21.03.2011 | 13:56
DA RESINA E DA GOMA
Leandro Souto Maior
Os dois discos da série Tim Maia Racional, lançados em 1975 e 1976, nunca vão ser superiores em vendagens à discografia inicial de Tim Maia (1942-1998). Mas o culto aos discos tornou os dois volumes o prato principal da Coleção Tim Maia (Abril Cultural) que já está nas bancas de todo o Brasil, trazendo discos de quase todas as fases do cantor – e , para complementar, a grande novidade, o CD Tim Maia Racional 3, com músicas que sobraram da fase em que Tim se envolveu com a seita Universo em Desencanto, e que já haviam vazado na internet há alguns anos. O CD sai em maio - os dois primeiros da fase Racional já estão disponíveis. Para os três álbuns, a Vitória Régia, gravadora criada por Tim, associou-se à Sony Music.
O material do Racional 3 está diferente dos MP3 que vazaram – os fonogramas ganharam produção de Kassin e tratinhos do arranjador Lincoln Olivetti, que trabalhou com Tim em vários discos, além da presença de vários músicos que estavam nas sessões originais, como Paulinho Guitarra e Serginho Trombone. Pena que se trata de um disco que vem apenas como brinde para quem comprar toda a coleção nas bancas, mas pode ser que o material saia depois sob outra forma, já que o filho de Tim, Carmelo Maia, diz ao LABORATÓRIO POP ainda ter muitas raridades do cantor na ponta da agulha para serem lançadas. "É uma covardia eu ficar escutando isso aqui no meu quarto e não disponibilizar para as pessoas. Não vou guardar esse tesouro só para os meus filhos. Muitas novidades vão pintar”, diz o herdeiro do cantor, hoje com 35 anos e criado em meio à mania de Tim com a seita – bebê ainda, chegou a posar para fotos de família com roupinhas de criança Racional.
LABORATÓRIO POP: Como foi feita a seleção dos títulos da coleção do Tim Maia que está nas bancas?
CARMELO MAIA: O legado do meu pai é cheio de entraves juridicos. A coleção foi feita em cima do que é possivel colocar no mercado. Se eu pudesse colocar a discografia completa, seria um prazer, até porque essa herança não é minha. Ela é nossa, é do Brasil. Mas acho que a coleção das bancas tem um número de volumes considerável.
Tem muita coisa para sair ainda…
Sim, tem muita coisa para tirar do Tim Maia ainda, parece um baú sem fundo. Tenho muito material inédito, como gravações que foram achadas em Nova York na década de 60, no período que ele morou lá. É uma covardia eu ficar escutando isso aqui no meu quarto e não disponibilizar para as pessoas. Não vou guardar esse tesouro só para os meus filhos. Muitas novidades vão pintar. Existe uma história que até hoje eu procuro saber se é verdade ou não: dizem que meu pai, quando estava na Philips (hoje Universal), foi ao André Midani (então presidente da gravadora) pedir um aumento. O Midani falou: "aumento, não posso te dar, mas qual é o seu sonho?". Meu pai disse que o sonho dele era gravar com a banda de James Brown. E o Midani o teria mandado para os Estados Unidos para gravar, mas só Jesus sabe onde estão essas gravações. Meu pai já se foi e não tenho mais como perguntar a ele, só correr atrás disso. Além disso, tem muito material inédito com o Lincoln Olivetti, fitas com a voz do Tim que dá para fazer um disco do c… Tem também uma música inédita que ele gravou com o Celso Blues Boy, chamada A colheita.
Como surgiu a ideia de lançar esses discos do Tim nas bancas?
A Abril e a Sony me procuraram com a ideia. O Tim é um artista de ponta, um mito, um gênio, daqueles que não é todo dia que nasce. Hoje somos carentes de artistas desse nivel. Às vezes querem comprar direitos de alguma de suas músicas ou de algum disco a preço de banana. E eu tenho que seguir os mandamentos Maia: eles têm que pagar o que esse material vale.
Hoje há dois comerciais na televisão com músicas do Tim Maia. Isso dá dinheiro?
Quando meu pai era vivo, o dinheiro para fins publicitários era algo interesssante. Hoje, nem tanto, mas claro que ajuda. Eu tenho que ficar por dentro de qualquer projeto que envolva suas músicas. Herdei 400 processos dele. Quando eu tinha 16 anos, ele me emancipou para eu fazer parte do contrato judicial de sua empresa. Eu era adolescente, sem a menor noção de nada, não imaginava a função que o destino me reservava.
E ele tem pelo menos uns 20 sucessos que todos querem gravar… É um legado lucrativo?
Olha, a procura para gravar suas músicas é muito grande... O Ras Bernardo estava lançando um disco independente, assim como aconteceu com o Claudio Zoli, e queriam inserir músicas do meu pai. Mas quando se trata de selo independente, não tem como eu saber de quanto é a prensagem. Então, há muitos pedidos negados. Sofro uma fiscalização imensa, porque meu pai deixou um caminhão de dívidas, e todo o dinheiro é depositado no espólio. Não posso liberar algo gratuitamente porque tenho filho para criar.
E aquela história do David Byrne ter tentado lançar uma coletânea do Tim Maia no exterior?
Ele queria pagar um preço irrisório pelas faixas. Pensou que aqui fosse uma selva, e se esqueceu que as coisas mudaram. Eu tenho amigos lá fora e soube que ele acabou lançando. Ele não conhece a fama do meu pai. Comprei a coletânea na Alemanha e mandei uma notificação judicial a ele, que não entendeu nada. Eu vou no inferno pra defender a marca e o nome do meu pai! O Byrne chegou ao cúmulo de pegar o dominio internacional Tim Maia ponto com.
