornal de Nova York — por sinal, nem um pouco afetado pela crise dos impressos. Sua paixão platônica pela bonitona editora de turismo, interpretada por Amanda Peet, é o suficiente para convencê-lo a aceitar a proposta de escrever uma matéria sobre o enigmático Triângulo das Bermudas.  

    Na viagem, sua rota é desviada e o personagem vai parar na terra mítica dos diminutos liliputianos, que em figurinos medievalescos nos remete à paisagem de um povo que parou no tempo. Ainda assim, possuem engenhosas armas de defesa. Uma família com príncipes e reis complementa o roteiro, que faz questão de se render à mistura torpe do clássico com o pop.  


    Afirmando a trama como uma paródia, Gulliver na condição de um gigante amedrontador de criaturas minúsculas, nomeia-se presidente da ilha de Manhattan e, para distrai-los, embrenha-se numa descrição de histórias campeãs de bilheterias: Guerra nas Estrelas, Avatar e Titanic, por exemplo. Mas a fórmula para arrancar o riso de seus espectadores não cessa por aí: mais e mais as referências "contemporâneas" saltam a todo momento para lembrar que As viagens de Gulliver foi feito para rir. Não convence. 


    E não é só o 3D que consegue passar quase imperceptível. Para completar a falta de graça, a atuação das outras figuras interpretadas por Emily Blunt e Jason Segel também entram na lista dos itens insossos. Bom, o filme todo é assim.

    POR: [Monike Mar]

  • Excelente

    O mágico

    | Sylvain Chomet

    Já era de se esperar que o mais novo filme do diretor francês Sylvain Chomet representasse um lugar de melancolia. De estética comparável apenas ao seu longa anterior, o inesquecível As bicicletas de Belleville, a animação O mágico (L´illusionniste) atiça o estado do que é triste até mesmo nos sorrisos provocados pelas cenas mais cômicas. Ora, quando o ventríloquo vira alcoólatra e o palhaço, suicida, alguma coisa sabotou a tenda do circo e contaminou o céu de brigadeiro. Nem mesmo o coelho rebelde na cartola, a taça que se enche ou a moeda que compra sonhos são capazes de evitar a perda de espaço e de público de um velho mágico.


    A combinação da criatividade de Chomet e do roteiro original do ícone do humor francês Jacques Tati desperta um cinema lúdico, de traços artesanais e cores de lápis de cor. Aliás, o longa é uma grande homenagem a Tati e ao cinema mudo. O filme se desenrola perfeitamente mesmo sem quase não possuir diálogos. É sonoro ao ser apoiado pela bela trilha que suporta a narrativa e pelo falar entre dentes dos personagens em algumas poucas cenas. E é silencioso ao tratar da solidão e da decadência de um ilusionista à beira do desemprego em tempos de modernização dos gostos. 


    Ambientado no início dos anos 60, O mágico trata do período de transição de uma época. Artistas tradicionais vão aos poucos caindo no esquecimento e sendo substituídos pelo som elétrico das bandas de rock e pelo poder de atração dos aparelhos de televisão. O personagem principal é um mágico chamado Tatischeff - sobrenome de nascimento de Jacques Tati - que viaja a Europa realizando espetáculos de ilusão. A sua carreira está em crise e ele se vê obrigado a se apresentar em festas e em bares para públicos não muito interessados.  


    Em uma viagem a um vilarejo na Escócia, Tatischeff (na voz de Jean-Claude Donda) encontra uma menina humilde, Alice, que se encanta pelos seus truques, acreditando que esses sejam magia de verdade. Ao sair da cidade, Alice o segue e o convence a ir para Edimburgo. Lá, ele acaba "adotando" a menina e fazendo de tudo para atender às suas vontades. Nasce aqui uma relação de ternura e de amizade. Eles se hospedam em um hotel repleto de artistas decadentes. Para poder ganhar dinheiro, já que suas performances não fazem mais sucesso, o mágico, secretamente, passa a se desdobrar em diferentes empregos, inclusive como manequim vivo em um loja de roupas femininas. 


    A genialidade do realizador e ator Jacques Tati contamina todo o filme, do roteiro aos trejeitos do personagem principal - esguio, desengonçado, mas muito elegante, como nas atuações do saudoso humorista. São, aliás, a mesma pessoa. Em uma singela cena, o mágico entra por acaso em uma sala de cinema onde um filme de Tati é projetado. O encontro do personagem de animação com o personagem de carne e osso provoca um encantamento perturbador. No final do longa, é revelado que a foto que Tatischeff carrega consigo é a imagem de sua filha e que o filme é dedicado a filha de Jacques Tati.  


    Através de uma narrativa relativamente simples, o visual é a base para o desencadeamento de uma história de sonhos triste e comovente, como já virou marca de Chomet. Assim como em As bicicletas de Belleville, o traço caricatural está presente tanto em corpos femininos bem delineados como em rockstars espevitados. O filme, que trata da decadência dos artistas tradicionais, traz de volta um conceito de animação mais artesanal e rústica. A arte é irretocável e a evolução da história, brilhante.  

     


    POR: [Camila Lamha]

  • Fraco

    A vida e morte de Charlie

    | Burr Steers

    Você sabe que está em apuros quando agradece aos céus pela existência de Zac Efron. E esta provavelmente é a sua principal reação ao ver o dolorosamente brega A morte e vida de Charlie. No híbrido bizarro entre O sexto sentido e Nosso lar dirigido por Burr Steers são os expressivos olhinhos verdes do ex-Disney que salvam o espectador de uma viagem sem escalas para o sombrio poço de fósseis da sessão da tarde.

     

    Em defesa da produção, não é como se a sinopse desse falsas esperanças a ninguém. Incapaz de lidar com a morte de seu irmão mais novo, Charlie St. Cloud (Efron) começa a trabalhar no cemitério onde o falecido está enterrado. Lá, tem encontros diários com a alma de Sam (o fofíssimo Charlie Tahan), com quem conversa, joga baseball e combate gansos invasores (?). O outrora promissor Charlie (antes um velejador destinado à faculdade de Stanford) parece fadado a uma vida deprimente e solitária, até que reencontra Tess (a gostável Amanda Crew), uma garota de seu passado. Ele se vê, então, obrigado a escolher entre o irmão morto e seu novo amor. Quer dizer, tudo tão envolvente quanto um talo de aipo cru.

     

    Acrescente ao enredo pouco inspirador alguns chavões que fariam Danielle Steel enrubescer, uma fotografia reminiscente àqueles filmes da Tela quente envolvendo vidas egressas e cachorros reencarnados e sucessivas escolhas duvidosas de trilha sonora. Pronto, eis a ideia geral de A morte e vida de Charlie. Até Kim Basinger e Ray Liotta, que geralmente dão pelo menos uma engrossada no caldo, são completamente inúteis. A  exemplo de quase tudo neste desperdício de película.

     

    O quase tudo fica por conta de Efron, que merece o devido reconhecimento. Se no engraçadinho 17 anos outra vez (a prova de que Steers não é um completo desastre) o colírio teen já havia mostrado que é capaz de não ofender, torna-se uma surpresa realmente agradável na pele de Charlie. Ele é um pouquinho brega? Talvez. Afetadinho? Sem dúvida. Nada disso, porém, compromete o desempenho sem esforço e emocional de Efron, que pode vir a fazer boas coisas no cinema. Isto é, quando criar um mínimo de senso crítico na hora de escolher filmes, claro.

     

    No mais, A morte e vida de Charlie é tedioso, apelativo e aparentemente infinito. Em vez de envolver o espectador, o enredo parece perdê-lo um pouquinho mais a cada aparição lacrimejante de Sam. Transcorridos 40 dos quase cem minutos de filme, é inevitável torcer para que o moleque finalmente vá para a luz, permitindo que tanto Charlie como todos nós possamos finalmente seguir em frente com nossas vidas.

     

     


    POR: [Fernanda Prates]

  • Bom

    Além da vida

    | Clint Eastwood

    Não é  condenável que se tenha uma má impressão de Além da vida, que somente pelo título em português e até mesmo pelos minutos iniciais pode provocar um equívoco durável até o happy end. Clint Eastwood acaba tocando em um tema atual, pois é inegável o hype de 2010 sobre o assunto da vida após a morte, com o cinema nacional levando à tela histórias de dons mediúnicos e suas possíveis descobertas. Mas, para o bem do cinema, Clint conduz Além da vida na direção de vias contrárias. Centraliza o longa na aflição de quem fica na Terra depois da morte de familiares: o hereafter — título original do filme. Sem clamar por um tom de “o inferno é aqui”, atribui uma leve uma pegada emocional. Clint, diretor que nas últimas décadas fez quase um filme por ano, mais uma vez investe bem no gênero drama. Para o astro de Por um punhado de dólares (1964), equilíbrio é a palavra de ordem. 

     

    O que pode provocar o equívoco de achar que é apenas mais um filme espírita é o fato de que Clint nos apresenta o lugar para onde vão as pessoas quando deixam a vida: por meio de visões de seus personagens, assume-se a existência desse local, e é em volta dele que as histórias são encaminhadas. Mas este espaço, definido durante o filme como atemporal, é justamente o que menos aparece. Assim, Clint parece dizer que isto é o que menos importa. Faz questão de representá-lo com cuidado. Não é o céu, tampouco o paraíso, dá  até para se pensar que talvez seja um limbo, mas é um cenário cinzento e borrado, por onde a câmera passeia em travellings e alterna rostos entre primeiro e segundo planos. Também não se ouve nada. Ao espectador, Clint dispõe o silêncio. 

     

    Além da vida volta sua atenção à família. E embora as histórias centrais girem em torno de três núcleos de pessoas de diferentes países, temos a todo tempo pessoas com problemas mal resolvidos entre parentes que já se foram. Coincidentemente, o protagonista George Lonegan, americano interpretado por Matt Damon, possui a capacidade de se comunicar com os mortos e mediar conversas que não ocorreram em vida. E se muitos enxergam sua habilidade — descoberta depois de uma suspeita de esquizofrenia na infância — como um dom, para o próprio George, isso acaba sendo uma maldição, como ele mesmo enfatiza constantemente em bravejos. Pois, imagine: basta que o personagem toque na mão de alguém para estabelecer a comunicação. Além de ser bem prático, é uma habilidade financeiramente bastante rentável, não? Pois era assim que no passado ele ganhava a vida. Agora, arrependido, pretendia viver como uma pessoa comum. O filme mostra que isso não foi nada fácil. 

     

    Já para a jornalista francesa Marie Lelay, personagem de Cécile de France, a experiência de quase morte enfrentada na tragédia do tsunami no sudeste asiático abre caminhos tanto em sua vida pessoal, quanto profissional — se, num primeiro momento, temos uma famosa apresentadora de telejornal que vive os impasses da profissão depois do abalo emocional (provocado inclusive pela perda da filha na catástrofe), pelo fim, vemos que a experiência lhe encaminha para o autoconhecimento, à  pesquisa de novos temas e, principalmente, à permanência das incertezas que de certa forma a encantam, diferentemente de George. 

     

    De modo terno também acompanhamos um pouco a vida de dois irmãos ingleses (Frankie McLaren), gêmeos, que, mesmo com uma mãe (Lyndsey Marshal) viciada em drogas, tentam protegê-la para não serem enviados por assistentes sociais à tutela de outra família. No meio dessa tentativa, Jason morre. Marcus é adotado por um casal e, insatisfeito, foge. Depois de conhecer diversos “falsos” videntes, encontra George. Nesta trajetória, o roteiro de Peter Morgan, mesmo de Frost/Nixon (2008) e A rainha (2006), sintetiza o manancial de pessoas que lucram com a mentira. 

     

    Com leveza, Além da vida consegue abordar, ainda, diversos temas, e dessacraliza outros detalhes que diante do tema central se caracterizam como pormenores. Mas nem por isso desprezíveis. Ao final, Clint eleva um desses assuntos a status de clímax. A revelação mediúnica se consagra a favor do amor e é então que seu "poder" se anula. Não parece piegas, é. No entanto, Clint Eastwood não se propôs a fazer um filme sobre o afterlife, não é mesmo? Ainda bem.

