16.03.2011 | 10:01
AUSTRALIANOS EMPOLGADOS
Ricardo Schott*
Com duas turnês pelo Brasil nos anos 90 e um punhado de hits por aqui (Come anytime, Out that door, 1.000 miles away), a banda australiana Hoodoo Gurus faz a alegria dos surfistas há mais de 30 anos com uma estranha mescla de canções ensolaradas e letras reflexivas - e por vezes, depressivas e críticas, unidas a uma base entre o punk e o rock dos anos 60 que acabou por ganhar o rótulo de surf music, extensivo a conterrâneos como Australian Crawl, Gang Gajang e Spy Vs Spy. Muitas de suas músicas tocaram bastante no rádio no Brasil - e apareciam bastante na MTV, quando a estação começou a fazer sucesso - mas seus discos sempre atrasaram para chegar aqui, ainda mais em CD. Lançado em novembro do ano passado, Purity of essence, nono disco de estúdio do grupo, chega ao Brasil só agora, pela Som Livre. O single da vez é Crackin up.
Tendo em sua formação o carecão Dave Faulkner (vocais, guitarra e autoria de quase todas as músicas), Brad Shepherd (guitarra solo e ocasionais composições e vocais), Rick Grossman (baixo) e Mark Kingsmill (bateria), os HG fizeram sucesso mundial há duas décadas, mas acabaram por encerrar atividades após gravar Blue cave (1996). Voltaram a reboque de um contrato (zicado) com a EMI australiana e o disco Mach schau (2004). Hoje estão em selo próprio, Virtual Label. Da Austrália, onde vive até hoje ("vários amigos deixaram o país e foram para Nova York, e me orgulho de ser daqui e morar aqui", exulta), Faulkner, 54 anos, fala ao LABORATÓRIO POP e revela que resolveu encerrar as atividades da banda por temer que os Gurus terminassem brigados, ou que nenhuma gravadora quisesse mais o grupo, ou qualquer dessas desgraças que acometem bandas. Felizmente, não só isso não aconteceu como os HG voltaram animados para novas turnês. "Queremos voltar ao Brasil!", garante o cantor.
LABORATÓRIO POP: Purity of essence traz 1.000 miles away como faixa bônus - essa música, que é um hit de 1991 (do disco Kinky), ficou famosa recentemente no Brasil por estar sendo usada como jingle de um comercial de carro. É uma canção da qual você gosta?
Dave Faulkner: Olha, tem uma série de músicas minhas das quais não gosto, e essa definitivamente não é uma delas. Um monte de gente me fala que é sua música favorita de todas que eu fiz.
Como ela foi escrita?
Nem lembro exatamente o que fazia quando a escrevi - se demorou, se foi rápido - mas lembro o motivo de tê-la escrito. Quis expressar meu constante dilema entre ter saudades de uma vida estável, mas reconhecendo que sou impaciente e inquieto demais para optar por uma coisa só. De alguma maneira, sou um pouco solitário, não gosto de ser resposável por outras pessoas. Agora, tem um paradoxo nisso aí, porque estou na mesma banda por mais de 30 anos e nesse tempo todo estive bem consciente de minhas responsabilidades com a banda, incluindo gente que trabalha conosco e, importantíssimo, os fãs. Essa canção fala da minha personalidade conflituosa em relação a isso. Uma espécie de temperamento mercurial, inconstante.
Vocês tocaram em alguns shows recentes uma música da época do The Victims, a banda punk que você tinha antes do Hoodoo Gurus, Television addict. Fale um pouco da banda.
Na verdade não a tocarmos regularmente, acho que foram só umas quatro vezes. Tocamos quando a plateia pede. Rolou um par de meses atrás durante nosso show, depois que alguém gritou pedindo a música. Comecei a tocar sozinho só para satisfazer essa pessoa que pediu a canção, mas o resto da banda geralmente vem junto. Os Victims eram uma banda que montei com James Baker, que foi o primeiro baterista dos Gurus, em 1977. Gravamos só esse single e um EP de cinco músicas.
Com três décadas de trabalho, qual a receita para não perder a essência da pureza? Acredita que ela ainda esteja lá hoje com vocês?
