04.06.2010 | 23:29
"A MÚSICA NÃO MUDA AS PESSOAS"
Ricardo Schott, de Rio das Ostras
A chegada do baixista americano Ron Carter ao 8º Rio das Ostras Jazz & Blues Festival foi cercada de expectativas e tensões. Comentários davam conta de aborrecimentos do músico com a imprensa em São Paulo. No palco, no entanto, todo e qualquer problema, se é que existiu, desapareceu, em nome de um jazz tradicional, suingado, comandado pelo baixo acústico de Carter (que solava sem causar canseira nos ouvintes) e ritmado pela guitarra de Russell Malone e pelo piano de Mulgrew Miller. Sem bateria nem percussão - em alguns casos, Malone tratava de percutir os dedos nas cordas da guitarra para marcar o ritmo. Era o que fazia em canções autorais de Carter e em clássicos como My funny valentine, ambas executadas por um trio que, mesmo tocando na chamada Cidade do Jazz de Rio das Ostras, comportava-se como se estivesse na frente de um pequeno público.
"De onde vem minha inspiração?", indaga Carter, 73 anos, apontando o dedo para cima, em papo com o LABORATÓRIO POP, algumas horas antes da apresentação. "Lá do céu mesmo. Não sei nem citar os discos que eu mais gosto, nem os baixistas que mais me inspiraram. Até porque se eu esquecer de citar um, os outros vão ficar putos. Me sinto feliz ouvindo qualquer disco, há muitos baixistas bons por aí. Todos os artistas que me chamam para tocar me deixam feliz". Do alto da sua experiência, lamenta apenas já ter constatado algo grave. "A música não é capaz de mudar pessoas. Há muitos detalhes que passam na frente. Quem tem o controle remoto pode mudar o canal e ouvir outra coisa. Subo no palco e toco por duas horas, e consigo mudar as mentes das pessoas nesse período. Mas quando saio do palco tudo está na mesma. O Lula continua sendo o presidente de vocês", brinca.
A experiência de Carter não se restringe ao jazz - ele começou na infância, tocando música clássica no violoncelo. Até que uma mudança para Detroit, cidade segregada musicalmente (com os negros da soul music de um lado e os brancos do rock'n'roll no desdobre), forçou sua entrada no jazz. "Diziam que um afro-americano não podia tocar música clássica", recorda, sem ranço ou mágoa. Aos 18, já tocava jazz e trabalhava com artistas como Wes Montgomery ("se algum garoto aparecer daqui a 10 anos tocando guitarra como ele, já vai mudar a história da música", alegra-se), Thelonious Monk e Cannonball Adderley. E tocava na banda de Art Farmer, job que mantinha em 1963, ano em que foi convidado para os shows que mudariam sua vida. "Tocava com ele quando Miles Davis foi me procurar, dizendo que estava montando banda nova. E me perguntou se eu topava entrar com ele numa turnê de seis semanas. Disse que já tinha emprego, e que teria que falar com Farmer, que só me disse: 'Obrigado pelo respeito. Nos vemos em San Francisco'", lembra.
O tal grupo de Miles Davis incluía o líder no trompete, mais Carter no baixo, Herbie Hancock no piano, Wayne Shorter no sax e Tony Williams - este, com 17 anos - na bateria. Com tantas gravações e ensaios (Miles gravava furiosamente), se entendiam só de olhar um para o outro. "Mas tive muitas experiências assim depois disso. É meu trabalho", diz Carter, antes de repetir a frase mais três vezes. "E meu trabalho é fazer com que os outros percebam que eu pertenço àquele grupo. Posso ser um estranho à banda, mas nunca à música". De seu currículo, constam participações em discos de Tom Jobim (Stone flower), Hermeto Pascoal (a experimental estreia Hermeto, lançada em 1971 pelo selo americano Buddah) e sessões com Sivuca, Airto Moreira, Marcos Valle, Luiz Bonfá e outros brasileiros.
"A música brasileira é muito bonita, com acordes muito fáceis de se tocar. No disco do Tom Jobim, estranhei ser chamado, porque não sou baixista de bossa nova. Cheguei lá, me estenderam as partituras (faz um gesto como se olhasse papéis) e perguntei o que tinha que fazer. Me responderam: 'Ué, faça o que você sempre faz!'. E eu fiz", diz, rindo, Carter, que lembra também de um disco misterioso, com canções de Luiz Bonfá, do qual nunca soube o paradeiro. "Me convidaram para gravar num momento em que ele estava muito doente. Mas acho que esse disco nunca nem saiu".
Carter é tão apaixonado pelos tons graves que, para comemorar a última passagem de ano, fez um evento em casa convidando 13 baixistas, entre acústicos e elétricos. Uma orquestra de baixos? "Não, nada disso. Meu filho é chef de cozinha e fez um jantar para a gente. Apenas comemos", diz o jazzista. Que, na hora de subir ao palco, é a calma e a informalidade em pessoa. "Nada de nervosismo. Tenho medo só de dentista. Cada público tem sua peculiaridade: o do Japão só aplaude no fim, o de Nova York tem uma veneração, o de Los Angeles faz barulho o tempo todo... Mas cada um na sua. Meu negócio é fazer um show como quem conta uma história, que espero que as plateias ouçam". E, como faz questão de ressaltar, sempre acompanhado por um baixo acústico. "A última vez que me encomendaram um trabalho de baixo elétrico foi para um jingle, acho que da Coca-Cola, há uns 15 anos. Tinha uma época em que você não podia, nos EUA, tocar com baixo acústico, pediam que usássemos o elétrico. Mas faço questão de usar o acústico".
Foto: Fernanda Melonio
FORMULE
Postado Por CARLA FRIAS
05.06.2010 | 22:23
Ótima entrevista!

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