09.08.2010 | 20:00
CAÇA-NÍQUEIS PARA AS CRIANÇAS
Thomas Schulze
Houve uma época em que a febre Pokémon era tão intensa que os fãs comprariam e jogariam com alegria qualquer game que a Nintendo disponibilizasse nas lojas com os monstrinhos de bolso na capa. Curiosamente, nesses tempos os gamers eram agraciados com spin-offs decentes como Pokémon snap! ou Pokémon stadium, o que apenas servia para tornar as criaturas ainda mais populares mundo afora.
Hoje, entretanto, os Pokémon já não gozam do mesmo prestígio, e ao invés de tentar atrair novos fãs com games de qualidade, a Creatures Inc. desenvolveu e colocou no mercado uma medíocre e completamente tediosa coleção de mini-games voltada exclusivamente para crianças, que apenas mina ainda mais a credibilidade da marca Pokémon.
Como evidenciado no título, em PokePark Wii: Pikachu’s adventure, o jogador controla o Pokémon Pikachu. Numa perspectiva de terceira pessoa, com o Wiimote segundo segurado na horizontal, a impressão inicial é de que se trata de um game de plataforma genérico desenvolvido às pressas. Isso seria ótimo comparado ao que o que o game realmente é. Não demora muito para Pikachu encontrar um parque. A boa notícia é que nele estão centenas de Pokémon. A má notícia é que todos eles estão lá para participar de mini-games preguiçosos.
Andar pelas áreas de jogo e encontrar os Pokémon é uma atividade agradável, especialmente porque os modelos estão caprichados e são facilmente reconhecíveis em suas adoráveis formas tridimensionais. Mas fazer turismo não basta para justificar a existência de um game, e logo é revelado que o objetivo de Pikachu é fazer amizade com o máximo possível de criaturas a fim de resolver os pequenos problemas que alguns monstrinhos enfrentam no parque.
Ficar amigo dos Pokémon normalmente consiste em um pequeno jogo de corrida no qual Pikachu deve perseguir e alcançar o monstro com que deseja se aliar. Mas ocasionalmente a perseguição dá lugar a uma trivia, uma simplória batalha, (que em nada lembra as lendárias batalhas das versões portáteis, se resumindo aqui a um patético jogo de esquiva) ou um pique-esconde pelo cenário. Difícil precisar qual a pior atividade.
A única utilidade real de fazer amizade com os Pokémons e poder utilizá-los nos minigames espalhados pelo parque, onde é possível fazer uso de suas habilidades específicas para melhorar sua performance. Pokémons velozes vão melhor nos mini-games de corrida, Pokémons voadores nas atividades aéreas, Pokémons aquáticos nas competições marinhas, e assim por diante.
Há desafios e scores específicos a serem batidos, mas dificilmente alguém vai jogar os 14 mini-games além do que for obrigado para terminar o game, até mesmo porque alguns deles chegam a exigir waggle, (sacudir o controle) como a competição de corrida, o que os torna especialmente cansativos. Em resumo, não há muita variedade de mini-games, e os que estão lá são incrivelmente chatos.
Para piorar, não há muito a se fazer no jogo além dos mini-games. É possível tirar fotos dos Pokémon e transferí-las para um cartão SD, mas não há qualquer recompensa ou sistema de avaliação de fotos, o que resume tal atividade a mero passatempo para fãs. Pelo menos os gráficos do game são decentes e a maioria dos cenários serve como fundo para boas fotos.
A jornada principal não chega a ser curta, durando seis ou sete horas para ser concluída, ou o dobro disso caso o jogador queira encontrar todos os Pokémon disponíveis. Mas uma vez encerrada, não há qualquer estímulo para se jogar novamente, especialmente porque não há qualquer espécie de multiplayer em PokePark, seja online ou offline. Um erro imperdoável, já que o Wii conta com uma infinidade de coletâneas de mini-games em sua biblioteca, quase todas com suporte a vários jogadores. É verdade que a maioria delas é tão ruim quanto PokePark, mas pra que sofer sozinho quando se pode sofrer com amigos?
PokePark Wii: Pikachu’s adventure é um game completamente descartável. Fãs de Pokémon devem continuar jogando felizes as ótimas versões portáteis. Fãs de mini-games devem continuar jogando felizes qualquer versão do divertidíssimo Mario party. No fim das contas, só mesmo os fãs muito jovens de Pokémon vão conseguir passar por cima de toda a mesmisse e falta de atrativos do game, e encontrar conforto em andar perto de seus Pokémon favoritos. Mas mesmo eles correm o risco de sentir um sono tão intenso que nem uma Pokéflute resolve.
*Foto: Divulgação
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