Por trás de robôs, um coração | LABORATÓRIO POP


GAME

20.07.2010 | 01:40

POR TRáS DE ROBôS, UM CORAçãO

Gerhard Brêda



Robôs gigantes que se transformam em outras coisas, como carros e aviões. O conceito de Transformers parecia feito para os videogames, mas a franquia, que teve seu ápice nos brinquedos e programas de TV dos anos 80, nunca chegou com força aos consoles. As adaptações dos filmes de Michael Bay passaram batidas, geralmente com críticas negativas, mas a High Moon Studios e a Activision viam o potencial da franquia. Transformers: War for Cybertron ensina a Bay que é possível, mesmo usando apenas robôs, fazer personagens humanos e embala tudo em um game de ação viciante, ainda que repetitivo até a alma. E o melhor de tudo: nem sinal de Shia LaBeouf.

A história de War for Cybertron se passa bem antes dos filmes, quando os Autobots e os Decepticons se digladiavam pelo controle do planeta Cybertron. O game explica como Optimus chegou ao status de líder dos Autobots e a razão pela qual os robôs saíram de seu planeta natal. Mesmo que não vá ganhar prêmios pelo brilhantismo, a história do game gruda o espectador até o fim, principalmente pelos personagens interessantes.

Do lado dos Decepticons, é fascinante a determinação e a ambição cega de Megatron, que quer conquistar o planeta a qualquer custo. Outro destaque é a relação entre o líder e Starscream, um de seus principais soldados. Starscream é um robô que se transforma em um caça e era, originalmente, um Autobot. A qualquer sinal de que Megatron está enfraquecido ou morto, Starscream se prontifica a dar um golpe de estado e a tomar a liderança dos Decepticons. Starscream é fascinante por sua ambição e, ao mesmo tempo, covardia.

Do lado dos Autobots, o sereno líder Optimus, dá o tom da excelente campanha, que mostra os robôs defendendo Cybertron com as últimas forças. Optimus tem autoridade, mas controla seus soldados como amigos ou companheiros de batalha. Logo na primeira missão, o robô (que se transforma em um caminhão) adota o arrogante recruta Bumblebee, um dos personagens mais famosos da franquia. Outros personagens fascinantes dão as caras, como o psicótico tanque de guerra Warpath e o confiável caça Jetfire.

Para os puristas com a mitologia, um alerta: War for Cybertron toma algumas – necessárias, a bem da verdade – licenças poéticas. Soundwave não vira mais um aparelho de som gigante, nem Megatron se transforma em uma pistola. Respectivamente, viram um veículo utilitário e um tanque de guerra.

Os gráficos são bons. Não são espetaculares e fascinantes, mas a atenção aos detalhes é fantástica. As animações de transformação entre a forma de robô e veículo são sensacionais e muito fluidas. Cybertron é retratado de uma forma compreensivelmente cinza e sem vida, mas os designers conseguiram passar a imagem de uma grande civilização em ruínas por causa de uma guerra. O design dos robôs tem seus altos e baixos. No geral, os Decepticons não têm muita graça nos dois formatos, salvo exceções como o quadradão Soundwave e até mesmo o chefão Megatron. Por outro lado, os Autobots são sensacionais e têm muito mais vida e personalidade.

A jogabilidade ganha muito com a licença Transformers. Caso não fossem robôs gigantes que podem virar veículos, a repetição e a simplicidade das mecânicas provavelmente arrastariam o game para o fundo do poço. War for Cybertron é controlado como o mais genérico dos jogos de tiro em terceira pessoa. Até as armas são recicladas com nomes pomposos: a submetralhadora vira um rifle de nêutrons, o lança-granadas, um morteiro de prótons e por aí vai. Há pouca variedade nos objetivos – geralmente são “vá do ponto A ao ponto B” - nos inimigos e nas armas. Ainda assim, o ritmo do jogo é frenético e fica difícil largar o controle, mesmo que as fases se repitam.

A campanha dos Autobots é infinitamente mais variada do que a dos Decepticons e, aliada aos personagens mais interessantes, é claramente o melhor momento do game. Infelizmente, para chegar lá, é preciso dar uma arrastada com Megatron e sua trupe – não que isso seja um grande sacrifício.

Por mais que seja divertido trocar tiros com robôs gigantes e depois virar um carro – e é muito divertido – nada supera as fases nas quais é possível controlar os Transformers voadores das duas facções. Do lado dos Decepticons, uma batalha confinada e claustrofóbica nos dutos de Cybertron, ao lado de Starscream e sua trupe. Com os Autobots, uma brilhante batalha espacial liderada por Jetfire.

O game permite multiplayer cooperativo, altamente recomendado, tendo em vista a inteligência artificial, que não é das mais brilhantes tanto em seus aliados quanto nos inimigos. O multiplayer competitivo do game se beneficia muito das diferentes classes e poderes dos robôs. A jogabilidade acelerada faz com que as partidas sejam frenéticas, mas as classes adicionam uma camada estratégica no game. No geral, o componente multiplayer de War for Cybertron complementa muito bem a parte para um jogador e, no caso do modo cooperativo, até melhora e muito a experiência.

War for Cybertron é o game definitivo de Transformers. Os robôs, mesmo que tenham passado por mudanças, mantêm a essência de suas versões do desenho animado oitentista: a ganância desenfreada de Megatron, a nobreza de Optimus Prime, a falta de caráter – e competência – de Starscream. A High Moon conseguiu montar um game que usa a licença a seu favor, dando um twist interessante em mecânicas cansadas dos jogos de ação. São máquinas, lasers, pistões e rodas dentadas, mas lá no fundo, embaixo do capô, Transformers: War for Cybertron tem coração.


Leia outras notícias sobre games

FORMULE