IMPROVISOS EM JOÃO PESSOA | LABORATÓRIO POP


MÚSICA

16.05.2010 | 17:41

IMPROVISOS EM JOÃO PESSOA

Gerhard Brêda



Para uma banda mandar muito bem em músicas puramente instrumentais, precisa de alguma coisa. Algum diferencial. Não basta remover o vocal e transitar pelos cansados ganchos imortalizados em anos de música pop. Entocados em João Pessoa (PB), o Ubella Preta sabe bem disso. Por isso mesmo, nas músicas do EP Água de Jamaica, a banda, formada por David Neves (controller, PC, guitarra), Felipe Nicolensis (baixo e pedais) e CH Malves (bateria), experimenta como se não houvesse amanhã. É uma viagem.

Em músicas como Vela de 7 dias, a guitarra grita, melancólica, submetida aos pedais de Neves. Por outras faixas de Água de Jamaica, é possível notar as linhas experimentais. Engana-se, no entanto, quem pensa que baixo e bateria simplesmente seguram a onda. “Queremos experimentar com o som, mas não apenas o da guitarra”, explica CH. No Ubella Preta, o baixo e a bateria por vezes conduzem - mas os graves não param quietos e a bateria não marca um manjado 4/4. Viajando em grooves, os dois se separam e se encontram em batidas com tempo quebrado e escalas tortas.

Na lista de músicas do EP, uma chama a atenção pelo nome pitoresco: Savana Grosmman, o velho. “Essa música nasceu de uma colagem de jams que estávamos fazendo. Depois de gravada, fizemos uma audição e ela pareceu um mini-épico, com mudanças de clima, movimento, uma trajetória sendo contada. Colocamos isso na trajetória existencial do velho Savana”, explica CH. E quem é o tal Savana? Não existe. “O nome remete à paisagem e Grosmman era o sobrenome de um personagem de uma HQ que eu estava lendo no dia”.

“Fazemos música por causa da possibilidade de anexar várias informações nela”, declara CH. “A música instrumental está saindo da gaveta novamente. O ouvinte está assimilando melhor seu formato, sabendo aproveitar as sensações, os climas”.

A música do Ubella Preta é realmente construída em climas. Em alguns momentos, conta com tantos efeitos que parece uma espécie de música eletrônica, mas com tons low-tech. Em segundos, as batidas se transformam, riffs elaborados preenchem o fundo das composições e a banda abraça o jazz, afaga o rock e manda os bytes e bits às favas, pouco antes de trazê-los de volta. Para CH, a música instrumental completa seu sentido apenas quando encontra um ouvinte que se propõe a interpretá-la. “É um estado genérico da música, onde a nossa interpretação de compositor é só um pontapé inicial. O ouvinte que incita o jogo”, diz CH. “A interpretação da música instrumental comporta todos os significados vocais que estamos acostumados. A possibilidade de falar sobre coisas ou contar uma história é a mesma, mas o interlocutor tem que estar atento para observar isso”.

A banda aposta na distribuição massiva de sua música. Para isso, até liberou o EP Água de Jamaica para download em sua página do MySpace. E não para por aí. “Vamos produzir cópias em CD e fita K7. Hoje em dia, preservar a música em uma mídia só não vale a pena”, avalia CH. “O som de fato é fácil de conseguir, mas o desejo pelo souvinir, pelo objeto físico, ainda é muito relevante. Além disso, a textura do som nessas mídias muda e, para quem tem ouvido bom para isso, é bacana ter todas estas versões”.

Mesmo tendo um som tão elaborado e experimental, o Ubella Preta está em casa na cena paraibana. “O cenário aqui é experimental. O cenário profissional da música aqui é feito de tentativas e erros”, diz CH. “A música instrumental aqui é bem digerida, desde o histórico em orquestras, até a experimentação livre”.

O processo de gravação do EP foi bastante rápido e a banda cogita lançar outro em breve, antes de lançar um disco full-lenght , que pode sair em vinil. “Gravamos o EP em um único dia”, revela CH. “O Haley Artur, da banda Burro Morto, decidiu fazer um selo e nos convidou pra participar. Como a galera tem um estúdio legal, pudemos trabalhar à vontade na finalização. O som ficou como queríamos. Mas o plano agora é tocar e fazer as pessoas se interessarem pelo show, pelo divertimento que ele gera”.

"Savana Grossman, o velho" - Ubella Preta:

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Postado Por THOMAS FREITAS

16.05.2010 | 19:31

Essa galera aí massa!!! Vale a pena