UM SENHOR BAILE | LABORATÓRIO POP


MÚSICA

14.11.2011 | 18:58

UM SENHOR BAILE

Ricardo Schott



O mundo dos estúdios é o que mais atrai o produtor e arranjador Lincoln Olivetti – a ponto dele ele ter mudado a cara da MPB e do pop nacional da virada dos anos 70 para os 80, fazendo arranjos para uma multidão que incluía Fagner, Rita Lee, Gilberto Gi, Zizi Possi, Gal Costa, A Turma do Balão Mágico, Tim Maia, Zé Ramalho, todo mundo. Mas os shows voltaram a atraí-lo – tanto que após uma apresentação no evento de música instrumental CopaFest, em outubro, retorna nesta terça (15) para um show no Solar de Botafogo, no Rio. Egresso direto da era do vinil – nunca lançou um CD com seu nome – ainda prepara, aos 57 anos, uma nova leva de canções para serem despejadas direto na internet.


“Não existe mais CD”, prega o músico, um misto de cientista com o Mestre dos Magos do desenho animado Caverna do Dragão, e que se faz acompanhar, na nova iniciativa baileira, por Kassin (baixo), Davi Moraes (guitarra), Cesinha (bateria), Donatinho (teclados), Marlon Sette, Lelei Gracindo, José Carlos Bigorna, Altair Martins, Diogo Gomes (metais) e Peninha (percussão). O lance agora, diz ele, é soltar tudo o que for fazendo em pequenos teasers, até cativar o público – seguindo uma tendência que ele, pai de uma conhecida DJ (Mary Olivetti)  já deve ter observado na produção de música eletrônica.


“Você vai vendendo faixa a faixa. Primeiro eu lanço a música com um minuto e meio, depois com dois minutos e meio... Daí o cara é obrigado a comprar. Vai salgando tudo e vai até parecendo outra música, né? Ganha uma cara de remix”, brinca Olivetti. Um cara que busca até hoje em meio aos novos nomes da música valores que tenham a mesma cara futurista que ele imprimiu aos sons nacionais de há trinta e poucos anos. “Quando acho, troco figurinhas, falo bastante”, diz ele, grande admirador de seu baixista Kassin como produtor. “É uma pessoa que, humildemente, está bombando. E que é até mais respeitado pela imprensa do que pelas gravadoras”.


Se esse disco sai logo? “São vários discos!”, sentencia o músico, que afirma ter umas “vinte músicas” que sobraram de sua parceria com o guitarrista e tecladista Robson Jorge (1954-1993), com quem gravou o disco que preenche boa parte dos shows que vem dando, Robson Jorge & Lincoln Olivetti (1982), dos hits instrumentais Aleluia, Jorgeia Corisco, Eva e Pret-a-porter, presentes no show ao lado de uma homenagem ao tecladista Ed Lincoln. E mais umas “quinhentas” solo. E ainda sobras de estúdio de vários nomes que gravaram com ele.


“Tenho todos os canais de voz de discos que gravei com a Sandra de Sá, muita coisa. Tenho demos minhas em cassete, com Paulo Braga na bateria”, afirma Olivetti, que tocou com Tim Maia em shows e é responsável por boa parte dos arranjos de Tim Maia disco club, disco de 1978 que tem Sossego – música na qual não chegou a trabalhar, já que Tim começara o disco com o maestro argentino Miguel Cidras, com quem protagonizou cenas de pugilato no estúdio.


“Tim me pedia alguma coisa e depois esquecia, daí eu fazia da minha maneira mesmo”, brinca o tecladista, que recentemente retrabalhou as fitas de Tim Maia Racional 3, com sobras dos dois discos da fase religiosa e “racional” do cantor. “Mas fazia como já estava delineado na cabeça dele, nem destoava”.


A expertise de Lincoln com os arranjos começou ainda na infância, em Nilópolis. Sim, como se afirma por aí, ele já tocava piano aos quatro anos, passava o dia ensaiando e aos 12 já era músico de baile. “Nem me lembro como eu conseguia tocar no baile sendo menor de idade, pergunta lá para os policiais que não me pegavam”, diverte-se. “Foi uma escola violenta, você tem que tocar igual ao disco. Mas sempre quis que fosse mais sentimento do que técnica”. Logo, montou um grupo de baile com seu nome, que tinha amigos como Sergio Herval (hoje no Roupa Nova, bateria) e até mesmo o futuro compositor Paulo Massadas – aquele, da dupla com Michael Sullivan.


“A gente tocava Humble Pie, I don’t need no doctor, e ele cantava igualzinho. Tinha a voz aguda igual à do (vocalista do) Led Zeppelin. Depois faltou um baixista e falei para ele: você vai tocar baixo. Só que ele tinha uma namorada, ficava vigiando ela nos shows e errava as cordas pra caralho", brinca. Fazia ensaios exaustivos, exigia dos músicos, mas, garante, nunca foi mandão ou autoritário. “Nunca gostei de liderar, falar alto. Sempre quis uma coisa de comum acordo. Então nem é liderança. Eu sempre fui quieto, de ficar observando como as pessoas faziam”.