     

     


    POR: [Monike Mar]

  • MuitoRuim

    Entrando numa fria maior ainda com as crianças

    | Paul Weitz

    Sabe quando você vai assistir a um filme com expectativas tão baixas que acaba nem sendo tão ruim assim afinal? Bem, este definitivamente não é o caso de Entrando numa fria maior ainda com a família. Repetitivo, cheio de clichês e quase tão bem escrito quanto uma redação de primeira série sobre férias na fazenda, o filme dirigido por Paul Weitz é tão embaraçosamente ruim que faz os dois títulos anteriores da franquia parecerem Poderoso chefão I e II em comparação.

     

    Aqui, Jack (a maior desonra artística de Robert de Niro) começa a se preocupar com seus problemas cardíacos, e sente que é hora de passar o bastão da família para o genro Gaylord "Greg" Focker (crime cometido por Ben Stiller). Ele desconfia, contudo, que Greg esteja tendo um caso com sua colega gostosona (a consistentemente tosca Jessica Alba), chamada Andi Garcia. É, como o ator Andy Garcia. Sim, isso era pra ser uma piada, o que é bem representativo da ideia de "humor" a que se é submetido. Greg, por sua vez, quer provar ao sogrão até o aniversário de seus filhos gêmeos que tem os cojones para se tornar o "Godfocker" (yupe, isso mesmo) da família.


    Para quem se lembra de De Niro como o imortal Jake LaMotta de Touro indomável, o filme machuca quase  fisicamente. O mesmo vale em relação a Dustin Hoffman e Harvey Keitel, completamente jugulados pelos diálogos dolorosamente forçados e infantis. Sem nenhum tipo de engajamento, todo o elenco – desde o questionável Stiller à geralmente competente Barbra Streisand (vovó Focker) – parece estar mais preocupado em superar cada dolorosa cena do que com atuações minimamente dignas de nota.     

     

    Stiller, que já teve seus momentos aceitáveis no cinema (Trovão tropical é um exemplo) leva apatia a um novo nível com sua performance boba e sem inspiração. Jessica novamente incita níveis sem precedentes de vergonha alheia em sua tentativa desesperada de parecer minimamente engraçada. E Owen Wilson continua perdendo apenas para Dane Cook no quesito "piores moléstias que já assolaram o cinema cômico".

     

    Logo nos primeiros 20 minutos, vê-se que o filme segue à risca as instruções da grande bíblia da comédia pastelão. De cara, assistimos a uma pobre alma recebendo um tubo no ânus, uma criancinha vomitando em jato (oh, a sutileza...), Stiller sofrendo um acidente sangrento num jantar de família e outros lugares-comuns que fazem Débi e Lóide parecerem uma dupla bastante sofisticada. Noventa por cento das piadas são repetidas e previsíveis. As restantes, mesmo inéditas, são intelectualmente ofensivas.

     

    Como Jay Roach, diretor dos dois primeiros filmes, foi esperto o suficiente para pular do barco antes dele afundar, é Paul Weitz que responde por esta tentativa infeliz de comédia que, durante 90 minutos – daqueles que parecem se converter em 900 –, esbanja escatologias e atuações que podem ser consideradas, na melhor das hipóteses, burocráticas e insossas. Por outro lado, é quase admirável como alguém consegue a proeza de pegar alguns dos maiores nomes de Hollywood e ainda assim criar algo tão trágico.

     

    Se Entrando numa fria maior ainda com a família pudesse ser definido em duas palavras, "vergonha alheia" seria o termo.  Mais do que causar bocejos – e uma vontade irrefreável de esconder a cara em um balde de pipoca e sumir para sempre –, o filme ainda cicatriza emocionalmente os pobres espectadores, obrigados a assistir impotentes enquanto ícones do cinema envelhecem sem manter a dignidade. Melhor pensar nisso como um teste: se você conseguir superar estes 90 minutos incólume, provavelmente está pronto para quase tudo nesta vida. Boa sorte.

     

     


    POR: [Fernanda Prates]

  • Bom

    Enrolados

    | Nathan Greno e Byron Howard

    Com perdão da palavra aos ávidos fãs, mas Ariel, Branca de Neve, Cinderela, Aurora e Bela são agora umas senhoras sentadas em suas cadeiras de balanço a assistir à princesa mais cool de todos os reinos: Rapunzel, na divertida e modernizada história de Enrolados. O conto dos Irmãos Grimm é apenas uma inspiração para a 50ª animação da Disney, que tem mesmo tudo para deixar a marca ainda mais histórica.

     

    A jovem dos longos cabelos dourados presa no alto de sua torre é a décima princesa Disney e chega para deixar alguns clichês de lado. A subversão aos tradicionais contos de fadas — e, aqui, estamos livres de fadas, bruxas e duendes — começa desde já pelos personagens: anti-heróis que, apesar das fugas e lutas, animam e muito o  tal reino, que de encantado tem só um pouco.

     

    A vilã é  a anciã Mãe Gothel. Obcecada pela juventude, desfruta da mágica da flor dourada, capaz de curar doenças e rejuvenescer. Bom, óbvio que a vilã da história não iria avisar da tal flor à sua majestade, a rainha, que se encontrava à beira da morte. Como bem lembra o narrador do filme, porém, logo no início, tudo parecia correr muito bem: a rainha encontrou a flor, foi curada e gerou uma linda criancinha. Mas, todos sabem, a história começa mesmo com o que vêm depois disso: sua filha é sequestrada e trancafiada numa torre escura, longe de tudo e todos, por 18 anos. Na prisão, a rotina do dia a dia da Mãe Gothel se fazendo de boazinha até que não é das piores.

     

    Em vez do príncipe, o maior ladrão do pedaço: esse é Flynn Ryder, nosso anti-herói, que conhece a bela moça por acaso, após um roubo. Com o personagem, o cômico ganha mais espaço no longa, a princesa passa a viver de verdade  — para ela, isso só aconteceria quando pusesse os pés para fora da masmorra —, mas só consegue isso depois de desobedecer e dar um golpe na Mãe Gothel. Contudo, o filme não prega a desordem, mesmo quando a menina, por um momento, se angustia com a própria atitude e seu novo companheiro a aconselha que “um pouco de rebeldia e aventura faz parte do crescimento”. A desobediência, aqui, representa um reparo ao cárcere.

     

    A partir daí, só  surpreende um conto de fadas com referências pop, ironias, humor e muita ação. Utilizando como arma de defesa suas próprias madeixas, Rapunzel faz tudo isso acontecer na companhia ora boa, ora má, de grandalhões e desajeitados vikings, um mímico boa praça, cavaleiros reais e um cavalo que no fim das contas também acaba sendo um bom amigo.

     

    A Disney, apesar de subverter alguns preceitos por aqui, não descarta o que tem de melhor. Faz rir e encanta com diálogos ágeis, canções e beleza. Nesse quesito, a primeira princesa computadorizada do estúdio também não sai perdendo muito para nenhuma outra das antigas.

     

     


    POR: [Monike Mar]

  • Bom

    Trabalho sujo

    | Christine Jeffs

    Personagens desequilibrados, diálogos espirituosos, um enredo insólito e uma família adoravelmente disfuncional. Parece familiar? Não, não é Pequena Misschr Sunshine. Mas não foi por falta de tentativa. Dos mesmos produtores, Trabalho sujo é o tipo de filme meigo e sutilmente deprimente que, embora tropece em clichês e não chegue aos pés do predecessor, pode até fazer você derramar uma lágrima solitária do olho esquerdo quando o cara da poltrona ao lado sair para ir ao banheiro.

     

    No filme, Rose Norkowski (brilhantemente interpretada por Amy Adams) é uma ex-cheerleader que, após viver o auge no colégio, acaba se tornando diarista para sustentar seu filho, o esquisitinho Oscar (Jason Spevack, uma versão menos creepy de Haley Joel Osment). Deprimida e solitária, Rose tem um caso com Mac, seu namorado de escola (Steve Zahn, que não chega a ofender no papel) e sonha em se tornar corretora de imóveis. Sua pouco glamourosa ambição, contudo, é deixada para trás quando ela percebe que pode ganhar uma graninha honesta limpando cenas de crime. Nada muito diferente do que já fazia antes – exceto pelos pequenos detalhes do sangue, fluídos corporais e tecidos putrefatos, claro.

     

    Para ajudá-la em sua nova ocupação, Rose convida sua irmã Norah (resgatada do profundo abismo dos clichês hollywoodianos graças ao talento de Emily Blunt), a típica “garota perdida que usa cinto de tachinhas e fuma maconha, mas que, no fundo no fundo, só quer ser amada”. Juntas, as irmãs formam a empresa “Sunshine Cleaning”, na qual aprendem os truques do ofício, graças à ajuda de Winston, o simpático vendedor de produtos de limpeza com um coração enorme e um único braço. Obviamente, as coisas dão terrivelmente errado em certo ponto. E a relação das irmãs é colocada à prova.

     

    Apesar de flertar perigosamente com o lugar-comum, a dinâmica entre as duas acaba sendo o grande trunfo do filme. Tudo graças ao talento de Adams e Blunt, que transformam duas personagens com tendências perigosas à “detestabilidade” em mulheres críveis e dignas de compaixão. A premissa de duas irmãs totalmente opostas que se uniram pela dor da perda precoce da mãe pode até parecer piegas. E é. Mas acaba sendo salva pela força das atrizes. Se o filme tropeça – como na breguíssima cena em que Norah atinge algum tipo de redenção espiritual muito profunda por causa do barulho de um trem --, é a solidez das atuações que o impede de cair de cara no chão.

     

    No meio desta zona toda está o pai de Rose e Norah, Joe, interpretado por Alan Arkin. Embora seja simplesmente incapaz de entregar uma atuação não-impecável, Arkin parece ter reprisado, em Trabalho sujo, seu papel em Pequena Miss Sunshine. Novamente, é o pai de família que, apesar de todo errado, só tem boas intenções.  Assim como fez com a gorducha Olive, Arkin surge para Oscar como um grande companheiro/má influência. Com a diferença que, desta vez, não temos nenhuma simulação constrangedora de strip-tease mirim ao som de “Superfreak”. Uma pena. Mas o hábito de lamber compulsivamente objetos inanimados, por outro lado, coloca Oscar como grande candidato a personagem com maiores tendências ao desajuste social na vida adulta.

     

    A metáfora do filme é bem óbvia: a limpeza de vísceras (e outros fluídos pouco sanitários) representa, na verdade, uma tentativa das irmãs colocarem suas próprias vidas nos eixos. Meigo, porém um pouco bobo. Mesmo que seja muito difícil não associar Trabalho sujo ao fofíssimo Pequena Miss Sunshine, o longa de Christine Jeffs falha em reproduzir o maior trunfo do longa anterior: a sinceridade. Os dramas das personagens, embora bem conduzidos, não parecem naturais. A saga da família Hoover flui sem esforço, enquanto a família Norkowski parece simplesmente tentar demais. 

     

    A verdade é que Trabalho sujo não vai entrar no Top 5 de ninguém tão cedo. Mas, embora não tenha abalado as estruturas da indústria cinematográfica, conquista pelas minúcias. E, pieguices e morbidez à parte, acaba sendo muito fofo.  O longa pode não ser exatamente material para Oscar – e provavelmente nunca terá vez em nenhuma edição dos “501 filmes que você deve ver antes de morrer”. Mas, se você estiver em um dia um pouquinho mais molenga, ele pode até te inspirar um soluço ou dois. Ou, com um pouco de boa vontade, fazer você pensar sobre a bagunça que é sua própria vida.

    POR: [Fernanda Prates]

  • Bom

    Amor por contrato

    | Derrick Borte

    Dar de cara com David Duchovny logo nos primeiros minutos de um filme geralmente é sinal de que coisas terríveis estão prestes a acontecer. E não coisas terríveis no bom sentido, como zumbis devorando cérebros ou Van Damme chutando coqueiros. E sim do tipo "melhor mastigar meu antebraço a continuar nesta sala de cinema".  Amor por contrato, contudo, é uma agradável surpresa. Explorando de maneira divertida a já batida premissa de que as coisas que você possui acabam te possuindo, o filme se qualifica, na pior das hipóteses, como entretenimento honesto para a família.


