PASTICHE SEM CARISMA | LABORATÓRIO POP


GAME

16.08.2010 | 23:05

PASTICHE SEM CARISMA

Gerhard Brêda



Alguns games criam mecânicas que acabam virando tendências nos anos vindouros. Outros, se não inovam, são o pináculo de um gênero em um determinado momento, com jogabilidade polida à exaustão. Singularity não está em nenhum dos dois pólos. O game é um pastiche, filho inegável de sua geração de games de tiro em primeira pessoa, que copia desesperadamente jogos maiores e melhores que ele. A história é uma salada que ousa mergulhar em viagens no tempo, mas que acaba não fazendo muito sentido.

Na trama, o jogador encarna Nate Renko, um personagem sem rosto, sem personalidade e sem graça. Renko vai investigar a enigmática ilha de Katorga-12, que abrigava instalações soviéticas dedicadas a estudar o misterioso E99, um mineral radioativo com propriedades fascinantes.

Uma anomalia joga Renko no passado, nos anos 50, quando um incêndio destruía os laboratórios da ilha. O protagonista salva da morte certa o cientista Dr. Demichev e, na volta, encontra Katorga-12 bem diferente, com Demichev sendo um ditador que conquistou o mundo usando armas futuristas com E99. O game, então, se torna uma corrida para impedir Demichev. Sem spoilers, a trama não se segura e o final é fraquíssimo, tentando forçar uma personalidade que não existe em Renko. No geral, o game explora pouco as viagens no tempo, permitindo apenas saltos lineares para os anos 50.

A primeira e óbvia influência é de Bioshock. Assim como no FPS da 2K, o jogador conta com uma barra de vida e outra que regula o uso dos poderes. Sai a Eve de Bioshock, entram as recargas de E99, que abastece a miraculosa luva do personagem, o TMD, ou Time Manipulation Device. Com o aparato, é possível envelhecer e rejuvenescer objetos e inimigos (em dois pontos fixos e opostos na escala). É divertido envelhecer um inimigo até ele se tornar uma pilha de pó no chão, e o jogo faz questão de dar uma explicação para o fato do TMD só funcionar com algumas coisas. Não é uma explicação sensacional, mas pelo menos a Raven se deu ao trabalho.

Depois de sugar o máximo possível de Bioshock, inclusive com animações engraçadas e datadas, como as que ilustram as propagandas de Rapture, o game carrega sua metralhadora e atira para todos os lados. De Wolfenstein (o novo, não o clássico) a Halo, passando decididamente por Half life 2 com os mal implementados elementos gravitacionais do TMD. É uma salada que às vezes fica no ponto, às vezes passa dele.

Na mistura, entram batalhas contra chefes, mutantes, soldados comunistas dos anos 50 e modernos. O sistema de tiro não é dos piores. Há pouca variedade nas armas, mas algumas são interessantes, como o lança granadas com o explosivo teleguiado, o lançador de estacas explosivas e o Seeker, um rifle com tiro explosivo que pode ser manobrado pelo jogador. Os inimigos também se repetem mais do que deveriam, mas o sistema de impactos, especialmente humanos, é bem robusto. Um tiro tem o impacto devido, exceto com a pistola, que é uma das menos imponentes na história recente dos jogos.

Os gráficos, seguindo o bonde da história e jogabilidade, seguem o caminho mediano. Não são nenhuma atrocidade, mas apelam muito para o marrom sem vida e o laranja –característico do E99 – do que deveria. As armas não são exatamente criativas, nem os cenários, mas o efeito de rejuvenescer ou envelhecer coisas é legal – ao menos nas primeiras vezes, pois apenas uns sete objetos podem ser alterados com o TMD.

Singularity é uma tapeçaria disforme do que foram os games de tiro nos últimos anos. Em sua miríade de rostos, é possível contemplar tudo o que deu certo com os games de tiro (mecânicas de física, visual realista, armas divertidas e impactantes), e também tudo o que deu errado (enredos rocambolescos e sem carisma, visual amarronzado sem vida).  Singularity é uma colagem, um subproduto dessa era. E, no fim das contas, não é tão ruim assim. Pelo menos diverte ocasionalmente.


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