17.04.2011 | 19:20
A ÚLTIMA DAS INDEPENDENTES
No fim de semana do Record Store Day - dia, nos EUA, em que as pequenas lojas de discos fazem promoções, ofertas e vendem lançamentos exclusivos - uma notícia triste pegou de surpresa os moradores de Belfast, na Irlanda do Norte. A loja Good Vibrations, especializada em álbuns independentes (e também um importante selo local) está fechando suas portas após 32 anos de história. O jornal britânico The Independent lembra que a loja conseguiu sobreviver a barras pesadas como os conflitos na Irlanda do Norte, mas sucumbiu às mudanças no mercado. "Ela foi uma vítima do big business, da nova tecnologia, da recessão", escreve o jornalista David McKittrick, correspondente do jornal na Irlanda.
Criada por um ex-hippie chamado Terri Hooley, a loja é tida como instituição musical local - voltada, contraditoriamente, para o punk rock. Hooley, 63, tem um passado complexo., Jovem aínda, chegou a sair no tapa com ninguém menos que John Lennon, quando soube que o ex-Beatle havia falado algo em favor do Exército Republicano Irlandês. Com reputação de homem que não espera, sai fazendo, pôs nas lojas discos que se tornaram clássicos, como o EP Teenage kicks, dos punks dos Undertones - a canção-título, tida como hino punk, era uma das favoritas do mitológico DJ John Peel (1939-2004). Hoje, Hooley acha que o mercado não comporta mais atitudes como essas. "O negócio vai mal, está inacreditavelmente lerdo", afirma, pesaroso.
Vocalista do grupo Snow Patrol, Gary Lightbody revela que a Good Vibes (como a loja costuma ser chamada) foi um fenômeno em Belfast, ainda mais na época dos conflitos. "Era a antítese do que acontecia na época, uma luz na escuridão. Ninguém fazia o que eles faziam". Um punk veterano - e não identificado - lembra que "a loja era a única coisa que refletia a cultura jovem. Não havia absolutamente nada em Belfast".
As instalações da loja sempre foram uma atração à parte: ao contrário dos ambientes comuns a lojas visitadas por colecionadores, a Good Vibrations procurou sempre primar pelo conforto e pela organização - e pela limpeza, fundamental para manter alguma ordem naquele mundo de CDs, cassettes e LPs. Nos interiores, nitroglicerina pura: jovens de todas as religiões se uniam por lá, em época de intolerência religiosa brava. Os grupos paramilitares sabiam bem disso, tanto que Hooley chegou a ser ameaçado por alguns deles - que queriam dinheiro para protegê-lo. Certa vez, perdeu toda a sua coleção particular após um incêndio criminoso numa de suas lojas. Ele simplesmente foi em frente e começou tudo de novo.
"Não posso acreditar que fizemos todas essas coisas, nem no que isso significou para todas essas pessoas. Se havia algum lugar no mundo que precisava do punk rock, esse lugar era Belfast. O punk, aqui, era a única força de união", lembra Hooley. "Era a primeira vez, desde o começo dos conflitos, em que rapazes protestantes e católicos se uniam no centro da cidade. E aí não importava qual era sua religião, ou se seu cabelo era rosa, laranja ou verde. A partir do momento em que você se assumia como sendo punk, esse era o fator de união".
Apesar do fim, que está próximo, há pelo menos a esperança de que a memória da loja seja preservada. Um filme baseado na autobiografia de Hooley, Hooleygan: music, mayhem, good vibrations, está programado para começar a ser produzido no fim do ano.
Foto: Reprodução
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