31.08.2010 | 03:56
BRAVO MUNDO NOVO
Ricardo Schott
Produtor, dono do selo MZA e homem de disco há várias décadas, Marco Mazzola está mais interessado hoje em desvendar os mistérios da música digital - um mercado que cresce a cada ano e que, faz questão de frisar a cada momento, serve como um espelho maior do que o do rádio para se medir o sucesso de uma canção. Encerradas nesta terça (31) as inscrições para o Primeiro Prêmio de Música Digital (cuja cerimônia acontece em 23 de novembro no Teatro Oi Casa Grande, na Zona Sul carioca), começa a contar os dias para descobrir quais são, no voto dos especialistas e nos dados das gravadoras, os grandes hits da era do mp3 e dos truetones, sempre levando em conta as vendas de arquivos. E se sente impulsionado a isso não apenas pela adesão imediata de uma série de artistas (a lista de nomes que apoia o prêmio com depoimentos vai de novatos a medalhões), como pelo recente fato de bandas como o Black Eyed Peas terem batido recordes de downloads legais. Ainda que seja possível baixar as canções do grupo sem gastar um só centavo.
Além dos prêmios por quantidade de downloads e pelo voto popular, a premiação ainda contempla o reconhecimento digital - apoiando empresas e artistas engajados na venda de conteúdos musicais pela internet ou celular. O download gratuito, fomentado por uma série de artistas, é que passa um pouco longe disso. E é uma realidade que tende a mudar, como enfatiza o produtor. "Muitos artistas que dão suas músicas de graça na web vão passar a pensar melhor depois do prêmio", acredita ele, cuja conversa com o LABORATÓRIO POP você lê abaixo.
LABORATÓRIO POP: Como você teve a ideia de fazer esse prêmio?
Mazzola: Pensei nisso em 2007, quando vi que a pirataria dominava compeltamente o mercado. E comecei a ver que muitos artistas falavam: "ah, coloquei minha música na internet, teve tantos acessos e tal...". Bom, existe um meio para divulgar música, um veículo, que é a internet. Minha preocupação naquele momento - que foi logo quando escrevi minha autobiografia (Ouvindo estrelas, de 2007, Ed. Planeta) - era ver que o futuro era a internet, que em alguns anos não vai existir nada que não seja através disso. Fui pesquisar essa história, ver os artistas que estavam tento tantos downloads... E vi que isso era um perigo, já que tudo poderia ser disponibilizado de graça. E os autores, os compositores? Imagina ninguém ganhar nada?
E a música não podia parar...
Sim. Comecei a pensar numa solução. Vi pesquisas, soube que, na Inglaterra, só 40% da música era física. Comecei a ver dados da indústia, que eram mínimos. De 2007 a 2008, quando eu fiz essa pesquisa, me alertou o fato de que o mercado cresceu 1089%. De 2009 para 2009 vi que cresceu mais de 159%. Não vai parar, pensei. Fui vendo canais de distribuição de música... Em 2009 ofereci o projeto às empresas. Todas acharam genial, mas ninguém quis abraçar. Era uma coisa de início. A Oi Futuro e a Coca-Cola (patrocinadoras) acreditaram e eu comecei a fazer. Fiz duas coletivas. Tinha que chancelar esse prêmio, não daria para ser igual a todos os que têm por aí. Fui à ABPD (Associação Brasileira dos Produtores de Discos), ABMI (Associação Brasleira da Música Independente), ABER (Associação Brasileira de Editoras Reunidas), ABEM (Associação Brasileira dos Editores de Música), todos os que trabalham com música. E todos me deram autorização para chancelar o prêmio com a participação deles. Comecei a trabalhar e pensei: bom, precisamos de transparência. Para ter isso, eu, com medo de que as gravadoras pudessem querer manipular os números, fiz um acordo com a Nielsen - maior empresa de auditoria do mundo. Eu não poderia pagá-los, mas entraram nessa comigo e me deram os números auditados. Montei um conselho, toda a estrutura do prêmio. Inclusive, a minha companhia, a MZA, tem lançamentos, mas não inscrevi nenhuma música nossa. Tenho muita música vendida na internet, mas não inscrevi. Não quero passar pela situação de um artista da minha gravadora vir a ser nominado. A própria Nielsen disse que eu não iria poder manipular, mas eu quis evitar constrangimentos.