    Steve (Duchovny) e Kate (Demi Moore) são um casal perfeito que se muda com seus filhos perfeitos para um subúrbio perfeito. Logo, eles conhecem seus vizinhos perfeitos, que, por sua vez, encantam-se com os recém-chegados perfeitos. Porém, como perfeição não sustenta um filme inteiro, é óbvio que as coisas não são bem o que parecem. A família Jones, na verdade, é uma estratégia de marketing para convencer famílias fúteis e consumistas a preencherem o vazio de suas vidas com produtos. E funciona.


    Não é como se a crítica ao consumismo desenfreado fosse um tema inédito, mas a abordagem leve e engraçada de Amor por contrato funciona.  Utilizando-se de referências pop e um humor atual e sensível, o filme vai muito bem até a metade. Mas se perde quando tenta tecer uma crítica mais profunda. As reviravoltas acabam parecendo simplesmente jogadas ali para efeito de choque. E o final, artificial e desconexo, parece ter sido simplesmente anexado ao resto do filme de qualquer jeito.


    O casal principal surpreende. Duchovny parece ter sido feito para o papel.  Sem dúvidas, o eterno Mulder convence bem mais como um bestalhão que cai de quatro por uma quarentona ambiciosa e sedenta por poder do que como o garanhão conquistador de Californication. Já Moore apresenta sua melhor atuação desde... Ahn... Ghost? Talvez seja outro caso de papel feito sob medida, mas Demi incorpora de maneira exemplar a epítome do sonho de consumo norte-americano.


    Já os filhos, Amber Heard (reeditando seu eterno papel de combustível de fantasias eróticas adolescentes) e Ben Hollingsworth (uma versão menos afeminada de Adam Brody), passam despercebidos. Fora a sensação bastante perceptível de que são uns 50 anos velhos demais para interpretarem adolescentes. Já Larry (Gary Cole) e Summer (Glenne Headly), os vizinhos invejosos, protagonizam bons momentos.


    Amor por contrato pode não trazer uma premissa inovadora, mas triunfa por seu bom humor e sua abordagem despretensiosa. Para quem não está indo ao cinema em busca de questionamentos existenciais, deve ser mais que suficiente.

     

     


    POR: [Fernanda Prates]

  • Bom

    Tron - O legado

    | Joseph Kosinski

    Honestamente, quem aí viu Tron – Uma odisseia eletrônica em 1982? Ou em algum momento depois disso? Por essas bandas, o filme não pegou muito e embora não tenha sido um grande sucesso nos EUA, acabou caindo nas graças de um público nerd, por se tratar de um filme sobre computação. Tron – O legado entra no cinema meio como a sequência de um filme que ninguém viu, mas a história se segura o bastante para ser interessante, por mais que o esqueleto da trama seja bem batido. É o blockbuster família da estação, com méritos.



    Na trama, o herói é Sam Flynn (Garrett Hedlund, em performance honesta), um rapaz adepto de parkour que é um sócio majoritário não atuante da empresa que seu pai, Kevin Flynn (Jeff Bridges, excepcional no papel), protagonista do filme original, construiu e monetizou. Kevin desapareceu sem deixar rastros há 20 anos e eventualmente Sam descobre que ele estava vivendo num mundo de computadores, que descobriu como acessar de seu laboratório.



    Lá, os programas vivem oprimidos por Clu, um programa cópia de Flynn (um Jeff Bridges digital, com a cara que tinha 20 anos atrás, por vezes, assustadoramente real, por vezes, similar a um personagem de Beowulf, de Robert Zemeckis). Por causa de Clu, Kevin acabou ficando preso no mundo digital por 20 anos, ao lado de Quorra (Olivia Wilde, apropriadamente esquisita e sexy). Sam acaba entrando nesse mundo e parte em uma jornada para salvar seu pai e completar seus sonhos.



    A história é meio batida, tocando em vários pontos da clássica jornada do herói, com o vilão tirânico com uma conexão com sua família, o mestre sábio (que acaba sendo Kevin), as cenas de captura, as fugas milimétricas. Seria tudo chato não fosse o design brilhante. Literalmente. Tudo em Tron é banhado em neon, geralmente laranja ou azul claro, gerando um mundo muito tecnológico e, ainda assim, muito retrô. Os efeitos especiais também são fantásticos, com programas se estilhaçando como vidro quando destruídos e veículos deixando rastros sólidos de luz. A trilha sonora, composta pelo Daft Punk, complementa perfeitamente o filme, com orquestrações grandiloquentes misturadas com sintetizadores oitentistas.



    No comando deste belo bólido de US$ 320 milhões de dólares, está o diretor iniciante Joseph Kosinski, que construiu sua carreira na direção de comerciais. E Kosinski tem sucesso em guiar o filme. Os ângulos de câmera são competentes e a implementação do 3D é a melhor já feita em qualquer filme até hoje. Tecnicamente, talvez seja menos deslumbrante que Avatar, mas conceitualmente, é um passo na direção certa. O 3D em Tron – O legado aparece tal qual as cores em O mágico de Oz, ou seja, as três dimensões apenas surgem quando os personagens estão dentro do mundo de computador. O efeito é brilhante, causa estranhamento e é um uso fantástico da tecnologia.



    Uma comparação óbvia que Tron – O legado gera é com Matrix, mas é, na verdade, o inverso do filme dos irmãos Wachowsky. Na aventura da Disney, quem tem valor é o programador, quem cria programas. Em Matrix, o herói é o hacker, quem destrói, quem perturba a ordem natural das coisas. Tron é uma visão de que a tecnologia pode nos salvar, que é a última fronteira e que traz esperança para nossa sociedade. Já em Matrix, a tecnologia é o fim da humanidade e da realidade, é a inimiga número um da humanidade. Interessante ver posições tão diferentes de filmes separados por cerca de 10 anos.



    Tron – O legado é um blockbuster cheio de cores e cenas de ação, perfeito para crianças e quem se quer desligar o cérebro. Por trás disso, é um argumento sofisticado pró tecnologia e um passo na direção certa no uso do 3D no cinema. Completamente imperdível, ainda que o núcleo do filme seja batido.

     

     


    POR: [Gerhard Brêda]

  • Excelente

    Machete

    | Robert Rodriguez

    Antes de o relógio contar cinco minutos de filme, Machete (Danny Trejo) se irrita com uma chamada em vídeo de seu chefe e esmaga um celular com as próprias mãos. Isso dá o tom: se algo está no caminho de Machete, está em vias de ser esmagado, destruído, explodido ou decapitado. Com Machete, o diretor Robert Rodriguez mergulhou no trash e na mexploitation para entregar um de seus melhores filmes.



    A história segue o ex-federale (agente federal mexicano) Machete, que é traído por seu governo, perde sua família e é deixado para morrer. Por trás das maquinações, está Torrez (Steven Seagal , em versão gorducha e hilariante), um traficante que colocou aparentemente todos em sua folha de pagamento, do faxineiro de boteco em Guadalajara ao senador do Texas, John McLaughlin (Robert DeNiro). Machete, é claro, não morre e vai para os EUA como imigrante ilegal, onde é contratado por Michael Booth (Jeff Fahey) para matar McLaughlin. Traído e deixado para morrer novamente, Machete agora busca vingança.



    Paralelamente a isso, McLaughlin quer se reeleger com a plataforma linha dura contra a imigração. O senador montou um esquadrão de extermínio na fronteira chefiado por Von Jackson (Don Johnson, o Sonny Crockett de Miami vice) e ainda defende a criação de uma cerca elétrica para proteger o Texas dos imigrantes.



    A trama simples sustenta um argumento político completamente exagerado de Rodriguez em prol da imigração. O diretor mexeu em um assunto delicado para os yankees com a sensibilidade de um rinoceronte em uma loja de porcelanas, mas a atmosfera do filme o faz funcionar. O ar panfletário simplório complementa os diálogos artificiais e a violência exagerada. Em Machete, as falhas funcionam em prol do filme, como é o caso do discurso motivador que Jessica Alba arremessa em determinado momento com a frase “Não cruzamos a fronteira, a fronteira é que nos cruzou”, uma fala tão ruim que tem chance de se tornar um fenômeno da internet.



    A escolha do elenco foi fantástica. Danny Trejo reprisa seu papel como Danny Trejo, como em todos os filmes de Rodriguez, um mexicano durão e de poucas palavras. Fahey, Seagal estão excelentes em seus papéis, nunca levando tudo muito a sério, mas mantendo a coerência em um mundo no qual um homem usa o intestino de outro para fazer rapel. Um dos destaques do elenco vai para Cheech Marin, que interpreta o irmão de Machete, um padre que é um ex-federale. Quando Marin saca duas escopetas em um tiroteio com Tom Savini em uma igreja ao som de Ave Maria, o espectador sabe que está diante de um momento especial do cinema.



    A trilha sonora é apropriada: beats chicanos se encontram com lamentos de viola texanos em algo que parece Ennio Morricone comendo um burrito e alguns nachos. A música executada quando Machete subitamente conquista uma garota e a leva para cama é brilhante, uma guitarra massacrada por um pedal de wah-wah que parece ter saído de um obscuro blaxploitation dos anos 70.



    O filme também conta com efeitos especiais satisfatórios. Machete tem uma predileção por facas e, por isso, fatia, decepa e decapita qualquer coisa em seu caminho, e a resposta no vídeo é satisfatória, com esguichos de sangue e membros voando para todos os lados. Os tiros também são bem executados, com sensação de impacto e sempre um jato vermelho pintando a parede.



    O maior crime contra Machete é levar alguma coisa na tela a sério. Robert Rodriguez, que sempre carregou a bandeira mexicana em suas produções, pode considerar o filme um manifesto pró imigração, mas é evidente que o que está na tela é farsesco, insano e exagerado. E mais: é possível penalizar um filme que bota Robert DeNiro vestido como um cucaracho ilegal – com direito a poncho e chapéu surrado – atirando para todos os lados? Não, não é.

     

     

    POR: [Gerhard Brêda]

  • Bom

    Enterrado vivo

    | Rodrigo Cortés

    Diante do título é possível supor que Enterrado vivo já nasça entregando o ouro, e o que nos resta é descobrir o que Rodrigo Cortés fará com este material. No filme, Ryan Reynolds interpreta Paul Conroy, um motorista de caminhão que surge em cena já encarcerado num cubículo de madeira, seu único espaço de ação durante todo o filme.

     

    Nada sabemos a respeito de como o motorista foi parar ali e logo de cara somos arrastados para aquela sufocante situação. Tendo como interlocutor apenas um aparelho celular deixado propositalmente dentro do caixão, Conroy consegue lidar com várias questões: ligações para a família, para empresa que o contratou e para o FBI, além de negociar em várias etapas a própria vida.

     

    Esta relação do protagonista com a tecnologia faz lembrar Grave danger, episódio de CSI escrito e dirigido por Quentin Tarantino, em que a equipe de investigadores precisa correr para livrar um companheiro que foi sequestrado e — também — enterrado vivo. Neste caso, o sequestrador fixa uma câmera dentro do caixão e transmite toda a agonia da vítima diretamente para o escritório de Grissom e sua turma, aumentando ainda mais a tensão. Já Cortés reforça os momentos tensos com closes e cortes rápidos, privilegiando planos muito fechados dentro da já estreita perspectiva que temos de Conroy, caprichando assim no efeito claustrofóbico.

     

    Apesar da gama de ação parecer bastante restrita, a perspectiva de contato com o exterior através do celular promove não apenas a distensão virtual da presença de Conroy como único agente na luta por sua sobrevivência, mas também garante a alternância dos momentos de tristeza-alegria, dependendo de quem está do outro lado da linha. Além disso, o personagem solitário tem que lidar com a bateria descarregando, duas ligações ao mesmo tempo e até vídeos postados no YouTube.

     

    Aqui vale dizer que o roteiro de Chris Sparling é bem redondo, sabendo dosar as repetições, pontuar as viradas e até supreendendo quando se acredita que a história vá emperrar. Mesmo com as horas contadas, o motorista tem tempo suficente para dialogar com a burocracia governamental e refletir sobre o papel solitário e ineficaz do indivíduo diante desta máquina que se diz democrática. A presença dos EUA no Afeganistão e o terrorismo também estão na sua pauta.