Acabou de sair a caixa Tim Universal Maia, com os discos das fases Polydor (de 1970 a 1973, e mais dois em 1976 e 1980) e Lança (selo independente ligado à antiga PolyGram, hoje Universal, pelo qual Tim gravou em 1983 e 1984). Você foi procurado para este lançamento?
Não tive acesso a nada. Sei que eles lançaram, autorizei, e só. O projeto da Abril é muito maior. O da Universal tem um DVD, mas este novo tem um tem CD inédito. São propostas diferentes, apesar de ser o mesmo artista.
O Racional 1 saiu pela Trama em CD em 2007, e na época anunciaram que sairia o 2. O que houve?
A Trama nunca cumpriu o contrato e jamais me prestou contas. Isso inviabilizou o Racional 2 com a gravadora. A Sony sempre namorou o Racional 2, e logo depois veio a descoberta da master do Racional 3. A Sony chamou a galera da época, Paulinho Guitarra, Serginho Trombone, para gravar de novo. O Racional 3 que vazou na internet não tem nada a ver com os novos arranjos, é uma covardia escutar essas seis músicas inéditas como ficaram agora, que por si só valem a coleção inteira das bancas.
E ainda tem o Lincoln Olivetti, que vai participar dessas novas versões do Racional 3…
Qualquer projeto do meu pai é igual à Seleção Brasileira: entram apenas os melhores. Meu pai escolhia a dedo seus musicos. O Lincoln, para mim, é o melhor arranjador e maestro que existe, e também é um grande amigo. Eu fiz questão que ele fosse o arranjador deste projeto. Ele ficou muito empolgado.
Chegou a ler o livro que Nelson Motta escreveu sobre seu pai (Vale tudo - O som e a fúria de Tim Maia)?
O pior para mim foi ler o início da carreira. Meu pai nunca gostou muito de falar sobre esse período. Foi quando que ele mais sofreu. Eu pouco sabia dessa fase. Como o Nelson tem o talento da escrita, ele traduz para o leitor de maneira gostosa. Além de advogado, também sou ator, faço teatro, e cada vez que lia cada texto do Nelson era como se eu incorporasse o personagem do meu pai. A vida do meu pai sempre foi pública, ele nunca teve papas na lingua. Gostei do livro, sou um cara tranquilo, não me incomodei nem com a inclusão de uma foto da secretária do meu pai, com quem eu briguei judicialmente. Uma semana antes de ele morrer, ele disse que queria mandá-la embora. Não deu tempo. Logo em seguida, ela entrou na justiça para ser a inventarista do espólio.
E ainda tem esse filme da vida do Tim, com Duani fazendo seu pai. Você foi procurado sobre isso?
Sim, estou sabendo que a Alice Braga vai fazer o papel da minha mãe. Mas ainda não estou muito por dentro. Gostaria de acompanhar o filme, sou ator, curto muito cinema. É uma maneira legal de resgatar a história do meu pai. A vida dele daria para fazer vários filmes. Ele morreu por excesso de talento e de criação.
Fale um pouco de sua família…
Tenho dois filhos, Telmo, de 5 anos, e o Miguel, de 3, que é a versão branca do meu pai no sentido da loucura, do artista mesmo. O Miguel é completamente descompensado. Eu tenho que colocá-lo para ser artista, ele é muito engraçado. Ano passado, fui chamado na escola pela psicóloga. Já estou levando ele aos estúdios, para que ele comece a conhecer o universo onde o avô trabalhava. Minha mãe entrou com um processo na justiça pedindo uma pensão de R$ 5.200. Ela me abandonou com 40 dias e só a reencontrei agora.
Você se dá bem com seu primo Ed Motta?
Estou um pouco chateado com ele. Um dia, no (programa da Rede Globo) Altas Horas ele foi lançar um disco e não se falou do Tim Maia. No final, disse: "queria agradecer a você (Serginho Groisman, o apresentador) e ao público porque hoje foi lindo, foi um dia sem Tim Maia". Eu acho que ele deveria ser o primeiro a trazer o meu pai a público. Ele reclama daquele carma, daquela sombra. Se eu fosse ele, diria "imito mesmo o Tim". Ele foi muito infeliz. Ele tem que se lembrar que não está falando do Tim Maia, e sim do Sebastião, que é meu pai e tio dele.
E sua formação musical?
Sempre gostei de trompete e toco de ouvido. Foi um dos primeiros instrumentos que meu pai me deu, eu tinha uns 5 anos. Era aluno de colégio de freiras onde tinha uma banda e a gente fazia concertos. Aprendi a tocar assim. Mas meu tesão mesmo é o teatro. O nome do Tim abre portas para mim, mas eu nunca pedi pra entrar em uma novela. Faço escolar de teatro e vou estrear em julho uma peça. Estudo artes cênicas desde os 18 anos. Estou escrevendo uma peça de teatro que fala da loucura, o título é Ninguém de perto é normal. Esse ano também vai sair um musical sobre o meu pai, com produção do Sandro Chaim e do Miguel Falabella. Tem muita coisa acontecendo sobre o Tim, e nem tem nenhuma data redonda para celebrar. É acaso, nada sobre o Tim tem que ser redondo, com o Tim nunca foi nada certinho, né?
Foto: Reprodução
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