MULHERES NÃO ENTRAM | LABORATÓRIO POP


GAME

05.08.2010 | 00:14

MULHERES NÃO ENTRAM

Gerhard Brêda



Usando piruetas, mísseis, pulos cronometrados e tiros certeiros – além de alguma dose de paciência – alguns jogadores conseguiram completar 100% de Metroid, o clássico de 1986 para NES. Tudo parecia normal, até que o aventureiro espacial Samus Aran, durante o game todo coberto com sua armadura, revela-se uma mulher de biquíni. Desde então, o mundo conheceu a curvilínea Lara Croft, de Tomb raider, a interessante Faith, de Mirror’s edge, e a voluptuosa Bayonetta, do game homônimo, entre muitas outras. Mesmo assim, ex-funcionários da Activision dizem que a empresa não acha que um game vende se tiver uma garota como protagonista.

O Gamasutra noticia que a empresa até mesmo mudou personagens de games em desenvolvimento para evitar protagonistas do sexo feminino. Desde 2005, apenas jogos licenciados, como Barbie, tiveram mulheres no comando.

O site também diz que um game de 2007 chamado Black lotus, da Treyarch, contaria com uma protagonista, uma assassina asiática baseada na atriz Lucy Liu. O time estava empolgado com o projeto, mas a Activision, vendo títulos cheios de testosterona como Halo 3 e Modern warfare explodindo nas vendas, mandou a protagonista para o fogão. Um ex-funcionário diz que a publisher  não usa personagens femininos porque eles não vendem. Outro, mais diretamente, conta que receberam ordens específicas para se livrar da garota. Black Lotus hoje vive como True crime: Hong Kong, passando entre desenvolvedores e, aparentemente, personagens principais.

O ex-funcionário diz que isso é um problema constante na Activision: a cultura do desenvolvimento baseado em testes de foco. As fontes alegam que a publisher leva o retorno que recebe ao extremo, congelando a inovação e, por vezes, sacrificando a qualidade ao fazer exigências que consomem muito tempo, com o game prestes a ser lançado. Como resultado, os grupos de teste preferem mais do mesmo à inovação e a publisher parece surfar a mesma onda.

“A Activision não tem espaço para um game de mundo aberto com um estilo de filme de ação de Hong Kong e uma protagonista, porque este game não existe agora”, acusa uma fonte. “Eles têm espaço, no entanto, para um game de mundo aberto com um gangster no papel principal, que pode roubar carros e atirar em pessoas, mas vai ser em Hong Kong em vez de Liberty City”.  Como resultado disso, as vendas ditam o desenvolvimento. “Se a Activision não vir uma protagonista nos cinco games mais vendidos do ano, eles não vão usar uma”, diz outra fonte. A publisher usaria games como Wet e Bayonetta para provar seu ponto, de que protagonistas mulheres geram baixas vendas. A publisher é até acusada de usar testes de foco tendenciosos para gerar o resultado desejado.

A Activision negou todas as acusações. “A Activision respeita a visão criativa de seus times de desenvolvimento”, declarou a publisher, em nota. “A empresa não tem a política de ditar qual conteúdo os estúdios podem desenvolver nem disse para nenhum de seus estúdios que eles não podem desenvolver games com protagonistas mulheres. No que diz respeito a True crime: Hong Kong, a Activision não ditou o sexo do personagem principal. Como todas as empresas de games e de outras mídias, a Activision usa pesquisas de mercado para melhor entender o que os jogadores estão procurando”.

A Activision está em maus lençóis publicitários. A novela judicial com a Infinity Ward e as críticas constantes ao CEO da empresa, Bobby Kotick, colocam a publisher nos holofotes como a vilã da história. Estas acusações não fazem muitos favores à combalida imagem da empresa que, mesmo assim, se mantém como a maior do segmento.

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