     

    Ryan Reynolds poderia muito bem escorregar na baba da canastrice diante de uma tal limitação cênica, mas, ao contrário, nada de afetação — o Conroy composto por ele enlouquece na medida e vai aumentando o grau de sobriedade a cada nova decepção ou desafio.

     

    E é isso que agrada no projeto de Cortés, a correção com que a coisa toda é feita. Entre nos enterrar junto com seu personagem e nos fazer viajar por questões políticas, filosóficas ou triviais, o diretor escolhe os melhores caminhos e entrega um filme enxuto e com o final mais angustiante da temporada.

     

    POR: [Georgiane Euzebio]

  • Regular

    Tetro

    | Francis Ford Coppola

    Com Tetro, Francis Ford Coppola demonstra que o auge de sua carreira passou. Não é possível reconhecer seu passado filmográfico, pelo simples fato de que Tetro não é um filme grandioso, e parece já ter nascido sem tal pretensão. O cineasta oscarizado por Poderoso Chefão leva às telas um longa independente de grandes estúdios de Hollywood. Feito na Argentina, é marcado por um tom de cinema alternativo, filmado quase todo em preto e branco, com exceção de flashbacks ironicamente coloridos.


    Pelo início, tem-se a impressão de ser um filme de um jovem diretor e, de fato, não é uma coincidência. Coppola o escreveu aos 22 anos. Porém, isso não significa que lhe falta maturidade. Pelo contrário, Coppola conduz uma narrativa que evolui lentamente e alcança seu clímax harmonizado por óperas e síncopes teatrais. A mistura é bem-vinda, mas ainda assim é provocativa, pois, em Tetro, o estranho tem seu lugar.


    Mariposas sobrevoando em volta de lâmpadas epigrafam o filme que se constitui basicamente de memórias e revelações, que vão e vêm da mesma forma: perturbadoras. A metáfora está construída para abrir caminho às descobertas feitas dentro de uma família, cujo relacionamento é fervilhado por rivalidades e segredos. Angelo é o personagem principal, interpretado pelo ótimo Vincent Gallo. Ele fora um escritor que teve seu sucesso declinado, rejeita o nome da família e parece ter desistido de viver. Mantém um caso conjugal com Miranda (Maribel Verdú), uma médica psiquiatra que conheceu quando passou pelo hospício.


    O passado se apresenta aos poucos, e assim vamos conhecendo os conflitos da família de Tetro, que já havia jurado não manter mais contato com os parentes. De repente, se depara com a chegada de Bennie (Alden Ehrenreich), seu irmão mais novo. O garoto começa a descobrir textos do irmão e se vê mergulhado em um tempo que encobriu diversos segredos. Nem ele mesmo escapa.


    Coppola traça um drama que cresce ao longo da narrativa e chega a ganhar ares de suspense. Para o final, cenas magistrais são compostas na diegese de sessões cinema, peças de teatro, orquestras e corais. Pompa digna de um dos maiores cineastas do mundo, porém, até certo ponto, comedida. Tetro- personagem é estranho, um tanto psicótico, torto, atormentado. Por isso, Tetro-filme assume essa carga negativa e deixa o espectador em uma constante expectativa, para ver no que vai dar. Pode se decepcionar, mas Coppola, longe dos grandes estúdios, não precisa se preocupar muito com isso.

     


    POR: [Monike Mar]

  • Fraco

    As crônicas de Nárnia: A viagem do peregrino da alvorada

    | Michael Apted

    Quando um leão gigante com poderes messiânicos dá um ultimato, é preciso prestar atenção: gente crescida não pode retornar a Nárnia. E mais uma vez Aslam se mostrou certo. A viagem do peregrino da alvorada, terceiro filme da franquia baseada na obra de C.S. Lewis, até pode ser divertido se for assistido com a inocência e a falta de compromisso de uma criança. Porém, se você busca um pouco mais coerência que pilhas de efeitos especiais, pode se considerar grandinho demais.


    Após a baixa bilheteria conseguida com seu antecessor, Príncipe Caspian, o diretor Michael Apted resolveu retomar as origens da franquia e apostar no público infantil. Ironicamente, isso acontece justamente na adaptação de um livro que mostra os personagens um pouco mais crescidos e começando a levantar todos aqueles questionamentos característicos da adolescência.  O resultado não poderia ser diferente: conflitos pessoais superficiais e recheados de clichês.


    Fazer uma pequena sinopse da produção já é tarefa difícil. A história começa quando Lúcia e Edmundo, acompanhados pelo seu excêntrico e contrariado primo Eustáquio, são sugados para Nárnia enquanto contemplavam um velho quadro na parede de seu quarto. Lá eles reencontram o Rei Caspian, protagonista do filme anterior, que está à procura dos sete fidalgos de Telmar, desaparecidos.


    É deste tipo de esbarrões ao acaso que o longa é feito. Óbvio que tamanhas forçadas de barra aliadas a um roteiro pobre não conseguem dar suporte a quase duas horas de filme. Apesar de ter uma abundância de efeitos visuais, belos cenários e um ritmo frenético, a trama não instiga o espectador a acompanhar a jornada dos personagens. Além do mais, uma fumaça verde — mal feita, diga-se — no papel de vilão definitivamente não convence.


    Mais do que tudo, Nárnia sofre do que se pode chamar de “síndrome da varinha mágica”. O roteiro o tempo todo utiliza o fato de se tratar de um filme de fantasia, onde em tese tudo é possível, para interligar e justificar fatos sem ter que dar grandes explicações. Não é raro ver personagens poderosos que aparecem e desaparecem do nada, mas mesmo assim nunca têm sua importância e confiabilidade questionada; heróis que simplesmente topam com artefatos importantes; ou uma luz-guia que aparece quando tudo parece perdido.


    Grande parte dessas brechas na trama tem sua origem no fato de o filme não seguir a ordem cronológica do livro. É perceptível que a adaptação do roteiro trouxe um ritmo mais envolvente e progressivo, mas também levou a atalhos bem incômodos.


    Um dos pontos corretos de A viagem do peregrino da alvorada é sua capacidade em adaptar a mensagem cristã que prepondera nas obras de C.S. Lewis. Desta vez, o foco está na questão do pecado, evidente quando Lúcia é tentada a realizar um feitiço para ser mais bonita e parecer com sua irmã Susana, ou quando Eustáquio é instigado a roubar um grande tesouro que não lhe pertence. Além disso, mais do que nunca as aparições de Aslam estão abarrotadas de um ar messiânico e mensagens bíblicas camufladas.


    O elenco em geral é fraco e conta com atuações inexpressivas na maior na parte do tempo. O destaque negativo é Skandar Keynes (Edmundo), que usa caretas para expressar alegria, tristeza e surpresa. Quem salva o cast é Will Poulter, que se sai bem no papel do caricato, porém verdadeiro, Eustáquio.


    A viagem do peregrino da alvorada mostra mais do que nunca que, ao contrário de Harry Potter, Nárnia fracassou terrivelmente em sua tentativa de formar um público que pudesse acompanhar a franquia desde a infância até o final da adolescência. Este último capítulo da história de Aslam, os Filhos de Adão e os animais falantes levanta sérios questionamentos sobre a probabilidade de A última batalha de Nárnia ser retratada nos cinemas.

     


    POR: [Jéssica Barreiros]

  • Bom

    O garoto de Liverpool

    | Sam Taylor-Wood

    Quando sobem os créditos finais de O garoto de Liverpool, fica claro que o filme não conseguiu explicar direito quem é John Lennon. Fica mais claro ainda que o filme sabia muito bem disso. Pegando os primeiros anos da vida do lendário Beatle, o filme foge do óbvio e traz algumas performances estupendas.

    Lennon aqui é Aaron Johnson, o Kick-Ass. A performance de Johnson é assustadora. No começo do filme, quando a câmera registra um garoto reprimido pela rígida tia, Mimi (Kristin Scott Thomas), que dobra funções como madrasta, Johnson parece não acertar o tom. Quando Lennon conhece o rock’n’roll e começa a criar sua persona arrogante, sua armadura para o mundo, o jogo vira e tudo passa a fazer sentido. Johnson desaparece embaixo de um Lennon em construção.

    O foco do filme é na relação do jovem Lennon com Mimi e sua mãe biológica, a instável Julia (Anne-Marie Duff), ao mesmo tempo que o rapaz descobre seu amor pela música. A personalidade de Lennon já adquire seu caráter complexo: por vezes, sua casca arrogante parece mais sincera que sua fragilidade submissa, por vezes, ela se mostra rachada e farsesca. A ideia que o filme passa é que o próprio Lennon, por vezes, não sabia quem ele era e Johnson consegue passar perfeitamente esse conflito.

    Dos Beatles, apenas Paul McCartney (Thomas Brodie Sangster) ganha algum espaço na tela. A gênese da relação entre Lennon e McCartney poderia ser mais abordada, mas Sangster mostra um Paul tímido, amável e polido, um contraste interessante com o turbilhão emocional que era John. Esse contraste veio a se pronunciar definitivamente na produção musical da banda, com Lennon amplificando críticas ácidas e visões cínicas, enquanto Paul sempre tentava trilhar o lado menos sombrio.

    Não seria um filme de John Lennon sem música e o filme tem algumas boas cenas com a banda de skiffle que John montou antes dos Beatles, os Quarrymen. Fora isso, a diretora Sam Taylor-Wood soube encaixar algumas referências interessantes ao futuro dos Beatles nos detalhes de algumas cenas, como John correndo desesperadamente ao som de acordes de A hard day’s night ou um caderno de anotações com referências à música I am the walrus.

    O garoto de Liverpool, no fim das contas, acerta mais em não demonizar Mimi ou Julia, as duas mulheres fundamentais para John. Quando parece que o filme vai descambar para o maniqueísmo, alguma coisa surge e mostra que as duas mulheres tentaram dar o melhor para John, ainda que errando muito no caminho. Explorar a infância e adolescência não é o bastante para radiografar Lennon. Que venha “O homem de Liverpool” e que trate com o mesmo respeito seus anos mais criativos e relevantes. Não custa sonhar.

    POR: [Gerhard Brêda]

  • Bom

    A rede social

    | David Fincher

    Em 2003, o gênio precoce Mark Zuckerberg pensou em levar a experiência social da universidade para o ambiente online. Para construir sua rede social, então chamada de TheFacebook, o rapaz passou por cima de algumas regras, supostamente roubou algumas ideias e esfaqueou algumas pessoas nas costas. Em algum momento, essa história pareceu fascinante para ser contada em Hollywood. O resultado é um filme desigual e com roteiro meio mambembe, que começa bem e, lá pela metade, perde totalmente o gás.

    Quem vê o trailer de A rede social, dirigido por David Fincher, espera uma radiografia da geração que amalgamou 5 mil semi-desconhecidos pelos rincões da internet, chamou de amigos e os colocou para dentro de seu perfil em redes como Facebook e Orkut (que, curiosamente, foi ao ar menos de 15 dias antes do Facebook). Ao som de uma versão mais lenta e melancólica de Creep, o filme se vende como um drama interno, que parte da inabilidade social de Zuckerberg para o mundo. Não é isso que se desenrola na trama.

    A agenda do filme é claríssima, pegando carona no livro Bilionários por acaso, escrito por Ben Mezrich e que tem em uma das principais fontes o brasileiro supostamente traído por Zuckerberg, Eduardo Saverin. O filme quer passar, por vezes mais, por vezes menos, que Zuckerman é um monstro e que Saverin é um santo. E o maniqueísmo vai do sutil ao ridículo nas longas e arrastadas duas horas de duração do filme.

    Para começo de conversa, a interpretação de Jesse Eisenberg com Zuckerberg é, à primeira vista, sensacional. A primeira cena do filme coloca o rapaz conversando com sua namorada, Erica Albright, em um bar em Harvard. Mark mostra não ter nenhuma aptidão social e encavala três assuntos na ordem que acha conveniente. Também demonstra sua arrogância ao desmerecer a faculdade que Erica cursa e imaturidade ao xingá-la, posteriormente, em seu LiveJournal. A performance cai um pouco por terra quando você vê entrevistas de Eisenberg e Zuckerberg. O ator acabou emprestando muito de si, com um delivery extremamente veloz, à inteligência arrogante e inapropriada de Zuckerberg, o que criou um personagem novo, ainda que fascinante.