O prêmio tem um voto popular, inclusive...
Temos. Eu acredito que aí é que vai aparecer gente nova. O intuito desse prêmio, quando eu criei e bolei, era mostrar pessoas novas. Gente que as pessoas não saibam de onde estão vindo. Hoje em dia, ninguém quer mais uma gravadora. Todo mundo faz seu disco, faz seu show, faz seu blog e vende seus CDs nos shows. E ganha dinheiro. Essa turma é que quero fazer com que o público conheça.
Recentemente, os Black Eyed Peas conseguiram chegar a seis milhões de downloads legais da música I gotta feeling e até agradeceram aos fãs que baixaram a música legalmente. Como você vê a adesão dos artistas de hoje ao download legal? Isso tem rolado?
Qualquer artista que você falar aí já aderiu. Mostramos depoimentos de alguns deles na coletiva, tínhamos 30 e agora já temos 85 para servir de conteúdo. Jota Quest, Frejat, NX Zero, Capital Inicial, todos aderiram. Todos estão sentindo que a música brasileira precisa de um segmento diferenciado que não é esse que está aí. Que precisava de um prêmio como esse.
E a atitude de artistas consagrados como Leoni, que colocam suas músicas para baixar de graça na internet?
No fundo, é um meio para divulgar o trabalho dele. Nada mais justo, já que ele canta, é autor das músicas, é dono do fonograma... Ele faz o que quiser com a música dele. Mas acho que é um tiro no pé. Você vê que os Black Eyed Peas agradecem aos próprios fãs por baixarem música legalmente - e eles ganham também legalmente, as gravadoras... Não quero fazer nenhum tipo de comparação entre o Leoni e o Black Eyed Peas, mas acho que o Leoni, depois desse prêmio, vai pensar duas vezes antes de fazer isso. E tanto ele quanto muitas outras pessoas.
Você acha mesmo que o que toca na rádio hoje é medíocre, como saiu atribuído a você numa entrevista? Como você vê o ambiente do rádio para a música nos dias de hoje?
A música em rádio hoje é totalmente manipulada. Foi isso que destruiu as gravadoras. Elas acharam que o filão era esse: botar na rádio e pagar para tocar. E muitas vezes a qualidade do que tocava na rádio não dava consistência, não dava longevidade ao trabalho. Nem falo de todos os artistas, porque tem vários nomes que fazem seu trabalho maravilhosamente bem nas rádios. Mas tem muita coisa ruim, ruim mesmo, que toca porque paga. O digital não tem isso. Não tem ninguém que controle. As pessoas que entram na internet, vão lá e compram. É aí que eu vou saber quem são os artistas novos. Hoje há bandas que sabem trabalhar melhor com isso, como o Skank, que dão na abertura do show uma raspadinha para eles saberem qual a música que o público quer ouvir no bis. Eles próprios falam no depoimento deles que se não houvesse a internet, seria dificil.
E a MZA, como vai?
Bom, acabamos de lançar, depois de três anos, um documentário sobre a vida do Martinho da Vila, Filosofia de vida. Vamos fazer um sobre a história da Margareth Menezes. Estou fazedo um CD de Natal, que é algo que todo mundo me cobrava, e que tem Alcione, Jorge Vercillo, Fernanda Takai. Deixei todo mundo à vontade, para que fizessem o que quisessem. Vamos ter projetos do Rock In Rio, estou trabalhando nos duetos entre artistas brasileiros e portugueses que aconteceram no festival, já que no Rock In Rio Lisboa tem um palco que tem esses encontros. Teve um dueto do Luis Represas, compositor português, com a Margareth Menezes, que está no YouTube e você precisa ver a quantidade de acessos. E isso sem ir para a rádio. É a internet! Como é que pode?
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