BABILÔNIA, ADEUS | LABORATÓRIO POP


MÚSICA

08.09.2010 | 18:49

BABILÔNIA, ADEUS

Ricardo Schott



Ser rastafari no Brasil não é das tarefas mais fáceis. A erva sagrada da religião é a maconha - e não é lá muito tranquilo convencer o guarda da esquina de que o uso da planta faz parte de um ritual. O plantio em casa, uma das bandeiras de quem luta pela descriminação da erva, também atrai olhares tortos. A banda de reggae carioca Ponto De Equilíbrio, que abraça a religião jamaicana seguida por Bob Marley - e a divulga nas letras de seu terceiro disco, Dia após dia lutando, que lança neste sábado (11) na Fundição Progresso, no Rio - segue em frente. Problemas como o enfrentado recentemente pelo baixista do grupo Pedro Caetano - confundido com traficante por plantar maconha para consumo próprio em casa, e preso - e a pouca compreensão, por parte das rádios, de sua sonoridade e sua temática roots são enfrentados com luta diária e muito trabalho. Algo que o nome do novo disco já deixa claro.

"O rastafari chegou em nossa junto com o reggae. Um não existe sem o outro. A marcação do reggae existe a batida do coração nayambing (som fetal, do coração materno). Ela é batida ancestral, tocada pelos rastas em cerimônias religiosas", diz o vocalista Helio Bentes, que, ao lado de Pedro, Andre Sampaio (guitarra), Marcio Sampaio (guitarra), Tiago Caetano (teclados), Lucas Kastrup (bateria) e Marcelo Campos (percussão), canta a filosofia em canções como Música de Jah e Odisseia na Babilônia. "É delicado falar disso, até porque o rastafari significa muito. É muita coisa. Mas basta dizer que somos rastas e que rastafari é uma ordem do bem sobre o mal. A melodia que está dentro de nossa música é rasta".

Além das músicas já citadas, Dia após dia lutando, flagra o grupo abraçando em faixas como Novo dia, Calor e Hipócritas, além das já citadas, a mesma temática revolucionária que marcou grande parte da obra de artistas como Bob Marley e Peter Tosh, só para ficar nos mais famosos. Para ajudar no clima, contam com convidados como Marcelo D2 (em Malandragem às avessas), Jorge Du Peixe, da Nação Zumbi (em Reggae de terreiro) e com dois nomes grandes do reggae jamaicano, Don Carlos (em Stay alive) e o grupo vocal The Congos (em Novo dia). Já em Santa Kaya, abordam dos usos medicinais, culturais e cerimoniais da maconha. Não falam abertamente do problema enfrentado pelo baixista na canção, mas o assunto vem logo à mente.

"Pedro ficou encarcerado 15 dias, injustamente, como traficante. Depois foi mudado para usuário, mas acabou tudo bem. A gente já tinha passado por problemas como esse. Somos uma banda que se posiciona contra o sistema capitalista. Mas a luta continua e estamos aí para falar sobre isso", lembra Bentes, carregando nas referências à religião. "Os rastas têm muito respeito pela planta, por ela colher energia da terra. Ela inclusive é chamada de ganja. O sistema tenta oprimir a gente de toda forma, mas se tivermos que bater de frente, vamos bater. Somos protegidos pela força do Deus altíssimo".

Dia após dia lutando marca a volta da banda para o meio independente, através do selo próprio Kilimanjaro.  Abre a janela, o anterior, foi gravado às próprias custas, com produção de Chico Neves, e acabou nas mãos da Warner. "Chegamos a assinar um contrato, mas não deu muito certo. Gravadora tem aquele negócio de pegar várias bandas e botar no mesmo padrão. Não dispensamos parcerias, mas somos diferentes". Inspirado ao extremo no som original jamaicano, o PdeE não dispensa letras sem refrão e músicas que podem passar dos seis minutos - num formato bem diferente do rádio atual. "Temos que fazer radio edit para algumas músicas. Mas nossa música não é muito aceita em rádio. Toca mais em programas específicos. Acaba sendo como Racionais MCs, uma banda conhecida pra caramba, mas que você não ouve em rádio. Até porque fala da realidade".

Com o disco nas lojas, é hora de pensar no show, que ainda vai ter participações de nomes como o DJ Marcelinho da Lua e o trio InNatura (dos ex-Natiruts Izabella, Bruno e Kiko) na abertura. Nem mesmo o som vacilante da Fundição Progresso assusta os rapazes do grupo, chegados a longos dubs e a namoros com os tons graves, como convém a uma banda de reggae. "A gente sempre tira o melhor", diz o vocalista.

Serviço:
Ponto de Equilíbrio - Fundição Progresso, Rua dos Arcos, 24, Centro (2262-1367). Às 22h (abertura da casa) e meia-noite (0h). R$ 40 (1º lote), R$ 50 (2º lote), R$ 60 (3º lote e no dia). Vendas online em www.fundicaoprogresso.com.br.

Foto: Divulgação

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