    Garfield brilha menos como Saverin, em uma interpretação que carece de direcionamento, especialmente com um desenvolvimento tão fraco de personagem. Eternamente o coitado, Saverin sai, para os espectadores mais desatentos, como um grande coitado e o defensor de tudo o que é bom e puro, mas nada exclui o fato de que o rapaz levava 30% do faturamento do Facebook na cadeira de CFO e, durante o filme, não trouxe um centavo em verbas, não desenvolveu uma linha de programação, apenas emprestou US$ 19 mil, que, a bem da verdade, foram fundamentais nos primórdios da rede social.

    Justin Timberlake surge como um dos personagens mais equivocados do filme, o bon vivant e empresário falido Sean Parker, que acaba de perder sua criação, o Napster, em sucessivas batalhas jurídicas com a indústria fonográfica. Não há nada de errado com a performance de Timberlake, mas sim com o papel claríssimo de seu personagem no roteiro. Mais do que um elemento orgânico do filme, Parker surge como um deus ex machina que libera o cretino adormecido em Zuckerberg e entra em uma posição polarizadora com Saverin. De um lado, o amigo bondoso e justo passado para trás, do outro, o gênio descolado, inconsequente e malvado. Quando é possível ver as maquinações do roteiro, o filme desaba.

    É dificil acreditar que Saverin e Parker tenham sido pessoas tão bidimensionais em suas vidas ao lado de Zuckerberg, mas se foram, não deveriam aparecer em um filme. Nem tudo é interessante. É por isso que não fazem um filme adaptando sua jornada hercúlea para comprar pão de manhã, estrelando Brad Pitt e grande elenco. Nem tudo funciona na tela.

    O filme se sustenta em uma série de depoimentos que Mark deu em dois processos: o primeiro, contra Saverin, e o outro contra dois irmãos gêmeos que alegam terem inventado a ideia do Facebook, supostamente roubada por Zuckerberg. Este arco, aliás, se arrasta em uma das piores – se não a pior – cenas do filme, que mostra uma competição de remo protagonizada pelos gêmeos, com acordes triunfantes e câmera lenta. Quando acaba a ação, o espectador percebe que não se importa. É o inverso da catarse. É a burocracia visual. É zapear entre os canais e parar para assistir alguém vendendo um tapete persa às 5 da manhã.

    A primeira metade do filme é interessante e claramente superior à segunda. Neste segmento, é possível vislumbrar a relação de Mark com o mundo e com Eduardo, especialmente. Também sai daqui a melhor interpretação de Eisenberg, antes de virar um fantoche pálido ao lado do Parker de Timberlake.

    A rede social sucumbiu diante do hype. Não é a obra prima vendida pelo trailer, não é um mergulho nessa geração, que não sabe por que chora de solidão com 20 janelas do MSN abertas. Em vez disso, uma narrativa quase maniqueísta, que endeusa Saverin, demoniza Parker e aliena Zuckerberg. Quando a assistente do advogado dispara, ao fim do filme, a frase de efeito: “Você não é um babaca, Mark. Apenas se esforça muito para ser um”, uma parcela do público vai suspirar, admirando a profundidade da fala. Outra parcela, talvez bem menor, vai questionar que isso não faz sentido com o que se desenrolou nas últimas duas horas. Mark, em A rede social, é um babaca porque o roteiro quis assim. E isso não devia ser tão transparente.

     

     


    POR: [Gerhard Brêda]

  • Bom

    Megamente

    | Tom McGrath

    O mundo prestes a ser destruído. Uma criança com habilidades extraordinárias é jogada para a Terra para ser salva da catástrofe iminente de seu planeta natal. Não, não estamos falando de um dos mais queridos super heróis de todos os tempos, o Superman. Pelo contrário. A quase história trágica inicialmente retratada é do mais novo e terrível vilão das animações (pelo menos, ele tenta ser): Megamente. O ser azul de cabeça proeminente e muitos planos teoricamente infalíveis se mostra como mais um personagem carismático e adoravelmente construído pela DreamWorks.

     

    Convenhamos: a vez é dos vilões. Personagens tão meticulosamente desenvolvidos e idealizados para causar repulsa aos espectadores e justificar – além de glorificar – a existência dos mocinhos, os vilões são capítulos à parte das produções atuais. Muitas vezes, formam um séquito de admiradores por sua genialidade, ou até mesmo – e mais comumente – por sua capacidade de se redimir de maneira heróica. Meu malvado favorito, estreia da Universal nas animações, deixou as portas escancaradas para o novo tipo de anti-herói-amável cinematográfico, que cumpre muito bem o seu papel em Megamente, numa trama não tão original, mas certamente agradável e recheada de referências pop aos quadrinhos e clássicos, que deixam o público adulto nostálgico e entretido.

     

    Quando os pais de Megamente o colocaram numa cápsula rumo à Terra, numa tentativa desesperada para salvá-lo do caos, o pequeno bebê azul nunca poderia imaginar que outra família teria a mesma ideia. Um outro bebê entra em seu caminho e tem início a épica rivalidade entre Metro Man, o super herói charmoso, habilidoso e amado pelos cidadãos de Metro City, e Megamente, a criança renegada, o adolescente excluído e, posteriormente, o adulto traumatizado que utiliza sua inteligência para fazer o mal e tentar derrubar seu arquiinimigo.  Por um momento, Megamente acredita ter finalmente conseguido atingir seu objetivo, eliminando qualquer rastro de Metro Man. Mas como o mal pode sobreviver sem o bem para confrontá-lo? Não pode. Chegando a essa conclusão, Megamente decide criar um novo super herói para voltar aos dias de glória de super vilão com uma perspectiva de vida. O que Megamente esperava ser uma lição à população de Metro City, acabou levando-o a uma descoberta pessoal e libertadora.

     

    Quantas vezes a personalidade “humana” dos vilões é exposta quase no fim do filme, sucumbindo ao clichê da ovelha negra arrependida? Pois em Megamente acontece justamente o contrário. Logo no início da produção somos apresentados ao perfil derrotado e frustrado do vilão – e grande parte da sua graça e da empatia que se desenvolve pelo personagem se dá por esse fator.  Com sacadas e timing impecáveis, Megamente surpreende com roteiro leve, sem grandes pretensões, porém, longe de ser arrastado, com alusões a grandes obras cinematográficas, como a famosa cena de Marlon Brando em Superman, de Richard Donner (com certeza, um dos melhores momentos da animação).  Liderada pelo renomado compositor Hans Zimmer, em parceria com Lorne Balfe, equipe de A origem, a trilha sonora de Megamente é simplesmente arrebatadora – o que é pouco comum no gênero -, partindo de AC/DC, Guns N’Roses até a catarse de Michael Jackson. É impressionante como as canções conduzem de maneira irretocável a trama, representando a essência da ideia do diretor Tom McGrath.

     

    Com elenco de vozes estelar na versão original – incluindo Brad Pitt, Tina Fey e Will Ferrell -, Megamente traz também um time de primeira em sua equipe de produção, podendo esbanjar nomes como Guillermo Del Toro (O labirinto do fauno) e Justin Theroux (Homem de ferro 2) na lista de consultores criativos. Na cópia brasileira, ainda que Thiago Lacerda seja o principal atrativo da dublagem (qualquer um que tenha visto Simbad tem motivos de sobra para questionar o “talento” de Lacerda no ramo, apesar de ter apresentado melhora significativa nesta produção), o excelente dublador – esse sim profissional - Cláudio Galvan rouba todas as cenas, conferindo sensibilidade e personalidade forte a Megamente.

     

    O contexto pode ser batido, mas Megamente tem, sim, o seu valor. Desconstruindo as ideias pré concebidas de vilões e heróis, a animação utiliza um toque leve e despretensioso para conquistar as crianças e divertir os adultos. Não é isso o que se espera de uma animação? Pois, então, e talvez pela primeira vez, o cabeçudo de cor primária finalmente tenha conseguido atingir o seu objetivo.

     


    POR: [Juliana d'Arêde]

  • Excelente

    Filme socialismo

    | Jean-Luc Godard

    Aos 80 anos, Jean-Luc Godard, um dos grandes gênios da Nouvelle Vague, nos oferece a experiência de mais uma bela obra. Seus fragmentos — que tencionam o próprio cinema e, o tempo todo, a nós mesmos, espectadores — são partes desligadas de seu todo. Cada imagem, palavra, gesto, cena, ato, som, diálogo, abre um campo infinito de possibilidades. Uma ode à multiplicidade de interpretações (!), sempre ligadas a ironias, críticas, pessimismos e uma paixão pela História, pela política, pelo cinema, pela arte em geral e, principalmente, pela negação de tudo isto a favor de uma “questão”.


    O diretor exclama um bravo não a cada passagem — embora tudo em Filme socialismo pareça ser bem mais do que algo que simplesmente passe. Godard nega o tema, a unidade, a abordagem clara, a comodidade da compreensão, o raciocínio lógico. Somos postos ao desafio da abertura, ao embate consciente e ao mesmo tempo inconsciente entre pensar e entender. Por vezes é impossível distinguir uma ação da outra, pois o que buscamos e, raras vezes, encontramos são vestígios do que se costura na tela. Com este novo Godard nos sentimos ainda mais vivos dentro do cinema. Godard agarra-nos pelo pensamento e seu método eficaz é de nos tornar ativos — do contrário, durma — diante de três movimentações distintas das imagens.


    Na primeira parte, temos um filósofo e uma cantora a bordo de um cruzeiro pelo mar Mediterrâneo discorrendo sobre assuntos sobrevindos por geração espontânea. Comentam-se sobre dinheiro, geometria e História em uma conversa desprovida de fluidez. O som é interrompido, a imagem é intercalada com resoluções caseiras e a linearidade é insustentável.


    Do mesmo jeito é na peça seguinte, quando Godard se aproxima de uma família que recebe uma jornalista e uma cinegrafista. Elas, à espera de uma conversa com os pais, acabam se rendendo a uma sabedoria questionadora das crianças da casa. Neste capítulo de Filme socialismo, há a cena magistral de um menino que, em contraponto à infantilidade natural à idade, nos remete a uma vivência adulta. O menino nos mostra o quanto é preciso abrir-se ao olhar quando trava um diálogo provocativo com a cinegrafista. “Isto é um Renoir”, ela diz enquanto o observa pintar um quadro. “Não. Há muitas coisas que Renoir não enxergou”, retruca o garoto.


    Já no último ato, Godard monta, em voice over, uma espécie de colagem e caminha por entre imagens de Odessa, Egito, Palestina, Grécia, Barcelona e Nápoles. Aqui, é possível compreender mais claramente o que disse em uma edição da década de 50, na Cahiers du Cinéma: “Se dirigir é um olhar, montar é um bater do coração”.


    É impossível assumir um papel de crítica, que tanto necessita de uma iluminação sobre o filme, diante de um Godard que a rejeita. Atente: aqui, nada se esgota. O diretor demonstra que não está entre a imagem e sua visibilidade, mas sim numa posição que o coloca entre linguagem e visão. Pois é deste modo que o diretor consegue estabelecer uma relação com o social, a sociedade, o socialismo. Mas nada disso no sentido que estamos habituados a ver, ouvir ou falar. Colocando-se como sujeito que observa o mundo e toma como instrumento o pensamento, é a imagem — e o vídeo — que nos fará partilhar de uma sociedade aberta para as ideias e para os ideais. É assim que Godard prega a liberdade.

     

     


    POR: [Monike Mar]

  • Fraco

    Você vai conhecer o homem dos seus sonhos

    | Woody Allen

    Woody Allen não é um diretor para todos os gostos, mas o baixinho neurótico apaixonado por Nova York ocasionalmente dispara alguns bons argumentos sobre a sociedade. Seu penúltimo filme, Tudo pode dar certo (uma péssima tradução do original Whatever works) tinha um excelente argumento e observações pertinentes sobre a vida moderna. O que aconteceu, então, entre esse filme e Você vai conhecer o homem de seus sonhos?



