VÉRTICES DISTORCIDOS | LABORATÓRIO POP


MÚSICA

14.03.2011 | 12:56

VÉRTICES DISTORCIDOS

Gerhard Brêda



Na aurora dos anos 2000, já distante do assustador espectro do bug do milênio, o mundo se debatia ao som de Limp Bizkit, Korn e outras bandas de nu metal. Subitamente, quatro moleques deliberadamente bagunçados, magrelos e ouvindo doses cavalares de rock dos anos 70 surgiram em 2001 com uma tal de Last nite e chacoalharam o mundo com o disco Is this it. Estes “salvadores do rock” da vez lançaram dois discos (Room on fire, de 2003, e First impressions of Earth, de 2006) até entrarem em um hiato que acabou em 2011, com Angles. Pouca gente esperava que o Strokes fizesse o mesmo impacto que fez há 10 anos. Não fez, o rock provavelmente está sendo salvo por uma banda britânica que ninguém conhece. Menos gente ainda, no entanto, esperava um disco de synth-rock com os dois pés, polainas, mullets e ombreiras fincados nos anos 80.


Angles é um experimento esquisito do Strokes que consegue ter uma unidade palpável, mas ainda assim, soa como uma obra de uma banda quebrada. Pela primeira vez o vocalista Julian Casablancas se afastou das composições e o resto da banda fez suas contribuições, em canções colaborativas. O resultado mascara as habituais guitarrinhas espertas dos Strokes em camadas de sintetizadores, algumas batidas eletrônicas aqui e ali e uma ou outra semi virtuose que Nick Valensi contraiu em First impressions of Earth. A banda soa coesa, as composições fazem sentido entre si, mas Casablancas acaba entrando esquisito em alguns momentos. Por um lado, é interessante ver o cantor saindo um pouco de sua zona de conforto, por outro, suas linhas vocais acabam soando, por vezes, desinteressadas e deslocadas. O cantor gravou suas linhas de voz separado da banda e isso acaba ficando evidente aqui e ali.


O que importa são as composições e o Strokes conseguiu criar algo totalmente diferente do que fazia, mas ainda com elementos familiares. Machu Picchu abre de forma brilhante o disco, com guitarras ardidas e afiadíssimas e Casablancas em grande forma. Under cover of darkness, o primeiro single do disco, entra depois e segura o nível no alto, com o estilo mais próximo do que seria esperado de um disco da banda, ainda que com uns riffs esquisitos e tempos peculiares.


Two kinds of happiness é gloriosamente esquisita, com direito a beats reverberados e um solo que é uma lambada plugada no pedal de distorção. You’re so right é mecânica e estranha, diferente de absolutamente tudo o que o Strokes fez na carreira. Na faixa há um quê de The Vines, há música eletrônica e uma das linhas vocais mais estranhas de Casablancas, que desde a distorção lo-fi usada em Is this it, segurava um pouco nas modulações vocais.


Taken for a fool e Games formam uma dobradinha insossa, com algumas boas linhas de baixo aqui, guitarras bacanas acolá, mas nada de mais, provavelmente as faixas mais fracas da história da banda. Call me back, com sua levada “bossa nova de lounge gringo” é muito mais interessante e funciona como uma Ask me anything do disco. Gratisfaction é um rock adolescente e descompromissado, com alguns bons riffs e um refrão dançante, um contraste com Metabolism, uma faixa mais sombria, arrastada e com um solo cortante.  O disco fecha com a incrível baladinha Life is simple under the moonlight, uma das melhores da carreira do Strokes e um dos refrões mais explosivos do disco.


Faixa a faixa, quando comparado aos discos anteriores, Angles é o pior da carreira do Strokes, mas conceitualmente é um disco muito mais interessante que First impressions of Earth, um disco com músicas excepcionais, mas o foco de uma criança de 7 anos com TDAH. Dez anos depois de destrincharem os anos 70 com Is this it, os Strokes, trintões, casados, com filhos – embora ainda deliberadamente bagunçados e magrelos – filtram os anos 80 em seus pedais de distorção. Nem sempre funciona, mas é raro ver uma banda expressar tão claramente uma evolução e uma vontade de mudar, sem abandonar tudo o que fez. Se você acha que isso não é Strokes o bastante, se Casablancas devia voltar ao comando, se você acha que os anos 80 são ridículos, são apenas pontos de vista. Ângulos, portanto.


Foto: Divulgação

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