Não perdemos nossa essência original mesmo, ela ainda está lá. Seja para o bem ou para o mal, não mudamos nossa filosofia ou nossa maneira de abordar o trabalho. Claro que rolaram algums mudanças, é como naquela música de Joni Mitchell Both sides now, "alguma coisa se perdeu e alguma coisa foi ganha todos os dias". Eu odiaria ser o tipo de cara que fica preso a um só lugar artístico, ou preso a qualquer outra coisa na vida…
Você critica a exploração da religião em músicas como Gospel train e a nova I hope you're happy… Qual sua relação com a religião?
Fui criado na igreja católica, mas virei ateu quando estava na universidade. E assim estou até hoje. Acredito que há uma dimensão metafísica para a existência, mas não acredito que essa dimensão - e isso na falta de uma palavra melhor - seja feita de fadas, goblins ou anjos. A maioria das religiões é só um negócio, cheio de cara cínicos no topo e que nem sequer acreditam em seus dogmas. Para elas é só um produto para explorar pessoas e exercer o poder. Claro que tem um monte de pessoas fazendo coisas boas em nome da religião, não nego isso. Sou mais contra a hipocrisia, o fanatismo e os mentirosos que usam não apenas a religião, como também a política ou qualquer outra coisa que só sirva a seus próprios interesses.
Falando nisso, Only in America, de Purity…, é uma crítica ácida aos EUA. Como vê o país hoje?
É uma sociedade maravilhosa e terrível ao mesmo tempo. Tenho muitos amigos que estão no mesmo estágio que eu e se mudaram para Nova York, mas estou orgulhoso de não tê-lo feito nunca. Tenho orgulho de ser australiano e estou feliz de viver aqui. Digo na letra o mesmo que muitos americanos falam. América: ame-a ou odeie-a, você ainda vai ter que lidar com ela.
Afinal, por que vocês deram um tempo em 1998?
Naquela época eu estava cansado de fazer turnês e não estava certo sobre se queria mesmo escrever mais um disco dos Hoodoo Gurus. Eu freqüentemente também pensava sobre como a banda iria acabar. Será que acabaríamos brigados, lutando uns com os outros? Ou que as pessoas perderiam o interesse na gente? Ou que as gravadoras simplesmente não iriam mais querer gravar a gente? Bom, não aconteceu nada disso, mas senti que Blue cave seria um grande disco para encerrar nossa trajetória e que a banda acabaria no auge em vez de entrar em declínio. Não consigo fazer outro disco se não estiver 100% comprometido. Mas poucos anos depois fiz canções que vi que só poderiam fazer parte de um disco dos HG e reformamos a banda.
Vocês assinaram, ao voltar, um contrato com a EMI e lançaram só um disco, Mach schau. Por que o contrato com a gravadora não deu certo?
Na real, o selo inteiro, virtualmente, deu errado. A EMI Australia entrou numa reestruturação drástica depois de a multinacional ser vendida para um magnata dos shopping centers na Europa. A maioria das pessoas com as quais trabalhamos lá foi despedida ou transferiu-se para outras companhias. Daí decidimos sair fora.
Os discos dos HG são compostos quase na totalidade de músicas suas, mas sempre há uma ou duas escritas por Brad Shepherd (guitarra). Como isso é combinado?
Não é combinado, apenas escolhemos as músicas das quais gostamos. Na real, Brad é um guitarrista melhor do que eu e eu sou um compositor melhor do que ele. Mas a minha maneira de tocar e sua maneira de compor são partes importantes para a banda e sua personalidade. Algo que explica o motivo pelo qual ele não faz a maioria das músicas e eu não faço a maior parte das guitarras, eu diria.
E sobre os shows que vocês deram no Brasil nos anos 90? Quais são suas memórias?
Amamos ambas as nossas tours no Brasil: as pessoas, a cultura, a comida era ótima. Foi tudo bem animador para nós e adoraríamos ter tudo isso de novo. Por uma série de razões nunca conseguimos voltar. Mas um dia desses...
Aqui o som de vocês é mais conhecido como surf music. Você curte o esporte? Há uma relação entre HG e o surf?
Nenhum de nós surfa, mas amamos ir à praia. Vivo em Bondi Beach, em Sydney, e você nem imagina quantos brasileiros têm aqui na minha vizinhança, morando por aqui. No começo, nós tínhamos um grande número de fãs surfistas. Começamos a fazer sucesso na Califórnia porque um punhado de surf movies australianos estavam usando nossas canções. Daí a comunidade de surfistas passou a nos ouvir.
Foto: Divulgação
* colaborou Tatiana Wise
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