    Não é que o filme seja ruim, é apenas terrivelmente chato. A trama segue a vida de dois casais, Alfie (Anthony Hopkins) e Helena (Gemma Jones) e Sally (Naomi Watts) e Roy (Josh Brolin). Logo de cara, dá para ver que vai ser um daqueles filmes de crises matrimoniais e, ao fim dos pouco mais de 90 minutos, o filme faz questão de comprovar o palpite. Alfie está passando pela crise da meia idade (mesmo Hopkins já contemplando, com toda a franqueza, o fim de sua existência), Helena está perdida na vida e busca conselhos de uma cartomante, Roy vive um bloqueio criativo e não consegue emplacar um segundo romance de sucesso e Sally precisa segurar as pontas em seu casamento, ao mesmo tempo que começa a se interessar por seu chefe, Greg (Antonio Banderas). No meio do caminho, todos se separam e tentam mudar de vida, com graus diferentes de realização pessoal, no fim das contas.



    Alfie decide engatar um romance com Charmaine, uma mulher bem mais nova e, digamos, liberal (Lucy Punch), Roy se encanta pela vizinha, a exótica Dia (Freida Pinto). Nenhuma novidade aqui, tudo se desenrola de maneira formulaica. Charmaine se apaixona pelo dinheiro de Alfie, Roy pela aventura em Dia. Chato.



    Você vai conhecer o homem de seus sonhos não tem pontos interessantes sobre a modernidade nem boas piadas. O roteiro se arrasta, os personagens são desinteressantes. Não há um fiapo de simpatia para que o espectador se agarre e, com isso, tudo parece não ter importância. Quando as coisas acabam mal para algum personagem, quem assiste não tem como ter uma reação emotiva nem intelectual, pois nada de fascinante se desenrola na tela. É o equivalente a filmar uma fila de banco durante uma tarde inteira.



    As performances são cansadas também. Hopkins, apesar de divertido, não está fazendo particularmente nenhum esforço. Banderas é o caso mais gritante: o ator passou no estúdio, leu as falas, pegou o cheque e nunca olhou para trás. Watts está um pouco histérica, mas é a que consegue melhor passar algum senso de urgência ou drama, especialmente ao lado do anestesiado Brolin. A Charmaine de Punch é o estereótipo mais baixo da loira burra, uma ofensa à inteligência do espectador.



    O maior problema de Você vai conhecer o homem de seus sonhos é ser um filme do Woody Allen. Se fosse de um qualquer, seria vendido como comédia romântica, faria seu sucessinho e seria massacrado da mesma forma, mas o baixinho nervoso e neurótico evoca uma certa expectativa. Espera-se bons personagens, comentários ácidos e perspicazes sobre as relações humanas, cenas divertidas, interessantes. Não dá pra achar nada disso aqui.

     


    POR: [Gerhard Brêda]

  • Excelente

    Harry Potter e as relíquias da morte - 1

    | David Yates

    A câmera penetra numa familiar névoa cinzenta, enquanto soam em tons menores acordes bastante característicos: o fim está realmente próximo. Harry Potter e as relíquias da morte - Parte 1 divide ao meio o capítulo final da franquia escrita por J.K Rowlling e pavimenta, com sucesso e arrepios de tensão, o caminho para o que se desenha ser o melhor filme da série. É o início e o meio do fim, cisão sustentada muito mais pelo respeito à carga dramática deste último segmento que por outro bom punhado de bilhões de dólares nos cofres da Warner Bros.

     

    A trama segue Harry Potter (Daniel Radcliffe), Ron Weasley (Rupert Grint) e Hermione Granger (Emma Watson) numa jornada Reino Unido afora para caçar e destruir Horcruxes. Se você não sabe o que são elas e por que são importantes, melhor não embarcar nessa. Relíquias da morte é um filme para iniciados, que trata com respeito a horda de fãs dos livros de J.K. Rowlling sem remoer informações previamente dadas. Mas vá lá: as Horcruxes são objetos que guardam pedaços da alma de Voldemort, vilão supremo desta série, e que, portanto, lhe conferem imortalidade. São sete e devem ser destruídas a qualquer custo.

     

    Os bruxinhos mirins de outrora cresceram. Já faz algum tempo, é verdade. Em Relíquias da morte nosso power trio de heróis demonstra maturidade como nunca, munido de bons artifícios de interpretação diante de assuntos cabeludos. Rupert Grint entrega as piadas sem sal de Ron Weasley com bom tempero, beneficiado pelo roteiro de Steve Kloves, além de levar nos ombros o conflito emocional com O Escolhido — o próprio melhor amigo, Harry Potter.

     

    Emma Watson, extremamente irritante em outros segmentos, é capaz de sustentar bem algumas das cenas mais tocantes da fita, como a em que apaga a memória dos próprios pais. Já Daniel Radcliffe consegue colocar rédeas de naturalidade nos aspectos azucrinantes da personalidade de Harry Potter, inclusa aí a mania de tentar resolver tudo sozinho e de se considerar um sofredor nato. O roteiro equilibra tensão e algumas boas cenas de ação com pitadas honestas de humor. Bom exemplo disso é a hilária sequência em que uma trupe de sete amigos encarna Harry Potters para confundir o bando que os espera numa emboscada fatal.

     

    Para além do amadurecimento dos intérpretes e personagens, Relíquias da morte alcança ainda uma satisfatória maturidade temática. Saem as peripécias dos três infantes que aprendiam poções, feitiços e o primeiro amor nos filmes iniciais; entra um pesada atmosfera de filme de guerra, com os três em fuga pelo “mundo real”, longe da proteção de Hogwarts. Confiança e segurança são questões frágeis em tempos em que o inimigo, Voldemort, está no poder, no próprio Ministério de Magia. Uma longa lista de bruxos desaparecidos, tortura pesada e até um radinho (de pilha?) com estações pirata adensam a atmosfera perigosa que envolve Relíquias da morte.

     

    A guerra que se instala é maior que a escola que os fãs cultuavam. Assim, David Yates — diretor do últimos dois filmes da franquia — leva a saga para paisagens externas embasbacantes, que retratam o trio pequenino entre montanhas, lagos e imensidões desertas. Para reforçar a tensão, takes das costas dos personagens se fazem insistentemente presentes para relembrar aquilo que nunca esquecemos: Voldemort está atrás de vocês, ele vigia, se prepara, toma força; o confronto final se aproxima. A belíssima fotografia é assinada por Eduardo Serra, indicado ao Oscar pelo trabalho em Moça com brinco de pérola. Outro ponto de destaque é a linda animação que ilustra o conto sobre as Relíquias da morte, coordenada por Ben Hibon.

     

    Harry Potter e as relíquias da morte é uma boa recompensa de tensão e emoção para aqueles que cresceram com a série. Um prato de entrada bastante respeitável — são 2h30! — para o fechamento da maior franquia cinematográfica contemporânea. Trata-se de um ótimo episódio, de fato um dos melhores da série, que abre o apetite para o confronto final entre Harry e Voldemort. Arrancada à força a etiqueta de filme infantil, Relíquias da morte anuncia uma sombria, sanguinolenta e satisfatória sessão final para a fantasia.

     

    POR: [Marcella Huche]

  • Fraco

    A vida durante a guerra

    | Todd Solondz

    Todd Solondz continua o mesmo. Não é preciso nenhum adjetivo. Quem conhece o diretor sabe que ele dispensa algumas palavrinhas mágicas, tal como "ácido", "esquisito" ou, para os céticos sobre sua honestidade, "alucinado". Isso porque sua fórmula é bem desmascarável: te culpar por rir. Simples assim. Dos trejeitos de seus insólitos personagens à anti-ética presente nas falas e atitudes de gente nada normal.

     

    A vida durante a guerra pode parecer, mas não é uma crônica ou um retrato de uma família norte-americana contemporânea. É preciso esquecer os comodismos de definição e partir para algo mais próximo do modo Todd Solondz de ver o outro. É que a realidade é uma parca insígnia para o seu fechado universo carregado de pessimismo e ainda em maior proporção, de cinismo.

     

    Seu poder manipulatório é explícito e a razão final é até perdoável: interagir com o que há de pior no espectador, a culpa. Se, por hora, é possível pensar ser um filme que conta a história de famílias com seus problemas de temas baqueantes – suicídio, pedofilia, terrorismo –, no fim, também é permitido reconhecer que Solondz apenas mantém essa carta escondida na manga para lançá-la como trunfo final.

     

    É saudável se perguntar por quê. Lançando mão de um universo amoral, Solondz concentra a história no mundinho fechado de cada um de seus personagens. Não é possível enxergar nenhuma crítica histórica contundente com tipos previsíveis: uma criança hipocondríaca que precisa de remédios para dormir; um nerd; uma senhora que só quer sexo; uma mãe de família que namora um cara mais velho, gordo e baixinho e conversa abertamente com o filho sobre excitação sexual; uma jovem esquizóide. E, sim, o diretor de Bem-vindo à casa de bonecas ainda aposta numa comédia das aparências.

     

    Aqui, Solondz ressuscita personagens e até mesmo cenas de Felicidade, mas com um elenco menor do que o do filme de 98. Bill (Ciarán Hinds), preso por cometer crimes de pedofilia, é solto e quer retomar o contato com a família. Mas só a primeira tentativa de reaproximação é um desastre.

     

    O conflito no relacionamento também é um problema para a esquisitinha Joy (Shirley Henderson). A mocinha com uma auréola virginal conversa com fantasmas de ex-namorados, que a atormentam e solidificam mais um trauma em sua vida — mais um assombro do passado presente no longa.

     

    É só para o fim que o título vai ficando mais claro. Solondz faz ecoar um clima moralmente belicista com diálogos que põem em voga o tema do perdão. Para ele, é impossível perdoar enquanto o crime ainda causa dor. Por uma espécie de ética invertida, Solondz discursa em nome do sentimento norte-americano pós 11 de setembro com um aforismo perverso: "Só otários perdoam". Mas como se quisesse se redimir, logo se adianta em uma fala controversa: "Perdoar e esquecer são como liberdade e democracia".

     

    Todd Solondz continua o mesmo cínico de sempre.

     

     

    Foto: Divulgação

    POR: [Monike Mar]

  • Regular

    A rede social

    | David Fincher

    Em 2003, o gênio precoce Mark Zuckerberg pensou em levar a experiência social da universidade para o ambiente online. Para construir sua rede social, então chamada de TheFacebook, o rapaz passou por cima de algumas regras, supostamente roubou algumas ideias e esfaqueou algumas pessoas nas costas. Em algum momento, essa história pareceu fascinante para ser contada em Hollywood. O resultado é um filme desigual, A rede social, com roteiro meio mambembe, que começa bem e, lá pela metade, perde totalmente o gás.

    Quem vê o trailer de A rede social, dirigido por David Fincher, espera uma radiografia da geração que amalgamou 5 mil semi-desconhecidos pelos rincões da internet, chamou de amigos e os colocou para dentro de seu perfil em redes como Facebook e Orkut (que, curiosamente, foi ao ar menos de 15 dias antes do Facebook). Ao som de uma versão mais lenta e melancólica de Creep, do Radiohead, o filme se vende como um drama interno, que parte da inabilidade social de Zuckerberg para o mundo. Não é isso que se desenrola na trama.

    A agenda do filme é claríssima, pegando carona no livro Bilionários por acaso, escrito por Ben Mezrich e que tem em uma das principais fontes o brasileiro supostamente traído por Zuckerberg, Eduardo Saverin. O filme quer passar, por vezes mais, por vezes menos, que Zuckerman é um monstro e que Saverin é um santo. E o maniqueísmo vai do sutil ao ridículo nas longas e arrastadas duas horas de duração do filme.

    Para começo de conversa, a interpretação de Jesse Eisenberg com Zuckerberg é, à primeira vista, sensacional. A primeira cena do filme coloca o rapaz conversando com sua namorada, Erica Albright, em um bar em Harvard. Mark mostra não ter nenhuma aptidão social e encavala três assuntos na ordem que acha conveniente. Também demonstra sua arrogância ao desmerecer a faculdade que Erica cursa e imaturidade ao xingá-la, posteriormente, em seu LiveJournal. A performance cai um pouco por terra quando você vê entrevistas de Eisenberg e Zuckerberg. O ator acabou emprestando muito de si, com um delivery extremamente veloz, à inteligência arrogante e inapropriada de Zuckerberg, o que criou um personagem novo, ainda que fascinante.