A carreira de músico de estúdio já virava realidade nos anos 70 – em 1973, tocou violão de 12 cordas em O homem de Nazareth, hit gospel de Antonio Marcos, sob a batuta do então arranjador de Roberto Carlos, Chiquinho de Moraes. “Ele me disse que em cinco anos eu seria um grande arranjador. Imagina, eu queria ser como o Zé Roberto Bertrami (tecladista do Azymuth) e alugar instrumentos, só isso”.  A reviravolta veio em 1977, quando já contabilizava boas horas de estúdio e já possuía raros sintetizadores. Conheceu nas dependências da CBS (hoje Sony) um jovem guitarrista que tocara com Cassiano e Tim Maia, Robson Jorge, e passou a compor com ele, além de dividir projetos e sessões. Compôs para Wilson Simonal (Quando ele dormir, com Ronaldo Barcelos e Murano), trabalhou com Toni Bizarro – executivo da CBS que retomou a carreira artística – e Claudia Telles. E estourou no Brasil inteiro com o hit Black coco, composto por ele e Ronaldo, e gravado pelo grupo Painel de Controle – puro disco-rock. “Foi meu primeiro grande sucesso”, diz ele. O maior? “Não, o maior foi Amor perfeito, gravada por Roberto Carlos”, diz da música escrita por ele, Robson, Michael Sullivan e o pupilo Paulo Massadas – e posteriormente regravada até por Claudia Leitte.


O êxito o levou a outros sucessos e a uma assinatura que grudou até em músicas que não tiveram sua participação. Ainda que Cidras tenha feito o arranjo de Sossego, o estilo é associado ao de Lincoln. Realce, disco disco de Gilberto Gil (1979), teve sua participação apenas no single Não chore mais. O resto do álbum teve cordas, arranjos e corais comandados por Jerry Hey, do Earth, Wind & Fire – mas até bios de Gil o citam como responsável pelo resultado final. No começo dos anos 80, ultrapassou os 300 arranjos por ano – falava-se até em 365, um por dia.


“O quê? Só isso? Foi muito mais. Eles deixaram de contabilizar os arranjos independentes, as coisas que a gente fazia e ninguém usava. Isso aí ;é a média mínima até hoje”, espanta-se (e espanta os interlocutores) Lincoln, que passava os dias no estúdio e ainda fazia trabalhos para nomes que não chegaram a ser sucessos avassaladores, como o single Pura, da sensação soul-branquela Almir Ricardi, e seu posterior disco Festa funk, de 1984. Trabalhava em temas de novelas e ajudava a lançar nomes como o dançarino, ator e cantor Ronaldo Resedá, de temas como Kitsch Zona Sul e Plumas e paetês, da novela homônima (1980). Apesar do excesso de trabalho, ele garante que a qualidade da produção não caiu.

 

O excesso de músicas nas rádios gerou críticas – acusavam-no de pasteurizar a música brasileira, numa época em que se ligava o rádio e ouvia-se Lincoln o tempo todo, em hits como Festa no interior, de Gal Costa e Lança perfume, de Rita Lee. Isso sem falar em hits próprios, como o absoluto Rio Babilônia, de 1982, em parceria com Robson e da trilha do filme homônimo, de Neville de Almeida. E Lincoln com isso? “Nunca nem fiz isso que estou fazendo, que era dar entrevista. Mandava o Robson no meu lugar. Na verdade não era uma sacanagem minha, era porque ficava tudo muito pejorativo. Só falava pra eles irem se foder e eu ia pra puta que pariu. Ficava todo mundo feliz”, diz, gargalhando.
 

Acumularam-se também as lendas sobre o músico e seus hábitos de nunca dar entrevistas ou permitir ser fotografado. Tim Maia dizia seu estúdio ficava no “meio de um pântano”. Outros artistas diziam que o lugar não tinha nenhum tipo de luz natural. “Ué, mas era mesmo. Quanto mais você vê, menos ouve”, brinca Lincoln. “Tem folclore, mas alguma coisa pode ser verdade, sim”. Hoje, o estúdio, que já foi em Jacarepaguá, fica na Joatinga. Pode até ter mais luz e Lincoln pode estar topando falar mais, mas o ritmo de trabalho ainda é o mesmo. “Se pego seu disco para fazer, minha primeira função é virar seu psiquiatra. Quero saber o que você gosta de ouvir, como você toca. Se você fala uma bobagem qualquer, faço aquela bobagem virar uma marca para você. Cada um é cada um, não faço a mesma coisa para todo mundo”, diz ele, quase co-autor de músicas que ganharam sua cara, como Pai (Fábio Jr.) e Eu e meu gato (Rita Lee).

 

O boom do rock nacional, em 1982, tirou de Lincoln um arranjo crucial – o de Menina veneno, de Ritchie, que quase foi para ele, mas ficou debaixo dos dedos do tecladista Lauro Salazar. Passou a cuidar de gravações de nomes como Anne Duá – que gravou Indecente na trilha de Roque Santeiro, novela de 1985 – e  a tocar em discos de Tim Maia, Zé Ramalho (os arranjos do hit Mistérios da meia-noite são dele, assim como os do disco Opus visionário, de 1985), Jorge Ben e Roberto Carlos.
Aumentou sua coleção de gadgets musicais – um deles foi um tal de emulator, instrumento que executou em discos oitentistas de Jorge Ben e que é nada menos que o teclado sampler, anos antes de figurar em discos como Jesus não tem dentes no país dos banguelas, dos Titãs, de 1987. Recentemente, colaborou com nomes como Nando Reis, Engenheiros do Hawaii e Ed Motta. Suas músicas vêm sendo redescobertas por uma geração de DJs e até rappers – Thaíde, por exemplo, adora Pura. “Não tenho muito contato com esse pessoal, mas queria ter”, afirma.


Solar de Botafogo, Rua General Polidoro, 180, Botafogo, Rio. Terça (15), às 21h30. R$ 20 (meia), R$ 30 (os 100 primeiros) e R$ 40 (inteira).

Foto: Divulgação/Ramon Moreira

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Postado Por ZECA AZEVEDO

14.11.2011 | 22:44

Excelente entrevista com o legendário Lincoln Olivetti!



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