    Garfield brilha menos como Saverin, em uma interpretação que carece de direcionamento, especialmente com um desenvolvimento tão fraco de personagem. Eternamente o coitado, Saverin sai, para os espectadores mais desatentos, como um grande coitado e o defensor de tudo o que é bom e puro, mas nada exclui o fato de que o rapaz levava 30% do faturamento do Facebook na cadeira de CFO e, durante o filme, não trouxe um centavo em verbas, não desenvolveu uma linha de programação, apenas emprestou US$ 19 mil, que, a bem da verdade, foram fundamentais nos primórdios da rede social.

    Justin Timberlake surge como um dos personagens mais equivocados do filme, o bon vivant e empresário falido Sean Parker, que acaba de perder sua criação, o Napster, em sucessivas batalhas jurídicas com a indústria fonográfica. Não há nada de errado com a performance de Timberlake, mas sim com o papel claríssimo de seu personagem no roteiro. Mais do que um elemento orgânico do filme, Parker surge como um deus ex machina que libera o cretino adormecido em Zuckerberg e entra em uma posição polarizadora com Saverin. De um lado, o amigo bondoso e justo passado para trás, do outro, o gênio descolado, inconsequente e malvado. Quando é possível ver as maquinações do roteiro, o filme desaba.

    É dificil acreditar que Saverin e Parker tenham sido pessoas tão bidimensionais em suas vidas ao lado de Zuckerberg, mas se foram, não deveriam aparecer em um filme. Nem tudo é interessante. É por isso que não fazem um filme adaptando sua jornada hercúlea para comprar pão de manhã, estrelando Brad Pitt e grande elenco. Nem tudo funciona na tela.

    O filme se sustenta em uma série de depoimentos que Mark deu em dois processos: o primeiro, contra Saverin, e o outro contra dois irmãos gêmeos que alegam terem inventado a ideia do Facebook, supostamente roubada por Zuckerberg. Este arco, aliás, se arrasta em uma das piores – se não a pior – cenas do filme, que mostra uma competição de remo protagonizada pelos gêmeos, com acordes triunfantes e câmera lenta. Quando acaba a ação, o espectador percebe que não se importa. É o inverso da catarse. É a burocracia visual. É zapear entre os canais e parar para assistir alguém vendendo um tapete persa às 5 da manhã.

    A primeira metade do filme é interessante e claramente superior à segunda. Neste segmento, é possível vislumbrar a relação de Mark com o mundo e com Eduardo, especialmente. Também sai daqui a melhor interpretação de Eisenberg, antes de virar um fantoche pálido ao lado do Parker de Timberlake.

    A rede social sucumbiu diante do hype. Não é a obra prima vendida pelo trailer, não é um mergulho nessa geração, que não sabe por que chora de solidão com 20 janelas do MSN abertas. Em vez disso, uma narrativa quase maniqueísta, que endeusa Saverin, demoniza Parker e aliena Zuckerberg. Quando a assistente do advogado dispara, ao fim do filme, a frase de efeito: “Você não é um babaca, Mark. Apenas se esforça muito para ser um”, uma parcela do público vai suspirar, admirando a profundidade da fala. Outra parcela, talvez bem menor, vai questionar que isso não faz sentido com o que se desenrolou nas últimas duas horas. Mark, em A rede social, é um babaca porque o roteiro quis assim. E isso não devia ser tão transparente.

    POR: [Gerhard Brêda]

  • Bom

    Minhas mães e meu pai

    | Lisa Chodolenko

    Que situação, hein? Minhas mães e meu pai se chama, no título original, The kids are all right, nome pouco diferente daquela música do The Who (no caso, com um “alright”). Mas está mais para o The kids aren t alright, lado-B punk do Offspring. E mostra que até mesmo dentro de universos que combatem a discriminação e a opressão pode haver preconceito. Ou demônios escondidos.

    Dirigido por Lisa Chodolenko (responsável por episódios de séries como The L world), o filme parte de um argumento sui generis – duas lésbicas, Nic (Anette Benning) e Jules (Julianne Moore), que têm um casamento duradouro e dois filhos, Joni (Mia Wasikowska) e Laser (Josh Hutcherson), concebidos por inseminação artificial. Laser, adolescente, só quer saber de fazer esportes e andar para lá e para cá com um amigo meio inconsequente – e, por conta disso, suas duas mães se preocupam, achando que ele se tornou gay. Joni, que prepara suas coisas para ir para a universidade, deseja saber, afinal de contas, quem foi seu “pai” - ou seja, o doador de esperma que gerou os dois irmãos. Acaba descobrindo tudo por intermédio de um telefonema à clínica médica onde foi realizada a doação, e chega a Paul (Mark Ruffalo), um dono de restaurante, que trabalha com comida orgânica, e que acaba se tornando amigo de Jules, Joni e Laser. E não de Nic, que não o aceita de jeito algum.

    Os problemas começam a surgir a partir daí, e culminam num relacionamento entre Jules e Paul. Ocorrem mudanças em vários status – Joni passa a contestar mais as mães, Laser se decepciona com seu melhor amigo. Apesar de a família formada por Nic e Jules, aparentemente, ser algo fora do normal, Minhas mães e meu pai retrata que até mesmo num caso desses, podem haver aquelas regras e valores imutáveis de uma casa comum – afinal, antes mesmo de Paul  surgir na história, já havia até um “pai” severo (Nic) e uma “mãe” oprimida (Jules) ali. A nada disfarçada hipocrisia da situação chega ao ápice quando, ao aceitar jantar na casa de Paul, Nic resolve mexer em sua coleção de discos e descobre álbuns de David Bowie e Joni Mitchell – e por causa disso, acaba por insinuar, na mesa do jantar, que ele pode ser homossexual. O indisfarçável orgulho do casal por Joni e seu sucesso como estudante acaba mostrando que, mesmo numa família incomum, há preocupações que partem do comum e chegam ao conservadorismo.

    O tema não é tratado com didatismo nem com uma linguagem que só interessa a gays, lésbicas e simpatizantes – piadas até bastante politicamente incorretas aparecem vez por outra. Minhas mães e meu pai trata de um tema atual, rico em conteúdo (visto mais de uma vez, permite várias leituras) e sério. Mas, por mais incrível que possa parecer, é uma comédia da vida real, e das boas.

    POR: [Ricardo Schott]

  • Fraco

    Muita calma nessa hora

    | Felipe Joffily

    O canal Viva, da Globo, passa uma série de reprises de programas de humor que já fizeram muita gente dar risada – entre eles, a clássica Escolinha do Professor Raimundo, capitaneada por Chico Anysio, em seu período dos anos 90, e outros programas de humor mais “adulto”, como Garotas do programa, Chico Total (outro do veterano humorista) e Comédia da vida privada. E igualmente passa episódios de antigas fases da mininovela Malhação. Junte tudo isso, bata no liquidificador e, ao comparar com este Muita calma nessa hora – filme que tem um monte de humoristas fazendo praticamente nada no elenco – perceba que o longa roteirizado por Bruno Mazzeo, João Avelino e Rosana Ferrão não chega nem a 10% da graça das antigas investidas globais no humor. Pior: peca por investir num humor (quando é o caso) ultrapassado e com pouco apelo.

    O maior atrativo do longa é o belo trio de protagonistas. Andréia Horta, Gianne Albertoni e Fernanda Souza interpretam Tita, Mari e Aninha, três amigas infelizes no amor que vão a Búzios se divertir e cair na pegação. Cenas de praia, com as atrizes principais de biquíni, aparecem a rodo no filme. E ainda tem Debora Lamm, carismática e excelente como sempre (basta ver séries como Cilada), fazendo a hippie Estrella, com quem as três fazem amizade – e que vai a Búzios em busca do pai, sumido. Vão para a personagem dela algumas das boas gags do roteiro, incluindo trechos de músicas (Faroeste caboclo, da Legião Urbana, aparece lá pelas tantas). E ela é responsável pelas melhores atuações. Infelizmente, não é a regra no filme.

    A direção bacana de Felipe Joffily (Ódique?)  ajuda um pouco a fazer engolir um roteiro que, em sua maior parte, é cheio de buracos e cria poucas situações engraçadas. E, incrível, isso mesmo lançando mão de  nomes como Sergio Mallandro, Leandro Hassum, Nelson Freitas, Maria Clara Gueiros e muitos outros. Só Lucio Mauro Filho, interpretando um engraçadíssimo fã de axé music, não parece subaproveitado. Muita calma nessa hora perde a chance de cair num humor rasgado e muito bem feito – coisa que o Pânico faz todo fim de semana e que até os (criticados, diga-se) dois filmes do Casseta & Planeta fizeram melhor – e parte para uma tentativa de sitcom com tema batido e personagens rasos, com um fio condutor que se perdeu lá pelos anos 90. Até a Malhação em épocas recentes era mais profunda e mais bacanuda que isso.

    POR: [Ricardo Schott]

  • Fraco

    Jogos mortais - O final

    | Kevin Greutert

    George Lucas aprendeu – ou, pelo menos, seus fãs aprenderam – que sustentar seis filmes em um mesmo universo não é fácil. A primeira trilogia de Star wars é clássica e a segunda mina quase todos os bons elementos. A franquia Jogos mortais chega no sétimo episódio já rançosa, pútrida. O torture porn que ajudou a criar, ao lado de O albergue, já parece ridículo e a trama rocambolesca já deixou de ser interessante há muito.

    Mais uma vez, pessoas acordam presas em alguma forma elaborada de armadilha, que de alguma forma reflete o que fizeram de errado na vida. Para se salvarem, os capturados precisam enfrentar a dor ou tomar decisões difíceis, como escolher salvar uma pessoa em detrimento de outra. É um formato que parecia fresco nos primeiros filmes, com as pessoas punidas fisicamente por suas pequenas transgressões de caráter, tudo concentrado na magnética figura de John Kramer (Tobin Bell), o serial killer Jigsaw. Em Jogos mortais – O final, Kramer apenas aparece em flashbacks, um coadjuvante em sua própria franquia. Quando Bell surge em cena, brilha, mas não o bastante para resgatar o filme.

    O filme segue a história de Bobby Dagen (Sean Patrick Flanery), um guru de auto ajuda que fez um best-seller, no qual conta uma supostamente verdadeira história de como escapou de uma armadilha de Jigsaw. Dagen é capturado pelo detetive Mark Hoffman (Costas Mandylor), agindo como Jigsaw. A jornada de Dagen é para salvar seu staff (advogada, empresário, assessora de imprensa) e sua esposa, a única da entourage que não sabia que ele tinha mentido a respeito de seu encontro com Jigsaw.

    Paralelamente a isso, a ex-mulher de Kramer, Jill Tuck (Betsy Russell) tenta matar Hoffman, mas ele sobrevive, ainda que com o rosto desfigurado. Tuck então decide procurar a polícia e incriminar Hoffman, que parte em uma caçada para eliminar a única testemunha que pode incriminá-lo.

    As desinteressantes tramas não se encostam muito, o que torna o filme uma jornada com duas narrativas fracas. Cada cena parece desconectada da anterior por alguma razão, como se fosse um programa de esquetes, com brutalidade gratuita em vez de risadas. O ápice disso é o elaborado assassinato de quatro supostos racistas, jamais explorados no filme. No meio do grupo, está Chester Benningham, vocalista do Linkin Park. Se não é uma cena interessante por seus próprios méritos, é curioso ver o cantor sendo torturado.

    Os efeitos especiais são uma piada de mau gosto. O 3D é ausente grande parte do tempo, entrando em ação quando ocasionalmente vísceras voam na direção da tela ou quando algum plano mais aberto exige alguma profundidade de campo. Mesmo assim, não é algo fundamental à narrativa. O sangue é claro demais e as vísceras não parecem realistas. Em um filme que se orgulha de mostrar a violência de perto, esses problemas são inaceitáveis.

    As armadilhas elaboradas por Hoffman são, em sua maioria, expressões megalomaníacas e completamente exageradas. Não há sutileza, virou rococó. Está ridículo. Um vilão de 007, em plena era Moore, olharia para algumas destas ferramentas e diria: “Até eu acho isso exagerado demais”, pouco antes de exigir 1 milhão de libras esterlinas da rainha usando um laser montado na lua.

    O filme é todo capenga, com muitos diálogos duros demais. Sem entregar surpresas ou a reviravolta final, basta dizer que o fim destinado pelos roteiristas à série nega ao espectador a catarse. Então o que resta nessa franquia? A violência farsesca pela violência farsesca? Não dá mais. Já vai tarde.

    POR: [Gerhard Brêda]

  • Regular

    Um parto de viagem

    | Todd Phillips

    Outro Se beber, não case era esperar demais de Todd Phillips, diretor que hoje senta no posto de "um dos melhores comediantes de Hollywood" por, honestamente, muito pouco. Além da comédia mais lucrativa de 2009, assina outros quatro filmes do gênero, estacionados no limite da mesmice: Escola de idiotas, Dias incríveis, Caindo na estrada e o remake de Starsky & Hutch - Justiça em dobro. Seu mais recente trabalho é o road movie másculo Um parto de viagem, sustentado por Robert Downey Jr. e Zach Galifianakis, esses sim, merecidamente, dois dos maiores da comédia contemporânea.

     

    Due date, no original, segue a jornada hercúlea de Peter Highman (Downey Jr.), um sujeito rico, estressado e caretão, que deve voltar a Los Angeles a tempo da cesárea de sua mulher. Seu problema atende pelo nome de Ethan Tremblay (Galifianakis), um gordinho maconheiro e over-simpático, que usa permanente no cabelo e quer ganhar a vida como ator em Hollywood. Atrás de seu andar pomposo pé ante pé, Tremblay deixa um rastro de destruição. A começar por arruinar sua viagem e a do papai to-be, que, sem lenço ou documento ou carteira, é obrigado a engolir o desprezo por Tremblay e aceitar uma carona em seu carro alugado. A bagagem extra na viagem — certamente a "metade" na referência à série Two and a half men — é um bulldog masturbador que atende a ordens pelo nome de Sonny.

     

    Entre o ponto de partida e o de chegada, explicitamente óbvios, Phillips recheia uma série de acontecimentos bizarros, desastres de proporções internacionais e explosões de veículos que deixariam Jason Statham com inveja. A comparação com Antes só do que mal acompanhado, de John Hughes, é imediata, mas aqui o veterano por certo plana milhas acima. É verdade que falta certa densidade na história, mesmo para uma comédia pastelona, mas Phillips consegue entregar honestamente algumas piadas. Do meio dos Estados Unidos para lá é que ficam faltando algumas. O fato é estranhamente compensado por certo envolvimento afetivo com os personagens do filme. Tremblay é tão pé no saco que, em certo momento, Um parto de viagem quase nos perde desde o início. Com o tempo, porém, o cafajeste barbudo consegue conquistar a todos — inclusa aí a plateia.

     

    A principal falha de Um parto de viagem é também seu maior trunfo — o elenco. Downey Jr. e Galifianakis trabalham muito bem, mas sozinhos. Os dois têm ótimo timing e espremem de seus personagens o que é possível, o que compensa, em parte, a total falta de química em cena, sobretudo no final espalhafatosamente feliz. Quando analisados fora da dupla, o personagem de Galafinakis se sustenta melhor, mesmo a comparação sendo com amado e idolatrado, salve, salve, Downey Jr. Tremblay, mais sensível que irritante, no fim das contas, é simplesmente excêntrico na medida perfeita para Galafinakis, que aqui fala (e bem) e mostra que é mais do que uma barba espessa hilariante. No fim, são duas horas divertidas, em certo nível nojentas, mas que valem a viagem.

     

     


    POR: [Marcella Huche]

  • Excelente

    Scott Pilgrim contra o mundo

    | Edar Wright

    A história é simples: um garoto conhece uma garota e se apaixona perdidamente. Sobre esse esqueleto, o canadense Brian Lee O’Malley criou a HQ Scott Pilgrim contra o mundo. Para dar substância à sua obra, O’Malley filtrou toda uma geração de cultura pop em suas páginas, temperando tudo com excelente timing de comédia. Em 2010, Edgar Wright, (infelizmente pouco) conhecido pela série de TV Spaced e pelos filmes Todo mundo quase morto e Chumbo grosso, adaptou a obra de O’Malley e, de certa forma, expandiu a homenagem à geração videogame. Scott Pilgrim contra o mundo é um filme visualmente espetacular, uma verdadeira carta de amor a quem cresceu nos anos 90.



    O filme conta a história de Scott Pilgrim (Michael Cera), um jovem adulto canadense vagabundo, que ocupa suas tardes tocando baixo na banda barulhenta Sex Bob-Omb com o amigo Stephen Stills e a ex-namorada Kim. Tudo muda para Scott quando conhece Ramona Flowers (Mary Elizabeth Winstead), uma estilosa americana que trabalha como entregadora da Amazon canadense. Para ficar com Ramona, Scott precisa enfrentar a temida Liga dos Ex-Namorados do Mal em confrontos épicos mano a mano.



    No começo do filme, Scott está namorando Knives Chau (Ellen Wong), uma colegial chinesa de 17 anos. A reação de outros personagens ao anúncio do namoro é hilariante: todos agem como se Pilgrim fosse a escória da sociedade, um canalha sem coração que usa e descarta as mulheres. Scott Pilgrim é um modelo novo de herói e Michael Cera conseguiu captar perfeitamente esse charme bobalhão, que vacila e falha, geralmente por preguiça e incompetência, não por mau-caratismo.



    Kieran Culkin vale uma menção honrosa no papel de Wallace, o colega de quarto gay de Scott. Sempre sarcástico e levemente lascivo, Wallace é um dos retratos menos estereotipado e mais sensível de um homem gay médio: sem afetações exageradas, levando uma performance construída em nuances.



    Se você leu a HQ, sabe o que esperar: Wright conseguiu equilibrar fidelidade visual com saídas rápidas de roteiro, algo similar ao que Zack Snyder fez em Watchmen. É possível discernir várias piadas tiradas diretamente das HQs – algumas intervenções estéticas até usam os traços de O’Malley. Wright, por outro lado, complementou a obra com referências inéditas, algumas impossíveis de serem traduzidas para o formato de quadrinhos. O trecho que simula um episódio de Seinfeld é uma das gags mais engraçadas do cinema recente, uma piada legitimamente americana com timing notavelmente britânico.



    As homenagens mais evidentes de Scott Pilgrim contra ao mundo são ao mundo dos videogames. Wright chegou a comentar em entrevistas que Shigeru Miyamoto, lendário criador de The legend of Zelda e Mario, viu alguns trechos do filme para aprovar músicas de Zelda. E aprovou. Alguns temas clássicos em gloriosos 8 ou 16 bits surgem nas caixas de som ocasionalmente, pontuando a ação, cheia de referências a games de luta. O visual do filme é único, com intervenções gráficas de onomatopeias, barras de vida, pontuações e boxes informativos. Parece confuso, mas a equipe do filme segurou tudo com clareza.



    A música é outro elemento fundamental de Scott Pilgrim contra o mundo. Uma referência clara é o Smashing Pumpkins (Scott usa a famosa camisa “ZERO”, de Billy Corgan e um dos atos do filme se chama Infinite sadness, referência clara ao disco Mellon Collie & Infinite Sadness), mas a trilha original para o filme é fantástica, composta por Nigel Godrich, produtor famoso por trabalhar com o Radiohead. Além da Sex Bob-Omb, na qual Scott toca baixo, outras bandas aparecem pelo filme, como Crash and the Boys e The Clash at Demonhead, cada uma com estilos próprios de composição. A batalha de Stephen Stills pelo sucesso da Sex Bob-Omb é o momento mais inspirador para aprendizes de rockstar desde a famosa cena com Tiny dancer no ônibus de turnê em Quase famosos.



    O público americano não entendeu Scott Pilgrim contra o mundo. Os homens acharam que era um romance de mulherzinha e as mulheres acharam que era um filme bobo de ação para homens-meninos e, por isso, o filme afundou nas bilheterias, destinado a virar cult, e chega no Brasil somente nos cinemas de São Paulo, depois de uma rápida temporada no Festival do Rio. Se você cresceu nos anos 90, seja com um joystick na mão ou não, assista ao filme. É o melhor retrato já feito sobre essa geração que abraçou a cultura pop como mantra, rock alternativo como música erudita e os videogames como esporte.

     

     


    POR: [Gerhard Brêda]

  • Regular

    Atração perigosa

    | Ben Affleck

    O título brasileiro do novo filme dirigido e protagonizado por Ben Affleck é difícil de engolir, até porque não se sustenta na tela. The town (A cidade), no original, descreve muito melhor o longa, que, tal qual um Sin city da vida, é muito mais sobre o cenário que sobre os personagens.



    Na trama, Affleck interpreta, de forma confiante - mas a anos luz da qualidade inquietante de seu irmão, Casey - Doug McRay, um descendente de irlandeses que mora em Boston e lidera uma gangue especializada em assaltos a bancos e carros fortes. Na gangue também está seu amigo de infância, James "Jem" Coughlin (Jeremy Renner, em sua habitual boa interpretação) e outros garotos do bairro. Depois de um assalto a banco que quase deu errado, obrigando os criminosos a levarem uma refém por algum tempo, a gerente Claire Keesey (Rebecca Hall, com um excelente visual inocente para o papel, com uma beleza não óbvia), os criminosos ficam cada vez mais na mira da polícia, o que acaba se agravando quando Doug engata um romance com Claire, que não sabe que ele era um dos assaltantes.



    O caso de síndrome de Estocolmo reverso que acontece no roteiro não é ruim, mas não é o foco do filme. Affleck filma os personagens, mas sempre deixa ao fundo o bairro de Charlestown, em Boston, sempre passeando, quando pode, pelo lugar. Os personagens têm seus dramas e é tudo adequado, mas o foco é a relação de aprisionamento que todos têm com a cidade, que produz criminosos geração após geração e tem até uma omertà (lei do silêncio) implícita. Quando McRay tenta sair, não faltam pessoas o ameaçando: toda vez que você tenta sair, eles te puxam de volta, já diria, de forma mais eloquente, Al Pacino como Michael Corleone.



    Enquanto o romance de Doug e Claire se desenvolve sem muitos percalços ou destaques, o filme apresenta algumas inconsistências gritantes. Os planos para os assaltos geralmente são fiascos, como uma versão descerebrada de Onze homens e um segredo e, mesmo quando a polícia deixa claro que está bufando nos cangotes de McRay e sua trupe, eles ignoram os rapazes de azul e marcham para mais crimes, cada vez mais ousados. Parece uma imprudência burra de um grupo que, como o filme deixa claro, é extremamente eficiente no que faz. 



    As cenas de ação de Atração perigosa são muito bem pensadas e filmadas. Affleck parece saber em qual ângulo dos becos colocar a câmera para passar uma sensação de urgência, mas não confusão, durante as perseguições. As armas têm impacto e berram furiosas ao terem os gatilhos apertados. O tiroteio final é simplesmente brilhante. Tudo parece bastante com o game Grand theft auto IV e, por vezes, falta o joystick na mão.



    Com personagens razoáveis, mas trama previsível, Atração perigosa passa longe de ser brilhante. Em seus melhores momentos, é impressionante, tem boas performances e faz pensar. Em seus piores, mostra uma galeria de personagens desinteressantes vagando por uma cidade que parece moldá-los em um exército de mafiosos sem o glamour dos carcamanos, a eficiência dos russos ou a disciplina dos japoneses. Pelo contrário, são apenas uns moleques irlandeses em um bairro imundo de Boston. O curioso é que isso ilustra tanto os pontos mais altos quanto os mais baixos do filme.

     


    POR: [Gerhard Brêda]

  • Muito Ruim

    Federal

    | Erik de Castro

    Pare tudo o que você está fazendo e vá assistir Federal. O filme é um dos mais relevantes para a compreensão do cinema nacional a